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Mãe do Carmelo
Letra e música: Frei Petrônio de Miranda, O. Carm
Mãe do Carmelo, pra onde vais, Virgem do Carmo, onde estais. / Ensina a seguir Jesus, ensina encontrar a paz (bis)
1- Na Ordem, Terceira do Carmo, vamos juntos evangelizar, / Senhora do Escapulário, vem logo nos ajudar (bis)
2- No mês, da Flor Carmelo, a Novena vamos rezar. / julho é carmelitano, com o Cristo vamos encontrar (bis).
3- Com, Madalena de Pazzi, e Tito Brandsma, vamos louvar. / Com Teresona e João da Cruz, para o Monte vamos caminhar (bis)
4- Não me fale, em devoção, e para os pobres, os olhos fechar. / O Carmelo é compaixão, e vidas sempre salvar (bis)
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Frei Carlos Mesters, O. Carm
Naquele século XII, época da origem da Família Carmelitana, havia muitos escapulários. Um deles era o escapulário do Carmo. O escapulário era uma espécie de manto ou avental, sinal de serviço. Era usado pelos camponeses de um determinado lugar ou fazenda, para expressar sua pertença à família do dono daquele lugar. A veste do escapulário era um sinal visível da família, a que eles estavam ligados ou agregados. Conferia identidade às pessoas e as integrava num determinado grupo social ou comunidade.
O escapulário era expressão da garantia de proteção que os camponeses recebiam do dono do lugar (feudo ou fazenda) e da sua esposa, chamada a “Senhora do Lugar”. Era expressão também do obséquio ou serviço que eles deviam prestar ao fazendeiro e à “Senhora do Lugar”.
Os primeiros carmelitas, porém, abandonaram o seu feudo na Europa e foram para a Terra de Jesus, para o Monte Carmelo. Queriam viver em obséquio de outro dono, Jesus; e de outra Senhora do Lugar, Maria, a Mãe de Jesus. O Escapulário do Carmo é a expressão visível deste novo jeito de viver o Evangelho. Manto de proteção e de compromisso.
O símbolo do Escapulário acentua os dois aspectos fundamentais da vida Carmelitana: a nossa devoção para com Maria, a mãe de Jesus, e a proteção da parte dela para conosco.
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O Papa autorizou a promulgação de seis decretos do Dicastério das Causas dos Santos. Os mártires de Santander e o patriarca libanês Hoyek serão beatificados. O missionário salesiano Constantino Vendrame, o Carmelita Descalço da República de Camarões Jean Thierry, a religiosa espanhola María Ana Alberdi Echezarreta e o irmão leigo capuchinho frei Nazareno de Pula se tornam Veneráveis.
Oferecer a própria vida pelas vocações
O frei Jean-Thierry, Carmelita Descalço camaronês do Menino Jesus e da Paixão, que faleceu aos 23 anos em Legnano, Itália, em 2005, vítima de um tumor ósseo no joelho, torna-se Venerável. "Tanta luz, tanta luz... Como Jesus é belo!". Estas foram suas últimas palavras antes de morrer. Uma vida marcada por forte devoção mariana, oração constante do Terço e uma vida impelida pelo desejo de ser outro Cristo para os outros. Nascido em 1982, sua vocação surgiu muito cedo, aos 8 ou 9 anos, graças a um encontro com um missionário Oblato de Maria Imaculada em Camarões. Em 2003, foi acolhido na família dos Carmelitas Descalços. No ano seguinte, descobriu que estava doente e teve a perna amputada. Seus confrades o transferiram para a Itália para tratamento, mas pouco pôde ser feito. Foi feito um pedido de profissão religiosa "in articulo mortis" e, em 8 de dezembro de 2005, Jean-Thierry vestiu o hábito carmelita e fez sua profissão solene. Em seguida, pediu que rezassem não por sua recuperação, mas pelas vocações, pelas quais ofereceu sua vida. Faleceu em 5 de janeiro de 2006. Fonte: https://www.vaticannews.va
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Dom Frei Vital Wilderink O. Carm (*30/11/1931 + 11/06/2014).
Esta ternura que decore da descoberta do Absoluto, em nós, deve transformar-se poço inesgotável de consciência e de liberdade. Isto tem consequências e aplicação para nossa vocação religiosa e carmelita. A nossa vocação carmelitana nunca pode ser um anexo à nossa vida humana e cristã. A vocação surgida num momento histórico vai ser integrada à minha própria vida humana e cristã. Uma separação entre as duas desfaz a mensagem da nossa vida para os outros.
A nossa vida fraterna está intimamente ligada à vivência do Absoluto. O absoluto deve ser algo presente na minha vida, porque sem esta presença não há possibilidade de ternura e a perspectiva do futuro seria fruto de uma imaginação. Tudo se torna abstrato. Quando a nossa Regra diz que devemos viver em obséquio de Jesus Cristo, supõe uma presença que aconteceu na história.
E há tantas afirmações na Bíblia que confirmam esta presença: “(Jo 15, 5 ). “Tudo foi feito por meio dele, e nada do que foi feito, foi feito sem ele. “(Jo 1,3 ) Não tenhamos pudor para aplicar isso também à própria vida, às capacidades que a gente em e inclusive à nossa realidade humana com todas as potencialidades e riquezas que nela existe. “ Tudo foi feito por meio de...” Apliquemos isso às nossas realizações, ao bem que eventualmente fazemos e espalhamos ao nosso redor. “ Tudo foi feito por ele” “ E a Palavra, o Verbo se fez carne” (Jo 1, 14 ). É um fato do passado, do tempo em que aconteceu, mas é um fato que permanece presente e é um presente que eu posso abraçar.
O Absoluto está presente como um destino que é iniciativa , que é graça. O destino presente é Jesus Cristo. E se o homem conhece Jesus Cristo, acontece nele a ternura, a segurança, a alegria.
Às vezes encontramos pessoas tão simples, mas que têm essa ternura que brota do conhecimento do Absoluto em Jesus Cristo. Fora da consciência da presença de Jesus Cristo pode haver riso, pode haver risada, mas não pode haver alegria. É o que dizia São Paulo: “ Alegrai-vos no Senhor, eu insisto, alegrai-vos. O senhor está perto” (Fl 4, 4 ). E não é simplesmente a alegria de um dia bonito que a gente tem, quando levanta de manhã e o sol brilha. Sem excluir isto, não é isto. É algo permanente.
“ A vida eterna é esta: que eles conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro e àquele que enviaste, Jesus Cristo”... (Jo. 17, 3 ) Jesus, pouco antes de começar a sua agonia no Horto das Oliveiras, dizia: “ Continuo a dizer estas coisas para que eles possuam toda a minha alegria” (Jo 17, 13 ). E mesmo sendo pecadores – e com a gente descobre que é pecador! – a alegria continua nossa herança. É a alegria do perdão. A dor pelo pecado já é o início da alegria.
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FREI LOURENÇO DA RESSURREIÇÃO, OCD
Nicolau Herman (Lourenço da Ressurreição), nasceu em 1614, em Hériménil, Lorena (actual região do mesmo nome do Nordeste Francês), numa família profundamente cristã.
Rosto de: Lourenço da Ressurreição
Há pessoas que nos dizem muito. Se calhar, não dizem nada ao resto do mundo, mas para nós, elas são fonte de inspiração. Num post anterior, já tinha partilhado convosco a minha admiração pelo irmão universal, o Beato Carlos de Foucauld...hoje, apresento-vos um irmão carmelita, Lourenço da Ressurreição, que experimentou a Presença de Deus na vida do dia a dia. Ele fez dos pequenos atos e pensamentos quotidianos um encontro com o seu e meu Senhor.
Aos 18 anos, num dia de Inverno, olhando a natureza despojada, pensando que dentro de pouco tempo as árvores desfolhadas voltariam a florescer, Nicolau é iluminado por uma evidência e uma simplicidade imediatas, percebendo que na base desse processo anual, existe um Ser pessoal, inteligente e cheio de amor. Então, a sua fé em Deus se personifica, recebendo essa graça da Providência e do poder de Deus, que admitirá mais tarde, nunca se ter apagado de sua alma.
Este mesmo ano, a Lorena era ocupada pela França, e o Duque Carlos IV, expulso do seu país, juntou tropas para reconquistar as suas terras. Nicolau alistou-se no exército do Duque de Lorena. Nessa Guerra de Trinta Anos, tristemente célebre pela crueldade desumana, os soldados não recuavam diante de pilhagens ou qualquer género de violência. Mais tarde, Nicolau lastimará o seu passado, deplorando os seus pecados diante de Deus. Se ignoramos naquilo que consistiam verdadeiramente, o que é certo é que a precedente graça tinha desaparecido da sua vida. Duas vezes se encontrará diante da morte; finalmente uma ferida o obrigará a deixar as armas aos 21 anos.
O tempo da cura para o corpo, foi-o também para a alma; e a experiência vivida aos 18 anos voltou à tona. Então resolveu entregar-se a Deus e mudar a conduta passada. Adoptou algum tempo a vida de eremita com outro companheiro. Mas, desconcertado ao ver que ele passava da alegria à tristeza, da paz à tribulação, do fervor à ausência de devoção, não perseverou neste caminho. Foi então para Paris onde foi mordomo na casa do senhor Fieubert, onde ele dirá ter sido “um pesadão que quebrava tudo.”
É aí que o Convento dos Carmelitas da rua Vaugirard (hoje, Instituto Católico) começou a atraí-lo; e mais, um dos seus tios era da Ordem. Nicolau decide aos 26 anos pedir a entrada como irmão converso (não sacerdote), e tomou por nome Irmão Lourenço da Ressurreição. Lourenço era o nome do santo patrono da sua paróquia natal; Ressurreição lhe recordara talvez o renascimento da árvore despojada a quando dos seus 18 anos.
Primeiro, foi cozinheiro ao longo de 15 anos, depois sapateiro do seu convento; após dez anos de penosa caminhada, num sentimento doloroso por causa dos seus pecados, um acto de abandono determinante o liberta, e pouco a pouco, faz-o encontrar o seu próprio caminho espiritual: viver o trabalho como tempo de oração, as tristezas, como as alegrias, na “Presença de Deus”; transformando todas as suas ocupações à “maneira de pequenas conversas com Deus, sem prever, como calhar…sem necessidade de delicadezas, estar com bondade e simplicidade.” O único método da vida espiritual do Irmão Lourenço foi de certo modo o exercício da Presença de Deus que consistiu em “agradar e acostumar-se na divina companhia, detendo-se amorosamente com Ele em todo o tempo.” Assim, a alma é conduzida “insensivelmente a este simples olhar, a esta visão amorosa de Deus em tudo, que é a mais santa e mais eficaz maneira de oração.” “Na via de Deus, os pensamentos são tidos em conta como pouco, o amor faz tudo.” O encanto do Irmão Lourenço atrai numerosas pessoas que lhe vem pedir conselhos: é assim que as suas cartas ou notas dados oralmente chegaram até nós.
No início de 1691, o Irmão Lourenço adoece. Como o seu mal aumentava, deram-lhe o Sacramento dos Enfermos. A um religioso que lhe perguntara o que ele fazia e com que ocupava o seu espírito, ele respondeu: “Faço o que farei na eternidade, bendigo a Deus, louvo a Deus, adoro e amo-O de todo o coração, eis o nosso trabalho, meus irmãos, adorar a Deus e amá-l’O, sem se preocupar do resto.” Depois, com a paz e a tranquilidade de alguém que adormece, o Irmão Lourenço morre em 12 de Fevereiro de 1691, aos 77 anos.
Pouco tempo depois, o abade José de Beaufort, vigário geral do cardeal de Noailles, e amigo do carmelita sapateiro ao longo de um quarto de século, fez conhecer a mensagem de Lourenço em duas obras biográficas que, em 1991, foram publicadas numa edição crítica. Selado com o selo da simplicidade e da verdade, essa mensagem não envelheceu em três séculos.
A prática da Presença de Deus, como maneira orante, aconselhada pelo Irmão Lourenço, valeu-lhe uma irradiação inter-confessional. A sua espiritualidade do dever de estado faz com que todos os estados de vida nele se encontrem. Se a sua insistência sobre as virtudes teologais, fé, esperança e caridade, lembram os ensinamentos de São João da Cruz, a locução de Lourenço denuncia uma familiaridade com Santa Teresa de Jesus, recordando em particular a “oração recolhida, de meditação”. Enfim, o quietismo não teve nenhuma influência nele: o seu abandono confiante inscreve-se na colaboração da alma à obra divina, e, a ascese como meio de dispor o corpo e o espírito ao encontro do Deus vivo.
Tradução da biografia de Lourenço da Ressurreição - Site do Carmelo de França
Ensinamentos do Irmão Lourenço da Ressurreição - Carmelita do século XVII
“A prática mais santa e mais necessária na vida espiritual é a Presença de Deus. É agradar e acostumar-se na divina companhia, detendo-se amorosamente com Ele em todo o tempo, em todos os momentos, sem regras nem medida, sobretudo na hora da tentação, da tristeza, da aridez, do desgosto e mesmo da infidelidade e do pecado.”
“Devemos durante o nosso trabalho e as outras ações, até durante as nossas leituras e redações, mesmo espirituais, e digo mais: durante as nossas devoções exteriores e orações vocais, parar algum tempo, o mais frequente que possamos, para adorar a Deus no fundo do nosso coração, saboreá-Lo de passagem, fortuitamente. Porque sabeis que Deus está presente diante de vós durante as vossas ações, que Ele está no fundo e no centro da vossa alma, porque não cessar ao menos de tempo a tempo as vossas ocupações exteriores, e mesmo as vossas orações vocais, para adorá-Lo interiormente, louvá-Lo, suplicá-Lo, oferecer-Lhe o vosso coração e agradecer-Lhe? Que mais pode haver de mais agradável a Deus do que deixar assim, inúmeras vezes ao dia, todas as criaturas, para se retirar e adorá-Lo no seu interior…para gozar um só instante o Criador? Pois assim destrói-se o amor-próprio, que não pode senão sobreviver no meio das criaturas, de que estes regressos interiores a Deus nos livram insensivelmente!”
“Será conveniente para aqueles que iniciam esta prática, de formular interiormente algumas palavras, como: ‘Meu Deus, sou todo vosso’; ‘Deus de amor, amo-Vos de todo o meu coração’; ‘Senhor, conformai-me ao vosso Coração’ ou qualquer outra palavra que o amor produzirá na hora.”
“Pela Presença de Deus e por este olhar interior, a alma familiariza-se com Deus de tal maneira que ela passa quase todo o seu tempo em actos contínuos de amor, de adoração, de contrição, de confiança, de acção de graças, de oferenda, de súplica e das mais excelentes virtudes. Às vezes, até chega a ser um único acto que não acaba mais, porque a alma está sempre num exercício contínuo desta divina Presença.“
“A presença de Deus é a vida e o alimento da alma, que se pode alcançar com a graça de Deus.”
CONVERSAS COM O IRMÃO LOURENÇO DA RESSURREIÇÃO
Registradas por Monsenhor Joseph de Beaufort
PRIMEIRA CONVERSA
3 de Agosto de 1666
Encontrei o Irmão Lourenço pela primeira vez, e ele me disse que, em sua conversão, quando tinha dezoito anos e ainda estava no mundo, Deus lhe havia concedido extraordinária graça. Certo dia de inverno, ao contemplar urna árvore despida de todas as folhas, ocorreu-lhe que essas folhas apareceriam de novo antes que se passasse muito tempo, seguidas de flores e frutos. Isso lhe deu tão penetrante visão da providência e do poder de Deus que o impacto produzido jamais desapareceu de sua alma. Essa percepção o libertou completamente do mundo e nele acalentou tão grande amor por Deus que não poderia dizer se esse amor crescera durante os mais de quarenta anos transcorridos desde então.
Ele havia sido lacaio do senhor de Fieubert, tesoureiro da Associação de Poupança, e era um bronco desajeitado que vivia quebrando tudo.
Entrara para o mosteiro na esperança de ser dolorosamente censurado por sua inépcia e pelos erros que haveria de cometer, fazendo a Deus, desse modo, oferenda da própria vida e de seus prazeres. Deus, porém, o havia surpreendido, porque, ali, ele só encontrara contentamento, o que o fazia dizer-Lhe freqüentemente: “Senhor, Tu me pregaste uma peça”.
Afirmou que deveríamos estabelecer-nos na presença de Deus, conversando sempre com Ele, e que nos deveria causar vergonha abandonar a conversa com Deus para pensar em ninharias e coisas insensatas. Deveríamos alimentar nossas almas com pensamentos elevados de Deus e, desse modo, encontrar grande alegria em estar com Ele. Deveríamos vivificar nossa fé. Era lamentável que a tivéssemos tão pouca e que, em vez de tornar a fé a lei de suas vidas, as pessoas se sentissem satisfeitas com uma devoção menor cuja forma mudava todos os dias. Assegurou que o caminho da fé era o espírito da Igreja e que, por si só, era capaz de levar-nos a grande perfeição.
Deveríamos dar-nos inteiramente a Deus, abandonando-nos a Ele tanto nas questões temporais quanto nas espirituais, e encontrar felicidade em cumprir Sua vontade, levasse-nos Ele pelos caminhos do sofrimento ou pelos caminhos do conforto, porque são a mesma coisa para quem verdadeiramente se resignou a Deus. Precisamos ser fiéis quando Deus põe nosso amor à prova, fazendo-nos passar por épocas de aridez espiritual. É exatamente nessas ocasiões que devemos demonstrar nossa entrega à vontade Dele, por meio de atos de resignação tais que um só desses atos faz com que nos adiantemos muito.
Disse que as baixezas e iniqüidades das quais ouvia falar todos os dias não o escandalizavam; ao contrário, considerando a malícia de que um pecador é capaz, surpreendia-se por não serem ainda maiores. Orava pelos pecadores, mas, sabendo que Deus poderia emendá-los quando Lhe aprouvesse, já não ficava tão preocupado.
Declarou que, para nos entregarmos a Deus na medida em que Ele o deseja de nós, precisamos observar cuidadosamente como se move a alma, pois ela se pode envolver tanto nas coisas espirituais quanto nas mais grosseiras. Deus dá a necessária luz àqueles que verdadeiramente desejam estar com Ele. Se fosse esta minha intenção, que eu ficasse à vontade para procurá-lo (a ele, Irmão Lourenço) sempre que quisesse, sem receio de ser importuno; mas se não fosse este o desejo que me assistia, não deveria visitá-lo outra vez.
SEGUNDA CONVERSA
28 DE SETEMBRO DE 1666
O irmão Lourenço me disse que era sempre o amor que o governava, e que ele não qualquer outro interesse nem se atormentava com a possibilidade de vir a perder-se ou salvar-se. Descobrira que sua resolução de tornar o amor de Deus a finalidade de todas as suas ações tinha-lhe dado a paz. Ficava feliz por apanhar, pelo amor de Deus, um pedaço de palha do chão, buscando apenas a Ele, nada mais, nem mesmo os dons que Deus lhe poderia conferir.
Essa conduta da alma fez com que Deus lhe concedesse uma graça infinita, mas, ao receber os frutos dessa graça — o amor que dela surge — descobriu ser necessário desconsiderar seu sabor, porque isto não era Deus (sabendo-se, pela fé, que Deus é infinitamente maior e completamente diferente disto e de tudo o mais que ele pudesse sentir). Essa atitude produziu uma disputa maravilhosa entre Deus e a alma: enquanto Deus dava, a alma negava que o que ela recebia fosse Deus. Nesse combate, a alma fez-se, pela fé, tão forte quanto Deus, e até mais forte, visto que Ele não era capaz de dar tanto que ela não pudesse continuar negando que fosse Ele Próprio aquilo que Ele lhe dava.
O Irmão Lourenço afirmou que o arrebatamento e o êxtase eram experimentados pela alma que fica brincando com esses dons, em vez de rejeitá-los e ir além, para alcançar o próprio Deus. A despeito de maravilhar-se, é preciso que a pessoa não se deixe inebriar por essas coisas; apesar delas, é Deus o amo e senhor.
Contou que, como Deus recompensa de maneira rápida e magnífica qualquer coisa que se faça para Ele, gostaria, algumas vezes, de poder ocultar de Deus o que houvesse feito por Seu amor, de modo que, renunciando à recompensa, pudesse sentir o prazer de ter feito algo exclusivamente para Deus.
Contou, também, que sua mente se havia perturbado muito com a crença de estar ele certamente destinado à danação; todos os homens do mundo não teriam sido capazes de mudar essa convicção. Contudo, raciocinou deste modo a respeito do assunto: “abracei a vida religiosa apenas pelo amor de Deus, e tentei agir apenas para Ele. Esteja perdido ou seja salvo, quero continuar fazendo as coisas sempre pelo amor de Deus apenas. Pelo menos, restará isso de bom: até à morte, terei feito tudo o que podia para amá-Lo.” Por quatro anos, essa angústia o havia afligido, e ele tinha sofrido muito, mas, desde então, já não se preocupava com o Céu nem com o Inferno; sua vida tornara-se tão somente plena liberdade e alegria ininterrupta.
Colocava seus pecados entre Deus e ele próprio, como que para dizer ao Senhor que não merecia as graças que Ele lhe conferia, mas isso não impedia que Deus continuasse a cumulá-lo delas. Algumas vezes, era como se Deus o tomasse pela mão e o pusesse diante de toda a corte celeste, para mostrar o miserável sobre quem Ele se comprazia em despejar Suas graças.
Observou que, no início, é preciso alguma dedicação para criar o hábito de conversar com Deus o tempo todo e relatar-Lhe tudo o que fazemos, mas, depois de um pouco de esforço, somos despertados por Seu amor sem qualquer dificuldade.
Após o período favorável que Deus lhe dera, esperava ter seu tempo e sua quota de dor e sofrimento, mas não se angustiava com isso, sabendo que, nada podendo fazer de si próprio, Deus não deixaria de dar-Lhe forças para suportar o que acontecesse.
Contou que, quando havia uma oportunidade de exercitar qualquer virtude, ele sempre dizia: “Meu Deus, não sei como fazer isto se Tu não me conduzires”. Então, era-lhe dada a força necessária, e mais ainda.
Quando errava, apenas confessava a falta e dizia a Deus: “Jamais farei de outro modo, se me deixares à minha própria sorte; pertence a Ti evitar minhas quedas e corrigir meus erros”. Depois disso, não continuava a afligir-se pelo erro cometido.
Afirmou que devemos agir de maneira muito simples em relação a Deus, e falar com Ele francamente, pedindo-Lhe ajuda à medida que as coisas acontecem, porque, conforme sua freqüente experiência, Deus nunca deixa de dar esse auxílio.
Recentemente, ele havia sido mandado à Borgonha, para comprar vinho, um trabalho penoso para ele, porque, além de faltar-lhe o pendor para negócios, tinha uma perna aleijada, de modo que só podia subir no barco arrastando-se desamparadamente. Contudo, ele não se preocupara com isto nem com a compra. Disse a Deus que o negócio a Ele pertencia, e descobriu que tudo se realizara e ele acabara fazendo um bom trabalho. No ano anterior, fora enviado ao Auvergne, com a mesma incumbência. Não sabia dizer como o negócio havia sido feito. Sabia que não fora ele quem o fizera, mas fora feito, e muito bem feito.
Acontecera coisa semelhante com a cozinha, pela qual ele tinha, por natureza, a maior aversão. Tendo se acostumado a fazer tudo pelo amor de Deus, sempre orando pela graça de realizar bem o trabalho, achara muito fáceis os quinze anos durante os quais] estivera encarregado de nela trabalhas
Então, havia sido designado para a confecção de sandálias, o que lhe agradava muito, mas estava pronto para deixar também essa tarefa, não fazendo senão regozijar-se em qualquer lugar, executando coisas triviais pelo amor de Deus. Para ele, os momentos de oração não eram, de nenhum modo, diferentes de quaisquer outros. Cumpria retiros quando o Padre Prior lhe dizia que o fizesse, mas jamais os havia desejado nem pedido, porque mesmo o trabalho mais absorvente não o distraía de Deus.
Ciente de que era preciso amar a Deus em todas as coisas e empenhando-se em cumprir esse dever, não sentia a necessidade de um diretor espiritual, mas, sim, de um confessor, para absolvê-lo dos pecados cometidos. Ele tinha plena consciência de suas faltas e elas não lhe causavam surpresa. Confessava-as a Deus e não tentava apresentar desculpas para elas. Depois, voltava em paz a seus costumeiros exercícios de amor e adoração.
Em suas angústias, não consultava pessoa alguma. Em vez disso, sabedor, com a luz da fé, de que Deus estava presente, ficava satisfeito em agir para Ele, acontecesse o que acontecesse, disposto a perder-se pelo amor de Deus, que o contentava por completo.
Disse que os pensamentos estragam tudo; é por eles que o mal se inicia. Precisamos ter o cuidado de rejeitá-los tão logo percebamos que eles não se mostram necessários à nossa ocupação do momento nem à nossa salvação, retomando à conversação com Deus, que nos conforta.
No começo, passava todo o período de oração rejeitando os pensamentos, para neles cair novamente. Jamais fora capaz de orar segundo as regras, como os demais. Entretanto, começara meditando de maneira discursiva durante algum tempo, mas, depois, não sabia como as coisas se passavam, e lhe seria impossível dar contas do que acontecia.
Pedira para continuar sempre noviço, sem acreditar que alguém quisesse receber sua profissão e incapaz de imaginar que se tivessem passado os dois anos de noviciado.
Não era audacioso o suficiente para pedir mortificações a Deus, nem as desejava verdadeiramente. Bem sabia, entretanto, que as merecia em grande número e que, quando Deus as enviasse, Ele também lhe enviaria a graça, para ser capaz de passar por elas. Todas as práticas de penitências e outros exercícios só serviam para promover a união com Deus por meio do amor. Tendo pensado nisto cuidadosamente, estava persuadido de que o caminho mais curto para chegar a Deus era o exercício ininterrupto do amor, fazendo-se todas as coisas por Seu amor.
Declarou que devemos distinguir, com clareza, os atos de compreensão dos atos de vontade, porque os primeiros têm pouca importância e os segundos são tudo. O que realmente importa é amarmos a Deus e regozijarmo-nos Nele.
Mesmo todas as penitências possíveis não serviriam para remover um único pecado, se estivessem dissociadas do amor. Sem ansiedade, devemos esperar nossa remissão no sangue de Jesus Cristo, esforçando-nos, apenas, para amá-Lo de todo o coração. Aparentemente, Deus concede as maiores graças aos que foram maiores pecadores, em vez de aos que permanecem na inocência, porque nisto mais se demonstra sua bondade.
Disse que não ficava pensando na morte, nem nos pecados, nem no Céu, nem no Inferno, mas, apenas, em fazer as coisas mais triviais pelo amor de Deus —coisas pequeninas, porque ele era incapaz de fazer grandes coisas. Assim, não mais se preocupava, porque o que quer que lhe acontecesse era a vontade de Deus.
Explicou que mesmo que fosse profundamente ofendido por alguém, isto nada era comparado ao sofrimento interior que já havia suportado ou às grandes alegrias que já havia experimentado e experimentava, ainda, com freqüência. Desse modo, nada o preocupava nem atemorizava, e ele só pedia a Deus que o conservasse incapaz de ofendê-Lo.
Disse-me que praticamente não sentia escrúpulos, porque “quando reconheço que errei, admito-o e digo: ‘é o meu normal; é o que sempre me acontece’. Quando não erro, reconheço que foi por um ato de Deus e agradeço a Ele.”
TERCEIRA CONVERSA
22 DE NOVEMBRO DE 1666
Disse-me o Irmão Lourenço que, nele, os alicerces da vida espiritual haviam sido uma elevada concepção e uma exaltada estima de Deus sem outra consideração a não ser o próprio Deus. Uma vez plenamente delineados estes fundamentos, no começo, ele não teve outra preocupação senão excluir todos os outros pensamentos e praticar todas as suas ações pelo amor de Deus. Quando, algumas vezes, se passava um período considerável sem que pensasse em Deus, não ficava inquieto por causa disso, mas, confessando-Lhe sua mesquinhez, voltava a Ele com confiança de intensidade equivalente à da infelicidade que sentira por tê-Lo esquecido. Declarou que a confiança que depositamos em Deus é um modo de prestar-Lhe grande honra, e isto nos atrai abundantes graças. Deus não nos pode iludir, nem permitir, por um grande lapso de tempo, o sofrimento de uma alma que se tenha entregado inteiramente a Ele e esteja determinada a, por Ele, tolerar todas as coisas.
O Irmão Lourenço alcançara um estado em que não tinha senão pensamentos em Deus. Quando algum outro pensamento ou uma tentação queriam aparecer, assim era sua experiência do pronto auxílio de Deus: ao sentir que se aproximavam, deixava, algumas vezes, que se adiantassem; no momento certo, apelava para Deus e eles imediatamente desapareciam. Essa mesma experiência ocorria quando tinha algo a fazer. Jamais pensava no assunto com antecedência, mas, no devido tempo, Deus lhe mostrava, como em um espelho, o modo pelo qual a coisa deveria ser feita. Já por um bom período, ele havia assim procedido, sem preocupar-se antecipadamente. Antes, porém, de ter essa experiência do pronto auxílio de Deus nos seus afazeres, neles aplicava sua própria precaução.
Não se lembrava das coisas que fazia, e mal prestava atenção a elas enquanto as estivesse fazendo, de modo que, ao levantar-se da mesa após uma refeição, não sabia o que havia comido! Agindo na simplicidade de sua vida, tudo fazendo pelo amor de Deus, dava-Lhe graças por dirigir suas atividades e uma infinidade de outros atos. Tudo, porém, de maneira muito simples, de um modo que o mantivesse preso a amorosa presença de Deus.
Quando alguma ocupação o distraía um pouco, sua alma era assaltada por uma lembrança de Deus, vinda do próprio Deus; essa lembrança despertava-lhe um pensamento Nele, tão vívido, tão ardente, tão cálido e, algumas vezes, tão forte que ele gritava e tinha um violento impulso de cantar e pular feito um doido.
O Irmão Lourenço ficava muito mais unido a Deus nas atividades comuns do que quando as interrompia para praticar os exercícios religiosos do retiro dos quais saía, geralmente, com aridez espiritual.
Tinha a expectativa de vir a passar por grande sofrimento do corpo ou da mente, e a grande provação seria perder essa perceptível consciência de Deus que por tanto tempo havia estado com ele; mas a bondade de Deus lhe havia garantido que Ele não o abandonaria de nenhum modo e lhe daria forças para suportar quaisquer males que, por permissão divina, viessem a lhe acontecer. Portanto, ele nada temia, nem precisava aconselhar-se com quem quer que fosse a respeito do seu estado espiritual. Quando havia tentado fazê-lo, tinha saído sempre mais perplexo do que antes. Estava preparado para morrer e perder-se pelo amor de Deus, não abrigando qualquer receio, porque abandonar-se inteiramente a Deus é o caminho seguro em que há sempre suficiente luz para guiar-nos adiante.
Explicou que, no começo da vida espiritual, é necessário nos aplicarmos fielmente a agir e renunciar a nós mesmos; depois disso, porém, alegrias indescritíveis nos aguardam. Nas dificuldades, nosso único recurso é voltarmo-nos para Jesus Cristo e pedirmos Sua graça, com a qual todas as coisas se tornam fáceis.
Ficamos presos às penitências e devoções particulares e negligenciamos o amor, que é nossa finalidade verdadeira. Isto é o que revelam nossas obras, e esta é a razão pela qual se vê tão pouca virtude consistente.
Para que nos aproximemos de Deus, não são necessários artifícios nem erudição, mas só um coração determinado a dedicar-se apenas a Ele e a amá-Lo, apenas a Ele.
QUARTA CONVERSA
25 DE NOVEMBRO DE 1667
O irmão Lourenço falou comigo, sem reservas e com profundo fervor, a respeito de seu caminho para aproximar-se de Deus, e a esse respeito já observei alguma coisa.
Ele me disse que o que importa é renunciar de uma vez por todas a tudo que reconheçamos não levar a Deus, de modo que nos habituemos à conversa ininterrupta com Ele, sem mistério nem artifícios. Precisamos apenas reconhecê-Lo presente em nosso íntimo, falar com Ele a cada momento, pedir Sua ajuda, descobrir qual é Sua vontade nas coisas duvidosas e fazer com alegria aquelas que claramente percebemos que Ele requer de nós, oferecendo-as a Ele antes de começarmos e agradecendo-Lhe quando elas tenham sido completadas.
Nessa conversação ininterrupta, toda nossa ocupação é louvar, adorar e amar a Deus incessante-mente, por Sua infinita bondade e perfeição.
Devemos pedir Sua graça cheios de confiança, sem prestar atenção a nossos pensamentos, mas encontrando apoio nos méritos infinitos de Nosso Senhor. Deus, em todas as nossas ações, jamais deixa de nos conceder Sua graça — isto o Irmão Lourenço percebia claramente, a não ser quando era distraído da companhia de Deus, ou se tivesse esquecido de pedir Seu auxílio. Em momentos de dúvida, Deus jamais nos faltará com Sua luz, se nosso único propósito for agradar a Ele e agir por Seu amor.
Afirmou que nossa santificação não depende de alterar o que fazemos, mas de fazer para Deus o que faríamos comumente para nós mesmos. E uma tristeza ver como tantas pessoas se apegam ao que fazem de maneira tão imperfeita, preocupando-se com a opinião dos outros, confundindo os meios com os fins.
Ele não encontrou melhor caminho para aproximar-se de Deus do que por meio das ocupações comuns que lhe eram prescritas consoante a regra da obediência, purificando-as da preocupação com a opinião dos outros tanto quanto possível e realizando-as pelo puro amor de Deus.
Declarou que era um grande equívoco imaginar que os momentos de oração devessem ser diferentes de quaisquer outros,.porque temos a obrigação de ficar tão unidos a Deus, por nossas ações, nos períodos de trabalho, quanto, pela oração, nos momentos a ela destinados.
Para ele, a oração se havia tornado a presença de Deus, com a alma inconsciente de qualquer outra coisa que não o amor. Após os momentos de oração, ele não percebia qualquer diferença, porque continuava junto a Deus, louvando-O e bendizendo-O com todas as forças. Desse modo, passava a vida em alegria ininterrupta, esperando, todavia, que Deus lhe desse um pouco de sofrimento quando ele (Irmão Lourenço) ficasse mais forte. Disse que é preciso, de uma vez por todas, confiar em Deus e efetuar a entrega total de nós mesmos a Ele, que não nos enganará.
Jamais nos devemos cansar de fazer pequenas coisas pelo amor de Deus, porque Ele não observa a magnitude da obra, apenas o amor. Não nos devemos surpreender com nossos freqüentes fracassos iniciais; no final, criado o hábito, seremos capazes de agir sem mesmo pensar no que estamos fazendo, e com admirável prazer.
A fim de nos conformarmos inteiramente à vontade de Deus, só precisamos cultivar a fé, a esperança e a caridade. Tudo mais é desprovido de importância e não nos devemos fixar nessas coisas; são como a ponte pela qual passamos correndo para nos perdermos na Meta única, pela confiança e pelo amor.
Tudo é possível àquele que crê; mais ainda, ao que tem esperança; ainda mais, ao que ama; e mais que tudo, àquele que cultiva essas três virtudes e nelas persevera.
A finalidade que nos devemos propor nesta vida é tornarmo-nos os mais perfeitos adoradores de Deus que tenhamos a possibilidade de ser, assim como temos a esperança de sê-lo por toda a eternidade.
Quando entramos na vida espiritual, devemos considerar minuciosamente que tipo de gente somos, reconhecendo sermos desprezíveis, indignos do nome de cristãos, sujeitos a todo tipo de miséria e a uma infinidade de azares, que nos perturbam e tornam mutáveis nossa saúde, nosso humor, nossas disposições íntimas e exteriores — enfim, pessoas a quem Deus deve humilhar por meio de incontáveis dores e provações, tanto internas quanto externas. Reconhecendo isso, deveríamos achar surpreendente que soframos angústias, tentações, antagonismos e contradições em mãos de nosso próximo? Não deveríamos, ao contrário, nos submeter a essas coisas, suportando-as por tanto tempo quanto seja da vontade de Deus, como passaríamos por aquilo que consideramos benéfico para nós?
Quanto maior for a perfeição a que aspira a alma, mais dependente ela é da graça divina.
AS MÁXIMAS ESPIRITUAIS DE IRMÃO LOURENÇO DA RESSURREIÇÃO
Tudo é possível àquele que crê; mais ainda, àquele que tem esperança; ainda mais, àquele que tem amor, e, mais que tudo, àquele que cultiva essas três virtudes e nelas persevera. Todos os que foram batizados e verdadeiramente crêem deram o primeiro passo no caminho da perfeição e se tomarão perfeitos perseverando na prática das seguintes máximas.
Em tudo que dissermos, fizermos ou empreendermos, precisamos manter os olhos fixos em Deus e em Sua glória. Nossa meta é sermos os mais perfeitos adoradores de Deus que possamos ser nesta vida, como esperamos sê-lo por toda a eternidade. Precisamos tomar a firme decisão de superar, com a graça de Deus, todas as dificuldades inerentes à vida espiritual.
Quando nos dedicamos à vida espiritual, precisamos considerar seriamente quem somos, reconhecendo que merecemos um completo desprezo. Somos indignos do nome de cristãos e estamos sujeitos a toda espécie de misérias e a um enorme número de defeitos que nos perturbam e tornam mutáveis nossa saúde, nosso humor, nossas disposições interiores e suas manifestações externas. De um modo geral, somos pessoas a quem é preciso que Deus humilhe por meio de grande número de distúrbios e provações, internos e externos.
Precisamos acreditar que é vantajoso para nós e agradável a Deus que nos sacrifiquemos por Ele, que é normal Sua divina providência deixar-nos ao sabor de toda sorte de situações, sofrendo todo tipo de dores, misérias e tentações pelo amor de Deus, por tanto tempo quanto Lhe pareça. Sem que o coração e a mente assim se submetam à vontade Dele, tanto a devoção quanto a perfeição não podem ser duradouras.
A alma depende da graça, tanto mais quanto seja maior seu desejo de perfeição mais elevada. O auxílio de Deus é necessário em todos os momentos, porque a alma nada pode fazer sem ele. O mundo, a natureza e o diabo, aliados, empenham-se em uma guerra sem quartel, tão encarniçada que, sem um auxílio verdadeiro e sem essa atitude humilde e necessária de dependência, eles arrastariam a alma contra a vontade dela. Parece contrário à natureza, mas nisto a graça encontra prazer e repouso.
Práticas necessárias para alcançar a vida espiritual
A prática mais sagrada, mais universal e mais necessária à vida espiritual é a da presença de Deus. É deliciar-se com Sua divina companhia e ficar acostumado a ela, falando com humildade e conversando amorosamente com Ele todo o tempo, em todas as horas, sem regra ou medida, especialmente nas horas de tentação, sofrimento, aridez espiritual, desencanto e, mesmo, infidelidade e pecado.
Precisamos diligenciar para que todas as nossas ações, sem exceção, se tornem uma espécie de breve conversa com Deus, que não seja estudada, mas que surja da pureza e da simplicidade de nossos corações.
Precisamos realizar todas as nossas ações de maneira cuidadosa e deliberada, não de forma impulsiva ou precipitada, porque isto é característico da mente distraída. Precisamos trabalhar com Deus, de maneira suave, tranqüila e amorosa, rogando-Lhe que aceite o nosso trabalho. Por essa permanente atenção a Ele, quebraremos a cabeça do diabo e faremos que suas armas lhe caiam das mãos.
Durante nosso trabalho e demais atividades, até mesmo quando estivermos escrevendo ou lendo, não importa o quanto sejam espirituais os assuntos — digo mais, até durante nossos exercícios religiosos e orações em voz alta — precisamos, tão freqüentemente quanto nos seja possível, parar por um momento para adorar Deus no fundo de nossos corações, para saboreá-Lo, ainda que de passagem e às ocultas. Tendo a consciência de que Deus está presente enquanto você pratica as ações, que Ele está no fundo e no centro de sua alma, por que não interromper as atividades e até as orações em voz alta, pelo menos vez por outra, para adorá-Lo interior-mente, para louvá-Lo, para pedir Seu auxílio, para oferecer-Lhe seu coração e para agradecer-Lhe?
Que pode haver de mais agradável a Deus do que esse ato de, ao longo do dia, a pessoa afastar-se incontáveis vezes de tudo que foi criado para retirar-se e adorá-Lo no interior? Esse voltar-se para dentro destrói o amor-próprio, que só pode subsistir em meio às criaturas. Portanto, voltar-se para Deus no interior nos desembaraça, sem que o percebamos.
Enfim, não podemos oferecer a Deus prova maior de nossa fidelidade do que renunciar às criaturas e desprezar numerosas vezes o convívio delas para desfrutar, por um único momento, o Criador.
Não quero, com isso, obrigá-lo a afastar-se para sempre do que é exterior, porque isto é impossível. Seu guia deve ser, porém, a prudência, mãe de todas as virtudes. Afirmo, entretanto, que um erro comum entre pessoas de mentalidade espiritual é não se retirarem periodicamente do que é externo para adorarem Deus no seu próprio interior e, por alguns momentos, desfrutarem de Sua presença divina em paz. Estendi-me um pouco nisto, mas achei que o assunto exigia alguma explicação. Vamos voltar a nossos exercícios.
Toda essa adoração deve ser feita com fé, acreditando que Deus está verdadeiramente em nossos corações, que precisamos adorá-Lo, amá-Lo e servi-Lo em espírito e verdade, que Ele vê tudo o que acontece e acontecerá em nós e nas demais criaturas, que Ele é independente de todas as coisas e o único de que todas as criaturas dependem, infinito em todas as espécies de perfeição. Ele é Aquele que, em virtude de Sua excelência infinita e domínio soberano, merece tudo o que somos, bem como todas as coisas no céu e na terra, das quais Ele pode dispor como desejar, no tempo e na eternidade. Todos os nossos pensamentos, palavras e ações pertencem-Lhe por direito. Vamos pôr isto em prática.
Precisamos examinar cuidadosamente quais as virtudes que nos são mais necessárias, quais as mais difíceis de adquirir, quais os pecados que cometemos mais freqüentemente e quais de nossas quedas são as mais costumeiras e inevitáveis. Precisamos recorrer a Deus com completa confiança no momento do combate, permanecer firmes na presença de Sua majestade divina, adorá-Lo humildemente, levar a Ele nossas misérias e fraquezas e, amorosamente, pedir-Lhe o auxílio de Sua graça. Desse modo, sem termos nenhuma, encontraremos Nele todas as virtudes.
Como devemos adorar Deus em espírito e verdade.
Esta questão abriga três pontos a que é preciso responder.
Adorar Deus em espírito e verdade significa adorar Deus como devemos adorá-Lo. Deus é espírito. E precisamos adorá-Lo em espírito e verdade, quer dizer, com uma adoração do espírito, humilde e autêntica, no fundo e no centro de nossas almas. Só Deus pode ver essa adoração, e precisamos repeti-la com tal freqüência que, no final, se torne uma segunda natureza em nós, como se Deus estivesse unificado com nossas almas e nossas almas estivessem unificadas com Deus. A plena compreensão disso só virá por meio da prática.
Adorar Deus em verdade significa reconhecê-Lo pelo que Ele é e reconhecer-nos pelo que nós somos. Adorar a Deus em verdade significa reconhecer verdadeiramente, realmente e em espírito que Deus é o que Ele é: infinitamente perfeito, infinitamente adorável, infinitamente afastado de todo mal e assim em relação a todos os atributos divinos. Quem somos nós e que razão nos poderia desculpar de não usarmos a plenitude de nossas forças para oferecer a esse magnífico Deus toda a nossa reverência e adoração?
Adorar a Deus em verdade significa confessar que somos completamente o oposto Dele, mas, se o desejarmos, Ele nos quer tornar como Ele Próprio. Quem seria imprudente a ponto de faltar, ainda que por um momento, com o respeito, o amor, o serviço e a contínua adoração que devemos a Ele?
União da alma com Deus
Há três espécies de união: a primeira é a habitual; a segunda, a virtual; e a terceira, a real.
A união habitual se dá quando estamos unidos a Deus apenas pela graça.
A união virtual ocorre quando iniciamos uma ação pela qual ficamos unidos a Deus e permanecemos unidos a Ele pela virtude de tal ação, ao longo de todo o tempo em que ela perdura.
A união real é a mais perfeita. Sendo, como é, plenamente espiritual, seu movimento torna-se perceptível porque a alma não está adormecida, como nas outras uniões, mas acha-se poderosamente excitada e sua operação é mais ardente que a do fogo e mais luminosa do que o sol no céu sem nuvens. Não obstante, este sentimento pode conduzir a equívocos, porque não se trata, apenas, de uma simples expressão do coração, como dizer “meu Deus, eu Te amo de todo o coração” ou outras palavras similares. Em vez disso, é como um “quê” da alma, doce, calmo, espiritual, reverente, humilde, amoroso e muito simples, que a transporta e a incita a amar a Deus, a adorá-Lo e, até, a abraçá-Lo com uma ternura inexpressível que só a experiência pode capacitar-nos a compreender.
Aqueles que buscam a união divina precisam saber que as coisas capazes de tornar a vontade cheia de alegria são, de fato, agradáveis e deliciosas para ela, ou, pelo menos, assim lhe parecem.
Precisamos admitir que Deus é incompreensível e que, para estarmos unidos a Ele, temos de privar a vontade de todos os tipos de satisfações e prazeres físicos e espirituais, de modo que, ao tornar-se desprendida, possa amar a Deus acima de todas as coisas, porque, se a vontade puder, de algum modo, compreender Deus, só pelo amor poderá fazê-lo. Há uma grande diferença entre os gostos e os caprichos da vontade e a operação dessa mesma vontade, porque os gostos e os caprichos da vontade estão nos limites da alma, mas sua operação, que é o amor propriamente dito, termina em Deus, que é sua finalidade.
A respeito da Presença de Deus.
A presença de Deus é a aplicação de nossa mente a Deus, ou é uma reminiscência de Deus presente que pode ser realizada pela imaginação ou pelo entendimento.
Conheço alguém que por quarenta anos pratica uma presença de Deus intelectual, que ele chama por diversos outros nomes. Algumas vezes ele a chama de “ato simples”, “conhecimento claro e distinto de Deus”, ou “visão indistinta”, ou “consciência generalizada e amorosa de Deus”. Outras vezes, ele a chama de “ato de estar atento a Deus”, “conversa silenciosa com Deus”, “confiança em Deus” ou “vida e paz da alma”. Tal pessoa me disse que todas essas formas da presença de Deus nada mais são que sinônimos para designar a mesma coisa, que, atualmente, é uma segunda natureza nele. Eis como:
Por força da repetição dos atos — afirma essa pessoa — a todo momento reconduzindo a mente à presença de Deus, criou um hábito de tal maneira que, logo que fica livre de suas ocupações externas — e, muitas vezes, até quando está mais ocupado por elas — a ponta de seu espírito, ou a parte suprema de sua alma, eleva-se sem qualquer esforço de sua parte e se mantém como que suspensa e fixa em Deus, acima de todas as coisas, como em seu centro e local de repouso. Como ele geralmente tem consciência de que seu espírito, mantido suspenso desse modo, é acompanhado pela fé, sente-se plenamente satisfeito. Isto é o que ele chama de “presença real de Deus”, que inclui todos os outros tipos de presença e muito mais, de modo que ele vive, agora, como se só existissem no mundo ele e Deus. Conversa com Deus em toda parte; pede-Lhe o que necessita e regozija-se permanentemente com Ele de incontáveis maneiras.
Convém, entretanto, saber que essa conversação com Deus se dá no fundo e no centro da alma. É ali que a alma fala com Deus de coração para coração, sempre na grande e profunda paz de que desfruta em Deus. Tudo o que acontece do lado de fora significa, para a alma, não mais do que um fogo de palha que se extingue tão logo se acende, e quase nunca, ou muito pouco, é capaz de perturbar sua paz interior.
Voltando à questão da presença de Deus, afirmo que essa consciência suave e amorosa de Deus acende, de maneira imperceptível, um fogo divino na alma, inflamando-a com o amor de Deus em tão grande intensidade que a pessoa se vê forçada a realizar várias atividades exteriores no esforço de mantê-lo sob controle.
Ficaríamos surpresos se soubéssemos o que, às vezes, a alma diz a Deus. Essas conversações agradam tanto a Deus que Ele tudo permite à alma, desde que ela queira permanecer sempre com Ele e em Seu seio. Como temendo que a alma voltasse às coisas criadas, Deus cuida de fornecer-lhe tudo o que ela possa desejar, se bem que ela encontre, em seu próprio interior, um alimento saborosíssmo e deliciosíssimo a seu paladar, sem que jamais o tenha desejado ou procurado e sem sequer haver contribuído para isso de qualquer modo, a não ser, apenas, com o consentimento.
A presença de Deus é, então, a vida e o alimento da alma, que podem ser adquiridos pela graça do Senhor. Eis os meios para consegui-la:
Meios de alcançar a presença de Deus.
O primeiro meio é uma grande pureza de vida.
O segundo é uma grande fidelidade à prática dessa presença e à consciência de Deus no próprio interior, o que deve ser sempre feito de maneira suave, humilde, amorosa, sem deixar-se cair na preocupação ou na inquietude.
Precisamos tomar especial cuidado para que essa consciência íntima, ainda que por um momento, preceda nossas atividades exteriores e, de tempos em tempos, as acompanhe, e que desse mesmo modo sejam todas elas completadas. Como são necessários tempo e muito trabalho para adquirir essa prática, precisamos não nos desencorajar quando falharmos, porque o hábito só é formado pelo esforço. Todavia, uma vez formado, tudo se fará com prazer.
Não é senão correto que o coração, o primeiro a pulsar com vida e a parte do corpo que controla o resto, seja o primeiro e o último a amar e adorar Deus, iniciando ou completando as atividades físicas e espirituais e, de um modo geral, todos os exercícios da vida. E é desse modo que devemos ter o cuidado de produzir essa consciência interior, o que precisamos fazer, como disse, sem angústia e com naturalidade, para torná-la mais fácil.
Não é descabido, para os iniciantes, formular interiormente algumas expressões como: “Meu Deus, sou completamente Teu”, ou “Deus de amor, eu Te amo de todo o coração” ou “Senhor, faze comigo segundo o Teu coração”, ou quaisquer outras palavras que o amor produza de repente. Precisam cuidar, porém, de que suas mentes não divaguem ou se voltem para as coisas criadas. A mente precisa ser mantida fixa em Deus apenas, de maneira que, vendo-se assim premida e forçada pela vontade, seja obrigada a permanecer com Deus.
Esta presença de Deus, um pouco difícil no começo, se fielmente praticada, opera secretamente maravilhosos efeitos na alma, atrai para ela graças abundantes do Senhor e a conduz, insensivelmente, a essa simples consciência, a essa visão amorosa de Deus presente em toda a parte que é a mais santa, a mais garantida, a mais fácil e a mais eficaz forma de oração.
Observe-se, por favor, que chegar a este estado pressupõe a mortificação dos sentidos, já que é impossível a uma alma que encontra alguma satisfação nas coisas criadas desfrutar completamente dessa presença divina: para estar com Deus, precisamos deixar de parte Suas criaturas.
Benefícios da presença de Deus
O primeiro benefício que a alma recebe da presença de Deus é que sua fé se torna mais intensa e atuante em todas as situações da vida, especialmente em relação às necessidades, já que obtém facilmente graças nos momentos de tentação e no trato inevitável com as coisas criadas. Porque a alma, acostumada por esse exercício à prática da fé, vê e sente Deus presente por meio de uma simples recordação. Para ela, é fácil invocá-Lo de maneira eficaz e obter aquilo que necessita. Pode-se dizer que ela tem, aqui, alguma coisa parecida com o estado dos bem-aventurados, pois quanto mais se adianta, mais intensa fica sua fé, a qual se torna, afinal, tão penetrante que a pessoa quase poderia dizer: “já não creio, mas vejo e experimento”.
A prática da presença de Deus nos fortalece na esperança. Nossa esperança cresce na proporção do nosso conhecimento. À medida que nossa fé penetra os segredos da Divindade por meio desse exercício santo, à medida que vai descobrindo, em Deus, uma beleza que ultrapassa infinitamente não apenas a dos corpos que vemos na terra mas, até, a das almas mais perfeitas e a dos anjos, nossa esperança cresce e se fortifica, e a grandeza desse bem de que ela pretende desfrutar — e que, de certo modo, já saboreia — a tranqüiliza e sustenta.
Essa prática inspira à vontade o desprezo das coisas criadas e a inflama com o fogo do amor sagrado, porque, estando sempre com Deus, que é um fogo consumidor, esse fogo reduz a cinzas tudo o que se poderia opor a Ele. A alma assim abrasada só pode viver na presença de seu Deus, presença que produz no coração dela um ardor santo, um zelo sagrado e um forte desejo de ver esse Deus amado, conhecido, servido e adorado por todas as criaturas.
Pela presença de Deus e por essa consciência interior, a alma se torna tão íntima de Deus que passa praticamente toda a vida em atos contínuos de amor, adoração, contrição, confiança, ação de graças, oferenda, petição e todas as virtudes mais excelsas. Às vezes isto se torna, até, um ato contínuo, porque a alma pratica permanentemente esse exercício da divina presença.
Sei que poucas pessoas alcançam esse estado adiantado. É uma graça que Deus só concede a algumas almas escolhidas, já que, afinal, a simples consciência de Deus permanece um dom voluntário de Sua mão generosa. Direi, porém, para consolo daqueles que desejam abraçar esta santa prática, que Ele geralmente a dá às almas que estão dispostas a recebê-la. Se Ele não a der, podemos ao menos adquirir, com o auxílio da graça ordinária, por meio dessa pratica da presença de Deus, um modo e um estado de oração que se assemelha grandemente à simples consciência de Deus.
CARTAS DE IRMÃO LOURENÇO
CARTA NÚMERO 1
1o. DE JUNHO DE 1682
Reverenda Madre:
Aproveito esta oportunidade para contar-lhe a experiência de um de nossos religiosos a respeito dos admiráveis efeitos e do auxílio ininterrupto que lhe advieram da presença de Deus. Vamos, os dois, nos beneficiar dela.
A principal preocupação dele, durante mais de quarenta anos de vida dedicada à religião, tem sido sempre estar com Deus e nada fazer, dizer ou pensar que pudesse desagradá-Lo, sem qualquer outro interesse que não, unicamente, o amor de Deus, que merece infinitamente mais.
Atualmente, ele está tão habituado a essa presença divina que recebe assistência em todos os momentos e em todas as situações. Durante cerca de trinta anos, a alma dele se tem deliciado com permanente alegria íntima, tão intensa algumas vezes que, para mantê-la sob controle e impedir que se manifeste externamente, ele é constrangido a exibir um comportamento externo pueril que mais se assemelha a tolice que a devoção.
Se, momentaneamente, ele se afasta um pouco da divina presença, Deus logo se manifesta em sua alma, para chamá-lo de volta. Isto muitas vezes acontece quando está demasiadamente envolvido com os deveres comuns. Ele responde fielmente a esses chamados interiores, seja erguendo o coração a Deus, seja por um olhar suave e amoroso, seja com as palavras que o amor articula nesses encontros, como: “Meu Deus, eis-me aqui, sou todo Teu” ou “Senhor, faze comigo segundo o Teu coração”. Parece-lhe — na verdade, ele o sente — que, satisfeito com essas poucas palavras, nosso Deus de amor volta a adormecer, e repousa no fundo e no centro da alma do religioso. Essas experiências o persuadem de que Deus está sempre no fundo de sua alma, de tal modo que ele não tem qualquer dúvida a respeito disto, não importa o que esteja fazendo ou o que lhe esteja acontecendo.
A senhora pode julgar por si própria, reverenda Madre, como são grandes o contentamento e a felicidade desse homem. Percebendo no íntimo, todo o tempo, um tesouro tão inestimável, ele já não fica inquieto com a necessidade de encontrá-lo, nem precisa dar-se ao trabalho de buscá-lo; o tesouro permanece plenamente acessível, para que o monge dele retire quanto lhe agrade.
Esse religioso costuma queixar-se de nossa cegueira e proclama sem cessar que somos dignos de pena por nos satisfazermos com tão pouco. “Deus” — diz ele — “tem um tesouro infinito para conceder e nós nos satisfazemos com um pouquinho de devoção visível, que acaba em um instante. Somos cegos e, desse modo, amarramos as mãos de Deus, impedindo o fluxo generoso de Suas graças. Quando Deus descobre uma alma imbuída de fé intensa, Ele a inunda com a graça, tal qual uma corrente represada que encontrou nova saída espalha suas águas de maneira impetuosa e abundante.”
Sim, muitas vezes interrompemos essa torrente por não sermos capazes de apreciá-la da maneira devida. Paremos de bloqueá-la, minha prezada Madre; voltemo-nos para nós mesmos, rompamos a barragem, abramos espaço para que a graça flua, recuperemos o tempo perdido. Talvez nos reste pouco tempo para viver. A morte está atrás de nós. Vamos pôr-nos em guarda: só vivemos uma vez!
Repito novamente: voltemo-nos para nós mesmos; o tempo urge, e não há desculpas. Cada um é responsável por si próprio. Eu creio que a senhora tomou medidas adequadas e que não terá surpresas. Elogio-a, porque isso é o que temos de fazer na vida. Entretanto, precisamos continuar trabalhando, porque, na vida espiritual, não nos adiantarmos é irmos para trás. Aqueles que recebem o vento do Espírito Santo navegam mesmo enquanto dormem. Se o barco de nossa alma ainda é golpeado por ventos ou tempestades, despertemos o Senhor que nele repousa, e Ele logo tranquilizará o mar.
Tomei a liberdade, Madre caríssima, de narrar-lhe essa atitude excelente para que a senhora possa compará-la com a sua própria. Ela servirá para reacender e inflamar a sua se, por infortúnio (queira Deus que não, pois seria um grande mal), tiver esfriado, mesmo que pouco. Vamos então, a senhora e eu, recordar o fervor inicial e aproveitar o exemplo e a atitude desse religioso pouco conhecido do mundo, mas conhecido de Deus, que o recobre de carinho. Pedirei isto para a senhora; rogue fervorosamente para que o mesmo seja dado àquele que é, em Nosso Senhor, etc.
CARTA NÚMERO 2
(SEM DATA, PROVAVELMENTE 1685)
Reverenda e venerável Madre:
Recebi hoje dois livros e uma carta da Irmã X, em preparação para professar e que, a esse respeito, pede as orações de sua boa comunidade e, em especial, as suas próprias. Ela insiste em que tem, nessas orações, uma grande e singular confiança; assim, não a desaponte: peça a Deus que ela possa fazer seu sacrifício apenas por amor a Ele, com a firme resolução da entrega completa a Deus. Vou enviar-lhe um desses livros que tratam da presença de Deus que é, em minha opinião, tudo em que consiste a vida espiritual; parece-me que quem a pratique como é preciso espiritualiza-se em pouco tempo.
Sei que, para isso, o coração precisa estar vazio de todas as outras coisas, porque Deus deseja possuí-lo com exclusividade. Sem primeiro esvaziá-lo de tudo que não seja Ele Próprio, Deus não pode ter o coração apenas para Si, nem pode agir ali e fazer nele o que Lhe agrade.
Não há no mundo modo de vida mais doce ou mais pleno de deleite do que o da permanente conversa com Deus; só aqueles que o praticam e saboreiam podem entender isto. Não é, porém, por esta razão que eu o aconselho à senhora. Não é consolo o que devemos buscar nessa prática, mas precisamos empreendê-la por um princípio de amor e porque Deus o quer.
Se fosse pregador, nada mais pregaria senão a prática da presença de Deus. Se fosse diretor espiritual, eu a recomendaria a todas as pessoas, porque acredito que seja a prática mais necessária e, até, a mais fácil.
Ah, se soubéssemos a necessidade que temos da graça e do auxílio de Deus, não o perderíamos de vista nem por um instante. Creia-me, e adote, a partir de agora, a resolução firme e sagrada de jamais novamente afastar-se Dele por vontade própria, e de passar o resto de seus dias nessa santa presença, privada, pelo amor de Deus, se Ele assim quiser, de todos os consolos do Céu ou da terra. Dedique-se a esse trabalho e, se o fizer de maneira adequada, pode ficar segura de que rapidamente verá os benefícios. Eu a auxiliarei com minhas orações, ainda que humildes. Recomendo-me encarecidamente às orações da senhora e de sua comunidade, sendo, de todas, e especialmente da senhora, etc.
CARTA NÚMERO 3
3 DE NOVEMBRO DE 1685
Reverenda e venerável Madre:
Recebi da senhorita X os rosários que a lhe confiou. Fiquei surpreso de que a senhora não me tenha dado sua opinião a respeito do livro que lhe enviei e que, agora, já deve ter recebido. Dedique-se intensamente, pelos derradeiros anos de sua vida, à prática de que ele trata; tarde é melhor do que nunca.
Não posso compreender como religiosos são capazes de viver satisfeitos sem a prática da presença de Deus. No que me diz respeito, tanto quanto posso, mantenho-me recolhido Nele, no fundo e no centro de minha alma, e nada temo enquanto assim estou com Ele. Afastar-me Dele, porém, ainda que por pouco, é um inferno.
Esse exercício não mata o corpo. Entretanto, é até bom, de tempos em tempos, e, mesmo, freqüentemente, privar o corpo de pequenas satisfações inocentes e lícitas, porque, quando uma alma quer devotar-se inteiramente a Deus, Ele não admite que ela tenha outras delícias. Isto é mais que razoável.
Não quero dizer que seja necessário contrariar-se muito. Não. Precisamos servir a Deus em santa liberdade, tratando fielmente do que devemos fazer, mas sem perturbação ou inquietude excessivas, trazendo a mente de volta a Deus, suave e tranqüilamente, sempre que descobrirmos que ela está divagando.
É necessário, contudo, pôr toda nossa confiança em Deus, deixando de lado todos os outros cuidados, até um grande número de devoções particulares que, embora muito boas, algumas vezes nos sobrecarregam de modo inconveniente. Essas devoções são apenas meios para se atingir um fim. Se, portanto, por este exercício da presença de Deus, estamos com Ele, que é a nossa meta, é inútil voltar aos meios. Em vez disso, podemos continuar nosso amoroso intercâmbio com Ele, permanecendo em Sua santa presença — seja por um ato de adoração, de louvor, de desejo, seja por atos de oferenda, ação de graças, ou por quaisquer outros que nossa mente conceba.
Não se sinta desencorajada pela repugnância que isso causa a sua natureza. A senhora precisa violentar essa natureza. Freqüentemente, no começo, pode pensar que é uma perda de tempo, mas deve resolver-se a continuar perseverando até a morte, a despeito de todas as dificuldades. Recomendo-me às orações de sua comunidade e às suas próprias em especial.
Sou, em Nosso Senhor, etc.
CARTA NÚMERO 4
(SEM DATA, PROVAVELMENTE 1689)
Senhora:
Fiquei verdadeiramente condoído com sua situação. Se a senhora puder deixar o trato de seus negócios ao senhor e à senhora X, e não se ocupar de outra coisa a não ser a oração a Deus, isto vale por um golpe de estado. Deus não pede muito de nós. Pede-nos um pensamento Nele de vez em quando ou um breve ato de adoração; às vezes, que oremos por Sua graça ou Lhe ofereçamos nossos sofrimentos; às vezes, que Lhe agradeçamos as graças que nos foram e são concedidas. Em meio às dificuldades que a afligem, encontre conforto Nele tão freqüentemente quanto possível. Durante as refeições ou na conversação social, erga, por vezes, seu coração a Ele. A mínima recordação Dele será sempre muito agradável. Não é preciso gritar, porque Ele está mais próximo de nós do que podemos imaginar.
Para estar com Deus, não é necessário ir sempre à igreja. Podemos fazer de nossos corações uma capela para onde nos retiramos, de tempos em tempos, para. conversar com Ele, suave, humilde e amorosamente. Todos são capazes dessa conversa íntima com Deus; alguns, mais, alguns, menos. Ele sabe o que podemos fazer. Vamos começar. Talvez Ele esteja esperando apenas uma generosa resolução de nossa parte. Tenha ânimo. Resta-nos pouco tempo para viver. A senhora está com cerca de sessenta e quatro anos e eu, com quase oitenta. Vamos viver e morrer com Deus. Os sofrimentos nos serão sempre mais doces e agradáveis quando estivermos com Ele e, sem Ele, os maiores prazeres serão cruel suplício. Que Ele seja bendito por todos. Amém.
Pouco a pouco, habitue-se a adorá-Lo deste modo, pedindo-Lhe Sua graça, oferecendo-Lhe o coração vez por outra, ao longo do dia, enquanto faz alguma coisa, em todos os momentos em que possa. Não se imponha regras especificas ou formas particulares de devoção, mas tenha fé, amor e humildade.
Pode garantir ao senhor e à senhora de X e à senhorita X que eles têm minhas humildes orações. Sou um servidor deles e, em especial, da senhora, em Nosso Senhor.
Irmão....
CARTA NÚMERO 5
(SEM DATA, PROVAVELMENTE 1682/83)
Reverendo Padre
Como não encontrei meu modo de viver descrito nos livros, embora isso não me incomode realmente, gostaria, entretanto, de conhecer, por segurança, sua opinião a respeito de meu estado presente.
Alguns dias atrás, conversando com uma pessoa piedosa, ela me disse que a vida espiritual é uma vida de graça que começa com temor servil, é ampliada pela esperança da vida eterna e se consuma em puro amor, e diferentes pessoas têm diferentes graus desses estádios, pelos quais alcançam essa bem-aventurada consumação.
Não segui, de nenhum modo, todos esses métodos; ao contrário, desde o começo descobri que eles me assustavam, não sei porquê. Foi por essa razão que, quando entrei na vida religiosa, resolvi dar-me inteiramente a Deus para expiação dos meus pecados, e renunciar, por Seu amor, a tudo que não fosse Ele.
Durante os primeiros anos, em minhas orações, costumava pensar na morte, no juízo, no Inferno, no Céu e nos meus próprios pecados. Assim continuei por alguns anos; durante o resto do dia, mesmo durante o trabalho, aplicava-me cuidadosamente à presença de Deus, que considerava sempre junto a mim, freqüentemente no próprio fundo de meu coração. Isso me conferiu um apreço tão grande por Deus que só a fé me podia satisfazer.
Sem sentir, acabei fazendo a mesma coisa durante o tempo dedicado à oração, com grande felicidade e consolo. Foi assim que comecei.
Entretanto, é preciso confessar que sofri bastante durante os dez primeiros anos. O temor de não ser tão dedicado a Deus quanto desejava, a memória de meus antigos pecados sempre diante de mim e a graça exuberante que Deus me concedia, tudo isso era a fonte e a substância dos meus males. Nesse período, continuei a cair muitas vezes, mas, com a mesma rapidez, levantava-me de novo. Parecia-me que as criaturas, a razão e o Próprio Deus estivessem contra mim, e que apenas a fé permanecesse a meu favor. Algumas vezes, era torturado pelo medo da presunção, porque eu afirmava ter alcançado logo o que outros só haviam obtido com dificuldade. Em outras ocasiões, era acometido pela fantasia de que estivesse provocando deliberadamente minha danação e que não havia salvação para mim.
Quando me resignei a viver meus dias no sofrimento dessas perturbações e angústias (o que de nenhum modo diminuiu minha confiança em Deus, antes aumentou minha fé) descobri, de repente, que havia mudado. Minha alma, até então sempre em torvelinho, experimentou profunda paz interior, como se tivesse encontrado seu centro e lugar de repouso.
Desde então, tenho feito meu trabalho diante de Deus com a simplicidade da fé, com humildade e amor, tentando, com todas as forças, nada fazer, nada dizer, nada pensar que possa desagradá-Lo. Espero que, tendo feito tudo o que podia, Deus me trate conforme Lhe agrade.
Não consigo exprimir o que me está acontecendo agora. Não tenho perturbações nem dúvidas a respeito de meu estado, assim como não tenho outra vontade que não a vontade de Deus. Tento realizá-la em todas as coisas e a ela me submeto de um modo tal que eu não realizaria o mero ato de apanhar do chão um pedaço de palha sem as ordens de Deus, nem o faria por outro motivo que não o puro amor a Ele.
Abandonei todos os atos de devoção e piedade que não sejam obrigatórios e, em vez disso, estou dedicado a manter-me sempre na sagrada presença Dele pelo simples ato de estar atento e por uma generalizada e amorosa consciência de Deus. Isto é o que eu chamo “presença real de Deus”, ou melhor, uma quase permanente conversa silenciosa e oculta da alma com Deus. Isto resulta, às vezes, em uma alegria e um contentamento interiores — e, freqüentemente, exteriores — de tal intensidade que, para mantê-los sob controle e impedir que se mostrem externamente, sou constrangido a me comportar de maneira pueril, mais parecendo um doido que um devoto.
Enfim, reverendo Padre, não posso duvidar de que minha alma tenha estado com Deus por mais de trinta anos. Deixarei de mencionar muitas coisas para não fatigá-lo, mas creio que seja adequado explicar-lhe como penso em mim mesmo em relação a Deus, que concebo como meu rei.
Vejo-me como o mais miserável dos seres humanos, recoberto de chagas, de corrupção, culpado de toda sorte de crimes contra seu rei. Tomado por sincero remorso, confesso a Ele toda a minha maldade. Imploro seu perdão e ponho-me nas mãos Dele, para que faça comigo o que quiser. Longe de castigar-me, porém, esse Rei pleno de bondade e misericórdia, beija-me amorosamente, faz-me sentar à mesa Dele, serve-me com Suas próprias mãos, dá-me as chaves de Seu tesouro e trata-me, em tudo, como Seu favorito. Ininterruptamente, conversa comigo e deleita-Se na minha companhia de maneiras incontáveis, sem tocar no meu perdão nem cancelar meus hábitos anteriores. Embora Lhe implore que faça comigo segundo Seu coração, ainda me vejo mais fraco e desprezível, e, todavia, cada vez mais acarinhado por Deus. E assim que me vejo, de tempos em tempos, em Sua presença sagrada.
Minha atitude mais comum é esse simples estar atento e a generalizada e amorosa consciência de Deus, a Quem me sinto freqüentemente apegado, colhendo disso maior doçura e satisfação do que as de um bebê apegado ao seio de quem o amamenta. Portanto, se me for permitida a ousadia de tal expressão, em virtude da indizível doçura que Nele tenho provado e experimentado, gostaria de chamar esse estado de “seio de Deus”.
Se, em alguma ocasião, por necessidade ou por fraqueza, afasto-me Dele, sou logo chamado de volta por uma comoção interior tão deliciosa e encantadora que me constrange falar nela. Mas eu lhe imploro, reverendo Padre, que tenha presentes minhas grandes imperfeições, que o senhor conhece muito bem, em vez dessas abundantes graças com que Deus favoreceu minha alma, ignorante e indigno que sou.
Quanto às horas de oração, elas representam o prosseguimento deste mesmo exercício. Algumas vezes, imagino-me um pedaço de pedra ante um escultor que deseja fazer uma estátua. Apresentando-me assim perante Deus; peço-Lhe que represente Sua imagem perfeita em minha alma e que me torne completamente como Ele Próprio.
Em outras ocasiões, logo que me dedico a essa prática, sinto toda minha alma e todo o meu espírito elevarem-se, sem qualquer cuidado ou esforço de minha parte, e assim permanecem, tal qual tivessem sido suspensos e mantidos em Deus como seu centro e lugar de repouso.
Sei que algumas pessoas chamariam a este estado ociosidade, ilusão e amor-próprio. Admito que haveria nisto uma santa ociosidade e um amor-próprio bem-aventurado se, neste estado, a alma fosse capaz de sentir-se assim. Na verdade, neste estado de repouso, a alma não pode ser perturbada pelos atos anteriores em que se apoiava; agora, em vez de serem de auxílio, eles lhe causariam mal-estar.
Não posso, porém, admitir que este estado seja chamado de ilusório, porque a alma, neste estado, desfruta de Deus e só a Ele deseja. Se isto for ilusão minha, então pertence a Deus corrigir as coisas. Que Ele faça de mim o que quiser, porque só busco a Ele e quero ser completamente Dele.
Muito agradeceria que o senhor me comunicasse sua opinião, a qual muito significa para mim, pois tenho por Vossa Reverência grande consideração, e sou, reverendo Padre, em Nosso Senhor, etc.
CARTA NÚMERO 6
(SEM DATA)
Reverenda e venerável Madre:
Embora minhas orações valham pouco, a senhora não deixará de tê-las, como prometi; mantenho minha palavra. Que felicidade se pudéssemos encontrar o tesouro de que fala o Evangelho! Nada mais teria importância. Sendo infinito, quanto mais procurássemos, mais riquezas encontraríamos. Vamos dedicar-nos a procurá-lo incessantemente, sem nos sentirmos esgotados até que tenhamos êxito.
Finalmente, reverenda Madre, não sei o que será de mim. Parece-me que a paz da alma e o repouso da mente vêm a mim durante o sono. Se eu fosse capaz de sofrer, seria por não ter absolutamente nenhum sofrimento e, se isso me fosse permitido, de boa vontade me consolaria a existência de um Purgatório onde pudesse sofrer para a expiação de meus pecados. Só sei que Deus olha por mim. Minha tranqüilidade é tão grande que nada temo. O que poderia temer quando estou com Ele? Agarro-me a Ele com todas as minhas forças. Que Ele seja bendito por todos. Amém.
CARTA NÚMERO 7
12 DE OUTUBRO DE 1688
Senhora:
Temos um Deus infinitamente bom, que conhece todas as nossas necessidades. Sempre acreditei que Ele a faria passar por uma situação de extrema dificuldade. A seu tempo, quando a senhora menos esperar, Ele virá. Tenha, mais do que nunca, confiança Nele. Junte-se a mim no agradecimento a Ele pelas graças que Ele lhe concede, especialmente pela força e pela paciência que lhe dá em suas aflições. Este é um sinal óbvio do cuidado Dele com a senhora. Portanto, encontre seu consolo Nele e agradeça-Lhe por todas as coisas.
Também admiro a força e a coragem do senhor de X. Deus deu a ele boa natureza e boa-vontade, mas ele ainda é um pouco mundano e demasiadamente jovem. Espero que a aflição que Deus lhe enviou sirva como um remédio eficaz que o fará voltar a si. Esta é uma oportunidade que ele tem de colocar toda sua confiança Naquele que sempre o acompanha. Que ele se lembre de Deus sempre que puder, especialmente nos momentos de maior perigo.
É suficiente um breve elevar do coração, uma rápida lembrança de Deus, um ato de adoração interior — mesmo enquanto corre de espada na mão. Essas orações, pequenas que sejam, agradam muito a Deus e, ao contrário de fazer com que os militares percam a coragem nas situações mais perigosas, elas os fortificam. Que ele pense nisso tão freqüentemente quanto possível, de modo que fique gradualmente acostumado a esse exercício simples, embora sagrado; ninguém o vê, e nada há mais fácil do que repetir esses pequenos atos interiores de adoração, repetidas vezes, ao longo do dia. Por favor, recomende-lhe que se lembre de Deus tanto quanto possa, do modo pelo qual estou sugerindo aqui. Isto é bastante próprio e muito necessário a um soldado cotidianamente exposto às ameaças a sua vida e, não raro, a sua salvação. Espero que Deus auxilie a ele e a toda a família, a quem envio minha saudação e sou de todos, muito humildemente, etc.
CARTA NÚMERO 8
(SEM DATA)
Reverenda e venerável Madre:
A reverenda Madre nada me está dizendo de novo, e não é a única cujos pensamentos ficam agitados. A mente é extremamente fugidia, mas a vontade, senhora de todas as nossas potências, precisa recordá-la de Deus e trazê-la de volta para Ele como sua meta final.
Se a mente não foi disciplinada desde cedo, contraiu hábitos perniciosos, difíceis de superar, que a tornam distraída e dispersiva, e essas tendências nocivas geralmente nos arrastarão para as coisas terrenas, não obstante nossos esforços.
Acho que o remédio de nossos problemas é confessarmos nossas faltas e humilharmo-nos diante de Deus. Meu conselho é que não faça longos discursos durante a oração, porque, na maior parte das vezes, eles favorecem a divagação da mente. Fique diante de Deus como um pobre, mudo e paralítico, às portas de um homem rico. Empenhe-se em estar atenta à presença do Senhor. Se a mente divaga ou, eventualmente, fica absorta, não se inquiete, porque a inquietação serve, antes, para distrair a mente do que para concentrá-la: é preciso usar a vontade para recolher suavemente os pensamentos. Se assim perseverar, Deus terá compaixão da senhora.
Um modo fácil de conservar a mente mais quieta e evitar que ela divague durante o período de oração é não deixar que ganhe impulso ao longo do dia. É preciso mantê-la rigorosamente na presença de Deus e, uma vez que a senhora esteja acostumada a pensar Nele o tempo todo, não lhe será difícil permanecer tranqüila durante a oração ou, pelo menos, trazer a mente de volta quando ela divagar.
Em minhas outras cartas, falei-lhe extensamente a respeito das vantagens que se obtêm dessa prática da presença de Deus. Vamos devotar-nos a isto de maneira séria, e orar um pelo outro. Recomendo-me às orações da Irmã X e da reverenda Madre Y.
Em Nosso Senhor, muito humildemente, etc.
CARTA NÚMERO 9
28 DE MARÇO DE 1689
Aqui vai minha resposta à carta de nossa cara Irmã X. Queira, por gentileza, dar-se ao incômodo de entregá-la. A Irmã me parece cheia de boa-vontade, mas quer andar mais rápido do que a graça. A pessoa não se torna santa em um dia! Eu a recomendo à senhora, porque precisamos ajudar-nos uns aos outros com conselhos e, mais ainda, com nossos bons exemplos. Agradeceria muito se a senhora me desse notícias dela de vez em quando, dizendo se ela é mesmo bastante fervorosa e obediente.
Vamos recordar com freqüência, prezada Madre, que nossa única obrigação nesta vida é agradar a Deus e que tudo o mais é, talvez, vaidade e loucura. Passamos mais de quarenta anos na vida religiosa. Será que usamos esse tempo para amar e servir Deus que, em Sua misericórdia, nos chamou? Encho-me de vergonha e constrangimento quando considero, de um lado, as grandes graças que Deus me deu e continua incessantemente a dar e, de outro lado, o uso tão insatisfatório que delas faço e como é pequeno o proveito que tiro dessas graças no caminho da perfeição.
Já que, em sua misericórdia, Ele nos dá algum tempo, comecemos de uma vez! Vamos recuperar o tempo perdido e voltar a esse Pai de bondade com plena confiança. Ele está sempre pronto a nos receber amorosamente. Vamos renunciar, prezada Madre, e renunciar generosamente, pelo amor de Deus, a tudo o que não seja Ele; Deus merece infinitamente mais. Vamos pensar Nele continuamente. Vamos colocar Nele toda a nossa confiança. Não tenho dúvidas de que logo colheremos os benefícios disso, e a abundância de Sua graça, com a qual podemos fazer tudo e sem a qual só podemos pecar, não deixará a desejar.
Sem o auxílio permanente e real de Deus, é impossível evitar os perigos e os escolhos de que a vida está cheia. Vamos pedir-Lhe esse auxílio o tempo todo. Como, porém, pedir-Lhe isto, a menos que estejamos com Ele? Como estar com Ele, a menos que pensemos Nele freqüentemente? Como pensar Nele freqüentemente, a menos que disso façamos um hábito santo que precisamos criar? A senhora vai-me dizer que sempre repito a mesma coisa. É verdade. Não conheço meio mais adequado ou fácil do que este. E desde que não pratico qualquer outro, recomendo-o a toda gente. Precisamos conhecer antes de amar. Para conhecer Deus, precisamos pensar Nele amiúde. E quando nosso amor for forte, pensaremos Nele muito freqüentemente, porque nosso coração estará onde está nosso tesouro. Pensemos Nele, de maneira intensa e costumeira.
Seu servidor muito humilde etc.
CARTA NÚMERO 10
29 DE OUTUBRO DE 1689
Senhora:
Realmente, foi bastante difícil para mim dispor-me a escrever ao senhor de X, e estou fazendo isto apenas porque a senhora e a senhora de X querem que eu o faça. Por favor, tenham a gentileza de sobrescritar e enviar essa carta. Fico muito satisfeito com a confiança que a senhora tem em Deus; espero que Ele a amplie cada vez mais. Não há como exagerar a confiança em um Amigo tão bom e fiel, que jamais nos faltará, neste mundo ou no além.
Se o senhor de X pudesse saber como tirar proveito das perdas que sofreu e colocasse toda a sua confiança em Deus, logo Ele lhe daria outro amigo mais poderoso e melhor intencionado, porque Deus dispõe os corações como Lhe agrada. Talvez houvesse impulsos naturais e apego demasiado do senhor de X em relação ao que ele perdeu; precisamos amar nossos amigos, mas sem prejuízo do amor a Deus, que precisa vir primeiro. Lembre-se, peço-lhe encarecidamente, do que lhe recomendei, que é pensar em Deus freqüentemente, dia e noite, em todas as suas atividades, exercícios e, mesmo, durante seu entretenimento. Ele está sempre junto à senhora e com a senhora; não O deixe sozinho. A senhora acharia grosseiro não fazer companhia a um amigo que fosse visitá-la. Então, por que abandonar a Deus e deixá-Lo sozinho? Não O esqueça! Pense Nele com freqüência. Adore-O continuamente. Viva e morra com Ele. Esta é a verdadeira ocupação de um cristão; em uma palavra, este é o nosso trabalho. Se não soubermos fazer isto, precisamos aprender. Eu a ajudarei com as minhas orações.
Sou, em Nosso Senhor etc.
CARTA NÚMERO 11
17 DE NOVEMBRO DE 1690
Reverenda e venerável Madre:
Não pedirei a Deus que a livre de suas provações, mas pedirei a Ele, encarecidamente, que lhe dê a paciência e a força necessárias para sofrer durante todo o tempo que Ele queira. Encontre consolo Nele que a mantém em sua cruz; Ele a libertará quando achar adequado. Felizes aqueles que sofrem com Ele. Habitue-se a sofrer assim e peça-Lhe forças para sofrer o que Ele queira e por tanto tempo quanto Ele julgue que lhe seja necessário. O mundo não compreende essas verdades, e isso não me surpreende, porque as pessoas sofrem como cidadãos deste mundo e não como cristãos. Consideram as doenças aflições naturais e não graças de Deus; portanto, só encontram nelas o que é penoso e contrário à natureza. Mas aqueles que as vêem como vindas da mão de Deus, como sinais de Sua misericórdia e meios que Ele usa para salvação das pessoas, nelas encontram, geralmente, grande doçura e perceptível consolação.
Gostaria que a senhora estivesse convencida de que, freqüentemente, Deus está mais próximo de nós nas épocas de moléstia e sofrimento do que quando gozamos de perfeita saúde. Não procure outro médico, senão Ele. Tanto quanto posso compreender, Deus quer curá-la Ele Próprio. Ponha Nele toda a sua confiança, e logo experimentará os benefícios que retardamos ao confiar mais nos remédios do que em Deus.
Quaisquer que sejam os remédios que a senhora possa usar, eles só funcionarão na medida em que Deus o permita. Quando o sofrimento vem de Deus, só Ele pode curar e, muitas vezes, Ele nos deixa com a doença física a fim de curar nossa doença espiritual. Encontre consolo no soberano Médico do corpo e da alma.
Prevejo sua resposta: que é fácil para mim, já que como e bebo à mesa do Senhor. A senhora tem razão. Recorde-se, porém, de que é algum sofrimento para o maior dos criminosos do mundo comer à mesa do Rei e ser servido por Suas mãos sem, entretanto, ter recebido a garantia do perdão. Creio que esse criminoso sentiria um grande sofrimento, só diminuído pela confiança na bondade do Senhor soberano.
Do mesmo modo — eu lhe garanto — não importa a prazer que eu possa sentir em comer e beber à mesa de meu Rei, atormentam-me, não obstante, meus pecados sempre presentes diante dos meus olhos, bem como a falta de certeza a respeito do meu perdão. Entretanto, sinceramente, o sofrimento me é agradável.
Fique contente no estado em que Deus a colocou. Não importa o quanto a senhora ache que sou feliz, eu a invejo. Essas dores e esses sofrimentos seriam um paraíso se eu pudesse sofrer com Deus, e os maiores prazeres seriam o inferno se eu tivesse de gozar deles sem Deus. Todo o meu consolo seria sofrer alguma coisa por Ele.
Estou próximo de ir ver Deus, quero dizer, a prestar a Ele minhas contas. Porque se eu pudesse ver Deus, embora por um momento, os tormentos do Purgatório me seriam doces, ainda que durassem até o fim do mundo. O que me consola nesta vida é que eu vejo Deus por intermédio da fé. E O vejo de tal maneira que algumas vezes posso dizer: “já não creio; eu vejo, experimento o que a fé ensina”. E com esta garantia, por esta prática de fé, viverei e morrerei com Ele.
Portanto, apegue-se sempre a Deus que é o único conforto em seu sofrimento. Orarei a Ele para que Se mantenha em companhia da senhora. Minhas saudações à reverenda Madre Priora. Recomendo-me às santas orações dela, às da comunidade e às suas.
Sou, em Nosso Senhor, etc.
CARTA NÚMERO 12
(SEM DATA)
Reverenda Madre:
Vou contar-lhe, já que a senhora insiste, o método que usei para chegar a este estado de percepção da presença de Deus que Nosso Senhor, em sua misericórdia, me concedeu. Não posso ocultar o quanto me repugna atender a sua insistência, mesmo com a condição de que a senhora não mostre minha carta a ninguém. Se eu achasse que a senhora iria permitir que alguém a visse, todo o meu desejo de sua perfeição não me faria concordar. E o que lhe posso dizer a respeito deste assunto.
Tendo encontrado, em diversos livros, métodos diferentes para a pessoa aproximar-se de Deus e práticas diversas da vida espiritual, receei que tudo isso viesse a ser uma carga para minha mente, em vez de facilitar o que eu queria e buscava, a saber, um meio para que Deus dispusesse de mim completamente. Isto me levou à resolução extrema. Assim, após oferecer-me completamente a Deus para o castigo dos meus pecados, renunciei, pelo amor Dele, a tudo o que não fosse Deus, e comecei a viver como se apenas Ele e eu existíssemos no mundo. Algumas vezes, eu me considerava diante dele como um criminoso aos pés do seu juiz e, outras vezes, eu o via, em meu coração, como meu pai, como meu Deus. Ali eu o adorava tão freqüentemente quanto possível, mantendo minha mente em Sua sagrada presença e voltando a Ele todas as vezes que me distraía. Tive não poucos problemas para fazer esses exercícios, mas continuei, apesar de todas as dificuldades que encontrei, sem ficar perturbado ou inquieto quando me distraía involuntariamente. Ocupava-me dessa prática durante as atividades do dia com a mesma intensidade com que me entregava a ela nos períodos de oração, pois, todo o tempo, a toda hora, em todos os momentos, nos mais intensos períodos de trabalho que tinha, eu bania e afastava da mente tudo o que fosse capaz de retirar de mim o pensamento de Deus.
Isto, reverenda Madre, é meu exercício habitual desde que entrei para a vida religiosa. Embora o tenha praticado de maneira débil e imperfeita, recebi, não obstante, numerosos benefícios. Sei, certamente, que isto se deve à misericórdia e à bondade do Senhor — é preciso que os méritos Lhe sejam atribuídos — já que nada podemos fazer sem Ele, eu ainda menos do que os outros. Quando, porém, nos mantemos fielmente em Sua sagrada presença, vendo-O sempre diante de nós, não apenas evitando ofendê-Lo ou desagradá-Lo, pelo menos deliberadamente, mas considerando-O do modo como descrevi, adquirimos uma liberdade santa de pedir-Lhe as graças de que necessitamos. Enfim, à força de repetir esses atos, eles se tornam mais familiares e a presença de Deus se torna como que natural. Acompanhe-me, por favor, no agradecimento a Ele por Sua grande bondade para comigo, porque não posso apreciar com grandeza suficiente o número enorme de graças que Ele me concedeu, a mim, miserável pecador. Que todos o bendigam. Amém.
Sou, em Nosso Senhor, etc.
CARTA NÚMERO 13
28 DE NOV EMBRO DE 1690
Minha cara Madre
Se estivéssemos verdadeiramente acostumados à prática da presença de Deus, todas as doenças do corpo seriam fáceis de suportar. Deus, muitas vezes, permite que soframos um pouco para purificar nossas almas e fazer-nos permanecer com Ele. Não posso compreender que uma alma que esteja com Deus e queira apenas a Ele seja capaz de sofrer; eu mesmo tenho bastante experiência disto para não abrigar dúvidas.
Tenha coragem. Ofereça continuamente a Ele seus sofrimentos, enquanto Lhe pede as bênçãos para suportá-los. Acima de tudo, habitue-se a conversar com Ele freqüentemente e tente jamais esquecê-Lo. Adore-O em suas enfermidades e, vez por outra, ofereça-Lhe seus sofrimentos. Quando sua dor estiver maior, peça-Lhe, com amor e humildade, como um filho pede a seu benevolente pai, para conformar-se com a santa vontade Dele, bem como para receber o auxílio de Sua graça. Eu a ajudarei com minhas preces toscas e insignificantes.
Deus tem vários modos de nos atrair a Ele. Algumas vezes, Ele se esconde de nós, mas apenas a fé — que nunca falta quando necessitamos — deve ser nosso apoio e o alicerce de nossa confiança, e esta se deve pôr inteiramente em Deus.
Não sei o que Deus quer fazer comigo. Estou cada vez mais contente. Todos sofrem, e eu, que deveria passar por rigorosas penitências, experimento tão perenes e profundas alegrias que tenho dificuldade em mantê-las sob controle.
De bom grado pediria a Deus que me desse parte dos sofrimentos da senhora, se não soubesse a extensão da minha fraqueza, tão grande que, se Ele me deixasse à minha própria sorte por um momento, eu seria a mais miserável das criaturas. Não sei, porém, como Ele poderia deixar-me sozinho, já que a fé me permite tocá-Lo com as mãos e Ele nunca se afasta de nós a menos que nós, primeiro, nos afastemos Dele. Tenhamos, pois, o cuidado de não nos afastarmos Dele. Estejamos sempre com Ele. Vamos viver e morrer com Ele. Ore por mim e eu, pela senhora.
CARTA NÚMERO 14
21 DE DEZEMBRO DE 1690
Minha cara Madre:
Dói-me vê-la sofrer por tanto tempo. O que amaina minha compaixão por sua dor é que eu sei ser ela um sinal do amor de Deus pela senhora. Veja-a deste modo e a senhora descobrirá que fica fácil suportá-la. Acho que a senhora deveria abandonar todos os remédios humanos e entregar-se completamente á Providência divina; talvez Deus esteja apenas esperando esse abandono e uma perfeita confiança Nele para curá-la. Já que, a despeito de todos os seus cuidados, os remédios não tiveram o efeito esperado — ao contrário, seu sofrimento só aumentou — deve abandonar-se em suas mãos e confiar inteiramente Nele. Isto não é tentá-Lo.
Eu já lhe disse, em minha última carta, que Ele às vezes permite o sofrimento do corpo para curar a doença de nossas almas. Tenha coragem; faça da necessidade uma virtude. Não peça a Deus que a livre do sofrimento físico, mas, sim, que lhe dê forças para suportar corajosamente, apenas pelo amor Dele, tudo o que Ele desejar, por tanto tempo quanto Ele o deseje.
Essas orações, verdadeiramente difíceis para a natureza humana, agradam muito a Deus e são doces aos que O amam. O amor suaviza o sofrimento e, quando amamos Deus, sofremos por Ele com alegria e coragem. Faça assim, peço-lhe encarecidamente. Encontre consolo Nele que é o único remédio para todos os nossos males. Ele é o pai dos aflitos, sempre pronto a vir em nosso auxílio. Ele nos ama infinitamente mais do que podemos imaginar. Ame-O, portanto. Não busque alívio, a não ser Nele. Espero que a senhora receba rapidamente esse alívio. Adeus. Ajudarei com as minhas orações, insignificantes que sejam.
Sempre, em Nosso Senhor, etc.
- Esta manhã, na festa de São Tomás, comunguei em sua intenção.
CARTA NÚMERO 15
22 DE JANEIRO DE 1691
Madre Caríssima:
Rendo graças ao Senhor por lhe ter dado algum alívio, como a senhora desejava. Estive prestes a morrer muitas vezes. Embora não estivesse assim tão contente, também não pedi alívio, mas forças para sofrer com bravura, humildade e amor. Coragem, Madre caríssima! Ah! Como é doce sofrer com Deus! Não importa quão grande seja o sofrimento, aceite-o com amor, porque sofrer estando com Deus é um Paraíso. Se queremos gozar da paz do Paraíso nesta vida, precisamos ficar acostumados a conversar com Deus de maneira familiar, humilde e amorosa. Precisamos impedir que nossas mentes fiquem divagando por qualquer razão. Precisamos tornar nosso coração um templo espiritual onde O adoramos continuamente. Precisamos manter-nos constantemente em guarda para não fazermos, dizermos ou pensarmos qualquer coisa que pudesse desagradá-Lo. Quando dermos esse tipo de atenção a Deus, o sofrimento já não será mais que doçura, bálsamo e consolação.
Sei que, para alcançar este estado, os primeiros passos são muito difíceis e que precisamos agir puramente segundo a fé. Além disso, sabemos que podemos fazer qualquer coisa com a graça de Deus, e Ele jamais a recusa àquele que perseverantemente Lhe pede. Bata à porta. Continue batendo e eu lhe digo que, se a senhora não desistir, Ele a abrirá para a senhora quando achar conveniente e lhe dará, de repente, o que esteve guardando durante anos. Adeus. Ore por mim como eu oro pela senhora. Espero vê-Lo brevemente.
Em Nosso Senhor, etc.
CARTA NÚMERO 16
6 DE FEVEREIRO DE 1691
Minha cara Madre:
Deus sabe muito bem o que necessitamos, e tudo o que Ele faz é em nosso benefício. Se soubéssemos o quanto Ele nos ama, estaríamos prontos para aceitar igualmente de Suas mãos o doce e o amargo, e até as coisas mais dolorosas e difíceis seriam agradáveis e prazerosas. Os sofrimentos mais agudos, geralmente, só nos parecem insuportáveis porque os vemos na perspectiva errada. Quando estamos convencidos de que é a mão de Deus que age em nós — que Aquele que nos permite sofrer a humilhação, a dor e o sofrimento é um Pai cheio de amor — toda a amargura é afastada e apenas a doçura permanece.
Devotemo-nos inteiramente a conhecer Deus. Quanto mais O conhecermos, mais vamos querer conhecê-Lo. Como o amor é, geralmente, medido pelo conhecimento, quanto mais profundo e extenso o conhecimento, maior será o amor e, se nosso amor for grande, nós O amaremos por igual na dor e no consolo.
Não nos limitemos a buscar ou amar a Deus apenas pelas graças que Ele nos deu ou que nos possa dar, não importa quão grandes sejam. Esses favores, embora impressionantes, jamais nos levam tão próximo a Ele quanto um simples ato de fé. Vamos buscá-lo, repetidamente, por meio dessa virtude. Ele está no meio de nós. Não vamos procurar por Ele em outra parte. Não temos tido a grosseria e, mesmo, a culpa de deixá-Lo sozinho quando estamos ocupados com tantas ninharias que tanto O desagradam e talvez O ofendam? Ele pode tolerar isto, mas devemos temer que estas coisas nos possam custar muito caro algum dia.
Comecemos a ser completamente Dele e banir tudo mais de nossos corações e de nossas mentes. Ele quer neles estar sozinho; assim, vamos pedir-Lhe essa graça. Se fizermos o que pudermos de nossa parte, logo veremos em nós mesmos a transformação que esperamos. Não sei como agradecer suficientemente a Deus o alívio que Ele lhe concedeu. Espero da misericórdia Dele a graça de vê-Lo em alguns dias *. Vamos orar um pelo outro.
Sou, em Nosso Senhor, etc.
* O Irmão Lourenço ficaria doente dois dias depois e faleceria a 12 de fevereiro de 1691.
Irmão Lourenço da Ressurreição,
encontraste Deus no trabalho da tua cozinha.
Fostes para quem te conhecia
uma testemunha luminosa de Deus vivo e próximo.
Intercede (pela graça),
e roga ao Senhor para que, como tu,
eu toma consciência da sua Presença amada,
fazendo as pequenas coisas do meu dia
no seu amor e por aqueles que me rodeiam.
Amém
Fonte: https://textoscarmelitas.blogspot.com
- Detalhes
“HOMEM, QUEM ÉS TU?”: MEDITAÇÃO CRISTÃ PROFUNDA
WILFRIED STINISSEN
Tradução: Frei Gabriel Haamberg, O. Carm
FREI WILFRIED STINISSEN
Uma corrente de paz
“Vou fazer correr sobre ela um rio de paz” (Ez 66,12). “Nosso Deus é um Deus de paz”. (I Cor 14,33). Derrama sua paz sobre você, não somente sobre sua alma, mas também sobre seu corpo. A sua paz é como “um ungüento fino sobre a cabeça e que desce pela barba... até a orla de suas vestes”(Sl 133, 2). Deixe esse óleo santo escorrer lentamente sobre a cabeça, os ombros, os braços, o peito, o ventre, as pernas, os pés. Que nenhuma parte do corpo escape a este contato benfazejo. À medida que o corpo se deixa tocar pela paz de Deus, perde todas as tensões. Abandona toda a resistência. Aquilo que estava bloqueado se desfaz. O que estava endurecido se torna flexível. Você sente a paz penetrar pouco a pouco em todo corpo, estendendo-se até alcançar em você o homem interior. Deus derrama um bálsamo sobre seu corpo e sua alma, um bálsamo que refresca, purifica e consola.
Deixe que a paz de Deus mais uma vez se derrame sobre você, e talvez mais uma vez, até poder dizer: “Minha alma está em paz e em silêncio como uma criança nos braços da mãe” ( Sl 131,2). Deus comunicou-lhe algo de seu próprio repouso.
Isso não impede certamente que apareçam pensamentos e preocupações. O trabalho que está à sua espera bate à porta de sua memória e imaginação. Não lute contra isso, não se ponha a discutir. Em vez disso, submerja de novo na paz de Deus. Desça antes na correnteza da paz de Deus. Esta descida em você tornar-se-á mais fácil, repetindo suavemente depois de cada distração: “Volta, minha alma, a teu repouso porque Deus cuidará de ti” (Sl 116,7).
Banhe-se freqüentemente na paz de Deus! Não considere isso como uma fuga da realidade; pelo contrário, você está penetrando mais profundamente na realidade autêntica; você distingue mais facilmente a verdade da mentira, o essencial do acessório.
“E a paz de Deus, que supera toda inteligência, guardará seu coração e seus pensamentos em Jesus Cristo” (Fl 4,7).
“O verdadeiro amor expulsa o temor” (I Jo 4,18)
Aquele que reconhece o amor como sua essência, não tem medo de perdê-lo ou que outros o firam. Oh! como tememos que outros venham pisotear nossa personalidade e colocar entraves ao nosso desenvolvimento! O amor que somos não pode ser roubado. A expressão “meu amor” é uma contradição consigo mesma, porque no amor não existe “meu” nem “teu”. Quem tem medo de perder a personalidade, deveria exercitar-se em fundi-la, sempre novamente, dissolvê-la no amor e pensar em si, somente em termos de amor. Só então existe a verdadeira personalidade, a única que importa.
A mesma coisa acontece com o medo de morrer. Não se pode mais falar de morte quando se compreende o que é a vida. Não existe morte para aquele que conhece a vida: “Quem vive e crê em mim jamais morrerá” (Jo 11,26). A única coisa importante é encontrar a vida! Quem descobriu a vida já resolveu a questão da morte. A morte converte-se numa impossibilidade. Santo Agostinho afirma que o mal não tem existência metafísica: o mal é simplesmente uma ausência do ser. O mal não vem de Deus, e sim do demônio e ele não pode criar realidade, somente pode pervertê-la. Ele é o mentiroso (Jo 8,44). A morte é igualmente ausência do ser. A morte não é o antagonista à vida. O que existe é a vida, a paz, a alegria. Porém podemos afastar-nos da vida, ou melhor, não querer enxergá-la, fechar os olhos e dizer que não há mais nada além das sombras. Bastaria abrir os olhos para descobrir que tudo é luz. Podemos fazer o papel do avestruz escondendo a cabeça debaixo da areia na hora da tempestade. A realidade, isto é, a substância de tudo o que existe é luz. “Eu sou a luz do mundo”, diz Jesus, “quem me segue, não caminhará nas trevas, pois possui a luz da vida” (Jo 8,12)
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Nesta quinta-feira 7 o confrade, Frei Gabriel Haamberg, O. Carm., ou, Frei Hendrikus Wilhelmus Johannes Haamberg, após passar por uma cirurgia em São Paulo e alguns dias no Carmo da Bela Vista onde foi acolhido pela comunidade conventual, já está de volta ao convívio dos confrades, postulantes- que carinhosamente cuidam do confrade na casa do Postulantado - e a comunidade de Mogi das Cruzes já na expectativa das comemorações de Santo Ângelo nos próximos dias 16 e 17, onde se fará presente o Superior Provincial, Frei Thiago Borges, O. Carm., e o povo Deus.
Quais os próximos procedimentos médicos?
Lembramos que esta foi a segunda cirurgia na próstata e ocorreu dentro das expectativas esperadas. Nas próximas semanas ele estará de volta para uma avalição e irá submeter a mais uma cirurgia, dessa vez para a retirada de dois módulos de câncer de pele.
Nós, comunidade conventual e o povo de Deus, continuamos em oração. Sem mais, que a Senhora do Escapulário, os Profetas Elias, Eliseu e Santo Ângelo- O Santo da sua devoção- os protejam na sua batalha pela saúde.
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No Dia do santo de sua devoção- Santo Ângelo, Frei Gabriel já saiu do hospital após passar por uma cirurgia de 3 horas e já está no conventão/SP, onde ficará até a próxima quinta-feira em recuperação e atenção médica. O nosso agradecimento a comunidade conventual pelo carinho e apoio na pessoa do Prior Provincial.
Convento do Carmo da Bela Vista, São Paulo, 5 de maio-2026, Festa de Santo Ângelo, Mártir Carmelita.
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A Província Carmelitana Fluminense da Ordem do Carmo comunicou, com pesar, o falecimento de Frei Paulo Gollarte, O.Carm., ocorrido nesta quarta-feira, 29, aos 93 anos, em São Paulo. Ele exercia a função de Vigário Paroquial na Paróquia Santa Teresa de Jesus, no bairro do Itaim Bibi, por cerca de 30 anos.
Nascido no bairro da Mooca, em São Paulo, em 9 de agosto de 1932, filho de Manuel Gollarte e Maria Pellaro, Frei Paulo iniciou sua formação no Colégio Santo Alberto, dos Padres Carmelitas, na Bela Vista, onde despertou sua vocação religiosa. Desde a infância, nutria o desejo de celebrar no altar da Basílica Nossa Senhora do Carmo.
Ingressou no Seminário do Carmo, em Itu, e foi ordenado sacerdote em 7 de julho de 1957, na Capela do Colégio Internacional Santo Alberto, em Roma, onde concluiu os estudos de Teologia. Na Pontifícia Universidade Gregoriana, obteve o mestrado em Ciências Sociais, com a tese “A nacionalização na doutrina social da Igreja”, e o doutorado com o trabalho “Migração e Família”. Durante esse período, realizou pesquisa de campo em Portugal, analisando o impacto da migração — especialmente no fluxo Portugal-Brasil — sobre a unidade familiar.
Ao longo de sua trajetória, exerceu importantes funções na Ordem do Carmo. Foi eleito Superior Provincial por dois triênios (1988–1990 e 1997–2002), além de ter atuado junto ao Comissariado Geral de Portugal. Entre 1990 e 1996, foi pároco da Paróquia Santa Teresa de Jesus, onde posteriormente continuou seu ministério como vigário paroquial.
Frei Paulo também se destacou como autor de livros, artigos e editoriais. Foi membro da Academia Teresopolitana de Letras e publicou obras como Teresópolis: Dimensões de uma joia, Pensando em Voz Alta, Quando dizer não é preciso e Oremos com Maria, em coautoria com Frei Claudio van Balen, além de três volumes de homilias: Deus Compromete – Ciclo A, Deus tem a Palavra – Ciclo B e À escuta de Deus – Ciclo C.
Em nota, a Província Carmelitana Fluminense manifestou solidariedade aos familiares: “Neste momento de dor, unimo-nos em oração a todos os familiares, pedindo a Deus que conceda ao Frei Paulo o descanso eterno e que conforte os corações entristecidos pela sua partida”. Fonte: https://osaopaulo.org.br
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Venho comunicá-los, com pesar, o falecimento de nosso irmão, Frei Paulo Gollarte, O. Carm.
Damos graças a Deus por sua vida e vocação, vividas com fidelidade em nossa Província e na Ordem. Confiamos que o Senhor o acolha em sua paz eterna. Unidos na esperança da Ressurreição, recomendamos sua alma à intercessão de Nossa Senhora do Carmo e pedimos orações por seu descanso eterno.
“Dai-lhe, Senhor, o descanso eterno, e brilhe para ele a vossa luz.”
Velório na Paróquia Santa Teresa de Jesus, Itaim Bibi, São Paulo
8h Início do Velório com Missa de Corpo Presente.
12:15 Missa de Corpo Presente.
15h Missa de Corpo Presente e Exéquias.
16h Sepultamento VOTC - Consolação.
BIOGRAFIA
Nascido no bairro da Moóca em São Paulo no ano de 1932, filho de Manuel Gollarte e de Maria Pellaro, Frei Paulo estudou no Colégio Santo Alberto dos Padres Carmelitas, na Bela Vista, quando foi se afeiçoando cada vez mais à Igreja.
Desde criança, sonhava em celebrar no altar da Basílica Nossa Senhora do Carmo. Assim, ingressou no Seminário do Carmo em Itu e, em 7/07/1957, foi ordenado sacerdote na Capela do Colégio Internacional Santo Alberto em Roma, onde esteve para terminar os estudos de Teologia.
Na Faculdade de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, fez o mestrado com a tese “A nacionalização na doutrina social da Igreja”. Também em Roma defendeu a tese de doutorado com o título “Migração e Família”. Estagiou em Portugal no exercício da pesquisa de campo entre as famílias ali residentes para estudar o impacto da emigração sobre a unidade familiar, em especial no fluxo migratório Portugal-Brasil.
Por dois triênios 1988-1990, 1997-2002, consecutivos foi eleito Superior Provincial da mesma Província e do Comissariado geral de Portugal. No sexênio de 1990 a 1996, foi nomeado pároco da Paróquia de Santa Teresa de Jesus e Coordenador das paróquias do Setor Jardins, na Arquidiocese de São Paulo. Frei Paulo é atualmente Prior da Paróquia Santa Teresa de Jesus, no Itaim Bibi.
Em 2014 foi eleito já com 83 anos de idade, terceiro conselheiro do governo da Província Carmelitana de Santo Elias. Em 2015 foi perito do provincial para a congregação das províncias em Fátima, em Portugal.
É autor de livros, artigos para revistas e editorais. Membro da Academia Teresopolitana de Letras, tem publicado os livros: “Teresópolis: Dimensões de uma joia”; “Pensando em Voz Alta”; “Quando dizer não é preciso”; “Oremos com Maria” em co-autoria com Frei Claudio van Balen e 3 volumes de suas homilias – “Deus Compromete – Ciclo A”; “Deus tem a Palavra – Ciclo B”; “À escuta de Deus – Ciclo C”.
“Não posso dizer que passou qual um vente, porque tudo é vivido dia a dia. Muitas foram as transformações da vida religiosa e da vida carmelitana. Posso garantir que a aragem ou o tufão do Concílio Vaticano II trouxe grandes transformações: um vento de primavera. Levou-me a reconhecer mais a fundo a vida religiosa que professei. A Ordem do Carmo foi muito receptiva à atualização aos novos tempos. Foram várias ondas que movimentaram este processo e, reconheço sinceramente, que a a atual corresponde bem ao que o livro do Apocalipse chama a volta ao primeiro amor” partilhou Frei Paulo Gollarte, O.Carm, na ocasião dos seus 70 anos de Ordem.
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Carlos Mesters chegou ao Brasil em 1949 como seminarista. Estudou em Roma e em Jerusalém, de 1954 a 1963 e desde então permanece entre nós. Considerado um dos maiores especialistas em Bíblia, um dos grandes biblicistas dos dias de hoje, esse frei holandês, que já publicou inúmeros livros, concedeu esta entrevista ao jovem Patrick, da Pastoral Jovem, para O Precursor.
Patrick. As pessoas normalmente abrem a Bíblia e procuram respostas prontas para o que elas querem provavelmente porque não sabem como ler a Bíblia. O que afinal é a Bíblia e como lê-la?
Carlos Mesters. Numa conversa, duas coisas são importantes: a pessoa com quem você fala e as coisas que ela diz. Para a Bíblia vale a mesma coisa: aquilo que está escrito e a pessoa, Deus, com quem você conversa. Para muitos basta o fato de a Bíblia ser Palavra de Deus. Não olham muito o assunto. Acho que tem que olhar os dois. É Deus quem fala, mas Ele fala de maneira humana. É a Palavra de Deus, mas na nossa linguagem humana. Por exemplo, se eu disser para você: “Patrick, vá tomar banho!”, você não vai tomar banho, porque você entende a nossa linguagem. Mas, se eu disser o mesmo para um alguém que não é brasileiro, ele vai responder: “Não vou não, porque tomei banho agora mesmo”. É que ele não entende a nossa linguagem. Assim também a bíblia tem uma linguagem que necessita você se acostumar um pouco. Tem expressões na Bíblia que podem criar dificuldades para quem não está acostumado com a linguagem dela. Daí a utilidade de algum cursinho de Bíblia, de um pouquinho de estudo, para se poder apreciar e entender melhor aquilo que a Bíblia fala.
Patrick. Na Bíblia, especialmente os Evangelhos, em diversas partes, entram em contradições históricas, vamos dizer assim. E isso confunde um pouco. Qual é a idéia do Evangelho em si? Como o senhor diz em um dos seus livros: ‘as pessoas lêem os Evangelhos como lêem um livro de história’...
Carlos Mesters. Sim. Por exemplo, você não pode tomar ao pé da letra tudo o que as pessoas dizem. Se o namorado diz: “Minha namorada é a moça mais bonita do mundo!”, ele afirma algo que é uma verdade para ele, mas não é verdade de fato. Você não pode tomar ao pé da letra, mas tem uma verdade por detrás disso. Se você tem quatro irmãos e pede para os quatro pintarem o rosto da mãe, vão ser quatro retratos iguais? As diferenças são contradições? Não! Cada um retrata o que vê na pessoa, um é de um jeito, o outro é de outro jeito. Se você compara o Pai Nosso de Lucas com o Pai Nosso de Mateus, você vê que não são iguais. É que uma comunidade o preservou de um jeito, e outra, de outro jeito. Veja as piadas de hoje. Você escuta uma e depois conta para os outros. Você conta igual? Não!, mas conta de acordo com a pessoa com quem você fala. Assim é também a transmissão oral, através da qual surgiram os quatro evangelhos. Por detrás dos Evangelhos, tem uma dupla fidelidade: uma, ser fiel ao que Jesus falou; outra, ser fiel à pessoa para qual eu falo. Se falo para uma criança, eu falo de um jeito, se falo para o prefeito da cidade, falo de outro jeito, mas transmito a mesma coisa. Essas diferenças existem. Não são contradições. A gente deve ver sempre o que está por detrás. Qual é a preocupação que tinha Mateus ou que tinha Lucas ao escrever o evangelho. E aí é importante um pouquinho de estudo para aquelas pessoas que se interessam mais. Outras não fazem esse estudo. Também não é necessário para todo mundo chegar a entender tudo isso. Quando você está na mesa, você faz estudo do sal na hora de comer? Não faz! Você pega o saleiro e coloca o sal na comida. A Palavra de Deus é como o sal que tem que entrar na comida da vida. Deve temperar a vida. Tem gente que estuda o sal, mas esquece de colocá-lo na comida. É importante estudar, mas o que importa mesmo é que seja colocado na comida. As duas coisas são importantes. Não sei se está ficando claro.
Patrick. Está sim... Vamos falar sobre Jesus. Hoje, existem estudos muito científicos sobre Jesus e algumas descobertas não estão de acordo com a própria Bíblia, e já percebemos que a Bíblia não é um livro somente histórico. Mas, então, por que há essa procura tão grande hoje por Jesus e por que Ele é um personagem que conseguiu sobreviver esse tempo todo? O que Ele tem de diferente?
Carlos Mesters. Hoje há muitos estudos sobre Jesus. O mais importante é que ele nos trouxe uma nova experiência, uma nova imagem de Deus como Pai. Em Jesus, ficamos sabendo que Deus é Pai, Ele é o Filho. Isso é o mais importante. Os primeiros cristãos viviam isso. Foi só na medida em que vinham as dificuldades, é que eles começaram a refletir sobre isso e a defender sua fé. Esta experiência de Deus como Pai faz de todos nós irmãos e irmãs. Isso é o básico: amor a Deus é igual a amor ao próximo. Jesus nos revelou esta imagem de Deus. Deus é um Pai que nos ama e acolhe, e não um juiz que nos condena. Por isso, o povo andava atrás de Jesus porque a mensagem dele correspondia ao mais profundo desejo do coração humano. Era uma Boa Notícia, um Evagelho! Quando, nos anos oitenta, Mateus vai escrever para as comunidades de judeus convertidos, ele pensa nos problemas das comunidades e vai lembrando aquelas palavras de Jesus que possam ajudar aquelas comunidades. O mesmo vale para Marcos, Lucas e João. Cada um deles escreve para outro tipo de comunidade. Cada um deles lembra as mesmas palavras de Jesus, mas as relata de um jeito diferente, de acordo com as necessidades das suas comunidades. Assim surgiram as divergências que existem entre os quatro evangelhos. Além isso, no fim do primeiro século, houve grupos dissidentes chamados gnósticos, e outros. Eles também conservavam e transmitiam algumas palavras de Jesus, que agora se encontram nos assim chamados Evangelhos apócrifos. Nem todas palavras de Jesus foram escritos nos quatro Evangelhos. São João diz: “se eu fôssemos escrever tudo que Jesus falou, não bastava livro no mundo para escrever tudo”. Não é que Jesus tenha falado tanto, mas a experiência que eles tinham de Jesus era algo muito extraordinário. É como a gente diz quando escuta uma pessoa amiga: “Posso escutar uma eternidade porque ele não cansa!”. É nesse sentido que não havia livro que bastava para escrever tudo o que Jesus falou. Será que ficou claro?
Patrick. Ficou sim. Leonardo Boff disse certa vez que tão humano quanto Jesus só mesmo Deus. Afinal, o que pensar: é Deus que se torna homem ou o homem que se torna Deus?
Carlos Mesters. O Papa Leão Magno, falecido lá pelo ano 400, tem uma frase que diz assim: “Jesus foi tão humano, mas tão humano, como só Deus pode ser humano”. Frase muito bonita! Às vezes, nós colocamos Jesus lá em cima e esquecemos que Ele é um ser humano igual a nós. É exatamente por ele ser Filho de Deus, que pôde ser tão humano. O mais importante que Deus quer de nós é que a gente seja humano. Ele não te fez ser humano? A primeira tarefa nossa é ser humano e humanizar a vida. E quando a gente humaniza, a gente se diviniza, porque nós nos tornamos como Deus nos quer. Jesus foi tão humano como só Deus pode ser humano. É o grande exemplo para nós. Eu acho isso muito bonito, porque é o centro da nossa Fé: acreditamos que Jesus é Deus e homem ao mesmo tempo.
Patrick. Quando se fala em Ressurreição, e o senhor mesmo escreve isso, a gente a pensa logo como aquele evento que aconteceu lá atrás, ou então projeta-se a Ressurreição para uma coisa futura, mas parece que a Ressurreição mesmo não tem muito sentido. O que realmente é a Ressurreição? Jesus ressuscitou mesmo? Como é que aconteceu isso? O que afinal aconteceu naquele domingo de Páscoa, há dois mil anos, que mudou radicalmente a vida daqueles discípulos e discípulas?
Carlos Mesters. A Fé na Ressurreição não é só crer em algo que aconteceu no passado, e que vai acontecer de novo no futuro, e nós hoje sem nada. A Ressurreição acontece agora: Quando pessoas, a partir da Palavra de Deus, começam a atuar. Quando pessoas, que estão na maior fossa da vida, levantam a cabeça. Quando se diz: “a esperança venceu o medo”, aquela frase que Lula falou. Ressurreição é crer que a vida é mais forte que a morte. E esta Ressurreição continua acontecendo de muitas maneiras. A Ressurreição de Jesus é a prova concreta de que isto é possível: Ele ressuscitou. Como a ressurreição de Jesus aconteceu concretamente? Se você for ler os Evangelhos e for comparando um com outro, nenhum concorda com o outro. Sabe por quê? Vou usar uma comparação: Quando você vai tomar banho na praia num domingo de sol, você tem que provar que o sol existe? Estou perguntando.
Patrick. Não.
Carlos Mesters. Porque você mesmo é uma prova de que o sol existe. Sua pele bronzeada mostra que o sol existe. Assim, os primeiros cristãos viviam dentro da experiência da Ressurreição e não se preocupavam em prová-la ou descrevê-la. Eles mesmos eram a prova. A própria comunidade deles de gente sem condição humana, quase todos escravos, sem medo de enfrentar o poder romano, sem medo das perseguições, dos leões na arena. Eles eram e continuam sendo a prova de que a Ressurreição é uma realidade. Ela está acontecendo hoje na vida de milhares e milhares de pessoas. Vocês aqui, vocês também são uma prova da Ressurreição. Vocês podiam estar tomando banho na praia, e se preocupam com outras coisas. Querem promover a vida. Ressurreição é como o rio Amazonas. Ele nasce aonde? No Peru, no alto dos Andes, onde você umas gotas de água caindo das grotas, formando um pequeno córrego. Se eu digo: “Patrick, este é o rio Amazonas!”, você nem acredita. E quando você vai na embocadura, o que você vê? Um rio de 400 km entrando no mar, provocando uma pororoca que vence até o mar, ou não? A Ressurreição é esta nossa humanidade toda, que sempre de novo levanta a cabeça, enfrenta o mal, busca saídas, condena a guerra, enfrenta o poder que mata, luta pela paz. Jesus é a prova de que isso é verdade. É o poder de Deus. A Fé na Ressurreição é a versão neo-testamentária de que Deus é o criador que consegue tirar vida da própria morte, que tira do nada coisas que ninguém acreditaria ser possíveis. Deu para entender o que é a Ressurreição? É o que está aí no mundo. Temos que tirar o véu e revelar essa Ressurreição palpitante que existe na vida das pessoas hoje, acontecendo no Brasil, na América, Latina, no mundo. Mas este grande rio da vida pode descambar e tomar uma direção errada, como aconteceu depois do cativeiro, em que houve uma Ressurreição muito grande, mas o povo voltou atrás e tudo desandou. Sempre tem que fazer revisão, conversão, e confrontar com a ressurreição de Jesus. Sempre será necessária uma atitude profética para poder corrigir e manter o rumo em direção à Ressurreição final.
Patrick. Os discípulos de Jesus, ao longo do tempo em que andaram com ele pela Palestina, custaram a entender os seus ensinamentos. Às vezes, não entendiam nada. Nós, hoje, também custamos a compreender suas palavras.
Carlos Mesters. Quando a gente lê os Evangelhos, percebe que os discípulos nem sempre entendiam o que Jesus falava. E se você for comparar entre si os quatro evangelhos, perceberá que quem mais insiste nesta incompreensão dos discípulos é Marcos. Sabe por quê? Porque quando ele, no ano setenta, escrevia era este o problema que a comunidade estava enfrentando. Durante a perseguição de Nero do ano 64, várias pessoas tinham abandonado da comunidade com medo de perseguição. Depois que terminaram as perseguições, eles se perguntavam: será que podemos voltar? Na comunidade havia gente que dizia: “Não pode mais voltar não. Rompeu, quebrou o fio, não tem mais conserto”. Outros diziam: “Pode voltar sim!” Marcos escreve para ajudar a comunidade a enfrentar este problema. Por isso, ele conta como os discípulos foram acompanhando Jesus e não entendiam nada, mas Jesus sempre os acolhe. E, no finzinho do Evangelho de Marcos, depois que Pedro negou e Judas traiu, Jesus chega a dizer: “Vão bater no pastor, e as ovelhas fugirão todas! Vocês todos vão fugir, mas depois da Ressurreição, eu vou chamar vocês de novo!” Com outras palavras, através das palavras de Jesus, Marcos está dizendo às comunidades: “Nós, que somos fracos e ignorantes como os discípulos, podemos até romper com Jesus. Jesus, porém, nunca vai romper conosco. Portanto, é possível voltar!”
Patrick: Afinal, é possível, para cada um de nós, principalmente os jovens, hoje, viver a utopia de Jesus?
É possível sim. A gente o vê na vida de tantos! Tanto jovem que hoje dá tudo de si. Aqui é bom lembrar uma coisa muito importante. Há muito jovem que não fala em Jesus, mas vive a justiça, ou não vive? Tem jovem que dá tudo de si pelos outros. Em Porto Alegre aconteceu o Fórum Social Mundial. Havia em torno de cem mil pessoas do mundo inteiro. Alguns deles eram cristãos, muitos jovens, a grande maioria talvez nem fosse cristão, mas todos eles estavam alí porque lutam pela justiça, procuram a paz, querem construir um mundo novo. E Jesus disse: “Felizes os que constroem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”. Jesus não diz: “Felizes os cristãos que constroem a paz”. Diz apenas: “Felizes os que constroem a paz”. Depois diz: “Felizes os que são perseguidos pela justiça”. Não diz: “Felizes os perseguidos que crêem em Jesus”, mas simplesmente “Felizes os que são perseguidos”. E no fim ele diz: “Vinde, benditos do meu Pai, porque vou dar o Reino para vocês”. Tem ainda aquela outra passagem do Juízo final, em que Jesus diz: “Tive fome e você me deu de beber. Tive sede e você me deu de beber” A pessoa respondeu: “Quando foi que vi o Senhor com fome e com sede?”Não estou lembrado!” E jesus responde: Foi aquela vez que você deu de comer e de beber àquele pobre! Era eu!”. Jesus não pergunta se a pessoa teve ou não teve fé. Mas pergunta pela prática do amor ao próximo, da justiça, do engajamento pelo bem do outro. Esta utopia está sendo vivida por muita gente. Vou contar um fato: Um rapaz chamado Jeová, na época da repressão política, foi preso e torturado, e ficou na cela junto com o bispo Marcelo Carvalhera, que agora é arcebispo de João Pessoa, que também foi preso. Ainda não era bispo. Jeová, na prisão, enquanto estava sendo torturado no pau de arara, dizia para os soldados: “É só isso que vocês sabem fazer para descobrir a verdade? Vocês são muito fracos”. Os torturadores, de tanta raiva quebraram os dois braços e uma perna dele. De volta na cela, Marcelo disse para ele assim: “Jeová, por que você fez isso? Eles podiam ter matado você!” Jeová que se dizia marxista ateu, disse: “Marcelo, mas eu acredito nisso. Minha vida teria tido um sentido”. Num domingo, Marcelo teve licençá para celebrar a missa para os presos. Jeová, com a perna e os braços engessados, ficou junto do Marcelo, perto do altar no corredor. Os presos, através das grades, foram fazendo o comentário das leituras da Bíblia. Quando foi na hora da comunhão, Jeová disse assim: “Eu também quero!”. Aí o Marcelo pensou: “Ele se diz ateu. Será que posso dar a comunhão para ele?” Ele fez um raciocínio teológico rápido e lembrou a frase de Jesus: “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão”, e deu a comunhão. Jeová entrou num silêncio muito profundo. Voltaram para a cela e, depois de muito tempo, ele disse assim para Marcelo: “Isso foi muito bom! Precisa repetir isso!” Significa que a Eucaristia o ajudou a descobrir uma motivação mais profunda para aquilo que ele já estava fazendo e vivendo: doar a vida pelos outros. Tem muita gente que vive esta utopia e o Evangelho de Jesus pode ser uma força a mais para continuar nesta luta por um mundo mais humano.
Patrick. Uma pergunta mais científica: existe diferença entre o Jesus histórico e o Jesus da fé?
Carlos Mesters. A gente diz Jesus Cristo. Este é o nome completo. Jesus é o Jesus histórico, e Cristo é o Cristo da Fé. É a mesma pessoa, o mesmo Jesus, que agora está vivo no meio de nós. Na Missa dizemos: “O Senhor esteja convosco”. e o povo responde: “Ele está no meio de nós!”. O Cristo da nossa Fé, no qual acreditamos, está vivo no meio de nós por meio do Espírito Santo que Jesus conquistou para nós através da sua morte e ressurreição. Ele nos ajuda, para que possamos fazer hoje a mesma coisa que Jesus faria se estivesse vivo. Uma comparação. Veja, se eu estou lendo o Evangelho, e estou aqui (senta-se de maneira como se estivesse com o evangelho nas mãos sob os olhos), eu pergunto a você: Jesus está aonde? Está ali ou aqui? (aponta para o Evangelho e em seguida para si mesmo).
Patrick. Está nos dois.
Carlos Mesters. Correto. Agora, imagine um casal, casado há 50 anos. Eles abrem o álbum de fotografia de 50 anos atrás e vão ver fotografias deles mesmos quando eram bem mais jovens. Aí, diante de uma daquelas fotografias, a mulher diz para o marido: “Está vendo? Você se lembra do que eu falei para você naquela vez? Mantenho a mesma palavra até hoje!” Quando nós abrimos os evangelhos, é como abrir o álbum de fotografia da família de Deus de muitos anos atrás. Jesus está do nosso lado olhando conosco para as fotografias dele quando ainda vivia no meio de nós. É como se dissesse: “Aquilo que eu disse naquela ocaisião eu o mantenho até hoje para você!” Ele não é alguém do passado. É alguém do qual os Evangelhos nos trazem as palavras que Ele hoje diz para nós. Estas palavras se atualizam na comunidade, quando a gente se reúne, discutindo juntos, ligando as palavras de Jesus com a realidade que nós vivemos.
Patrick. Quais são os valores que devem guiar a vida do jovem, em geral, nos dias de hoje?
Carlos Mesters. Acho que tem que ter ideal na vida. Ter um ideal. Procurar ser gente. Preocupar-se com os outros. Poder ser ele mesmo. Ter um ideal que o faça ultrapassar-se a si mesmo. Porque o ou a jovem é capaz de viver grande sacrifício. E se você dá um ideal pequeno, ele diz: “Não vale a pena!” Então coloque um ideal grande para ele. A juventude é capaz de tudo. Os jovens estão buscando valores. Não estão mais gostando desta sociedade que está aí. Querem algo que os encha de sentido, que dê sentido à vida. Acho que é por isso que muitos entram nas drogas, porque, no fundo, não conseguem encontrar um sentido para a vida que estão vivendo. Acho que vocês, os jovens, devem ser portadores de um testemunho para os outros. O que mais anima as pessoas é uma comunidade viva, aonde você entra e sente: “A é bom!”. É não se fechar sobre si mesmo e sobre seu próprio pequeno mundo e sobre seus próprios problemas, mas ter sempre presente a vida e os problemas dos outros. Como Lula que foi a Davos na Europa, e onde todo mundo falava em dinheiro. Ele chegou lá e disse: “Estou pensando é no estômago das pessoas, na fome de milhões de seres humanos, irmãos e irmãs nossas”. Esta preocupação com os problemas humanos, pequenos e grandes, é muito importante. Mas acho que vocês sabem responder melhor do que eu a essa pergunta.
Patrick. Aquela menina que matou os pais no ano passado (em 2002), ela diz que fez aquilo por amor. Inclusive, a capa da revista Época, eu acho, dizia ‘Matei por amor’. E Jesus prega, basicamente, o tempo todo, o amor. Qual o sentido exato dessa palavra amor?
Carlos Mesters. (cantando) “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão”. Este é o ideal do amor, mas levou muito tempo para o povo de Deus chegar à descoberta deste ideal. Eles passaram por três fases. Durante a primeira fase, lá no Antigo Testamento, já diziam: “Você deve amar o próximo como a si mesmo”. Muito entendiam a palavra “próximo”, como sendo aquelas pessoas que já fazem parte da própria família, do povo ou da raça. O amor ainda estava fechado dentro do pequeno mundo da família, da raça. Na segunda fase, entrando já no Novo Testamento, começaram a discutir: “Quem é o próximo?”, pois alguns diziam: “Só devo amar o próximo, os outros não!” Perguntaram a Jesus: “O que o senhor acha: quem é o próximo?” Na resposta, Jesus inverte tudo. Ele conta a parábola do Bom Samaritano: Um homem saiu de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de ladrões etc. Aí passou um sacerdote, passou um levita, os dois viram o homem caído à beira da estrada, mas não fizeram nada. Muito provavelmente devem ter pensado: Este fulano não está na categoria de “próximo”. Estou perdendo tempo se eu ajudar. Aí passa um samaritano, quer dizer, a pessoa mais odiada pelos judeus praticantes. Ele vê o assaltado, pára, desce do animal, cuida das feridas, leva o homem para a hospedaria, ele passa a noite com ele, paga, e ainda diz ao dono da hospedaria: “Cuida dele, e se gastar mais, na volta eu te pago”. Aí Jesus pergunta: “Quem foi o próximo desse fulano?” Conclusão: não devo perguntar: “Quem é o meu próximo?”, mas devo fazer-me próximo do outro. O próximo pode ser qualquer um, não só a pessoa da raça. Qualquer ser humano que cruza o meu caminho é próximo. Nesta segunda frase alargaram o conceito de próximo até incluir todo ser humano. Mas tem a terceira fase, em que Jesus diz: “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado!” Ou como diz o cântico nosso: “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão”. O critério do amor é chegar a amar os outros como Jesus nos amou, esquecendo-se de si mesmo, doando-se totalmente para fazer crescer o outro. Este é o ideal o significado que Jesus dá ao amor. Acho que este é também o desejo mais profundo do coração humano. Muitas vezes, porém, a propaganda da televisão, as novelas, comunicam um sentido distorcido do amor: amar aquilo que é bom e gostoso para mim. Não digo que isto não seja importante, mas o objetivo do amor é aquele de a pessoa chegar a uma doação total de si em benefício do irmão ou da irmã. Quando a gente inverte as coisas, aí pode perverter o significado da palavra amor. E aí chegam a chamar um ato de amor aquilo que, às vezes, na realidade, não passa de puro egoísmo. Não tenho coragem de julgar a menina, não tenho coragem não. Mas todos levamos susto quando soubemos da notícia e dentro de todos nós acordou uma suspeita: deve haver algo de errado na nossa sociedade. Como aquele rapaz do interior de São Paulo que pegou o revólver e foi atirando nas pessoas. O mesmo já aconteceu várias vezes na América do Norte. E na Dinamarca, o país mais desenvolvido, o suicídio entre jovens é o mais freqüente. É porque perderam o sentido da vida e do amor!
Patrick. Você acha que é essa a causa da violência entre os jovens?
Carlos Mesters. Não é só isso não. Tem muitas outras causas: doenças, drogas, falta de perspectiva, falta de emprego, dificuldade de convivência, pobreza, transporte coletivo. Por exemplo, o pai de família sai de casa às cinco da manhã, não vê os filhos, chega em casa à noite, às oito horas, os filhos já estão dormindo. A semana toda. No fim de semana, tem que fazer um bico para completar o orçamento da casa. No fim, o fulano estoura. Tudo isso é uma fonte de violência. Esse conjunto todo da sociedade. Acho que nós cristãos temos uma tarefa muito importante para humanizar a vida. Humanizar. Não divinizar. Porque na medida em que a vida se humaniza, ela se diviniza, chega mais perto de Deus.
Patrick. A humanidade é pré-requisito para a divindade?
Carlos Mesters. Sim, porque nós fomos feitos para sermos humanos. Uma árvore tem que ser uma árvore. Se uma árvore inventa de ser bicho, não seria o que deve ser. Árvore é árvore, e gente é gente. Às vezes, pergunto: “O que vocês mais desejam na vida?” Muitas vezes recebi como resposta: “Ah, eu quero ser tratado como gente!”. Ser tratado como gente. Foi o que Jesus mais fez com os pobres. Ele acolhia todo mundo, sobretudo os pobres que eram desprezados e marginalizados. Ele dava lugar aos que não tinham lugar. No tempo de Jesus, muita gente era excluída da comunidade por motivos religiosos. A pessoa que tivesse uma mancha no corpo, os estrangeiros, os leprosos, as pecadores, os doentes, muitas mulheres e criançás, não podiam participar das reuniões da comunidade. Eram excluídas em nome de Deus. Tinham de purificar-se primeiro. E Jesus, o que faz? Acolhe a prostituta, o leproso, o endemoniado, as crianças, as mulheres, os impuros. Esse povo todo se sente acolhido por Ele. Dá para entender porque Jesus foi morto, porque incomodou profundamente os poderosos da época que queriam manter o regime da excclusão social e religiosa.
Patrick. Quando Jesus acolhe, Ele liberta?
Carlos Mesters. Sim! Por exemplo, os apóstolos vão com Jesus. Fazem comunidade com ele. Jesus era uma pessoa livre, liberta e libertadora. Diz o evangelho que, certa vez, eles andavam pelos campos, estavam com fome e começám a arrancar as espigas para matar a fome. Se não fosse por Jesus, não teriam tido coragem. Quanto às leis contrárias à vida, Jesus disse assim: “O ser humano não foi feito para o sábado, mas o sábado foi feito para o ser humano”. Este é o critério de Jesus. E o povo vibrava. Jesus deve ter sido uma simpatia ambulante.
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Frei Felisberto Caldeira, O. Carm
Desde o Seminário Menor, em Itu, sempre ouvi falar da pessoa respeitosa de Dom Gabriel Couto. De natureza introspectiva e de uma seriedade natural. Ele se impunha pela maneira como levada a vida espiritual. Ouvi que esteve no sanatório das Irmãs em São José dos Campos. Lá permaneceu em tratamento de saúde e, para usar melhor seu tempo, aprendeu a pintar quadros, quase todos são sobre o rosto de Cristo ou do Crucificado em tonalidade secura ou penumbra. Era onde refletia na tela seu estado de alma e sua identificação com Jesus. Ele ensinava em sua palestras para os seminaristas e religisosos. Jesus é tudo para o padre.
Recuperado, tornou-se o primeiro bispo da recém criada diocese de Jundiaí. Seu estado físico era impressionante, tanto pela magreza , como pela sua grandeza de espírito.
Sei que muito confrades iam até ele para direção espiritual ou aconselhamento e todos diziam : sempre me sinto bem conversar com este bom velhinho. Frei Nuno certa vez me disse: Ele transmite uma bondade para a gente, pois tudo que a gente fala com ele, ele acredita e isto aumenta a auto-confiança da gente. Ele não tem maldade. Vendo a bondade dele a gente se sente bom também.
O DOM GRABRIEL QUE VI
Foi em Brasília , no auge dos Cursílhos de Cristandade, que vi, pela segunda vez, Dom Gabriel Couto. Sua veste episcopal era marron e bege como as cores do Carmelo. Sempre de pouca conversa , parece que vivia em oração. Na ultreya em que falou em Brasília, ele mostrou as dimensões filosóficas e espirituais do ser humano. Ouvindo-o me interessei em ler seu livro sobre sua visão do ser humano. O ser humano nasce para ser divino e não é só humano, pois sua realização está em descobrir e buscar seu Fim Último que é ser Deus com Deus.
Um frade carmelita, antes de sua ordenação, foi fazer-lhe uma visita e voltou dizendo , Ele falou muito bonito de Deus e me disse que eu nunca perdesse a intimidade com Deus, pois esta é a alma sacerdotal carmelitana. Fora destes encontros. Dom Gabriel sempre viveu oculto em sua diocese, como Jesus na sua vida escondida em Nazaré.
Como uma árvore enfraquecida pela enfermidade, mas fortalecida pelo espírito de fortaleza, Dom Gabriel realizou em si uma profecia . Quando estudante em Roma , o padre carmelita muito santo de nome, Padre Gramático, ficou tuberculoso e foi Dom Gabriel quem cuidou dele. Isto agradou tanto ao Padre enfermo que lhe teria dito. Deus te recompensará tudo que fizeres para mim. Mas saiba, tu nunca, Frei Gabriel, morrerás de tuberculose. De fato, apesar de na sua obra de caridade ficar tuberculoso, foi mais forte que a doença que até o fez mais santo e produtivo. A grandeza de Deus se manifesta nos fracos e pobres em espírito.
Ao celebrar os 80 anos da consagração religiosa de Dom Gabriel Couto celebramos a grandeza de Deus nos pequenos e simples. Fraco na saúde, pois morreu pesando 40 quilos, mas forte e corajoso no espírito, pois sua fama de santo lhe valeu o título de servo de Deus e de um dos Bem aventurados do Evangelho.
Dom Gabriel, bispo e mártir do dever cumprido com zelo e alegria, interceda por nós e pelas vocações carmelitas. Amém. Eu, Frei Felisberto e o Conselho provincial, nos unimos a todos que reconhecem em Dom Gabriel Couto um exemplo de vida cristã e agradecemos a Deus por ter dado ao Carmelo Brasileiro tão belo exemplo de vida e santidade.
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QUEM QUER MORRER COMO FREI BENTO? EU QUERO.
Frei Felisberto, O. Carm
É o que quase todos que conviveram com Frei Bento e acompanharam seus últimos passos dizem e pedem a Deus.
Frei Bento é um dos poucos que podem se vangloriar da vida que viveu. Alcançou os 95 anos, passando da contagem de vida do salmista que chegou somente aos oitenta. A vida dos justos está nas mãos de Deus. E a de Frei Bento, enquanto posso, eu garanto que está.
Nascido em Zwammerdam no dia 21 de maio de 1914, três anos mais velho que seu irmão frei Ricardo, carmelita, professou em 17/01/1935, foi ordenado sacerdote 08/ 12/1935.
Vivendo em plena consciência até seus 95 anos bem vividos, venceu todas as dificuldades da vida, inclusive um câncer de mama o que o levou a extirpar um músculo do peito. Como um astro que se levanta, chega ao seu périplo e declina, assim foi frei Bento. Viveu bem, morreu melhor ainda. Deixando inveja.
Bem cedo sentiu-se chamado para o sacerdócio, dada a formação religiosa familiar e o clima de Igreja em que vivia na Holanda de sua infânciaolanda Holanda . Iniciou sua caminhada no seminário diocesano de sua terra. Como seu irmão Frei Ricardo entrou para o seminário de Zenderen, carmelita, ele decidiu ser carmelita também. Como havia oportunidade de vir para o Brasil, ele se candidatou e veio. Posteriormente foi seu irmão frei Ricardo que o imitou, vindo igualmente para o Brasil. São Irmãos de sangue e de fé , de vocação e missão.
SUA VIDA
Frei Bento teve vida de simplicidade e trabalho diuturno na simplicidade de sua vida. Trabalhou em Angra dos Reis, Vicente de Carvalho, São Paulo, Rio de Janeiro no convento da Lapa, onde terminou seus dias de vida com uma memória e lucidez que causa inveja até para Matusalém, que viveu novecentos e sessenta e nove anos e depois morreu ,como diz o livro do Gênesis.

CARACTERÍSTICAS DA VIDA DE FREI BENTO CASPERS
Personalidade sensível e receptiva, caráter piedoso e com muitas aptidões para as potências amatórias do espírito humano. Amante da oração aspirativa e da simplicidade... Religiosamente seguia os horários de oração, refeição e compromissos. Mesmo idoso e enfraquecido não dispensava a missa diária e quando ajoelhava diante do altar fazia questão de tocar com o joelho o chão. A fraqueza dos joelhos não o comprometia diante do respeito ao altar.
Seu quarto era cheio de plantas e pássaros. Perguntado por que carregava consigo estas plantas ele dizia as plantas nos levam a Deus. A música o atraia também. Quando Frei Nuno morreu ele veio com humildade pedir as fitas cassetes para ouvir. Assim aumentou sua reserva musical. Certa vez alguém entrou em seu quarto durante o dia. Ele estava deitado em posição de relaxamento ouvindo música e rezando já em outra dimensão.
Frei Bento foi uma pessoa sempre satisfeita e descontraída. Sua alegria consistia em se relacionar bem com todos, em rezar a liturgia das Horas, a Imitação de Cristo, ler o Jornal, mesmo por meio de uma lupa, e sabia as notícias do dia tanto da religião como da política. Seu hobby era transformar o pão em pedaços pequenos para as pombinhas que vinham de manhã e à tarde ao seu quarto para se alimentar. O canário, que sempre o acompanhava, tinha uma relação de amizade com ele que o alegrava com seu canto contínuo.
FATOS IMPORTANTES DA VIDA DE FREI BENTO
Quando frei Clementino ficou pároco em Angra tirou dele a catequese. Frei Bento pediu ao Provincial da época que queria ter a pastoral que sempre gostou: a catequese. Que eu fique pelo menos com uma turma de crianças de Primeira Eucaristia, suplicou.
Como sempre trabalhou com os morros de Angra, ali manteve uma relação de amizade. Como frei Alonso intensificou a construção de capelas nos morros, ele gostava que o convidasse para a missa de inauguração. E o povo aplaudia a sua presença. Exclamando: Frei Bento veio nos visitar! Que surpresa agradável! Frei Bento aqui conosco!
Desde criança aprendeu com seu pai a cuidar dos selos. Sua coleção é uma vida. São uns trinta álbuns que tem um valor razoável. Tudo será encaminhado para o arquivo provincial em S. Paulo, o acervo carmelitano. Todos seus grandes amigos lhe enviavam selos novos ou usados. A coleção mundial de selos marianos causa admiração e espanto pela beleza e grandiosidade.
SUA MORTE SERENA.
A natureza avisa quando já está chegando a hora de passar o bastão para os mais novos. Frei Bento, ultimamente, pressentiu que seu fim poderia estar próximo, embora ele nunca falasse sobre a morte. Esta viria, como de fato veio, na hora certa, do jeito certo, para a pessoa certa. Nos últimos meses frei Bento sentiu muita necessidade de ir mais vezes a Angra para visitar a família Afonso, onde ele passava seus dias de descanso da barulhenta Lapa do Rio. Hospedava-se com eles que o tratavam como filho e ele chamava a esposa do Sr. Afonso de mãe. Aconteceu de ir e voltar até mesmo no mesmo dia. Sempre para visitar amigos. Assim aconteceu no dia de sua morte. Foi visitar uma amiga em V. de Carvalho.
Foi visitando amigos que ele morreu.
Ao voltar para casa sentiu uma dor nas costas e mal-estar. Frei Evaldo se oferece para celebrar em seu lugar, ele aceitou. Isto não aconteceria antes se a saúde o permitisse. Na hora exata, seis da tarde, do dia de sexta feira, véspera da Assunção, assentado em seu lugar onde sempre agradecia a Deus com sua impecável oração ``Nos cum prole pia, benedicat Virgo Maria,`` ele sentindo-se mal, teria dito : a dor não é importante, o importante é que seja feita a vontade de Deus. Desfalecendo-se, foi levado ao Hospital Espanhol, perto do convento, onde foi a óbito.
Morreu na véspera da Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem, Assunção da Virgem Maria. Fez a Boa Viagem para o Céu com Maria sua mãezinha, como ele a tratava.
Seu sepultamente foi realizado no domingo pela manhã devido a profissão solene dos 3 frades em Belo Horizonte , no sábado à noite. Na missa de exéquias estiveram presentes os confrades, Dom Vital, acompanhado da Sra. Isa, leiga consagrada, que vive no eremitério, Frei Martinho Cortez, Frei Valter de Vicente de Carvalho, Frei Evaldo, Frei Alonso, Frei Reinaldo, Frei Carlos Mester e Frei Felisberto. Foram enumerados os passos de luz que Frei Bento deixou após si: simplicidade, humildade, amabilidade, amor e misericórdia para com os necessitados com quem repartia sua aposentadoria, espírito de oração, alma de criança, gentileza e preocupação pela província.
O dia do seu sepultamento teve uma manhã linda com sol ameno e o povo correu para as praias para comemorar a vida. Parecia o dia feliz da criação ou um pedaço do Céu na terra.. ``E Deus viu tudo era bom`` O cemitério São João Batista, onde a nossa província tem um túmulo com várias campas, também estava alegre. Pessoas amigas de Angra dos Reis trouxeram muitas rosas colombianas em seus botões enormes, brancos, trazidos da festa de Nossa Senhora da Lapa, acontecida em Angra no dia anterior. No momento foi o único sepultamento. Nada de tristeza, nada de pesar, pois todos sabiam que um dia iriam morrer, mas somente esperavam que a morte de cada um fosse como a do Frei Bento. Quase como a de um passarinho, um inclinar da cabeça e já se está em outro domicílio e revestido com um corpo espiritual que não nos será tirado. Como o túmulo dos Carmelitas já tem 5 confrades, agora em caminho para virem para o convento de São Paulo, todos tiveram que sair do lugar onde estavam para deixar Frei Bento entrar. Parecia que a antiga comunidade da Lapa, reunida por tantos anos, acolhia o irmão numa Procissão do Encontro.
Feitas as orações finais o corpo de frei Bento desceu ao túmulo. Entoado o cântico oficial da esperança cristã: Com minha mãe estarei, ``os presentes se retiraram lançando rosas dentro do túmulo e logo se deparando com um frase em latim, bem no portal de saída. ´´in hoc loco habitamus´´ È aqui que nós habitamos agora..
Frei Bento soube viver, soube ser homem de oração, soube obedecer, soube descobrir o seu modo de ser carmelita, soube até escolher o dia de sua morte: o dia de Nossa Senhora da Boa Viagem. Que estes seus passos refletidos nas pessoas que viveram com ele, mostrem bem claramente o que Santa Teresinha experimentou: ``O Carmelo é lindo para se viver, o Carmelo é ótimo para se morrer.``
``A vida para quem acredita não é passageira ilusão e a morte se torna bendita, pois é nossa libertação.`` Música da Missa da Esperança.
´´Em verdade, em verdade, eu vos digo, vem a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e os que a ouvirem viverão. Jo. 5 ,25
Quem quer morrer como Frei Bento? Nós queremos. Então preparemos-nos.
A frase que Frei Bento mais repetia ao celebrar seu último aniversário foi sempre a mesma :
``Quero cantar eternamente a misericórdia do Senhor. Deus foi muito bom para comigo, por isso, convido você para erguer comigo o cálice da salvação e agradecer a Deus.”
Não foi difícil escolher a foto para sua missa de Sétimo Dia. Deveria ser aquela que o mostrasse em meio às lindas orquídeas. Ele tinha que ser uma delas. A foto o mostra assim. E a frase tinha que ser a dele mesmo: Deus foi muito bom para comigo. Só me resta agradecer levantando o cálice da Salvação e invocando o nome do Senhor (Frei Bento Caspers.)
QUE NOSSO IRMÃO FREI BENTO CASPER DESCANSE EM PAZ. AMÉM.
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Frei Wilmar Santin, O.Carm. e Frei Carmelo Cox, O.Carm.
Introdução
100 anos atrás os carmelitas holandeses iniciaram um trabalho missionário no Mato Grosso, que durou quase 8 anos. Desta página da História do Carmelo Brasileiro havia apenas algumas informações esparsas na revista Mensageiro do Carmelo e um parágrafo no livro The Carmelites de Joachim Smet[1].
Dentro da História da Ordem do Carmo na primeira metade do século XX a Província Holandesa foi a que teve o maior ardor missionário. Restaurou a Província Fluminis Ianuarii[2] a partir de 1904. Ainda no início do século, enviou missionários para a Inglaterra e Estados Unidos. Abriu missões na Indonésia (1923) e Filipinas (1958). Hoje na Indonésia há a província com maior número de carmelitas e nas Filipinas um Comissariado Geral. Em 1924 iniciou a restauração da Província Germaniae Inferioris e forneceu a maioria dos missionários para a Prelazia e depois Diocese de Paracatu, MG, a partir de 1929. Foi justamente da Província Holandesa de onde saíram os missionários para Corumbá.
Como e por que os carmelitas holandeses foram trabalhar no Mato Grosso? Quem foi ser missionário em Corumbá? Qual era o tamanho da Missão? Quais cidades e paróquias foram atendidas pelos carmelitas? Quais eram as motivações e o estado de ânimo daqueles missionários? Que dificuldades encontraram? Os superiores apoiaram a missão? Tinham algum sonho? A criação da diocese de Corumbá criou problemas para os carmelitas? Como foi o relacionamento com o bispo? Por que saíram de Corumbá? Dar uma resposta a estas perguntas é o objetivo do presente trabalho.
A metodologia usada foi a de ir beber diretamente nas fontes e ali encontrar as respostas. Frei Carmelo Cox pesquisou nos arquivos da Província Fluminis Januarii em Belo Horizonte o no arquivo da Província Holandesa em Boxmeer. Transcreveu todos os documentos e os traduziu para o Português. Por isso, para facilitar a compreensão, as citações das cartas e documentos serão sempre em Português e não no original em Holandês ou Latim. Por sua vez, Frei Wilmar Santin consultou o Arquivo Secreto Vaticano, o Arquivo Geral da Ordem em Roma e o Arquivo da Arquidiocese de Cuiabá. Os documentos encontrados nos arquivos Vaticano e da Ordem em geral estão em Inglês, Latim, Alemão, Italiano e também em Português. Normalmente se citará uma tradução e não o original, a não ser que devido a importância se decidiu manter a língua original. Neste caso sempre se dará uma tradução. Quanto às informações históricas e geográficas da região, foram pesquisadas sobretudo em sites oficiais de prefeituras e dioceses.
Antecedentes
O trabalho missionário dos carmelitas holandeses em Corumbá começou por iniciativa de Dom Carlos Luiz d’Amour[3], então bispo de Cuiabá. Como ele estava pouco satisfeito com os salesianos[4], começou a procurar outros religiosos para substituí-los. Em 1906, por indicação do Cardeal Arcoverde[5] e do Núncio Giulio Tonti[6], procurou Frei Cirilo Thewes[7] e sondou a possibilidade dos carmelitas assumirem a região missionária de Corumbá. Frei Cirilo, que se entusiasmou com a idéia, deu esperança ao bispo e o aconselhou procurar o Prior Geral da Ordem Frei Pio Mayer[8] em Roma e conversar com o provincial carmelita na Holanda. Frei Cirilo escreveu uma carta em dezembro de 1906 ao provincial holandês Frei Lamberto Smeets advertindo-o para aguardar o bispo de Cuiabá no verão do ano seguinte. Na mesma carta afirma que pretendia fazer uma viagem até Corumbá: “A viagem levará um mês, é cansativa mas acho que é um dever meu fazê-la”[9]. Porém, esta viagem ficou só no desejo.
O Capítulo da Província Holandesa, realizado em 1906, aprovou que se aceitasse a missão. Parece que não houve uma votação explícita, visto que não consta em ata, mas o assunto foi matéria capitular e se acertou que “na primavera de 1907 cinco Padres deviam ir para o Mato Grosso”[10].
Dom Carlos Luiz em sua visita a Roma em 1907, encontrou-se com o Prior Geral Frei Pio Mayer. Este diante da aprovação do Capítulo Provincial da Holanda e do entusiasmo de Frei Cirilo no Brasil, aceitou a missão. Portanto não foi um acerto entre o bispo e uma província, como normalmente acontece, e sim entre o bispo e o superior máximo dos carmelitas. Isto resultou em muitas dificuldades, porque depois nem a Província Holandesa nem a do Rio de Janeiro sentiram-se responsáveis pela missão. Com exceção dos missionários, a missão de Corumbá nunca foi assumida pra valer tanto pela província holandesa como pela Fluminis Ianuarii. Criou-se também uma espécie de problema “jurídico”. Para o provincial holandês, os missionários enviados “não ficavam mais sob a jurisdição da Província. A opinião geral [na Holanda] era: A Missão do Mato Grosso pertence a nós”[11]. Esse “nós” é o Conselho Geral da Ordem, do qual fazia parte Frei Humberto Driessen[12], como Procurador. A não ida do bispo de Cuiabá para a Holanda para conversar com o provincial carmelita, como estava previsto, deve ter ajudado para que a Província Holandesa não se sentisse responsável pela missão em Corumbá. Dom Carlos não foi por problemas de saúde e porque o provincial havia escrito que ele não precisava ir, visto que os missionários enviados “não ficavam mais sob a jurisdição da Província”.
Para resolver a questão o Prior Geral Frei Pio Mayer determinou que a responsabilidade da Missão no Mato Grosso seria da Província do Rio de Janeiro e enviou uma “obediência” para os Freis Paulo Hurkmans, Canísio Mulderman e Carmelo Lambooy “para ir com o bispo para Mato Grosso afim de lá abrir uma Missão”[13].
No livro de contabilidade da Cúria Generalícia consta a despesa de Lit. 4,55 como pagamento de um telegrama enviado ao bispo do Mato Grosso no dia 30 de junho de 1907[14]. Apesar de não se ter o texto do telegrama, pode-se supor que foi a comunicação de que se aceitava a missão de Corumbá por parte do Prior Geral da Ordem Carmelita.
Como a Província do Rio de Janeiro estava ainda no início de sua restauração, ela própria necessitava ter mais frades. Não tinha possibilidade de assumir a missão em Corumbá sem ajuda da Província Holandesa, encarregada da restauração, desde 1904. Tão logo os missionários designados para Corumbá chegaram no Brasil, foram imediatamente enviados para suprir deficiências da Província em conventos e nomeados para cargos. Frei Paulo Hurkmans foi enviado para o convento de Santos, Frei Canísio Mulderman foi nomeado mestre de noviços e Frei Carmelo Lambooy foi designado para ser professor dos estudantes em São Paulo. Por isso para substituí-los Frei Cirilo pede ao provincial da Holanda o envio de mais dois padres. Na resposta do provincial holandês pode-se constatar o seu descontentamento: “O que V. Revma. me anuncia agora, que os Padres Paulo Hurkmans, Carmelo Lambooy e Canísio Mulderman receberam uma "obediência" para Mato Grosso, me abate e entristece muito. Com todo prazer fazemos o que podemos para prover os Conventos e as Casas da Província do Rio de Religiosos mas se o Padre Geral age deste jeito, ficará impossível a gente continuar”[15]. A animosidade da Província Holandesa em relação à missão no Mato Grosso só diminuirá quando Frei Humberto Driessen foi eleito provincial em 1909. Além dos 4 primeiros missionários, só enviou depois o Frei Maurício Lans para Corumbá. O próprio Frei Cirilo Thewes, Vigário Provincial da Província do Rio de Janeiro, que no início estava a favor da missão – tanto é que aconselhou o bispo Dom Carlos conversar com o Prior Geral e com o provincial holandês, e inclusive estava disposto a fazer uma visita a Corumbá - mudou de lado devido as dificuldades da falta de frades. Parece que ele esperava um maior apoio da província holandesa. “Não preciso dizer que vossa última carta me deixou bastante preocupado. Ter que ceder três Padres e sabendo que a Holanda deixará de nos apoiar, é realmente de desanimar. Espero que esta situação não demore e breve mude para melhor ... Por isso apelo para V. Revma. e peço, pelo zelo e amor que V. Revma. tem pela nossa Ordem, de mandar o mais breve possível, Padres e Irmãos para o Brasil. Reconheço e estou convencido de que o Pe. Geral não usou a cabeça naquele momento, e seria muito triste nós sermos a vítima, nós que junto com V. Revma. nos esforçamos até o último momento, para mostrar a ele que seria irracional.”[16].
Para complicar mais ainda, não foi feito um contrato por escrito e se prometeu que no futuro a “Missão” passaria em definitivo para os carmelitas, e caso fosse criada uma prelazia ou diocese, o bispo seria carmelita[17].
O TERRITÓRIO DA MISSÃO
O território missionário onde os carmelitas holandeses trabalharam abrangia quase todos os 358.158 km2 do atual Estado do Mato Grosso do Sul. Compendia Corumbá, Ladário[18], Aquidauana[19], Miranda[20], Coxim[21], Nioaque[22], Bela Vista, Porto Murtinho[23], Ponta Porã[24], Campo Grande, ... Consequentemente toda a parte do Pantanal pertencente ao atual Estado do Mato Grosso do Sul estava dentro da região missionária confiada aos carmelitas. Parece que Três Lagoas estava fora do território atendido.
Corumbá vivia um momento de grande desenvolvimento econômico. Era o terceiro maior porto da América Latina até 1930. Em 1910 foi fundada a Associação Comercial de Corumbá e em 1914, a 14º agência brasileira do Banco do Brasil. Havia muitos estrangeiros. Naquele tempo estava se construindo a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (São Paulo-Corumbá). Quando a ferrovia ficou pronta, o transporte fluvial perdeu a grande importância que tinha e o eixo econômico foi deslocado para Campo Grande, que se tornou então o ponto central de comunicação e transporte do sul de Mato Grosso a partir da década de 1920[25].
Como estrutura eclesial a missão pertencia à diocese de Cuiabá e compreendia somente 4 enormes paróquias: Santa Cruz de Corumbá, São José de Herculanea (Coxim), Nossa Senhora do Carmo de Miranda e Santa Rita de Nioac. Na época Campo Grande ainda não era paróquia e quando em 1912 (conferir a data da criação e o padroeiro/a) foi criada, seu território não ficou sob a responsabilidade dos carmelitas[26].
Frei Paulo Hurkmans, escrevendo ao Prior Geral, dá alguns detalhes interessantes:
- a paróquia de Corumbá tinha 2 igrejas: uma na cidade e outra em Ladário. “A igreja de Corumbá é muito bem construída, bela e limpa, com seis altares e bem mobiliada, mas com paramentos insuficientes e não tem capas (exceto a preta) e roquete para bênçãos, e os outros paramentos são suficientes só para rezar missa”;
- a população era em torno de 6.000;
- a igreja do Ladário era muito bem mobiliada e havia um quarto anexo;
- Miranda tinha uma igreja em condições desoladoras e não tinham paramentos. Partindo de Corumbá, levava-se 3 dias de barco para se chegar ali;
- Nioaque tinha uma igreja, dois quartos e só os paramentos necessários. Para se chegar ali devia-se viajar 2 ou 3 dias a partir de Miranda;
- Herculandia (Coxim) tinha uma pequena igreja, um quarto e não tinha paramentos;
- Corumbá era o local de maior progresso do Mato Grosso[27].
Os missionários
Os primeiros carmelitas holandeses destinados à missão de Corumbá foram os padres Frei Paulo Hurkmans, Frei Canísio Mulderman, Frei Carmelo Lambooy e o irmão Frei Pancrácio Helmich.
Frei Paulo Hurkmans.
Nasceu aos 02 de outubro de 1863 em Deest (Holanda). Professou na Ordem do Carmo aos 15 de outubro de 1883. Foi ordenado sacerdote no dia 15 de agosto de 1888. Durante seus primeiros anos de sacerdócio trabalhou como professor no seminário em Zenderen. Em 1901 foi nomeado vigário de Pudsey, diocese de Leeds na Inglaterra. Chegou ao Brasil em julho de 1907. Como já estava com 44 anos, teve muita dificuldade para apreender a língua portuguesa e acostumar-se no novo país. Foi nomeado como primeiro superior da missão em Corumbá. Dois anos após, por motivo de doença, retornou para o Rio. Deixou a missão no dia 25 de fevereiro de 1910. Faleceu em Mogi das Cruzes aos 4 de novembro de 1930.
Frei Canísio Mulderman
Nasceu em Mechelen (Holanda) aos 6 de setembro de 1874. Na pia batismal recebeu o nome de Henrique (Hendricus). Ao terminar a escola primária teve que ajudar o seu irmão no trabalho agrícola, ainda que gostasse mais dos livros do que do arado. Foi alguém abençoado por Deus com uma cabeça boa para os estudos e com músculos fortes para o trabalho manual. Ao atingir a idade prescrita pela lei foi chamado para servir como soldado no exército. Foi a primeira vez que ele ficou fora de sua terra natal por um longo período. É verdade que encontrou um mundo novo, mas um mundo pior do que tinha imaginado. Por isso foi com muita satisfação que ele deixou o mundo militar e voltou para a sua querida Mechelen.
A experiência de defensor da Pátria no exército suscitou-lhe o desejo de tornar-se defensor dos direitos divinos, de ser soldado de Cristo e sacerdote do Altíssimo. A dificuldade era: como alcançar este sublime ideal? Considerava-se um pouco velho para entrar num seminário com meninos de calças curtas. Para fazer um bom discernimento, foi aconselhar-se com o seu vigário, que o recebeu fraternalmente. Henrique deixou a casa paroquial bem animado e com passos leves. O vigário havia prometido preparar o seu paroquiano para entrar no seminário maior. Tudo correu melhor do que o mestre e o discípulo tinham imaginado. Já em 1897 Henrique entrou no noviciado, recebendo o hábito carmelitano e o nome de Frei Canísio. No dia 06 de outubro de 1898 fez seus primeiros votos e foi ordenado sacerdote em 28 de maio de 1904.
Ao terminar o curso de Teologia na Holanda, os superiores mandaram-no para Roma afim de especializar-se em Teologia.
A Província Carmelitana Fluminense, estando em franco progresso, precisava mais de Religiosos e especialmente de sacerdotes. Frei Canísio foi indicado para ir ao Brasil, onde chegou dia 21 de agosto de 1907. Antes da sua chegada o definitório, no dia 25 de julho de 1907, havia decidido que o noviciado seria instalado no Convento da Lapa do Rio de Janeiro e que o Mestre de Noviços seria Frei Canísio Mulderman. Pouco após sua chegada no Rio, recebeu uma carta obediência do Prior Geral dos Carmelitas Frei Pio Mayer para ir Corumbá. Quando Frei Paulo Hurkmans deixou a missão do Mato Grosso, ele tornou-se o superior. Ao retornar de Corumbá, já no ano seguinte foi encarregado de iniciar uma nova missão em Paranaguá, PR[28]. Foi Prior em Angra dos Reis, Rio de Janeiro e São Paulo. Por 4 vezes consecutiva foi eleito provincial (1932-44). Nesta função deu grande impulso à Província, aceitando diversas novas fundações. Foi uma das maiores figuras da Província. Faleceu no Rio de Janeiro aos 6 de janeiro de 1950.
Frei Carmelo Lambooy
Nasceu em Leeuwarden (Holanda) aos 9 de novembro de 1879. Foi o primogênito duma família abençoada por Deus com 10 filhos. Recebeu o nome de Francisco, no batismo. Ao terminar a escola primária, manifestou o desejo de ser sacerdote. Seu pai o encaminhou para o seminário carmelita de Zenderen.
O pequeno Francisco fez exames, foi admitido e iniciou os seus estudos. O jovem estudante nunca desanimava diante dos problemas. Sempre estava de bom humor e vivia em boa harmonia com os seus companheiros. Em 1899 entrou no noviciado e recebeu o nome de Carmelo.
Professou no dia 2 de outubro de 1900. Começou o Curso de Filosofia sob o magistério de Frei Humberto Driessen. Foi ordenado sacerdote aos 9 de junho de 1906.
O então superior dos carmelitas holandeses no Brasil Frei Cirilo Thewes (estando na Holanda) escreveu ao provincial holandês: “Acabo de receber uma carta de Frei Carmelo na qual diz que o único problema para ele viajar é que ainda não terminou os seus estudos. Este problema acho que se pode resolver facilmente, porque dois professores me acompanharão para o Brasil. Sou de opinião que a ida de Frei Carmelo está por isso resolvida, é o que direi a ele”[29]. Assim ele foi destinado para as missões no Brasil, onde chegou ao Brasil dia 7 de junho de 1907. Ficou um mês na Lapa e foi transferido para São Paulo, mas a carta-obediência do Prior Geral o encaminhou para a missão em Corumbá.
Na missão de Corumbá, Frei Carmelo se sentia totalmente à vontade. Todos os dias saía a cavalo para visitar os diversos povoados e lugarejos. Conseguiu visitar todas as paróquias e comunidades para administrar os Santos Sacramentos e pregar o Evangelho. Ele era infatigável e sempre às ordens de cada fiel. Nas horas vagas trabalhava como carpinteiro, ferreiro, sapateiro, etc. ou ajudava a Frei Pancrácio no serviço da casa, nunca recusava qualquer trabalho manual. Tinha saúde fantástica. Possuía todas as qualidades para ser um ótimo missionário que trabalhava desde de manhã cedo até altas horas de noite.
Foi missionário durante quase todo o tempo que permaneceu no Brasil, em Corumbá, Paranaguá e na prelazia de Paracatu. Faleceu dia 27 de maio de 1948, quando estava de férias na Holanda.
Frei Pancrácio Helmich
Nasceu em Enschede (Holanda) aos 12 de março de 1867. Após terminar a escola primária, aprendeu a profissão de sapateiro. Esteve poucos meses como postulante na Congregação dos Padres Brancos. Sentia-se mais atraído para a vida do Carmelo, onde estava Frei Donato, seu irmão mais velho.
Alberto Helmich entrou no noviciado de Boxmeer, recebendo o nome de Pancrácio. Professou na festa de N. Sra. do Carmo, 16 de julho de 1898. Em novembro de 1902 acompanhou um padre para América do Norte. Estabeleceram-se na Vila New Atheus, Diocese de Beleville, Estado de Illinois. O Prior Geral Pio Mayer nomeou o Provincial Americano para que fizesse uma visita canônica e examinasse as perspectivas de futuro. Após examinar tudo, chegou à conclusão que a missão devia ser fechada. Por isso notificou o bispo diocesano, dizendo que no fim do ano os Carmelitas desistiriam definitivamente da Paróquia. Os daquela fundação holandeses podiam voltar para Holanda ou incorpora-se à Província Americana. Frei Pancrácio ficou ainda um ano e meio nos Estado Unidos, mas no começo do ano de 1907 retornou para sua pátria.
Depois foi designado para o Brasil, onde chegou aos 7 de Junho de 1907. Uma vez em terras brasileiras foi enviado para Corumbá no primeiro grupo de carmelitas. Frei Pancrácio Helmich era o "fac-totum": cozinheiro, sacristão, organista, cantor, coroinha, mecânico, tocador de sinos, etc. Deixou a missão do Mato Grosso em 1910. Foi também um dos fundadores da missão carmelita em Paranaguá em 1915. Trabalhou nos conventos da Mogi das Cruzes e Angra dos Reis, onde faleceu dia 7 de julho de 1946.
Frei Maurício Lans
Nasceu na cidade de Haarlem (Holanda) no dia 18 de outubro de 1881, numa numerosa família que deu à Igreja quatro sacerdotes. Dois filhos se tornaram Trapistas, que nas suas respectivas abadias subiram à dignidade de abade. Outro filho entrou na Congregação dos Padres Brancos e afinal o nosso Maurício. Quatro irmãos, um longe do outro. Um Trapista na Bélgica, outro na América do Norte, o Padre Branco na África e o Frei Maurício no Brasil. Começou os estudos no Seminário Diocesano, porém, dois anos depois era aluno do ginásio carmelita em Zenderen. Em 30 de setembro de 1902 professou na Ordem do Carmo e em 25 de maio de 1907 foi coroado com o sacerdócio. Após terminar o curso teológico foi transferido para o novo convento, que a pedido do Arcebispo de Utrecht, os carmelitas construíram em Hoogeveen, um lugar de 14.000 habitantes, dos quais apenas uns 25 católicos. Naquela época Hoogeveen era o único convento nas três Províncias do Norte. Em poucos anos os Padres Carmelitas eram conhecidos e estimados como pregadores nas várias paróquias daquela vasta região. As homilias do jovem sacerdote Frei Maurício eram apreciadas pelo povo. A crescente Província Fluminense, porém, precisava de mais sacerdotes e o então Provincial da Holanda, Frei Humberto Driessen, destinou Frei Maurício para a missão de Corumbá. Chegou no Brasil em novembro de 1910. Em seguida passou a estudar português, porque queria ir para a missão e logo começar a trabalhar. Ao provincial holandês escreveu: “estou contente por ter sido nomeado para o Mato Grosso”[30].
Em 21 de fevereiro de 1911 embarcou em Santos no vapor "Zeelandia" do Loyd Real Holandês para ir, via Montevidéu, Buenos Aires e Assunção, trabalhar nas Missões Carmelitanas de Corumbá. Sua viagem durou mais de 2 meses por causa de uma revolução em terras paraguaias.
Com o fim da missão no Mato Grosso, trabalhou em vários conventos. Restaurou os conventos de Itu e Santos. Foi vigário de Guarujá e Guararama. Teve grandes méritos na reorganização do arquivo de Santos. Faleceu quando era prior do convento do Rio de Janeiro aos 20 de abril de 1944.
INÍCIO DA MISSÃO
Aos 11 de janeiro de 1908 embarcaram em Santos rumo à missão em Corumbá os padres Frei Paulo Hurkmans, Frei Canísio Mulderman, Frei Carmelo Lambooy e o irmão Frei Pancrácio Helmich. O Bispo de Cuiabá, Dom Carlos Luís L'Amour, viajou junto para pessoalmente entregar a missão aos carmelitas. O navio seguiu a rota Montevidéu, Buenos Aires, subiu o rio Paraná, entrou no rio Paraguai, passou por Assunção e chegou em Corumbá aos 8 de fevereiro do mesmo ano[31]. O superior do grupo missionário era Frei Paulo. Os 4 passaram a morar numa casa, junto à igreja, com 3 quartos.
É estranho, mas os missionários em suas cartas aos superiores não mencionam normalmente nada sobre o trabalho em si. Por exemplo: não comunicam quantos batizados ou casamento fizeram numa viagem de desobriga, para onde iam ou se divulgavam o escapulário e a devoção a Nossa Senhora do Carmo, ou se criaram alguma confraria. Provavelmente isto aconteceu porque para eles o normal da vida não era necessário contar. Eles não lamentam, mas várias vezes contam que o trabalho era duro, pesado e que as viagens eram longas. O mais duro e pesado era viajar pelo Pantanal durante um ou dois meses. Normalmente um deles estava fazendo visitas pelo interior.
Frei Paulo escreveu ao Padre Geral contando que Frei Canísio, pelo fato de falar também italiano, deva assistência aos imigrantes italianos daquela região[32]. No entanto, não informou que tipo de assistência dava.
Quanto à presença em Coxim, o site da diocese informa: “De 1908 à 1910 encontramos em Coxim dois Pe. da Ordem Carmelita: Pe. Canisio Mulderman e Pe. Carmelo Lambooj. Depois o salesiano Pe. Bernardo Chicco passou a dar o atendimento à freguesia” [33].
Estado de ânimo
Os missionários foram para Corumbá com grande entusiasmo e alegria. Acreditavam muito no futuro da missão. Escrevendo ao Prior Geral, Frei Paulo afirmava: “The longer I am here the more I am convinced, that this mission of Matto Grosso has a great future for our Order”[34] (Quanto mais tempo estou aqui, mais eu estou convencido de que esta missão do Mato Grosso tem grande futuro para nossa Ordem). Afirmações semelhantes estão também em outras cartas dos missionários.
Mas desde o início sentiram que necessitavam ajuda e insistentemente pediram mais padres. Quase em cada carta aos provinciais imploravam: “É necessário enviar mais 2 ou 3 sacerdotes”. Diante desta situação frei Canísio, escrevendo ao Procurador Geral da Ordem, tranqüilizava-o: “Entrementes o senhor pode ficar tranqüilo. Perder o ânimo é perder tudo e desistir é a última coisa que se faz”[35]. em 1909 Frei Humberto Driessen foi eleito provincial na Holanda. Logo escreveu comunicando que mandaria reforço para o Mato Grosso, se achasse quem quisesse ir. Em fevereiro de 1910 escreve manifestando sua esperança em relação a esta promessa: “me lembro com alegria de sua última carta na qual o senhor promete mandar para cá mais gente se o senhor achar quem queira vir. Graças a Deus, acho que haverá candidatos dispostos a enfrentar o trabalho e o cansaço por amor a Deus e pela revivescência da religião tão lastimavelmente decadente nesta região”. Mas com realismo adverte: “Ninguém espere encontrar aqui uma vida fácil e sob todos os pontos de vista agradável; mas também não serão devorados pelas onças. Quem dera que tivéssemos em breve mais dois ou três Religiosos”[36]. Frei Maurício Lans se dispôs ir para Corumbá e foi enviado ao Brasil no mesmo.
O sentimento de abandono em relação aos superiores foi constante. Não foi só o problema de não enviar mais missionários, mas também de comunicação: “Nos últimos seis meses telegrafei cinco vezes para o Rio e mandei duas cartas, tratando do Frei Maurício Lans e de outros assuntos sem receber nenhuma resposta, portanto agora chega. Isto não nos atinge pessoalmente, só achamos desumano o modo como somos tratados. Se Nosso Senhor nos deixar com saúde, a gente vai se virando mas para a Missão é uma tristeza. É totalmente impossível nós dois aqui fazermos mesmo os serviços mais necessários”[37].
Quando finalmente Frei Maurício Lans chegou em Corumbá, Frei Canísio escreveu ao provincial holandês: “Demorou muito, já devia estar aqui há muito tempo; nós estávamos numa situação muito ruim, pior do que se pode imaginar é que nós fomos durante tanto tempo abandonados fez um grande estrago ao nosso trabalho”[38].
Em relação ao governo geral da Ordem houve comunicação direta tanto com o Prior Geral Frei Pio Mayer como com o Procurador Geral Frei Humberto Driessen. Em nenhuma das cartas, que estão no Arquivo Geral da Ordem, há reclamação. Inclusive foram atendidos quando pediram missais e rituais. Frei Paulo agradeceu ao Prior Geral pelo envio de 8 missais[39], e Frei Canísio pelos 3 novos “Rituale Ordinis”[40].
Dificuldades
Desde o início os carmelitas encontraram grandes dificuldades, a começar pela casa onde moravam, que era pequena. Tinha três quartos para quatro frades. Os dois, que deviam dormir no mesmo quarto, deviam se sentir incômodos, visto que o normal é de cada frade ter a sua própria cela, conforme está na Regra do Carmo[41].
O número reduzido de padres para uma região tão vasta, implicava numa sobrecarga de trabalhos, mesmo que fosse só de “desobriga”. Viajar e se locomover pelo Pantanal era uma verdadeira aventura. Hoje ainda quando se fala em Pantanal se pensa em onça, sucuri, piranhas e jacarés. Também não havia pontes e estradas, como a rodovia Campo Grande-Corumbá ou a Transpantaneira, que liga Poconé ao Porto Jofre.
O trabalho era muito fatigoso não só por causa das longas distâncias mas também devido às condições em que se viajava. Devia-se andar a cavalo, de bote ou a pé. Quando o missionário saía para o interior só voltava após mais de um mês. Para se ter uma idéia de como foi difícil o trabalho desses pioneiros basta mencionar que Frei Canísio Mulderman, querendo conhecer pessoalmente a enorme extensão do território, viajou ininterruptamente durante 11 meses. Em virtude desta longa ausência, os seus confrades chegaram a pensar que talvez ele tivesse morrido e conversaram seriamente sobre a conveniência de celebrar solenes exéquias em sufrágio de sua alma. Folcloricamente, segundo Frei Carlos Mesters, entre os carmelitas do Brasil correu a história de que quando Frei Canísio voltou, estava sendo celebrada uma missa por um defunto. Ele perguntou: “quem morreu?” A resposta: “Um tal de frei Canísio que sumiu no meio do Pantanal”. Nesta ocasião, Frei Canísio saiu de Corumbá dia 6 de junho de 1908 e no dia 6 de dezembro estava em Aquidauana. Tinha visitado mais da metade da Missão e iria viajar até Nioac e aos limites do Paraguai. As viagens eram longas, de 5 a 10 dias a cavalo. Ele queria que o povo tivesse o primeiro contato com os carmelitas. Sobre esta aventura Frei Canísio conta: “Desde o início gostei e não gostaria de trocar esta vida por outra, mesmo assim na minha última viagem a Coxim não agüentei. Foi uma viagem difícil. Montanhas escarpadas que só podíamos descer a pé, rios bastante grandes que atravessamos em canoas e os cavalos nadando, etc. e tudo isto debaixo de chuva e muito calor. Agora até o fim de fevereiro é a época do calor mais forte e de chuvas pesadas. O meu cavalo estava exausto e andava mancando. Me deu uma dor nas costas tão grande que não agüentava mais sentado no cavalo. Desci e fui andando a pé até não suportar mais. Aí pernoitamos lá mesmo. No dia seguinte trocamos de cavalo e tudo corria bem” [42]. Quase dois anos após sua chegada em Corumbá, ele expressava como os missionários se sentiam ao retornar de uma desobriga: “Chegamos do interior meio atordoados, exaustos espiritual e fisicamente” [43]. Para se reabastecerem espiritualmente, os missionários faziam a meditação diariamente pela manhã[44], além das orações normais do breviário.
Frei Canísio em sua carta menciona o calor. De fato a temperatura média em Corumbá é de 32 graus no verão. Somando-se ao calor, o fato de que os missionários eram da Holanda, uma terra muito fria, e que usavam um hábito escuro de cor marrom e de lã, dá para se ter uma idéia daquilo que eles sofreram. A própria estrutura física nem sempre era a ideal pra enfrentar aquelas condições. Frei Canísio, que tinha uma saúde invejável, manifestou dúvidas se o último confrade, que chegou, iria agüentar o tranco: “se Frei Maurício é capaz de fazer aquelas viagens difíceis pelo interior, eu duvido. Mas isto não faz mal, sempre se acha um jeito; de ninguém exige-se demais, porém, é verdade, o trabalho aqui é duro e árduo, é uma vida de sacrifício” [45].
Evidentemente que a prática religiosa do povo não era das melhores. Um dos padres, talvez com certo exagero, escreveu: “A religião aqui é quase ignorada, o povo não leva nada a sério, a metade da população compõe-se de matadores revolucionários e todos praticam o amor livre; nunca faltarão dificuldades e problemas”[46]. Havia também maçons na cidade, mas não parece que havia briga aberta entre eles e a Igreja, mas como conta Frei Canísio: “Aqui tudo é feito pelos chefes da Maçonaria, mas isto não quer dizer nada”[47].
Outro grave problema era a presença de padres amancebados, mercenários e/ou doidos. Quando chegaram na missão, havia em Miranda um velho padre espanhol, que deu dor de cabeça. Conta Frei Canísio: “Ele é do tipo antigo, que como todos os antigos, não liga a mínima para Deus ou mandamentos. Se esta gente recebe uma suspensão, excomunhão ou um interdito, fica rindo de tudo isto e continua fazendo o que quer; bem, afinal de que vão viver as mulheres e os filhos?
Deu na cabeça do velho espanhol, há algum tempo, de abandonar Miranda e de ir para a paróquia de Nioac, que é nossa. Ainda deve estar lá e se ele pretende ficar lá mesmo, é de tirar o chapéu para quem conseguir fazê-lo sair.
Naturalmente o Bispo ficou sabendo disto e este nos escreveu então que um de nós fosse à Miranda para ver a situação”[48]. Frei Paulo Hurkmans, como superior, foi lá tentar resolver, mas sua viagem foi um fracasso, porque ele, além dele não entender bem o idioma, não era uma pessoa indicada para lidar com este tipo de situação.
Sete meses mais tarde, escrevendo ao Procurador da Ordem, Frei Canísio conta que em Sant'Ana do Paranaíba o vigário era um italiano caduco. Este deu dor de cabeça, porque foi para a região de Miranda e Aquidauana e ali começou a fazer casamentos e batizados sem licença. O próprio Frei Canísio foi encarregado, pelo bispo, de entregar-lhe a suspensão, mas ele também não deu nem bola. Na mesma missiva afirma: “Um outro problema são os Padres Italianos que vivem tirando dinheiro do bolso das pessoas, fazendo batizados, casamentos etc. sem terem jurisdição, sem nada”. Dá o exemplo concreto: “Enquanto eu estava em Campo Grande, que pertence à paróquia de Miranda, distante umas cinco horas a cavalo daqui, situada no alto das montanhas, veio fixar residência aqui um padre italiano, trazendo consigo mulher e filhos. O povo não liga para isto, quanto mais almas, mais alegria; que os sacerdotes devem ser solteiros para o povo isto é besteira, e direito e autoridade simplesmente não existem. O sacerdote é um trabalhador manual e onde se estabelece, pode exercer a sua profissão. E aquele italiano se aproveita disto; já está começando a enganar o povo e no primeiro ato religioso que fizer estará suspenso, mas isto não quer dizer nada. Dirigiu também ao Bispo um requerimento com muitas assinaturas, solicitando o cargo de vigário daquela paróquia. O Bispo não deverá atender ... No momento tenho um certo medo de voltar para lá porque um cara deste, vendo que nós o atrapalhamos é capaz de tudo, consciência ele não tem e justiça humana lá não existe” [49].
Frei Paulo aponta o caso de um padre que morava em Corumbá e que tinha 3 filhas. Devido ao amancebamento e à simonia praticadas por este “maus” padres o resultado era que, quando os carmelitas visitavam uma casa em que havia mulher, deviam tomar muito cuidado porque a desconfiança era grande. Frei Paulo tinha esperança de que a situação mudaria pouco a pouco, visto que o povo estava vendo que os carmelitas não estavam atrás de dinheiro e de mulher[50].
Além das dificuldades externas, havia as dificuldades internas e pessoais. Frei Paulo Hurkmans não sabia bem o português e por isso não saía para o interior. Isto causava certo descontentamento entre os outros confrades. Tinha um pouco de problema em relação à bebida e sua saúde não era muito boa. Estava só com 44 anos, mas para Frei Canísio ele já era “velho” para trabalhar na missão. Poucos meses depois da chegada em Corumbá, Frei Canísio, referindo-se a frei Paulo, desabafava: “E quanto ao trabalho dele, ele pode muito bem voltar para Santos, não fará nenhuma falta, antes pelo contrário”[51]. Frei Carmelo, que tinha o estupim um pouco curto, não tinha paciência com Frei Paulo e muitas vezes explodia. O próprio Frei Canísio, que era muito controlado e tinha uma força de vontade incrível, às vezes perdia a paciência. Ele mesmo conta: “recentemente recebi uma advertência do Rio para não perder a calma e estou nervoso de novo”[52]. Frei Carmelo Lambooy chegou a enviar uma carta ao Prior Geral Frei Pio Mayer pedindo demissão da missão no Mato Grosso “por causa de diversas e veementes rixas” com Frei Paulo[53]. A demissão nunca foi aceita.
A própria situação geográfica e a variação do clima trazia como conseqüência o isolamento do resto do mundo. No final do período de seca em 1909, um dos missionário conta: “Durante muito tempo ficamos aqui separado do mundo civilizado por falta de água nos rios, sem receber nenhum sinal de vida ou notícia, até que por estes dias veio correspondência com novidades”[54].
Ele se sentiam abandonados pelos superiores e não sem razão. Pediam constantemente ajuda, mas nem o superior do Rio nem o da Holanda se dignaram enviar mais padres para ajudá-los. Parece que a dor maior não era causada por não receber reforço numérico e sim a indiferença, manifestada mesmo no envio de notícias. Numa carta ao provincial holandês, Frei Canísio se lamentava: “Parece que finalmente o pessoal do Rio reconhece que nos trataram mal. Pelo menos agora recebemos regularmente notícias de lá, escrevendo até que o Provincial viria aqui. Agora parece que a gente pode tirar o cavalo da chuva” [55].
As doenças também acompanharam os frades carmelitas no Mato Grosso. Frei Paulo devido à doença teve que deixar a missão o dia 25 de fevereiro de 1910. Conta Frei Canísio: “Frei Maurício esteve um mês doente, para nós foi muito desagradável”[56].
A insegurança em relação ao futuro foi algo que corroeu os missionários durante todo o tempo. Como não havia uma certeza de que permaneceriam sempre ali, não se empenharam em fazer construções de convento, etc.
Visitas de superiores
No início da missão os superiores provinciais carmelitas, tanto da Holanda como do Brasil, não eram favoráveis à missão em Corumbá e não deram o apoio necessário. Pode-se dizer que ficaram indiferentes diante do compromisso assumido pelo Prior Geral Frei Pio Mayer. A situação começou mudar quando em 1909 foram eleitos provinciais Frei Gregório Meijer[57] no Rio de Janeiro e Frei Humberto Driessen na Holanda. Os dois tiveram um interesse maior e apoiaram a missão naquilo que era possível, inclusive visitando. Em 1910, Frei Humberto, sensibilizado por tantos e tantos pedidos dos missionários, enviou Frei Maurício Lans para a missão do Mato Grosso. Foi o único frade carmelita enviado a Corumbá após os 4 pioneiros.
Frei Gregório Meijer foi primeiro superior carmelita a visitar Corumbá. A visita aconteceu em março-abril de 1912, portanto 4 anos após a ida dos missionários para o Mato Grosso. Infelizmente não há, nos arquivos consultados, um relatório desta visita. Há no Arquivo Geral da Ordem em Roma uma carta de Frei Gregório ao Prior Geral informando que visitou a missão. Além disso conta resultado das negociações com o bispo. Junto com a carta há um mapa da diocese, desenhado a mão por Frei Gregório, com a área reservada aos carmelitas. Durante a visita encontrou-se com o novo bispo Dom Cyrillo de Paula Freitas e tentou acertar definitivamente a presença dos missionários carmelitas na diocese. Não conseguiu nem o que queria nem evitou que o bispo tirasse dos carmelitas a maior parte do território, mesmo prometendo enviar mais missionários. De fato naquela ocasião o bispo tirou em torno de ¾ do território e os carmelitas ficaram só com uma faixa ao longo do Rio Paraguai, compreendendo Corumbá, Ladário, Forte Coimbra, Porto Esperança e Porto Murtinho, além de algumas fazendas[58] (ver o mapa no anexo 2). Sobre esta vista comentou Frei Canísio: “O senhor já deve saber que o Provincial do Rio esteve aqui. Nada mal, pelo contrário, teria sido muito melhor se tivesse já vindo para cá antes” [59].
Em maio de 1913 o Padre Visitador Frei Humberto Driessen esteve em Corumbá. Tão logo chegou a notícia de que a ilustre visita iria para Corumbá, Frei Canísio escreveu ao Padre Geral demonstrando a sua satisfação e diz que era “absolutamente necessário, que o próprio visitador visse a situação e escutasse os missionários”[60].
Ele visitou a missão do Mato Grosso em companhia de Frei Serapião de Lange, que pouco depois foi eleito provincial. Ainda em Corumbá, Frei Humberto enviou uma carta ao bispo diocesano Dom Cirilo de Paula Freitas para tentar resolver a situação jurídica dos carmelitas na diocese, visto que “nunca se firmou um pacto de entregar a administração destas paróquias à nossa Ordem”[61]. Também não conseguiu.
Curiosidades sobre o roteiro da viagem Rio-Corumbá
A viagem do Rio de Janeiro até Corumbá levava em torno de um mês. O navio parava em alguns portos para carga e descarga, como é normal acontecer. Os passageiros tinham tempo livre para passear ou fazer visitas. Os missionários carmelitas iam para casas de religiosos. Em Buenos Aires dirigiam-se aos Padres de Steyl, que falavam holandês, cujo endereço era: Padres del Verbo Divino, Calle Mansila 1555 (Palermo). O aviso da chegada podia ser feito através do telégrafo com o endereço: Imprensa Guadalupe, Buenos Aires. Em Assunção hospedavam-se no Oratório Franciscano, Bermejo 135. Este era dirigido por franciscanos espanhóis, que eram “boa gente”, segundo Frei Canísio. Quando o navio fazia escala em Montevidéu em vez de Buenos Aires, dirigiam-se ao "Colégio de la Sagrada Família", Calle Agraciada, 217[62].
PRELAZIA CARMELITANA: um sonho?
Desde o início foi prometido pelo Cardeal Arcoverde e pelo Núncio Giulio Tonti que no futuro a “Missão” seria concedida em definitivo para os carmelitas, e caso fosse criada uma diocese ou prelazia o bispo seria carmelita[63]. Este sonho foi alimentado tanto pelos superiores como pelos missionários. Parecia tudo líquido e certo. Mas os carmelitas se esqueceram de algo fundamental: para a Santa Sé vale o que está escrito e não o que se falou. O próprio Núncio vai confirmar este princípio diplomático do Vaticano. É estranho que Frei Humberto Driessen – como canonista e Procurador Geral – não tenha dado importância para este determinante detalhe e não tenha orientado ao Prior Geral e aos provinciais para que documentassem a promessa.
Desde 1910 o vigário provincial Frei Gregório Meijer desconfiava que a promessa não seria mantida. Numa carta ao provincial holandês Frei Humberto Driessen, ele manifestou seus temores. Começou logo afirmando: “Quanto à nossa Missão, creio que perderemos Corumbá”. Ele já tinha alertado o Padre Geral e este lhe respondeu “para lembrar ao Cardeal e ao Núncio, mais uma vez, das promessas feitas por estes”. O Cardeal Arcoverde tirou o corpo fora dizendo “que não podia se apressar em se envolver neste assunto, primeiro porque a sua palavra como Cardeal, como sendo o desejo de um Cardeal ia pesar demais na balança e depois, porque ele não era propriamente o representante da Santa Sé, mas sim o Núncio”. Frei Gregório compreendia a posição do Cardeal e tinha bons motivos para isto: “nós, por experiência, sabemos que ele sempre esteve a nosso favor e também o será no futuro mas que não acha conveniente envolver-se neste assunto já que em outros casos ultimamente, muitas vezes foi forçado a não dar o seu voto em negócios papais”. De outro lado o Cardeal não estava de acordo com a posição do Prior Geral Frei Pio Mayer, que queria chamar de volta os missionários, porque “achava uma medida muito severa, muito Européia”. Já sobre a possibilidade de que o primeiro bispo de Corumbá seria um salesiano, o Núncio Bavona afirmava que a notícia era prematura e que nunca tinha pensado nesta possibilidade. Era verdade, visto que ele já tinha consultado o bispo coadjutor de Cuiabá, Dom Cyrillo – que não era salesiano – para ser o primeiro bispo de Corumbá. Disse que sua preocupação era a de continuar trabalhando no projeto das 3 novas dioceses do Mato Grosso e aquilo que já estava decidido não seria voltado atrás, ou seja, a diocese de Corumbá tinha sido criada e não seria reduzida a Vicariato. Ele se comprometia em indenizar a Ordem se, baseada na promessa de dar definitivamente a missão de Corumbá, tivesse construído algo ali. Em relação à ameaça do Padre Geral tirar de lá os missionários, afirmou que se tal acontecesse, se voltaria contra os carmelitas ou ficaria indiferente em relação aos mesmos no futuro. “Ele prometeu conseguir que nos seja dado em outro lugar, um território próprio e, como eu sugeri a ele, também nos seriam confiadas algumas paróquias de Corumbá, como próprias dos Carmelitas”[64].
Quando em 13 de março de 1911 foi anunciado que o bispo nomeado para Corumbá era Dom Cyrillo de Paula Freitas, portanto um que não era carmelita, o vigário provincial Frei Gregório Meijer manifestou a sua mágoa ao novo Núncio Dom Giuseppe Aversa. Em carta ao provincial holandês desabafava: “Quando eu falei ao Núncio Apostólico da nossa decepção, disse-me que nunca soubera que os Carmelitas gostariam de ter como seu o território e que logo mudaria a situação contanto que o Geral ou o Provincial daqui possam provar que de fato existem promessas feitas pela Congregação ou pelo Núncio anterior, de fazer deste território um Vicariato.
Se o senhor puder arrumar alguns documentos ou mostrar alguma prova em relação a isto, devido ao seu conhecimento do andamento dos negócios naquela época em Roma, o senhor faria um bem a nós e à Missão de Mato Grosso.
Entrementes temo que não se tenha feito um contrato definitivo, o que, conforme as palavras do Núncio, teria sido tão fácil. Acho aconselhável aproveitar esta ocasião para transferir os Padres para um outro território e de imediato tentar por intermédio do Núncio, conseguir um território de Missão como Vicariato-Prelazia para os Carmelitas”[65].
A nomeação de Dom Cyrillo de Paula Freitas não matou o sonho dos carmelitas holandeses terem uma missão própria. O sonho continuou sendo acalentado e alimentado até que se conseguiu a Prelazia de Paracatu em 1929.
CRIAÇÃO DA DIOCESE
A Diocese de Corumbá foi erigida pelo Papa Pio X com a bula “Novas constituere dioceses” de 10 de março de 1910[66]. Mas o seu primeiro bispo, Dom Cyrillo de Paula Freitas[67], só foi nomeado em 13 de março de 1911[68]. A demora de mais de um ano entre a criação da diocese e a nomeação do primeiro bispo aconteceu porque quem era consultado não aceitava. Em carta ao Núncio Aversa[69], o próprio Dom Cyrillo de Paula afirma não aceitou na primeira consulta: “Conhecendo a situação da nova diocese, recusei a primeira proposta de nomeação que Monsenhor Bavona[70] me fez. E como elle insistisse por duas vezes, respondi que somente acceitaria, si a S. Sé me permittisse residencia fora de Corumbá, ate que eu conseguisse crear renda para a mitra e adquirisse fundos para o patrimonio da diocese – proposta que a S. Sé accedeu”[71]. Além da exigência de poder morar fora da sede diocesana pediu para “ficar por algum tempo como simples administrador da nova diocese” e que iria “tomar conta do governo da nova diocese no fim do anno de 1911”[72]. Dom Cyrillo de Paula Freitas nem mesmo não apareceu para tomar posse pessoalmente. Tomou posse por procuração através de Frei Canísio Mulderman no dia 3 de março de 1912[73]. A não aceitação imediata e as exigências de Dom Cyrillo retardaram a posse do primeiro bispo da diocese de Corumbá por dois anos.
RELACIONAMENTO COM O BISPO
O relacionamento de Dom Cyrillo e os missionários carmelitas normalmente foi bom. Ele encarregou Frei Canísio, como seu procurador, para tomar posse da diocese. Ele poderia ter encarregado um dos salesianos, que morava em Corumbá, ou mesmo ter enviado um amigo seu de Cuiabá. Por mais de uma vez manifestou que estava satisfeito com os carmelitas e que queria que eles ficassem na diocese. Ao visitador provincial Frei Humberto Driessen escreveu: “Desejo muito que os seus Religiosos continuem na obra de apostolado, que já iniciaram nesta diocese. Elles tem sabido cumprir o seu dever; e das dioceses do Brasil a de Corumbá é talvez a que esteja precisando mais do concurso de bons religiosos”[74]. Mas se Dom Cyrillo apreciava os carmelitas que estavam em Corumbá, tinha consciência de que os superiores carmelitas não enviariam mais padres missionários para o Pantanal. Por isso tirou inicialmente uma grande parte do território onde os carmelitas trabalhavam. Frei Canísio sobre a atitude do bispo escreveu ao provincial holandês: “Ele (o bispo) sabia que com os Carmelitas não arrumava nada mesmo, ou como ele mesmo disse: tinha certeza de que os Carmelitas não tinham mesmo pessoal suficiente e por isso nos tirou ¾ da Missão, região para a qual pediu Padres Seculares. Temos agora ainda Corumbá e toda a região pertencente a mesma. Poderemos com todo o prazer, receber de volta as outras paróquias se um ou outro Secular convidado não quiser vir. Como esta história vai acabar não sei dizer. Por escrito o Bispo declara que gostaria de confiar a nós toda a sua diocese (que aliás já estava nas nossas mãos), mas o que ele devia pensar? Só podia mesmo pensar que nós não tínhamos o pessoal necessário” [75].
Houve pequeno contra-tempo quando o bispo autorizou um padre salesiano para fazer batizados e casamentos em Porto Murtinho sem avisar os carmelitas. O próprio bispo se justifica para o Núncio: “à pedido do diretor Salesiano de Corumbá, lhe concedi a este diretor a faculdade de ministrar os sacramentos numa fazenda da parochia de Porto Murtinho onde fora elle passar ferias em casa de um alumno do collegio. Estando em Porto Murtinho à uma distancia de noventa leguas de Corumbá, e sem occasião de nenhum recurso espiritual, por isto que os Carmelitas so apparecem alli uma vez no anno, quando isto succede, - concedendo tal faculdade julguei apenas cumprir um dever de consciencia!” [76]
Numa carta ao Núncio, Dom Cyrillo reclama que os carmelitas não fizeram nada para constituir um patrimônio para a diocese. O que é verdade. Mas eles nunca foram encarregados de tal tarefa. Os encarregados foram outros. Já em 1908 falava-se que “Corumbá em breve vai virar diocese. Já há muito tempo foram nomeadas comissões e distribuídas circulares para arrecadar dinheiro para a residência do Bispo e o patrimônio da diocese. Naturalmente, como tudo aqui, feito pelos chefes da Maçonaria, mas isto não quer dizer nada”[77]. O próprio Dom Cyrillo estava encarregado, tanto é que Frei Canísio informa ao seu superior: “Há mais de um mês que o Bispo auxiliar de Cuiabá está no Sul de Mato Grosso para administrar a crisma e arrecadar fundos para a futura diocese de Corumbá”[78]
Durante o período em que os carmelitas estiveram em Corumbá, o bispo não teve grande interesse pela sede da sua diocese. Logo após a primeira e pequena visita, foi para Três Lagoas e não deixou acertado quando voltaria. Os próprios carmelitas não sabiam: “Nos primeiros oito ou dez meses o Bispo não deverá voltar aqui” [79].
Dom Cyrillo, pouco depois de assumir a diocese, passou a maior parte do território atendido pelos carmelitas a padres diocesanos. Mas como o vigário provincial Frei Gregório Meijer pediu e prometeu enviar mais sacerdotes carmelitas para trabalhar no Pantanal matogrossense, ele voltou atrás e devolveu uma parte do território aos carmelitas. Comunicou sua decisão, desde Coxim, ao Frei Canísio:
“Cordiais Saudações. A propósito da última reunião que tivemos em Corumbá, telegrafei depois da minha chegada aqui e consegui mais alguma coisa em favor das Missões Carmelitas. Para atender à sua solicitação, poderão os Carmelitas nesta diocese, continuar encarregados não somente da paróquia de Corumbá como também de Miranda, Aquidauana e de Bela Vista; enquanto outros sacerdotes tomarão conta das paróquias de Campo Grande, Coxim e Sant'Ana do Paranaíba que não posso mais deixar para os Carmelitas porque assumi compromissos de prover estes lugares de sacerdotes e não posso faltar a estes compromissos.
Desejando tudo de bem para V. Revma. assino
Atenciosamente seu amigo em Cristo,
- Cirilo Bispo de Corumbá”[80].
Motivos que levaram os carmelitas a abandonar Corumbá
Parecia no início que tudo iria dar certo para o trabalho missionário dos carmelitas em Corumbá. O bispo Dom Carlos Luiz D’Amour, aconselhado pelo Cardeal Arcoverde, tinha entrado em contato com Frei Cirilo Thewes, superior dos carmelitas no Rio de Janeiro. Este por sua vez deu esperanças ao bispo e pediu para que ele se dirigisse ao Prior Geral Frei Pio Mayer e ao provincial carmelita da Holanda. O capítulo provincial da Holanda informalmente tinha aceitado, mas quando o Prior Geral aceitou oficialmente a missão, o provincial holandês interpretou que a missão era de responsabilidade do Conselho Geral e não da Província Holandesa.
A Província Holandesa só enviou os três primeiros missionários e depois não se comprometeu mais. A Província Fluminis Januarii não tinha frades suficientes nem para ocupar todos os conventos carmelitas dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, ou seja, os conventos da Lapa (Rio de Janeiro), Angra dos Reis, São Paulo, Mogi das Cruzes, Itu e Santos. Por isso, quando o Vigário Provincial Frei Cirilo Thewes percebeu que da Holanda não chegariam missionários, mudou de posição e passou a ser contra a missão. Logo após a chegada dos missionários indicados para Corumbá, os destinou para tarefas dentro da província. Frei Canísio Mulderman foi nomeado mestre de noviços, Frei Carmelo Lambooy foi destinado para o trabalhar como professor em São Paulo e Frei Paulo Hurkmans foi enviado para o convento de Santos. Foi necessário que o Prior Geral Frei Pio Mayer enviasse uma carta-obediência obrigando os três irem para o Mato Grosso. Isto ajudou azedar o ambiente e a criar reação contra a missão. Frei Cirilo só acatou a ordem por obediência: “Embora a questão já esteja decidida, ele [Frei Cirilo] em consciência continua contra, como aliás sempre foi, e já não estava muito contente durante a visita do Bispo aqui; como estava convencido tratar-se de um caso decidido, aceitou a contra gosto”[81]. Portanto antes da partida dos missionários já havia animosidade contra a missão no Mato Grosso.
Outro fator importante para manter uma posição de não assumir a missão foi que o acordo entre o bispo e a Ordem não foi colocado por escrito. Que o contrato foi só verbal, é evidente na frase de Frei Cirilo: “Não há sequer contrato de modo que o Bispo quando quiser, poderá mandá-los embora. É possível, ou melhor, é certo que farão trabalhos missionários, mas não se trata de uma Missão entregue à Ordem, como sempre se afirmava em Roma. Enfim, a culpa é da Ordem, aceitar algo sem conhecimento e sem fazer condições. A questão Mato Grosso ainda não está no fim. Agora começar-se-á a perceber em Roma o que se fez”[82]. A insegurança de que o bispo poderia mandá-los embora a qualquer momento e o descontentamento com o Governo Geral da Ordem por não ter feito um contrato por escrito acompanharam os carmelitas durante todo o tempo em que estiveram trabalhando no Pantanal matogrossense. Inclusive os impediu de fazer investimentos em construções.
Aliado a este problema havia a promessa de que se fosse criada em Corumbá uma prelazia ou diocese, esta seria confiada aos carmelitas. Quando a diocese foi erigida e o bispo nomeado não era um carmelita, criou-se um mal-estar muito grande entre os carmelitas, tanto em Corumbá como no Rio de Janeiro. Neste sentido as palavras do Frei Gregório Meijer não deixam dúvidas:
“Quanto a nossa missão em Mato Grosso, a situação não é boa. ... todo o território de Corumbá onde até agora trabalhamos, tornou-se agora uma só diocese onde o Bispo auxiliar de Cuiabá foi nomeado Bispo. Quando eu falei ao Núncio Apostólico da nossa decepção, disse-me que nunca soubera que os Carmelitas gostariam de ter como seu o território e que logo mudaria a situação contanto que o Geral ou o Provincial daqui possam provar que de fato existem promessas feitas pela Congregação ou pelo Núncio anterior, de fazer deste território um Vicariato.
Se o senhor puder arrumar alguns documentos ou mostrar alguma prova em relação a isto, devido ao seu conhecimento do andamento dos negócios naquela época em Roma, o senhor faria um bem a nós e à Missão de Mato Grosso.
Entrementes temo que não se tenha feito um contrato definitivo, o que, conforme as palavras do Núncio, teria sido tão fácil. Acho aconselhável aproveitar esta ocasião para transferir os Padres para um outro território e de imediato tentar por intermédio do Núncio, conseguir um território de Missão como Vicariato-Prelazia para os Carmelitas”[83].
A reação de Frei Canísio em Corumbá: “Não dá para dizer com certeza o que será do futuro. Como se afirma, o Bispo auxiliar de Cuiabá aceitou a nomeação como Bispo de Corumbá. Pelo resto há muitos boatos por aqui sobre os quais nem vou escrever porque não tem sentido. Certo, porém, é que Corumbá agora é Diocese. Por enquanto nada foi organizado. Logo que o Bispo se instalar o negócio ficará mais claro e será possível para nós agir conforme as circunstâncias. Por enquanto continuaremos as nossas atividades normais e insistiremos num território separado quando o momento for oportuno; e apesar de todas as fofocas não vejo porque não poder conseguir isto”[84].
Aquilo que os carmelitas temiam, aconteceu: o novo bispo tirou-lhes a maior parte do território da missão tão logo colocou o pé na diocese. É certo que depois devolveu uma parte, mas ficou a ferida e aumentou a desconfiança.
Em 1913, Frei Humberto Driessen foi enviado pelo Prior Geral Frei Pio Mayer como visitador ao Brasil.
Sabedor de que o bispo tinha tirado uma parte do território e que juridicamente a situação era confusa, tentou resolver definitivamente o problema escrevendo ao bispo Dom Cyrillo. Sua carta é muito clara e direta:
“Corumbá, 5 de maio de 1913.
Exmo. e Revmo. Senhor,
Enviado pelo Revmo. Pe. Geral para visitar a nossa Província Fluminense, também terei que me encontrar com os confrades que residem na vossa diocese, exercendo o cargo de vigário. Nesta visitação que, como é claro, não se incluem as paróquias como tais, encontrei nossos confrades que ainda não têm, como administradores das paróquias, residência fixa e juridicamente confirmada. De fato a diocese entregou a eles as paróquias a serem administradas mas nunca se firmou um pacto de entregar a administração destas paróquias à nossa Ordem para sempre e com todos os direitos e privilégios que, conforme o Direito, possuem as outras paróquias. Daí que, para no futuro não surjam contendas ou dúvidas a respeito, peço humildemente à V. Revma. manifestar a sua intenção e sua vontade quanto as paróquias que atualmente administramos, se de fato nos serão cedidas, as suas circunscrições atuais e assim para todo o futuro pertencerão à nossa Ordem Carmelitana, naturalmente salvo o direito do Bispo. E de tal modo que não será permitido, sem consultar os Superiores da Ordem, remover ou substituir os confrades, por outros sacerdotes, sejam seculares ou regulares. Solicito a V. Revma. enviar uma resposta a esta pergunta, ao abaixo assinado, Visitador da Província Fluminense. Desejando tudo de bem e as bênçãos divinas para V. Revma. no governo de sua diocese e osculando o seu sagrado anel, subscrevo-me.
Mui respeitosamente Pe. Driessen - Visitador da Província Fluminense”
O bispo enviou, desde Três Lagoas, uma resposta já no dia 24 de junho. Após afirmar “cumpre-me significar-lhe que a minha intenção com respeito aos Revds. Pes. Carmelitas nesta diocese, é que elles fiquem e continuem aqui nas mesmas condições, em que estão as outras Ordens Religiosas, que como elles estão exercendo o cargo de vigarios nas parochias de muitas dioceses do Brasil” e fazer várias considerações, deu uma resposta negativas às pretensões do visitador: “Pelo que si a conservação dos seus Religiosos nesta diocese está dependendo da satisfação desta, com o mais profundo pezar de minha parte, sou compellido a deixar a V. P. a liberdade de agir em sentido contrario aos meus desejos”[85].
Diante da resposta negativa de Dom Cyrillo, a primeira reação de Frei Humberto Driessen foi a de querer retirar os missionários carmelitas do Mato Grosso. Mas antes conversou com o Núncio Aversa e este prometeu-lhe agir no sentido de resolver a questão de modo que os carmelitas pudessem permanecer para sempre em Corumbá[86].
O Núncio Giuseppe Aversa, desde Petrópolis no dia 3 de abril de 1914, escreveu ao bispo Dom Cyrillo:
“Dico confidenzialmente a V. R. che l’impressione, che ho riportata dai colloqui tanto col Visitatore come col Vece Provinciale di Rio, è che se ai Religiosi non viene data una garanzia sicura di stabilità avvenire, i loro Superiori sembrano disposti a ritirarli tutti della Diocesi di Corumbà.
Ora, io lascio da parte la lettera del P. Visitatore, qualche periodo della quale avrà potuto apparire un po’ duro a V. E. Desiderando il bene e la prosperità così della Diocesi di Corumbà come dell’Ordine Carmelitano, vengo a domandarle con la presente, se sarebbe Ella disposta a dichiarare per iscritto con una lettera, per esempio, al Superiore dei Carmelitani essere Suo intento di affidare in perpetuo ai Carmelitani, in nome Suo e dei Suoi legittimi Successori, le Parrocchie che crederà determinare, aggiungendo alla dichiarazione la clausola, che salvaguarda i diritti vescovile anche: “servatis praescriptionibus circa regulares parochias Constitutionum Firmandis Benedicti XIV et Romanus Pontifices Leonis XIII.
Se ho questa proposta per dirimere la questione in maniera, che mi parrebbe soddisfacente e accettabile per le due parti. Debbo dire del resto che io non ho ancora fatto conoscere questa mia proposta ai Carmelitani, volendo essere prima sicuro che V. E. l’accetti. Appena Ella mi significarà tale accetazione, io ne parlerò ai Carmelitani mostrando loro la convenienza de accettarla anche essi”[87].
Dom Cyrillo respondeu ao Núncio com uma longa carta[88], escrita em Três Lagoas no dia 26 de abril de 1914. Fez uma pequena retrospectiva da situação, criticou o trabalho e o zelo dos carmelitas, afirmou que estes não eram amigos dos salesianos, que os carmelitas “Para a criação da diocese não deram um passo” e a receberam com grande desagrado e que “Fora de Corumbá, um delles viaja a maior parte do anno pelos sertões. Se limitando, porem, nessa viagem a fazer senão baptizados e casamentos”. Recordou que tinha recusado ser bispo de Corumbá por duas vezes, que o Arcebispo de Cuiabá tinha se precipitado na criação da diocese, que a mesma não tinha patrimônio nem clero. Fez um desabafo pessoal, reclamou que o Núncio não reconhecia seu trabalho e dificuldades. Mas por fim escreveu:
“Depois desta exposição, resta-me, finalmente responder ao objetivo da carta de V. Ex.
Com satisfação communico-lhe que accedendo aos seus desejos, estou propondo a ceder; in perpetuum e por escripto, aos Carmelitas as parochias de Bella Vista, Ponta Porana e Porto Murtinho, regiões vastissimas onde o zelo encontra um campo immenso onde se expandir.
Quanto, porem, as de Corumbá, Miranda e Aquidauana, juntas e ligadas entre si – a não ser que V. Ex possa attender ao pedido de transferencia, ja manifestado em cartas anteriores – estas não posso”[89].
Claramente Dom Cyrillo tentou utilizar a situação para conseguir a sua transferência para outra diocese. Por isso ofereceu “in perpetuum” somente as paróquias de Bela Vista, Ponta Porã e Porto Murtinho, mas abria possibilidade de entregar também Corumbá, Miranda e Aquidauana, se o Núncio o transferisse.
Evidentemente os carmelitas não aceitaram e decidiram sair de Corumbá. A decisão oficial foi comunicada ao Núncio, primeiro verbalmente e depois por escrito, pelo provincial Frei Serapião de Lange. O texto integral da decisão:
“Rio de Janeiro, 16 de Maio de 1914.
Exmo e Revmo Snr.
Dignou-se V.Ex. de me comunicar em sua carta de 8 de maio de 1914 o pensamento de S.Ex. o Snr. Bispo de Corumbá de nos entregar in perpetuum as Parochias de Bella Vista, Ponta Porana e Porto Murtinho, em substituição d’aquellas em que nos achamos actualmente e onde estamos desde Dezembro de 1907, isto é, antes mesmo da creação do Bispado actual de Corumbá, por instantes solicitações do Exmo Metropolita D. Carlos Luiz d’Amour ao nosso Geral da Ordem em Roma.
Em resposta devo dizer com o devido acatamento e respeito, a V. Ex. que essas Freguezias não offerecem, por sua população muito escassa, campo sufficiente para exercer a actividade de uma missão completa, provida de pessoal e recursos bastantes, como era pensamento do Revmo P. Provincial da Provincia Germano-Hollandeza, que no intuito de bem conhecer e avalias as necessidades daquellas remotas e inhospitas paragens veio pessoalmente visital-as.
Venho pois com grande pezar de nossa parte apresentar, em obediencia ás ordens de nosso P. Visitador Fr. Huberto Driessen, como já tive a honra de fazer pessoalmente, a resolução em que estamos de retirar-nos dessa missão em que a insufficiencia de sacerdotes e a largueza das distancias poem em grande perigo aquelles que isoladamente se arriscam a viver longe de todo o soccorro material e espiritual.
Agradeço de todo o coração o interesse que V.Ex. se dignou de tomar por nós e pela estabilidade de nossa missão em Mato Grosso.
Aproveito a occasião para renovar a V.Ex. os protestos de minha distincta estima, profunda consideração e respeito.
Servo em J. Chrº
Fr. Serapião de Lange
Exmo e Revmo Snr. D. José Aversa
D.D. Nuncio Apost. Do Brazil”[90].
Mas antes da saída, houve reação em Corumbá. Um grupo de católicos protestou publicando um artigo (ver onde foi publicado):
“Exmo. Sr. Redator,
Surpreendidos como fomos com a triste notícia da remoção dos Revmos. Carmelitas desta localidade para fora e contristados, pois que tem os mesmos muito cooperado para o grande desenvolvimento da religião católica, levando assim aos lares o sossego e a paz por meio de suas santas palavras e obras e também sabedores que lhe foi suspenso o crisma pelo Revmo. Sr. D. Cirilo e entregue aos Salesianos, viemos portanto, por intermédio vosso, pedir vos, protesteis pelas colunas do vosso conceituado órgão contra semelhante ato, que só poderá trazer-nos descontentamento e aos Carmelitas grande injustiça e ingratidão, porque nunca pouparam esforços para o engrandecimento moral de nosso Corumbá e da Santa Igreja Católica.
Agradecendo vosso valioso auxílio, esperamos também providências. Somos vossos assíduos leitores e devotos fervorosos.
Corumbá, 12 de maio de 1914.
Os Católicos de Corumbá”.
Frei Canísio Mulderman apressou-se em fazer um esclarecimento oficial (ver o texto completo e onde foi publicado):
“Agradecemos as honrosas referências. O fato, porém de nossa retirada de Corumbá, só por causa da ordem de nosso Superior, que nos chamou para o Rio de Janeiro.
Corumbá, 23 de maio de 1914.
Pelos Padres Carmelitas
Frei Canísio, Vigário”.
Atendendo ao chamado dos superiores, os missionários carmelitas deixaram Corumbá, terminando assim a presença missionária carmelitana no Mato Grosso.
CONCLUINDO
O fim da presença missionária dos carmelitas holandeses em Corumbá não matou o sonho de terem uma própria missão, onde pudessem se empenhar com todas as forças e entusiasmo. Por isso “logo após o regresso dos missionários de Corumbá, os Carmelitas quiseram fundar uma nova missão. O Bispo de Curitiba, Dom João Braga, ofereceu-lhes a paróquia de Paranaguá, no Paraná, e porto principal de exportação desse Estado. Em 1915, Frei Canísio Mulderman, Superior, Frei Rafael Wilens - mais tarde substituído por Frei Carmelo Lambooy - e o Irmão leigo Frei Pancrácio Helmich tomaram posse da nova missão. Durante 4 anos trabalharam aí ativamente, abrindo também uma escola primária com grande frequência. Por falta, porém: de novas forças, das poucas vocações religiosas e da necessidade urgente dos conventos de Itu e Mogi das Cruzes, que estavam sendo ocupados naquela época, também esta missão foi abandonada, em 1919, voltando os Padres aos seus conventos”[91].
O fim da missão em Paranaguá não marcou o fim do sonho. Os contatos com o Núncio continuaram. Foi oferecido a possibilidade de escolha entre Alto Juruá no Acre e a Ilha de Bananal no Estado de Goiás. A Província Fluminis Ianuarii escolheu a missão no Alto Juruá. Mas quando se discutia em Roma a demarcação dos limites da nova Prelazia, os missionários do Divino Espírito Santo, que missionavam no Amazonas e por diversas vezes haviam visitado as regiões do Alto Juruá, pediram esta Prelazia. A Santa Sé acabou concedendo aos Padres Espiritanos a região do Alto Juruá. Após novos contatos, foi oferecida a missão da Ilha Marajó, porém, os carmelitas não a aceitaram. Finalmente chegou-se a um consenso e os carmelitas aceitaram a Prelazia de Paracatu.
“A Prelazia de Paracatu, no Estado de Minas Gerais, foi criada em 1 de março de 1929 pela Bula “Pro Munere Sibi Divinitus” do Papa Pio XI. Esta Prelazia foi desmembrada das Dioceses de Uberaba e Montes Claros, ocupando uma superfície de 70.000 quilômetros quadrados. Os limites coincidem com os municípios de Paracatu, João Pinheiro, São Romão e Unaí e a população é aproximadamente 80.000 almas”[92]. A Sagrada Congregação Consistorial confiou à Ordem do Carmo a Prelazia Nullius de Paracatu no dia 27 de abril de 1929.
Na Prelazia, e depois Diocese, de Paracatu puderam realizar tudo aquilo que não foi possível realizar em Corumbá. O primeiro prelado e depois bispo de Paracatu foi o carmelita Dom Eliseu van de Weijer[93].
ABREVIAÇÕES:
AAS = Acta Apostolicae Sedis
AGOC = Arquivo Geral da Ordem do Carmo (Roma)
ASV = Arquivo Secreto Vaticano
[1] SMET Joachim, The Carmelites, vol. IV, Carmelite Spiritual Center, Darien 1985, 191.
[2] A Província Carmelita Fluminis Ianuarii (do Rio de Janeiro) foi erigida em 1720. No século XIX, como toda a Vida Religiosa no Brasil, entrou em decadência e quase desapareceu. Em 1894 os carmelitas espanhóis foram encarregados da restauração do Carmelo Brasileiro. Como tinham dificuldades, o Prior Geral Frei Pio Mayer passou para a Província Holandesa a restauração da Província Fluminis Ianuarii em 1904. As províncias da Bahia e Pernambuco continuaram sendo restauradas pelos espanhóis.
[3] Dom Carlos Luiz D’Amour nasceu dia 3 de junho de 1836 em São Luís, MA. Foi ordenado dia 30 de novembro de 1860. Nomeado bispo de Cuiabá em 21 de setembro de 1877 e ordenado dia 28 de abril de 1878 por Dom Joaquim Gonçalves de Azevedo, Arcebispo de São Salvador da Bahia. Com a criação da Arquidiocese de Cuiabá em 10 de março de 1910, Dom Carlos Luiz D’Amour tornou-se se primeiro Arcebispo. Morreu dia 9 de julho de 1921.
[4] Cf. Carta do bispo Dom Cyrillo ao Núncio Aversa – Três Lagoas, 26 de abril de 1914 (ASV, Arch. Nunz. Brasile, Fasc. 713, 134).
[5] Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti nasceu em Pesqueira, PE, dia 17 de janeiro de 1850. Foi bispo em São Paulo, Arcebispo do Rio de Janeiro e o primeiro Cardeal da América Latina. Estudou em Roma e Paris. Foi ordenado sacerdote a 4 de abril de 1874 na Basílica de São João do Latrão em Roma. Ao regressar ao Brasil foi professor e reitor do seminário de Olinda e também pároco em Recife. Foi ordenado bispo em Roma no dia 26 de outubro de 1890, indicado para a diocese de Goiás. Depois foi bispo auxiliar e titular em São Paulo. Em 1897 foi transferido para o Rio de Janeiro como Arcebispo e no dia 11 de dezembro de 1905 foi elevado à condição de cardeal pelo Papa Pio X. Morreu aos 80 anos no Rio de Janeiro dia 18 de abril de 1930.
[6] Dom Giulio Tonti nasceu dia 9 de dezembro de 1844 em Roma. Foi ordenado sacerdote dia 21 de dezembro de 1867. Foi bispo titular de Samos, Delegado Apostólico na Venezuela e bispo titular de Sardes. Em 1º de outubro de 1894 foi nomeado Arcebispo de Porto Príncipe, Haiti. Em 23 de agosto de 1902 foi nomeado Núncio Apostólico no Brasil e em outubro de 1906 foi transferido para Portugal. Em 1910 renunciou ao cargo de Núncio de Portugal. Em 6 de dezembro de 1915 foi elevado à condição de Cardeal e titular da Igreja São Silvestre e São Martinho de Roma, que pertence aos carmelitas. Morreu dia 11 de dezembro de 1918.
[7] Frei Cirilo Thewes foi por duas vezes Vigário Provincial da Província Carmelita do Rio de Janeiro: 1906-1909 e 1916-1922. Foi provincial da 1922 até 1932.
[8] Frei Pio Mayer nasceu em Riedlingen, Alemanha, no ano 1848. Imigrou para os EUA. Entrou no seminário diocesano de Milwaukee e foi ordenado em 1871. Depois ingressou na Ordem do Carmo e tornou-se em 1890 o primeiro provincial da Província Americana. Em 1902 foi eleito Prior Geral da Ordem do Carmo. Em 1906 tornou-se o primeiro Padre Geral carmelita a visitar o Brasil. Devido a uma queda na escada do convento de Nápoles, viu-se obrigado a renunciar ao cargo em 1912. Morreu dia 28 de abril de 1918 em Englewood, New Jersey.
[9] Carta de Frei Cirilo Thewes ao provincial holandês Frei Lamberto Smeets – dezembro de 1906.
[10] Cf. Carta do Procurador Geral Carmelita Frei Humberto Driessen ao provincial holandês Frei Telésforo Kroonen – 23/04/1907.
[11] Carta do Procurador Geral Carmelita Frei Humberto Driessen ao provincial holandês Frei Telésforo Kroonen – 23/04/1907.
[12] Frei Humberto Driessen, nascido em Werth (Holanda) em 1871, entrou na Ordem do Carmo em 1888 e foi ordenado sacerdote no ano 1894. Após o doutorado na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, estudou Direito Canônico. Após um breve tempo de ensino em Nocera Umbra (Itália), foi prior do Colégio Internacional Santo Alberto de Roma e secretário do Prior Geral Simão Bernardini. Depois foi professor na Holanda. De 26 de novembro de 1903 a 1908 exerceu a função de Procurador Geral da Ordem. Retornando à Holanda, foi entre os anos 1909 e 1919 por três vezes provincial da Província Holandesa e depois regente dos estudos. Nomeado uma segunda vez Procurador Geral da Ordem em 1919, estando no cargo até 1925. Ao mesmo tempo era também regente do estudo geral do Colégio Internacional Santo Alberto. Retornando definitivamente para a Holanda, foi regente dos estudos da Província Holandesa de 1926 a 1942. Foi amigo pessoal do Beato Tito Brandsma. Morreu dia 29 de outubro de 1946.
[13] Carta de Frei Cirilo Thewes ao provincial holandês Frei Telésforo Kroonen – 23/08/1907.
[14] AGOC, II CO, Introiti et esiti Curia.
[15] Resposta do provincial holandês Frei Telésforo Kroonen à carta de Frei Cirilo Thewes, datada 23 de agosto de 1907 (uma cópia está no arquivo de Boxmeer).
[16] Carta de Frei Cirilo Thewes ao Provincial holandês Frei Telésforo Kroonen – 12/01/1908.
[17] Cf. Carta de Frei Gregório Meijer ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Rio, 13 de abril de 1910; Carta do Frei Humberto Driessen ao bispo dom Cyrillo – Corumbá, 5 de maio de 1913.
[18] Os primeiros moradores chegaram em Ladário no ano de 1778. O Arsenal de Marinha de Ladário começou a ser construído em março de 1873. A presença da força naval foi importante para a manutenção da ordem, a preservação da fronteira e povoamento local. Emancipado desde 1953, o município de Ladário possui 1.240 km² e está situado à margem direita do rio Paraguai e seis quilômetros abaixo da cidade de Corumbá.
[19] Aquidauana foi fundada em 15 de agosto de 1892, às margens do rio Moboteteu atual rio Aquidauana. Foi elevada a distrito a 18 de dezembro de 1906 e em 16 de julho de 1918 foi criado o município, desmembrado do de Miranda.
[20] Miranda foi fundada no dia 16 de julho 1778 pelo Capitão João Leme do Prado, quando este lançou os alicerces do Presídio de Nossa Senhora do Carmo do Rio Mondego, atual Rio Miranda. O povoado cresceu vagarosamente. Em 1797 tinha 40 casas de pau a pique e de adobo, todas cobertas de telhas e já estava delineado o traçado da rua principal denominada de Nossa Senhora do Carmo, atualmente rua do Carmo. Dentre as edificações, destacava-se a Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Foi elevada à condição de vila em 30 de maio de 1857, recebendo o nome de Miranda. Para a proteção da vila, o Governo Imperial criou a Colônia Militar de Miranda, provocando assim na vila uma fase de rápido crescimento. Em 31 de dezembro de 1912, foram inaugurados o telégrafo e a estação ferroviária da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, fato que muito concorreu para o seu progresso. A Paróquia Nossa Senhora do Carmo foi erigida em 1835 e atualmente pertence à diocese de Jardim.
[21] Coxim começou por volta do ano de 1729 com a fundação do Arraial de Biliago ou de Coxim. Em 06 de novembro de 1872, o Arraial foi elevado à categoria de Distrito Judicial com o nome de São José de Herculânia, subordinado ao Município de Corumbá. Em 26 de outubro de 1892, pela Lei nº 13, passou a se chamar Coxim. O município foi criado em 1898.
[22] Nioaque (até 1938 a grafia era Nioac) foi fundada em 1848 por Joaquim Francisco Lopes. Tornou-se município em 18 de julho de 1890. A palavra Nioaque tem sua origem na língua Guarani: NHU + AQUE = “Campo de dormir”.
[23] A origem de Porto Murtinho está ligada à exploração da erva-mate. Em 1874, ervateiros gaúchos iniciaram a exploração dos ervais. Em 1892 a erva-mate, que era levada para a Argentina e Uruguai, passou a ser embarcada num porto, junto ao qual surgiu a povoação de Porto Murtinho. O município foi criado em 1911.
[24] Ponta Porã começou como ponto de parada do transporte de erva mate. Em 1892 recebeu a guarnição militar de Dourados para proteger os carreteiros, que constantemente eram atacados pelos "Guatreros" (paraguaios). O município foi criado em 1912. Ponta Porã, em língua Guarani, significa "Largo Bonito".
[25] Dados colhidos no site: < http://www.corumba.com.br/corumba/cb_historia.htm > (18/05/2007).
[26] Cf. Carta de Dom Cyrillo de Paula Freitas ao Visitador Carmelita Frei Humberto Driessen - Três Lagoas, 24/06/1913 (ASV, Arch. Nunz. Brasile, Fasc. 713, 115 )
[27] AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1908-1912.
[28] “Logo após o regresso dos missionários de Corumbá, os Carmelitas quiseram fundar uma nova missão. O Bispo de Curitiba, Dom João Braga, ofereceu-lhes a paróquia de Paranaguá, no Paraná, e porto principal de exportação desse Estado. Em 1915, Frei Canísio Mulderman, Superior, Frei Rafael Wilens - mais tarde substituído por Frei Carmelo Lambooy - e o Irmão leigo Frei Pancrácio Helmich tomaram posse da nova missão. Durante 4 anos trabalharam aí ativamente, abrindo também uma escola primária com grande frequência. Por falta, porém: de novas forças, das poucas vocações religiosas e da necessidade urgente dos conventos de Itu e Mogi das Cruzes, que estavam sendo ocupados naquela época, também esta missão foi abandonada, em 1919, voltando os Padres aos seus conventos” (Revista Mensageiro do Carmelo, Ano 42, Nov.-Dez. 1954, pág. 256).
[29] Datada março de 1907.
[30] Carta de Frei Maurício Lans ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Rio de Janeiro, 25 de abril de 1910.
[31] Cf. Mensageiro do Carmelo, Ano 42, Novembro - Dezembro 1954, pág. 256.
[32] Cara de Frei Paulo Hurkmans o P. Geral, Corumbá, 20/01/09 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1909).
[33] Site da Diocese de Coxim < http://www.diocesedecoxim.com.br/historico.php > (26/05/2007).
[34] Corumbá, 6 de agosto de 1908 - AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1908.
[35] Carta de Frei Canísio ao Procurador Geral Frei Humberto Driessen – Aquidauana, 6/12/1908.
[36] Carta de Frei Canísio ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 25/02/1910.
[37] Carta de Frei Canísio ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 20/09/1910.
[38] Carta de Frei Canísio ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 21/05/1911.
[39] Cartão postal ao Padre Geral Frei Pio Mayer – Corumbá, 22/09/1908 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1908).
[40] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Prior Geral Frei Pio Mayer – Corumbá, 09/01/1912 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1912).
[41] O nº 6 determina: “...cada um de vós tenha sua própria cela separada ...”.
[42] Cf. Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral da Ordem Frei Humberto Driessen – Aquidauana, 6/12/1908.
[43] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 27/10/1909.
[44] Cf. Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral da Ordem Frei Humberto Driessen – Corumbá, 13/05/1908.
[45] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 28/12/1911.
[46] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 25/02/1910.
[47] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral da Ordem Frei Humberto Driessen – Aquidauana, 6/12/1908.
[48] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral da Ordem Frei Humberto Driessen – Corumbá, 13/05/1908.
[49] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral da Ordem Frei Humberto Driessen – Aquidauana, 6/12/1908.
[50] Cf. Carta de Frei Paulo Hurkmans ao Prior Geral Frei Pio Mayer - Corumbá, 6 de agosto de 1908 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1908).
[51] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral Frei Humberto Driessen – Corumbá, 13/05/1908.
[52] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 28/12/1911.
[53] “Causa motiva principali est diversas et vehementes rixas inter P. Paulus et me” – Carta de Frei Carmelo Lambooy ao Prior Geral Frei Pio Mayer – Corumbá, 15 de junho de 1908 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1908)
[54] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 27/10/1909.
[55] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 28/12/1911.
[56] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 28/12/1911.
[57] Frei Gregório Meijer nasceu em Hertme (Holanda), aos 26 de abril de 1876. Professou na Ordem do Carmo aos 8 de setembro de 1895. Foi ordenado sacerdote aos 9 de junho de 1900. Exerceu o cargo de Vigário Provincial (1909-1913) e de prior do Convento de Santos. Homem de grande cultura e poliglota. Foi exímio orador sacro. Faleceu em São Paulo, aos 23 de março de 1917.
[58] Carta de Frei Gregório Meijer ao Prior Geral Frei Pio Mayer – Montevidéu, 17 de abril de 1912 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1912).
[59] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 15/04/1912.
[60] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Prior Geral Frei Pio Mayer – Corumbá, 06 de março de 1912 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1912).
[61] Carta do Visitador Frei Humberto Driessen a Dom Cirilo de Paula Freitas – Corumbá, 5 de maio de 1913.
[62] Cf. Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 21/05/1911.
[63] Cf. Carta de Frei Gregório Meijer ao Provincial Holandês P. Driessen – Rio, 13 de abril de 1910; Carta do Frei Humberto Driessen ao bispo dom Cyrillo – Corumbá, 5 de maio de 1913.
[64] Carta de Frei Gregório Meijer ao Provincial Holandês P. Driessen – Rio, 13 de abril de 1910.
[65] Carta de Frei Gregório Meijer ao provincial holandês Frei Humberto Driessen - Rio, 13/04/1911. (conferir a data desta carta. eio com a data de 1910, mas não pode ser)
[66] O texto da ASS 2, 290: “10 martii 1910 – In metropolitam evexit sedem episcopalem Cuiabensem (Cuyabá) eique suffraganeas constituit duas novas sedes episcopales S. Aloisii de Cáceres et Corumbensem (Corumbá) in statu Matto Grosso reipublicae Brasilianae”.
[67] Dom Cyrillo de Paula Freitas nasceu em Capelinha da Graça, MG, dia 15 de março de 1860. Foi ordenado sacerdote em 30 de maio de 1885. Sua nomeação como bispo titular de Antipátrida (Antipatris) e coadjutor de Cuiabá, MT, aconteceu dia 27 de março de 1905, mas sua ordenação episcopal só foi realizada no ano seguinte, dia 7 de janeiro de 1906. Em 13 de março de 1911 foi nomeado como 1º bispo de Corumbá, MS. Mas só tomou posse um ano depois, dia 3 de março de 1912. Nos primeiros anos morou em Três Lagoas. Sua resignação foi aceita em 8 de fevereiro de 1918. Faleceu dia 9 de março de 1947.
[68] ASS 3, 134.
[69] Dom Giuseppe Aversa nasceu dia 21 de janeiro de 1862 em Nápoles, Itália. Foi ordenado sacerdote em 1885 com 22 anos e 9 meses de idade. Dia 25 de maio de 1906 foi nomeado bispo de Sardes (Lídia) e Delegado Apostólico de Cuba. Dia 2 de março de 1911 foi nomeado Núncio Apostólico do Brasil, onde permaneceu até ser transferido para a Alemanha em 4 de dezembro de 1916. Morreu dia 12 de abril de 1917 na Alemanha.
[70] Dom Alessando Bavona nasceu dia 11 de maio de 1856 em Rocca di Cambio (Itália). Foi nomeado bispo titular de Farsalo (Grécia) em 14 de julho de 1901. Recebeu a missão de ser Núncio Apostólico do Brasil dia 10 de abril de 1908. Em 1911 foi transferido para a Áustria, onde morreu dia 19 de janeiro de 1912.
[71] Carta do bispo Dom Cyrillo ao Núncio Aversa – Três Lagoas, 26 de abril de 1914 (ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 139).
[72] Carta de dom Cyrillo ao Núncio Bavona - Cuiabá, 13 de dezembro de 1910 (ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 610, 48-49).
[73] “Am vergangenen Sonntag, 3 März, habe ich, wie Procurator des Bischofs, in seinem Namen und Auftrag Besitz genommen vom neuen Bistum Corumbá” (No domingo passado, 3 de março, eu, como procurador do bispo, em seu nome e pedido tomei posse do novo bispado de Corumbá) - Carta de Frei Canísio Mulderman ao Prior Geral Frei Pio Mayer, Corumbá, 06/03/1912 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1912.)
[74] Carta de Dom Cyrillo ao Visitador Frei Humberto Driessen – Três Lagoas, 24 de junho de 1913 (ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 610, 113-117).
[75] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 15/04/1912.
[76] Carta do bispo Dom Cyrillo ao Núncio Aversa – 26 de abril de 1914 (ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 140).
[77] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral Frei Humberto Driessen – Aquidauana, 6/12/1908.
[78] Carta de Frei Canísio Mulderman ao provincial holandês Frei Humberto Driessen - Corumbá, 25 de fevereiro de 1910.
[79] Carta de Frei Canísio Mulderman ao provincial holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 15/04/1912.
[80] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 05/05/1912.
[81] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial holandês Frei Telésforo Kroonen – 08/09/1907.
[82] Carta de Frei Cirilo Thewes ao provincial holandês Frei Telésforo Kroonen - Rio de Janeiro, 12/01/1908.
[83] Carta de Frei Gregório Meijer ao provincial holandês Frei Humberto Driessen - Rio de Janeiro, 13/04/1911.
[84] Carta de Frei Canísio Mulderman ao provincial holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 21/05/1911.
[85] ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 117.
[86] Cf. Carta do Frei Humberto Driessen ao Núncio G. Aversa – Oss, 21 de outubro de 1913 (ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 119-120).
[87] ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 125.
[88] ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 134-141.
[89] ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 140.
[90] ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 126.
[91] Revista Mensageiro do Carmelo, Ano 42, Nov.-Dez. 1954, pág. 256.
[92] Revista Mensageiro do Carmelo, Ano 42, Nov.-Dez. 1954, pág. 257.
[93] Dom Frei Eliseu van de Weijer nasceu em Harderwijk (Holanda) aos 29/12/1880. Fez sua profissão religiosa na Ordem do Carmo dia 02/10/1900. Recebeu a ordenação sacerdotal em 17/07/1905. Chegou no Brasil dezembro de 1907. Foi mestre de noviços, professor, formador e ecônomo da Província. O Papa Pio XI o nomeou Administrador Apostólico da Prelazia de Paracatu. No dia 28 de maio de 1940 foi nomeado Bispo titular da Gor e prelado de Paracatu. Sua ordenação episcopal foi realizada na igreja do Convento de Lapa no Rio de Janeiro, aos 27 de outubro de 1940. Trabalhou durante 33 anos em Paracatu, onde faleceu a 25 de janeiro de 1966.
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Não gosta do silêncio?! Então fuja do Carmelo igual o diabo foge da cruz”. Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita e Jornalista, Mogi das Cruzes, São Paulo. www.instagram.com/freipetronio
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1) Oração
Deus eterno e todo-poderoso, dai-nos celebrar de tal modo os mistérios da paixão do Senhor, que possamos alcançar vosso perdão. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
2) Leitura do Evangelho (João 13, 21-33.36-38)
21Depois de dizer isso, Jesus ficou interiormente perturbado e testemunhou: “Em verdade, em verdade, vos digo: um de vós me entregará”. 22Desconcertados, os discípulos olhavam uns para os outros, pois não sabiam de quem estava falando. 23Bem ao lado de Jesus estava reclinado um dos seus discípulos, aquele que Jesus mais amava. 24Simão Pedro acenou para que perguntasse de quem ele estava falando. 25O discípulo, então, recostando- se sobre o peito de Jesus, perguntou: “Senhor, quem é?” 26Jesus respondeu: “É aquele a quem eu der um bocado passado no molho”. Então, Jesus molhou um bocado e deu a Judas, filho de Simão Iscariotes. 27Depois do bocado, Satanás entrou em Judas. Jesus, então, lhe disse: “O que tens a fazer, faze logo”. 28Mas nenhum dos presentes entendeu por que ele falou isso. 29Como Judas guardava a bolsa, alguns pensavam que Jesus estava dizendo: “Compra o que precisamos para a festa”, ou que desse alguma coisa para os pobres. 30Então, depois de receber o bocado, Judas saiu imediatamente. Era noite. 31Depois que Judas saiu, Jesus disse: “Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele. 32Se Deus foi glorificado nele, Deus também o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo. 33Filhinhos, por pouco tempo eu ainda estou convosco. Vós me procurareis, e agora vos digo, como eu disse também aos judeus: ‘Para onde eu vou, vós não podeis ir’. 36Simão Pedro perguntou: “Senhor, para onde vais?” Jesus respondeu-lhe: “Para onde eu vou, não podes seguir-me agora; mais tarde me seguirás”. 37Pedro disse: “Senhor, por que não posso seguir-te agora? Eu darei minha vida por ti!” 38Jesus respondeu: “Darás tua vida por mim? Em verdade, em verdade, te digo: não cantará o galo antes que me tenhas negado três vezes. Palavra da salvação
3) Reflexão
Estamos na terça feira da Semana Santa. Os textos do evangelho destes dias nos confrontam com os fatos terríveis que levaram à prisão e à condenação de Jesus. Os textos não trazem só as decisões das autoridades religiosas e civis contra Jesus, mas também relatam as traições e negações dos próprios discípulos que possibilitaram a prisão de Jesus pelas autoridades e contribuíram enormemente para aumentar o sofrimento de Jesus.
João 13,21: O anúncio da traição. Depois de ter lavado os pés dos discípulos (Jo 13,2-11) e de ter falado da obrigação que temos de lavar os pés uns dos outros (Jo 13,12-16), Jesus se comoveu profundamente. E não era para menos. Enquanto ele estava fazendo aquele gesto de serviço e de total entrega de si mesmo, ao lado dele um discípulo estava tramando a maneira de como traí-lo naquela mesma noite. Jesus expressa a sua comoção e diz: “Em verdade lhes digo: um de vocês vai me trair!” Não diz: “Judas vai me trair”, mas “um de vocês”. É alguém do círculo da amizade dele que vai ser o traidor”.
João 13,22-25: A reação dos discípulos. Os discípulos levam susto. Não esperavam por esta declaração tão séria de que um deles seria o traidor. Pedro faz um sinal a João para ele perguntar a Jesus qual dos doze iria cometer a traição. Sinal de que eles nem sequer desconfiavam quem pudesse ser o traidor. Ou seja, sinal de que a amizade entre eles ainda não tinha chegado à mesma transparência de Jesus para com eles (cf. Jo 15,15). João se inclinou para perto de Jesus e perguntou: “Quem é?”
João 13,26-30: Jesus indica Judas. Jesus disse: é aquele a quem vou dar um pedaço de pão umedecido no molho. Ele pegou um pedaço de pão, molhou e deu a Judas. Era um gesto comum e normal que os participantes de uma ceia costumavam fazer entre si. E Jesus disse a Judas: “O que você tem que fazer, faça logo!” Judas tinha a bolsa comum. Era o encarregado de comprar as coisas e de dar esmolas para os pobres. Por isso, ninguém percebeu nada de especial no gesto e na palavra de Jesus. Nesta descrição do anúncio da traição está uma evocação do salmo em que o salmista se queixa do amigo que o traiu: “Até o meu amigo, em quem eu confiava e que comia do meu pão, é o primeiro a me trair” (Sl 41,10; cf. Sl 55,13-15). Judas percebeu que Jesus estava sabendo de tudo (Cf. Jo 13,18). Mesmo assim, não voltou atrás, e manteve a decisão de trair Jesus. É neste momento que se opera a separação entre Judas e Jesus. João diz que o satanás entrou nele. Judas levantou e saiu. Ele entrou para o lado do adversário (satanás). João comenta: “Era noite”. Era a escuridão.
João 13,31-33: Começa a glorificação de Jesus. É como se a história tivesse esperado por este momento da separação entre a luz e as trevas. Satanás (o adversário) e as trevas entraram em Judas quando ele decidiu de executar o que estava tramando. Neste mesmo momento se fez luz em Jesus que declara: “Agora o Filho do Homem foi glorificado, e também Deus foi glorificado nele. Deus o glorificará em si mesmo e o glorificará logo!” O que vai acontecer daqui para frente é contagem regressiva. As grandes decisões foram tomadas, tanto da parte de Jesus (Jo 12,27-28) e agora também da parte de Judas. Os fatos se precipitam. E Jesus já dá o aviso: “Filhinhos, é só mais um pouco que vou ficar com vocês”. Falta pouco para que se realize a passagem, a Páscoa.
João 13,34-35: O novo mandamento. O evangelho de hoje omite estes dois versículos sobre o novo mandamento do amor e passa a falar do anúncio da negação de Pedro.
João 13,36-38: Anúncio da negação de Pedro. Junto com a traição de Judas, o evangelho traz também a negação de Pedro. São os dos dois fatos que mais contribuíram para o sofrimento de Jesus. Pedro diz que está disposto a dar a vida por Jesus. Jesus o chama à realidade: “Você dar a vida por mim? O galo não cantará sem que me renegues três vezes”. Marcos tinha escrito: “O galo não cantará duas vezes e você já me terá negado três vezes” (Mc 14,30). Todo mundo sabe que o canto do galo é rápido. Quando de manhã cedo o primeiro galo começa a cantar, quase ao mesmo tempo todos os galos estão cantando. Pedro é mais rápido na negação do que o galo no canto.
4) Para um confronto pessoal
1) Judas, amigo, torna-se traidor. Pedro, amigo, torna-se negador. E eu?
2) Colocando-me na situação de Jesus: como enfrenta negação e traição, o desprezo e a exclusão?
5) Oração final
És tu, Senhor, a minha esperança, és minha confiança, SENHOR, desde a minha juventude. Sobre ti me apoiei desde o seio materno, desde o colo de minha mãe és minha proteção; em ti está sempre o meu louvor. (Sl 70, 5-6)
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Carmelita não morre, muda de endereço... Nesta terça-feira, 10 de fevereiro-2026, as nossas orações pela alma da nossa irmã da Ordem Terceira do Carmo- Sodalício de Unaí/MG, Alzira Maria da Silva Marques- Alzirinha.
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Foi eleito hoje o novo governo da Província Carmelitana Pernambucana:
Prior Provincial, Frei Roberval Mendes Pereira, O.Carm. (reeleito);
1° Conselheiro, Frei Luiz Nunes, O.Carm.;
2° Conselheiro, Frei Rogério Severino, O.Carm.;
3° Conselheiro, Frei José Adriano Gomes da Silva, O.Carm.
4° Conselheiro, Frei Robson José da Silva, O.Carm.
Confiamos à sempre Virgem Maria este novo governo. Que por sua intercessão, vivamos cada vez mais em obséquio de Jesus Cristo com o coração puro e reta consciência. Fonte: Facebook- Província Carmelitana Pernambucana
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Pe. Desiderio García Martínez, O. Carm., Prior Geral, tem a seguinte agenda prevista para janeiro de 2026:
8 de janeiro de 2026 : Visita ao Mosteiro Carmelita de Carpineto Romano (RM). Encontro com a Irmã M. Valentina Rita Rossin, Presidente da Federação das Irmãs Magdalena de' Pazzi dos mosteiros italianos da Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Maria do Monte Carmelo.
12 e 13 de janeiro de 2026 : Encontro com os Priores Provinciais, Comissários Gerais e Delegados Gerais da Europa.
18 a 23 de janeiro de 2026: Capítulo Provincial da Província de Pernambuco (Brasil).
25 a 30 de janeiro de 2026 : Capítulo Provincial da Província do Rio de Janeiro (Brasil). Fonte: https://ocarm.org
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Frei Carlos Mesters, O. Carm
1) Oração
Ó Deus, que preparastes uma digna habitação para o vosso Filho pela Imaculada Conceição da Virgem Maria, preservando-a de todo pecado em previsão dos méritos de Cristo, concedei-nos chegar até vós, purificados também de toda culpa. por sua materna intercessão. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
2) Leitura do Evangelho (Lucas 1,26-38)
Naquele tempo, 26o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré,27a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria.28Entrando, o anjo disse-lhe: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo.29Perturbou-se ela com estas palavras e pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação.30O anjo disse-lhe: Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus.31Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus.32Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó,33e o seu reino não terá fim.34Maria perguntou ao anjo: Como se fará isso, pois não conheço homem?35Respondeu-lhe o anjo: O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus.36Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por estéril,37porque a Deus nenhuma coisa é impossível.38Então disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo afastou-se dela.
3) Reflexão
Hoje é a Solenidade da Imaculada Conceição. O texto que meditamos no evangelho descreve a visita do anjo a Maria (Lc 1,26-38). A Palavra de Deus chega a Maria não através de um texto bíblico, mas através de uma experiência profunda de Deus, manifestada na visita do anjo. No AT, muitas vezes, o Anjo de Deus é o próprio Deus. Foi graças à ruminação da Palavra escrita de Deus na Bíblia, que Maria foi capaz de perceber a Palavra viva de Deus na visita do Anjo. Assim também acontece com a visita de Deus em nossas vidas. As visitas de Deus são frequentes. Mas por falta de ruminação da Palavra escrita de Deus na Bíblia, não percebemos a visita de Deus em nossas vidas. A visita de Deus é tão presente e tão contínua que, muitas vezes, já nem a percebemos e, por isso, perdemos uma grande oportunidade de viver na paz e na alegria.
Lucas 1,26-27: A Palavra faz a sua entrada na vida.
Lucas apresenta as pessoas e os lugares: uma virgem chamada Maria, prometida em casamento a um homem, chamado José, da casa de Davi. Nazaré, uma cidadezinha na Galiléia. Galiléia era periferia. O centro era Judéia e Jerusalém. O anjo Gabriel é o enviado de Deus para esta moça virgem que morava na periferia. O nome Gabriel significa Deus é forte. O nome Maria significa amada de Javé ou Javé é o meu Senhor. A história da visita de Deus a Maria começa com a expressão “No sexto mês”. Trata-se do "sexto mês" da gravidez de Isabel, parenta de Maria, uma senhora já de idade, precisando de ajuda. A necessidade concreta de Isabel é o pano de fundo de todo este episódio. Encontra-se no começo (Lc 1,26) e no fim (Lc 1,36.39).
Lucas 1,28-29: A reação de Maria.
Foi no Templo que o anjo apareceu a Zacarias. A Maria ele aparece na casa dela. A Palavra de Deus atinge Maria no ambiente da vida de cada dia. O anjo diz: “Alegra-te! Cheia de graça! O Senhor está contigo!” Palavras semelhantes já tinham sido ditas a Moisés (Ex 3,12), a Jeremias (Jr 1,8), a Gedeão (Jz 6,12), a Rute (Rt 2,4) e a muitos outros. Elas abrem o horizonte para a missão que estas pessoas do Antigo Testamento deviam realizar a serviço do povo de Deus. Intrigada com a saudação, Maria procura saber o significado. Ela é realista, usa a cabeça. Quer entender. Não aceita qualquer aparição ou inspiração.
Lucas 1,30-33: A explicação do anjo.
“Não tenha medo, Maria!” Esta é sempre a primeira saudação de Deus ao ser humano: não ter medo! Em seguida, o anjo recorda as grandes promessas do passado que vão ser realizadas através do filho que vai nascer de Maria. Este filho deve receber o nome de Jesus. Ele será chamado Filho do Altíssimo e nele se realizará, finalmente, o Reino de Deus prometido a Davi, que todos estavam esperando ansiosamente. Esta é a explicação que o anjo dá a Maria para ela não ficar assustada.
Lucas 1,34: Nova pergunta de Maria
Maria tem consciência da missão importante que está recebendo, mas ela permanece realista. Não se deixa embalar pela grandeza da oferta e olha a sua condição: “Como é que vai ser isto, se eu não conheço homem algum?” Ela analisa a oferta a partir dos critérios que nós, seres humanos, temos à nossa disposição. Pois, humanamente falando, não era possível que aquela oferta da Palavra de Deus se realizasse naquele momento.
Lucas 1,35-37: Nova explicação do anjo
"O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra. Por isso, o Santo que vai nascer de você será chamado Filho de Deus”. O Espírito Santo, presente na Palavra de Deus desde o dia da Criação (Gênesis 1,2), consegue realizar coisas que parecem impossíveis. Por isso, o Santo que vai nascer de Maria será chamado Filho de Deus. Quando hoje a Palavra de Deus é acolhida pelos pobres sem estudo, algo novo acontece pela força do Espírito Santo! Algo tão novo e tão surpreendente como um filho nascer de uma virgem ou como um filho nascer de Isabel, uma senhora já de idade, da qual todo mundo dizia que ela não podia ter nenêm! E o anjo acrescenta: “E olhe, Maria! Isabel, tua prima, já está no sexto mês!”
Lucas 1,38: A entrega de Maria.
A resposta do anjo clareou tudo para Maria. Ela se entrega ao que Deus estava pedindo: “Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua Palavra”. Maria usa para si o título de Serva, empregada do Senhor. O título vem de Isaías, que apresenta a missão do povo não como um privilégio, mas sim como um serviço aos outros povos (Is 42,1-9; 49,3-6). Mais tarde, Jesus, o filho que estava sendo gerado naquele momento, definirá sua missão: “Não vim para ser servido, mas para servir!” (Mt 20,28). Aprendeu da Mãe!
Lucas 1,39: A forma que Maria encontra para servir
A Palavra de Deus chegou e fez com que Maria saísse de si para servir aos outros. Ela deixa o lugar onde estava e vai para a Judéia, a mais de quatro dias de viagem, para ajudar sua prima Isabel. Maria começa a servir e cumprir sua missão a favor do povo de Deus.
4) Para um confronto pessoal
- Como você percebe a visita de Deus em sua vida? Você já foi visitada ou visitado? Você já foi uma visita de Deus na vida dos outros, sobretudo dos pobres? Como este texto nos ajuda a descobrir as visitas de Deus em nossa vida?
- A Palavra de Deus se encarnou em Maria. Como a Palavra de Deus está tomando carne na minha vida pessoal e na vida da comunidade?
5) Oração final
Cantai ao Senhor um cântico novo, porque ele operou maravilhas. Sua mão e seu santo braço lhe deram a vitória. (Sl 97)
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