O segundo turno é uma nova eleição, que está apenas começando. Como surpreendeu no primeiro turno, Flávio Bolsonaro pode ser surpreendido no segundo

 

Por Jorge J. Okubaro

Além de surpreendente, pois até a véspera a maioria das pesquisas de intenção de voto não a indicava, a vitória numérica do candidato Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais mostra de modo eloquente a consolidação do prestígio da direita. É preciso observar, porém, que, mesmo expressiva, a vantagem de 2,2 milhões de votos que Bolsonaro obteve sobre seu principal adversário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não é garantia antecipada de vitória no segundo turno. Em 2022, nas quatro semanas entre o primeiro e o segundo turnos, o pai de Flávio, o hoje preso ex-presidente Jair Bolsonaro, conseguiu reduzir em 4,1 milhões de votos, de 6,2 milhões para 2,1 milhões, a diferença que o separava do mesmo candidato que o filho enfrenta neste ano. Mas Flávio começa a campanha do segundo turno com vantagem.

Há um fato talvez intrigante no crescimento de sua candidatura. Mesmo acusado, não raro com provas, da prática de atos que caracterizam no mínimo imoralidade no exercício de função pública, Flávio Bolsonaro foi conquistando mais apoio num corpo de eleitores que dizem repudiar corrupção e afirmam, com a convicção dos puros, que jamais votariam em alguém envolvido em casos de manipulação de dinheiro de origem suspeita. Tudo se passou, para essa fatia do eleitorado, como se não tivesse havido um episódio moralmente repugnante de relações entre um banqueiro ambicioso e políticos interessados mais em dinheiro do que em ações públicas que deles se pode esperar.

Flávio é o mais notório homem público (há outros em outra esfera do poder) que se beneficiou, em dinheiro, das ações do hoje ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro. É como se o dinheiro que lhe foi repassado por Vorcaro, do extinto Banco Master, e outros atos moralmente condenáveis nada tivessem a ver com ele. Rachadinhas, pagamento em dinheiro da compra de imóvel avaliado em milhões de reais (prática que evita o registro no sistema bancário do valor de certas transações), homenagens a ex-policiais que se tornaram milicianos (e assassino, pelo menos em um caso) e sua notória incapacidade de propor programas de ação com um mínimo de coerência não têm importância para uma parte muito expressiva do eleitorado.

Foi o que seu desempenho nas urnas mostrou. Mas as urnas mostraram algo mais preocupante: a real possibilidade de uma figura política com esse perfil tornar-se presidente da República por quatro anos a partir do dia 5 de janeiro de 2027. Será preciso muito otimismo para esperar que, se isso ocorrer, teremos um país melhor do que o que temos hoje. Podem ser tempos difíceis para muitos, sobretudo os que mais necessitam de ações do poder público. Do ponto de vista programático, o que o candidato detentor do maior número de votos no domingo tem de mais conhecido é o princípio de que o Estado brasileiro precisa ser reduzido. Como seu pai condenado pela Justiça, Flávio Bolsonaro é adversário de políticas públicas que, mesmo adequadamente inscritas na programação orçamentária do governo federal e de grande impacto na vida de boa parte da população, impliquem gastos que poderiam ser utilizados para ações que não tenham características sociais.

Das urnas de domingo levantou-se uma onda conservadora poucas vezes vista em tempos recentes. O PL que abriga Bolsonaro e os partidos aliados Republicanos e PP elegeram 10 dos 20 governadores definidos no primeiro turno. O PT de Lula elegeu três. Das 54 vagas para o Senado que foram preenchidas, o PL de Bolsonaro conquistou 19. Partidos que fariam parte da base de apoio de um novo governo bolsonarista, como Novo, PP e Republicanos, elegeram mais oito senadores. O PT elegeu seis.

Em alguns Estados, a vitória da direita foi avassaladora. São Paulo talvez seja o melhor exemplo. O governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos, foi reeleito em primeiro turno por ampla vantagem de 6 milhões de votos sobre seu oponente, Fernando Haddad, do PT. Dos dois senadores eleitos no Estado, um, Guilherme Derrite, é do PP; o outro, André do Prado, é do PL.

Se eleito, por isso, Flávio Bolsonaro terá a seu favor um Congresso Nacional cujas características políticas predominantes serão muito parecidas com as suas. Isso lhe facilitaria a tarefa de governar. Mas isso será bom ou ruim?

Mudança de governo e, consequentemente, de prioridades e de políticas públicas é parte do jogo democrático. Ações que caracterizavam determinada gestão serão encerradas ou substituídas por outras; novos gastos, com novas finalidades e com novos beneficiários serão introduzidos nos programas orçamentários. Em certos momentos, porém, mudanças desse tipo podem implicar rupturas de consequências não previsíveis. Pode ser que sejam para melhor.

Mas nada está decidido. O segundo turno é uma nova eleição, que está apenas começando. Como surpreendeu no primeiro turno, Flávio Bolsonaro pode ser surpreendido no segundo. Fonte: https://www.estadao.com.br

 

Senador marca 32% entre católicos, enquanto petista tem 26% entre evangélicos; percentuais são de votos totais

Lula lidera entre eleitores de 60 anos ou mais; nas demais faixas etárias, há empate técnico

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência - Pedro Ladeira e Danilo Verpa/Folhapress

 

Laura Intrieri

São Paulo

O presidente Lula (PT) oscilou de 45% para 50% das intenções de voto entre os católicos, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), de 47% para 52% entre os evangélicos, segundo pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (1º). Ambos mantêm a liderança nos respectivos grupos no primeiro turno.

Os percentuais são de votos totais, na comparação com o levantamento divulgado em 24 de setembro. Entre os católicos, Flávio estava com 33% e agora aparece com 32%. Entre os evangélicos, Lula estava com 27% e agora tem 26%.

As margens de erro são de três pontos percentuais entre os católicos e quatro entre os evangélicos, para mais ou para menos, nos dois levantamentos. Na pesquisa atual, as diferenças entre os candidatos ficam fora do empate técnico nos dois grupos.

O resultado vem após dias de embate com a circulação da notícia falsa de que Flávio retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. O senador negou a informação e recorreu à Justiça contra sua divulgação.

A desinformação retomava uma proposta apresentada em 2007 pelo então deputado Victorio Galli e arquivada no ano seguinte. Lula passou a abordar o episódio em discursos e afirmou que, enquanto for presidente, a santa continuará como padroeira do país.

Na quarta-feira (30), o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) confirmou a determinação de retirar publicações que reproduziam a notícia falsa, com divergências entre os ministros sobre o alcance da medida

O cenário é o estimulado, em que os entrevistados recebem uma lista de candidatos. A base de votos totais inclui as respostas em branco, nulo ou nenhum e os indecisos, que são excluídos do cálculo dos votos válidos.

No conjunto do eleitorado, Lula tem 42%, e Flávio, 38%, em votos totais. Ambos oscilaram dois pontos para cima em relação à pesquisa anterior e permanecem tecnicamente empatados no limite da margem de erro nacional, de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Em votos válidos, têm 45% e 40%, respectivamente, com Lula liderando fora da margem de erro.

Lula tem 49% entre os eleitores de 60 anos ou mais, contra 36% de Flávio. A margem de erro nesse segmento é de quatro pontos percentuais. Essa é a única das cinco faixas etárias em que há liderança fora do empate técnico no primeiro turno.

Na rodada anterior, o presidente tinha 42%, e o senador, 37%, com margem de cinco pontos. Naquele levantamento, havia empate técnico em todas as faixas etárias.

Entre os eleitores de 16 a 24 anos, Lula marca 41%, e Flávio, 34%, com margem de seis pontos. Na faixa de 25 a 34 anos, os percentuais são de 39% e 40%, respectivamente, com margem de cinco pontos.

Dos 35 aos 44 anos, os dois têm 40%. Entre quem tem de 45 a 59 anos, o petista marca 40%, ante 38% do senador. A margem de erro é de quatro pontos em cada um desses grupos.

Lula lidera entre os eleitores com renda familiar mensal de até dois salários mínimos, com 50%, contra 28% de Flávio. Entre aqueles com renda de mais de dois a cinco salários mínimos, o senador tem vantagem, por 47% a 34%. A margem de erro é de três pontos em cada grupo.

Na faixa acima de cinco salários mínimos, Flávio tem 47%, ante 37% do presidente.

Entre os eleitores com ensino fundamental, Lula lidera por 54% a 27%, com margem de erro de quatro pontos.

Há empate técnico entre aqueles com ensino médio, com 42% para Flávio e 39% para Lula, e entre os que têm ensino superior, com 43% para o senador e 36% para o presidente. As margens são de três e quatro pontos, respectivamente.

Entre as mulheres, Lula tem vantagem, com 45%, ante 35% de Flávio. Entre os homens, os dois marcam 40%. A margem de erro é de três pontos em cada grupo.

O petista lidera entre os eleitores que se autodeclaram pretos, com 53%, contra 27% do senador, e entre os pardos, por 44% a 36%. As margens de erro são de cinco e três pontos, respectivamente.

Entre os brancos, Flávio tem 45%, ante 36% de Lula. A margem de erro de três pontos coloca o senador à frente, fora do empate técnico.

Lula lidera no Nordeste, com 56%, ante 26% de Flávio, com margem de quatro pontos. No Sul, o senador tem vantagem, por 50% a 30%, com margem de cinco pontos.

No Sudeste, o presidente marca 40%, e Flávio, 39%, em empate técnico, com margem de três pontos. No agrupamento Centro-Oeste/Norte, o senador tem 43%, contra 35% do petista, também em empate técnico, com margem de cinco pontos.

Nas regiões metropolitanas, Lula lidera por 43% a 35%. No interior, tem 42%, e Flávio, 39%, em empate técnico. A margem de erro é de três pontos em cada recorte.

 

Segundo turno

Na simulação de segundo turno, Lula tem 55% entre os católicos, contra 38% de Flávio. Entre os evangélicos, o senador marca 62%, ante 32% do petista. As margens de erro são de três e quatro pontos, respectivamente, e as diferenças ficam fora do empate técnico nos dois grupos.

Entre os eleitores de 60 anos ou mais, o presidente também tem vantagem, por 52% a 41%, com margem de quatro pontos. Nas demais faixas etárias, há empate técnico.

No total da amostra, Lula tem 48%, ante 45% de Flávio, em empate técnico. O presidente oscilou um ponto para cima em relação à semana anterior, enquanto o senador manteve seu percentual.

O Datafolha ouviu 2.506 eleitores de 16 anos ou mais entre 29 de setembro e 1º de outubro. A margem de erro para o total da amostra é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi encomendada pela Folha e pela TV Globo e está registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sob o número BR-08039/2026. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br

Santa se tornou tema eleitoral depois de boato sobre retirada do título de padroeira do Brasil

Caso é alvo de disputa no STF após decisões de André Mendonça, Flávio Dino e Luiz Fux nos últimos dias

 

O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) segura imagem de Nossa Senhora Aparecida durante visita ao Mercado Municipal de São Paulo nesta segunda-feira (28) - Bruno Santos/Folhapress

 

São Paulo

Nossa Senhora Aparecida se tornou protagonista desta reta final da campanha eleitoral no Brasil. Afinal, existe uma proposta de bolsonaristas para tirar da santa o título de padroeira do país?

Surgem outras dúvidas: quais decisões tomaram os ministros do Supremo André Mendonça, Flávio Dino e Luiz Fux? O que é uma padroeira? Por que os evangélicos não cultuam santos?

Entenda esses e outros pontos que envolvem questões políticas, religiosas e jurídicas:

 

Caso eleito presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PL) pretende tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil?


Não há registro de nenhuma declaração nesse sentido do candidato do PL ou da sua assessoria.

Em um vídeo gravado em 23 de agosto, feito para justificar a decisão de faltar ao debate da TV Bandeirantes, Flávio disse que queria debater com quem não acreditava em Deus. "Quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo", afirmou.

A partir dessa declaração, não se pode concluir que ele planeja tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Trata-se, portanto, de notícia falsa.

 

Qual é a origem do boato?

Pelo que se sabe até agora, a origem é um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado federal Victorio Galli (MT) e arquivado no ano seguinte. Anos mais tarde, Galli foi assessor especial da Presidência da República no governo de Jair Bolsonaro e hoje é novamente candidato a deputado federal.

A notícia falsa de que Flávio retomaria a proposta ganhou tração depois que a jornalista Maria Cristina Fernandes, da GloboNews, apontou "um movimento na Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos" que estaria tentando destituir Aparecida da condição de padroeira.

Horas depois, na madrugada de sexta (25), a GloboNews fez uma retratação e afirmou que a informação se baseava em um projeto de lei que, na verdade, fora arquivado quase 20 anos atrás.

 

O que Flávio fez quando percebeu que o boato tinha viralizado?

Os advogados da campanha do candidato do PL enviaram uma representação ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), dizendo que "essa informação é absolutamente falsa" e pedindo uma intervenção da corte.

 

O que André Mendonça decidiu na sexta-feira?

Antes da resposta, vale esclarecer: Mendonça é ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) e também do TSE.

Na condição de ministro do TSE, ele determinou a derrubada de publicações que tratassem como verídica a notícia falsa de que Flávio iria retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.

Na decisão provisória, ordenou que as redes sociais "atuem preventivamente contra a disseminação dos conteúdos" que tratam do tema, classificado por ele de "notoriamente inverídico". Também afirmou que os provedores deveriam indisponibilizar imediatamente as publicações que reproduzam essa notícia falsa mesmo sem uma nova ordem judicial específica para isso.

 

O que Flávio Dino decidiu no domingo, dia 27?

Na hierarquia do Judiciário brasileiro, o STF está acima do TSE.

Como ministro do STF, Dino anulou a decisão de André Mendonça e liberou publicações nas redes sociais sobre a lei que transformou Nossa Senhora Aparecida em "padroeira do Brasil".

A decisão de Flávio Dino atendia a um pedido do ator Antônio Tabet, que teve uma publicação derrubada pelas plataformas digitais por ordem de Mendonça. No texto, Tabet afirmava que "a família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida". Não havia menção ao nome de Flávio.

Dino disse que postagens como a de Tabet não trazem "grau de certeza de ilicitude para extrair duríssimas consequências contra a liberdade de expressão e, em última análise, contra a própria liberdade religiosa".

 

O que Luix Fux decidiu na segunda, dia 28?

Como ministro do STF, Fux contrariou a ordem de Dino e determinou novamente a suspensão de publicações sobre Nossa Senhora Aparecida. Ele é relator da ação do Marco Civil da Internet e, atualmente, integra a ala pró-Mendonça no Supremo.

Em sua decisão, justificou a adoção da medida citando, entre outros argumentos, a proximidade das eleições. "O referendo [da decisão de Dino] foi designado para 'sessão presencial', sem data; se sobrevier após o pleito, qualquer que seja o seu resultado, terá perdido a utilidade —pressuposto inerente à tutela de urgência", afirmou.

Fux disse ainda que sua decisão não "cassa" a do colega, apenas "suspende-lhe os efeitos externos até a deliberação do colegiado", em referência ao plenário do Supremo. O presidente do STF, Edson Fachin, sinalizou que deve levar o caso para deliberação pelo plenário na quarta (30).

 

Um presidente da República pode definir o padroeiro de um país? Ou, no caso de Nossa Senhora Aparecida, cassar o título de padroeira?

Pode eventualmente sugerir, mas a decisão final é do Vaticano, a autoridade máxima da Igreja Católica.

 

Foi a primeira vez que Nossa Senhora Aparecida esteve no centro de uma discussão religiosa e política que mobilizou o país?

Não. Em 12 de outubro de 1995, a TV Record exibiu o programa O Despertar da Fé, em que o apresentador, o bispo Sérgio von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, dava socos e chutes em uma imagem de Nossa Senhora Aparecida.

O então presidente Fernando Henrique Cardoso lembrou a importância da tolerância religiosa. Edir Macedo, líder da Universal e proprietário da Record, pediu perdão aos católicos e classificou o ato do bispo von Helder como "desastroso". Von Helder foi processado e condenado a dois anos e dois meses de prisão por crimes de discriminação religiosa e vilipêndio de imagem.

 

Quando Nossa Senhora Aparecida foi encontrada?

Em outubro de 1717, três pescadores resgataram uma escultura de terracota fragmentada, separada em corpo e cabeça. A partir de então, a estátua "aparecida" (daí o nome) virou objeto de devoção popular.

 

Onde essa escultura estava?

A imagem foi resgatada pelos pescadores no rio Paraíba do Sul, na altura do atual município de Aparecida, no interior de São Paulo. A escultura original está guardada e exposta em um espaço blindado dentro da Basílica Nossa Senhora Aparecida.

 

Por que Nossa Senhora é representada como negra?

Porque a imagem encontrada pelos pescadores tem a cor escura. Segundo a Igreja Católica do Brasil, o tempo nas águas do rio, onde ela foi encontrada, e a fuligem das velas acesas diante dela contribuíram para que a estatueta ficasse mais escura.

 

O que é um padroeiro ou uma padroeira?

É um santo ou uma santa que os católicos consideram como aquele que protege uma cidade ou um país, entre outras possibilidades. São Sebastião, por exemplo, é o padroeiro da cidade do Rio de Janeiro; Nossa Senhora da Boa Viagem é a padroeira de Belo Horizonte.

O padroeiro também pode ser reconhecido como protetor de um grupo ou de uma atividade –o padroeiro dos médicos, por exemplo, é São Lucas Evangelista.

 

Quando Nossa Senhora Aparecida passou a ser considerada padroeira do Brasil?
Até o início do século 20, o padroeiro oficial do Brasil era são Pedro de Alcântara, título estabelecido em 1826 a pedido de dom Pedro 1º.

Aparecida, porém, era mais cultuada pela população. Esse clamor popular ganhou contornos institucionais no final de 1929, quando bispos da época pediram que essa representação de Nossa Senhora se tornasse a padroeira nacional. O Vaticano acolheu a proposta em 1930.

A festa pública ocorreu no ano seguinte, em 31 de maio, na então capital do país, o Rio de Janeiro, em cerimônia comandada pelo então presidente Getúlio Vargas.

 

Por que os evangélicos não cultuam santos, como Nossa Senhora Aparecida?
No século 16, a Reforma Protestante adotou a Sola Scriptura, segundo a qual somente a Bíblia é a palavra de Deus. Como não existem na Bíblia exemplos de cristãos orando aos santos falecidos ou celebrando festas em sua honra, os crentes passam a rejeitar essas práticas.

Roney de Carvalho, professor de teologia e história no Centro Universitário Cidade Verde, lembra o que Paulo disse em uma de suas cartas a Timóteo: "Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus".

Segundo Carvalho, "para os evangélicos, os santos são reconhecidos como exemplos de fé e testemunhas da história cristã, mas não são alvos de orações ou devoções".

 

Como os evangélicos veem a Virgem Maria?

Eles acreditam nela, mas não a consideram com a mesma autoridade espiritual com a qual ela é tratada na Igreja Católica.

"Maria tem o seu lugar na tradição evangélica, como mãe de Jesus. Porém, ela é valorizada como serva de Deus, que gerou Jesus, o Salvador. Não é compreendida como 'mãe de Deus' nem como intercessora das pessoas diante do Filho de Deus que ela gerou, uma vez que na doutrina protestante não há mediação entre Deus e o ser humano", explica Magali Cunha, pesquisadora do Iser (Instituto de Estudos da Religião).

 

Por que alguns evangélicos participam das festas caipiras em junho e julho, tradicionais celebrações em homenagem a santos como São João?

Segundo Roney de Carvalho, muitas práticas culturais do catolicismo popular foram ressignificadas pelas igrejas evangélicas ao longo da história. "Até porque o ser humano necessita de símbolos, ritos, celebrações e pertencimento comunitário", afirma o professor de teologia.

"Esse fenômeno mostra que, embora os fiéis evangélicos rejeitem a devoção aos santos, muitas comunidades preservam elementos culturais ligados à convivência, à celebração e à identidade brasileira. Trata-se menos de uma continuidade da devoção religiosa e mais de uma adaptação cultural", diz.

Colaborou Rodrigo Toniol, colunista da Folha. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br

  • Presidentes do TSE e do Supremo se reúnem nesta segunda-feira (28) e devem discutir tensão entre as duas cortes
  • Kassio vê interferência indevida de Dino e pretende alertar Fachin sobre falhas no sistema de distribuição de processos

 

Ministros Kassio Nunes Marques e Flávio Dino em sessão no STF - Adriano Machado - 2.set.26/REUTERS

 

Luísa Martins

Brasília

O presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Kassio Nunes Marques, prepara uma reação à decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino, que liberou publicações nas redes sociais sobre a polêmica de Nossa Senhora Aparecida, desautorizando ordem da corte eleitoral.

Kassio vai se reunir com o presidente do STF, Edson Fachin, nesta segunda-feira (28) e alertá-lo sobre o que considera interferências indevidas de ministros do Supremo no TSE. Também vai cobrar de Fachin medidas institucionais contra a manipulação do sistema de escolha de relatores na corte.

A reunião entre Fachin e Kassio já estava prevista desde a semana passada, mas o presidente do TSE vai aproveitar os acontecimentos dos últimos dias e endereçar sua preocupação quanto a uma possível escalada de tensões entre as duas cortes.

Na sexta-feira (25), o ministro André Mendonça atendeu a um pedido da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) e determinou a remoção de conteúdos "notoriamente inverídicos" que apontavam para uma suposta intenção do candidato de retirar da santa o título de padroeira do Brasil.

Proferida no âmbito do TSE, a decisão foi anulada por Dino neste domingo (27). O ministro do Supremo afirmou que não havia, nas postagens, "grau de certeza de ilicitude para extrair duríssimas consequências contra a liberdade de expressão e, em última análise, contra a própria liberdade religiosa".

Dino analisou um requerimento ajuizado pelo ator Antônio Tabet (um dos perfis atingidos pela ordem de Menonça) em um processo que tramitava no seu gabinete desde maio, e que diz respeito não às eleições presidenciais, mas a um caso de censura a posts sobre a inelegibilidade do ex-deputado Deltan Dallagnol.

Kassio disse a um interlocutor que viu volação ao princípio do juiz natural. É como se a defesa de Tabet tivesse burlado o sistema de sorteio do STF e escolhido o magistrado que analisaria seu pedido, para ter mais chances de um resultado favorável.

O presidente do TSE pretende dizer a Fachin, nesta segunda, que a manobra tem sido utilizada com frequência e que é preciso fixar algum tipo de regra para evitar o direcionamento de processos dentro do Supremo. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br

É extremamente preocupante que um candidato à Presidência tenha mantido vínculo tão próximo, até pouco tempo atrás, com um miliciano condenado pelo Supremo pela morte de Marielle

 

Este jornal informou na primeira página de sua edição de ontem que, em 2023, uma assessora do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou pessoalmente com o miliciano Robson Calixto, vulgo “Peixe”, o repasse de quase R$ 200 mil provenientes de emenda parlamentar em troca de vantagens indevidas. A negociata já seria escandalosa se Flávio não fosse candidato à Presidência da República e se o tal “Peixe” fosse um sicário qualquer, desses com os quais a população do Rio de Janeiro, lamentavelmente, acostumou-se a conviver. Ocorre que Flávio não só é candidato, como tem boas chances de ser eleito. E “Peixe”, definitivamente, não é um ilustre desconhecido do sistema de Justiça.

Em fevereiro deste ano, por unanimidade, “Peixe” foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a nove anos de prisão em regime fechado por ter participado do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, em 14 de março de 2018. O indigitado era uma espécie de “faz-tudo” para os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, mandantes do crime, e elo da dupla com a milícia da zona oeste da capital fluminense de onde saiu o facínora Ronnie Lessa, autor dos disparos. Todos cumprem pena presos.

É extremamente preocupante, para dizer o mínimo, que um candidato à Presidência da República tenha mantido vínculo tão próximo com um criminoso de sangue até pouco tempo atrás. Para piorar, confrontado com um fato dessa gravidade, Flávio se limitou a dar uma resposta protocolar, afirmando, por meio de nota, que “a emenda foi destinada dentro da legislação vigente” e que a responsabilidade pela prestação de contas é de quem recebe os recursos, não do parlamentar. Sobre o fato mais escabroso – a proximidade entre o senador e um miliciano condenado –, Flávio não deu uma satisfação sequer aos eleitores.

Talvez seja mesmo difícil para o candidato tratar do tema com mais objetividade. Afinal, faz mais de duas décadas que, por onde quer que ande, Flávio Bolsonaro está sempre acompanhado pela sombra dos milicianos do Rio de Janeiro com os quais se relaciona, abertamente, desde o seu primeiro mandato como deputado estadual, iniciado em 2003. A ligação entre Flávio e “Peixe”, por mais problemática que seja, não é um desvio pontual.

Recorde-se que, em 2007, Flávio subiu à tribuna da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para legitimar as milícias como um “novo tipo de policiamento”. Na ocasião, o então deputado estadual reduziu os crimes praticados por milicianos – não raro policiais e bombeiros corruptos – a “casos isolados”. Em outro discurso, Flávio chegou a dizer que “não se importaria” em pagar mensalidades de “R$ 30 ou R$ 40” às milícias para “ter mais segurança”. Ele sabia do que falava. Além de condecorar dezenas de milicianos, pouco tempo depois, Flávio empregara em seu gabinete na Alerj familiares de um dos mais temidos matadores do País, Adriano da Nóbrega, capo da milícia Escritório do Crime, baseada em Rio das Pedras.

Adriano seria morto durante troca de tiros com a polícia em 2020, escondido sob nome falso no interior da Bahia. Mas o grupo criminoso que ergueu em Rio das Pedras, envolvido no assassinato de Marielle Franco, sobreviveu a ele – e agora volta às páginas do jornal pela negociação do tal “Peixe” e a assessora de Flávio Bolsonaro.

Estamos a poucos dias da eleição que definirá o futuro presidente do Brasil. Por óbvio, não é questão menor ter entre os postulantes à chefia de Estado e de governo um candidato cuja biografia política está indelevelmente marcada por vínculos estreitos e reiterados – e jamais devidamente explicados – com membros de organizações criminosas responsáveis por execuções sumárias, extorsões, exploração ilegal do comércio e controle social, na base do terror, sobre larguíssimas porções do território do Rio de Janeiro.

Cada eleitor tem a liberdade assegurada pela Constituição para dar seu voto a qualquer candidato regularmente registrado na Justiça Eleitoral. Mas que todos estejam cientes de que, dado o histórico, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República. Fonte: https://www.estadao.com.br

Com autorização de André Mendonça, Flávio Bolsonaro é formalmente investigado pela PF por sua relação financeira com Daniel Vorcaro e segue devendo explicações convincentes ao País

 

O País acaba de tomar conhecimento de que Flávio Bolsonaro, candidato a presidente da República pelo PL, é oficialmente investigado pela Polícia Federal (PF) por sua associação com o banqueiro Daniel Vorcaro para o suposto financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. A investigação, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, apura se Flávio cometeu os crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Como se sabe, Flávio pediu de viva voz R$ 134 milhões a Vorcaro, tendo recebido mais de R$ 60 milhões, segundo a PF. O candidato, inclusive, esteve pessoalmente com o banqueiro vigarista no curto interstício em que ele esteve livre, condicionado ao uso de tornozeleira eletrônica, entre uma prisão e outra.

É gravíssimo o fato de um candidato favorito, de acordo com as pesquisas de intenção de voto, concorrer à Presidência da República na condição de investigado – e sob tão sérias suspeitas. Isso só reforça que Flávio Bolsonaro não reúne condições morais nem sequer para disputar cargos eletivos, quanto mais para ser chefe de Estado e de governo.

Ao que tudo indica, o financiamento do tal filme pode ter sido apenas um meio de obtenção de dinheiro sujo da rede de operações de Vorcaro para bancar uma série de gastos de figuras de proa do bolsonarismo – desde a produção do filme propriamente dita até o sustento da vida de playboy que o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, leva nos Estados Unidos. Um fundo de investimentos no Texas, cujo titular é um advogado amigo de Eduardo, recebeu dinheiro de sócios de Vorcaro para, supostamente, cobrir despesas da produção de Dark Horse, uma transação inusual no setor audiovisual. Ademais, há suspeita, ainda a ser investigada, de que parte dos milhões recebidos por Flávio de Vorcaro possa ter sido usada no financiamento de sua própria campanha eleitoral, o que caracterizaria “caixa dois”.

Louve-se aqui a iniciativa do presidente do STF, ministro Edson Fachin, de pedir a Mendonça, relator do caso Master na Corte, que levantasse o sigilo das investigações, pedido este atendido, ainda que parcialmente. Por mais graves que sejam as informações que ora vêm a público, é incerto se elas prejudicarão a candidatura presidencial de Flávio. Mas isso pouco importa. O eleitor tem o direito de ir às urnas sabendo exatamente de tudo o que pesa contra quem pretende governá-lo. A decisão de voto diz respeito apenas à sua consciência.

Diante dessa mixórdia entre interesse público e interesses privados, Flávio não só segue devendo explicações convincentes ao País, como chega a ser cínico ao insistir que tudo não teria passado de uma relação “privada”, envolvendo dinheiro “privado”. É uma dupla mentira. Em primeiro lugar, porque há fundadas suspeitas de que recursos de emendas ao Orçamento da União do deputado federal Mario Frias (PL-SP) tenham sido direcionados para o orçamento de Dark Horse, como revelou a Operação Make Up, deflagrada pela PF há poucos dias. Em segundo lugar, porque o dinheiro de Vorcaro não pode ser tratado naturalmente como recurso privado: trata-se de fruto da maior fraude financeira de que o País já teve notícia. O que Flávio trata como dinheiro “privado” é o prejuízo de milhões de correntistas, investidores, servidores públicos e aposentados, o maior rombo já coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos.

Se Flávio Bolsonaro considera normal financiar uma hagiografia do pai – e sabe-se lá mais o quê – com recursos de origem tão gritantemente espúria, a fragilidade jurídica da defesa é o menor de seus problemas. Está-se diante, isso sim, de sua própria falência ética. Espera-se que um candidato à Presidência da República saiba distinguir entre o certo e o errado, o público e o privado, o lícito e o ilícito. Alguém que se perde entre essas noções elementares, evidentemente, não está qualificado para governar o Brasil.

Pode não parecer, mas caráter ainda importa. E ele se revela nas escolhas feitas por um candidato. Flávio fez as suas: chamou Vorcaro de “irmão” no áudio em que lhe pediu R$ 134 milhões e não teve pudor em ignorar a origem do dinheiro. Que os eleitores se perguntem que espécie de irmandade é essa – e o que ela diz sobre quem aspira à Presidência da República. Fonte: https://www.estadao.com.br

Operação visa deputado federal Mário Frias (PL-SP) e produtora da obra

Autorizada pelo ministro do STF Flávio Dino, polícia cumpre 49 mandados de busca e apreensão que têm como alvo 29 pessoas no total

 

Mônica Bergamo

A PF (Polícia Federal) deflagrou nesta quinta (10), operação contra 29 pessoas que teriam participado de um esquema de desvio de recursos de emendas parlamentares para o filme "Dark Horse", sobre a vida de Jair Bolsonaro. A CGU (Controladoria-Geral da União) participa das investigações.

A medida foi autorizada pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino no âmbito da investigação que apura o desvio de recursos para o filme.

Entre os alvos da operação estão o deputado federal Mario Frias (PL-SP), autor das emendas, e a produtora do filme, Karina Gama. O caso chegou ao STF por meio de uma representação feita pela deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP).

Em conversa com a coluna, Karina Gama afirmou que a aplicação dos recursos foi correta. "Não tenho nada para delatar", afirmou.

Estão sendo cumpridos 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e no Distrito Federal.

Investigado em outro processo, sob relatoria do ministro André Mendonça, por ter pedido dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o filme, Flávio Bolsonaro não é alvo da operação.

Em nota, a PF afirma que "as investigações apontam a existência de uma organização criminosa, formada por agentes públicos e privados, suspeita de direcionar os valores recebidos para empresas subcontratadas de forma irregular, sem comprovação da efetiva prestação dos serviços contratados. As tentativas de dissimular os desvios teriam se estendidos até julho deste ano".

Afirma ainda que "levantamentos financeiros identificaram, ainda, movimentação da ordem de centenas de milhões de reais entre as empresas que integram o esquema investigado".

Segundo a PF, "estão sendo investigados os crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios".

Dino avocou também para o STF a investigação que a Polícia Civil de São Paulo já fazia sobre o filme.

Em agosto, ele autorizou a PF a ter acesso a dados da investigação da polícia paulista que envolve a produtora audiovisual Go Up Entertainment, responsável pelas gravações do filme "Dark Horse", em contratos com a Prefeitura de São Paulo. Karina Gama é a dona da empresa.

Em junho, a polícia de SP deflagrou operação em endereços ligados à produtora e em uma secretaria da Prefeitura de São Paulo, como parte de um inquérito que apura se houve irregularidades e desvios de um contrato municipal e se os recursos foram para a equipe do longa-metragem.

A suspeita é de que os recursos tenham sido desviados de um contrato de R$ 108 milhões firmados entre a gestão Ricardo Nunes (MDB) e o ICB (Instituto Conhecer Brasil), presidido por Karina Ferreira da Gama, que é dona da produtora. O contrato previa fornecimento de wi-fi gratuito a comunidades carentes.

Na decisão em que determinou o retorno de Andrei Rodrigues ao comando da PF, na quarta (9), Dino citou o impacto do afastamento do diretor-geral sobre as investigações do caso.

 

Dark Horse e Vorcaro

O financiamento do "Dark Horse" por Vorcaro é um dos fatores de desgaste do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), que chegou a negociar R$ 134 milhões com o banqueiro para o filme. Desse montante, foram repassadas parcelas correspondentes a pelo menos R$ 63,7 milhões.

Na atual campanha eleitoral, Flávio tem se negado a prestar contas sobre a produção, dizendo que o caso está esclarecido e que cabe à produtora dar eventuais outras explicações.

A investigação sobre a transferência de dinheiro de Vorcaro para o filme está sob relatoria do ministro André Mendonça.

Na quarta (9), o PT pediu a ele e a Dino que levantassem o sigilo dos processos que estão sob a relatoria deles. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br

O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Edson Fachin, deu nesta terça-feira (8) prazo de 72 horas para que o ministro André Mendonça se manifeste sobre o pedido da AGU (Advocacia-Geral da União) para suspender o afastamento do diretor-geral da PF (Polícia Federal), Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial da corporação, Leandro Almada da Costa.

“Intime-se o eminente Ministro André Mendonça, Relator da Pet nº 16.662, para que se manifeste sobre o pedido no prazo de 72 horas. Na sequência, retornem os autos à Presidência deste Supremo Tribunal”, determinou Fachin. Depois da manifestação de Mendonça, o processo voltará à Presidência do STF para análise do pedido.

A AGU apresentou o pedido em caráter de urgência e sustenta que a decisão de Mendonça causa “grave lesão à ordem pública e administrativa”.

Segundo o órgão, o afastamento viola a prerrogativa do presidente da República de nomear e exonerar ocupantes de cargos de direção da Polícia Federal. A AGU também afirma que a retirada simultânea dos dois dirigentes pode comprometer o funcionamento das atividades de polícia judiciária e provocar desorganização institucional.

Outro argumento é que os fatos relacionados à produção e à divulgação dos relatórios de inteligência da PF já estavam sob análise da Presidência do Supremo, em procedimento conduzido por Fachin desde a semana passada.

Na avaliação da AGU, a decisão de Mendonça antecipou medidas cautelares enquanto esse procedimento ainda estava em andamento e levou à Segunda Turma uma questão que, segundo o órgão, deveria ser analisada pelo plenário do STF.

Mendonça afastou Andrei e Almada nesta terça ao afirmar haver indícios de irregularidades na produção de relatórios de inteligência que analisaram sua atuação, decisões judiciais e relações com outras autoridades.

O ministro diz ter sido alvo de um “monitoramento sistemático” e ilegal da inteligência da PF durante cerca de um mês.

Além dos afastamentos, Mendonça determinou que a Corregedoria da Polícia Federal abra investigações de natureza penal e administrativo-disciplinar para apurar quem ordenou e quem elaborou os documentos. Enquanto Fachin não analisa o pedido da AGU, os afastamentos determinados por Mendonça continuam em vigor. Fonte: https://www.msn.com

Já se perdeu a conta de quantas vezes Flávio Bolsonaro mentiu a respeito do dinheiro que recebeu de Daniel Vorcaro supostamente para financiar um filme sobre o pai

Mais uma vez, o candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, foi pego na mentira a respeito do dinheiro que o banqueiro Daniel Vorcaro deu supostamente para bancar o filme sobre o pai de Flávio, o ex-presidente Jair Bolsonaro. O senador havia declarado que os repasses de Vorcaro cessaram em maio de 2025, mas a revista piauí revelou que o banqueiro enviou mais US$ 1,666 milhão em setembro daquele ano para o Havengate Development Fund, o fundo americano que administrava o dinheiro do filme Dark Horse, conforme relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Há ainda mensagens que indicam outro pagamento em outubro.

Já se perdeu a conta de quantas vezes o candidato declara algo sobre esse assunto e é obrigado a se desdizer quando surgem evidências de que ele não falou a verdade. Definitivamente, não é o comportamento que se espera de um postulante à Presidência da República, que por definição deve ser honesto. Pode até ser que haja eleitores para os quais isso não importa, e as pesquisas de intenção de voto mostram que talvez eles sejam muitos, mas idealmente não se pode esperar que o governo do País seja entregue a alguém que é cronicamente incapaz de dizer a verdade. Nisso, aliás, puxou ao pai, que mentiu a mais não poder para chegar à Presidência e, depois, para governar. Deu no que deu.

Desde que sua relação com Vorcaro veio a público, Flávio não esclarece os fatos espontaneamente. Tem seguido um rito: nega enquanto pode e só admite o que uma nova prova o obriga a reconhecer.

Para piorar, o senador insiste em dizer que se tratava de “dinheiro privado” para “um filme privado”. Ora, chamar o dinheiro de Daniel Vorcaro de “privado” é uma falácia. Há cada vez mais indícios de que o caixa do Banco Master, de Vorcaro, era abastecido também por dinheiro descontado de aposentados em empréstimos que, segundo as investigações, eles nem sabiam que haviam contratado. Ou seja, estavam sendo roubados. Há, ainda, recursos de regimes de previdência de Estados e municípios e bilhões obtidos com a venda de carteiras suspeitas ao Banco de Brasília (BRB), um banco público.

O imperador Vespasiano dizia que pecunia non olet, isto é, que dinheiro não tem cheiro, razão pela qual, para efeitos tributários, pouco importa de onde ele veio. Flávio Bolsonaro espera que a mesma lógica sirva para justificar seus negócios com o banqueiro que protagonizou o maior golpe da história do sistema financeiro nacional. Mas o dinheiro de Vorcaro tinha cheiro, sim, e era muito ruim: foi fruto de fraude generalizada, que inclui dinheiro afanado de aposentados. Se Flávio Bolsonaro, na condição de candidato a presidente, acha que ninguém tem nada com isso porque o dinheiro de Vorcaro é supostamente “privado” e que não há nada de errado em se relacionar financeiramente com um criminoso, a quem tratou afetuosamente como “irmão”, está obviamente enganado.

Por isso, a história da dinheirama que Daniel Vorcaro despejou generosamente a título de financiar o projeto cinematográfico da família Bolsonaro ainda está muito longe de ser uma “página virada”, como deseja Flávio – sobretudo porque pairam no ar as suspeitas de que o dinheiro serviu não apenas para bancar o tal filme mequetrefe, mas também para sustentar a dolce vita do deputado cassado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e para ser usado na campanha eleitoral deste ano, de forma obviamente irregular.

Tudo isso está sendo investigado pela Polícia Federal e, mais dia, menos dia, será esclarecido. Até lá, presume-se que Flávio Bolsonaro se manterá agarrado à palavra mágica “privado” para tentar encerrar o assunto e, ao mesmo tempo, continuará terceirizando responsabilidades, como faz quando atribui à produtora do filme a obrigação de prestar contas. Ora, foi ele quem pediu o dinheiro a Vorcaro, foi ele que cobrou os pagamentos e, portanto, é ele quem deve explicações. Fonte: https://www.estadao.com.br

Revelações escandalosas da PF acabam com as dúvidas sobre a incompatibilidade do ministro com a corte

Sem gesto de desprendimento, restará ao Senado fazer tramitar processo de impeachment; não há muito o que esperar da PGR, infelizmente

 

Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) - Adriano Machado - 8.abr.26//Reuters

 

Não há mais lugar no Supremo Tribunal Federal (STF) para Alexandre de Moraes. Se o ministro não renunciar, restará ao Senado, por meio de um processo de impeachment, livrar a corte desse fardo.

O limite da tolerância com a promiscuidade entre o juiz e o mafioso Daniel Vorcaro havia sido tangenciado com o que se sabia antes das últimas revelações. O contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório da mulher de Moraes e as comunicações com o ministro à véspera da prisão do delinquente, numa modalidade que apaga o que foi dito, deixavam pouca dúvida sobre a gravidade da relação.

A torrente de situações abomináveis que acaba de desaguar sobre a opinião pública sepulta qualquer incerteza restante sobre a incompatibilidade de Moraes com o exercício da magistratura no STF. O fraudador, enquanto enriquecia a família Moraes com dinheiro roubado, tinha o ministro como um conselheiro e um informante.

No relatório policial que investigou o caso, o ministro aparece como editor do contrato multimilionário com o escritório da esposa, que negociou mais um acordo, este de R$ 50 milhões, com uma outra empresa de Vorcaro.

No sábado anterior a sua detenção pela Polícia Federal, o dono do Banco Master quis saber de Moraes se ele deveria estar fora do país na segunda-feira. Idas e vindas de mensagens e aviões sugerem ter havido encontros pessoais com o juiz nos momentos agônicos do responsável pelo maior desfalque bancário da história do país.

Graças à persistência da PF, da imprensa e do ministro André Mendonça, está seriamente ameaçado o pacto de impunidade que tem mantido Moraes isolado de prestar contas. Não há muito o que esperar da Procuradoria-Geral da República (PGR), infelizmente. O procurador Paulo Gonet, que descaradamente pediu a nulidade do relatório policial, surge emaranhado na teia de afinidades do Master.

Entretanto agora cabe escolher entre Alexandre de Moraes e o Supremo Tribunal Federal, entre um indivíduo de má conduta e a República. Enquanto o ministro permanecer na sua cadeira, a desonra e o descrédito se acumularão sobre o tribunal. A atitude mais digna e rápida seria a renúncia do magistrado. Ela pouparia as instituições nacionais de um desgaste desnecessário e longo.

Na ausência desse ato de desprendimento, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), está instado a fazer tramitar os pedidos de impeachment contra Moraes, que terá direito à presunção de inocência, ao devido processo e a todas as outras garantias legais. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br

Rodada revela que não houve vencedor único; Lula e Flávio Bolsonaro saíram sem grandes prejuízos

Único que combinou avaliação favorável e atenção ampla em uma das redes foi Renan Santos, no X

 

César Tralli e Renata Vasconcellos, que apresentam o Jornal Nacional - João Cotta / Globo

 

Editada por Felipe Bailez e Luis Fakhouri, fundadores da Palver, coluna traz perspectivas sobre os dados extraídos de redes sociais fechadas

A rodada de sabatinas do Jornal Nacional na semana passada foi o primeiro momento desta campanha em que os principais presidenciáveis foram submetidos ao mesmo formato e ao mesmo tempo de entrevista. Seis candidatos passaram pela cadeira entre segunda (24) e sábado (29), o que torna a semana um caso raro de comparação sob condições parecidas. À medida que as redes sociais reagem a cada entrevista, é possível realizar uma análise sobre qual candidato se beneficiou mais da exposição.

No monitoramento em mais de 100 mil grupos públicos aplicativos de mensagens, somado ao debate no X e no Instagram, a inteligência de narrativas da Palver mediu a conversa sobre cada entrevista nas 24 horas seguintes à exibição, com cada candidato avaliado na própria janela para não favorecer quem foi sabatinado primeiro. Cada rede foi lida em separado, porque possuem mecânicas de produção e de captura distintas. O vencedor muda conforme a rede, e essa divergência é o dado mais relevante da semana.

Em nenhuma das três redes observadas o candidato mais falado foi necessariamente o que apresentou o melhor saldo.

Lula foi o único candidato com desempenho sólido nas três redes, sendo também o mais mencionado. No X, teve aprovação de 67% das menções opinativas, o segundo melhor saldo da plataforma. No Instagram e na mensageria, ficou perto do equilíbrio entre elogio e crítica. A pergunta sobre as investigações que envolvem o filho Fábio Luís foi o trecho de maior crítica, e em contrapartida, o tema da idade e da disposição do presidente teve recepção quase inteiramente favorável nas três redes.

Flávio Bolsonaro apresentou o comportamento que mais varia entre plataformas. No X, foi ao mesmo tempo o mais mencionado e o terceiro mais bem avaliado da rede, com 41% de aprovação. O que destacou a performance do senador entre os comentários foram as menções à sua calma durante a sabatina. No Instagram e na mensageria, o quadro foi um pouco pior, com aprovação de 35% e 38%. O principal ponto de prejuízo ao candidato foram as críticas acerca do financiamento do filme "Dark Horse" por Daniel Vorcaro. Este foi o assunto mais associado à sua entrevista nas três redes, sempre com ampla predominância de críticas.

Renan Santos foi o candidato mais bem avaliado no X, com aprovação de 78% das menções opinativas. E o resultado positivo também se apresentou no Instagram e nos aplicativos de mensagens —ainda que com menores números de menções, ele apareceu em segundo lugar em aprovação, com 64% e 59% das menções favoráveis, atrás apenas de Augusto Cury. A conversa concentrou-se em seu posicionamento contra "o sistema", e houve reconhecimento inclusive de eleitores identificados com adversários.

Augusto Cury figura como mais bem avaliado no Instagram e nos aplicativos de mensagem, mas o dado precisa ser lido com cautela. A conversa opinativa sobre ele nessas redes é muito menor do que a de outros candidatos que lideram as pesquisas. Soma-se a isso que, nos aplicativos de mensagem, o candidato registra o maior índice de mensagens enviadas por usuários com comportamento automatizado entre os seis candidatos, num ambiente em que esse padrão já é alto para todos. No X, onde a conversa sobre ele é a mais orgânica e o número de menções é maior, a aprovação cai para 15%, em patamar próximo ao de Caiado e Zema.

Romeu Zema e Ronaldo Caiado tiveram o pior aproveitamento em todas as redes, tanto em alcance quanto em qualidade. O predomínio de crítica e aprovação variou de 8% a 32% conforme a plataforma. Para Zema, a conversa concentrou-se na dívida de Minas Gerais e na referência a Nayib Bukele. Para Caiado, na afirmação sobre milhões de brasileiros dominados pelo tráfico. Nenhum dos dois converteu a exposição em recepção favorável em qualquer plataforma.

A rodada revela que não houve um vencedor único, e que nem Lula nem Flávio Bolsonaro saíram das sabatinas com grandes prejuízos. Lula sustentou recepção positiva nas três redes e Flávio Bolsonaro teve resultado desigual, bem avaliado no X e em desvantagem no Instagram e nos aplicativos de mensagem, onde o caso Master pesou contra ele. Entre os candidatos com desempenho mais baixo nas pesquisas, o único que combinou avaliação favorável e atenção ampla em uma das redes foi Renan Santos, no X. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br

Ex-chefe da Aeronáutica presta relevante serviço ao lembrar que Jair Bolsonaro pretendia mesmo dar um golpe. Não esqueçamos isso, considerando que o nome Bolsonaro estará nas urnas

 

O tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior, ex-comandante da Aeronáutica, prestou um relevante serviço ao País ao lembrar que Jair Bolsonaro pretendia mesmo dar um golpe de Estado nos estertores de seu governo, a fim de impedir a posse do então presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva. Quatro anos depois, as memórias de Baptista Junior sobre aqueles fatídicos dias, reunidas no livro Eu disse não! – Uma trincheira antigolpista, servem como uma espécie de vacina contra o esquecimento coletivo de um fato gravíssimo – ainda mais considerando que o sobrenome Bolsonaro está de novo nas urnas.

A rigor, os relatos do militar confirmam o que já se sabia, ainda que Baptista Junior os registre com os detalhes de quem foi personagem da história. Lembremos que toda a trama golpista foi passada a limpo durante o julgamento da Ação Penal 2.668, no Supremo Tribunal Federal (STF), ao final da qual Bolsonaro foi condenado a mais de 27 anos de prisão em regime fechado. Esse registro, porém, tem o peso de ter sido feito não apenas por um oficial de alta patente, mas por um comandante militar que jamais foi hostil a Bolsonaro – muito pelo contrário. Baptista Junior é uma testemunha insuspeita daquela sedição.

Como relata o militar, houve, sim, uma articulação liderada por Bolsonaro para impedir a posse de Lula, legitimamente eleito em 2022. Houve, sim, pressão do então presidente da República para que os comandantes das Forças Armadas aderissem à sua aventura golpista, sob o disfarce de estado de defesa ou Garantia da Lei e da Ordem. Houve, sim, a tentativa de Bolsonaro de isolar a Aeronáutica das deliberações insurgentes. Para Bolsonaro, afirma Baptista Junior, bastava cooptar a Marinha – de resto submissa pela adesão do almirante Almir Garnier, outro criminoso condenado na Ação Penal 2.668 – e o Exército, evidentemente, para consumar o golpe.

O pior só não aconteceu porque, quando Bolsonaro comunicou aos chefes militares que pretendia cancelar o resultado da eleição na qual foi derrotado, o então comandante do Exército, general Freire Gomes, ameaçou prendê-lo. Foi essa a linha vermelha que, segundo Baptista Junior, poupou o Brasil de uma ruptura institucional.

Talvez jamais saibamos se Exército e Aeronáutica se opuseram ao golpismo de Bolsonaro por convicção democrática de seus comandantes ou porque estes avaliaram que não havia as chamadas condições objetivas para um golpe de Estado. Mas, para o País, isso importa menos do que analisar os fatos relatados por Baptista Junior como o retrato do espírito golpista que animava desde sempre o presidente Jair Bolsonaro, em flagrante contraste com seu discurso em defesa da “liberdade” e da “democracia”.

Que não haja ilusões: toda palavra que sair da boca de um Bolsonaro em favor da democracia será falsa. O clã Bolsonaro, forjado na política sob o signo da irresignação com as conquistas civilizatórias da Constituição de 1988, está indelevelmente associado a golpismo. Ainda que sem uma nesga do carisma de Jair, Flávio Bolsonaro regurgita as mesmas mentiras do patriarca sobre as urnas eletrônicas. Recorde-se, também, que, em junho do ano passado, em entrevista à Folha de S. Paulo, Flávio ameaçou usar a força contra o STF caso a Corte julgue inconstitucional a concessão de eventual indulto ou anistia para seu pai e outros golpistas do 8 de Janeiro. Livrar Jair Bolsonaro da prisão e encabrestar o Supremo – ou seja, duas pautas autoritárias – é a única agenda que importa para Flávio nesta campanha.

Por mais que preocupe, nada disso surpreende. Jair Bolsonaro já defendeu o assassinato de Fernando Henrique Cardoso. Já pugnou pelo fechamento do Congresso. Já afirmou que a ditadura militar “matou pouco” no Brasil. Na campanha de 2018, prometeu “fuzilar a petralhada”. A violência é, sim, um ativo eleitoral para essa família. Mas é, antes de tudo, um desvio de caráter. Flávio, nesse sentido, teve a quem puxar.

A sociedade brasileira, amadurecida por décadas de vida democrática, já deu mostras suficientes de que não aceita o golpismo. Mas isso não significa que não haja risco envolvendo um candidato que só existe na vida pública em razão do sobrenome que ostenta – e que está indelevelmente ligado ao inconformismo com o fim do regime militar e com a democracia. Fonte: https://www.estadao.com.br

 Pela primeira vez desde 2002, a eleição não terá nenhuma mulher em chapa presidencial competitiva, o que simboliza o abismo entre o discurso político de valorização feminina e a prática

 

O fim do prazo das convenções partidárias revelou um grave retrocesso na política brasileira. Pela primeira vez desde 2002 provavelmente não haverá uma mulher sequer em uma chapa presidencial competitiva. Apenas duas mulheres estão na disputa, mas em uma composição com ao menos 1% de intenção de voto em pesquisas: Samara Martins e sua vice, Raquel Bricio, da Unidade Popular. No mínimo, esse dado deveria constranger. Afinal, trata-se de um país em que 53% do eleitorado é feminino.

Não se trata de discutir se este ou aquele partido discrimina mulheres nem de atribuir responsabilidades individuais por um problema que atravessa praticamente todo o sistema político, há gerações. O fato é que uma democracia não pode considerar normal que metade da população desapareça justamente da disputa pelo cargo mais importante da República. A ausência de mulheres competitivas na corrida presidencial expõe um déficit de representação que a democracia brasileira já não pode tratar como algo natural.

Nas últimas décadas, vieram cotas de candidaturas, novas regras para distribuição dos fundos públicos de campanha, mudanças na propaganda e punições às candidaturas fictícias. Independentemente do juízo sobre essas medidas, a barreira que afasta mulheres do topo da política permaneceu praticamente intacta.

Um dos problemas identificáveis está na estrutura dos partidos. São eles que recrutam lideranças, distribuem recursos, oferecem visibilidade e decidem quem terá condições reais de disputar os cargos majoritários. São eles que definem quem chega – e quem não chega – à mesa onde se escolhe um candidato à Presidência da República.

Mesmo quando conquistam densidade política, mulheres continuam esbarrando em uma barreira justamente na hora de disputar o posto mais alto do País. Com frequência aparecem como potenciais candidatas a vice-presidente, mas raramente são tratadas como opções naturais para liderar uma chapa presidencial.

A eleição deste ano oferece bons exemplos. No PL, Michelle Bolsonaro chegou a ser defendida por aliados como cabeça de chapa e como vice. A senadora Tereza Cristina (PP-MS) também apareceu como um dos nomes mais competitivos para compor uma candidatura presidencial. Nenhuma das duas prosperou. Flávio Bolsonaro (PL) acabou escolhendo um homem para vice. No PT, apesar de voltar a disputar a Presidência pela sétima vez, Lula novamente terá Geraldo Alckmin (PSB) ao seu lado, sem que o partido sequer tenha discutido publicamente uma alternativa feminina para a chapa. Em diferentes partidos, da direita à esquerda, mesmo mulheres politicamente consolidadas continuam encontrando dificuldade para chegar ao posto mais alto da disputa eleitoral.

A forma como os partidos reagiram às próprias regras de incentivo à participação feminina ajuda a entender esse problema. Quando essas medidas começaram a produzir efeitos concretos sobre a distribuição dos recursos, cresceu também o esforço para flexibilizar. PT, PL e outras legendas defenderam junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em meados do ano, que as candidaturas majoritárias fossem excluídas do cálculo das cotas destinadas a mulheres e negros. Soma-se a isso a anistia aprovada pelo Congresso para legendas que descumpriram essas exigências no passado recente. O discurso de valorização das mulheres não resiste quando ameaça a distribuição de poder e de recursos dentro dos próprios partidos.

O desaparecimento das mulheres da principal disputa eleitoral do País não é apenas uma curiosidade estatística. Ele é prova cabal de que a política continua a ter dificuldades para reconhecer lideranças femininas como candidatas naturais ao exercício do poder.

Recentemente, a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia observou que só haverá plena igualdade quando ninguém estranhar um Supremo formado apenas por mulheres. A provocação vale para a política. O problema não é a falta de mulheres capazes de governar. É que a política brasileira fecha as portas das mulheres aos espaços de poder. Fonte: www.estadao.com.br

Explicação para a evolução de 631% do patrimônio do senador petista está no terreno da fé

 

Há milagres que a fé explica. Mas há outros que clamam por uma investigação mais mundana. A evolução patrimonial do senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo no Senado, é um desses casos que devem ser analisados sob as leis da Terra. Em apenas oito anos, o sr. Wagner mais que sextuplicou seu patrimônio. De acordo com as declarações prestadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o senador baiano tinha R$ 3,3 milhões em bens em 2018. Agora, às vésperas de disputar a reeleição, ele informou ao TSE ter R$ 24,5 milhões – um crescimento de impressionantes 631%.

Reconheçamos de antemão que o sr. Wagner não é o único político a registrar aumento substancial de patrimônio entre as duas últimas eleições gerais – 2018 e 2022 – e a deste ano. Mas seu caso é digno de nota porque não há notícia de que ele tenha exercido outra atividade remunerada no período além do exercício do mandato parlamentar, pelo qual recebe R$ 46.366,19 mensais. Sem dúvida, é um salário generoso, mas insuficiente para justificar um salto patrimonial dessa magnitude.

A explicação oficial do senador baseia-se na venda de um terreno em Camaçari, vizinho, por mera coincidência, ao centro de treinamento que o Bahia Esporte Clube lá construiu – negociado por R$ 13,8 milhões com a SAF do próprio clube e com uma incorporadora. Em 2018, esse mesmo lote valia, na declaração de bens do sr. Wagner, R$ 28 mil. Que o terreno valorize é normal. Que valorize 49.185% em oito anos é um milagre que desafia até o Dicastério para as Causas dos Santos. Tanto é assim que, procurado pelo Estadão, o senador preferiu não se manifestar.

Some-se àquele negócio a venda, ao prefeito de Conceição do Coité, de um apartamento na Vitória, bairro nobre de Salvador, por R$ 10 milhões – seis vezes o valor do mesmo bem declarado ao TSE. Isso sem falar nos dólares e euros encontrados em endereços do senador durante uma recente operação da Polícia Federal (PF), que ele alega ser dinheiro de “diárias de viagem” não usado – por que não devolveu aos cofres públicos, é outro mistério. A PF apura se o senador baiano recebeu propina de um ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master para favorecer interesses do empresário no Senado.

A biografia de Wagner publicada no site do PT registra que o senador foi um sindicalista fundador do partido na Bahia, governador do Estado por dois mandatos e ministro em governos petistas, até ser eleito senador em 2018. Ou seja, é uma vida dedicada à política, um currículo que torna a riqueza do senador intrigante, para dizer o mínimo. Wagner nunca teve, fora da política, outra fonte de renda conhecida. Logo, se multiplicou o patrimônio em proporção que humilha alguns dos melhores fundos de investimento do País, foi na política que o fez.

O bloqueio de bens determinado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e a suspensão da transferência do terreno em Camaçari pelo cartório responsável sugerem que há indícios de enriquecimento ilícito. Cabe unicamente a Jaques Wagner explicar como seu patrimônio se multiplicou por seis em tão pouco tempo. Enquanto essa explicação não vem, resta ao eleitor baiano decidir se acredita nesse tipo de milagre. Fonte: https://www.estadao.com.br

O barro podre da política fluminense

Nova operação da PF confirma que hoje, no Rio, é impossível dissociar crime organizado de política – e é perturbador imaginar que essa relação possa almejar o poder federal

 

É lamentável, mas, à luz dos fatos, é impossível dissociar a política do Rio de Janeiro do crime organizado. A 5.ª fase da Operação Unha e Carne, deflagrada na quinta-feira passada pela Polícia Federal (PF), pode ser recebida com alívio por quem ainda espera do Estado alguma reação à audácia de traficantes de drogas, milicianos e bicheiros. No entanto, é difícil separar esse alívio de um desalento mais profundo. De mandado judicial em mandado judicial, vê-se que a política fluminense não é apenas tisnada por ligações circunstanciais com criminosos – em boa medida, está a serviço deles.

As prisões do pastor Márcio Poncio, pai da deputada estadual Sarah Poncio (Solidariedade), do capo do jogo do bicho Adilson Oliveira Coutinho Filho, vulgo Adilsinho, e do ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) Rodrigo Bacellar (União Brasil) guardam relação com outra operação que apurou vazamentos de ações policiais contra o Comando Vermelho (CV) e hoje atingem nomes que figurariam numa suposta folha de pagamento do jogo do bicho. Em conjunto com essas prisões, seguem em curso investigações sobre a atuação do CV, das milícias e das máfias dos combustíveis e do cigarro que também têm ramificações na política fluminense. Não há mais como tratá-las como exceção.

Lembremos que o sr. Bacellar, que já estava preso sob suspeita de servir aos interesses do CV, só não governou o Rio de Janeiro por um triz. Numa manobra engenhosa, Thiago Pampolha, então vice do ex-governador Cláudio Castro (PL), foi indicado conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, abrindo caminho para que Bacellar assumisse a presidência da Alerj e, assim, entrasse na linha sucessória do Palácio Guanabara. Castro renunciaria para disputar o Senado, e Bacellar concorreria ao governo em outubro, já na cadeira. Isso só não aconteceu porque a PF foi a chata da festa.

Todo esse ecossistema tem um DNA político-ideológico. É forçoso lembrar que Bacellar, Castro e boa parte dos nomes que aparecem nessas operações policiais pertencem ao grupo político do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência. Isso precisa ser levado em conta porque Flávio se apresenta para governar o Brasil. Mesmo a mais remota hipótese de que o crime organizado possa ver na eventual eleição de Flávio uma oportunidade de alcançar também o poder federal é perturbadora. Por isso, o pré-candidato precisa ser cobrado a se posicionar com clareza a esse respeito.

Ademais, ressalte-se que a Operação Unha e Carne, ao aprofundar o cerco sobre aliados políticos dos Bolsonaros no Rio de Janeiro, desmonta o suposto compromisso que a direita, em geral, e o senador, em particular, dizem ter com a pauta da segurança pública.

A direita brasileira, em particular o bolsonarismo, construiu o discurso – donde vem sua força eleitoral – sobre a bandeira da linha dura no combate ao crime organizado. A violência urbana, de fato, é um problema que aparece recorrentemente entre as principais preocupações dos eleitores. Mas esse discurso não vale o papel em que está escrito quando se nota que Flávio Bolsonaro aparece cercado de gente suspeita de envolvimento com as mesmas organizações criminosas que se pretende combater.

A cada nova fase de operações como a Unha e Carne ou Zargun – que prendeu o ex-deputado estadual Thiego dos Santos Silva, vulgo TH Joias, outro acusado de ser membro do CV –, fica mais difícil sustentar a separação entre quem diz enfrentar a criminalidade e quem, na prática, convive com ela sem maiores constrangimentos.

A rigor, a Polícia Federal, por determinação do Supremo Tribunal Federal, tem feito um trabalho que caberia primordialmente à própria política fluminense, em particular os partidos, fazer por si mesma: depurar seus quadros. Mas, enquanto isso não ocorre, cada nova operação policial, como a deflagrada no dia 2 passado, continuará confirmando o óbvio: no Rio de Janeiro, o crime organizado e o poder público não se cruzam por acidente. Fonte: https://www.estadao.com.br

 

PF investiga deputado federal Sóstenes Cavalcante, que segue líder dos bolsonaristas

Excesso de barracos na direita talvez abafe o caso do dinheirão vivo sem origem justificada

 

Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, falando sobre a operação da PF contra ele durante coletiva de imprensa em Brasília - Sérgio Lima - 19.dez.25/AFP

 

Vinicius Torres Freire

São Paulo

Jaques Wagner (PT-BA) foi saído da liderança do governo no Senado por suspeitas de fazer negócio com gente vorcarenta. Levou uns dias até cair. Talvez pelo odor de santidade, digamos, o pastor Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do seu partido na Câmara, resiste faz meses, desde que a Polícia Federal achou um saco de dinheiro no flat brasiliense desse deputado federal, em dezembro do ano passado.

Sóstenes disse que a dinheirama viria da venda de um imóvel em Ituiutaba (MG). Eram R$ 467,8 mil em notas de cem, juntadas em um saco plástico achado em um guarda-roupa. Não caberia tudo em roupas de baixo, decerto. A polícia e parte do Supremo suspeitam que o dinheiro seria resultado de desvios de verba parlamentar.

A extrema direita, a direita, boa parte da dita e velha opinião pública mais vocal ou o evangelismo político-partidário parecem querer que o caso fique dentro do armário. Sóstenes não causa sensação maior nem depois de a Polícia Federal seguir umas pistas, como etiquetas dos maços de tutu, e chegar a mais amigos do dinheiro vivo, ao que parece parceiros do deputado. É uma turma dona de empresas esquisitas, de gente que costuma sacar milhões em notas de reais. Quem sabe sejam apenas aquelas pessoas excêntricas amalucadas, que desconfiam de bancos e gostam de depósitos no colchão ou no armário. Ou gente em quem a polícia não deve confiar.

Sóstenes já presidiu a Frente Parlamentar Evangélica. Formou-se em teologia. É pastor evangélico. É de uma Assembleia de Deus. É amigo de Silas Malafaia. Foi contra o isolamento sanitário na Covid-19. Defende a "vida" (é contra a interrupção voluntária da gravidez) e armas, família e bons costumes, apesar de ter esse costume de guardar dinheiro no saco dentro do armário. É um bolsonarista ferrabrás.

Pode ser que o caso de Sóstenes ainda não tenha causado escândalo maior por causa do congestionamento de podres, mumunhas e salseiros na direita extrema. Há, por exemplo, o barraco que envolve Flávio Bolsonaro com Michelle Bolsonaro, dita "Firmo" pelos inimigos íntimos. A madrasta dos filhos de Bolsonaro diz temer a revelação de mais mutretas do enteado e reposta vídeos que tratam das cafajestadas de políticos, empresários e outros nas bandalhas de Daniel Vorcaro. Está dizendo "não mexam comigo", respondendo a ameaças veladas de bolsonaristas que a detestam.

Há ainda o ajudante de ordens de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos a dizer que "mulher vota mal". Segundo esse sujeito, um Paulo Figueiredo, mulher não "vota errado porque é burra ou inferior, mas sim porque uma ideologia demoníaca, marxista, está destruindo a cabeça delas: o feminismo", como disse a Monica Bergamo, nesta Folha.

O excesso de vexames pode ser uma explicação circunstancial para a tolerância com bandalheiras bolsonaristas. O fato maior é que Flávio Bolsonaro tem enorme ficha corrida, processos ensacados no armário, amizade fraterna com Vorcaro e relações históricas com milicianos. Bolsonaristas estavam no comando do poder político estadual do Rio de Janeiro até o início deste ano, mandando em governo e Assembleia Legislativa (Alerj) infiltrados pelo crime, pela corrupção policial, por facções como o Comando Vermelho, que talvez domine ou dominasse a Alerj. Não tem causado escândalo terminal que essa turma tenha um projeto de comandar o governo da República. Sóstenes inclusive. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br

Jogar adolescentes nas prisões de adultos só servirá para ajudar o crime organizado a recrutar mão de obra ainda mais jovem e mais barata, mas eles não ligam a mínima

 

Por Eugênio Bucci

Pior do que legislar pelo medo, pelo ódio, pelo ressentimento e pela ignorância é legislar pela exploração intencional do medo, do ódio, do ressentimento e da ignorância. Os parlamentares que insistem na tentativa de baixar a maioridade penal de 18 para 16 anos (ou menos ainda) fazem exatamente isso. Eles se aproveitam do sentimento de desproteção que assombra a gente brasileira e prometem fazer leis para conter a criminalidade. Só querem, porém, é ganhar dividendos nas urnas, isso em pleno ano eleitoral. Deliberadamente, premeditadamente, desinformam a sociedade e deformam a opinião pública. Eles sabem o que fazem.

(O que eles não sabem é que, com sua pregação apelativa, desacreditam não só os adversários, mas toda a cultura política. Dissolvendo a credibilidade dos outros, dissolvem a deles mesmos. Eles não sabem que ficarão gritando sozinhos, sem ninguém para ouvi-los. Acham que vão ter tempo de se divertir sobre os escombros das instituições. Mas, calma. Só tratarei do que eles não sabem ao final deste artigo. Antes, vou me dedicar a esmiuçar o que eles sabem, mesmo quando simulam não saber. Sigamos.)

Eles têm consciência da fraude que vai embutida em sua oratória. De saída, sabem que a redução da maioridade penal viola o limite da constitucionalidade. Juristas, à esquerda e à direita, alertam para o óbvio, mas eles não tomam conhecimento. Até os que veem pertinência na redução da maioridade penal afirmam que não dá para atropelar a Lei Maior dessa maneira. Entre outros, Ives Gandra Martins, ouvido pelo repórter André Fleury Moraes, da Folha de S. Paulo, advertiu: “O jovem tem o direito de não ser apenado antes dos 18 anos. Isso está na Constituição. Se isso foi assegurado como direito individual, torna-se evidente que a essa altura esta já é uma cláusula pétrea.” O dr. Ives Gandra admite que a tese é “lógica” e “razoável”, mas não aceita a correria intempestiva: “Entendo que hoje não cabe”.

Este jornal também tentou alertar. “Uma matéria tão complexa não pode ser contaminada pela exploração eleitoreira”, ponderou o editorial (Debate sério na hora errada, 13/6, A3). Em vão. Os fomentadores do sensacionalismo parlamentar não ouvem. Eles já estão informados de que a hora é inadequada e têm perfeita noção de que a ideia poderá gerar efeitos catastróficos. Sabem que, na quadra em que se encontra o tema da segurança no Brasil, o projeto, além de não reduzir a incidência de crimes hediondos, vai criar condições para piorar o que já é muito ruim. Jogar adolescentes nas prisões de adultos só servirá para ajudar o crime organizado a recrutar mão de obra ainda mais jovem e mais barata, mas eles não ligam a mínima. Jurando combater o crime, prestarão um favor inestimável para o crime.

Eles também sabem que uma pessoa de menos de 18 anos, quando comete um delito, não fica impune, pois está sujeita à restrição de liberdade nas formas da lei. Mesmo assim, alardeiam que vão acabar com a impunidade – impunidade que sabem não existir. E seguem em frente. Cientes de que quase ninguém tem acesso a estudos atualizados sobre os mecanismos que favorecem o crescimento dos homicídios, saem pelas tribunas falando absurdos sobre absurdos, certos de que não serão contestados.

E não são, ou quase não são. Eles sabem que a redução da maioridade no Brasil, se aprovada no embalo da raiva e do oportunismo, vai se traduzir na elevação da desumanidade, da indiferença, da insensibilidade, do egoísmo, da crueldade e da desigualdade perante a lei. Vai ser uma tragédia. Mais uma.

Os parlamentares sensacionalistas estão atropelando a Constituição, a razoabilidade, a compaixão, a inteligência e a verdade dos fatos. Transformaram a ignorância em seu cabo eleitoral. Mentem com fervor, banalizam a mentira e assim vêm convencendo os cidadãos desenganados, que não têm mais a quem recorrer. Uma pesquisa Ipsos-Ipec, publicada no ano passado, mostrou que 65% dos brasileiros apoiavam a redução da maioridade penal. Outro levantamento (Real Time Big Data), divulgado em maio, revela que o índice subiu para 90%. Esses parlamentares sabem o que fazem, e fazem com inegável sucesso.

(Agora, o contrapé, no contrafluxo. Eles se imaginam os campeões da esperteza e se deleitam em tapear o mundo inteiro todo o tempo. Há coisas entre o céu e a Terra, no entanto, das quais nem desconfiam. No afã de acender suas falsidades, põem fogo na madeira do palanque em que estão encarapitados. Eles se declaram religiosos, policiais, empresários, militares e até “influencers”, mas nunca políticos – isso, não. Incineram a credibilidade do poder público sem saber que queimam junto a autoridade dos postos que ocupam ou que planejam ocupar. Eles afrontam os direitos dos outros sem perceber que, no mesmo golpe, destroem a legitimidade do Estado no qual pretendem se empoleirar. Expoentes do cinismo sádico, desmantelam os laços sociais enquanto fazem pose – intragável – de sabidos.)

Eles fingem que não sabem o que sabem, mas sabem muito bem (e não sabem o que fingem, muito mal, que sabem). Serão perdoados? Vai saber.

 

Opinião por Eugênio Bucci

Jornalista e professor da ECA-USP, Eugênio Bucci escreve quinzenalmente na seção Espaço Aberto.  Fonte: https://www.estadao.com.br

Reações de próceres da política às investigações do caso Master sugerem que a honestidade não tem mais papel moderador na vida pública e não é tratada como valor nem nas aparências

 

É espantosa a forma como próceres da política vêm reagindo às investigações da Polícia Federal (PF) que os implicam no caso Master. Reina a absoluta falta de compunção. É como se em Brasília a honestidade tivesse deixado de ser um valor a ser cultivado até no campo das aparências.

Para começar, o relatório da PF tornado público há poucos dias por decisão do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal, expôs com ainda mais riqueza de detalhes uma relação entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que, se confirmada em todos os seus contornos, materializa a venda de um mandato parlamentar. Nada menos. Segundo os investigadores, Vorcaro bancou uma frenética vida de luxos ao redor do mundo para Ciro num “mutualismo ilícito” que misturou a defesa dos interesses privados do banqueiro e o exercício do múnus público. Ciro segue impassível diante desses achados.

Por sua vez, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), declarou não ver problema algum, ora vejam, em ter sua hospedagem de luxo na capital portuguesa custeada por Vorcaro quando de sua participação no Fórum Jurídico de Lisboa, organizado pelo decano do Supremo, ministro Gilmar Mendes. Em que lugar decente do mundo uma imoralidade dessas pode ser tratada como aceitável? Em troca de que o presidente de uma casa legislativa aceita favores de um empresário – principalmente de alguém como Vorcaro – e trata isso como se fosse prática trivial? É esse o grau de desorientação da bússola moral na Praça dos Três Poderes?

Recorde-se, ainda, que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, foi outro que tratou como reles negociação privada, no fim do ano passado, a cobrança de milhões de dólares feita por ele a Vorcaro – à época já tido e havido como o responsável pelo maior crime financeiro da história do País – para, supostamente, financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Nesse inventário de descalabros, não se pode deixar de mencionar o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), alcançado por nova fase da Operação Compliance Zero em razão de seu suposto envolvimento com o caso Master. Wagner é investigado por ter sido agraciado com um apartamento avaliado em R$ 2,5 milhões em Salvador em troca de contrapartidas legislativas de interesse do banco. Sua explicação para o negócio é um insulto à inteligência alheia. Wagner afirmou que pediu a um amigo, o investidor Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, que comprasse o imóvel em seu lugar enquanto ele providenciava recursos para recomprá-lo, inclusive com a venda do apartamento de sua filha.

É o caso de relembrar que a política republicana sustenta-se sobre um primado elementar: um mandatário tem o dever de impedir que interesses privados conspurquem sua independência. E isso não se limita ao cumprimento da lei, de resto uma obviedade. Há certas condutas que até podem escapar aos limites estritos dos textos legais, mas, ainda assim, são rigorosamente incompatíveis com a dignidade do mandato eletivo.

Desde Cícero, o trato da res publica pressupõe que aqueles investidos de poder público o exerçam em benefício da coletividade. Mas nem é preciso voltar tanto. Montesquieu e os federalistas americanos conceberam robustos sistemas de freios e contrapesos, vigentes no mundo civilizado até hoje, porque compreenderam que o poder, quando dissociado da virtude, corrompe. Aqui, a Constituição de 1988 não fez diferente ao estabelecer como princípios da administração pública a probidade, a moralidade e a impessoalidade.

Em tese, hospedar-se à custa de um investigado pode não ser crime, mas é moralmente inaceitável para quem exerce cargo público. Receber emendas legislativas prontas das mãos de um banqueiro pode, também em tese, não configurar corrupção na acepção estrita do Código Penal, mas desfigura a essência do mandato parlamentar. Ainda em tese, Vorcaro pode ser só um mecenas, fã da história pessoal de Bolsonaro. Ou, ainda, um generoso corretor imobiliário. Mas a distinção entre ilegal e imoral, aqui, não é sutil, é a base sobre a qual repousa a confiança nas instituições deste país. O que se vê, porém, é que essa distinção foi varrida da prática política cotidiana com uma orgulhosa sem-vergonhice. Fonte: https://www.estadao.com.br

Ninguém pode se dizer surpreendido com as mentiras em série do senador, cuja folha corrida inclui rachadinha e ligação com milicianos. O caso Master não torna Flávio pior do que ele já era

 

Desde que estourou o escândalo envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, os integrantes da equipe de campanha do filho de Jair Bolsonaro saíram por aí a dizer que foram surpreendidos com a revelação de que o candidato a presidente tinha relações fraternas (e transacionais) com o protagonista do maior crime financeiro da história brasileira. Alguns admitem que o baque pode até fazer o campo bolsonarista escolher outro candidato.

Ora, francamente: esse escândalo não muda uma vírgula da biografia de Flávio, na qual já figuram com destaque suas relações com milicianos, a prática de rachadinha em seu gabinete e estranhos negócios imobiliários em dinheiro vivo. Trata-se, portanto, de um candidato com longa ficha corrida, que nunca foi segredo para ninguém. O caso do Banco Master não torna Flávio pior do que ele já era.

Tampouco muda alguma coisa o fato de que Flávio Bolsonaro mentiu seguidamente – para seus aliados, para sua equipe de campanha e para a imprensa – a respeito de suas relações com Vorcaro. A mendacidade é a própria natureza do clã Bolsonaro, que construiu sua trajetória política em cima de desinformação, logro e desfaçatez. O filme sobre Bolsonaro, a julgar pelo trailer divulgado por Flávio, é em si mesmo um retrato fiel dessa doença congênita: inventa um Bolsonaro que só existe nos delírios da família. Como vivemos tempos estranhos, em que mentirosos patológicos ganham destaque no degradante mercado da atenção em que se transformou a política, chega a ser engraçado que alguém se queixe por ter sido enganado por Flávio Bolsonaro.

Mas é preciso reconhecer que Flávio sempre foi absolutamente honesto a respeito do espírito de sua candidatura à Presidência: ele nunca escondeu que seu único objetivo, ao chegar ao poder, é livrar o pai da cadeia. Governar o Brasil não está nos seus planos, como não estava nos planos do patriarca – que terceirizou a administração do governo por sua absoluta inaptidão ao trabalho e que vivia a lamentar o fardo de estar na Presidência.

Ainda assim, alguns aliados de Flávio Bolsonaro dizem por aí que acreditam na sobrevivência da candidatura do senador e mantêm sua disposição em apoiá-lo. O fator determinante nesse cálculo é que Flávio, a despeito de tudo, continua a aparecer nas pesquisas como o único capaz de fazer frente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Portanto, segundo esse raciocínio, pouco importa se Flávio envolveu-se com o protagonista do maior escândalo financeiro da história brasileira, se tem ligação com milicianos, se tomou dinheiro de funcionários de seu gabinete e se fez negócios obscuros em dinheiro vivo. Também não interessa se o tal filme feito com dinheiro de Daniel Vorcaro é tão ruim que não se pode condenar quem o considere apenas um meio de lavar dinheiro, fazer caixa de campanha e sustentar o irmão de Flávio, o deputado cassado Eduardo, na sua dolce vita nos EUA. O que interessa é impedir um novo mandato de Lula, retratado pelos bolsonaristas como o diabo em pessoa.

O Brasil não pode mais ficar à mercê dos interesses particulares de uma única família, ainda mais quando esses interesses colidem frontalmente com a decência e as leis. Determinada pelo “dedazo” de Jair Bolsonaro, a candidatura de Flávio sabotou a construção de uma chapa de oposição democrática à reeleição de Lula. E é improvável que os Bolsonaros recuem, já que seu objetivo é impedir que a direita se organize em torno de nomes de fora da família. A lealdade, como ocorre na máfia, é a laços de sangue, não a valores morais e princípios republicanos ou mesmo a um projeto de país.

Bolsonaro e sua grei não geraram nada de bom para o País, só ressentimentos e destruição de consensos mínimos entre concidadãos. De quebra, conseguiram a proeza de devolver o poder a Lula, malgrado a extensa folha corrida do petista. Só por isso mereceriam do País o mais absoluto desprezo. Fonte: https://www.estadao.com.br

O caso da relação de Flávio com Vorcaro expõe a baixa estatura moral do pré-candidato e torna ainda mais urgente que a direita democrática se mobilize para se libertar do bolsonarismo

 

Por Notas & Informações

O primeiro teste de estresse da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência terminou mal. A revelação de que o primogênito de Jair Bolsonaro cobrou do banqueiro Daniel Vorcaro dinheiro para alegadamente bancar um filme sobre a trajetória do pai fez mais do que expor o despreparo político do indigitado: escancarou a sua baixa estatura moral, deficiência que o torna absolutamente indigno de ser presidente da República.

Esse episódio torna ainda mais urgente que a direita democrática se empenhe em construir uma alternativa conservadora séria, comprometida com a Constituição e com padrões mínimos de decência, para disputar a Presidência e impedir que o petista Luiz Inácio Lula da Silva ganhe mais quatro anos para arruinar o País. Para isso, a direita não pode seguir a reboque de um desqualificado como Jair Bolsonaro e de seu clã, cuja trajetória política é marcada desde sempre por sua vocação antidemocrática, por sucessivos escândalos, pela confusão deliberada entre público e privado e pela imoralidade.

Graças às conversas reveladas pelo site Intercept Brasil, confirmadas pelo Estadão, essa depravação fica ainda mais explícita. Nelas, constata-se o grau de proximidade entre um senador da República, hoje com a pretensão de governar o Brasil, e um banqueiro que já naquela época era suspeito de ser o protagonista do maior crime já cometido contra o sistema financeiro nacional.

De acordo com os documentos da Polícia Federal (PF) publicados pelo site, Flávio Bolsonaro negociou diretamente com Vorcaro uma quantia equivalente a US$ 24 milhões para a produção de Dark Horse, a tal cinebiografia do ex-presidente, dos quais US$ 10 milhões já teriam sido pagos ao longo de 2025.

Primeiro, Flávio tentou negar. Questionado por jornalistas, disse que se tratava de “mentira”. Depois, quando as provas vieram à luz, o senador teve de reconhecer que pediu mesmo o dinheiro, mas enfatizou que se tratava de uma relação “privada”, sem envolver recursos públicos.

Ora, pouco importa se o dinheiro era privado ou público. O busílis é a origem dos recursos. A fortuna do sr. Vorcaro não advém do seu sucesso empresarial em atividades legais. Segundo a PF, o banqueiro construiu patrimônio por meio de fraudes bancárias, algumas das quais envolvendo fundos de previdência de servidores públicos em diversos Estados e municípios, além do Banco de Brasília (BRB). Em paralelo, Vorcaro construiu uma rede de influência nos Três Poderes, ao que parece a peso de ouro. Tudo isso já era sabido na época da conversa entre os dois.

O problema central aqui, portanto, é outro. Flávio Bolsonaro não pode ser tratado como um cidadão qualquer pedindo ajuda a um financiador qualquer. Era um senador com pretensões presidenciais esperando receber milhões de dólares de um notório escroque, cuja prisão aconteceria no dia seguinte à tal conversa.

Ademais, constrange o tratamento fraterno que Flávio Bolsonaro dispensa a Vorcaro. “Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente”, disse o senador. A frase não deixa margem para dúvidas sobre a relação de proximidade, confiança e eventual “gratidão política”, chamemos assim, envolvidas naquela negociação.

Para piorar, a mambembe explicação do entorno bolsonarista só aprofundou as suspeitas sobre as reais intenções de Flávio Bolsonaro. O produtor do filme, o deputado Mário Frias (PL-SP), afirmou textualmente que “não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse”. Ora, se não havia dinheiro do banqueiro na produção, para onde iria a dinheirama cobrada pelo senador?

Não cabe a este jornal antecipar julgamentos. Mas tampouco se pode condenar quem acredite que a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro envolva suspeitas de lavagem de dinheiro, formação de caixa dois ou enriquecimento ilícito. Um pré-candidato à Presidência envolvido em transações desse jaez tem o dever de dar explicações convincentes ao País, o que Flávio Bolsonaro ainda não fez. Por ora, preferiu mentir, atacar a imprensa e zombar da inteligência alheia. Fonte: https://www.estadao.com.br