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O barro podre da política fluminense
Nova operação da PF confirma que hoje, no Rio, é impossível dissociar crime organizado de política – e é perturbador imaginar que essa relação possa almejar o poder federal
É lamentável, mas, à luz dos fatos, é impossível dissociar a política do Rio de Janeiro do crime organizado. A 5.ª fase da Operação Unha e Carne, deflagrada na quinta-feira passada pela Polícia Federal (PF), pode ser recebida com alívio por quem ainda espera do Estado alguma reação à audácia de traficantes de drogas, milicianos e bicheiros. No entanto, é difícil separar esse alívio de um desalento mais profundo. De mandado judicial em mandado judicial, vê-se que a política fluminense não é apenas tisnada por ligações circunstanciais com criminosos – em boa medida, está a serviço deles.
As prisões do pastor Márcio Poncio, pai da deputada estadual Sarah Poncio (Solidariedade), do capo do jogo do bicho Adilson Oliveira Coutinho Filho, vulgo Adilsinho, e do ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) Rodrigo Bacellar (União Brasil) guardam relação com outra operação que apurou vazamentos de ações policiais contra o Comando Vermelho (CV) e hoje atingem nomes que figurariam numa suposta folha de pagamento do jogo do bicho. Em conjunto com essas prisões, seguem em curso investigações sobre a atuação do CV, das milícias e das máfias dos combustíveis e do cigarro que também têm ramificações na política fluminense. Não há mais como tratá-las como exceção.
Lembremos que o sr. Bacellar, que já estava preso sob suspeita de servir aos interesses do CV, só não governou o Rio de Janeiro por um triz. Numa manobra engenhosa, Thiago Pampolha, então vice do ex-governador Cláudio Castro (PL), foi indicado conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, abrindo caminho para que Bacellar assumisse a presidência da Alerj e, assim, entrasse na linha sucessória do Palácio Guanabara. Castro renunciaria para disputar o Senado, e Bacellar concorreria ao governo em outubro, já na cadeira. Isso só não aconteceu porque a PF foi a chata da festa.
Todo esse ecossistema tem um DNA político-ideológico. É forçoso lembrar que Bacellar, Castro e boa parte dos nomes que aparecem nessas operações policiais pertencem ao grupo político do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência. Isso precisa ser levado em conta porque Flávio se apresenta para governar o Brasil. Mesmo a mais remota hipótese de que o crime organizado possa ver na eventual eleição de Flávio uma oportunidade de alcançar também o poder federal é perturbadora. Por isso, o pré-candidato precisa ser cobrado a se posicionar com clareza a esse respeito.
Ademais, ressalte-se que a Operação Unha e Carne, ao aprofundar o cerco sobre aliados políticos dos Bolsonaros no Rio de Janeiro, desmonta o suposto compromisso que a direita, em geral, e o senador, em particular, dizem ter com a pauta da segurança pública.
A direita brasileira, em particular o bolsonarismo, construiu o discurso – donde vem sua força eleitoral – sobre a bandeira da linha dura no combate ao crime organizado. A violência urbana, de fato, é um problema que aparece recorrentemente entre as principais preocupações dos eleitores. Mas esse discurso não vale o papel em que está escrito quando se nota que Flávio Bolsonaro aparece cercado de gente suspeita de envolvimento com as mesmas organizações criminosas que se pretende combater.
A cada nova fase de operações como a Unha e Carne ou Zargun – que prendeu o ex-deputado estadual Thiego dos Santos Silva, vulgo TH Joias, outro acusado de ser membro do CV –, fica mais difícil sustentar a separação entre quem diz enfrentar a criminalidade e quem, na prática, convive com ela sem maiores constrangimentos.
A rigor, a Polícia Federal, por determinação do Supremo Tribunal Federal, tem feito um trabalho que caberia primordialmente à própria política fluminense, em particular os partidos, fazer por si mesma: depurar seus quadros. Mas, enquanto isso não ocorre, cada nova operação policial, como a deflagrada no dia 2 passado, continuará confirmando o óbvio: no Rio de Janeiro, o crime organizado e o poder público não se cruzam por acidente. Fonte: https://www.estadao.com.br
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PF investiga deputado federal Sóstenes Cavalcante, que segue líder dos bolsonaristas
Excesso de barracos na direita talvez abafe o caso do dinheirão vivo sem origem justificada
Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, falando sobre a operação da PF contra ele durante coletiva de imprensa em Brasília - Sérgio Lima - 19.dez.25/AFP
São Paulo
Jaques Wagner (PT-BA) foi saído da liderança do governo no Senado por suspeitas de fazer negócio com gente vorcarenta. Levou uns dias até cair. Talvez pelo odor de santidade, digamos, o pastor Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do seu partido na Câmara, resiste faz meses, desde que a Polícia Federal achou um saco de dinheiro no flat brasiliense desse deputado federal, em dezembro do ano passado.
Sóstenes disse que a dinheirama viria da venda de um imóvel em Ituiutaba (MG). Eram R$ 467,8 mil em notas de cem, juntadas em um saco plástico achado em um guarda-roupa. Não caberia tudo em roupas de baixo, decerto. A polícia e parte do Supremo suspeitam que o dinheiro seria resultado de desvios de verba parlamentar.
A extrema direita, a direita, boa parte da dita e velha opinião pública mais vocal ou o evangelismo político-partidário parecem querer que o caso fique dentro do armário. Sóstenes não causa sensação maior nem depois de a Polícia Federal seguir umas pistas, como etiquetas dos maços de tutu, e chegar a mais amigos do dinheiro vivo, ao que parece parceiros do deputado. É uma turma dona de empresas esquisitas, de gente que costuma sacar milhões em notas de reais. Quem sabe sejam apenas aquelas pessoas excêntricas amalucadas, que desconfiam de bancos e gostam de depósitos no colchão ou no armário. Ou gente em quem a polícia não deve confiar.
Sóstenes já presidiu a Frente Parlamentar Evangélica. Formou-se em teologia. É pastor evangélico. É de uma Assembleia de Deus. É amigo de Silas Malafaia. Foi contra o isolamento sanitário na Covid-19. Defende a "vida" (é contra a interrupção voluntária da gravidez) e armas, família e bons costumes, apesar de ter esse costume de guardar dinheiro no saco dentro do armário. É um bolsonarista ferrabrás.
Pode ser que o caso de Sóstenes ainda não tenha causado escândalo maior por causa do congestionamento de podres, mumunhas e salseiros na direita extrema. Há, por exemplo, o barraco que envolve Flávio Bolsonaro com Michelle Bolsonaro, dita "Firmo" pelos inimigos íntimos. A madrasta dos filhos de Bolsonaro diz temer a revelação de mais mutretas do enteado e reposta vídeos que tratam das cafajestadas de políticos, empresários e outros nas bandalhas de Daniel Vorcaro. Está dizendo "não mexam comigo", respondendo a ameaças veladas de bolsonaristas que a detestam.
Há ainda o ajudante de ordens de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos a dizer que "mulher vota mal". Segundo esse sujeito, um Paulo Figueiredo, mulher não "vota errado porque é burra ou inferior, mas sim porque uma ideologia demoníaca, marxista, está destruindo a cabeça delas: o feminismo", como disse a Monica Bergamo, nesta Folha.
O excesso de vexames pode ser uma explicação circunstancial para a tolerância com bandalheiras bolsonaristas. O fato maior é que Flávio Bolsonaro tem enorme ficha corrida, processos ensacados no armário, amizade fraterna com Vorcaro e relações históricas com milicianos. Bolsonaristas estavam no comando do poder político estadual do Rio de Janeiro até o início deste ano, mandando em governo e Assembleia Legislativa (Alerj) infiltrados pelo crime, pela corrupção policial, por facções como o Comando Vermelho, que talvez domine ou dominasse a Alerj. Não tem causado escândalo terminal que essa turma tenha um projeto de comandar o governo da República. Sóstenes inclusive. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
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Jogar adolescentes nas prisões de adultos só servirá para ajudar o crime organizado a recrutar mão de obra ainda mais jovem e mais barata, mas eles não ligam a mínima
Por Eugênio Bucci
Pior do que legislar pelo medo, pelo ódio, pelo ressentimento e pela ignorância é legislar pela exploração intencional do medo, do ódio, do ressentimento e da ignorância. Os parlamentares que insistem na tentativa de baixar a maioridade penal de 18 para 16 anos (ou menos ainda) fazem exatamente isso. Eles se aproveitam do sentimento de desproteção que assombra a gente brasileira e prometem fazer leis para conter a criminalidade. Só querem, porém, é ganhar dividendos nas urnas, isso em pleno ano eleitoral. Deliberadamente, premeditadamente, desinformam a sociedade e deformam a opinião pública. Eles sabem o que fazem.
(O que eles não sabem é que, com sua pregação apelativa, desacreditam não só os adversários, mas toda a cultura política. Dissolvendo a credibilidade dos outros, dissolvem a deles mesmos. Eles não sabem que ficarão gritando sozinhos, sem ninguém para ouvi-los. Acham que vão ter tempo de se divertir sobre os escombros das instituições. Mas, calma. Só tratarei do que eles não sabem ao final deste artigo. Antes, vou me dedicar a esmiuçar o que eles sabem, mesmo quando simulam não saber. Sigamos.)
Eles têm consciência da fraude que vai embutida em sua oratória. De saída, sabem que a redução da maioridade penal viola o limite da constitucionalidade. Juristas, à esquerda e à direita, alertam para o óbvio, mas eles não tomam conhecimento. Até os que veem pertinência na redução da maioridade penal afirmam que não dá para atropelar a Lei Maior dessa maneira. Entre outros, Ives Gandra Martins, ouvido pelo repórter André Fleury Moraes, da Folha de S. Paulo, advertiu: “O jovem tem o direito de não ser apenado antes dos 18 anos. Isso está na Constituição. Se isso foi assegurado como direito individual, torna-se evidente que a essa altura esta já é uma cláusula pétrea.” O dr. Ives Gandra admite que a tese é “lógica” e “razoável”, mas não aceita a correria intempestiva: “Entendo que hoje não cabe”.
Este jornal também tentou alertar. “Uma matéria tão complexa não pode ser contaminada pela exploração eleitoreira”, ponderou o editorial (Debate sério na hora errada, 13/6, A3). Em vão. Os fomentadores do sensacionalismo parlamentar não ouvem. Eles já estão informados de que a hora é inadequada e têm perfeita noção de que a ideia poderá gerar efeitos catastróficos. Sabem que, na quadra em que se encontra o tema da segurança no Brasil, o projeto, além de não reduzir a incidência de crimes hediondos, vai criar condições para piorar o que já é muito ruim. Jogar adolescentes nas prisões de adultos só servirá para ajudar o crime organizado a recrutar mão de obra ainda mais jovem e mais barata, mas eles não ligam a mínima. Jurando combater o crime, prestarão um favor inestimável para o crime.
Eles também sabem que uma pessoa de menos de 18 anos, quando comete um delito, não fica impune, pois está sujeita à restrição de liberdade nas formas da lei. Mesmo assim, alardeiam que vão acabar com a impunidade – impunidade que sabem não existir. E seguem em frente. Cientes de que quase ninguém tem acesso a estudos atualizados sobre os mecanismos que favorecem o crescimento dos homicídios, saem pelas tribunas falando absurdos sobre absurdos, certos de que não serão contestados.
E não são, ou quase não são. Eles sabem que a redução da maioridade no Brasil, se aprovada no embalo da raiva e do oportunismo, vai se traduzir na elevação da desumanidade, da indiferença, da insensibilidade, do egoísmo, da crueldade e da desigualdade perante a lei. Vai ser uma tragédia. Mais uma.
Os parlamentares sensacionalistas estão atropelando a Constituição, a razoabilidade, a compaixão, a inteligência e a verdade dos fatos. Transformaram a ignorância em seu cabo eleitoral. Mentem com fervor, banalizam a mentira e assim vêm convencendo os cidadãos desenganados, que não têm mais a quem recorrer. Uma pesquisa Ipsos-Ipec, publicada no ano passado, mostrou que 65% dos brasileiros apoiavam a redução da maioridade penal. Outro levantamento (Real Time Big Data), divulgado em maio, revela que o índice subiu para 90%. Esses parlamentares sabem o que fazem, e fazem com inegável sucesso.
(Agora, o contrapé, no contrafluxo. Eles se imaginam os campeões da esperteza e se deleitam em tapear o mundo inteiro todo o tempo. Há coisas entre o céu e a Terra, no entanto, das quais nem desconfiam. No afã de acender suas falsidades, põem fogo na madeira do palanque em que estão encarapitados. Eles se declaram religiosos, policiais, empresários, militares e até “influencers”, mas nunca políticos – isso, não. Incineram a credibilidade do poder público sem saber que queimam junto a autoridade dos postos que ocupam ou que planejam ocupar. Eles afrontam os direitos dos outros sem perceber que, no mesmo golpe, destroem a legitimidade do Estado no qual pretendem se empoleirar. Expoentes do cinismo sádico, desmantelam os laços sociais enquanto fazem pose – intragável – de sabidos.)
Eles fingem que não sabem o que sabem, mas sabem muito bem (e não sabem o que fingem, muito mal, que sabem). Serão perdoados? Vai saber.
Opinião por Eugênio Bucci
Jornalista e professor da ECA-USP, Eugênio Bucci escreve quinzenalmente na seção Espaço Aberto. Fonte: https://www.estadao.com.br
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Reações de próceres da política às investigações do caso Master sugerem que a honestidade não tem mais papel moderador na vida pública e não é tratada como valor nem nas aparências
É espantosa a forma como próceres da política vêm reagindo às investigações da Polícia Federal (PF) que os implicam no caso Master. Reina a absoluta falta de compunção. É como se em Brasília a honestidade tivesse deixado de ser um valor a ser cultivado até no campo das aparências.
Para começar, o relatório da PF tornado público há poucos dias por decisão do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal, expôs com ainda mais riqueza de detalhes uma relação entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que, se confirmada em todos os seus contornos, materializa a venda de um mandato parlamentar. Nada menos. Segundo os investigadores, Vorcaro bancou uma frenética vida de luxos ao redor do mundo para Ciro num “mutualismo ilícito” que misturou a defesa dos interesses privados do banqueiro e o exercício do múnus público. Ciro segue impassível diante desses achados.
Por sua vez, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), declarou não ver problema algum, ora vejam, em ter sua hospedagem de luxo na capital portuguesa custeada por Vorcaro quando de sua participação no Fórum Jurídico de Lisboa, organizado pelo decano do Supremo, ministro Gilmar Mendes. Em que lugar decente do mundo uma imoralidade dessas pode ser tratada como aceitável? Em troca de que o presidente de uma casa legislativa aceita favores de um empresário – principalmente de alguém como Vorcaro – e trata isso como se fosse prática trivial? É esse o grau de desorientação da bússola moral na Praça dos Três Poderes?
Recorde-se, ainda, que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, foi outro que tratou como reles negociação privada, no fim do ano passado, a cobrança de milhões de dólares feita por ele a Vorcaro – à época já tido e havido como o responsável pelo maior crime financeiro da história do País – para, supostamente, financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Nesse inventário de descalabros, não se pode deixar de mencionar o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), alcançado por nova fase da Operação Compliance Zero em razão de seu suposto envolvimento com o caso Master. Wagner é investigado por ter sido agraciado com um apartamento avaliado em R$ 2,5 milhões em Salvador em troca de contrapartidas legislativas de interesse do banco. Sua explicação para o negócio é um insulto à inteligência alheia. Wagner afirmou que pediu a um amigo, o investidor Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, que comprasse o imóvel em seu lugar enquanto ele providenciava recursos para recomprá-lo, inclusive com a venda do apartamento de sua filha.
É o caso de relembrar que a política republicana sustenta-se sobre um primado elementar: um mandatário tem o dever de impedir que interesses privados conspurquem sua independência. E isso não se limita ao cumprimento da lei, de resto uma obviedade. Há certas condutas que até podem escapar aos limites estritos dos textos legais, mas, ainda assim, são rigorosamente incompatíveis com a dignidade do mandato eletivo.
Desde Cícero, o trato da res publica pressupõe que aqueles investidos de poder público o exerçam em benefício da coletividade. Mas nem é preciso voltar tanto. Montesquieu e os federalistas americanos conceberam robustos sistemas de freios e contrapesos, vigentes no mundo civilizado até hoje, porque compreenderam que o poder, quando dissociado da virtude, corrompe. Aqui, a Constituição de 1988 não fez diferente ao estabelecer como princípios da administração pública a probidade, a moralidade e a impessoalidade.
Em tese, hospedar-se à custa de um investigado pode não ser crime, mas é moralmente inaceitável para quem exerce cargo público. Receber emendas legislativas prontas das mãos de um banqueiro pode, também em tese, não configurar corrupção na acepção estrita do Código Penal, mas desfigura a essência do mandato parlamentar. Ainda em tese, Vorcaro pode ser só um mecenas, fã da história pessoal de Bolsonaro. Ou, ainda, um generoso corretor imobiliário. Mas a distinção entre ilegal e imoral, aqui, não é sutil, é a base sobre a qual repousa a confiança nas instituições deste país. O que se vê, porém, é que essa distinção foi varrida da prática política cotidiana com uma orgulhosa sem-vergonhice. Fonte: https://www.estadao.com.br
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Ninguém pode se dizer surpreendido com as mentiras em série do senador, cuja folha corrida inclui rachadinha e ligação com milicianos. O caso Master não torna Flávio pior do que ele já era
Desde que estourou o escândalo envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, os integrantes da equipe de campanha do filho de Jair Bolsonaro saíram por aí a dizer que foram surpreendidos com a revelação de que o candidato a presidente tinha relações fraternas (e transacionais) com o protagonista do maior crime financeiro da história brasileira. Alguns admitem que o baque pode até fazer o campo bolsonarista escolher outro candidato.
Ora, francamente: esse escândalo não muda uma vírgula da biografia de Flávio, na qual já figuram com destaque suas relações com milicianos, a prática de rachadinha em seu gabinete e estranhos negócios imobiliários em dinheiro vivo. Trata-se, portanto, de um candidato com longa ficha corrida, que nunca foi segredo para ninguém. O caso do Banco Master não torna Flávio pior do que ele já era.
Tampouco muda alguma coisa o fato de que Flávio Bolsonaro mentiu seguidamente – para seus aliados, para sua equipe de campanha e para a imprensa – a respeito de suas relações com Vorcaro. A mendacidade é a própria natureza do clã Bolsonaro, que construiu sua trajetória política em cima de desinformação, logro e desfaçatez. O filme sobre Bolsonaro, a julgar pelo trailer divulgado por Flávio, é em si mesmo um retrato fiel dessa doença congênita: inventa um Bolsonaro que só existe nos delírios da família. Como vivemos tempos estranhos, em que mentirosos patológicos ganham destaque no degradante mercado da atenção em que se transformou a política, chega a ser engraçado que alguém se queixe por ter sido enganado por Flávio Bolsonaro.
Mas é preciso reconhecer que Flávio sempre foi absolutamente honesto a respeito do espírito de sua candidatura à Presidência: ele nunca escondeu que seu único objetivo, ao chegar ao poder, é livrar o pai da cadeia. Governar o Brasil não está nos seus planos, como não estava nos planos do patriarca – que terceirizou a administração do governo por sua absoluta inaptidão ao trabalho e que vivia a lamentar o fardo de estar na Presidência.
Ainda assim, alguns aliados de Flávio Bolsonaro dizem por aí que acreditam na sobrevivência da candidatura do senador e mantêm sua disposição em apoiá-lo. O fator determinante nesse cálculo é que Flávio, a despeito de tudo, continua a aparecer nas pesquisas como o único capaz de fazer frente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Portanto, segundo esse raciocínio, pouco importa se Flávio envolveu-se com o protagonista do maior escândalo financeiro da história brasileira, se tem ligação com milicianos, se tomou dinheiro de funcionários de seu gabinete e se fez negócios obscuros em dinheiro vivo. Também não interessa se o tal filme feito com dinheiro de Daniel Vorcaro é tão ruim que não se pode condenar quem o considere apenas um meio de lavar dinheiro, fazer caixa de campanha e sustentar o irmão de Flávio, o deputado cassado Eduardo, na sua dolce vita nos EUA. O que interessa é impedir um novo mandato de Lula, retratado pelos bolsonaristas como o diabo em pessoa.
O Brasil não pode mais ficar à mercê dos interesses particulares de uma única família, ainda mais quando esses interesses colidem frontalmente com a decência e as leis. Determinada pelo “dedazo” de Jair Bolsonaro, a candidatura de Flávio sabotou a construção de uma chapa de oposição democrática à reeleição de Lula. E é improvável que os Bolsonaros recuem, já que seu objetivo é impedir que a direita se organize em torno de nomes de fora da família. A lealdade, como ocorre na máfia, é a laços de sangue, não a valores morais e princípios republicanos ou mesmo a um projeto de país.
Bolsonaro e sua grei não geraram nada de bom para o País, só ressentimentos e destruição de consensos mínimos entre concidadãos. De quebra, conseguiram a proeza de devolver o poder a Lula, malgrado a extensa folha corrida do petista. Só por isso mereceriam do País o mais absoluto desprezo. Fonte: https://www.estadao.com.br
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O caso da relação de Flávio com Vorcaro expõe a baixa estatura moral do pré-candidato e torna ainda mais urgente que a direita democrática se mobilize para se libertar do bolsonarismo
Por Notas & Informações
O primeiro teste de estresse da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência terminou mal. A revelação de que o primogênito de Jair Bolsonaro cobrou do banqueiro Daniel Vorcaro dinheiro para alegadamente bancar um filme sobre a trajetória do pai fez mais do que expor o despreparo político do indigitado: escancarou a sua baixa estatura moral, deficiência que o torna absolutamente indigno de ser presidente da República.
Esse episódio torna ainda mais urgente que a direita democrática se empenhe em construir uma alternativa conservadora séria, comprometida com a Constituição e com padrões mínimos de decência, para disputar a Presidência e impedir que o petista Luiz Inácio Lula da Silva ganhe mais quatro anos para arruinar o País. Para isso, a direita não pode seguir a reboque de um desqualificado como Jair Bolsonaro e de seu clã, cuja trajetória política é marcada desde sempre por sua vocação antidemocrática, por sucessivos escândalos, pela confusão deliberada entre público e privado e pela imoralidade.
Graças às conversas reveladas pelo site Intercept Brasil, confirmadas pelo Estadão, essa depravação fica ainda mais explícita. Nelas, constata-se o grau de proximidade entre um senador da República, hoje com a pretensão de governar o Brasil, e um banqueiro que já naquela época era suspeito de ser o protagonista do maior crime já cometido contra o sistema financeiro nacional.
De acordo com os documentos da Polícia Federal (PF) publicados pelo site, Flávio Bolsonaro negociou diretamente com Vorcaro uma quantia equivalente a US$ 24 milhões para a produção de Dark Horse, a tal cinebiografia do ex-presidente, dos quais US$ 10 milhões já teriam sido pagos ao longo de 2025.
Primeiro, Flávio tentou negar. Questionado por jornalistas, disse que se tratava de “mentira”. Depois, quando as provas vieram à luz, o senador teve de reconhecer que pediu mesmo o dinheiro, mas enfatizou que se tratava de uma relação “privada”, sem envolver recursos públicos.
Ora, pouco importa se o dinheiro era privado ou público. O busílis é a origem dos recursos. A fortuna do sr. Vorcaro não advém do seu sucesso empresarial em atividades legais. Segundo a PF, o banqueiro construiu patrimônio por meio de fraudes bancárias, algumas das quais envolvendo fundos de previdência de servidores públicos em diversos Estados e municípios, além do Banco de Brasília (BRB). Em paralelo, Vorcaro construiu uma rede de influência nos Três Poderes, ao que parece a peso de ouro. Tudo isso já era sabido na época da conversa entre os dois.
O problema central aqui, portanto, é outro. Flávio Bolsonaro não pode ser tratado como um cidadão qualquer pedindo ajuda a um financiador qualquer. Era um senador com pretensões presidenciais esperando receber milhões de dólares de um notório escroque, cuja prisão aconteceria no dia seguinte à tal conversa.
Ademais, constrange o tratamento fraterno que Flávio Bolsonaro dispensa a Vorcaro. “Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente”, disse o senador. A frase não deixa margem para dúvidas sobre a relação de proximidade, confiança e eventual “gratidão política”, chamemos assim, envolvidas naquela negociação.
Para piorar, a mambembe explicação do entorno bolsonarista só aprofundou as suspeitas sobre as reais intenções de Flávio Bolsonaro. O produtor do filme, o deputado Mário Frias (PL-SP), afirmou textualmente que “não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse”. Ora, se não havia dinheiro do banqueiro na produção, para onde iria a dinheirama cobrada pelo senador?
Não cabe a este jornal antecipar julgamentos. Mas tampouco se pode condenar quem acredite que a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro envolva suspeitas de lavagem de dinheiro, formação de caixa dois ou enriquecimento ilícito. Um pré-candidato à Presidência envolvido em transações desse jaez tem o dever de dar explicações convincentes ao País, o que Flávio Bolsonaro ainda não fez. Por ora, preferiu mentir, atacar a imprensa e zombar da inteligência alheia. Fonte: https://www.estadao.com.br
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Henrique Vorcaro foi preso em Belo Horizonte em nova fase da operação Compliance Zero, que investiga o escândalo do Banco Master.

Daniel Vorcaro e o pai, Henrique Vorcaro (Divulgação / Linkedin)
Pai de Daniel Vorcaro, dono do liquidado banco Master, Henrique Vorcaro foi preso na manhã desta quinta-feira (14) em Belo Horizonte em nova fase da operação Compliance Zero, que investiga o escândalo do Banco Master. Henrique foi preso quando embarcava para Brasília, onde iria visitar o filho na carceragem da Superintendência da PF em Brasília.
Segundo informações divulgadas pela Polícia Federal, a 6ª fase da operação Compliance Zero tem “o objetivo de aprofundar as investigações em face de organização criminosa suspeita de praticar condutas de intimidação, de coerção, de obtenção de informações sigilosas e de invasões a dispositivos informático”.
Henrique teria sido preso por causa da relação com o grupo “A Turma”, uma espécie de milícia formada por Daniel Vorcaro para corromper e ameaçar adversários. Uma delegada da Polícia Federal teria sido afastada do cargo e um agente da corporação preso.
“Policiais federais cumprem 7 mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão, expedidos pelo Supremo Tribunal Federal, nos estados de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Também foram determinadas ordens de afastamento de cargos públicos e de sequestro e bloqueio de bens”, diz o texto.
Segundo a PF, estão sendo investigados os crimes de ameaça, de corrupção, de lavagem de dinheiro, de organização criminosa, de invasão de dispositivos informáticos e de violação de sigilo funcional.
A ação é baseada em provas colhidas a partir da prisão de Luiz Phillipi Mourão, conhecido como ‘Sicário’, que morreu na cadeia. Ele era o responsável na milícia A Turma, de Vorcaro, por ameaçar adversários, invadir sistemas de informática de órgãos de investigação e outras ações.
As investigações mostram quem fornecia as informações sigilosas a Sicário, dentre eles a delegada e o agente da própria PF.
Quem é Henrique Vorcaro
Herdeiro de uma família empresarial mineira e figura discreta nos bastidores do mercado financeiro, Henrique Vorcaro passou décadas longe dos holofotes até ver o sobrenome da família explodir no noticiário político-policial com a ascensão — e a derrocada — do filho, o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Patriarca do clã Vorcaro, Henrique é apontado como fundador do Grupo Multipar e peça central da engrenagem empresarial que deu origem aos primeiros negócios da família em Minas Gerais.
Chefe do clã, Henrique transitou entre o mercado imobiliário, empreendimentos privados e círculos evangélicos ligados à Igreja Batista da Lagoinha. A influência religiosa da família remonta ao pai dele, Serafim Vorcaro, imigrante italiano convertido em pastor evangélico. Segundo relatos publicados pela revista Piauí, Henrique teve juventude boêmia antes de ser enquadrado pela disciplina religiosa imposta pelo pai.
Nos bastidores do escândalo do Banco Master, Henrique apareceu como uma espécie de bombeiro da crise familiar. Em janeiro de 2026, a revista Veja revelou que ele dizia a interlocutores querer “colaborar” com as investigações da Polícia Federal sobre os negócios da família, embora rejeitando qualquer ideia de delação.
O movimento foi interpretado como tentativa de salvar o patrimônio e reduzir danos à marca Vorcaro, já associada a investigações sobre fraudes bilionárias, influência política e relações promíscuas com setores do poder em Brasília.
O nome de Henrique também emergiu em reportagens sobre patrimônio de luxo. Em meio ao colapso do Master, vieram à tona informações de que ele tentava negociar uma mansão avaliada em cerca de R$ 180 milhões em Orlando, nos Estados Unidos — símbolo da ostentação que cercava a família enquanto o banco enfrentava suspeitas de insolvência e rombos bilionários.
Além do mercado financeiro, a família Vorcaro construiu conexões profundas com o bolsonarismo e lideranças evangélicas mineiras. O sobrenome ganhou ainda mais peso político após a revelação de diálogos envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro em negociações milionárias para financiar um filme sobre o ex-presidente. Fonte: https://revistaforum.com.br
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Flávio Bolsonaro disse que não responde pelas pessoas com quem tem proximidade
Por coincidência, todas essas pessoas tiveram problemas com a lei envolvendo o seu nome
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras
Rio de Janeiro
Um dos efeitos imediatos da Revolução dos Cravos, que, em 1974, derrubou a ditadura que sepultava Portugal há 48 anos, foi a extinção da Pide (Polícia Internacional de Defesa do Estado), sua odiosa polícia política infiltrada em todo o país. Eu trabalhava em Lisboa na época e, como jornalista estrangeiro, devia estar na mira dos pides, como eram chamados os agentes. Caído o regime, logo começou a caça a eles e a seus informantes.
O novo governo instituiu uma recompensa a quem ajudasse a pegá-los: 100 escudos por cabeça (o escudo era a moeda nacional, ainda não existia o euro). O resultado é que as denúncias pulularam, a ponto de a Justiça ter de adotar uma prática severa: "Se denúncias um pide, ganhas 100 escudos. Se denúncias dois pides, ganhas 200 escudos. Se denúncias três pides, vais preso por conheceres pides demais." Ou seja, as pessoas respondem, sim, por aqueles com quem têm proximidade.
O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência e já prevendo ser associado a bandidos de todo tipo em sua carreira política, declarou "não poder responder por quem tem proximidade com ele". Se os ditos bandidos fossem apenas Fabrício Queiroz, seu ex-chefe de gabinete e do esquema de arrecadação de "rachadinhas", e o executado Adriano Magalhães da Nóbrega, da milícia Escritório do Crime e a quem condecorou na prisão, ele poderia tirar o corpo fora alegando ter sido "traído". Mas os citados eram apenas os cabeças de núcleos envolvendo dezenas de acusados, todos a seu serviço ou a de seu pai, patrono do complô.
Esses núcleos incluem assessores, policiais, advogados, criminosos comuns e suas ex-esposas, mães e filhas, todos processados. O fato de esses processos terem sido anulados por mutretas judiciais não apaga o fato de que Flávio Bolsonaro conhece acusados demais.
Agora vê-se associado a um comensal do mensalão de Daniel Vorcaro: Ciro Nogueira, que ele cogitara como vice em sua chapa. Ciro este que será levado à trempe como todos que, um dia, foram aliados dos Bolsonaros. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
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Primeira mulher de Jair, Rogéria mira o Senado, como Michelle
Num eventual governo, Eduardo e Carlos vão povoar o Palácio do Planalto

Flávio Bolsonaro faz campanha para Carlos Bolsonaro, seu irmão, e Rogéria Bolsonaro, sua mãe, que disputaram vaga na Câmara do Rio de Janeiro em 2020 – Reprodução
Flávio Bolsonaro se prepara para dar um peteleco em Cláudio Castro. Condenado no TSE por abuso de poder político e econômico e tornado inelegível, mas insistindo em concorrer ao Senado, Castro viu despencar sua aprovação como governador do Rio de Janeiro, segundo a Quaest. Passou de 53% em outubro —mês em que ocorreu a matança nos complexos da Penha e do Alemão— para 35%. Entre os entrevistados, 47% rejeitam sua administração.
Abandonar aliados caídos em desgraça é um velho hábito do clã. A solução encontrada para depois de rifar Castro é que surpreende. Ou, pensando bem, não surpreende, é uma escolha esdrúxula, mas óbvia: tirar do ostracismo Rogéria Bolsonaro —ex-mulher de Jair, mãe dos filhos 01, 02 e 03 e feroz opositora da ex-primeira-dama Michelle— e lhe entregar de bandeja a candidatura ao Senado pelo Partido Liberal.
Rogéria tem 65 anos e um currículo sobre o qual não resta dúvida. Nas águas de Bolsonaro, exerceu dois mandatos na Câmara Municipal do Rio, entre 1993 e 2000. Já divorciada, tentou uma terceira eleição, enfurecendo o chefe da família, que lançou Carlos, então com 17 anos, para competir e derrotar a própria mãe. Ainda perdeu outras duas vezes, para vereadora em 2018 e para deputada estadual em 2022.
Na cabeça do filho 01, não basta tirar o pai da cadeia, objetivo principal da corrida ao Planalto. É preciso assegurar que ninguém com o sobrenome Bolsonaro fique desassistido, longe do poder e da dinheirama pública e, desgraçadamente, obrigado a trabalhar de verdade.
Em São Paulo, a candidatura de André do Prado ao Senado está atrelada à indicação de Eduardo Bolsonaro como primeiro suplente. Num eventual governo, o 03 não fará por menos: exige um ministério. Independente do resultado das urnas em Santa Catarina, Carlos Bolsonaro se move para reeditar o gabinete do ódio na Secom ou assumir a Secretaria-Geral da Presidência.
Além dos parentes, é necessário não esquecer os aderentes. Uma mamata, uma boquinha para o Queiroz, coitado.
Jornalista, atuou como repórter e editor. É autor de "Dicionário Amoroso do Rio de Janeiro".
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Há valores que não dependem de ideologia. Há linhas que não podem ser cruzadas. Entre as bravatas de Trump e advertências do papa, estão em jogo os pilares que sustentam a civilização
No auge da escalada contra o Irã, entre insultos e expletivos, o presidente dos Estados Unidos jurou: “Uma civilização inteira morrerá esta noite”. O mundo reagiu como aprendeu a reagir: um sobressalto, alguma descrença e – após o recuo – cansaço. Já se ouviu demais. Mas certas palavras não envelhecem. Sobretudo quando saem da boca de quem pode cumpri-las.
Há guerras inevitáveis. Há adversários que precisam ser combatidos. A teocracia iraniana – totalitária, repressiva, terrorista – não merece indulgência. Não se pode ignorar suas ameaças nucleares. Mas a barbárie deve ser subjugada, não imitada. Quem destrói os limites morais na guerra hoje compromete a paz que se quer amanhã. A Alemanha e o Japão do pós-1945 não foram reerguidos sobre ruínas éticas.
Ao acusar a ameaça de Donald Trump de “inaceitável”, o papa Leão XIV invocou a fronteira moral construída ao longo de séculos para conter o impulso mais satânico das guerras: transformar tudo em alvo. Sua denúncia está escorada por um arsenal doutrinário milenar: a violência pode ser necessária, mas nunca ilimitada; a justiça da causa não justifica qualquer meio; civis não são alvos. A Igreja não proíbe a guerra, proíbe a barbárie.
A represália de Trump diz tanto quanto o episódio original. Ele já havia manipulado uma imagem de si como pontífice. Agora, publicou outra como um Cristo kitsch meio vingador, meio curandeiro. Ante a indignação popular, apagou o post – era para ser um “médico”, disse. À blasfêmia seguiu-se a desonestidade. A linguagem vulgar e a sagrada se mesclam para causar “sensação”, promover idolatria política, justificar a brutalidade. Numa estética que mistura poder, sectarismo e espetáculo, a guerra vira palco; a política, encenação; o mundo inteiro, plateia.
Há quem veja nisso só provocação, um cálculo para dominar o debate, testar limites, impor ritmo. Pode ser. Também pode ser que seus delírios de onipotência já não conheçam limites. Ambas as hipóteses são perturbadoras. Quem foi ferida de morte com a ameaça de aniquilação de uma civilização foi a civilização americana. Quem é desmoralizado com as tentativas de desmoralizar o papa é o governo americano. Os traços psíquicos de Trump – impulsividade, narcisismo, inconsistência – estão sendo institucionalizados. A consequência é a deterioração não só moral, mas cognitiva do Estado – a incapacidade sistêmica de operar com coerência, racionalidade e lucidez.
Sempre que a política se investe de uma missão messiânica, se desumaniza. Leão XIV buscou restaurá-la, não como ator político, mas como voz moral que insiste em lembrar que há coisas que não se dizem – e, sobretudo, não se fazem.
É uma longa história. No Getsêmani, Pedro, o primeiro papa, retaliou com a espada uma ameaça real a um bem real, e foi repreendido pelo mestre que buscava defender – mesmo quando a causa é justa, nem todo meio é permitido. Em Canossa, o poder imperial foi obrigado a se curvar ao poder espiritual. Stalin ironizou: “Quantas divisões tem o papa?”. Décadas depois, João Paulo II pisaria na Polônia com uma mensagem singela: “Não tenham medo”. Não havia divisões ali, só uma força invisível que não se mede em tanques, mas poderosa o bastante para desintegrar impérios, como o soviético.
Quem despreza limites morais costuma subestimar esse tipo de força. Toda a potência da nação americana veio de sua submissão a ela, desde a visão dos pais peregrinos da “Cidade na Colina” como farol moral para o mundo, não por sua superioridade, mas por sua responsabilidade, passando pela consagração da dignidade individual e do império da lei pelos pais fundadores na Declaração de Independência e na Constituição, até o protagonismo na forja da Declaração dos Direitos Humanos e da ordem baseada em regras após as guerras mundiais. Nunca foi uma trajetória imaculada. Houve contradições, abusos, hipocrisia. Ainda assim, havia um projeto moral reconhecível: o poder precisava se justificar.
Foi essa tradição que o papa americano invocou. É essa tradição que o presidente americano está estrangulando. Fonte: https://www.estadao.com.br
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Influenciadores, apresentadores e ex-atletas se filiam a partidos para concorrer ao pleito de outubro
Disputas incluem vagas na Câmara e até a corrida presidencial

Famosos anunciam que vão disputar eleição em 2026 - Reprodução/Instagram
São Paulo
As eleições de outubro já têm parte de seu elenco definida. Influenciadores, apresentadores, ex-jogadores e até um psiquiatra famoso formalizaram filiações partidárias nos últimos meses.
Do BBB saíram três pré-candidatos. Matteus Amaral, vice-campeão da edição de 2024 e natural de Alegrete, no Rio Grande do Sul, se filiou ao PP e pretende concorrer ao cargo de deputado federal. Ele anunciou no Instagram que quer levar a Brasília "a realidade de quem vive do campo".
Também no PP, Gyselle Soares, vice-campeã do BBB 8, é pré-candidata a deputada federal pelo Piauí. Entre as principais pautas, ela destaca a inclusão de pessoas com deficiência, o apoio a famílias atípicas, o combate à violência contra a mulher e a valorização de artistas locais.
Gracyanne Barbosa, que participou da 25ª edição do reality, se filiou ao Republicanos em fevereiro. Com mais de 10 milhões de seguidores no Instagram, a influenciadora fitness disse ter "identificação ideológica" com a legenda. A assessoria da fisiculturista, no entanto, afirma que ela não vai se candidatar neste ano.
Rico Melquiades, vencedor de A Fazenda 13, foi para o PSDB e promete, se eleito deputado federal, defender a ampliação do acesso à cirurgia plástica pelo SUS.
Na televisão, Silvia Abravanel se filiou ao PSD em março e deve disputar uma vaga na Câmara por São Paulo. Apresentadora do Sábado Animado no SBT há mais de 20 anos, ela formalizou a filiação no mesmo evento que o marido, o cantor sertanejo Gustavo Moura.
Em março, a herdeira de Silvio Santos publicou foto ao lado do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), escolhido do partido para a disputa presidencial.
A socialite Val Marchiori, que está em tratamento de câncer de mama desde 2025, anunciou pré-candidatura a deputada federal por São Paulo, pelo Republicanos. "Eu escolhi não parar na dor. Escolhi fazer dela um propósito", escreveu no Instagram.
Antonia Fontenelle se filiou ao PSDB em abril, após tentativa frustrada como deputada federal em 2022 pelo Republicanos, e deve entrar na disputar pelo mesmo cargo neste ano.
Manoel Gomes, conhecido pelo hit "Caneta Azul", se filiou ao Avante e mira uma vaga de deputado federal por São Paulo. "Vocês me conheceram pela música, mas agora essa caneta não escreve só canções, ela também vai trabalhar pelo povo", publicou no Instagram.
Em 2022, ele havia se candidatado a deputado estadual pelo Maranhão, filiado ao PL.
No futebol, o ex-jogador Luís Fabiano assinou com o MDB, em cerimônia com o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, e o presidente da legenda, Baleia Rossi. Já o atacante Edmundo, agora no PSDB do Rio de Janeiro, declarou querer "representar o Vasco" na política.
Em 5 de abril, o psiquiatra e escritor Augusto Cury, autor do best-seller "O Vendedor de Sonhos", anunciou filiação ao Avante e pré-candidatura à Presidência da República. Ele afirma ter conversado com dirigentes do PSD, PSDB, Republicanos e MDB antes de definir a legenda. Fonte: https://f5.folha.uol.com.br
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Carta foi divulgada após semanas de tensão entre o pontífice e o presidente dos Estados Unidos
Líder religioso afirma que legitimidade da autoridade depende de sabedoria e virtude, não de força
Papa Leão 14 conversa com jornalistas no Vaticano - Guglielmo Mangiapane - 7.abr.26/Reuters
Annaba (Argélia) | Reuters
Em meio ao bate-boca público com Donald Trump, o papa Leão 14 divulgou nesta terça-feira (14) uma carta em que alerta para o risco de as d se transformarem em "uma tirania da maioria" ou em "uma máscara para o domínio de elites econômicas".
O texto foi enviado a participantes de um encontro no Vaticano sobre o uso do poder em sociedades democráticas. Sem citar os Estados Unidos diretamente, o papa afirmou que as democracias só permanecem saudáveis quando ancoradas em valores morais.
"Sem esse fundamento, [a democracia] corre o risco de se tornar ou uma tirania da maioria ou uma máscara para o domínio de elites econômicas e tecnológicas", disse o líder religioso na carta.
O texto foi divulgado após semanas de crescente tensão entre o papa e Trump, que culminou com um bate-boca à distância. Após ser chamado, na noite de domingo (12), de "terrível" e "fraco" pelo presidente dos Estados Unidos, o pontífice respondeu na segunda (13). "Não tenho medo da administração Trump. Vou continuar a falar em voz alta da mensagem do Evangelho", disse.
A declaração de Leão 14 foi dada a jornalistas durante o voo de Roma para Argel, capital da Argélia, primeira etapa da sua viagem de dez dias pelo continente africano. E foi o mais explícito confronto entre os dois desde que Robert Prevost foi eleito papa, em maio do ano passado, o primeiro americano da história a liderar a Igreja Católica.
Na carta desta terça-feira, o papa afirmou que a Igreja ensina que o poder não pode ser visto como um fim em si mesmo, "mas como um meio orientado para o bem comum".
"Isso implica que a legitimidade da autoridade não depende do acúmulo de força econômica ou tecnológica, mas da sabedoria e da virtude com que é exercida", disse Leão.
O pontífice também instou os líderes em sociedades democráticas a evitarem qualquer tentação de concentrar poder.
"A temperança [...] mostra-se essencial para o uso legítimo da autoridade, pois a verdadeira temperança contém a autoexaltação desordenada e atua como uma barreira contra o abuso de poder", afirmou. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
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As lições, ou reflexões, que a derrota de Orbán na Hungria traz para o Brasil
Viktor Orbán foi derrotado nas eleições na Hungria Foto: Attila Kisbenedek / AFP
A surpreendente derrota de um dos principais líderes da extrema direita, Viktor Orbán, da Hungria, traz ao menos quatro reflexões, ou lições, para um Brasil polarizado e em ano eleitoral. A Hungria é a Hungria, o Brasil é o Brasil, mas as guerras políticas assolam o mundo inteiro e os extremos avançam, ainda mais com internet e redes sociais.
Orbán “reinou” na Hungria por 16 longuíssimos anos e tornou-se um polo de atração e inspiração da extrema direita, aliando-se a Trump, de um lado, e Putin, de outro, inclusive para fóruns de caráter religioso que, por exemplo, animam Trump a atacar o Papa Leão XIV como “fraco”. Por que? Porque não é arrogante, autoritário e histriônico como ele próprio.
A primeira lição que a Hungria nos dá é que a extrema direita não é imbatível nem eterna. Um dia, a casa cai, sob o peso dos excessos e do autoritarismo tosco que gera indignação e manifestações por mudanças, liberdade, democracia. Não adianta Trump enviar seus principais assessores para interferir. Ele enviou J.D Vance a favor de Orbán, e daí?
A segunda é o que já vivenciamos, ao deixar os 20 anos de ditadura militar para trás: derrubar regimes autoritários não é tarefa para um bloco só, é uma construção da esquerda, do centro e da direita mais civilizada, ou insatisfeita, em geral dissidentes do regime – como Péter Magyar, vitorioso na Hungria. A união faz a força.
A terceira, mais modesta, mas eficaz, é que, enquanto Orbán gastou a campanha tentando doutrinar os húngaros com ideologia, geopolítica, Trump e guerras, o vitorioso Magyar falou aos eleitores sobre o que realmente lhes interessa: educação, saúde, salários, combate à corrupção e, somando tudo, liberdade. Se vai cumprir e se vai dar certo, são outros 500.
E, enfim, a quarta lição: eleição não se ganha de véspera e nunca se pode descartar um “outsider” (ou aventureiro, em bom português) nesses momentos de desencanto com a política, desconfiança nas instituições e indignação generalizada.
Magyar, advogado de 45 anos, deslumbrou-se com as ideias de Orbán desde criancinha, filiou-se ao partido dele na juventude e ocupou posições estratégicos no regime. Sua ex-mulher e atual inimiga, a também advogada Judit Varga, foi ministra da Justiça de Orbán.
De fiel aliado, Magyar se transformou em ferrenho opositor e, assim, criou seu próprio partido, canalizou a insatisfação popular para as urnas e, em dois anos, deu a cambalhota que derrubou Orbán para iniciar uma nova era na Hungria. Qual? Não se sabe. Aliás, esse é o “X do problema” de “ousiders” e aventureiros, não é, Wilson Witzel e Ibaneis Rocha? Fonte: https://www.estadao.com.br
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Em longa publicação, republicano diz que primeiro pontífice americano só chegou ao cargo graças a ele
Leão vem criticando guerras e aqueles que as iniciam; relações entre Vaticano e Washington passam por tensão
O papa Leão 14 acena para fiéis na Praça de São Pedro, no Vaticano, em Roma - Simone Risoluti - 5.abr.26/Reuters
São Paulo
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou um longo texto na sua rede social atacando o papa Leão 14, o primeiro pontífice americano da história da Igreja Católica. Na publicação, Trump diz que Leão é "frouxo com a criminalidade e terrível para a política externa".
"Não quero um papa que acha que tudo bem o Irã ter uma arma nuclear", escreveu o presidente dos EUA, em aparente referência às críticas constantes de Leão à guerra no Oriente Médio —o pontífice chegou a dizer que Deus não escuta as preces daqueles que fazem a guerra.
"Não quero um papa que acha ruim que os EUA atacaram a Venezuela (...) e não quero um papa que critica o presidente dos Estados Unidos porque estou fazendo o que fui eleito, DE LAVADA, para fazer", prosseguiu Trump.
O republicano disse ainda que Leão, eleito em maio de 2025, só foi escolhido pelo Colégio Cardinalício graças a ele, Trump. "Ele deveria ser grato, porque, como todo mundo sabe, ele foi uma surpresa. Não estava em nenhuma lista, e só colocaram ele lá porque era americano e a Igreja achou que seria a melhor maneria de lidar com o Presidente Donald J. Trump", escreveu, se referindo a si mesmo na terceira pessoa.
"Leão deveria se ajustar, usar o senso comum, parar de tentar agradar a esquerda radical e se concentrar em ser um grande papa, e não um político", concluiu o presidente americano.
As relações entre a Santa Sé e Washington passam por um momento de tensão. Após as repetidas críticas de Leão 14 às guerras dos EUA, a imprensa americana relatou que o núncio apostólico aos EUA, equivalente a um embaixador, teria sido convocado ao Pentágono pelo governo Trump.
Lá, o cardeal Cristophe Pierre teria sido ameaçado pelos militares americanos, que teriam insinuado que poderiam usar força militar contra o Vaticano se Leão não interrompesse suas críticas. Especificamente, os membros do governo Trump teriam relembrado ao núncio apostólico a história do papado de Avignon —quando a Coroa francesa prendeu um pontífice e pressionou a Igreja a mudar a sede do papado para a França. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
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Duas deputadas já estão no radar do PL, uma católica e outra evangélica, Simone Marquetto (SP) e Clarissa Tércio (PE), e até final do semestre outros nomes podem ser apresentados ao pré-candidato

Flávio Bolsonaro com a deputada Simone Marquetto (PP-SP) e Jair Bolsonaro com a deputada Clarissa Tércio (PP-PE) Foto: Montagem/ divulgação PP/reprodução redes sociais
Por Roseann Kennedy
De olho no eleitorado conservador e na necessidade de reduzir a rejeição em nichos específicos, o pré-candidato do PL à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro, iniciou a busca por uma vice em sua chapa. A estratégia central, por ora, foca em duas mulheres com forte apelo religioso e regional, mas em estágios diferentes de aproximação: a deputada federal Simone Marquetto (MDB-SP) e a deputada federal Clarissa Tércio (PP-PE).
A escolha envolve uma equação de geografia, fé e influência eleitoral. Marquetto significa uma busca por consolidar o voto católico e assegurar o domínio no maior colégio eleitoral do País, São Paulo. Já Tércio é uma aposta para romper a resistência de Flávio no Nordeste, utilizando sua forte penetração no segmento evangélico.
Até a definição, que pode ocorrer até o final deste semestre, outros nomes podem ser apresentados ao pré-candidato. A certeza é que, mais uma vez, em 2026 a religião será usada na disputa eleitoral.
A decisão de Flávio passará obrigatoriamente pelos números. Dados recentes mostram que o filho zero um do ex-presidente Jair Bolsonaro tem a preferência absoluta entre os evangélicos, mas a disputa pelo voto católico — maior grupo religioso do Brasil — dá vantagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo levantamento AtlasIntel de março, Flávio Bolsonaro lidera com 65,4%% entre evangélicos; Lula alcança 54,2% entre católicos.
A avaliação do governo Lula também mostra a diferença entre os dois grupos. De acordo com a mais recente pesquisa Genial/Quaest, 61% dos evangélicos desaprovam o governo do petista. Entre os católicos a avaliação fica empatada tecnicamente - 49% aprovam e 47% não.
Os bastidores das negociações para vice de Flávio Bolsonaro
As conversas com Simone Marquetto, defendida pela ala paulista do PP para compor a vice na chapa de Flávio, são as mais maduras. O presidenciável já teve um contato direto com a parlamentar. Eles se reuniram na terça-feira, 7, em São Paulo, no Palácio Tangará, a pedido do próprio Flávio. Marquetto, ex-prefeita de Itapetininga, é vista como um nome moderado que pode suavizar a imagem da chapa sem perder a conexão com os valores da família.
Por outro lado, o diálogo com Clarissa Tércio ainda ocorre por meio de emissários e lideranças partidárias. Tércio é uma figura da ala mais radical do bolsonarismo em Pernambuco, estado onde a influência das igrejas evangélicas tem crescido exponencialmente. A avaliação no PL é que ela poderia ser o antídoto para a baixa performance de Flávio na região Nordeste.
Quem é Simone Marquetto, próxima do Frei Gilson e ex-MDB
Ligada ao Frei Gilson e a outras lideranças religiosas, Simone Marquetto se consolidou como uma das principais representantes da Igreja Católica no Congresso. Nas redes sociais, ela atua como uma espécie de influenciadora religiosa, divulgando sua participação em eventos pelo País ligados à imagem peregrina de Nossa Senhora Aparecida.
A deputada se apresenta como um nome de centro-direita, com atuação voltada à defesa de pautas religiosas. Ela é autora da lei que criou o Dia Nacional do Rosário da Virgem Maria e também da sessão solene em homenagem à visita da imagem peregrina de São Miguel Arcanjo, vinda do Monte Gargano, na Itália, ao Brasil.
Quem é Clarissa Tércio, bolsonarista raiz e filha de pastor
Clarissa Tércio está em seu primeiro mandato de deputada federal e tem 41 anos. Antes de chegar à Câmara, foi deputada estadual pelo PSC. Ela é filha do pastor Francisco Tércio, presidente da Assembleia de Deus Novas de Paz, e casada com o também pastor Júnior Tércio, que foi o deputado estadual mais votado de Pernambuco em 2022.
Ela foi uma das políticas que protestaram na porta de um hospital no Recife, em 2020, onde uma criança de 10 anos realizou um aborto após sofrer estupros recorrentes pelo tio. Ela e outros deputados chegaram a invadir o hospital, o que fez a Polícia Militar ficar na porta para impedir os religiosos.
Clarissa também chegou a ser investigada por participação nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, mas o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o arquivamento do inquérito que investigava a suposta participação da deputada.
Tereza Cristina era a candidata a vice dos sonhos de Valdemar Costa Neto
Como mostrou a Coluna do Estadão, a senadora Tereza Cristina (PP-MS), que era considerada o nome mais forte, foi taxativa ao dizer que não faz parte dos seus planos concorrer a vice em nenhuma chapa do campo da direita. A senadora foi taxativa em entrevista exclusiva: “Não sou candidata a vice-presidente e não cabe nos meus projetos”, afirmou.
Ela era a candidata dos sonhos do presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Como apurou a Coluna, até chegou a brincar com o presidente do partido diante das citações recorrentes do dirigente ao seu nome para ser vice de Flávio. Tereza disse a Valdemar, de quem é amiga de longa data, que, caso um dia ela fosse candidata a presidente da República, escolheria Valdemar para ser vice na chapa. Fonte: https://www.estadao.com.br
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EUA e Irã declaram vitória, mas ninguém venceu. A catástrofe foi adiada, não evitada, e uma negociação ambígua oferece riscos de um EUA desmoralizado e um Irã ainda mais perigoso
O prazo expirava às 21h de terça-feira. Horas antes, o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou destruir a infraestrutura iraniana e aniquilar a própria sociedade do país – uma retórica genocida, tão inaceitável quanto reveladora dos riscos da escalada. Não foi o primeiro ultimato nem o primeiro recuo. Ainda assim, o mundo preparava-se para o pior. Em vez disso, veio um cessar-fogo de duas semanas, a minutos do limite. As armas se calaram, mas a guerra apenas mudou de forma.
Na trincheira das narrativas, ambos declararam vitória. Os fatos são menos conclusivos. Teerã celebra a sobrevivência do regime e a preservação de sua principal alavanca estratégica. Mas sua demonstração de força se assenta sobre bases frágeis: a economia está seriamente abalada, a inflação avança, a infraestrutura está depauperada e o risco de pressão social interna foi renovado. Washington aponta para os danos às capacidades militares iranianas e para a reabertura do Estreito de Ormuz. Mas o estreito opera sob as mesmas forças que o haviam sequestrado, e a abertura não durou nem 24 horas sem que o Irã a condicionasse ao fim das hostilidades de Israel contra o Hezbollah. O programa nuclear segue praticamente intacto. E a negociação parte agora de propostas iranianas que, semanas atrás, seriam descartadas como inaceitáveis.
O recuo, mais do que escolha, foi uma necessidade. Os preços de energia, a instabilidade dos mercados e o risco de uma escalada regional incontrolável pesaram mais do que qualquer ganho previsível. Há um limite para o quanto democracias toleram custos crescentes e para o quanto ameaças extremas podem ser levadas adiante sem efeitos colaterais mais graves que os problemas que pretendem resolver. Ameaças dessa envergadura, quando alardeadas em público, criam uma pressão difícil de administrar: recuar cobra um preço; cumprir, um preço ainda maior.
A estratégia de Trump partiu de um pressuposto que lhe é familiar desde os tempos de incorporador em Manhattan: toda pressão, levada ao extremo, acaba por encontrar um preço – e, logo, uma concessão. O problema é que nem todo adversário opera segundo essa lógica. O Irã não precisava vencer nem ceder. Bastava resistir. A escalada, que deveria funcionar como instrumento de barganha, passou a operar como teste de permanência. Em conflitos desse tipo, não vence quem impõe mais danos imediatos, mas quem suporta por mais tempo suas consequências. Nesse jogo, regimes como o iraniano operam com vantagens que democracias dificilmente replicam, justamente porque toleram custos que, do outro lado, se provam politicamente insuportáveis.
O cessar-fogo reflete essa assimetria. É curto, condicional e carregado de ambiguidades. O ponto central das negociações – Ormuz – ilustra bem a mudança de equilíbrio. Não foi um bloqueio clássico. Ataques pontuais, ameaça de minas e prêmios de seguro proibitivos bastaram para que operadores privados suspendessem rotas por conta própria. O estreito não precisa ser fechado – apenas tornar-se economicamente inviável. Em Ormuz, o risco já se converteu em poder. Isso só confirma o fato essencial na raiz desta guerra: o regime terrorista dos aiatolás continua a representar uma ameaça estrutural à região e ao mundo, que se tornará muito mais grave caso venha a empunhar uma arma nuclear.
A pausa era difícil de evitar. Mas seu saldo está longe de ser confortável. O Irã sofreu perdas militares relevantes, mas preservou o regime e demonstrou a eficácia de sua principal ferramenta de pressão. A depender dos desdobramentos da interrupção, corre-se o risco de validar essa estratégia: usar a vulnerabilidade energética global como forma de extorsão. O dilema é evidente: prolongar as negociações dá tempo ao Irã; intensificar a guerra amplia riscos que já se mostraram difíceis de conter.
O Armagedon foi evitado – por ora. No lugar da catástrofe imediata, instalou-se uma incerteza mais duradoura. Cada lado encontra no desfecho sinais do que buscava. O essencial, porém, permanece em disputa. Nessas circunstâncias, o intervalo aberto pelo cessar-fogo tende a não ser um caminho para a paz, mas apenas o prelúdio de uma nova fase do conflito. O que se ganhou foi tempo. O que fazer com ele continua sendo a questão decisiva. Fonte: https://www.estadao.com.br
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Em conferência da extrema direita nos EUA, Flávio Bolsonaro sugere que eleição presidencial só será ‘livre e justa’ se ele vencer, mostrando que é um orgulhoso herdeiro do golpismo do pai
Eleição 2026
A natureza é algo implacável. O senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República, vem tentando se apresentar como uma versão “moderada” do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, mas não tem jeito: o golpismo bolsonarista parece ser mesmo genético.
Ao discursar na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em inglês), convescote de extremistas de direita realizado nos Estados Unidos, Flávio defendeu o “monitoramento” das eleições brasileiras e sugeriu “pressão diplomática” externa para garantir um pleito “livre e justo”. Arrematou dizendo que, “se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados corretamente, nós vamos vencer”, numa sugestão nada sutil de que ele só não será eleito se houver fraude ou manipulação.
É isto o que Jair Bolsonaro passou anos fazendo e que foi um dos motivos de sua condenação por tentativa de golpe de Estado: colocou sistematicamente em dúvida a lisura das eleições brasileiras e chegou a mobilizar embaixadores estrangeiros às vésperas da votação de 2022 para disseminar essa farsa golpista. Flávio homenageia o pai ao incitar os americanos a pressionar as instituições brasileiras caso ele perca a eleição.
Nesse sentido, também fiel ao manual bolsonarista, Flávio deu ares de verdade à fábula segundo a qual o governo americano, então presidido pelo democrata Joe Biden, financiou, por intermédio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição de 2022 contra Bolsonaro. “As mesmas pessoas que prenderam meu pai tiraram esse homem – o ex-presidente socialista Lula da Silva, condenado múltiplas vezes por corrupção – da prisão e o colocaram de volta na Presidência. Tudo isso sob uma enxurrada de dinheiro da USAID e com massiva interferência da administração Biden”. Como de hábito, nenhuma prova disso foi apresentada – mas, afinal, um bolsonarista de verdade não precisa de provas para acreditar em teorias da conspiração como essa.
De todo modo, só engoliu a moderação de Flávio Bolsonaro quem quis. No ano passado, em reveladora entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o senador traçou o perfil adequado do candidato a presidente que quisesse representar bem o bolsonarismo: segundo Flávio, teria de ser alguém que articulasse a anistia ao pai no Congresso Nacional e que tivesse “disposição” de impedir que o Supremo Tribunal Federal interferisse nessa decisão, isto é, “fazer com que o Supremo Tribunal Federal respeite os demais Poderes”. E acrescentou, sem circunlóquios: “É uma hipótese muito ruim, porque a gente está falando de possibilidade e de uso da força”.
Está aí, com todas as letras, o discurso politicamente liberticida do bolsonarismo. É digna de nota a facilidade com que o senador Flávio Bolsonaro usou a expressão “uso da força”, com a clara intenção de intimidar os adversários do pai e as instituições democráticas que lidaram com o seu golpismo. E agora, não menos indecorosa, é a tentativa de mobilizar o governo dos Estados Unidos e de outros países governados pela direita simpatizante do presidente americano, Donald Trump, para lançar dúvidas sobre o processo eleitoral brasileiro e, por fim, não reconhecer uma eventual derrota do bolsonarismo na eleição presidencial.
Na tal convenção de extremistas de direita nos Estados Unidos, Flávio disse que a eleição brasileira deve respeitar “os valores de origem americana”. A esta altura, não se sabe bem o que isso significa. Não faz muito tempo, esses “valores de origem americana” incluíam respeitar o resultado das urnas. Considerando que Donald Trump – ídolo de Flávio Bolsonaro e do pai dele – jamais aceitou sua derrota para Joe Biden em 2020 nem provavelmente aceitará qualquer outro revés eleitoral, atribuindo-o sempre a fraudes inexistentes, os “valores de origem americana” aos quais o senador se refere certamente não são os mesmos que o mundo livre aprendeu a admirar. Fonte: https://www.estadao.com.br
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Secretário de Defesa pede que americanos orem em nome de Jesus, e comandantes falam em plano divino
Papa Leão 14, por sua vez, condena uso do nome de Deus para guerras e quer fim de bombardeios aéreos para sempre

O presidente dos EUA Donald Trump, ora com membros do gabinete durante reunião em fevereiro de 2025 - Jim Watson - 26.fev.25/AFP
Lúcia Guimarães
É jornalista e vive em Nova York desde 1985. Foi correspondente da TV Globo, da TV Cultura e do canal GNT, além de colunista dos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo
Não é preciso cavar fundo para encontrar o túmulo da ironia quando ouvimos líderes políticos e militares invocando Cristo para justificar a guerra contra uma teocracia islâmica.
Dias após o início dos bombardeios contra o Irã, uma ONG especializada em proteger a liberdade religiosa dos militares americanos recebeu mais de 200 queixas de soldados e oficiais de todos os ramos das Forças Armadas sobre o uso de linguagem da Bíblia para justificar a decisão de iniciar a guerra.
De acordo com uma das queixas examinadas pelo jornal britânico The Guardian, um comandante havia "nos instado a dizer às tropas que aquilo era ‘tudo parte do plano de Deus’." Os soldados teriam ouvido também que deveriam arriscar a vida para facilitar o retorno iminente de Jesus Cristo.
Ao pedir preces pela vitória, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, conclamou os americanos a rezar "todos os dias, de joelhos, com a família, nas escolas, nas igrejas, em nome de Jesus Cristo". Ele disse isso do púlpito do Pentágono, o comando central da mais poderosa força militar do planeta, nesta República fundada sob o princípio da separação entre Igreja e Estado.
Ajoelhados na sepultura da ironia, descobrimos também que o mais próximo conselheiro espiritual de Hegseth, o pastor evangélico Brooks Potteiger, declarou que tem rezado para Deus matar o seminarista presbiteriano James Talarico, um democrata do Texas que concorre ao Senado denunciando o nacionalismo cristão como contrário ao Evangelho.
Durante a homilia do último dia 15, o Papa Leão 14 condenou o uso do nome de Deus para justificar uma guerra. "Deus não pode ser alistado para a escuridão," disse o primeiro papa americano, talvez o mais enérgico pontífice crítico de uma campanha militar dos Estados Unidos. Na segunda-feira (23), Leão pediu que os bombardeios aéreos sejam banidos para sempre. Depois das tragédias do século 20, disse ele, "não temos progresso, temos retrocesso."
O partido no controle do Executivo e do Judiciário dos EUA parece esquecer uma lição recente. O republicano George W. Bush invocou as Cruzadas logo após os ataques do 11 de setembro, enquadrando a necessária reação americana ao terrorismo da Al Qaeda como uma guerra religiosa e fornecendo, assim, munição ao recrutamento de terroristas.
Curiosamente, o gabinete de Donald Trump é recheado de católicos praticantes, incluindo o vice-presidente, J. D. Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio. Pela primeira vez, seis dos nove juízes da Suprema Corte americana são católicos. Nota-se que esses devotos no poder se esquivam de confrontar em público Leão 14 com a destreza de trombadinhas evitando a polícia no centro de São Paulo.
O alistamento militar do Todo Poderoso coincide com o falecimento do movimento conservador nos EUA. O mais importante fundador do conservadorismo anglo-saxão, o filósofo irlandês Edmund Burke, argumentava que os costumes são mais importantes do que as leis. "A lei nos toca apenas aqui e ali. Os costumes são aquilo que nos aflige ou nos apazigua, nos corrompe ou nos purifica, nos exalta ou nos avilta, nos barbariza ou nos refina," escreveu.
Peter Wehner, veterano dos governos Reagan, Bush pai e Bush filho, que jogou a toalha em 2016, acredita que o legado deste momento no país será uma deformação coletiva de temperamento resultante da reprogramação do circuito moral dos cristãos. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
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Membro da ‘bancada católica’, deputado Eros Biondini (PL/MG) vota contra orientações da CNBB

Eros Biondini é deputado federal pelo Partido Liberal (PL) de Minas Gerais | Crédito: Foto: Paulo Sergio / Câmara dos Deputados
A atuação do deputado federal Eros Biondini (PL/MG) tem sido marcada por divergências em relação às posições da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), principal instância da Igreja Católica no país. Embora se apresente como integrante da chamada “bancada católica”, o parlamentar acumula votos e posicionamentos que, em temas centrais, contrastam com as diretrizes da instituição religiosa.
Os episódios mais recentes ocorreram em 2025, quando Biondini votou a favor de propostas duramente criticadas pela CNBB. Em setembro, o deputado apoiou a chamada PEC da Blindagem (PEC 165/2023), que dificulta a responsabilização criminal de parlamentares. A conferência reagiu com críticas contundentes, questionando “quem protegerá a sociedade do próprio congresso” e alertando para riscos à transparência e ao controle social sobre agentes públicos.
Meses antes, em julho de 2025, Biondini também votou a favor do Projeto de Lei 2159/2021, conhecido como PL da Devastação Ambiental, que flexibiliza regras de licenciamento no país. Em nota pública, a CNBB classificou a proposta como um “grave retrocesso” e denunciou o desmonte de mecanismos de proteção ambiental. A posição do deputado contrasta com princípios como a defesa da “Casa Comum” e da ecologia integral, fortalecidos pela Doutrina Social da Igreja após a encíclica ‘Laudato Si’.
O caso anterior havia ocorrido em maio de 2024, quando Biondini foi um dos apenas dois deputados a votar contra a suspensão, por três anos, do pagamento da dívida do Rio Grande do Sul com a União, em meio à tragédia climática que atingiu o estado. A medida buscava aliviar os cofres estaduais para ampliar ações emergenciais. A CNBB, historicamente, defende a solidariedade federativa e o fortalecimento do papel do Estado em situações de calamidade. O deputado justificou seu voto alegando que a proposta “não ajudaria” efetivamente o estado, adotando uma linha de rigor fiscal.
Outro ponto de distanciamento aparece na atuação em torno do Estatuto do Desarmamento. Biondini integrou a comissão especial que analisou o Projeto de Lei 3722/2012, que flexibiliza o acesso a armas no país, sinalizando alinhamento com a pauta armamentista. A CNBB, por sua vez, mantém posição firme contra a ampliação do acesso a armas, defendendo o desarmamento como caminho para a redução da violência.
A divergência também se expressa em votações anteriores. Em 2019, o deputado votou a favor da Reforma da Previdência (PEC 06/2019), apesar das críticas recorrentes da CNBB, que alertou para os impactos sociais da proposta e para a necessidade de proteger os mais vulneráveis. O posicionamento chama atenção por contrastar com falas anteriores do próprio parlamentar, que, em 2017, havia ecoado críticas da Igreja a mudanças previdenciárias.
Na pauta da segurança pública, Biondini também contrariou a CNBB, ao apoiar a redução da maioridade penal. Em 2015, após votar contra o texto principal da proposta, o deputado mudou de posição nas votações seguintes e apoiou uma versão modificada da medida. A CNBB sempre se posicionou contrária à redução, defendendo políticas de prevenção e ressocialização.
Já em 2016, o parlamentar votou a favor da Proposta de Emenda à Constituição 241, que instituiu o teto de gastos públicos. A CNBB classificou a medida como “injusta e seletiva”, por congelar investimentos sociais por duas décadas e impactar principalmente a população mais pobre. Também nesse caso, o voto de Biondini seguiu na direção oposta às orientações da Igreja.
A única convergência significativa ocorreu na votação da Reforma Trabalhista, em 2017, quando o deputado votou contra o projeto, assim como defendia a CNBB. Ainda assim, o contexto mais amplo da bancada conservadora, da qual faz parte, foi de apoio à medida, apontada pela Igreja como um “grave retrocesso social”.
Comunidades terapêuticas sob debate
Além da atuação parlamentar, Biondini também está à frente da comunidade terapêutica Mundo Novo Sem Drogas (MNSD), iniciativa ligada à Renovação Carismática Católica. O modelo dessas instituições tem sido alvo de críticas e investigações em Minas Gerais e no país.
Embora não haja denúncias diretas contra a MNSD, reportagens e apurações do Ministério Público apontam irregularidades em diversas comunidades terapêuticas, como maus-tratos, trabalho análogo à escravidão e cárcere privado. Especialistas destacam que o problema é estrutural, envolvendo falta de fiscalização e a adoção de práticas baseadas exclusivamente na abstinência e na religiosidade, em detrimento de políticas públicas integradas, como as da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
O setor também recebe recursos públicos, inclusive por meio de emendas parlamentares do deputado Biondini, prática que amplia o debate sobre a destinação de verbas e a eficácia desse modelo de tratamento. Conselhos profissionais e movimentos da luta antimanicomial defendem abordagens baseadas em evidências científicas e no respeito aos direitos humanos.
Editado por: Ana Carolina Vasconcelos. Fonte: https://www.brasildefato.com.br
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Há espaço para o Missão disputar os que rejeitam a esquerda e o bolsonarismo
Candidatura do MBL pode surpreender e disputar votos da direita evangélica
Renan Santos, fundador do MBL, durante live em Mossoró (RN) - Renan Santos MBL no Instagram
Ao defender a candidatura de Tarcísio no lugar de Flávio, evangélicos em destaque, como Nikolas Ferreira e Michelle Bolsonaro, ecoaram o desejo de uma fatia do eleitorado cristão. Será que o MBL tem condições de disputar esses votos?
Na semana passada, o nome de Renan Santos circulou na imprensa. Ele é o pré-candidato à Presidência pelo partido Missão, do Movimento Brasil Livre, e aparece com 10% das intenções de voto entre eleitores de 16 a 24 anos. O número sugere potencial de crescimento.
À primeira vista, o MBL não parece interessado em fazer sua mensagem circular nas redes cristãs.
Diferente de Tarcísio e de Flávio, Renan menciona evangélicos apenas para associar o escândalo do Banco Master à igreja Lagoinha e seu líder, o pastor André Valadão. Outro limitador é sua postura truculenta: pavio curto, ar de superioridade e linguagem grosseira.
Ainda assim, a candidatura presidencial do MBL pode —se calibrar sua estratégia— surpreender ao disputar votos da direita evangélica com Flávio Bolsonaro.
Renan tem a oportunidade de se destacar por não querer parecer o que não é. Flávio vem recorrendo a referências bíblicas em declarações públicas. Porque não domina esse idioma, ele incomoda fiéis frustrados com a instrumentalização da fé e com a disputa ideológica que o bolsonarismo levou para dentro das igrejas.
Enquanto Flávio peregrina por igrejas, Renan pode aproveitar a conexão que o MBL tem com a juventude universitária e visitar seminários teológicos respeitados e podcasts cristãos. Demonstraria interesse pelo segmento e se aproximaria de estudantes que influenciam o debate público ao traduzir questões políticas a partir da Bíblia.
Há outros recursos simbólicos que o MBL pode acionar. A veemência com que o movimento condena a corrupção na política tem paralelo com o constrangimento causado quando se descobre que pastores desviaram dinheiro da igreja.
Missão é um nome com apelo bíblico. Renan aciona essa simbologia ao repetir que não usa dinheiro público em campanha e que disputa contra fundos eleitorais milionários. O convite cristão para que a pessoa dê bons exemplos —ser "o sal da terra e a luz do mundo"— também dialoga com o etos moral que o MBL procura comunicar.
Renan também agrada esse segmento ao apresentar-se como conservador de direita. Ele defende a família, adota um discurso de linha-dura contra o crime, fala sobre empreendedorismo e entra na corrida já com um plano de governo, o Livro Amarelo.
A presença de Renan Santos na corrida presidencial neste ano pode produzir efeito semelhante ao que Pablo Marçal teve na campanha paulistana de 2024: disputar votos com o candidato oficial da direita por meio da astúcia e do uso competente da internet.
Renan pede à sua base que o leve a 10% nas pesquisas até julho para participar dos debates na TV e expor o clã Bolsonaro como traidor da direita. A aproximação com a juventude evangélica órfã de Tarcísio pode ajudá-lo a atingir essa meta. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
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