É estarrecedor que membros de MDB e PSDB, partidos ligados às lutas democráticas, sejam coniventes com Bolsonaro. Por benefícios de curto prazo, transigem com princípios inegociáveis

É triste constatar que a maioria do MDB, partido cuja história está diretamente vinculada à restauração da democracia no País e à Constituição de 1988, não veja problemas em aderir ao bolsonarismo. Segundo revelou o Estadão, se o MDB declinar da decisão de ter candidatura própria ao Palácio do Planalto, a maioria do partido inclina-se por apoiar a reeleição de Jair Bolsonaro. Os dados são de uma sondagem feita pelo MDB entre seus prefeitos, bancadas e delegados eleitos pelos diretórios estaduais.

Ainda que não diminua sua responsabilidade, é preciso reconhecer que o MDB não está sozinho nessa proximidade com o presidente da República que afronta as instituições, põe em dúvida o processo eleitoral e tenta envolver as Forças Armadas em devaneios golpistas. Também parte significativa do PSDB, especialmente na Câmara dos Deputados, não vê empecilhos em alinhar-se ao bolsonarismo. Citam-se os dois partidos por seu histórico de defesa do regime democrático, mas há também outras legendas que tratam Jair Bolsonaro como um útil parceiro.

Observa-se, assim, um nítido decaimento da consciência cívica não apenas em parte da população – há, por exemplo, quem saia à rua para pedir o fechamento da Corte constitucional –, mas da própria classe política. É um nível de retrocesso ainda mais preocupante, pois se dá em pessoas que, pela própria trajetória profissional, deveriam ser especialmente cuidadosas com o regime democrático e as suas instituições. Como um deputado, por exemplo, pode apoiar um presidente da República que questiona, sem nenhuma prova, a lisura das eleições? Como um parlamentar pode apoiar um movimento político que, entre suas causas, defende o AI-5, pede o fechamento do Congresso e postula o retorno da ditadura militar?

É constrangedor, deve-se admitir, que parte da população defenda essas barbaridades, numa imitação irrefletida do que Jair Bolsonaro defendeu ao longo de sua carreira política. Nenhuma das bandeiras antidemocráticas do bolsonarismo ajuda a resolver, por mínimo que seja, algum dos problemas e desafios nacionais. Além disso, não faz sentido que alguém que se considere defensor das liberdades de expressão e de opinião manifeste apoio à reedição do AI-5. Agir assim expressa profunda ignorância histórica, constitui evidente manipulação política.

Mas ainda mais chocante e constrangedor é constatar que partidos políticos que, de uma forma ou de outra, participaram da luta pela redemocratização – o PSDB, por exemplo, nasceu do MDB, que era oposição ao governo militar – sejam coniventes com a agenda bolsonarista. Nessa indignação aqui não há nenhuma ingenuidade. É notório que esses partidos, especialmente os seus grupos mais próximos ao bolsonarismo, estão sendo fartamente alimentados pelo governo federal por meio das mais variadas emendas e de outras verbas públicas. Ninguém esconde isso, nem mesmo Jair Bolsonaro. Com sua falta de modos, o bolsonarismo instaurou em Brasília um ambiente de escárnio em relação à compra de apoio político. Tudo é respondido com um “e daí?”.

O grande problema, para o qual os partidos perigosamente fazem vista grossa, é que o bolsonarismo não é apenas um governo fraco e omisso, com o qual políticos hábeis podem lucrar muito no curto prazo. Jair Bolsonaro ameaça o livre funcionamento das instituições, a começar pela Justiça Eleitoral. Ou seja, ele coloca em risco a própria continuidade dos partidos. Na contagem paralela de votos do bolsonarismo, quem garante que os votos dados para o MDB e o PSDB irão mesmo para os dois partidos? No sonho bolsonarista de ter um Judiciário refém do Executivo, não há espaço para demandas contrárias aos interesses de Jair Bolsonaro.

A conivência dos partidos, especialmente MDB e PSDB, com o golpismo de Jair Bolsonaro é muito perigosa. Tolera-se o intolerável. Normaliza-se um antirrepublicano e inconstitucional exercício do poder. E tudo isso vindo de legendas que, como se viu nas eleições de 2020, não precisam de Jair Bolsonaro para ser competitivas nas urnas. Fonte: https://opiniao.estadao.com.br

 

Confusão em Governador Valadares começou quando bispo avisou ao padre que ele precisava procurar outro imóvel para morar

A Polícia Militar precisou intervir em uma briga entre um bispo e um padre na casa paroquial do bairro Vila dos Montes, em Governador Valadares, no leste do estado, nesse sábado (30/05). O bispo, de 64 anos, ficou ferido.

Segundo os militares, o padre, de 58 anos, informou que já teve outros problemas com o bispo e que é perseguido por ele. 

 A briga começou quando o bispo informou ao padre que deveria procurar outro imóvel para morar, pois não poderia mais residir na casa paroquial. A justificativa é que ela não comporta dois padres.

Segundo o padre, ele se sentiu desrespeitado durante a conversa, tendo sido agredido verbalmente, e que apenas se defendeu ao agredir o bispo.

O bispo informou à PM que apenas conversava com o padre para resolver questões de rotina quando o pároco pegou uma cadeira para agredi-lo. Os dois caíram no chão onde continuaram a luta corporal. O bispo ficou com lesões no pescoço e em um dos braços.

No Boletim de Ocorrência, os militares apontaram que o padre aparentava estar sob efeito de remédios. Testemunhas afirmaram que o padre usa medicamento para depressão.

 O Samu foi acionado e o bispo foi encaminhado ao hospital. Fonte: https://www.em.com.br

Junior Garimpeiro, de Centro Novo do Maranhão, foi convidado a falar na Comissão de Educação da Casa

 

Julia Affonso e André Shalders, O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA — O prefeito de Centro Novo do Maranhão, Júnior Garimpeiro (PP), convidado a falar nesta quarta-feira, 27, na Comissão de Educação do Senado, patrocinou bíblias com foto do pastor Milton Ribeiro quando ele era ministro da Educação do governo Jair Bolsonaro. Como revelou o Estadão, os exemplares eram parte de pagamento de propina cobrada por dois pastores para liberar acesso ao então ministro. 

No fim de março, Ribeiro foi obrigado a deixar o cargo após o Estadão noticiar um esquema de cobrança de propina na pasta em troca de liberação de recursos públicos para creches e escolas. A contrapartida em dinheiro, compra de bíblias e até barras de ouro era solicitada pelos religiosos Gilmar Santos e Arilton Moura – ambos ligados a Ribeiro –, segundo relatos de prefeitos. Os três estão sob investigação.

Uma versão da Bíblia editada por Gilmar Santos que circula na cidade maranhense cita a ajuda do prefeito na confecção do material. “Nossos agradecimentos ao ministro da Educação, Milton Ribeiro, ao pastor Arilton Moura e ao prefeito Junior Garimpeiro, da cidade de Centro Novo do Maranhão-MA, pelo patrocínio na confecção dessas bíblias.”

As bíblias de Centro Novo estampam em suas primeiras páginas as imagens de Milton Ribeiro, de Gilmar Santos, de seu genro, o pastor Wesley Costa, e do prefeito com sua família. O exemplar é semelhante ao distribuído em um evento do MEC, em julho do ano passado, na cidade de Salinópolis, no Pará, como noticiou o Estadão.

Na cidade paraense, a 220 quilômetros de Belém, edições do livro com imagens do então ministro e dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura foram entregues durante um encontro de prefeitos. A impressão destacou o “patrocínio” do prefeito de Salinópolis, Carlos Alberto de Sena Filho, o Kaká Sena, do PL, que também teve a imagem estampada entre a contracapa e a folha de rosto da publicação. 

A Procuradoria da República no Pará abriu um inquérito preliminar na divisão de combate à corrupção para apurar a distribuição das bíblias.

A relação entre Milton Ribeiro e Junior Garimpeiro se estreitou no ano passado por intermédio dos dois pastores. A proximidade levou para Centro Novo do Maranhão – cidade a 260 km de São Luís – um evento do ministério com prefeitos maranhenses, em maio de 2021. “O Junior Garimpeiro é uma pessoa especial, é alguém que eu acredito que tenha até um futuro aí na política”, disse Ribeiro na ocasião.

O advogado Reginaldo Silva, que representa o pastor Gilmar Santos, afirmou que não vai se manifestar. O prefeito Junior Garimpeiro não respondeu às tentativas de contato. Milton Ribeiro e Arilton Moura não foram localizados na terça-feira. No fim de março, Ribeiro disse que sabia de foto sua em bíblias e afirmou ter desautorizado as impressões. Fonte: https://politica.estadao.com.br

 

Funcionária da GOL foi atingida por estilhaços e atendida no local; segundo companhia aérea, ela passa bem

 

O ex-ministro da Educação Milton Ribeiro Foto: Antonio Molina / Agência O Globo

 

RIO - Um disparo acidental feito pelo ex-ministro da Educação Milton Ribeiro nesta segunda-feira deixou uma pessoa ferida no aeroporto de Brasília. Uma funcionária da companhia aérea Gol, que não teve a identidade revelada, foi atingida por estilhaços e atendida no local.

Segundo a Gol, a funcionária passa bem e não teve ferimentos graves. A empresa disse à TV Globo que ela "não precisou ir ao hospital ou levar pontos" e que "foi mais o susto do caso mesmo".

"A funcionária foi atingida por estilhaços, mas sem nenhum ferimento grave. Ela está bem e recebendo suporte da GOL", disse em nota enviada ao GLOBO.

Ribeiro foi levado para a Superintendência da Polícia Federal do Distrito Federal, onde prestou esclarecimentos sobre o episódio. Ele afirmou que perguntou se alguém havia sido atingido por estilhaços, mas ninguém se manifestou.

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No depoimento obtido pela colunista Bela Megale, do GLOBO, o ex-ministro relata que o disparo acidental ocorreu no momento em que estava no balcão da companhia aérea Latam, por volta das 17h. Ele embarcaria em um voo com partida às 19h50 para São Paulo.

Ribeiro declarou que, "como já havia feito o ‘despacho de arma de fogo’ pela internet se dirigiu diretamente ao balcão da companhia aérea Latam; que ao abrir sua pasta de documentos pegou a sua arma para separá-la do carregador, dentro da própria pasta, momento em que ocorreu o disparo acidental". 

Alegou ainda que, como havia outros objetos dentro da pasta, o local ficou pequeno para manusear sua arma. "O declarante, com medo de expor sua arma de fogo publicamente no balcão, tentou desmuniciá-la dentro da pasta, ocasião em que ocorreu o disparo acidental".

Em seu depoimento à PF, o ex-ministro afirmou que a bala atravessou o coldre e sua pasta, se espalhando pelo chão. Não há descrição sobre o modelo da arma. Ribeiro disse que a única pessoa que estava por perto no momento era a atendente da Latam. Fonte: https://oglobo.globo.com

Imunidade parlamentar não inclui agredir a democracia e o livre funcionamento das instituições republicanas, reafirmam PGR e STF. A condenação do bolsonarista é pedagógica

 

Ao condenar o deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ) a oito anos e nove meses de reclusão, pelos crimes de ameaça ao Estado Democrático de Direito e coação no curso do processo, o Supremo Tribunal Federal (STF) foi pedagógico. Não existe liberdade de expressão para atacar a democracia. Não existe imunidade parlamentar para impedir o livre funcionamento das instituições republicanas.

Por 10 votos contra 1, o plenário do STF entendeu que a conduta de Daniel Silveira foi criminosa, isto é, que se enquadra naquelas hipóteses em que, ao atingir bens essenciais de uma sociedade, a lei prevê a imposição de uma pena. Os oito anos e nove meses de prisão não são desproporcionais, mas estrita aplicação da legislação a que todos os cidadãos estão sujeitos.

No processo, nada houve de perseguição política. Foi apenas o Estado, por meio de suas instituições, cumprindo seu papel de impedir que condutas consideradas criminosas pela lei fiquem impunes. Ao contrário do que os bolsonaristas dizem, não foi o Supremo que, num rompante autoritário, investigou, denunciou e puniu Daniel Silveira. A acusação contra o deputado bolsonarista não foi apresentada pelo ministro Alexandre de Moraes, e sim pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Foi ela quem primeiro entendeu que a atuação de Daniel Silveira havia sido criminosa.

É sintomático que o bolsonarismo, tão afeito ao punitivismo – sua retórica é sempre de aumento da pena –, tenha se mobilizado, de forma tão intensa, pela impunidade de Daniel Silveira. Não era apenas que “um dos nossos” estava sendo julgado por sua conduta tresloucada. Foi a própria tática política do bolsonarismo, de agressão contra as instituições, que estava no banco dos réus. Daí a importância do julgamento de quarta-feira passada: o Estado Democrático de Direito, por meio de suas instituições, reconheceu que a política também está sujeita a regras e a limites. Não é um vale-tudo, não é um mundo sem lei.

A atividade parlamentar dispõe de prerrogativas constitucionais. Como é próprio de um regime democrático, “os deputados e senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos” (art. 53 da Constituição). No entanto, ameaçar e agredir não é uma opinião: é crime. E não cabe usar a imunidade parlamentar como “escudo protetivo para a prática de atividades ilícitas”, lembrou Alexandre de Moraes.

Eis a confusão que o bolsonarismo deseja instaurar. Para seus atos, almeja irrestrita impunidade. Tudo estaria dentro de um amplíssimo conceito de liberdade, para fazer e dizer o que bem entender, num cenário de completa irresponsabilidade. Para os outros, a liberdade seria inteiramente diferente, muito mais limitada. A mera crítica ao presidente da República já foi motivo para que o governo Bolsonaro solicitasse a instauração de inquérito policial contra opositores. É tudo uma grande incoerência. O mesmo deputado bolsonarista que gostaria que seus crimes estivessem protegidos pela imunidade parlamentar defende a edição de um novo AI-5, justamente o ato da ditadura que suspendeu importantes garantias constitucionais.

Há liberdade no País e, precisamente para que possa continuar havendo liberdade, é preciso ter lei. “A liberdade de expressão existe para a manifestação de opiniões contrárias, para opiniões jocosas, para sátiras, para opiniões inclusive errôneas, mas não para imputações criminosas, para discurso de ódio, para atentados contra o Estado de Direito e a democracia”, afirmou Moraes.

Além de pedagógico sobre os limites da liberdade, esse processo judicial põe por terra uma falácia bastante difundida entre bolsonaristas. O que se tem no País hoje não é uma disputa entre STF e Jair Bolsonaro, como se o Supremo perseguisse politicamente o bolsonarismo. O Congresso autorizou a prisão preventiva de Daniel Silveira. A PGR denunciou o deputado. Até o ministro André Mendonça votou por sua condenação. Não é perseguição política, é aplicação da lei. E quem está isolado é o bolsonarismo, não o STF.

  1. da R. – Com este texto já na página, Bolsonaro anunciou o indulto do deputado, mostrando uma vez mais a falta de pudor do bolsonarismo em usar o poder para acobertar os crimes dos amigos. Fonte: https://opiniao.estadao.com.br

O ministro da Educação, pastor Milton Ribeiro, terceirizou o acesso a recursos de sua pasta, transformando os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura em corretores junto a prefeitos

 

Desgaste. Um dos únicos respaldos recebidos pelo ministro Milton Ribeiro foi do presidente Jair Bolsonaro, que declarou colocar a "cara no fogo" por ele Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo / 24/11/21

O último escândalo é sempre o mais popular. O ministro da Educação, pastor Milton Ribeiro, terceirizou o acesso a recursos de sua pasta, transformando os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura em corretores junto a prefeitos de pelo menos 15 cidades de oito estados.

Gilmar é presidente da Convenção Nacional de Igrejas e Ministros das Assembleias de Deus no Brasil e dirige o Instituto Teológico Cristo para Todos. Arilton é assessor de Assuntos Políticos da Convenção Nacional e preside o seu conselho político. A dupla teria chegado ao ministério depois de um pedido do presidente Jair Bolsonaro. Nos últimos meses, reuniram-se 19 vezes com Ribeiro e, em alguns casos, a agenda do ministro registrava o assunto: “alinhamento político”.

Ribeiro, como seus três antecessores no ministério de Bolsonaro, é uma usina de incontinências verbais, mas nenhum deles foi apanhado criando a figura de corretores de verbas para construir ou reformar creches e escolas, bem como para conseguir equipamentos eletrônicos. Repetindo: equipamentos eletrônicos.

Os prefeitos de dois municípios revelaram que a dupla cobrava um capilé que ia de R$ 15 mil a R$ 40 mil para abrir os processos, bem como taxas de sucesso quando a verba fosse liberada. Pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento e Educação, o FNDE. Repetindo: FNDE. Num caso, Arildo pedia um quilo de ouro (cerca de R$ 300 mil). Noutro pediu que lhe comprasse mil bíblias, a R$ 50 cada uma.

(Tramita na Câmara dos Deputados um projeto que prevê pena de até cinco anos de cadeia para quem usar indevidamente a palavra Bíblia.)

O ministro se explicou revelando que pode ter sido enganado e que em agosto passado pediu à Controladoria-Geral da União que investigasse denúncias. Contudo, em novembro Ribeiro recebeu Arildo acompanhado de um prefeito e 16 dias depois o FNDE liberou R$ 200 mil para sua cidade.

Uma semana depois da primeira notícia dessa bizarria, o presidente Jair Bolsonaro proclamou:

“Estamos há três anos e três meses sem corrupção no governo federal.”

Não é bem assim. Fonte: https://oglobo.globo.com

Símbolos e fatos eleitorais

Para ganhar eleição, é preciso que o discurso aponte para a mesma direção que o símbolo adotado

 

ASCÂNIO SELEME

Geraldo Alckmin pode não agregar muitos votos, mas certamente transfere confiança a uma chapa liderada por Lula. Seu papel significa muito mais uma direção, uma declaração de princípios do PT e de seu candidato a presidente. Serve como símbolo em favor da estabilidade, do entendimento e, sobretudo, da democracia. Do outro lado, a presença do general Braga Netto na parceria com o presidente Jair Bolsonaro também é um símbolo, mas de sinal trocado. Sua presença na cédula eleitoral é a garantia de recrudescimento no caso da renovação do mandato de um governo já truculento.

Claro que símbolos apenas não ganham eleição. Alckmin pode virar apenas um vice decorativo, como Hamilton Mourão, sob Bolsonaro, ou Michel Temer, com Dilma Rousseff. Pode também ser um novo José Alencar, o vice de Lula que tinha voz e cargo no governo, sendo ministro da Defesa por quase dois anos. Mas, para ganhar eleição, é preciso também que o discurso aponte para a mesma direção que o símbolo adotado. No caso de Lula, que certamente já tem e não perderá os votos do eleitorado de esquerda, é preciso falar também a linguagem de Alckmin, que não é de direita, mas de centro. Tarefa que tem sido difícil para o candidato do PT, que enfrenta resistências dentro do seu partido.

Bolsonaro também não tem conseguido mexer no seu perfil autocrático, embora não faltem recomendações neste sentido. Fora a questão das vacinas contra a Covid, sobre as quais se calou, todas as suas declarações, gestos e ações mostram o mesmo capitão que falhou na sua primeira tentativa de dar um golpe nas instituições, mas que segue torpedeando-as praticamente todos os dias. Ele claramente não trai o símbolo que Braga Netto representaria na sua candidatura.

O eleitor, por sua vez, não pode ignorar esses sinais, que são claros e, em alguns casos, explícitos. Mas, a julgar pela última pesquisa Datafolha, vem crescendo a parcela dos brasileiros que não apenas aceita um governo autoritário como quer sua permanência por mais quatro anos. Ou isso, ou a ignorância e a alienação. Claro que há um contingente importante de eleitores declaradamente de extrema direita, que prega mesmo a intervenção militar e o fechamento do Supremo e do Congresso. Para estes, em última análise, Bolsonaro é apenas um instrumento. O que eles querem é a ditadura. Por quê? Não sei.

Mas há também entre os 26% de eleitores que apoiam o presidente um número relevante de pessoas desinformadas ou simplesmente desligadas. Entre estes, há os que não têm tempo e dinheiro para comprar crédito suficiente para usar seu celular como instrumento de informação. Apenas engolem o que chega nas suas timelines e se convencem com pacotes de bondades. Há os alienados de sempre, aquela turma do andar de cima (desculpe, Elio) que tem esta doença quase juvenil que prolifera há décadas no Brasil. Para estes, a coisa não lhes diz respeito. E há os conservadores que têm medo de mudança e de tudo que lhes pareça vanguardismo (que não é o caso de Lula e do PT) e sempre se aglomeram à direita.

A eleição, que neste momento indica a vitória de Lula no segundo turno, ainda vai sofrer diversos solavancos nos sete meses que nos separam da abertura das urnas. O crescimento de Bolsonaro evidenciado pelo Datafolha não chega a ser uma novidade e haverá outros muitos movimentos até outubro. Ontem, outra pesquisa, do Ipespe para a XP, mostrou queda de dois pontos de Bolsonaro em relação à enquete anterior do mesmo instituto. São assim as pesquisas, elas refletem fatos. O Datafolha identificou sua subida, em razão das “bondades”, e o Ipespe seu recuo, por causa da inflação.

Obviamente, além dos símbolos, as eleições dependem também dos fatos. Vejam o exemplo de 2018. Embora preso em Curitiba e com direitos políticos cassados, Lula ficou na sondagem do Datafolha até agosto, quando seu nome foi substituído pelo de Fernando Haddad. Em abril daquele ano, Lula tinha 31 pontos, contra 15 de Bolsonaro. No início de agosto, a diferença era de 39 contra 19. Na primeira medição com Haddad, no dia 21 de agosto, Bolsonaro apareceu na frente, com 24, contra 9 pontos do petista. Depois da facada, em setembro, ele disparou e fechou o primeiro turno com 46% dos votos contra 29% de Haddad. Fonte: https://oglobo.globo.com

 

 

Evento com a presença do ministro da Educação, Milton Ribeiro, em Nova Odessa, em São Paulo; segundo um prefeito do interior paulista, aquisição de Bíblias era uma condição prévia para que Ribeiro fosse até a cidade Foto: Catarina Chaves/MEC

Relatos apontam para Arilton Moura como autor de pedido de dinheiro e aquisição dos livros em troca de verbas da educação

 

Renata Cafardo e Julia Affonso, O Estado de S.Paulo

A atuação do gabinete paralelo no Ministério da Educação (MEC) envolvia compra de Bíblias para serem distribuídas nas cidades que recebiam a visita do ministro Milton Ribeiro, e dinheiro para a igreja evangélica. Prefeitos de dois municípios afirmaram ao Estadão que o pastor Arilton Moura era quem fazia a negociação em troca de verbas da educação. Os relatos de cobrança de propinas para compra de Bíblias foram revelados pelo jornal O Globo e confirmados pelo Estadão.

Versões da Bíblia comentada por Gilmar Santos, outro pastor próximo de Ribeiro, foram distribuídas em um evento com o ministro na cidade de Nova Odessa, no interior de São Paulo. Santos é também o dono da editora Cristo para Todos, que produz os livros. 

O prefeito de Bonfinópolis (GO), Professor Kelton (Cidadania), relatou ao Estadão que foi convidado para almoçar após uma reunião no MEC, no começo de 2021. No restaurante, Arilton disse que se o prefeito tivesse “interesse” em recurso para escola no município, ele poderia “organizar”. Segundo o prefeito, o pastor pediu R$ 15 mil para custear despesas em Brasília e sugeriu que ele comprasse mil Bíblias, no valor de R$ 50 cada, para distribuir no município.

O prefeito de Boa Esperança do Sul (SP), José Manoel de Souza, afirmou também que foi levado a um restaurante de um hotel em Brasília depois de um evento no MEC. Lá, segundo o prefeito, Arilton perguntou se ele teria interesse em ter uma escola profissionalizante na cidade. “Eu disse que tinha outras demandas, como creche, terceirização de ônibus”, disse. Souza conta que o pastor então complementou dizendo que se ele quisesse poderia ter a escola na hora. 

“Ele disse: Eu falo lá, já faz um ofício, mas você tem que fazer um depósito de R$ 40 mil para ajudar a igreja”, afirmou. Souza disse que respondeu que não faria esse tipo de negócio. A cidade de Boa Esperança, segundo ele, não teve qualquer ajuda do MEC em projetos. 

Em um evento em Nova Odessa com a participação do ministro, houve pregação dos dois pastores além da distribuição de Bíblias. Uma secretária que esteve no evento e pediu para seu nome não ser publicado descreveu o cenário como “desconfortável, escandaloso para quem é da educação”. 

Ela disse que as Bíblias estavam em mesas junto a profissionais do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), do MEC, que resolviam eventuais dificuldades das Prefeituras com merenda, transporte e materiais didáticos. Durante o atendimento a prefeituras em Nova Odessa, em cima do palco, o pastor Moura perguntou se a plateia sabia o motivo de eles estarem ali. “Porque vimos a necessidade do evangelismo em cada município desses”, afirmou. Ao discursar, o ministro agradeceu o pastor Gilmar e o chamou de “meu amigo, meu irmão”. Procurado, o prefeito de Nova Odessa, Claudio José Schooder (PSD), conhecido como Leitinho, não respondeu até a conclusão desta edição.

Segundo um prefeito do interior paulista, que pediu para não ser identificado, a aquisição de Bíblias era uma condição prévia para que o ministro fosse até a cidade. O mesmo teria ocorrido em São João da Boa Vista, a 200 quilômetros da capital.

Procurada pela reportagem, a prefeita Maria Teresinha de Jesus Pedroza (DEM) negou que tenha comprado Bíblias para distribuição durante o evento. “O ministro foi convidado para vir a São João através de contatos que temos na política”, disse. 

A Constituição determina que o Brasil é um Estado laico, ou seja, que não incentiva ou tem relações econômicas com nenhuma religião específica. E a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) veda qualquer forma de proselitismo. Fonte: https://www.estadao.com.br

 

Por Nelson Lima Neto

 

O padre Edison Geraldo Bovo

 

O ex-presidente Lula recorreu à Justiça de SP ao apresentar ação com pedido de explicações contra o padre Edison Geraldo Bovo, que fez acusações contra o líder petista em missa no último dia 10 de março.

A defesa de Lula quer saber se o padre tem provas das acusações que fez, entre elas a de que o ex-presidente "comprou o STF". Bovo também definiu Lula como o "maior ladrão que o mundo já viu".

Os advogados de Lula aguardam as respostas para o possível ingresso de uma ação de danos morais por difamação, injúria e calúnia em função das falas do padre da paróquia de Laranjal Paulista, no interior de São Paulo.

Dois trechos da fala do padre durante sermão no último final de semana:

"O mais estúpido é o ladrão. O maior ladrão que o mundo já viu, o senhor Luiz Inácio Lula da Silva, né. Coitada da família dele, dos pais, da mãe que tem vergonha disso. Onde você pesquisar no mundo, é o pior"

"Esse dinheirinho é usado para pagar Supremo Tribunal, os advogados, para dizer 'ele é inocente', 'ele não fez nada', 'ele é bonzinho'. [Lula] vai se candidatar e muita gente vai votar nele. Para com isso, gente. Se vocês não querem viver, se vocês estão cansados da vida, não judiem dos seus filhos, não judiem da geração que vai chegar". Fonte: https://blogs.oglobo.globo.com

Da CNN

Com apoio do Brasil, a Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou na tarde desta quarta-feira (2) uma resolução contra a invasão russa à Ucrânia. No sétimo dia da guerra, os russos prosseguem com os ataques em diversas cidades ucranianas.

A reunião foi convocada pelo Conselho de Segurança e feita de forma emergencial para discutir a situação no Leste Europeu. Para a aprovação, foi necessário maioria de 2/3 dos votantes. Foram 141 votos a favor, cinco contrários e 35 abstenções.

Além da votação na ONU, uma nova rodada de negociações entre os dois países foi confirmada para hoje, segundo um assessor do governo ucraniano. No começo da tarde (horário de Brasília), a delegação russa já havia chegado no ponto de encontro em Belarus, onde aguardaria os negociadores ucranianos.

A primeira conversa entre as delegações após o início dos ataques ocorreu na segunda-feira (28) e teve duração de cinco horas, mas terminou sem um avanço. Na terça-feira (1º), o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse que a Rússia deve parar o bombardeio de cidades ucranianas antes que as negociações possam ocorrer.

Ainda nesta quarta, porém, o departamento de polícia regional de Kharkiv e a Universidade Nacional de Kharkiv foram alvo de um ataque militar, de acordo com o Serviço de Emergência do Estado da Ucrânia e imagens geolocalizadas pela CNN. O conselho da cidade de Mariupol também disse que a cidade ao sul estava sob controle ucraniano, mas travada em batalhas com tropas russas.

O Ministério da Defesa russo também anunciou nesta quarta que as forças armadas tomaram a cidade de Kherson. Autoridades ucranianas rebateram e afirmaram que ainda estão no controle da região, que fica ao sul.

Na terça-feira (1º), o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciou o fechamento do espaço aéreo americano para a Rússia – isolando ainda mais o país de Vladimir Putin. Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br

 

No último domingo (27), presidente russo deu ordem para colocar armas nucleares de represália em posição de alerta grave. Movimentação ocorre longe do campo de batalha na Ucrânia.

O ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, disse nesta quarta-feira (2) que, se uma Terceira Guerra Mundial ocorresse, envolveria armas nucleares e seria destrutiva, informou a agência de notícias RIA.

Também nesta quarta-feira, as Forças Armadas do Kremlin iniciaram exercícios com submarinos nucleares e lança-mísseis terrestres em regiões na Rússia — mas longe do campo de batalha na Ucrânia.

No último domingo (27), o presidente Vladimir Putin deu ordem para colocar armas nucleares de represália em posição de alerta grave. Fonte: https://g1.globo.com

Centros de comando militares da Ucrânia na capital, Kiev, e em Kharkiv são alvo de ataque de mísseis; tropas russas chegam a Mariupol e Odessa

O Globo e agências internacionais

 

Putin no pronunciamento em que anunciou a invasão da Ucrânia, na manhã desta quinta em Moscou Foto: RUSSIAN POOL / via REUTERS Newsletters

 

MOSCOU — O presidente russo, Vladimir Putin, ordenou na manhã desta quinta-feira em Moscou uma operação militar contra o Ucrânia, afirmando que não quer a "ocupação" do país, mas sua "desmilitarização". Segundo o chanceler ucraniano, Putin iniciou uma "invasão em grande escala" contra o país.

— Tomei a decisão por uma operação miitar — anunciou Putin em uma inesperada mensagem pela TV, denunciando um suposto genocício orquestrado pela Ucrânia contra a população de origem russa no Leste do país.

Pouco depois do anúncio, surgiram relatos de ataques a várias cidades ucranianas, incluindo a capital, Kiev, que amanheceram ao som de sirenes de alerta. Informações não oficiais, que teriam partido do governo da Ucrânia, dão conta de que já haveria 7 pessoas mortas pelos ataques russos. Militares ucranianos também divulgaram terem abatido cinco aviões e um helicóptero russos na região de Luhansk, o que não foi confirmado pela Rússia.

Os centros de comando militares da Ucrânia na capital e em Kharkiv foram alvo de ataque de mísseis, informou o site de notícias Ukrainska Pravda, citando uma fonte do Ministério do Interior ucraniano. Segundo a Interfax, tropas russas entraram nas cidades portuárias de Odessa e Mariupol, o principal município sob controle de Kiev na linha de frente com os separatistas pró-Moscou no Leste do país.

O ataque começou enquanto o Conselho de Segurança da ONU se reunia pela segunda vez nesta semana, com apelos dos países-membros para que Moscou não lançasse a ação. Vários países se apressaram em condenar a ação militar russa na Ucrânia, entre eles França, Portugal, Japão, Itália e Suécia. A China afirmou que está acompanhando de perto a crise e aconselhou seus cidadãos na Ucrânia a permanecerem em casa.

Na Casa Branca, o presidente dos EUA, Joe Biden, classificou o ataque russo de "injustificado".

"O presidente (Vladimir) escolheu uma guerra premeditada que vai causar uma catastrófica perda de vida e sofrimento humano", disse Biden em uma declaração. "A Rússia sozinha é responsável pela morte e a destruição que esse ataque vai causar. O mundo cobrará contas da Rússia", acrescentou Biden, afirmando que anunciará ainda nesta quinta, junto com os aliados americanos, mais punições à Rússia.

A União Europeia também considerou o ataque "injustificado", afirmando que responsabilizará Moscou pela invasão, segundo anunciou a chefe da Comissão Executiva do bloco, Ursula von der Leyen.

"Nestas horas sombrias, nossos pensamentos estão com a Ucrânia e as mulheres, homens e crianças inocentes que enfrentam esse ataque não provocado e temem por suas vidas", disse ela no Twitter. "Vamos responsabilizar o Kremlin", acrescentou von der Leyen.

Os líderes da UE devem realizar uma cúpula de emergência em Bruxelas, ainda nesta quinta-feira, depois que uma primeira rodada de sanções da UE à Rússia entrou em vigor no dia anterior.

O ataque foi iniciado um dia após Moscou declarar que as autoproclamadas repúblicas separatistas de Donetsk e Luhansk haviam pedido ajuda para repelir "agressões" de Kiev, em meio a crescentes alertas dos EUA de que um grande ataque era iminente.

O presidente russo, que justificou a ação citando o pedido de ajuda dos separatistas e o que chamou de política agressiva da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) contra Moscou, pediu aos militares ucranianos que "deponham as armas".

Puin ainda advertiu que aqueles que "tentarem interfir conosco (...) devem saber que a resposta da Rússia será imediata e conduzirá a consequências que jamais conheceram".

— Estou seguro de que os soldados e oficiais russos cumpriram seu dever com coragem. A segurança do país está garantida — afirmou.

A operação foi lançada depois de Moscou vetar voos sobre parte da região de Rostov, a Leste de sua fronteira com a Ucrânia, que, por sua vez, anunciou o "perigo potencial" para a aviação civil ao restringir o tráfego em seu espaço aéreo. Posteriormente, todos os voos foram cancelados em Rostov.

Na noite de quarta-feira, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, havia feito um pronunciamento dramático de nove minutos na TV. Falando a maior parte do tempo em russo — e se dirigindo à população russa —, pediu que a Rússia não invadisse o país.

— O povo ucraniano quer a paz — disse, citando a história comum das duas nações. — O governo ucraniano quer a paz e está fazendo tudo para construí-la.

Horas antes, o Parlamento ucraniano havia aprovado um estado de emergência após o governo adotar uma série de medidas de preparação para uma guerra, desde convocar reservistas a pedir para seus cidadãos deixarem a Rússia imediatamente.

A Rússia também havia esvaziado sua embaixada em Kiev, e muitos países, incluindo o Brasil, pediram para seus cidadãos deixarem o país. Fonte: https://oglobo.globo.com

O que têm em comum um extremista de esquerda e um extremista de direita é a antidemocracia.

 

Ruy Altenfelder, O Estado de S.Paulo

Num sistema democrático, a alternância entre governos de direita e de esquerda é legítima.

Isaiah Berlin, um clássico do liberalismo, considera de esquerda o liberalismo que se opõe ao excessivo poder da autoridade baseada na força da tradição na qual identifica a principal característica da direita.

Berlin sustenta que o regime autoritário da União Soviética desqualificou e tornou imprestável a distinção entre direita e esquerda, ao usurpar a palavra esquerda. Semelhante afirmação mostra que “esquerda” tem, para quem a enuncia, um significado positivo, embora possa ter, como todas as palavras da linguagem política, que não é uma linguagem rigorosa, ambos os significados, positivo e negativo, conforme quem delas se apropria e o contexto em que tal apropriação ocorre.

Isso explica, também, por que o próprio Berlin chama de esquerda a doutrina liberal que mais lhe agrada, e para cuja reformulação dedicou suas obras mais conhecidas e justamente mais celebradas. O liberalismo de que fala é o social, que se diferencia do clássico próprio dos partidos liberal-liberistas por uma componente igualitária, suficiente, por si só, para incluí-lo sem contradições entre as doutrinas de esquerda.

Norberto Bobbio, um dos mais respeitados pensadores políticos contemporâneos, distingue o significado descritivo e o significado emotivo das palavras. Trata-se de uma distinção fundamental, sobre a qual nenhum crítico depositou a devida atenção. Quem se considera de esquerda, do mesmo modo que quem se considera de direita, admite que as respectivas expressões estão referidas a valores positivos. Essa é a razão pela qual um e outro não deixam de incluir a liberdade entre estes valores. O contraste entre liberatórios e autoritários corresponde a uma outra distinção que não se superpõe à distinção entre direita e esquerda, mas com ela se cruza. Do ponto de vista analítico, o objetivo foi o de fazer emergir da prática política habitualmente seguida e das opiniões correntes, tanto as doutas quanto as populares, o significado descritivo dos termos, independentemente do seu significado emotivo.

Nenhuma pessoa de esquerda pode deixar de admitir que a esquerda de hoje não é mais a esquerda de ontem. Enquanto existirem homens movidos por um profundo sentimento de insatisfação e de sofrimento perante as iniquidades das sociedades contemporâneas – hoje talvez menos ofensivas do que em épocas passadas, mas bem mais visíveis –, eles carregarão consigo os ideais que há mais de um século têm distinguido todas as esquerdas da História.

Talvez, ensina Bobbio, seja a esquerda democrática que possa e deva escutar as vozes que ensinam que o homem é malvado, mas precisa ser, ao mesmo tempo, auxiliado de todos os modos, incluindo os mais prosaicos, como a assistência à saúde e a aposentadoria.

A distinção entre direita e esquerda – que por cerca de dois séculos, a partir da Revolução Francesa, serviu para dividir o universo político entre duas partes opostas – não tem mais nenhuma razão para ser utilizada. É usual a referência a Sartre, que parece ter sido um dos primeiros a dizer que direita e esquerda são duas caixas vazias. E que, por isso, não teriam mais nenhum valor heurístico ou classificatório, e menos ainda avaliativo.

A árvore das ideologias está sempre verde. “Esquerda” e “direita” indicam programas contrapostos com relação a diversos problemas cuja solução pertence habitualmente à ação política, contrastes não só de ideias, mas de interesses e de valorações a respeito da direção a ser seguida pela sociedade, contrastes que existem em todas as sociedades e que não vejo como possam simplesmente desaparecer. Pode-se, naturalmente, replicar que os contrastes existem, mas não são mais os do tempo em que nasceu a distinção: modificaram-se tanto que tornaram anacrônicos e inadequados os velhos nomes.

Sociedades democráticas são sociedades que toleram, que pressupõem a existência de diversos grupos de opinião e de interesse em concorrência entre si; tais grupos, às vezes, se contrapõem, às vezes se superpõem, em certos casos se integram para, depois, se separarem.

Outro exemplo histórico de síntese dos opostos, derivado desta vez das fileiras da direita, foi a ideologia da revolução conservadora, nascida após a Primeira Guerra Mundial como resposta da direita à revolução subversiva que havia levado a esquerda ao poder num grande país e parecia destinada a se difundir em outras regiões.

Um extremista de esquerda e um de direita têm em comum a antidemocracia, que se aproxima não pela parte que representam no alinhamento político, mas apenas na medida em que representam as alas extremas naquele alinhamento, pois os extremos se tocam.

No momento em que no Brasil e no mundo graves crises se prolongam à luz do dia, potencializando a reprodução de imensas zonas de miséria e injustiça, os questionamentos de Bobbio nos estimulam para que se afiem os instrumentos de análise e não se perca de vista o valor das diferenciações.

*ADVOGADO, É PRESIDENTE DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS JURÍDICAS (APLJ)

Fonte: https://opiniao.estadao.com.br

 

Por Lauro Jardim

Um enigmático Jair Bolsonaro falou hoje aos seus seguidores no cercadinho do Palácio da Alvorada.

Fez uma crítica velada ao STF  ("ditadura que vem pelas canetas") e previu para breve um acontecimento que "vai salvar o Brasil", mas sem dizer o que é. E nem foi perguntado por seus fieis, que apenas gritaram "glória a Deus" depois de sua fala.

Eis o que disse Bolsonaro: 

— Pessoal, qual é a diferença de uma ditadura feita pelas armas, como a gente vê em Cuba e Venezuela (esqueceu de citar a ditadura militar de 1964) e uma ditadura que vem pelas canetas? Qual é a diferença? Nenhuma. Vocês sabem o que está acontecendo no Brasil. Eu acredito em Deus e nos próximos dias vai acontecer algo que vai salvar o Brasil, tenho certeza. Fonte: https://blogs.oglobo.globo.com

Líder da Assembleia de Deus no Brasil, José Wellington Bezerra da Costa afirma que recurso só chega ao prefeito com aval da igreja

 

Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - O pastor José Wellington Bezerra da Costa, um dos líderes mais influentes da Assembleia de Deus no Brasil, admitiu que a igreja tem feito a intermediação do pagamento de emendas parlamentares para eleger três de seus filhos em São Paulo, maior colégio eleitoral do País. José Wellington também proibiu o apoio de pastores a candidatos que não sejam “ungidos” pela denominação evangélica.

Os filhos do pastor – o deputado federal Paulo Freire Costa (PL-SP), a deputada estadual Marta Costa (PSD-SP) e a vereadora Rute Costa (PSDB-SP) – tiveram acesso a R$ 25 milhões em recursos públicos, no ano passado. Nas eleições que disputaram, os três foram abertamente apoiados pela igreja durante as campanhas.

“A emenda só vai para o prefeito por intermédio do pedido do pastor da Assembleia de Deus”, disse José Wellington durante reunião de obreiros, realizada na última segunda-feira, em São Paulo. “O eleitorado que ali está, irmãos, não é do prefeito, mas são irmãos em Cristo que estão nos apoiando para que os nossos candidatos continuem trabalhando.”

José Wellington controla a Convenção-Geral das Assembleias de Deus no Brasil, a mais antiga do segmento, há três décadas. Em São Paulo, é líder do Ministério do Belém, vertente mais tradicional da denominação no Sudeste, e apoiou a campanha de Jair Bolsonaro em 2018. No culto, ele afirmou que os filhos são livres para escolher os beneficiados, mas revelou como abordam os prefeitos: “Você quer dinheiro? Quer, mas chame então o pastor da Assembleia de Deus”.

No ano passado, o deputado Paulo Freire Costa teve acesso a R$ 16 milhões em emendas, valor destinado a cada um dos congressistas. Ele indicou verbas para 26 beneficiários, incluindo R$ 395 mil para Campinas, onde é pastor, e R$ 600 mil para dois municípios (Bilac e Santópolis do Aguapeí) na modalidade transferência especial, apelidada de “pix orçamentário” por repassar um “cheque em branco” para prefeituras sem fiscalização federal.

 

Templo

Apesar do apoio a Bolsonaro, José Wellington já foi próximo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, hoje favorito nas pesquisas de intenção de voto para a disputa ao Planalto. Na reunião em que discorreu sobre as emendas estavam presentes pré-candidatos em outubro, incluindo o deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO), aliado de Bolsonaro. Aos subordinados, José Wellington costuma dizer que ora por todos e dá espaço a concorrentes de diferentes partidos no púlpito do templo.

Nos últimos anos, a Assembleia de Deus do Belém, uma das vertentes da denominação no Brasil, viu outras alas ocuparem espaços políticos no Congresso. A presidência da bancada evangélica na Câmara passou ontem das mãos do deputado Cezinha de Madureira para as de Sóstenes Cavalcante, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (mais informações nesta página). As duas igrejas são consideradas “irmãs” do Belém, mas disputam poder onde estão instaladas.

Aos líderes, José Wellington expôs a preocupação com o apoio de pastores a candidatos que não são da Assembleia de Deus e apontou o pagamento de emendas como forma de dar força aos nomes escolhidos para representar os fiéis no Legislativo. “Meus irmãos, trabalhem para eleger os nossos irmãos na fé, procurem eleger os nossos irmãos na fé. Glória! Seja fiel a este nome: Assembleia de Deus no Brasil.”

A chancela dos recursos pelos pastores serve, nas palavras do patriarca assembleiano, “para evitar qualquer nuvem negra sobre o comportamento dos nossos companheiros”. José Wellington fez um alerta para que os pastores não aceitem emendas diretamente para as igrejas, ou seja, a intermediação tem de ser feita para destinar recursos às prefeituras ou a outras instituições. “A igreja não precisa de dinheiro do Estado”, insistiu.

Procurado pela reportagem, o pastor confirmou que põe líderes da igreja em contato com prefeitos beneficiados por emendas de seus filhos parlamentares, mas negou troca de favores. “Quando o prefeito de uma cidade precisa de uma verba, é evidente que nós mandamos o pastor da nossa igreja para que ele tenha conhecimento com o prefeito. O nosso deputado vai entender, naturalmente, se a verba for coisa lícita, for necessária, mas pelos canais oficiais”, disse ele. “A igreja não tem qualquer compromisso político.”

Ao admitir que a igreja lança candidatos e pede voto para os fiéis, José Wellington disse ser preciso manter a doutrina. “O candidato da minha igreja, eu ponho ele no púlpito, eu ponho ele na minha casa, eu ponho ele no meu carro, eu ponho ele onde eu quiser. Outros candidatos de fora, não”, afirmou. “Quem trouxe a política para o ministério da Assembleia de Deus fui eu porque entendi que existem interesses da igreja, especialmente legais. Alguns deputados estão fazendo coisas meio marotas contra nossa doutrina pública, que precisamos manter.”  Fonte: https://politica.estadao.com.br

A defasagem da imunização infantil em um país mundialmente reputado por sua cobertura vacinal é uma anomalia que tem nome e sobrenome

 

Conforme apurou o Estadão, com 15 dias de campanha de imunização infantil, o Brasil poderia ter vacinado 75% das crianças, mas vacinou apenas 10%. O SUS teria capacidade de aplicar 1 milhão de doses por dia, mas a média está em 130 mil. Neste ritmo, a campanha levará seis meses. As causas são múltiplas – escassez de imunizantes, falhas de planejamento, desinformação –, mas apontam para um mesmo epicentro: o Palácio do Planalto.

A defasagem, que coincide com o retorno às aulas e o aumento das mortes e da pressão hospitalar pela variante Ômicron, é tanto mais chocante quando se considera que o Brasil tem uma infraestrutura e uma cultura vacinal, sobretudo infantil, mundialmente reputadas. Esse sistema prevaleceu na imunização dos adultos, que aderiram massivamente à vacinação, mas, justamente na hora de vacinar as crianças, sua resistência imunológica começa a dar mostras de comprometimento ante a virulência do presidente e suas hostes negacionistas.

Há meses a imunização infantil está em curso nos países desenvolvidos. Entre os vizinhos, o Chile já vacinou 77% de suas crianças e a Argentina, 72%. Não fosse o descaso do governo, boa parte das crianças teria começado o ano letivo já imunizada com duas doses. Mas as primeiras doses só chegaram à maioria das cidades no dia 17, um mês após a aprovação da Anvisa. Somadas as vacinas em estoque e contratadas, 5,5 milhões de crianças ainda não têm vacina garantida. O Instituto Butantan afirma ter 10 milhões de doses para pronta entrega. Mas, no caso da Coronavac, a desídia de Jair Bolsonaro pela vacinação se soma ao seu temor de associá-la ao governador de São Paulo, João Doria, seu concorrente na eleição.

Em ano eleitoral, a politicagem combinada à incompetência cria uma tempestade perfeita que ameaça as crianças e dá sobrevida ao vírus. A sabotagem bolsonarista à vacinação adulta está se repetindo na infantil, mas, qual uma nova variante, com mais eficiência e virulência.

A quantidade e a sofisticação das informações falsas estão muito maiores do que no ano passado. As investidas contra a imunização infantil são tanto mais graves na medida em que hoje se tem mais informação sobre a segurança e eficácia das vacinas, e são especialmente cruéis, por manipularem os instintos de proteção dos pais, produzindo o efeito inverso de expor seus filhos a riscos evitáveis.

Jair Bolsonaro e seu sabujo no Ministério da Saúde têm feito – quase que literalmente – o diabo para incentivar a hesitação vacinal. Bolsonaro já disse que nenhuma criança brasileira morreu de covid, mas, após os acidentes de trânsito, a doença foi a principal causa de morte de crianças, cerca de 600, e as taxas de mortalidade são de 5 a 10 vezes maiores do que na Europa ou EUA. Além disso, o presidente questionou a honestidade dos técnicos da Anvisa e faz terrorismo sobre os efeitos adversos da vacina em aberrante contraposição aos consensos pediátricos sobre riscos e benefícios. Ainda hoje o Ministério da Saúde dá sinais trocados sobre a eficácia e a segurança das vacinas e faz campanha para condicionar a vacinação infantil a um atestado médico inédito na cobertura vacinal brasileira.

Bolsonaro – que, em vez de esboçar um gesto de compaixão aos aflitos pelo vírus, lhes reservou apenas escárnio – foi às redes sociais se solidarizar com um podcaster americano notório por disseminar teses negacionistas e que hoje é pivô de um debate sobre responsabilidade editorial e liberdade de expressão. Tivesse o presidente um currículo liberal, vá lá, mas quando esse “paladino da liberdade” é o mesmo que prestigia torturadores e instrumentaliza o Ministério da Justiça para perseguir críticos, a manobra para excitar suas bases eleitorais se mostra indisfarçável. “Prefiro morrer a perder minha liberdade”, bravateou recentemente. Esse risco inexiste. Mas a sua defesa insana de uma suposta “liberdade individual” de se infectar e infectar os outros, que já condenou inúmeros brasileiros à morte, agora está ameaçando aqueles que nem sequer têm a liberdade de escolher entre se imunizar ou se expor ao vírus mortal: as crianças. Fonte: https://opiniao.estadao.com.br

 

Os candidatos Eduardo Leite, Arthur Virgilio e João Doria nas prévias tucanas | Foto: Divulgação

 

Por Bela Megale

Coordenador das prévias do PSDB, o ex-deputado federal Marcus Pestana afirmou à coluna que faz parte do grupo de filiados que não conseguiu votar na eleição interna do partido. Pestana disse que só dois motivos podem explicar a instabilidade do sistema que impediu a conclusão da escolha do tucano que disputará a eleição para Presidência em 2022: “incompetência ou ataque hacker”.

— As empresas foram contratadas para prestar esse serviço e não criaram nenhuma tecnologia nova. O trabalho foi implementar sistemas que já existem. Há duas opções para explicar a falha: incompetência ou ataque hacker — disse Pestana à coluna.

As empresas responsáveis pelo desenvolvimento do aplicativo de votação das prévias do PSDB chegaram a sugerir que o processo acontecesse ao longo de três dias, para que os 45 mil filiados pudessem participar. A eleição interna da legenda estava marcada para este domingo (21), mas terminou frustrada por problemas na ferramenta. Apenas 10% dos inscritos conseguiram votar e a eleição interna foi suspensa.

Pestana informou que a própria Fundação de Apoio à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Faurgs), que desenvolveu o aplicativo, e a empresa de segurança cibernética Kryptus, responsável pela sua auditoria, voltaram atrás na proposta de três dias de votação. A avaliação feitas por ambas era que o longo período deixaria o sistema mais vulnerável a ataques hackers, em especial nas madrugadas.

A ferramenta apresentou instabilidade desde a manhã deste domingo, o que fez o prazo do término da votação ser estendido das 15h para as 18h. O início foi às 7h. Com a permanência do problema, a votação foi suspensa. Concorrem ao posto os governadores João Doria (São Paulo), Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio. Fonte: https://blogs.oglobo.globo.com

Negacionismo como critério

Ao revogar condecorações de cientistas respeitados, Bolsonaro deixou claro que só respeita quem aplaude o charlatanismo

 

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

Ao excluir dois respeitados cientistas brasileiros da lista dos pesquisadores que foram agraciados com condecorações da Ordem Nacional do Mérito Científico, Marcus Guimarães Lacerda e Adele Schwartz Benzaken, apenas por não endossarem as bandeiras políticas do governo na área da saúde pública, o presidente Jair Bolsonaro foi muito além da grosseria e do primarismo que sempre o caracterizaram. 

Acima de tudo, revelou a dimensão do inconsequente negacionismo científico de seu governo, o que ocorreu no mesmo dia em que o País totalizou mais de 610 mil mortes causadas pela pandemia. Especialista em infectologia, Lacerda desenvolveu pesquisas que revelaram não haver benefícios no uso de altas doses de cloroquina em pacientes graves de covid-19. Especialista em HIV e aids, consultora da Organização Mundial da Saúde (OMS) e premiada pela Unesco e pelo Unicef, Benzaken formulou políticas para prevenção, vigilância e controle de infecções sexualmente transmissíveis e preparou uma cartilha voltada para a saúde de homens transexuais.

Com essa iniciativa desastrosa, do ponto de vista da liturgia de seu cargo, e torpe, do ponto de vista moral, Bolsonaro também acabou gerando uma fortíssima reação por parte da comunidade científica. Ela tem tudo para ser mais uma prova arrasadora para fundamentar as contundentes acusações feitas a ele pelo relatório da CPI da Covid-19, recém-concluída pelo Senado.

Em desagravo a Lacerda e Benzaken, que foram excluídos da Ordem Nacional do Mérito Científico dias após seus nomes terem sido anunciados por um decreto assinado pelo próprio Bolsonaro como agraciados com honrarias oficiais “na classe de comendador”, por seus “conhecimentos sobre saúde pública”, mais de 20 cientistas também recusaram a homenagem que lhes seria prestada. Em carta pública enviada ao Palácio do Planalto, afirmaram que, apesar de as condecorações da Ordem Nacional do Mérito Científico serem as mais importantes na vida acadêmica do País, eles não poderiam aceitá-las por estarem sendo concedidas por um governo que vem boicotando reiteradamente as recomendações da epidemiologia e da saúde coletiva. 

“Enquanto cientistas, não compactuamos com a forma pela qual o negacionismo em geral, as perseguições a colegas cientistas e os recentes cortes federais para a ciência e tecnologia têm sido utilizados como ferramentas para fazer retroceder os importantes progressos alcançados pela comunidade científica brasileira nas últimas décadas”, declararam os cientistas, com o apoio de entidades médicas, como a Sociedade Brasileira de Imunologia, e de organismos vinculados à Organização das Nações Unidas (ONU). 

Com esse duro protesto, que desmoraliza ainda mais a imagem do País no exterior, a comunidade científica brasileira desnudou a principal diretriz de Bolsonaro em matéria de saúde pública: em seu governo, não há lugar para quem não faz parte do charlatanismo por ele estimulado nem para quem se recusa a tocar bumbo para aplaudir seu negacionismo. Fonte: https://opiniao.estadao.com.br

 

Há 132 anos, o marechal Deodoro da Fonseca se juntava a tropas de rebelados no Campo de Santana, no Centro do Rio. Sem resistência, monarquia caiu, e Dom Pedro II e sua família foram expulsos do país no dia seguinte.

 

O Brasil comemora nesta segunda-feira, 15 de novembro, o Feriado da Proclamação da República.

Há exatos 132 anos, em 1889, o marechal Deodoro da Fonseca se juntava a tropas de rebelados no Campo de Santana, no Centro do Rio, com os quais depôs o gabinete de Dom Pedro II. O imperador e sua família partiriam em exílio para a Europa no dia seguinte.

O 15 de novembro é feriado nacional desde 1949, segundo a Lei Federal 662, do presidente Eurico Gaspar Dutra.

 

O texto também fixava como datas comemorativas os dias:

1º de janeiro — Confraternização Universal;

21 de abril — Tiradentes;

1º de maio — Dia do Trabalho;

7 de setembro — Independência do Brasil;

2 de novembro — Finados;

25 de dezembro — Natal.

 

‘Abram esta merda!’

Ao contrário do grito do Ipiranga de Dom Pedro I no 7 de setembro de 1822, com o qual declarou a Independência, Deodoro não foi de muitas palavras naquele novembro, 67 anos depois.

“O problema é que não houve uma ‘proclamação da República’”, ensina o historiador Milton Teixeira.

Na tarde daquele 15 de novembro, Deodoro, mesmo se recuperando de uma crise de asma, decidiu apoiar o crescente movimento contra Pedro II. Vizinho do então chamado Campo da Aclimação, desceu de casa e se encontrou com militares enfileirados diante do Quartel-General do Império — onde hoje é o Palácio Duque de Caxias.

“Deodoro não proclamou a República de imediato. Ele queria derrubar o presidente do conselho de ministros, Afonso Celso de Assis Figueiredo. Derrubou, mandou prendê-lo. E pediu que o imperador designasse um substituto. Aí o imperador designa Gaspar da Silveira Martins, que era arqui-inimigo do Deodoro”, lembra o professor.

“Deodoro recebe a notícia, à noite, e diz: ‘Então derruba logo todo o sistema’”, emendou.

Quando Deodoro chegou ao Quartel-General do Exército, a porta estava fechada. “‘Abram esta merda!’”, cita Milton.

Afonso Celso acabou deposto. Não muito longe dali, no Arco do Teles, na Praça 15, a Câmara de Vereadores realizava a solenidade que pôs fim ao Império do Brasil.

“A República, na verdade, foi proclamada à noite. Por isso, na bandeira do Brasil, estão as estrelas visíveis na noite do dia 15”, destaca.

 

Contexto para a queda do Império

O regime monárquico já não correspondia às vontades da população. Em paralelo, desde a Guerra do Paraguai, nos anos 1870, o Exército pleiteava mais participação no governo — no que não era atendido.

Também havia atritos entre Pedro II e a elite agrária, que exigia indenização pela libertação dos escravos com a Lei Áurea, de 1888.

E crescia no Sudeste, que substituiu o Nordeste como polo econômico, a influência do positivismo — de onde veio o lema “Ordem e progresso” estampado em nossa bandeira. Fonte: https://g1.globo.com

Trump perdeu as eleições, presidente da Tanzânia morreu de covid, Boris Johnson mudou estratégia após adoecer e Bolsonaro é acusado de crimes contra a humanidade

 

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

No início da pandemia, eles formavam a “Aliança do Avestruz”, clube informal de líderes que optaram por enfiar a cabeça no chão e fingir que o coronavírus era uma gripe passageira. Hoje, com a vacinação e a redução das contaminações, a estratégia parece ter sido um tiro n’água. Donald Trump saiu das urnas derrotado nos EUA. Jair Bolsonaro foi acusado de charlatanismo e crimes contra a humanidade no Brasil. E o presidente da Tanzânia, John Magufuli, morreu de covid-19.

O grupo reúne ainda outros populistas – de esquerda e de direita –, como Andrés Manuel López Obrador, do México, o britânico Boris Johnson, Daniel Ortega, na Nicarágua, e os ditadores Alexander Lukashenko, de Belarus, e Gurbanguli Berdymukhamedov, do Turcomenistão. Até agora, Bolsonaro é o único acusado formalmente de crimes durante a pandemia.

A reação é variada, segundo analistas, porque depende da reação ao negacionismo em cada sociedade. “Há fatores que fazem com que a taxa de aprovação de um governo reaja de forma mais ou menos sensível à posição negacionista de um governante, como a presença de uma oposição coesa, uma sociedade civil vibrante e instituições funcionais capazes de articular propostas alternativas e de incentivar a correção de curso, quando necessário”, disse Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP).

Essa tendência é observada quando comparados os casos de líderes negacionistas em países democráticos e autocracias. Bolsonaro passou pelo escrutínio de uma CPI e a condução da pandemia foi um fator determinante para a derrota de Trump, em 2020. Mas em regimes autoritários, que mantêm uma fachada democrática, a contestação é quase nula.

 

Paralelos

“É impossível listar todos os absurdos ditos por esses demagogos populistas e tiranos. Todos os líderes mundiais cometeram erros, mas há algo realmente nefasto nas manipulações desses líderes mais infames”, escreveu Frida Ghitis, colunista do Washington Post, ao tentar apontar quem foi o pior desempenho.

No Turcomenistão, Berdymukhamedov, que durante a pandemia recomendou a inalação de uma erva contra a covid e proibiu o registro de casos e menções à doença no país, foi reeleito para mais um mandato com 98% dos votos, mesmo após 15 anos no poder. Na Nicarágua, Ortega está próximo de conquistar seu quinto mandato como presidente, após prender sete pré-candidatos.

A tendência ao negacionismo científico se manifestou ao longo da pandemia, principalmente, em países autoritários ou liderados por governantes com alguma tendência populista. Alguns paralelos entre populistas e autocratas explicam essa relação, de acordo com Stuenkel. “Uma questão que une essas lideranças é a tentativa de concentrar o poder no Executivo, de estabelecer estruturas decisórias com alto poder no gabinete, e todos possuem algum grau de messianismo, uma narrativa de que só eles são capazes de lidar com os desafios.”

Por serem personalistas e centralizadores, projetos com características autoritárias e populistas afastam a possibilidade da revisão das ações adotadas pelo governo, pois funcionariam como uma admissão de culpa dos governos. No entanto, nem todo populista ou autocrata teve uma abordagem negacionista. 

Vietnã e China controlaram a pandemia com relativo sucesso, apesar de sistemas políticos fechados, enquanto Reino Unido e EUA, apoiados em mecanismos de freios e contrapesos bem estabelecidos, impediram que atitudes negacionistas se espalhassem e estão entre os pioneiros na vacinação. Boris Johnson, por exemplo, abandonou o clube após passar alguns dias com covid na UTI.

 

Mudança

No começo da pandemia, o líder britânico afirmou que a Inglaterra apostaria em uma estratégia de imunidade de rebanho. Após contestações de autoridades médicas e de projeções estatísticas que apontaram a tragédia que ocorreria sem medidas restritivas, Johnson voltou atrás e se tornou um dos primeiros líderes a colocar nas ruas uma campanha de vacinação em massa, em dezembro de 2020. 

“No caso de Johnson, houve uma mudança, um processo de aprendizagem. Essa é outra marca registrada de democracias com instituições resilientes, que pressionam os líderes quando eles cometem erros, e há um incentivo para que haja uma correção de curso”, afirma Stuenkel.

Na Tanzânia, o negacionismo do presidente Magufuli foi levado às últimas consequências. “O coronavírus, que é o demônio, não pode sobreviver em um corpo de Cristo. Vai queimar instantaneamente”, disse ele, no início da pandemia. Entre maio de 2020 e julho de 2021, o país não registrou nenhum caso ou morte por covid, mas o número de doenças pulmonares disparou. Magufuli se opôs ao distanciamento social e rejeitou as vacinas – que, segundo ele, eram uma “conspiração ocidental para saquear a África”. 

Em vez da imunização, Magufuli prescreveu uma combinação de inalação de vapor e oração contra o vírus. No começo deste ano, ele adoeceu. Após sua última aparição pública, em 27 de fevereiro, opositores e jornalistas especularam que ele estaria se tratando da covid-19 no exterior. Magufuli morreu em 17 de março. Oficialmente, a causa da morte não foi revelada. O governo disse apenas que ele sofria de “problemas cardíacos”.  Fonte: https://internacional.estadao.com.br