Ao dizer que não confia na Justiça, que ora julga Bolsonaro, Tarcísio esquece sua obrigação, como governador e eventual postulante à Presidência, de preservar as instituições democráticas

 

“Infelizmente, hoje eu não posso falar que confio na Justiça, por tudo o que a gente tem visto”, declarou o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, em entrevista ao jornal Diário do Grande ABC a propósito do julgamento de seu padrinho político, o ex-presidente Jair Bolsonaro. É altamente problemático que a principal autoridade do Executivo paulista, com pretensões de presidir a República, expresse desconfiança sobre o Poder Judiciário.

Muito ainda pode ser e certamente será dito sobre a qualidade do julgamento de Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal, e é evidente que o governador de São Paulo, como qualquer cidadão, tem o direito de criticar as decisões daquela Corte. Mas, ao contrário dos cidadãos comuns, o sr. Tarcísio de Freitas não pode, de maneira leviana, manifestar desconfiança sobre o Judiciário, sugerindo que ali se tomam decisões políticas. Um chefe de Executivo como o governador paulista deve saber que é seu dever preservar a imagem das instituições democráticas, mesmo que se sinta contrariado. Uma democracia em que reina a desconfiança sobre as instituições está a meio caminho de sua ruína.

Portanto, se ao sr. Tarcísio de Freitas interessa que a democracia seja fortalecida – e não há nenhuma razão para duvidar disso –, então ele deveria se empenhar ao máximo para que o Supremo seja visto como essencial na sustentação do Estado Democrático de Direito, e não como uma Corte que persegue seu padrinho político em razão de interesses políticos inconfessáveis, como o governador parece sugerir.

Deslegitimar o Supremo é algo próprio dos liberticidas bolsonaristas, mas jamais deveria sair da boca de um chefe de governo com responsabilidade diante do Brasil e da Constituição. Compreende-se a necessidade de Tarcísio de conquistar o eleitorado de Bolsonaro, mas, se o preço desse apoio é a desmoralização da democracia, o governador deveria se recusar a pagá-lo.

Infelizmente, contudo, o sr. Tarcísio de Freitas não só investe na tese da desconfiança a respeito do Supremo, como prometeu que, se chegar à Presidência, seu “primeiro ato” será indultar Bolsonaro. Ou seja, o governador considera que não há nada mais importante e urgente no País do que livrar o padrinho da cadeia, a despeito de todas as evidências de que o ex-presidente tramou contra a democracia.

Não é de hoje que o governador paulista tenta caracterizar o perdão a Bolsonaro como resultado de um acordo político com vista a “pacificar” o País. Na entrevista, disse que uma eventual anistia é “prerrogativa do Congresso” para construir uma “solução política”. Ora, em primeiro lugar, não há nada a ser “pacificado” no Brasil. O que há são os inconformados com a democracia, que há tempos tentam criar as condições para uma conflagração que lhes dê a oportunidade de consumar o tão desejado golpe.

Essa turma, que ora conta com a simpatia do governador de São Paulo, fez e faz campanha sistemática para desmoralizar o sistema de votação, atiçou caminhoneiros para fechar estradas e prejudicar a economia do País após a derrota de Bolsonaro em 2022 e invadiu as sedes dos Três Poderes para forçar um confronto que, em seus delírios, resultaria na tão desejada intervenção militar que destituiria o presidente Lula da Silva. Agora, pediu a uma potência estrangeira, os EUA, que castigasse o Brasil e os ministros do Supremo para impedir que Bolsonaro seja preso. A estes não pode ser reservada nenhuma condescendência. A impunidade para os golpistas, defendida pelo sr. Tarcísio, essa sim, teria o condão de conflagrar o País. Só a condenação exemplar de quem atentou contra a democracia fará o Brasil superar esta tenebrosa etapa de sua história. Não pode haver acomodação, sob qualquer pretexto – ingênuo ou cínico.

O governador Tarcísio, bem como os demais postulantes conservadores à Presidência, precisam urgentemente se descolar de Bolsonaro, caso queiram ser vistos como genuínos democratas. É preciso restabelecer os limites morais do que é permitido fazer para ganhar uma eleição. Parte do eleitorado pode ter se deixado seduzir pelo espalhafato dos golpistas e dos oportunistas craques em redes sociais, mas o Brasil só avançará de fato quando elegermos um presidente que tenha princípios e não abra mão deles em troca de um punhado de votos. Fonte: https://www.estadao.com.br

Cresceram as chances de a anistia ser pautada após dois personagens entrarem em campo em auxílio a Bolsonaro: Arthur Lira e Tarcísio de Freitas.

 

Jair Bolsonaro apareceu em frente à sua casa em Brasília, onde cumpre prisão domiciliar, nesta terça-feira (2) — Foto: Luis Nova/AP

 

Por Natuza Nery

Deputados do PT passaram a considerar seriamente a possibilidade de a anistia a Jair Bolsonaro ser pautada pela Câmara dos Deputados.

“Agora ficou sério”, disse um parlamentar ao blog sob condição de anonimato.

Nesta terça-feira (2), políticos passaram a ser alertados por aliados do Centrão de que o presidente da Câmara, Hugo Motta, estaria propenso a pautar o perdão logo após o julgamento da ação penal do golpe.

Nas últimas horas, dois personagens entraram campo em auxílio a Bolsonaro, mas por razões diferentes: Arthur Lira, ex-presidente da Câmara, e Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo.

Lira é uma espécie de bolsonarista do Centrão. E, na segunda-feira (1º), visitou o ex-presidente – preso em regime domiciliar.

Importante dizer que Lira ainda tem certa influência sobre grupos de deputados.

Já Tarcísio tenta se cacifar como o candidato sucessor de Bolsonaro nas eleições de 2026. Recentemente, deixou-se gravar dizendo que daria o perdão presidencial ao aliado caso fosse eleito para o Palácio do Planalto.

A ofensiva de Tarcísio vem depois de Eduardo Bolsonaro fustigá-lo por tentar assumir algum protagonismo nas negociações com o governo Trump após o tarifaço. Eduardo chegou a dizer que Tarcísio não possui o perfil desejado por bolsonaristas.

A movimentação do governador, portanto, é lida como uma tentativa de reverter esse cenário adverso.

Não é possível dizer, ainda, se sua estratégia dará certo. Mas é certo que seu engajamento mudou o status da empreitada da anistia de improvável para possível. Fonte: https://g1.globo.com

A democracia brasileira venceu

Início do julgamento de Bolsonaro e corréus no STF é o fim da indulgência com o golpismo que manchou a história republicana do País e a afirmação da força da Constituição sobre seus inimigos

 

O Supremo Tribunal Federal (STF) inicia hoje aquele que pode ser considerado, sem exagero, o julgamento mais importante de sua história. Estarão no banco dos réus o ex-presidente Jair Bolsonaro, ex-ministros de Estado e militares de alta patente que compõem o “núcleo crucial”, como classificou a Procuradoria-Geral da República, de uma tentativa de golpe com o objetivo de subverter a vontade popular manifestada nas urnas em 2022. É a primeira vez que um ex-presidente e membros de seu primeiro escalão enfrentam acusações tão graves à luz da Lei de Defesa do Estado Democrático de Direito – e com real perspectiva de condenação. Oxalá seja a última.

A originalidade do julgamento, no entanto, não se restringe às figuras diante de seus julgadores. De forma inédita, os dispositivos legais criados para substituir a famigerada Lei de Segurança Nacional serão aplicados por um tribunal civil em ação penal que envolve réus que tiveram grande proeminência política e militar no País. O simbolismo é inequívoco: a democracia brasileira, tantas vezes golpeada desde 1889, robusteceu-se a ponto de processar e julgar seus inimigos sem condescendência e, mais importante, sem recorrer a expedientes violentos. Trata-se de um enorme salto civilizatório.

É verdade que a condução dos inquéritos dos atos antidemocráticos e da Ação Penal (AP) 2.668 pelo STF não é isenta de falhas. A teoria da democracia defensiva, que norteou a resposta institucional da Corte aos ataques golpistas, por vezes resvalou em abusos, os quais este jornal não deixou de apontar e reprovar quando era o caso. A força da democracia reside no respeito à forma do Direito que a sustenta, vale dizer, na observância ao devido processo legal, mesmo, e sobretudo, quando em julgamento estão acusados de tramar para destruí-la. Mas, no geral, é de justiça reconhecer que o STF mais acertou do que errou, agindo com firmeza e celeridade. Fosse leniente, talvez já não vivêssemos sob a égide da Constituição de 1988.

Por óbvio que seja, é relevante notar que o julgamento só ocorre porque o golpe fracassou, fato que, por si só, atesta que a democracia já venceu seus inimigos, independentemente de seu desfecho. Fosse bem-sucedida a sedição, o STF não estaria exercendo hoje seu papel de guardião da ordem democrática, decerto teria sido rebaixado a mero aprisco de chancela judicial aos desígnios autoritários do sr. Bolsonaro e sua grei. Logo, o esperneio do ex-presidente pelas medidas cautelares a que foi submetido e pela eventual condenação faz parte de seu direito de defesa, mas não altera o principal: golpistas não serão anistiados de antemão, como tantas vezes ocorreu ao longo destes mais de 200 anos de Brasil independente, em especial militares. É do mais alto interesse das Forças Armadas, como instituições a serviço do Estado e do povo brasileiros, apoiar a condenação dos fardados que, comprovadamente, tomaram parte na intentona.

Nesse sentido, a comparação com os EUA é incontornável. O golpismo do presidente Donald Trump contou com a complacência de instituições que outrora foram a referência mundial de solidez institucional. Trump não só escapou de punição, como retornou à Casa Branca para um segundo mandato no qual promove com especial denodo a corrosão sistemática dos pilares que fizeram seu país ser o que – ainda – é. O Brasil trilha o caminho inverso.

Talvez por isso Trump esteja empregando o descomunal poder dos EUA para atacar o STF e salvar Bolsonaro de seu destino penal. Não por amizade, mas para impedir que no maior país da América Latina floresça um exemplo de resistência democrática que amplie o contraste com a genuflexão de parte das instituições americanas ao trumpismo. Poucos aguentariam essa pressão que o STF hoje suporta, mas, até aqui, a Corte dá mostras de firmeza exemplar.

Dito isso, convém não baixar a guarda. O julgamento é apenas o fim da etapa judicial de um lamentável capítulo de nossa história. Uma vez concluído, a pressão política por anistia aos eventuais condenados aumentará no Congresso. É preciso resistir a esse movimento de impunidade. Foi-se o tempo de acomodações e indulgência com golpistas nesta república que hoje, seja qual for o resultado do julgamento que se inicia, amanhece mais forte. Fonte: https://www.estadao.com.br

 

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal — Foto: Brenno Carvalho/ Agência O Globo

 

Por Gustavo Maia

 — Brasília

Flávio Dino se envolveu em uma confusão dentro de um avião na tarde desta segunda-feira, antes de o voo partir de São Luís rumo a Brasília, por volta das 16h40.

Aos berros, uma mulher partiu para cima de Dino e tentou agredi-lo. Mas foi contida pelo segurança do ministro. Ela gritou que "não respeita esse tipo de gente" e que "este avião está contaminado".

Ela também perguntou: "onde o comunismo deu certo?". Dino, que já foi governador do Maranhão pelo Partido Comunista do Brasil, estava sentado e trabalhando, de cabeça baixa, e ficou calado.

A assessoria do ministro afirmou que a passageira gritava frases como "o Dino está aqui", apontando para o ministro, "em clara tentativa de incitar uma espécie de rebelião a bordo".

A mulher foi advertida pela aeromoça-chefe para parar. Na sequência, um agente da PF entrou no avião, da Latam, e conversou discreta e educadamente com o ministro. E informou ao segurança de Dino que comunicaria o ocorrido à superintendência da corporação em Brasília.

O policial então foi até a mulher que o abordou e perguntou seu nome. Uma passageira que presenciou a cena relatou à coluna que o policial comentou que "vivemos num país democrático, mas certos comentários devem ser evitados para que os ânimos não ficassem inflamados".

Ele então citou o direito internacional e disse que qualquer manifestação durante o voo seria relatado à polícia em Brasília, destino do voo.

Depois que o avião pousou, a mulher foi levada por agentes da PF para prestar depoimento. Antes de deixar o avião, ela pediu que outros passageiros testemunhassem a seu favor, se ela precisasse.

Disse a mulher ao ser conduzida pelos policiais:

— Cadê o celular de vocês, gente, para ter filmado essa palhaçada aqui, para pegar uma mulher? Parece que vieram pegar o Bolsonaro aqui dentro.

O entrevero ocorreu um dia antes de Dino participar do julgamento de Jair Bolsonaro e mais sete aliados no STF. Ele é um dos cinco integrantes da Primeira Turma do Supremo, ao lado de Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia, Cristiano Zanin e Luiz Fux. Fonte: https://oglobo.globo.com

Pode-se alegar, com razão, que retornamos ou que entramos numa nova era de imposição de força

 

Por Cláudio Finkelstein

Vivemos numa era de conflitos globais. Israel e Ucrânia dominam os noticiários, mas há uma patente realidade de outros conflitos, seja no Sudão, Síria, Iêmen, Mianmar, Congo, com tensão na Índia e Paquistão. É o retorno da corrida armamentista hemisférica, uma espécie de paz armada contemporânea, num ambiente de medo, sem uma nação hegemônica disposta ou apta a instaurar uma nova pax romana. A guerra é detestável, sempre, mas é uma realidade inconteste e cada vez mais perceptível. Do Bill of Rights, de 1689, à Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), de 1948, busca-se afirmar uma situação que estabeleça padrões mínimos de decência e proteção ao ser humano. É a “era dos direitos humanos” que lamentavelmente não mais se percebe. A violência internacional, assim como a doméstica, vem ocupando cada vez mais os noticiários e se aproximando de todos, sem uma resposta adequada.

Conforme alertado pela Cruz Vermelha Internacional, em 2024, havia ao menos 120 conflitos armados no mundo e, de acordo com o Relatório de 2024 do Conselho Norueguês de Refugiados, 66 milhões de pessoas afetadas por conflitos ou tragédias, sendo que 1.143.000 delas no Brasil. A triste constatação é que o imperativo da paz para uma grande parte da população global está longe de ser alcançado.

A realidade é que tratados, assim como decisões dos tribunais internacionais são cotidianamente desrespeitados, sem quaisquer consequências perceptíveis. Áreas residenciais, escolas, hospitais, parques e praças públicas tornam-se bases e campos de batalha, por vezes com escudos humanos e infrações ao Direito Humanitário de lado a lado.

Mercenários atuam livremente e com frequência são contratados por Estados. O limiar da tragédia é o poderio nuclear. Bombas atômicas não foram mais usadas desde Hiroshima e Nagasaki, mas seu poder destrutivo aumentou exponencialmente e a proliferação de nações que as detêm tornou-se o principal problema de segurança global. A guerra à distância não se limita a mísseis e drones destrutivos, envolve também preparação da inteligência e espionagem, ataques cibernéticos, manipulação do GPS e de sinal de internet, tão ou mais destrutivos, disruptores e mortíferos do que bombardeios.

Assim como a guerra, as relações políticas, culturais, sociais e econômicas evoluíram consideravelmente desde a segunda metade do século passado, causando inúmeras alterações nos costumes. Alguns evoluíram, outros involuíram. A guerra, infelizmente, evoluiu, ao menos tecnicamente e em poder destrutivo, com armamentos de destruição em massa e químicos e com táticas ainda mais devastadoras, forçando os Estados beligerantes a se adaptarem a essa nova situação, sem que as nações do globo discutissem suas repercussões jurídicas.

Lidar com esses conceitos passou a compor efetivamente a prática dos Estados em suas relações recíprocas, na maioria das vezes involuntária, impulsionada pelo medo de retaliações das nações hegemônicas. Diplomacia e política se imiscuíram no cenário externo, reconfigurando as relações com nações periféricas que não têm voz ativa ou representatividade no atual cenário global.

Afinal, nada desta triste realidade existia à época da negociação das Quatro Convenções de Genebra de 1949. As relações de força entre os blocos capitalista e socialista eram parelhas e o “terceiro mundo” não tinha lugar de fala. O conceito de ameaça existencial não era regulado, tampouco o de ataque preventivo, guerra por procuradores ou a imposição unilateral de sanções, noções que com o passar do tempo passaram a integrar o cotidiano de várias nações, mas estranhas ao Direito da Guerra. O comércio se fortaleceu com a Organização Mundial do Comércio e viu sua derrocada a partir de 2020, escalado agora com o protecionismo da era Trump II. A ONU tornou-se refém de cinco Estados com interesses ambíguos e antagônicos, restando como foro de negociações, mas sem um ordenamento necessário ao exercício de sua função básica: manter a paz no globo.

Na visão do Direito das Gentes, o costume nas relações internacionais, mesmo que imposto à comunidade global, mas praticado consistentemente há décadas, passa a integrar o Direito Internacional, devendo ser considerado por todos. É indiscutível que o costume é uma fonte primária de Direito e que a dinâmica do Direito Internacional não reconhece escala hierárquica entre suas fontes primárias, podendo o costume, inclusive, revogar qualquer tratado ou prática anterior. E essa é a nossa realidade. Pode-se alegar, com razão, que retornamos ou que entramos numa nova era de imposição de força, de bullying institucionalizado, do direito do mais forte, em que o conceito ocidental de “nação responsável” é decidido a portas fechadas. É lamentável constatar tudo isso, mas é essencial discutir esses novos contornos do Direito Internacional para entender essa realidade e combatê-la. Fonte: https://www.estadao.com.br

Manifestações dissonantes e incômodas, mesmo quando incivis, são parte do custo da democracia

 

Por Júlio Barroso e Leonardo Gomes Penteado Rosa

A despeito de o Brasil não possuir uma tradição lá muito robusta de liberdades civis, a redemocratização galvanizou o desejo do País de abandonar a censura e a promulgação da Constituição de 1988 inaugurou esperanças de desenvolvimento de uma cultura política tolerante e afirmativa das liberdades fundamentais.

Quase 37 anos depois da promulgação da Constituição, contudo, um conjunto heterogêneo de decisões judiciais recentes delineia um cenário pouco auspicioso para a liberdade de expressão. A inconstitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da internet, decidida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), abre as portas para a trivialização da censura terceirizada e sem critério para as plataformas. Em fins de 2024, decisão monocrática do mesmo tribunal ordenou a retirada de circulação de obras jurídicas por objetar seu conteúdo. Mais recentemente, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenou um semanário a indenizar ministro do STF, afirmando que a publicação abusou da ironia na crítica ao ministro. Em instâncias inferiores, tivemos condenação de jornalista por divulgar salários de desembargadores. Poderíamos continuar enumerando casos afins, mas esses exemplos já são suficientes para evidenciar um panorama pouco amigável para aquela que podemos considerar a rainha das liberdades públicas, sem a qual as demais tendem a murchar. É especialmente preocupante que tais restrições venham justamente de diferentes instâncias do Judiciário, poder ao qual, no sistema brasileiro, cabe proteger as liberdades fundamentais, se necessário de modo contramajoritário e contra o clima dominante de opinião.

Defensores das medidas restritivas objetam apontando a moralidade nefasta nas expressões censuradas: em alguns casos, isso é inegavelmente verdade. No entanto, essa justificativa, além de excessivamente genérica, assume que ao Judiciário cabe uma espécie de tutela moral dos cidadãos. É preciso mais do que reprovação moral do conteúdo da expressão para justificar a censura. Não se trata aqui de defender uma versão “absolutista” da liberdade de expressão – sequer há quem defenda que a expressão jamais deve ter limites. Trata-se de reconhecer que, neste assunto, o Judiciário tem sido excessivamente restritivo e arbitrário.

O excesso de restrição deve-se, em parte, ao mal-entendido segundo o qual a liberdade de expressão deve ser constrangida pelo dever de civilidade. Uma importante função da liberdade de expressão é salvaguardar o debate público, que, pela sua natureza, costuma ser áspero (embora não tenha de sê-lo sempre). O dever moral de civilidade jamais deve ser imposto como uma obrigação jurídica, justamente por ser incompatível não com uma medida “absolutista” da liberdade de expressão, mas com parâmetros internacionais elementares de entendimento dessa liberdade em democracias. Lembremo-nos de que direito é, fundamentalmente, regra. Um bom teste para a regra que se aplaude é colocar-se do outro lado do balcão e pensar como os próprios adversários poderão aplicar aquela regra se e quando chegarem ao poder.

Já a arbitrariedade resulta da indisposição e da incapacidade dos tribunais de estabilizar regras de interpretação da liberdade de expressão. Cabe ao Judiciário – especialmente aos tribunais superiores – estabelecer em jurisprudência critérios bem delineados e regras claras de intervenção que se apliquem isonomicamente a todos. Diante do caso concreto, o espaço decisório de cada juiz é hoje quase total, e muitas vezes os magistrados simplesmente mencionam o contravalor de sua preferência como razão suficiente para a censura.

Para agravar o quadro, há outro mal-entendido: a liberdade de expressão foi capturada na polarização política que vive o País. Parte da direita faz uma defesa instrumental e retórica dessa liberdade, enquanto parte da esquerda acredita que a bandeira pertence de fato a seus adversários (exceto quando se vê censurada). Tem sido quase universal a disposição para aplaudir a censura dos adversários políticos enquanto se reivindica liberdade para seu próprio lado. Em outras palavras, a fronteira entre a censura vista como legítima e a ilegítima quase sempre coincide com a clivagem que polariza o País. A censura do que penso é censura, mas a censura do outro é democracia ou justiça. É um equívoco político. Apesar de a liberdade não se vincular a uma agenda política substantiva, foi e continua sendo crucial para dissidentes e lutadores sociais das mais variadas estirpes. Mas não há uma liberdade “de esquerda” ou “de direita”: o que a liberdade de expressão promete é preservar o caráter aberto do sistema político. Manifestações dissonantes e incômodas, mesmo quando incivis, são parte do custo da democracia.

Esperamos que a atual crise judicial da liberdade de expressão no Brasil seja apenas um soluço e que a sociedade brasileira e suas instituições se reconciliem com essa liberdade, reconhecendo-a como o pilar fundamental do regime democrático, com o qual essa liberdade se confunde. Fonte:  https://www.estadao.com.br

Bolsonaro mobiliza multidões ao capitalizar o ressentimento de muitos brasileiros. É fácil chamá-los de ‘golpistas’; difícil é admitir que abusos em nome da democracia alimentam esse azedume

 

As manifestações convocadas por apoiadores de Jair Bolsonaro no dia 3 passado revelaram, mais uma vez, a notável resiliência do populismo reacionário no Brasil. Embora envolto em escândalos e acusado de liderar uma conspiração golpista, o ex-presidente segue mobilizando parcelas expressivas da opinião pública. Compreender a capacidade de Bolsonaro de convocar multidões, mesmo submetido a tornozeleira eletrônica e em meio a uma ação penal no Supremo Tribunal Federal (STF), exige mais do que sarcasmo ou desprezo. Exige inteligência. Exige, sobretudo, que se investiguem as causas profundas da permanência desse movimento, que, a despeito de sua agenda antidemocrática, segue se retroalimentando de ressentimentos reais, abusos institucionais e frustrações legítimas.

A tragédia da república brasileira é que seus principais adversários se enxergam como encarnações do Bem. Em nome da civilização contra a barbárie, justificam-se arbitrariedades. Em nome da democracia, tolera-se a censura. Em nome da justiça social, contorna-se a lei. Em nome do combate ao autoritarismo, redobra-se o autoritarismo. É esse ciclo de descomedimento, intransigência e pretensão ao monopólio da moral que alimenta, do lado oposto, o mesmo espelho deformado. O Brasil segue refém de duas formas de radicalismo: uma grotesca, a outra presunçosa. Ambas se enxergam como o lado certo da História. Ambas agem como se estivessem acima da lei.

Jair Bolsonaro e seus filhos e aliados responderão, com razão, por tentativa de golpe de Estado e por mobilizar um governo estrangeiro contra instituições nacionais. Os indícios reunidos evidenciam que o clã Bolsonaro cruzou linhas vermelhas. Mas também é indisputável que o STF, notadamente por meio do ministro Alexandre de Moraes, cruzou inúmeras outras. O Supremo transformou-se em ator político de primeira ordem, instituiu inquéritos sem objeto definido, decretou prisões preventivas abusivas, censurou jornalistas e age com tamanha ambivalência hermenêutica que a interpretação de suas próprias decisões passou a depender do humor de seus ministros. O dedo do meio de Moraes no camarote de um estádio de futebol resume o ethos de um STF que confunde coragem com prepotência e mandou às favas a virtude da prudência.

Essa metamorfose da Corte em órgão de vanguarda, fiador do governo e promotor de causas identitárias não é indiferente à polarização política. Ela a inflama. Como também o faz a esquerda no poder, incapaz de aprender com os erros do passado. O PT, em especial, nunca fez a autocrítica exigida por sua responsabilidade nos escândalos que solaparam a credibilidade do sistema político. Sua resposta à oposição tem sido a de escorar-se no Supremo e apostar no discurso que opõe ricos e pobres. Sua visão de mundo permanece calcificada numa moral binária, que reduz adversários e dissidentes a “fascistas” e inviabiliza esforços de conciliação.

Parte considerável das elites intelectuais também perdeu o senso de proporção. A hegemonia progressista nas academias, redações e classe artística multiplica manifestações de escândalo moral contra críticos conservadores, mas é permissiva com os abusos cometidos por aliados. Cultiva uma retórica de superioridade moral que transita entre o iluminismo autoproclamado e o escracho público. Com isso, não apenas se aliena de amplas parcelas da população, como contribui para desmoralizar a indignação legítima, franqueando munição a quem sabe instrumentalizar ressentimentos.

Não se combate o populismo reacionário com populismo judicial ou messianismo progressista. Nenhum excesso de um lado justifica os do outro. A democracia exige o fim dos ciclos de vingança. Um novo pacto institucional, fundado na responsabilidade recíproca, na pluralidade e no respeito à lei, é condição para restaurar a confiança dos cidadãos na República. O combate ao golpismo deve ser firme, mas também exemplar. Não só na pena, mas na forma. Porque é a forma, no fim das contas, que distingue a justiça da revanche. Fonte: https://www.estadao.com.br

O bolsonarismo mudou os evangélicos ou apenas revelou o que o Censo Demográfico de 2022 não mostra?

 

Por Márcio Ferreira

O Censo Demográfico de 2022, divulgado em junho de 2025, trouxe um dado já esperado: o crescimento do número de brasileiros que se declaram evangélicos, saltando de 21,6% para 26,9% da população entre 2010 e 2022. À primeira vista, parece a confirmação estatística de um fenômeno em curso há décadas. Mas, como alertam estudiosos como a socióloga Christina Vital, os números do IBGE não contam a história inteira, e talvez nem a parte mais importante dela.

O crescimento numérico revela pouco sobre as mudanças internas no campo evangélico. A começar pela sua fragmentação: o que se entende por “evangélico” hoje inclui denominações históricas, pentecostais, neopentecostais, desigrejados, jovens “das igrejas de parede preta”, coaches da fé e influenciadores digitais que usam a Bíblia como manual de autoajuda. Não há uma só fé evangélica no Brasil, há uma miríade de experiências, práticas e disputas por poder.

Se o Censo mostra um crescimento aritmético, o bolsonarismo provocou uma reconfiguração política e simbólica nesse universo. E não é exagero dizer: o bolsonarismo mudou o campo evangélico brasileiro, ou, ao menos, o revelou em sua dimensão mais política, mais pública, mais disputada.

Antes da ascensão de Jair Bolsonaro, em 2018, havia contenções institucionais sobre manifestações políticas em templos religiosos. Igrejas eram multadas, materiais de campanha eram apreendidos. Ainda assim, já se desenhava desde os anos 2000 um caminho de aproximação entre igrejas e o Poder Legislativo. Em 2014, o Pastor Everaldo foi o primeiro “puro-sangue” a se lançar à Presidência da República, sem sucesso, mas com efeitos duradouros na lógica da representação religiosa.

Com Bolsonaro, a gramática religiosa tornou-se gramática política. O púlpito presencial cedeu espaço às redes sociais e aos algoritmos de WhatsApp. Pastores passaram a declarar abertamente apoio a candidatos e a construir a ideia de que determinadas pautas seriam “pactos com o maligno”. Deus e o diabo passaram a ter CEP e título eleitoral.

Mesmo não sendo evangélico, Bolsonaro personificou os valores de uma base religiosa conservadora, deu a essa base um inimigo comum, a esquerda, os “progressistas”, os artistas, os LGBTs, o feminismo, e entregou à sua base religiosa ministérios, cargos e a indicação de um “terrivelmente evangélico” ao STF.

Christina Vital aponta com precisão: o avanço evangélico é especialmente visível nas periferias urbanas, onde o Estado se ausenta e a religião preenche. O templo substitui o posto de saúde, o culto substitui a roda de terapia, o pastor oferece aconselhamento e ajuda material onde o poder público não chega. O pentecostalismo, principalmente, se apresenta como combate espiritual à violência, à dependência, ao desamparo.

Não é apenas fé, é também sobrevivência.

Nesse contexto, o crescimento evangélico é menos um fenômeno teológico e mais uma resposta social. E é por isso que os dados do IBGE, embora importantes, não bastam. A religião nas periferias se entranha em redes, corpos, territórios e políticas. Em algumas localidades, como a Baixada Fluminense, os evangélicos não são apenas maioria: são referência moral, política e até de autoridade informal.

Mas há também fissuras nesse mapa. Uma delas é o surgimento dos desigrejados, pessoas que se identificam como evangélicas, mas não frequentam cultos, não se submetem à hierarquia pastoral nem contribuem com o dízimo. São evangélicos “autônomos”, muitas vezes conectados ao discurso de influenciadores que falam de Jesus com linguagem de coach, vendem Bíblias personalizadas e oferecem cursos para “destravar seu propósito”.

Outro fenômeno é o das igrejas de parede preta: espaços alternativos, mais jovens, com estética sombria e linguagem pop, que atraem adolescentes com promessas de cura espiritual e sucesso pessoal. É um novo evangelicalismo, pós-moderno, digital, que talvez fuja até das métricas do Censo e dos olhos da imprensa.

E o que esperar de 2026? Com o possível impedimento de Jair Bolsonaro, a eleição de 2026 não contará com o catalisador bolsonarista no campo evangélico. Isso abre espaço para novas disputas: entre denominações, entre pastores, entre candidatos “puro-sangue” e candidatos “identificáveis” com a fé, mas não religiosos.

O apoio evangélico pode se fragmentar. E, segundo Christina Vital, novas lideranças jovens, digitais, carismáticas e alinhadas à extrema direita estão sendo gestadas, talvez ainda fora dos holofotes, mas atentas às estratégias de influência. Nomes como Sóstenes Cavalcante já apontam o envelhecimento de lideranças tradicionais como um desafio, mas também como uma oportunidade para renovação política e simbólica.

A conclusão a que chegamos é de que neste momento não temos nem o mesmo campo, nem os mesmos evangélicos. O bolsonarismo não apenas mudou os evangélicos, ele escancarou disputas que já estavam em curso, acelerou processos de politização da fé, quebrou barreiras entre púlpito e palanque. Mas também desestabilizou as hegemonias internas. A religião evangélica no Brasil é hoje mais diversa, mais complexa, mais midiática e, talvez, mais imprevisível.

O Censo conta quantos são. Mas não diz quem são. Fonte: https://www.estadao.com.br

 

A punição dos que sequestraram o Congresso a título de livrar a cara de Jair Bolsonaro tem de ser exemplar. Não se pode premiar com a leniência quem atenta contra o funcionamento de um Poder

O País assistiu, estarrecido, ao sequestro das Mesas Diretoras da Câmara e do Senado por parlamentares bolsonaristas que decidiram rasgar o Regimento de ambas as Casas, afrontar a Constituição e manchar a história do Congresso fazendo-o refém de uma chantagem. Durante mais de 30 horas – que não deveriam ter durado nem 30 minutos –, os trabalhos legislativos foram suspensos na marra por uma súcia de deputados e senadores que puseram seus mandatos a serviço da impunidade de Jair Bolsonaro, e não do melhor interesse do Brasil. O que se viu não foi nada menos do que uma nova tentativa de golpe no coração da democracia representativa.

Chamemos as coisas pelo nome. Não há outra forma de descrever o que aconteceu em Brasília. Impedir o livre trabalho do Congresso não é outra coisa senão um atentado contra o Estado Democrático de Direito. Pior ainda quando a violência é perpetrada de dentro da instituição democrática por excelência por indivíduos que, malgrado terem sido legitimamente eleitos, agiram como traidores da mesma democracia que os consagrou nas urnas. Um absurdo.

Obstrução parlamentar é prática legítima em todas as democracias maduras. Porém, o que os vândalos bolsonaristas praticaram naquelas horas de caos não foi obstrução, mas coerção. Não foi protesto contra a prisão domiciliar de Bolsonaro, foi delinquência. Em última análise, não foi política, foi seu exato oposto: a imposição de vontades por meio da força bruta.

Os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, falharam miseravelmente em impedir o sequestro. A Polícia Legislativa deveria ter sido acionada minutos após a paralisação dos trabalhos legislativos. Ulysses Guimarães, um dos mais altivos deputados a tomar assento na presidência da Câmara, não teria hesitado em fazê-lo. Já Motta e Alcolumbre, lamentavelmente, mostraram-se menores do que suas cadeiras ao se omitirem por tempo demasiado longo enquanto as Casas que presidem eram violadas por uma turba de parlamentares que, na prática, comportou-se como uma facção criminosa a serviço de Bolsonaro.

Passada a tibieza inicial, o único caminho republicano que se abre diante de Motta e Alcolumbre, se preocupados estiverem com suas biografias, é a restauração da autoridade moral e política do Congresso. E isso só será possível por meio de duas ações. Em primeiro lugar, a imediata e rigorosa punição de cada deputado e cada senador que participou do sequestro do Legislativo federal. O que eles fizeram é intolerável para um país que se pretende sério. Em segundo lugar, os presidentes da Câmara e do Senado devem enterrar definitivamente as demandas apresentadas pelos delinquentes a título de resgate. Avançar com a proposta de anistia a Bolsonaro e outros golpistas ou com o impeachment desarrazoado do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes equivalerá a uma capitulação. Não se negocia com delinquentes. A democracia não se rende – ou deixa de ser democracia.

Por ora, é desconhecido o inteiro teor da barganha que Motta e Alcolumbre fizeram com os sequestradores travestidos de parlamentares para a retomada de seus assentos. Mas, se há um cálculo político que ambos têm de fazer agora, é este: caso não punam exemplarmente os radicais bolsonaristas, sinalizarão que sua tática bandida é aceitável e, consequentemente, pode ser repetida no futuro. Por óbvio, não pode. Em uma democracia digna do nome, não é normal o que essa gente fez.

O Congresso precisa dar uma resposta clara e firme aos bolsonaristas irresignados com os ritos democráticos: no Estado Democrático de Direito não há espaço para aventuras autoritárias que pretendem subverter as instituições em nome de interesses particulares de quem quer que seja. Deputados e senadores têm o dever de defender os interesses da sociedade e da Federação, e não do líder de um movimento político que cada dia mais se desvela como seita.

É hora de Motta e Alcolumbre, do alto dos cargos que ocupam, fazerem uma escolha entre a leniência que estimula a baderna e a firmeza institucional que a debela. A Câmara e o Senado precisam se erguer em defesa de sua própria autoridade. O País precisa de paz. E ela só virá se o Congresso não se ajoelhar diante dos que pretendem sabotá-lo. Fonte: https://www.estadao.com.br

Por atuar deliberadamente para prejudicar o Brasil, o deputado não pode continuar como parlamentar. Que a Câmara não repita com ele o erro que cometeu há 25 anos, ao deixar impune o pai dele

 

Diante das barbaridades protagonizadas pelo então deputado federal Jair Bolsonaro, este jornal pediu a sua cassação em janeiro de 2000, classificando-o pelo que ele era – um dejeto da democracia, alguém desqualificado que se servia das mesmas liberdades democráticas que sempre desejou eliminar. Passados pouco mais de 25 anos, é preciso dizer o mesmo sobre seu filho Eduardo Bolsonaro. Por atuar deliberada e sistematicamente para prejudicar o Brasil, em nome dos interesses particulares de sua família, Eduardo Bolsonaro precisa ter cassado seu mandato de deputado federal. Trata-se da única reação cabível por parte de uma democracia digna do nome.

Eduardo já fez de tudo, mas não há afronta à democracia que não possa ser superada por outra maior. Não lhe pareceu suficiente, por exemplo, regozijar-se do lobby que fez junto ao governo dos EUA como forma de pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) a desistir dos processos contra seu pai, tornando-se responsável, em grande medida, pelo tarifaço convertido em chantagem explícita do presidente americano, Donald Trump, contra o Brasil e a favor de Jair Bolsonaro. Também não lhe bastou arvorar-se em negociador diplomático e pedir sanções contra autoridades brasileiras, entre as quais os presidentes da Câmara e do Senado, o ministro do STF Alexandre de Moraes e o presidente Lula da Silva. Era preciso, como fez o pai durante as décadas que passou no Congresso, enxovalhar a instituição parlamentar que ele mesmo integra: nesta semana, o deputado admitiu na caradura que está sabotando o esforço da comitiva de senadores brasileiros que viajou aos EUA para tentar abrir algum canal de diálogo com o Congresso e o governo americanos a fim de evitar as tarifas impostas por Trump.

Dias antes, reclamou dos governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e do Paraná, Ratinho Junior (PSD), por se pronunciarem sobre o tarifaço sem mencionar o que realmente importa para os Bolsonaros – a liberdade de Jair Bolsonaro. Ainda acusou Tarcísio de tê-lo desrespeitado por dialogar com empresários paulistas e com o encarregado de negócios dos EUA no Brasil, Gabriel Escobar, para discutir a crise. Segundo a cartilha bolsonarista, qualquer ação que se afaste da defesa direta da impunidade para o ex-presidente e outros golpistas equivale a uma declaração de guerra.

A lista de suas imposturas também envolveu uma live nas redes sociais, na qual o irascível “Zero Três” não só manteve o diapasão alto nos ataques ao STF como recorreu a uma intimidação de fazer corar vítimas de gângsteres, milicianos e contraventores do gênero. Ao mencionar a Polícia Federal e citar o delegado responsável pelos principais inquéritos contra Bolsonaro, subiu alguns graus do “jus sperniandi” de quem se enxerga um injustiçado para fazer ameaça explícita: “Vai lá, cachorrinho da Polícia Federal que tá me assistindo, deixa eu saber não”, avisou. “Se eu ficar sabendo quem é você, eu vou me mexer aqui. Pergunta ao tal delegado Fábio Alvarez Shor (que investigou Bolsonaro em diversos inquéritos) se ele conhece a gente”. Um assombro.

Com o prazo expirado da licença que o deputado tirou para sabotar o Brasil em solo americano, e sem planos imediatos de retornar ao País, esperava-se que ele renunciasse ao mandato que os paulistas infelizmente lhe deram. Nos últimos dias, difundiu-se na imprensa a possibilidade de a Câmara adotar o mesmo artifício usado no caso do deputado Chiquinho Brazão, réu pelo assassinato da vereadora carioca Marielle Franco: deixar que as faltas às sessões cumprissem a função da perda do mandato. Será um erro gravíssimo. A fim de cuidar da própria imagem, não bastará ao Legislativo federal recorrer a essa solução. Afinal, Eduardo Bolsonaro passou dos limites e merece não a inércia corporativista da Casa, mas uma punição dura, real e imediata.

Há 25 anos, quando poupou o então deputado Jair Bolsonaro, a Câmara escolheu desmoralizar-se. Que não repita esse erro agora com Eduardo Bolsonaro. Fonte: https://www.estadao.com.br

A ameaça feita ao Brasil é parte da exacerbação generalizada do ímpeto imperial americano

 

Por Sergio Fausto

Trump emprega contra outros países a mesma técnica que utiliza contra seus adversários internos (qualquer instituição ou indivíduo que ouse se interpor à realização de sua vontade). A chantagem é uma constante em sua trajetória empresarial e política.

Dentro dos Estados Unidos, Trump está levando ao extremo a teoria do caráter unitário do Poder Executivo (Unitary Executive Theory), segundo a qual todas as agências e funcionários do governo estão submetidos ao presidente. Segue-se que, nesse âmbito, ele pode admitir e demitir pessoas, fechar e criar órgãos e agências, interferir no modo de execução das leis e desembolso do orçamento, independentemente da autorização do Legislativo ou do Judiciário. Não contente com isso, Trump busca subtrair poder dos outros ramos do governo.

Invocando uma lei do final do século 18, criada para combater a espionagem estrangeira nos primórdios da nação, arroga-se poderes extraordinários para deportar imigrantes. Na instrumentalização de tarifas de importação para chantagear outros países, faz uso abusivo da Lei de Emergência Econômica Internacional (International Emergency Economic Powers Act), de 1977, que dá poderes excepcionais ao presidente para agir diante de grave ameaça à economia e/ou à segurança nacional.

Com o respaldo da Suprema Corte, controlada por folgada maioria conservadora, vem derrubando obstáculos erguidos por juízes e instâncias inferiores do judiciário americano que tentam conter a enxurrada de ações arbitrárias da Casa Branca. Embora por pequena margem, os republicanos controlam também ambas as casas do Congresso. Fiéis por convicção ou por medo, pois também são objeto de chantagem, deputados e senadores do partido de Trump não ousam exercer o poder de contrapeso que a letra e o espírito da Constituição asseguram ao Legislativo. Nesse passo, os Estados Unidos deslizam velozmente em direção a um regime não democrático. A esperança é que a descendente seja interrompida nas eleições de meio de mandato, se os democratas retomarem o controle da Câmara.

O autoritarismo interno é inseparável do ímpeto imperial em relação ao mundo. Para Trump, se as leis do seu próprio país valem pouco frente às suas vontades, imagine o direito internacional. Nesse âmbito, a prepotência e o arbítrio não encontram limites.

A ameaça feita ao Brasil é parte da exacerbação generalizada do ímpeto imperial americano, com a singularidade agravante de que invade a soberania política e jurídica do País. Busca coagir o Brasil a se dobrar aos caprichos de um presidente estrangeiro interessado em ver um subserviente apoiador seu perdoado pela Justiça brasileira. Procura também forçar o País a ceder aos interesses das grandes empresas americanas de tecnologia.

A esse respeito, a carta de Trump deve ser lida em conjunto com a nota da Casa Branca ameaçando investigar o Brasil por supostas práticas prejudiciais às empresas americanas. Segundo a lógica imperial trumpista, regular o principal meio de comunicação social hoje existente, as plataformas de mídias sociais, só é aceitável se a regulação convier aos interesses das big techs. A inclusão desse tema nas ameaças do governo americano é mais uma prova da nada santa aliança entre essas empresas, o governo americano e, por último, mas não menos importante, a extrema direita internacional, da qual Trump é o líder e o clã Bolsonaro, militante de carteirinha.

A alegação contra o Pix beira o delírio. Supõe que o Brasil possa ser punido por ter desenvolvido uma infraestrutura de acesso livre e gratuito que permite a toda sua população fazer transações financeiras com rapidez e confiabilidade. A razão? Prejuízos a empresas americanas que operam meios eletrônicos de pagamento. Era o que faltava: punir um país por oferecer serviços públicos sob o argumento de que assim roubam oportunidades de negócios de companhias dos Estados Unidos!

Não se entende a ameaça de Trump pela ótica tradicional das relações comerciais, em que todo eventual conflito de interesse é passível de solução pela arte da diplomacia. Estamos diante de um ataque à soberania e às instituições do País, desferido pela maior potência mundial, hoje governada pelo líder da extrema direita em todo o planeta. Em última instância, está em jogo o direito de decidirmos democraticamente sobre o nosso destino.

Negociar é preciso, com sobriedade e firmeza. Mas não menos necessário é ter clareza sobre a ameaça que ronda o Brasil e o mundo. Ela não irá dissipar-se, ainda que saibamos lidar bem com a crise atual. É preciso nos preparar para uma batalha mais longa.

A primeira coisa a fazer é restabelecer um mínimo de unidade nacional. Instigar potência estrangeira a causar dano ao Brasil deveria merecer repúdio unânime, independentemente da inclinação política. Se Lula erra quando exagera em arroubos retóricos contraproducentes, erra mais quem defende a conduta do clã Bolsonaro ou omite-se em condená-lo. É inaceitável colocar em risco o País, empresas e trabalhadores para livrar a própria pele. Fonte: https://www.estadao.com.br

Ex-presidente será alvo de medidas cautelares, e não poderá acessar redes sociais. Ele também terá acesso proibido a outros investigados e diplomatas.

 

Ex-presidente Jair Bolsonaro fala com a imprensa no Senado, em 17 de julho de 2025 — Foto: Reuters/Adriano Machado

 

Por Camila Bomfim, Fábio Amato, Vladimir Netto, Isabela Camargo

Polícia Federal (PF) cumpre mandados contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na manhã desta sexta-feira (18).

Advogados de defesa do ex-presidente confirmaram a operação. Ele é alvo de medidas restritivas determinadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), segundo fontes ouvidas pelo blog.

Os mandados estão sendo cumpridos na casa do ex-presidente, em Brasília, e em endereços ligados ao Partido Liberal (PL), legenda de Bolsonaro.

Entre as restrições, Bolsonaro passará a usar tornozeleira eletrônica e não poderá acessar redes sociais.

Ele também terá de permanecer em casa entre 19h e 7h da manhã, e foi proibido de se comunicar com embaixadores e diplomatas estrangeiros (não podendo se aproximar de embaixadas), nem com outros réus e investigados pelo Supremo. Fonte: https://g1.globo.com

Fiéis à desonestidade intelectual do padrinho, governadores bolsonaristas que aspiram à Presidência culpam Lula pela ameaça de tarifaço de Trump. A direita pode ser muito melhor que isso

 

A direita brasileira que se pretende moderna e democrática, se quiser construir um legítimo projeto de oposição ao governo Lula da Silva, precisa romper definitivamente com Jair Bolsonaro e tudo o que esse senhor representa de atraso para o Brasil. Não se trata aqui de um imperativo puramente ideológico, e sim de uma exigência mínima de civilidade, decência e compromisso com os interesses nacionais.

O recente ataque do presidente americano, Donald Trump, às instituições brasileiras, supostamente em defesa de Bolsonaro, é só uma gota no oceano de males que o bolsonarismo causa e ainda pode causar aos brasileiros. A vida pública de Bolsonaro prova que o ex-presidente é um inimigo do Brasil que sempre colocou seus interesses particulares acima dos do País. A essa altura, portanto, já deveria estar claro para os que pretendem herdar os votos antipetistas que se associar a Bolsonaro, não importa se por crença ou pragmatismo eleitoral, significa trair os ideais da República e arriscar o progresso da Nação.

Por razões óbvias, Bolsonaro não virá a público condenar o teor da famigerada carta de Trump a Lula. Isso mostra, como se ainda houvesse dúvidas, até onde Bolsonaro é capaz de ir – causar danos econômicos não triviais ao País – na vã tentativa de salvar a própria pele, imaginando que os arreganhos de Trump tenham o condão, ora vejam, de subjugar o Supremo Tribunal Federal e, assim, alterar os rumos de seu destino penal.

Nesse sentido, é ultrajante a complacência de governadores como Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG) e Ronaldo Caiado (GO) diante dos ataques promovidos pelo presidente dos EUA ao Brasil. As reações públicas dos três serviram para expor a miséria moral e intelectual de uma parcela da direita que se diz moderna, mas que continua a gravitar em torno de um ideário retrógrado, personalista, francamente antinacional e falido como é o bolsonarismo.

Tarcísio, Zema e Caiado, todos aspirantes ao cargo de presidente da República, usaram suas redes sociais para tentar impingir a Lula, cada um a seu modo, a responsabilidade pelo “tarifaço” de Trump contra as exportações brasileiras. Nenhum deles se constrangeu por tergiversar em nome de uma “estratégia eleitoral”, vamos chamar assim, que nem de longe parece lhes ser benéfica – haja vista a razia que a associação ao trumpismo provocou em candidaturas mundo afora.

Tarcísio afirmou que “Lula colocou sua ideologia acima da economia, e esse é o resultado”, atribuindo ao petista a imposição de tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras aos EUA – muitas das quais saem justamente do Estado que ele governa. Classificando, na prática, a responsabilidade de Bolsonaro como uma fabricação, o governador paulista concluiu que “narrativas não resolverão o problema”, como se ele mesmo não estivesse amplificando uma narrativa sem pé nem cabeça.

Caiado, por sua vez, fez longa peroração, com direito a citação do falecido caudilho venezuelano Hugo Chávez, antes de dizer que, “com as medidas tomadas pelo governo americano, Lula e sua entourage tentam vender a tese da invasão da soberania do Brasil”. Por fim, coube a Zema encontrar uma forma de inserir até a primeira-dama Rosângela da Silva no script para exonerar Bolsonaro de qualquer ônus político pelo prejuízo a ser causado pelo “tarifaço” americano se, de fato, a medida se concretizar.

O Brasil não merece lideranças que relativizam os próprios interesses nacionais em nome da lealdade a um projeto autoritário, retrógrado e personalista. Até quando a direita brasileira permitirá ser escrava de um desqualificado como Bolsonaro? Não é essa a direita de um país decente. Não é possível defender o Estado Democrático de Direito e, ao mesmo tempo, louvar e defender um ex-presidente que incitou ataques às urnas eletrônicas, ameaçou as instituições republicanas, sabotou políticas de saúde pública e usou a máquina do Estado em benefício próprio e de sua família ao longo de uma vida inteira.

O Brasil precisa, sim, de uma direita responsável, madura e comprometida com o futuro – não de marionetes de um golpista contumaz. Fonte: https://www.estadao.com.br

Ao ameaçar impor tarifas contra o Brasil em favor da impunidade de Bolsonaro, o presidente americano deu ao petista o que ele mais precisava neste momento de impopularidade: um inimigo

 

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prestou um enorme favor ao presidente Lula da Silva com a ameaça de impor tarifas comerciais ao Brasil para obrigar o País a se render a suas absurdas exigências, entre as quais livrar Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado. Deu ao demiurgo petista tudo o que um populista como ele mais deseja num momento de impopularidade: um inimigo para brigar. De preferência, um inimigo que faça ameaças de tal ordem que possam, se efetivadas, causar prejuízos reais à economia, abalar setores e negócios estratégicos como o agronegócio e o aço, encarecer a vida dos brasileiros e, de quebra, enfraquecer as forças políticas aliadas de Trump no Brasil.

Ainda é cedo para decretar que o tiro do presidente americano saiu pela culatra, mas é evidente que boa parte da conta de seu eventual tarifaço recairá sobre os ombros de quem supostamente moveu mundos e fundos para a ação de Trump contra o Brasil. Nesse pacote, inclui-se, em primeiro lugar, o clã Bolsonaro. Como se sabe, o ex-presidente e seus associados liberticidas viram na volta de Trump à Casa Branca uma boia de salvação para si e para o bolsonarismo. Alguns aliados, mais cautelosos, trataram Trump como símbolo do nacionalismo triunfante que sonhavam em aplicar no Brasil. Outros, mais delirantes, chegaram a clamar por uma invasão americana. Entre um passeio e outro na Disneylândia, Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, se apresenta como exilado político nos Estados Unidos e fez lobby na Casa Branca para que Trump liderasse a campanha bolsonarista contra o Supremo Tribunal Federal (STF), instituição tida como algoz de seu pai e de aliados golpistas.

O efeito prático está aí: o risco de o nacionalismo patriótico do bolsonarismo se converter numa oposição aos interesses do Brasil. Pode ser de pouca serventia a tentativa dos Bolsonaros e dos principais nomes da direita brasileira – como o governador Tarcísio de Freitas, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e outros de menor musculatura política – de atribuírem culpa a Lula, ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, ao Itamaraty ou ao PT. Assim como ocorreu em países como Canadá, Austrália, México e, em certa medida, Alemanha, a interferência política de Trump em assuntos nacionais produziu resultados contrários: desmoralizou o americano e enfraqueceu o potencial eleitoral de seus aliados.

Para um governo e um presidente com imagem combalida pela incompetência e pela inépcia, nada mais útil do que ter um inimigo externo e assim, em tese, tentar “unir” o País contra os prejuízos da medida – incluindo o setor produtivo, que majoritariamente enxerga o lulopetismo com desconfiança. Bastou a publicação da carta de Trump para que Lula, seus exegetas no Palácio do Planalto e os habituais porta-vozes do lulopetismo nas redes decretassem uma espécie de estado de defesa da soberania nacional. E assim o enredo está urdido: um governo ruim, um presidente perdendo aliados e uma base desanimada se veem ávidos para galvanizar apoios Brasil afora contra a ameaça trumpista. A essa agenda se soma a campanha do “nós contra eles”, deflagrada recentemente após a crise do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), e assim se completa a receita populista do lulopetismo com um só objetivo: a reeleição de Lula.

Mas que Lula e a companheirada não se enganem. Apesar do favor político oferecido por Trump, o tarifaço, se vier, resultará em prejuízos econômicos consideráveis – ao agronegócio, à indústria e aos consumidores –, e com o tempo é provável que parte de tais efeitos seja debitada também da conta de Lula, sobretudo porque este não atuou para reduzir as tensões com os Estados Unidos de Trump. Recorde-se que Lula, ao contrário, investiu na aproximação com a China, advogou pela substituição do dólar como moeda do comércio global e fez campanha contra companhias americanas de internet. Por ora, o jogo favorece Lula, mas a eleição ainda está muito longe. Fonte: https://www.estadao.com.br

O enredo que nos trouxe até aqui, misturando degradação institucional, escárnio escrachado e realismo fantástico, tem se mostrado imprevisível

 

Por Eugênio Bucci

Pela primeira vez na História do Brasil, militares de alta patente, acompanhados de um ex-presidente da República, tomam assento no banco dos réus. Eles são acusados de organização criminosa armada e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, entre outros crimes. A notícia é tão inusitada que parece boa, mas, na verdade, é apenas um começo.

Por certo, o processo que corre no Supremo Tribunal Federal (STF) reluz pelo ineditismo. Diferentemente do que se via no passado, o Brasil não deixa mais por isso mesmo. Agora, há um esforço para responsabilizar os que atentaram contra a normalidade democrática. As coisas avançam semana a semana. Os integrantes do “núcleo crucial” da trama, conforme o nomeou a Procuradoria-Geral da República, tiveram de comparecer aos interrogatórios. Agora, houve uma acareação momentosa entre o tenente-coronel Mauro Cid e o general Walter Braga Netto.

O andamento, contudo, é difícil. Para atrapalhar os ritos, surgiram lances de clamoroso cinismo. O réu Jair Bolsonaro, enquanto era interrogado, deu de convidar o ministro Alexandre de Moraes, que conduzia a sessão, para figurar como vice em sua chapa para a Presidência da República em 2026. O tom foi jocoso: piada à queima-roupa. O magistrado apenas sorriu, num clima de quase descontração judicial, e, no seu linguajar característico, declinou. Pilhéria indeferida.

O que nos aguarda? O processo vai transcorrer em risadas? Vai transitar em julgado amaciado? Vai dar cadeia? Virá uma anistia? Uma pizza? Não há como saber. O enredo que nos trouxe até aqui, misturando degradação institucional, escárnio escrachado e realismo fantástico, tem se mostrado imprevisível. Primeiro, tentou-se derrubar a República numa tramoia que incluiu acampamentos à frente de quartéis, fake news torrenciais sobre as urnas eletrônicas, depredação dos palácios dos Três Poderes e um plano para assassinar o chefe de Estado, seu vice e um ministro do Supremo. Depois, no julgamento, veio o espetáculo acintoso. Os acusados não se envergonham do que é vergonhoso. Desdenham da autoridade judiciária. Agem como se estivessem acima das leis dos comuns.

O historiador Carlos Fico estuda há décadas “o desprezo dos militares pela política, seu autoentendimento como superiores aos civis”. O retrato que ele nos entrega dessa história, no livro Utopia autoritária brasileira: Como os militares ameaçam a democracia brasileira desde o nascimento da República até hoje (Editora Planeta do Brasil), é desalentador. A virada de mesa tem sido uma constante das Forças Armadas. Trata-se de um vício que se reproduz impunemente.

“Todas as crises políticas brasileiras caracterizadas por ruptura da legalidade constitucional (vou denominá-las ‘crises institucionais’) foram causadas por militares”, afirma Carlos Fico. “As Forças Armadas violaram todas as constituições da República. (...) Indisciplina e subversão marcam a trajetória dos militares no Brasil. Eles foram responsáveis por todas as crises institucionais do País desde a Proclamação da República e jamais foram efetivamente punidos.”

O livro demonstra que, neste país, o golpe compensa – mesmo quando fracassa. Com a palavra, o historiador: “Quando afirmo que nunca houve, no Brasil, a efetiva punição de militares golpistas, me refiro às anistias que foram aprovadas pelo Congresso Nacional beneficiando os oficiais envolvidos nas tentativas fracassadas de 1904, 1922, 1924, 1956, 1959 e 1961. É claro que não cabe falar em punição no caso dos golpes bem-sucedidos (1889, 1930, 1937, 1945, 1954, 1955 e 1964).”

Por que “não cabe falar em punição no caso dos golpes bem-sucedidos”? Muito simples: quando o golpe dá certo, o ordenamento jurídico que poderia puni-lo não fica de pé para aplicar a lei. Passa a valer o inverso. Por exemplo: com a tomada do poder pelas tropas em 1964, quem fixou residência na prisão não foram os golpistas, mas os que se opunham à quartelada. Eis por que a legislação atual, com acerto, estabelece como crime a tentativa de golpe, não o golpe consumado. A tentativa basta para configurar o tipo penal.

Fora o acerto da lei, o que vemos hoje na Corte não é bom. Algo na voz dos réus, na sua maneira de olhar ou de desviar o olhar, deixa ver que, para eles, o golpismo é um ato de bravura. A fixação maníaca na ideia de assalto ao poder constitui um traço cultural que se mantém intacto no ideário das tropas. O que explica essa permanência? De onde vem isso?

A resposta lógica aponta para as escolas em que se formam os oficiais. Se a formação fosse outra, a mentalidade da farda já seria diferente. Será razoável que o currículo das academias das Forças Armadas e das Polícias Militares fique inteiramente a cargo da caserna? Ou será que isso deveria ser da competência da sociedade e do Estado Democrático de Direito? De forma respeitosa, dialogada e serena, é preciso enfrentar a questão. Ou o Brasil encara essa agenda espinhosa ou talvez não tenhamos como sair dessa espiral em que o populismo de coturnos, quando vai ao banco dos réus, vai em trajes de galhofa. Fonte: https://www.estadao.com.br

Para ex-líder de Pablo Marçal, envolvimento de igrejas com a política é 'distração do Maligno'

 

Tarcísio de Freitas, entre sua mulher, Cristiane (esq.), e a bispa Sônia, no palco da Marcha para Jesus - Eduardo Knapp - 19.jun.25/Folhapress

 

*Juliano Spyer

A política esteve presente na Marcha para Jesus na quinta-feira passada (19). Em nota, Lula descreveu seus organizadores como "verdadeiros pastores do seu povo". E o governador —talvez presidenciável — Tarcísio de Freitas foi tietado e desfilou com uma bandeira de Israel. Mas cresce, entre evangélicos, o sentimento de que a relação entre política e púlpito se tornou tóxica.

Após a divulgação dos dados sobre religião do Censo de 2022, pastores como Silas Malafaia expressaram desconfiança: "Onde a esquerda mete a mão, tenho dúvida". Mas uma liderança conhecida, o pastor Aluízio Silva, da Igreja Videira, atribuiu a queda no crescimento evangélico ao envolvimento de líderes religiosos com a política.

No culto realizado após o anúncio dos dados do Censo, Aluízio lembrou que, se os evangélicos continuassem crescendo no ritmo registrado na contagem anterior, ultrapassariam os católicos em 2032. E cravou o motivo da desaceleração em uma só palavra: bolsonarismo.

"Quando os pastores no púlpito resolveram assumir politicamente algo, eles fecharam a porta da igreja para um montão de gente", disse. E alertou: "Isso é distração do Maligno. Nós estamos aqui para trabalhar pela expansão do Reino de Deus".

Devemos celebrar que uma liderança evangélica conservadora, à frente de uma igreja conhecida, esteja criticando o uso político da fé? Antes de responder, vale examinar como e por que esse vídeo viralizou.

A fala vem do ex-pastor de Pablo Marçal, que o recebeu no aniversário de 25 anos de sua igreja —realizado no estádio Serra Dourada, com transmissão pela TV aberta, pela Rede Globo de Goiânia. O evento ocorreu na véspera do primeiro turno das eleições municipais, e Marçal foi acolhido como o filho pródigo que, como na parábola bíblica, retorna à sua casa.

Marçal apresentou-se para o eleitor paulistano como herdeiro legítimo do bolsonarismo. Denunciou os arranjos políticos que levaram Bolsonaro a apoiar um candidato "do sistema" e, por isso, bateu boca publicamente com Silas Malafaia, que tenta se manter relevante como interlocutor entre evangélicos e o ex-presidente.

A fala do pastor Aluízio, atacando o bolsonarismo, se alinha ao posicionamento de Marçal como representante do discurso antiestablishment? Durante a campanha de 2024, Marçal denunciou pastores por supostamente receberem favores do prefeito Ricardo Nunes em troca de apoio.

Há outros dados a considerar. A declaração do pastor Aluízio sobre o Censo foi publicada e depois apagada pelo site O Fuxico Gospel, um canal popular de notícias e fofocas. O vídeo viralizou a partir do post de Andrade, um influenciador cristão e de esquerda, cujo perfil no X é @AndradeRNegro2. O site Brasil 247, próximo ao PT, repercutiu a fala.

Guilherme Boulos não mudou os rumos do segundo turno ao aceitar ser entrevistado pelo candidato derrotado Pablo Marçal para os milhões de seguidores online dele. Mas eu recebi o vídeo com a fala do pastor Aluízio de interlocutores de direita e o fato de ele estar circulando expõe um sentimento crescente, no segmento evangélico, de que pastores ricos querem enriquecer a qualquer custo —e que a política se tornou um meio para isso. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br

* Antropólogo e historiador, autor de 'Crentes' (Record) e 'Povo de Deus' (Geração), pesquisa cristianismo, mundo popular, mídias digitais e esportes de combate

Ministra do Meio Ambiente enfrenta teste de resistência em gestão que não tem maioria no Legislativo e precisa de presidente do Congresso, favorável à exploração de petróleo na foz do Amazonas

 

A ministra Marina Silva na Comissão de Serviços de Infraestrutura (CI) do Senado Foto: Rogerio Cassimiro/MMA

 

Por Vera Rosa

“Me respeite, ministra! Se ponha no teu lugar!” Foi assim que o senador Marcos Rogério (PL-RO) se dirigiu à titular do Meio Ambiente, Marina Silva, nesta terça-feira, 27, em sessão marcada por intenso bate-boca, na Comissão de Infraestrutura do Senado. Foram horas de desrespeito transmitidas ao vivo, sem que a base do governo defendesse Marina à altura dos ataques contra ela.

Marcos Rogério presidia a sessão em que a ministra foi convidada para explicar o motivo da criação de uma unidade de conservação ambiental marinha na chamada Margem Equatorial da foz do Amazonas. A Petrobras reivindica autorização do Ibama para prospectar petróleo naquela área e os senadores avaliam que Marina é quem cria obstáculos para dificultar a exploração.

"Fui convidada como ministra, você tem que me respeitar", diz Marina a senador

Líder do PSDB, senador Plínio Valério (AM), afirmou que “a mulher Marina merecia respeito, a ministra não”.

Sem um pedido de desculpas do líder do PSDB, Plínio Valério (AM), que em março já havia dito ter vontade de enforcá-la, Marina acabou se retirando da sessão.

Pouco antes, o mesmo Plínio Valério tinha feito o seguinte comentário: “Ministra Marina, que bom reencontrá-la! E, ao olhar para a senhora, eu estou vendo uma ministra, eu não estou falando com uma mulher. Porque a mulher merece respeito; a ministra, não”.

Soube-se, horas depois, que o presidente Lula, a primeira-dama Janja da Silva e outros ministros telefonaram para Marina e se solidarizaram com ela. Não basta.

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Não é de hoje que a situação de Marina, uma ex-petista, passa por um teste de resistência no governo. De um lado, ela enfrenta a oposição de uma ala da Esplanada e do Congresso que, por trás do discurso em defesa da exploração mineral, respalda interesses empresariais.

De outro, vê Lula adotar retórica dúbia a respeito de temas sobre os quais não deveriam pairar incertezas, como a necessidade de assegurar precauções para que a Petrobras faça a prospecção de petróleo na Margem Equatorial, fronteira da costa que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte.

“Eu não faço o meu trabalho pensando nas próximas eleições”, disse a ministra no Senado, deixando no ar quem seria o destinatário da frase.

Lula já reclamou do “lenga-lenga do Ibama” e chegou a dizer que o instituto parece ser contra o governo. Nos últimos tempos, foi além, fazendo tudo para atender o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), que é do Amapá, favorável à exploração de petróleo na Margem Equatorial e quer ver o imbróglio entre a Petrobras e o Ibama resolvido antes de novembro, quando os holofotes mundiais estarão voltados para a Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP-30), em Belém. Sem maioria no Congresso, Lula depende de Alcolumbre para aprovar projetos de interesse do Palácio do Planalto.

Aliado do senador, o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues, ex-Rede e hoje no PT, não compareceu à sessão na qual seus colegas tentaram emparedar Marina. Jaques Wagner (PT-BA), líder no Senado, estava lá, mas saiu antes, sob a alegação de que precisava acertar a votação de projetos.

No show de horrores, outro que se destacou foi Omar Aziz (PSD-AM). Embora integrando a base aliada de Lula, Aziz protagonizou uma ríspida discussão com a ministra.

“A senhora atrapalha o desenvolvimento do nosso País”, gritou ele. “Tem mais de 5 mil obras paradas por causa dessa conversinha. Quero resolutividade, não é conversa fiada”, emendou.

Marina avalia que saiu fortalecida do embate por não se intimidar. Resta saber, no entanto, até quando ela aguentará essa prova de obstáculos com um Congresso que puxa o seu tapete dia sim, outro também, diante de um governo enfraquecido.

Em 2008, após vários confrontos com a então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, Marina entregou sua carta de demissão a Lula alegando ter enfrentado “crescentes resistências” em “setores importantes do governo e da sociedade”. Dezessete anos depois, o que mudou? Fonte: https://www.estadao.com.br

Novos detalhes do planejamento do golpe de Bolsonaro revelam que o país esteve a um triz de uma nova tragédia autoritária

 

8 de janeiro de 2023 — Foto: Cristiano Mariz/O Globo

 

Por Míriam Leitão  

O triz que estivemos de uma nova tragédia autoritária se vê nas conversas do policial federal Wladimir Matos Soares com o advogado Luciano Diniz. O advogado diz: “Bastava tão somente para dar um susto, dissolver o STF… Puf, acabou meu irmão. Como faz falta um Figueiredo. O Médici, o Médici.” O agente responde que o plano estava pronto, mas Bolsonaro foi “traído” pelo Exército. “A gente ia empurrar meio mundo de gente, pô. Matar meio mundo. Estava nem aí cara.” E acrescenta, “o Alexandre de Moraes realmente tinha que ter tido a cabeça cortada”.

A certeza da impunidade de Wladimir Matos se vê num detalhe revelado. Ele guardava todas essas informações tórridas, mensagens escritas e em áudio, provas de crime, no notebook da Polícia Federal. As provas estavam com ele quando foi preso, em novembro de 2024, no Rio. Wladimir Matos havia sido deslocado para a cidade porque 80% do efetivo da PF participava da segurança do G20, mas foi deixado em uma posição periférica, pois já estava sendo monitorado.

A importância do que foi divulgado agora se vê através do tempo. A Polícia Federal investigou e reconstituiu os fatos que haviam acontecido em 2022. Quando Wladimir Matos Soares foi preso, seus diálogos confirmaram tudo: houve uma tentativa de golpe; a Marinha apoiava; o Exército recuou. E o então presidente desistiu na última hora por falta de respaldo do Exército. Em 2022, ele enviou mensagens a um assessor do então presidente Jair Bolsonaro, Sérgio Rocha Cordeiro, fornecendo os dados e as coordenadas de duas pessoas que estavam na segurança do presidente Lula. O agente havia trabalhado com Alexandre Ramagem, em 2018, na segurança de Jair Bolsonaro. Tudo se encaixa tão perfeitamente.

— Nesta interlocução dele com o capitão da reserva Sérgio Cordeiro, assessor especial do então presidente, ele valida o que a investigação havia visto. Seus diálogos são da época dos fatos em dezembro de 2022 e demonstram o que a investigação concluiu. Que houve uma mobilização para tentar uma virada institucional. Os áudios chancelam as conclusões a que a equipe de investigação chegou — diz um investigador.

Nem todo o material apreendido pela Polícia Federal foi analisado. Há muita coisa ainda sendo vista. Quando o coronel Flávio Peregrino, assessor de Braga Netto, foi preso, a Polícia Federal pegou pen drives, HDs, computadores, “mídias”, como os policiais dizem. Muito do conteúdo ainda nem foi analisado. Há telefones celulares cujas senhas ainda não foram quebradas. Isso muda alguma coisa? A avaliação que ouvi é que a cada novo material avaliado está se confirmando a mesma conclusão, de que havia um golpe de Estado em andamento no Brasil, com a intenção de impedir a posse do presidente eleito e com planos de assassinatos políticos.

Essas evidências que ainda estão sendo analisadas podem ser objeto de relatórios da Polícia Federal. Não cabem mais indiciamentos, mas a PF pode agregar novas provas, enviar para o ministro relator, que envia à Procuradoria Geral da República, para fazer aditamentos à denúncia. Os novos elementos de prova reforçam a acusação contra este núcleo golpista, cuja denúncia deve ser julgada essa semana. Confirmam a linha da acusação que já foi recebida pelo STF.

Luciano Diniz, um dos interlocutores de Wladimir Matos Soares, é advogado em Salvador e não está indiciado. O valor do diálogo é que nele o agente da PF revela todos os detalhes do que se preparava. “Nós fazíamos parte de uma equipe de operações especiais que estava pronta para defender o presidente (Bolsonaro), armada e com poder de fogo elevado para empurrar quem viesse à frente. Esperávamos uma canetada para agir. Na véspera que a gente ia agir, o presidente foi traído dentro do Exército. Os generais foram lá e deram a última forma e disseram que não iam mais apoiar ele”, relata o policial. Ele diz que Alexandre de Moraes deveria ter sido eliminado quando impediu que o delegado Alexandre Ramagem assumisse a Polícia Federal. “Tinha que ter cortado a cabeça dele ali”.

Que estivemos muito perto de um golpe sangrento se vê na maneira aberta como se conversava no governo Bolsonaro sobre o atentado à democracia. Os documentos mostram que o policial frequentava o acampamento em frente ao Exército. “Não ia ter posse, cara, nós não íamos deixar”. Foi por um triz.

(Com Ana Carolina Diniz). Fonte: https://oglobo.globo.com

Cena, que aparenta ter sido produzida por Inteligência Artificial, foi publicada sem texto nas redes do presidente americano e no perfil oficial da Casa Branca

 

Por Redação

presidente dos Estados Unidos e o perfil oficial da Casa Branca no X (antigo Twitter) publicaram na sexta-feira, 2, nas redes sociais, uma imagem em que Donald Trump aparece vestido como papa, sentado em uma cadeira de estrutura dourada.

A imagem foi divulgada na plataforma TruthSocial, de propriedade do presidente, e mostra Trump em trajes papais, incluindo uma mitra e um cordão dourado com uma cruz, sentado em uma cadeira de estrutura dourada e com o dedo indicador direito apontando para o céu.

Na última terça-feira, Trump afirmou, em tom de brincadeira, que gostaria de ser o próximo papa. “Eu seria minha escolha número 1″, disse Trump a repórteres.

Apesar da piada, ele disse que não tem uma preferência. “Temos um cardeal de um lugar chamado Nova York que é muito bom. Vamos ver o que acontece”, afirmou.

O cardeal Timothy Dolan, arcebispo de Nova York, não está entre os principais cotados, mas outro americano aparece na lista: o cardeal Joseph Tobin, arcebispo de Newark, em Nova Jersey. Nunca houve um papa dos Estados Unidos.

O caixão do papa Francisco é carregado à frente de dignitários, incluindo o presidente Donald Trump, ao centro, e a primeira-dama, Melania Trump, durante funeral na Praça de São Pedro, no Vaticano, em 26 de abril  Foto: Cecilia Fabiano / LaPresse via AP

O presidente dos Estados Unidos e a primeira-dama, Melania, participaram, em Roma, do funeral do papa Francisco, em 26 de abril.

A postagem ocorre poucos dias após a morte do Papa Francisco e às vésperas do início do conclave no Vaticano, onde 133 cardeais se reunirão na Capela Sistina a partir de quarta-feira, 7, para eleger o novo pontífice. Fonte: https://www.estadao.com.br

A trajetória do ‘caçador de marajás’ até a prisão é uma espécie de inventário das mazelas políticas brasileiras, mas também serve para mostrar a força institucional do País

Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito pelo voto direto no Brasil depois da ditadura militar, agora é um presidiário, condenado por corrupção. Seu nome já estava na História como o primeiro presidente a sofrer um processo de impeachment, também sob acusação de corrupção. Sua trajetória, portanto, é uma espécie de livro-texto para os que quiserem estudar as mazelas políticas brasileiras desde o renascimento da democracia. E serve também – porque nem tudo é tragédia, afinal – para simbolizar a capacidade institucional brasileira de punir quem conspurca a República. Não é pouca coisa.

Primeiro, às mazelas. Collor foi condenado em maio de 2023 a oito anos e dez meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no âmbito da Operação Lava Jato. Na ocasião, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou que, entre 2010 e 2014, Collor usou sua influência sobre a presidência e a diretoria da BR Distribuidora, então subsidiária da Petrobras, para direcionar contratos de construção de bases de distribuição de combustíveis para a UTC Engenharia em troca de propina. O caso, portanto, ilustra com perfeição como as numerosas estatais do País são vulneráveis aos mercadores da política, que cavoucam cargos, oportunidades e contratos para se locupletarem.

Collor era apenas um dos tantos usufrutuários do monstruoso escândalo do petrolão, que foi a dilapidação da Petrobras pelos governos petistas de Lula da Silva e Dilma Rousseff. Com isso, acabou se associando à corrupção do PT, o partido que ele mesmo combateu com denodo ao se tornar presidente, em 1989, derrotando Lula da Silva no segundo turno.

Não é a única ironia da trajetória de Collor, que foi afastado da Presidência em meio a um escândalo de corrupção depois de ter chegado ao poder prometendo moralizar a vida pública e caçar os “marajás” do Estado. Como este jornal sublinhou à época, Collor traiu os brasileiros que acreditaram em suas promessas de prosperidade e honestidade no trato da coisa pública, e “renunciou não em aras da Pátria, mas pensando no seu futuro político pessoal”, desejando que, “em breve ou a médio prazo, seus malfeitos sejam esquecidos e ele possa voltar ao cenário político”.

O vaticínio do Estadão foi certeiro: o alívio viria dois anos depois, quando o STF o inocentou da acusação de corrupção passiva, e logo o ex-presidente voltaria à ribalta política. Não se encerraram ali, entretanto, os problemas de Collor com a Justiça. Durante as três décadas seguintes, ele continuamente enfrentou processos criminais – e saiu-se livre de todos eles, elegendo-se senador em 2006. Foi nessa condição, e fazendo parte da base de “aliados” de Lula e Dilma, que Collor manteve seus tentáculos políticos destinados à obtenção de dividendos, vamos chamar assim, singulares. Segundo a denúncia que o levou à condenação, o ex-presidente recebeu R$ 20 milhões em propina, dinheiro que supostamente “apareceu” do nada em sua conta, enquanto ele dizia não fazer “a menor ideia” de sua origem, de acordo com entrevistas que concedeu durante o processo.

Mas nem tudo nessa história são mazelas. Collor, afinal, está preso, depois de um processo em que teve amplo direito de defesa. Isso significa que as barreiras republicanas erguidas pela Constituição de 1988 estão em vigor e, bem ou mal, funcionam. No caso de Collor, aliás, isso já havia ficado claro logo no primeiro teste da Constituição recém-promulgada, com seu processo de impeachment. O Congresso, estimulado pelas manifestações de cidadãos indignados nas ruas, abreviou o mandato de quem estava transformando a Presidência em balcão de negócios escusos. Tudo dentro da lei.

Ademais, as reinações lulopetistas (e colloridas) levaram o Congresso a aprovar, em 2016, uma lei para pôr cobro à exploração política (e pecuniária) das empresas estatais. Trata-se de um avanço gigantesco, que se mantém mesmo diante de manobras espertas dos petistas para enfraquecê-la.

Collor estará preso até decisão definitiva do plenário do STF. Seja qual for seu destino, no entanto, o Brasil sairá melhor. Fonte: https://www.estadao.com.br