Se, como acusam alguns, o Supremo queria criar um mecanismo para silenciar ideias e opiniões incômodas, ele falhou feio

 

Por Nicolau da Rocha Cavalcanti

Advogado, mestre e doutorando em Direito Penal pela USP

 

Naquele que foi provavelmente o julgamento mais discutido no ano passado – sobre o art. 19 do Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) –, o Supremo Tribunal Federal (STF) estabeleceu a responsabilidade das plataformas digitais pela “indisponibilização imediata de conteúdos que configurem as práticas de crimes graves previstas no seguinte rol taxativo”. Considerada necessária por muitos, a decisão suscitou em outros forte apreensão pelos riscos à liberdade de expressão envolvidos. Especialmente por incluir, no rol taxativo, os crimes contra a democracia: “Condutas e atos antidemocráticos que se amoldem aos tipos previstos nos artigos 286, parágrafo único, 359-L, 359-M, 359-N, 359-P e 359-R do Código Penal”.

O dever de cuidado das plataformas digitais tem, no entanto, alcance bem mais restrito do que se imagina, seja em sua eficácia, seja em seus riscos. Aplicado nos termos da decisão do STF, ele não impediria a circulação da imensa maioria das publicações consideradas golpistas no âmbito dos processos do 8 de Janeiro, como também não restringe a liberdade de expressão. Se, como acusam alguns, o Supremo queria criar um mecanismo para silenciar ideias e opiniões incômodas, ele falhou feio. Três são as razões para essa conclusão.

Segundo a Lei de Defesa do Estado Democrático de Direito (Lei 14.197/2021), “não constitui crime (...) a manifestação crítica aos Poderes constitucionais nem a atividade jornalística ou a reivindicação de direitos e garantias constitucionais por meio de passeatas, de reuniões, de greves, de aglomerações ou de qualquer outra forma de manifestação política com propósitos sociais”.

Manifestação ácida, dura, virulenta ou deseducada não é crime contra a democracia. E o mesmo ocorre com a atividade jornalística, tanto investigativa como opinativa. Também não é crime contra a democracia “a reivindicação de direitos e garantias constitucionais”. Ou seja, nada disso pode ser barrado pelas plataformas, uma vez que a sistemática criada pelo Supremo se baseia na tipificação penal da Lei 14.197/2021.

Segunda razão. O STF não incluiu, no rol que é taxativo, o crime de incitação aos tipos penais contra a democracia (art. 286, caput do Código Penal), mas tão somente aquele previsto no parágrafo único: “Incorre na mesma pena quem incita, publicamente, animosidade entre as Forças Armadas, ou delas contra os Poderes constitucionais, as instituições civis ou a sociedade”.

Por força da própria decisão do STF, não está no dever de cuidado das plataformas impedir a publicação de conteúdo que configure, por exemplo, incitação a golpe de Estado, se não envolver as Forças Armadas. Incitar um crime não é o mesmo que praticá-lo. O provedor de aplicações de internet deve impedir apenas as publicações que configurem, em si mesmas, “condutas e atos antidemocráticos que se amoldem aos tipos previstos” na Lei 14.197/2021.

Excluindo os crimes de incitação de animosidade envolvendo as Forças Armadas e de violência política psicológica, é muito difícil que conteúdos na internet configurem, por si sós, a prática dos outros crimes contra a democracia previstos no rol taxativo. Os crimes de golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito exigem violência ou grave ameaça. O de sabotagem envolve destruição ou inutilização de “meios de comunicação ao público, estabelecimentos, instalações ou serviços destinados à defesa nacional”. É implausível que uma publicação na internet possa, por si mesma, preencher tais molduras proibitivas.

Talvez alguém pondere: mas as publicações na internet podem contribuir para a prática de crimes contra a democracia, inserindo-se em contexto de participação criminosa. De fato, o Código Penal prevê: “Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade” (art. 29). Segundo o STF, as publicações questionando as urnas eletrônicas integraram a estratégia da tentativa de golpe do 8 de Janeiro.

No entanto, ações de participação criminosa – por exemplo, dirigir o carro num assalto a banco ou enviar mensagens que disseminam desconfiança nas instituições – dependem de análise contextual caso a caso, o que ultrapassa o dever de cuidado das plataformas digitais. O fato de posts contra as urnas eletrônicas terem sido usados em uma tentativa de golpe não faz com que todos os futuros posts sobre o tema devam ser enquadrados como condutas criminosas. Eis a terceira razão: a sistemática criada pelo STF não abarca condutas a priori atípicas, cuja ilicitude, para ser identificada, demanda investigação.

Se essa restrita aplicabilidade suscita tranquilidade em muitos, cabe também advertir: a proteção da democracia por meio do dever de cuidado das plataformas é um tanto fictícia. Aqui, a questão não é apenas sobre os termos da decisão do STF. Por mais ativo que seja o Judiciário, preenchendo o que enxerga ser omissão do Legislativo, não existe defesa efetiva da democracia sem participação da sociedade. Temos, portanto, muito a trilhar no campo da educação cívica. Fonte: https://www.estadao.com.br 

O componente irracional é o que move a adesão ideológica

Não é o desejo de melhorar o mundo, mas o gosto por sangue

 

Ilustração de Ricardo Cammarota para coluna de Luiz Felipe Pondé - 18 de janeiro de 2026 - Ricardo Cammarota/Folhapress

 

Quem ainda crê que os movimentos políticos modernos e as ideologias nascem do cérebro racional da espécie é ignorante ou mentiroso. Tais movimentos e suas militâncias são da mesma ordem do fanatismo religioso. Por isso, pouco adianta tentar argumentar com tais agentes. Esse ato seria semelhante a argumentar com um enxame.

Este fato explica, pelo menos em parte, a estupidez que circula pelas redes sociais entre os "haters" engajados na polarização. O nível mais alto de inteligência que atravessa essa cultura de bactérias, que são as redes, é aquele que caracteriza os movimentos répteis.

O filósofo britânico John Gray lançou em 2007 "Black Mass, Apocalyptic Religion and the Death of Utopia", que agora está sendo relançado no Brasil como "Missa Negra, Religião Apocalíptica e a Morte da Utopia".

Quem conhece sua obra sabe que o filósofo britânico é um duro crítico do mito do progresso. Concordo com Gray que o progresso é um mito, afora os avanços tecnológicos desde a descoberta de como fazer o fogo. Mas, no que se refere ao comportamento humano, à moral e à política, a ideia de progresso desde o Iluminismo é idiota. Entretanto, o número de iludidos que nele creem nunca para de crescer.

Outro traço do pensamento de Gray é sua suspeita de que os animais, no seu "silêncio", são mais sábios do que nós. Aliás, seu livro "Silêncio dos Animais" é um dos mais belos que já li.

A tese da sua "Missa Negra" é que todas as crenças políticas revolucionárias modernas são derivadas de crenças apocalípticas judaicas e cristãs. Mesmo passando pela secularização, a tara com o fim do mundo tal como conhecemos e o surgimento do "novo mundo perfeito" permanece. E não só esse aspecto foi mantido.

Todos sabemos que as narrativas apocalípticas são marcadas pela violência, mortes do que são maus, sobrevida dos eleitos. Como não pensar na Revolução Francesa ou na Russa? Ou na Revolução Islâmica Iraniana?

Gray deixa claro que mesmo nas crenças ideológicas liberais, marcadas pela ideia de aperfeiçoamento incremental do mundo, permanece a ideia de que o "mercado" salvará o mundo e os homens. O otimismo liberal de mercado é, também, um filhote da tara apocalíptica. Daí, a aceitação que os incapazes de lidar bem com a lógica da eficiência e da competição do mercado não têm méritos para viver no novo mundo da riqueza material.

O que sustenta as posições ideológicas do mundo contemporâneo são taras irracionais religiosas secularizadas. Lendo essa coisa chamada "comentários", na sua imensa maioria, vemos a pequena miséria humana na sua forma explícita.

Sabemos que a justificativa dessa prática na mídia não tem nada a ver com "princípios democráticos", mas, apenas, sim, trata-se de princípios de marketing. Há que dar voz aos consumidores, mesmo que a maior parte do que circula por esse "ecossistema" seja puro lixo. Do ponto de vista do conteúdo, não faria nenhuma falta. Os "comentários" são um parquinho para crianças raivosas, com raras exceções.

O componente irracional humano é o que move a adesão ideológica. Não é o desejo de melhorar o mundo, mas, sim, o gosto de sangue. Se não fosse isso, por que tantos revolucionários sempre gozaram com a palavra "terror"? A paixão pelo terror é a paixão política essencial em questão.

Como diz Gray, com os movimentos políticos modernos, a tara apocalíptica, que na Antiguidade, era essencialmente um traço de indivíduos periféricos e esquisitos da miserável sociedade israelita do período do Segundo Tempo sob domínio romano, em si periférica, hoje se fez "mainstream".

Discute-se em aulas na universidade, escreve-se em livros de autores com PhD, encena-se em peças de teatro com aprovação da crítica regadas a vinho caro em restaurantes descolados, apresenta-se em programas de debates da televisão e podcasts, enfim, as taras com o fim do mundo tal como conhecemos e a criação de um mundo novo e perfeito são tratadas como ciência social, histórica e política.

Profetas do terror como MarxLêninFoucault, entre outros, recebem o tratamento de "especialistas" nas sociedades dos homens, quando, na realidade, não entendem patavina acerca de quem vai à feira comprar ovos e tomates para comer em suas casas de pobres.

A ideia de que existe um componente moral significativo na espécie humana pode ser inconsistente. Veja, por exemplo, a indiferença de grande parte da imprensa e dos países para com os mortos iranianos. Um blábláblá aqui, outro ali. Cadê toda aquela indignação? E as bandeiras? A verdade é que os aiatolás podem matar à vontade. O mundo é um circo de horrores e continuará sendo.  Fonte: https://www1.folha.uol.com.br

Segundo a polícia, vítima teve o corpo exibido pelas ruas da comunidade. O crime ocorreu em meio ao aumento da violência e do controle imposto pela milícia na região.

 

o corpo de Jonathan Batista foi exibido pelas ruas da comunidade, em um crime que chocou moradores e reforçou o clima de medo na região. — Foto: Reprodução TV Globo

   

Por Adriana CruzGabriela Moreira, RJ2

Jonathan Batista, de 33 anos, foi torturado e morto por milicianos em Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio.

O corpo de Jonathan foi exibido pelas ruas da comunidade, em um crime que chocou moradores e reforçou o clima de medo na região.

Uma das linhas de investigação aponta que Jonathan foi morto porque milicianos desconfiaram que ele seria usuário de drogas e mantinha contato com o tráfico.

Um funcionário de uma ONG que presta serviços para o Governo do Estado do Rio de Janeiro foi torturado e morto por milicianos em Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio. De acordo com a polícia, após o assassinato, o corpo de Jonathan Batista foi exibido pelas ruas da comunidade, em um crime que chocou moradores e reforçou o clima de medo na região.

Jonathan trabalhava havia três anos em um projeto do governo do estado voltado para idosos, o programa 60+ Reabilita, e era conhecido e querido por moradores de Rio das Pedras. No Instituto Médico-Legal (IML), a irmã de Jonathan descreveu a personalidade do irmão.

“O Jonathan era um menino, um rapaz, um homem de boa índole. O Jonathan era uma pessoa alegre, bondoso, prestativo. Era o melhor tio que duas crianças poderiam ter”, disse ela.

 

Investigação

Segundo a Delegacia de Homicídios, uma das linhas de investigação aponta que Jonathan foi morto porque milicianos desconfiaram que ele seria usuário de drogas e mantinha contato com o tráfico.

A irmã da vítima afirmou que o corpo apresentava sinais de tortura. “Meu irmão sofreu muito, meu irmão estava amarrado”.

Uma segunda linha de investigação indica que o assassinato pode ter sido cometido para atingir a Associação de Moradores de Rio das Pedras, onde Jonathan também prestaria serviços.

“O Jonathan trabalhava tanto internamente na associação, na parte de reabilitação, que tem a parte de fisioterapia, fazendo os planejamentos, como também externamente na comunidade, tirando fotos dos locais que estão prejudicados para poder fazer obras”, explicou a irmã.

Segundo testemunhas ouvidas pela polícia, quatro homens participaram da morte de Jonathan. Entre eles estaria um dos chefes da milícia local, Kauã de Oliveira Teles.

Ele assumiu parte do controle da organização criminosa depois que o irmão, Gerlan Anacleto de Oliveira, foi preso em 2023. Ainda de acordo com a polícia, a região também é controlada por Taillon Barbosa, que está preso.

A Delegacia de Homicídios esteve em Rio das Pedras nesta quarta-feira (14) colhendo informações para avançar nas investigações.

 

Milícia aumentou o controle

Na semana passada, uma operação da Delegacia de Descoberta de Paradeiros encontrou em Rio das Pedras um cemitério clandestino onde teriam sido enterrados pelo menos 14 corpos de vítimas da milícia.

Pessoas estavam enterradas em covas rasas, sem identificação. Duas ossadas foram localizadas e encaminhadas para perícia.

Moradores relataram à reportagem que, desde a descoberta do cemitério clandestino, a vigilância da milícia sobre a população se intensificou. Segundo os relatos, os criminosos aumentaram as rondas diárias e passaram a exigir a senha dos celulares de moradores para fiscalizar conversas e ligações.

O governo do estado informou que pretende ocupar Rio das Pedras nos próximos meses. A ação atende a uma exigência do Supremo Tribunal Federal na ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, que determinou a elaboração de um plano de reocupação de territórios dominados pelo crime organizado.

Abalada, a irmã de Jonathan lamentou a violência no local onde ele morava.

“O Jonathan era uma pessoa que você não via a maldade que tá acontecendo no mundo. Mas, infelizmente, o lugar aonde ele se encontrava morando é um lugar onde a maldade está em tudo”. Fonte: https://g1.globo.com

Receber dinheiro, de maneira sigilosa, para emitir uma opinião não é crime. Mas qual valor deve ter essa opinião?

 

Por Nicolau da Rocha Cavalcanti

Com pena de reclusão de dois a seis anos e multa, a Lei dos Crimes Financeiros (Lei 7.492/1986) tipifica o crime de desinformação financeira: “Divulgar informação falsa ou prejudicialmente incompleta sobre instituição financeira” (art. 3º). Faz sentido, portanto, que as autoridades policiais investiguem eventual ocorrência de crime nas publicações de influenciadores digitais sobre o Banco Master e o Banco Central (BC).

De toda forma, a simples conduta de publicar, mediante pagamento, mensagens favoráveis ao Banco Master, questionando a ação do BC, não se enquadra no crime do art. 3º da Lei 7.492/1986, especialmente por força dos elementos subjetivos previstos no tipo penal. Entre os requisitos, o influenciador teria de saber que está divulgando uma informação falsa ou prejudicialmente incompleta. Situação diversa é a de quem, caso se comprove a existência de uma coordenação de publicações, orquestrou e executou a campanha de desinformação. Também não se pode descartar a ocorrência de crimes contra a honra das autoridades atacadas.

No entanto, mais do que uma questão penal, o episódio dos influenciadores do Banco Master joga luz sobre a fragilidade informativa do mundo digital. Receber dinheiro, de maneira sigilosa, para emitir uma opinião não é crime. Mas qual valor deve ter essa opinião? Qual é a atenção que essa pessoa merece receber de nossa parte? Quanto tempo deveríamos dedicar a escutar quem recebe dinheiro para falar de uma empresa, com o pacto de nunca revelar o recebimento desses valores?

Certamente, podemos questionar esses influenciadores. Estão sendo leais ao seu público? São transparentes com seus seguidores? Todavia, em vez de apontar o dedo acusando-os por seu comportamento nas redes sociais, penso que é mais produtivo aproveitar esse episódio para avaliar nossos próprios hábitos de consumo de informação. E para ajudar a que muitas pessoas no nosso entorno repensem suas práticas.

Contra todos os perigos relativos à ação de influenciadores influenciados por pagamento oculto, temos à disposição o jornalismo. Sua dinâmica de produção de informação é completamente diferente, com critérios éticos consolidados e procedimentos de checagem e revisão, propiciando condições objetivas de imparcialidade. Há erros nos jornais? Sem dúvida. Mas não há conluio com o erro. De forma institucional, com método e a participação de várias pessoas, checa-se, apura-se, corrige-se.

Acostumamo-nos a ter duas medidas de avaliação. Com certeza, ignoraríamos uma matéria jornalística se soubéssemos que o jornalista foi pago, com dinheiro ou presentes, para falar bem de um produto, serviço ou empresa. Essa matéria não seria jornalismo e uma conduta assim geraria a imediata demissão do seu autor. No entanto, não temos habitualmente nenhum problema em consumir – em dedicar tempo a, em ser influenciado por – publicações nas redes sociais cuja única razão de existir foi o pagamento que o influenciador recebeu da empresa mencionada.

O jornalismo vende, sim, publicidade. Mas a publicidade nos jornais tem regras estritas, públicas e consolidadas, regras estas cujo sentido é assegurar que o leitor possa diferenciar, com facilidade, desde o primeiro contato, o que é jornalismo e o que é publicidade. Há um cenário normativo – separando opinião, informação e publicidade – criado precisamente para prever, identificar e evitar situações de conflito de interesse. A dinâmica das redes sociais é outra, diametralmente oposta.

Tudo está pensado para eliminar as distinções entre opinião, informação e publicidade, para tornar invisíveis os conflitos de interesse.

Não quero romantizar ou idealizar o jornalismo. Valho-me aqui da perspectiva da Justiça criminal, mas certamente outras áreas terão seus próprios exemplos, suas respectivas dores. Ao atuar na defesa dos direitos de pessoas investigadas e acusadas, a advocacia criminal vê e sente diariamente várias deficiências e contradições do jornalismo: vazamentos seletivos, dados descontextualizados, confusões entre lei e moral, fragilidade epistêmica de alguns escândalos – às vezes, baseados em recortes de delações feitos por uma das partes interessadas! Tudo isso tensiona os princípios da presunção de inocência e da imparcialidade dos julgamentos. Como adverte Vittorio Manes, numa Justiça midiática, o réu é um “culpado aguardando julgamento”. No entanto, nada disso desqualifica a atividade jornalística e suas regras. A resolução dos problemas citados – o compromisso constante de combatê-los e reduzir seus danos – passa por viver com mais rigor, e não menos, os critérios de apuração do jornalismo, por resgatar, num eterno retorno, o que é a notícia, sua umbilical conexão com o interesse público.

Não há democracia sem transparência, sem liberdade de expressão. Como também não há democracia com ingenuidades. As redes sociais não são o pináculo da autenticidade, da livre e genuína expressão de ideias. Há muito dinheiro envolvido. São muitos os interesses em ação. Como o jornalismo bravamente tem mostrado.

 

Opinião por Nicolau da Rocha Cavalcanti

Advogado, mestre e doutorando em Direito Penal pela USP

Fonte: https://www.estadao.com.br

Preconceito e falta de informação alimentam desespero em vez de uma chance genuína

Mesmo após décadas sem avanços relevantes, pessoas com lesões medulares graves podem vislumbrar nova possibilidade: a polilaminina

 

O nascer do sol sobre o rio Marajó, no Pará - Mathilde Missioneiro/Folhapress

 

Pessoas com deficiência talvez formem o grupo que mais consegue compreender o impacto da sentença "você será desse jeito para sempre". Nunca mais vai andar, nunca mais vai ver, nunca mais vai poder isso, jamais irá fazer aquilo.

E não são apenas profissionais de saúde os mensageiros do desespero eterno, algo que até tem mudado e se sensibilizado, de certa maneira, nos últimos tempos. A própria sociedade acabou incorporando o modo de pensar que vidas "malacabadas" são estáticas e que é preciso agir com delicadeza com "eles".

Persiste um pensamento de que é necessário ter muito cuidado para não magoar corações que já convivem com um sentimento de fim da linha devido suas questões sensoriais, motoras, psíquicas ou intelectuais.

Diante de um quadro assim, como falar de esperança em um cenário que supostamente se vive no fundo do poço, onde foi tão difícil se conformar com as dúzias de limitações de uma existência tida como incompleta, triste e digna de ser protegida, inclusive de possíveis ilusões de que algo poderá melhor.

É fato que mercadores de ilusões seguem firme agindo em fragilidades humanas, não exclusivas de pessoas com deficiência, mas presentes em todos os que padecem por dores e ausência e também por preconceitos, exclusões, desamparos e incompreensões.

Facilmente se encontram métodos milagrosos para dar "a melhor educação para crianças autistas", chás que fazem surdo ouvir e cego ver, robôs de papelão capazes de ser verdadeiras pernas para gente com questões de mobilidade.

Sim, há quem se agarre em fiapos para cozer mantos que prometem proteger das desgraceiras do mundo. Mas o desespero, geralmente, não tem parentesco legítimo com a esperança.

Ele tem na alma a desinformação, a falta de autoestima, o abandono, a mentira, o dinheiro selvagem. Ela tem um frescor de boa intenção, um lastro com a realidade, a doçura da explicação, a mão dada com a fé.

Já me deparei muitas vezes com a esperança usando trajes de enganação e me gabo, ao longo da minha trajetória profissional, não ter celebrado métodos que não dialogam com o íntimo, com o de dentro para fora, com a escuta do que é melhor para mim e não o melhor para a acomodação do outro.

O povo que não vê, não anda, não escuta e é ruim da caixola, tem poucas chances de viver a esperança de maneira tranquila porque precisa dar tempo demais para simplesmente estar na escola, no trabalho, na família, no bar e na rua. Porque vão achar que ele está se agarrando em nuvens. Porque é mais fácil investir na contenção de seus quadrados do que no avanço transformador que os leve mais perto da plenitude.

Pessoas que tiveram lesões medulares graves e se tornaram paraplégicas ou tetraplégicas –uma das mais desafiadores condições de estar vivo--, que não tiveram em décadas novidades científicas contundentes para a evolução de seus quadros, podem, sim, ter esperança num novo e promissor vindouro, possível medicamento, a polilaminina (com todas as ressalvas, para ninguém ficar chateado).

Não penso que exista uma promessa de que todo o mundo abandonará suas companheiras de rodas, suas muletas e andadores do dia para a noite. Penso que há uma nova porta, construída com cuidado, inteligência, método e conhecimento, onde se lê no tapetinho de entrada: bem-vindo, aqui mora a esperança. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br

A realidade é que falhamos em cuidar da saúde mental brasileira, apesar de a intenção do discurso ser justamente oposta

 

Opinião por Alaor Carlos de Oliveira Neto

Coordenador do serviço de psiquiatria do Hospital Alemão Oswaldo Cruz

 

No Rio Grande do Sul, um homem de 29 anos foi morto em casa por policiais militares acionados pela família, que se encontrava com o rapaz em surto psicótico. Informações dadas pela mãe da vítima indicam um longo histórico de tratamento para dependência de cocaína e transtorno de personalidade borderline, além de episódios anteriores de desorganização comportamental. A família, sem referências claras de cuidado, buscava ajuda para contê-lo, não um desfecho trágico.

Na Paraíba, um rapaz de 19 anos foi morto por uma leoa ao entrar deliberadamente em sua jaula. Dados iniciais indicam uma vida marcada por desestrutura social e familiar, além de um histórico de acompanhamento em saúde mental. Seu gesto extremo é um retrato evidente de sofrimento psíquico profundo, potencializado por vulnerabilidades múltiplas, ausência de suporte e falhas sucessivas nas redes de proteção.

Apesar de acontecerem em contextos distintos, os dois casos recentes evidenciam a necessidade urgente de fortalecer o sistema de saúde mental brasileiro e reconhecer que episódios como esses não são exceções, mas parte de um cenário recorrente.

Também é impossível ignorar outro fator que compõe esse cenário: o preconceito que ainda existe em uma parcela significativa da população ao reconhecer um problema de saúde mental e, sobretudo, ao pedir ajuda.

A Reforma Psiquiátrica Brasileira (consolidada pela Lei 10.216/2001) representou um avanço inegável nos direitos humanos, substituindo o modelo focado em manicômios pelo cuidado em base comunitária. No entanto, prevaleceu no texto um viés muito mais sociológico do que técnico e, 20 anos depois, assistimos ao crescimento do número de pessoas em situação de rua e o aumento expressivo de transtornos mentais graves sem acompanhamento adequado. Caminhamos, assim, na contramão da tendência mundial, que, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), desde 2020, diminuiu em 36% a taxa global de suicídio, o Brasil, segundo o Ministério da Saúde, aumentou em 43% a taxa entre 2010 e 2019. Trata-se de um alerta contundente de que algo não funcionou como deveria.

O processo de fechamento de leitos em hospitais psiquiátricos ocorreu numa velocidade muito superior à criação de serviços substitutivos tanto na rede pública quanto na privada. Nas duas últimas décadas, o Sistema Único de Saúde (SUS) perdeu cerca de 25 mil leitos especializados, uma redução superior a 50% da capacidade instalada que existia na virada do milênio.

A existência de tratamento humanizado é um ponto pacífico sobre a reforma, mas a realidade não se importa com as imposições de qualquer caráter ideológico e a consequência disso foi que muitos pacientes graves ficaram sem referência de tratamento adequado. Com isso, serviços públicos sem aparato, nem treinamento adequado como a segurança pública, por exemplo, são pressionados diariamente com demandas da ordem da saúde mental.

Outro ponto crítico é a resistência, ainda presente em alguns setores do debate, a práticas terapêuticas baseadas em evidências. A eletroconvulsoterapia, por exemplo, continua alvo de desinformação, apesar de ser considerada, internacionalmente, um dos tratamentos mais eficazes para depressão grave refratária. Hoje, no Brasil, é simplesmente impossível registrar um novo aparelho de eletroconvulsoterapia e o procedimento não tem um código de faturamento específico na tabela padrão do SUS, que remunere adequadamente o hospital pelo custo da anestesia e da equipe, inviabilizando sua realização na maior parte do País e elitizando a prática do procedimento, o que fere diretamente o princípio de universalização do tratamento em saúde.

Em alguns serviços de saúde mental, ainda há debates marcados por visões ideológicas que podem gerar resistência a determinadas abordagens, como o uso de medicação ou a definição clara de responsabilidades técnicas. Parte desse posicionamento é influenciada por um passado de instituições psiquiátricas que, até os anos 80, funcionaram como verdadeiros espaços de exclusão. No entanto, modelos como o antigo Manicômio Colônia de Barbacena (MG) foram oficialmente descontinuados há mais de 30 anos no País; o desafio atual é atualizar a discussão à luz das necessidades contemporâneas de cuidado.

A realidade é que falhamos em cuidar da saúde mental brasileira, apesar de a intenção do discurso ser justamente oposta. Que tenhamos a coragem de tratar o problema de saúde com o aparato da ciência, da técnica e da responsabilidade coletiva. Os dois jovens mencionados neste texto perderam suas vidas em meio a esse vácuo assistencial. Não há liberdade alguma na loucura; ao contrário, poucas prisões são tão profundas e tão dolorosas quanto a de quem sofre sem acesso a tratamento adequado. O debate precisa avançar com urgência para que histórias como essas deixem de ser tragédias anunciadas. Fonte: https://www.estadao.com.br 

Vítima estava no carro que bateu de frente com um caminhão no dia 19 de dezembro, durante uma viagem de São Paulo para Acopiara.

Cearense morre em hospital dias após perder pai, mãe e irmão em acidente na Bahia

 

Maria Eduarda morreu 16 dias após acidente na Bahia que matou seu pai, mãe e irmão. — Foto: Reprodução 

 

Por Redação g1 CE

Uma jovem cearense morreu neste domingo (4), 16 dias após perder o pai, a mãe e o irmão em um acidente na BR-116, próximo à cidade de Cândido Sales, no sudoeste da Bahia.

A vítima, identificada como Maria Eduarda Silva Barbosa, estava no carro com a família, em viagem de São Paulo para Acopiara, no centro-sul do Ceará, onde planejavam passar as festas de fim de ano.

No trajeto, o veículo bateu de frente com um caminhão, no dia 19 de dezembro.

Hélio da Silva, de 46 anos, Iriza Silva, de 44 anos e um filho pequeno do casal morreram no local. Já Maria Eduarda, foi socorrida em estado grave e estava internada em um hospital de Cândido Sales (BA), mas não resistiu aos ferimentos.

A família era natural de Acopiara, mas residia há algum tempo em São Paulo.

Uma jovem cearense morreu neste domingo (4), no hospital, 16 dias após perder o pai, a mãe e o irmão em um acidente na BR-116, próximo à cidade de Cândido Sales, no sudoeste da Bahia.

A vítima, Maria Eduarda Silva Barbosa, 18 anos, estava no carro com a família, em viagem de São Paulo para Acopiara, no centro-sul do Ceará, onde planejavam passar as festas de fim de ano. No trajeto, o veículo bateu de frente com um caminhão, no dia 19 de dezembro.

Hélio da Silva, de 46 anos, Iriza Silva, de 44 anos e um filho pequeno do casal morreram no local. Já Maria Eduarda, foi socorrida em estado grave e estava internada em um hospital de Cândido Sales (BA), mas não resistiu aos ferimentos.

A família era natural de Acopiara, mas residia há algum tempo em São Paulo. Na época do acidente, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) relatou que uma das suspeitas era que a colisão tivesse sido ocasionada por uma ultrapassagem perigosa. Fonte: https://g1.globo.com

Casal, três filhos e um sobrinho morreram após colisão com caminhão na PR-170, em Rolândia.

 

 

Família morreu no local do acidente — Foto: Arquivo pessoal

 

Por Kathulin Tanan, Mayala Fernandes, g1 PR e RPC Londrina

As vítimas são o casal Alexandre Cordeiro e Adriana da Silva Souza Cordeiro, os filhos Miguel de Souza Cordeiro, dois bebês gêmeos de 10 meses, e o sobrinho Elano Gabriel de Oliveira.

A família morava em Florestópolis, no norte do estado. Alexandre trabalhava com serviços de tornearia e solda.

O acidente aconteceu na madrugada desta terça-feira (30), por volta das 4h30, na PR-170, em Rolândia, no norte do Paraná.

Foram identificadas as seis pessoas da mesma família que morreram em um acidente de trânsito enquanto voltavam de uma viagem ao litoral do Paraná.

As vítimas são o casal Alexandre Cordeiro e Adriana da Silva Souza Cordeiro, os filhos Miguel de Souza Cordeiro, dois bebês gêmeos de 10 meses - que não tiveram os nomes divulgados - e o sobrinho Elano Gabriel de Oliveira.

A família morava em Florestópolis, no norte do estado. Alexandre trabalhava com serviços de tornearia e solda.

O acidente aconteceu na madrugada desta terça-feira (30), por volta das 4h30, na PR-170, em Rolândia, no norte do Paraná. O carro em que a família estava bateu de frente com um caminhão no sentido do distrito de São Martinho.

O caminhão seguia de Birigui, no interior de São Paulo, para Mandaguari, no Paraná, e transportava pintinhos. No veículo estavam o motorista e um passageiro. O passageiro não se feriu. O motorista foi socorrido e levado ao hospital.

As causas da colisão ainda serão investigadas. A perícia esteve no local e os corpos das vítimas foram encaminhados ao Instituto Médico-Legal (IML) de Londrina. Fonte: https://g1.globo.com

Pesquisa atesta que grande parte dos brasileiros está alterando trajetos e deixando de atender celular na rua por temer violência, com enorme impacto nas relações sociais e na vida política

 

Uma pesquisa recente do Datafolha mensurou o medo: cada vez mais brasileiros estão mudando seus hábitos quando vão para a rua por causa da sensação de insegurança. Quando cidadãos se veem obrigados a adotar táticas de sobrevivência em seu cotidiano, isso significa que a violência venceu.

De acordo com o levantamento, 72% dos entrevistados afirmaram ter alterado algo em sua rotina por temerem a violência. O medo levou 56% dos brasileiros a deixarem de usar o celular nas ruas, em veículos e até mesmo em ambientes fechados fora de casa. Segundo a pesquisa, 36% contaram ter feito outro caminho para o trabalho ou a escola, 31% passaram a andar sem aliança no dedo e 27% pararam de fazer algo prazeroso. Um em cada quatro brasileiros nem sequer sai de casa mais.

Essa sensação de vulnerabilidade generalizada diante da perspectiva da violência urbana atravessa todas as faixas etárias, afeta tanto homens quanto mulheres e é suprapartidária. Segundo a pesquisa, independentemente da idade, no mínimo sete em cada dez brasileiros têm medo da violência. No recorte de sexo, o índice é de 68% entre os homens e chega a 76% entre as mulheres. E tanto quem votou em Luiz Inácio Lula da Silva (70%) como quem votou em Jair Bolsonaro (76%) vive com medo.

Hoje apenas a saúde preocupa mais os brasileiros do que a segurança pública. Segundo o Datafolha, 20% dos entrevistados consideram a saúde o maior problema do País, seguido de 16% que apontam a segurança pública. Aliás, a segurança pública superou até mesmo as aflições do brasileiro em relação à economia – maior preocupação para 11% dos entrevistados.

Tudo isso faz desse tema uma pauta da classe política, que está bastante atenta às demandas do ano eleitoral que se avizinha. São discussões de propostas de legislação para endurecer penas de crimes e também aprimorar o combate ao crime organizado. Não raro, infelizmente, o debate é contaminado pela demagogia.

É difícil falar em qualidade de vida num país cuja população vive amedrontada com a possibilidade de ser assaltada quando sai de casa para trabalhar, estudar e se divertir ou, pior, de ser até vítima de um latrocínio, o roubo seguido de morte. E esse medo, em que pesem as pontuais variações regionais, está disseminado de norte a sul do País.

De acordo com o Datafolha, mudaram algum hábito por temer a violência 74% dos entrevistados do Nordeste, 75% dos do Centro-Oeste/Norte e 76% dos do Sudeste. Significa dizer que três em cada quatro pessoas em 24 das 27 Unidades da Federação se sentem acuadas. A situação é até um pouco melhor no Sul, mas nem por isso menos aflitiva, haja vista que mais da metade (54%) dos entrevistados dessa região disseram também ter alterado algo de sua rotina por medo da violência. Não dá para dizer que essa seja uma sensação de segurança.

Esse índice é particularmente assustador entre os moradores das regiões metropolitanas, onde chega à marca de 80% dos entrevistados. Engana-se quem pensa que morar no interior significa estar em paz: 66% dos entrevistados das pequenas cidades brasileiras também sentem medo da violência.

E esse temor é particularmente mais forte entre as mulheres. Segundo as entrevistadas, 38% delas disseram já ter mudado o caminho; 62% não tiveram coragem de usar o celular em ambiente público; 31% deixaram de fazer algo que lhes dá prazer; e 29% pararam de sair de casa. Em absolutamente todos os hábitos questionados pelo Datafolha as entrevistadas manifestaram sentir mais medo do que os homens, o que indica uma sociedade bastante hostil às mulheres.

O impacto dessa situação é enorme – nas relações sociais, na produtividade e na própria democracia, porque o medo esgarça laços de solidariedade, fere o senso de comunidade e reduz a disposição para aceitar o diferente, que passa a ser visto como ameaça.

Tudo isso colabora para que soluções de força, muitas vezes ao arrepio das leis e dos direitos humanos, sejam consideradas aceitáveis, tornando-se parte de discursos eleitoralmente potentes. Fonte: https://www.estadao.com.br

Acidente aconteceu na BR-101, em trecho que fica na cidade de Mucuri, no extremo sul da Bahia. Cidade fica próxima da divisa da Bahia com o Espírito Santo.

 

Por g1 e TV Santa Cruz

Dez pessoas morreram em um acidente entre dois carros neste sábado (27), em um trecho da BR-101 que fica na cidade de Mucuri, no sul da Bahia.

De acordo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), os dois veículos bateram de frente.

Ainda não há informações sobre o que causou a batida.

Ao menos 10 pessoas morrem em acidente na BR-101, no extremo sul da Bahia

Dez pessoas morreram em um acidente entre dois carros neste sábado (27), em um trecho da BR-101 que fica na cidade de Mucuri, no extremo sul da Bahia. De acordo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), os dois veículos bateram de frente.

Ainda não há informações sobre o que causou a batida e as identidades das vítimas não foram divulgadas.

De acordo com a PRF, os veículos pegaram fogo após o acidente e a pista precisou ser interditada.

A cidade de Mucuri fica próxima à divisa do estado da Bahia com o Espírito Santo. Fonte: https://g1.globo.com

Solidão é um estado emocional que pode acontecer mesmo em meio a outras pessoas

Especialistas recomendam criar novos rituais e conexões genuínas para enfrentar o período festivo

 

Catarina Pignato/Folhapress

 

Giulia Peruzzo

São Paulo

Uma criança sozinha na noite de Natal. Enquanto todos celebram, ela foi deixada para trás em uma casa vazia. É essa experiência traumática que molda Ebenezer Scrooge, o protagonista de "Uma Canção de Natal", de Charles Dickens, transformando-o num homem amargo que passa a odiar o feriado. Décadas depois, a mesma angústia ressurge como trama principal de "Esqueceram de Mim", franquia natalina em que o menino Kevin é deixado para trás pela família não uma, mas duas vezes.

Os enredos podem ilustrar um medo inconsciente: passar a data associada às tradições em família, união, perdão e amor totalmente sozinho. A psicanalista Carol Romano, autora do livro "Por que as Relações Importam (Tanto)?", da editora Amarilys, afirma que as pessoas estão de fato mais solitárias. Ela cita uma pesquisa global de engajamento no trabalho que constatou que 20% dos participantes relataram solidão. O número de lares com uma pessoa dobrou desde a década de 1960.

Por outro lado, a aproximação das festas de fim de ano pode gerar uma percepção de solidão, que difere de estar sozinho de fato. A solidão é um estado emocional que implica desconexão, explica o psiquiatra Rodrigo Bressan, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Segundo o médico, esse período do ano é propício para essa percepção, já que há uma pressão social pela felicidade, pela celebração e pela gratidão.

"Um monte de gente está com questões difíceis, como distanciamento e conflitos com a família, lidando com transtornos psiquiátricos ou a perda de algum familiar", diz Bressan. A pressão social pode acabar gerando um sentimento de inadequação e culpa por estar sofrendo.

As mídias sociais podem reforçar ainda mais essa sensação, afirma o psiquiatra, já que a maior parte das postagens são de momentos felizes e bonitos, o que gera a impressão de que todo mundo está feliz, menos a pessoa do outro lado da tela.

Para Romano, essa performance que acontece nas redes sociais é a mesma das confraternizações. "Você está reunido com pessoas com as quais não falou o ano inteiro, com as quais não tem uma conexão real", diz. "Então, a cobrança para estar feliz, falando de conquistas e agindo como se tudo estivesse perfeito. As pessoas podem se sentir performando."

Bressan reforça que a sensação de solidão, apesar de não ser por si só depressão, pode estar associada a ela e, por isso, deve ser cuidada. Pode ser algo comum e transitório desse momento do ano, mas, se persistir e se somar à ansiedade, angústia e perda de motivação que dure semanas ou meses, ele recomenda procurar ajuda profissional.

 

Ressignificando a solidão

As pessoas podem estar fisicamente sozinhas, mas ressignificar o momento das festas. Há oito anos, a professora de educação infantil e cantora Jacqueline de Lima Carvalho, 43, se viu sozinha em São Paulo enquanto sua família passaria o fim de ano no Recife. "Eu não ia conseguir voltar para comemorar com eles, então tive a ideia de fazer um encontro em casa com colegas que estavam longe ou com problemas na família."

A prática, chamada de "Natal dos desgarrados" —ou seja, daqueles que estão separados de um grupo—, se popularizou entre pessoas que não conseguem ou não querem se reunir com familiares para a ceia. Jacqueline conta que há pessoas do grupo que se reúnem desde o início, mas a cada ano surgem novos amigos ou pessoas indicadas por amigos.

"Nos últimos anos, apareceram muitas pessoas com conflitos familiares por causa de política", diz. "As pessoas que não se conhecem passam a firmar novas amizades." No dia 24, a festa tem dança, música, bebidas e mesa colaborativa: cada um leva um prato, além de um presente para o sorteio do amigo secreto. O grupo volta a se reunir no dia 25, para a "Ressaca do Peru", para comer as sobras da noite anterior.

Reunir os amigos próximos pode ser uma solução para quem vai passar as festas de fim de ano sozinho, seja qual for o motivo, e não quer se sentir solitário. Para quem vai trabalhar, uma opção é criar rituais com os colegas, como fazer amigo secreto ou compartilhar refeições, diz Romano.

Assim como o trabalho com propósito não gera solidão nessa época, a psicanalista recomenda que quem está sozinho faça trabalhos voluntários e humanitários.

"Nas ciências que estudam bem-estar e felicidade, uma das práticas de emoções positivas é quando você se coloca a serviço do outro num trabalho voluntário ou humanitário. Eu acho inclusive curativo para muita gente que tem esse núcleo mais solitário", diz.

Agora, para aqueles cujo problema é se sentir solitário mesmo em torno de outras pessoas, ela também dá algumas dicas, como tentar se reconectar com os familiares mais distantes em outros momentos antes das festas, em encontros menores e mais intimistas, e criar rituais para aprofundar a conversa, como uma roda de conversa para falar das intenções para o ano. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br


Um grave acidente de trânsito registrado nesta sexta-feira (19), na BR-116, nas proximidades do município de Cândido Sales, no sudoeste da Bahia, resultou na morte de três integrantes de uma mesma família natural de Acopiara, no Ceará.

As vítimas são um casal e um filho. Uma outra filha do casal sobreviveu, mas encontra-se internada em estado grave.

De acordo com as primeiras informações, o carro de passeio em que a família viajava colidiu violentamente com um caminhão.

O impacto foi tão intenso que os pais e o filho morreram ainda no local. Equipes de resgate, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e o Departamento de Polícia Técnica (DPT) atenderam a ocorrência, e os corpos foram encaminhados ao Instituto Médico Legal (IML).
As causas do acidente seguem sendo investigadas pelas autoridades competentes. Segundo informações de familiares, a família seguia viagem para Acopiara, onde pretendia passar o Natal e o Ano Novo junto aos parentes.

A tragédia causa grande comoção entre amigos, familiares e toda a comunidade acopiarense. Fonte: https://www.instagram.com/jpaulinhoneto

Acidente aconteceu na manhã deste domingo (14), em São Francisco do Glória; segundo os bombeiros, as vítimas não usavam cinto de segurança. Criança de 3 anos foi socorrida e levada para o Hospital São Paulo, em Muriaé.

 

Por g1 Zona da Mata — São Francisco do Glória

Dois gêmeos, de 32 anos, e a esposa de um deles, de 36 anos, morreram em uma batida entre um carro e uma carreta na BR-116, em São Francisco do Glória, na manhã deste domingo (14).

Um menino de 3 anos, filho do casal, ficou gravemente ferido.

Eles seguiam no sentido Muriaé quando o motorista perdeu o controle da direção em um trecho de pista molhada e bateu de frente com a carreta, que trafegava no sentido contrário.

Batida entre carro e caminhão deixa três mortos e uma criança ferida na BR-116

Dois gêmeos, de 32 anos, e a esposa de um deles, de 36, morreram em uma batida entre um carro e uma carreta na BR-116, em São Francisco do Glória, na manhã deste domingo (14). Um menino de 3 anos, filho do casal, ficou gravemente ferido. O acidente ocorreu por volta das 11h20, no km 663 da rodovia.

A Prefeitura de Fervedouro informou que as vítimas que morreram são Katimiller, Jader Peatan e Peron. Em nota, o município lamentou as mortes, informou que a cidade está em luto e se solidarizou com familiares e amigos.

Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e o Corpo de Bombeiros, os dois irmãos, a mulher e a criança estavam em um Gol. Eles seguiam no sentido Muriaé quando o motorista perdeu o controle da direção em um trecho de pista molhada e bateu de frente com o veículo de carga, que vinha no sentido contrário. O condutor da carreta não se feriu.

Ainda conforme a PRF e os bombeiros, nenhum dos ocupantes do automóvel usava cinto de segurança. A criança sofreu ferimentos graves e foi socorrida pelo Samu, sendo levada para o Hospital São Paulo, em Muriaé.

A perícia da Polícia Civil esteve no local para apurar as circunstâncias do acidente. Durante o atendimento, o trecho da rodovia ficou parcialmente interditado, com o trânsito fluindo em meia pista. Após a liberação da perícia, os corpos foram encaminhados ao Instituto Médico-Legal (IML) de Muriaé. Fonte: https://g1.globo.com

 

 

Por Luana Alves, Rafael Nascimento, g1 Rio e TV Globo

O crime aconteceu na altura do viaduto Oscar Brito, em Campo Grande. Os corpos foram encontrados no canteiro central da pista, no sentido Santa Cruz. Bebê foi socorrido para o Hospital Pedro II.

Um homem e uma mulher foram assassinados a tiros no final da noite desta segunda-feira (8) na Avenida Brasil, na altura do viaduto Oscar Brito, em Campo Grande, Zona Oeste do Rio.

O casal estava dentro de um carro, acompanhado de um bebê, quando foi atacado.

A criança sobreviveu ao ataque e foi socorrido para o Hospital Municipal Pedro II, em Santa Cruz, passou por cirurgia e está em estado gravíssimo.

Um homem e uma mulher foram assassinados a tiros no final da noite desta segunda-feira (8) na Avenida Brasil, na altura do viaduto Oscar Brito, em Campo Grande, Zona Oeste do Rio. O casal estava dentro de um carro, acompanhado de um bebê, quando foi atacado.

A criança foi baleada em uma das pernas por 2 tiros e está em estado gravíssimo.

De acordo com as Polícias Militar e Rodoviária Federal, o veículo foi encontrado em um canteiro da via, no sentido Santa Cruz, fuzilado.

O bebê que estava no carro sobreviveu ao ataque e foi socorrido e levado por populares para o Hospital Municipal Pedro II, em Santa Cruz. A direção da unidade informou que a criança passou por cirurgia e está internada em estado gravíssimo. O Conselho Tutelar foi comunicado sobre o caso.

Os corpos do homem, identificado como Yuri Garcez Honorato, e da mulher, que ainda não foi reconhecida, foram encaminhados para o Instituto Médico Legal (IML) do Centro do Rio.

A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) assumiu a investigação do caso. A polícia busca esclarecer a motivação do crime e identificar os autores dos disparos. Fonte: https://g1.globo.com

Kauã Brenno Ribeiro dos Santos estava em um barco, curtindo o dia com a família, quando a embarcação afundou. Ele, então, decidiu nadar até que encontrou Emerson Goulart, que ajudou a fazer o resgate. "Na água, era um sentimento muito ruim. O tempo ia passando e o medo era escurecer", lembra ele, em entrevista à CRESCER. Conheça a história!

 

Por Amanda Moraes

O que era para ser um dia divertido para a família de Kauã Brenno Ribeiro dos Santos, 19, de Santarém, Pará, se tornou um momento de medo e angústia. Ele estava com os pais, a irmã de 6 anos, a namorada e os amigos curtindo o dia em uma lancha no Rio Arapiuns, no início de novembro, até que o barco começou a afundar. Em menos de um minuto, a família ficou à deriva.

Após algumas horas nadando, Brenno encontrou o piloto de helicóptero Emerson dos Santos Goulart, 45, de Osasco, que estava de férias pescando. Ele subiu no barco e o levou até a sua família. Felizmente, todos foram resgatados em segurança. "Tenho só a agradecer pelo livramento", diz o jovem, em entrevista exclusiva à CRESCER.

Brenno conta que tudo aconteceu muito rápido: o barco enfrentou problemas mecânicos, provavelmente por um erro durante a revisão, antes de embarcarem, conta. Quando perceberam que estava afundando, correram para pegar os coletes salva-vidas e pularam na água. Em cerca de 40 segundos, a lancha estava completamente submersa. "A gente ainda ficou 10 minutos conversando sobre o que fazer, naquela agonia. Aí, eu falei que eu conseguia nadar para pedir ajuda. O pessoal não queria, porque estávamos muito longe [da costa]", lembra Brenno.

Mas ele conseguiu convencer os familiares a deixá-lo ir. "Era a única solução para a gente sair de lá. Se não, passaríamos muito tempo lá, não passava nenhuma lancha. Eu levei um pente rosa cintilante. Caso visse alguma embarcação, poderia sinalizar já que, no meio do rio, tu não é nada. É muito difícil de ver", conta.

Brenno começou a nadar em direção ao que parecia uma ilha. "Eu lembro que tinha um boto que nadava comigo. Chegou um ponto em que eu não via mais minha família, então, eu ficava naquela dúvida: será que eles estão bem? Será que eu volto para ajudar? Eu ficava só orando, só queria chegar logo. O ruim não era nem nadar, era olhar para frente e parecer que estava no mesmo lugar", recorda.

 

'No meio do percurso, comecei a sentir cãibras nas pernas'

Brenno ficou cerca de duas horas nadando até que avistou terra fime. "No meio do percurso, comecei a sentir cãibras nas pernas", lembra. Ele viu o barco de Emerson, que estava pescando, começou a gritar, assobiar e acenar. O piloto lembra desse momento: "Foquei meu olhar para o rio e tive a felicidade de observar muito longe, mas muito longe mesmo, um pequeno ponto preto. Então, pedi para o condutor da lancha para irmos até lá dar uma olhada", conta.

"Na verdade, a gente foi meio que desacreditado, brincando que poderia ser um tronco, um jacaré, alguma coisa assim. Chegando perto, vimos que se tratava de uma pessoa. Deu para ver os braços mexendo, gesticulando", acrescenta. Foi, então, que ele encontrou Brenno. "Estava exausto, tendo fortes cãibras. Ao colocá-lo no barco, ele falou que tinha mais gente na água, estava toda sua família, inclusive crianças. Naquele momento, eu sabia que tínhamos que agir rápido", diz Emerson.

Ele acalmou Brenno e explicou que estavam em dois barcos e se dividiram para começar as buscas. "Sabíamos que não poderíamos demorar por conta do pôr do sol e do nosso combustível, que era limitado. Foi aquela aflição! Não sabíamos como encontrar as pessoas", diz. Felizmente, eles conseguiram localizá-los em pouco tempo. "Foram aproximadamente de 15 a 20 minutos de busca que, para mim, pareceram duas horas. Estavam todos de colete, reunidos. Isso ajudou muito. Essa atitude de não se separar foi fundamental para que a gente conseguisse tirar todos bem da água", afirma.

 

'Tenho só a agradecer pelo livramento'

"Quando encontrei Emerson, fiquei muito feliz porque eu ia atrás dos outros. E fiquei mais alegre ainda quando os encontramos. Deu aquele sentimento de alívio, que nada foi em vão. Na água, era um sentimento muito ruim: o tempo ia passando e o medo era escurecer. Mas quando a lancha apareceu, eu fiquei muito grato a Jesus. Foi um momento de felicidade. A palavra perfeita para isso é milagre", lembra o jovem.

Todos estavam muito cansados, mas ninguém se feriu. "A gente deve olhar para a vida, caiu a ficha de que a gente não é de ferro, não é de aço, a gente vai embora. Tenho só a agradecer pelo livramento", afirma Brenno.

Emerson também ficou muito feliz em ajudar. "Quando chegamos, foi uma euforia total, aquela sensação boa. A gente foi tomado por aquele sentimento de missão cumprida, de agradecer a Deus por tudo ter dado certo, por todos estarem são e salvos", destaca.

 

Viralizou

O vídeo do momento do resgate foi compartilhado por Emerson nas redes sociais e gerou uma enorme repercussão. Muitos internautas elogiaram a coragem de Brenno, que nadou por tanto tempo em busca de ajuda. "Eu gravei para não passar em branco. Postei na minha rede social, que era fechada, mas a minha filha acabou externando e tomou uma proporção enorme", afirma. "A sensação é de gratidão a Deus. Acho que ele que trabalhou naquele momento para que tudo ficasse bem", finaliza. Fonte: https://revistacrescer.globo.com

Diante dos brutais casos recentes no país, historiadora resgata histórias de mulheres que foram mortas por serem mulheres quando o crime ainda não havia sido tipificado; assassinos alegavam 'legítima defesa da honra' e 'loucura momentânea'

 

 Feminicídios, uma epidemia secular — Foto: André Mello/Editoria de Arte

 

Por Ruan de Sousa Gabriel

 — São Paulo

 

Nas últimas duas semanas, quase que diariamente, uma série de crimes bárbaros chocou o país: em todos, as vítimas eram mulheres — violentadas e mortas por serem mulheres. Em Florianópolis, uma jovem de 21 anos foi estuprada e estrangulada quando se dirigia para uma aula de natação. Em Jaborandi, na Bahia, outra, de 27 anos, foi arrancada do banho e assassinada a tiros pelo ex-namorado. Na Zona Norte do Rio, um servidor público matou a tiros uma professora e uma psicóloga no Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet), no Maracanã. Em São Paulo, uma mulher foi morta na pastelaria onde trabalhava pelo ex-marido, e uma jovem foi atropelada e, ainda presa no veículo, arrastada pela rua. Ela teve as pernas amputadas e foi internada em estado grave. O suspeito do crime, segundo a família da vítima, teve um breve relacionamento com ela.

Em 2024, o Brasil bateu recorde de feminicídios desde 2015, quando o crime foi tipificado por lei sancionada pela ex-presidente Dilma Rousseff: 1.492 casos. Só na capital paulista, de acordo com dados coletados pela Globonews, houve 53 feminicídios apenas este ano, o maior número da série histórica. Já no estado de São Paulo, os feminicídios aumentaram 10% desde janeiro, informou o Instituto Sou da Paz. E a ocorrência de assassinatos de mulheres em vias públicas quase dobrou do ano passado para cá: um salto de 33 para 48 ocorrências, no comparativo entre os dez primeiros meses de 2024 e 2025.

A violência contra a mulher também bate recorde na internet. No Rio, as denúncias de perseguição e assédio virtual cresceram mais de 5.000%, passando de 55 para 2.834 na última década, conforme atestou o recentemente divulgado Dossiê Mulher.

A explosão recente no número de crimes, portanto, não é um ponto fora da curva, mas evidência de que o país vive uma epidemia de violência contra a mulher, resultado de séculos de brutalidade social e cultura misógina.

— É inegável que as redes sociais radicalizaram o ódio às mulheres e o feminicídio no Brasil, transformando essas violências em conteúdos altamente rentáveis, inclusive. Mas, se a mudança de escala do alcance dessas notícias é novidade da contemporaneidade, o ódio e a violência contra as mulheres são constitutivos da história brasileira. Isso significa lembrar o que foi e ainda é apagado na nossa história: o desenvolvimento econômico, político e cultural do Brasil ocorreu a partir da desumanização e objetificação das mulheres por meio da exploração colonial, do trabalho escravo, do controle, da vigilância e de toda sorte de violências de seus corpos e mente — enumera a historiadora Patrícia Valim, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA). — As mulheres que resistiram às violências e que moldaram a nossa sociedade foram agredidas, mutiladas e mortas.

 

Morta por ser mulher

Patrícia é autora dos textos que resgatam as histórias de mulheres que foram mortas por serem mulheres e ousarem tomar as rédeas das próprias vidas. Os conteúdos narram as violências a que elas foram submetidas, esmiúçam os argumentos mobilizados para defender os assassinos (como a “legítima defesa da honra” e a “loucura momentânea”) e questiona como a sociedade brasileira dos séculos XIX e XX elaborou as histórias dessas mulheres — algumas delas foram transformadas em santas milagrosas ou em assombrações que até hoje vagam sem destino.

Tudo parece tristemente atual. Os textos denunciam ainda a persistência de vícios jurídicos e sociais que, ainda hoje, condenam mulheres à morte. Na avaliação de Patrícia, recordar essas histórias significa humanizar essas mulheres e mostrar que sua existência não se resumiu a serem vítimas de feminicídio.

— Precisamos enfrentar esse “necrotério” de registros para resgatar vidas invisibilizadas de uma forma que desafie a reprodução do feminicídio e o apagamento dessas histórias. O Levante Mulheres Vivas ocupará as ruas dos país inteiro para lembrar essas mulheres e dar um basta a essas violências — diz a historiadora, referindo-se às manifestações que acontecem hoje por todo o Brasil em defesa da vida das mulheres.

 

'Legítima defesa da honra'

Salvador, 20 de abril de 1847. Caía a noite quando João Estanislau da Silva Lisboa, de 27 anos, invadiu a casa de Júlia Clara Fetal, sua ex-noiva. Ele deu um tiro na jugular da moça de 20 anos, tentou matar a mãe dela, a francesa Julie Fetal, e feriu gravemente a mão do desembargador Manoel Vieira Tosta, vizinho que jantava ali e conseguiu chamar a polícia para prender o assassino em flagrante.

O crime repercutiu em jornais do país inteiro. Políticos conservadores alinhavam-se ao clamor popular que exigia justiça e punição exemplar para o assassino. Em defesa do réu, políticos liberais propunham uma pena mais branda e, pela primeira vez, falaram em “legítima defesa da honra”: João Estanislau seria um homem honesto e trabalhador que, por uma “paixão senil”, perdeu momentaneamente a razão no ato do crime.

Criado no julgamento de João Estanislau, o dispositivo da privação da razão foi incluído no Código Republicano de 1890. “Não são criminosos os que se acharem em estado de completa privação dos sentidos e de inteligência no ato de cometer o crime”, afirma o artigo 27, § 4.º, que continuou autorizando a absolvição e a redução das penas mesmo depois de retirado do Código Penal de 1940. A tese da “legítima defesa da honra” teve vida longa nos julgamentos de feminicídios no Brasil.

 

Noivado a jato

Neto de um traficante de escravizados, João Estanislau nasceu em Calcutá, na Índia, e foi criado em Salvador pela mãe, a inglesa Mary Ann. O declínio financeiro não impediu que os dois frequentassem a elite soteropolitana. O rapaz, porém, tornou-se o primeiro da família a precisar trabalhar para viver. Ensinava geografia no Liceu Provincial e dava aulas de inglês. Foi como professor que chegou à casa de Júlia, que recebera a educação típica de uma moça branca e rica da época: tocava piano, costurava, desenhava, falava francês e parecia destinada a se casar com um rapaz do mesmo grupo social. João Estanislau se apaixonou e a pediu em noivado depois da primeira aula.

A notícia de um possível casamento entre a fortuna da noiva e o sobrenome tradicional do noivo atiçou Salvador. Mas Júlia não estava apaixonada. Ela era bonita e cheia de vida; ele era cabisbaixo, tinha mau gênio e colecionava brigas pela cidade. O rompimento definitivo veio quando a jovem conheceu Luiz Antônio Pereira Franco, estudante de Direito do Recife que passava férias na casa vizinha à da família Fetal. Os dois trocavam cartas com o consentimento da mãe dela. Demitido das aulas, recusando-se a aceitar o fim do noivado e se sentindo publicamente traído, João Estanislau jurou vingança. Num fim de tarde de abril, cumpriu a ameaça.

Com julgamento marcado, João Estanislau alegou problemas de saúde e se internou na Santa Casa de Misericórdia para afastar o boato de que planejava fugir. Em 29 de setembro de 1847, dois terços do júri livraram o réu da pena de morte e o condenaram a 12 anos de prisão. A defesa conseguiu que o tribunal reconhecesse o direito de um homem de vingar sua honra. A inovação do julgamento foi interpretar a honra como propriedade inviolável e introduzir o conceito de “loucura momentânea”, capaz de despersonalizar um homem de “bom passado”, cujo crime teria resultado de um ato ocasional de desespero e ciúmes.

João Estanislau continuou ensinando inglês aos filhos da elite baiana, que os levavam ao presídio para as aulas. Ao sair da cadeia, ele assumiu a direção da instituição de ensino mais prestigiada da Bahia, o Colégio São José. Em 1876, publicou o livro “Atlas Elementar”, adotado pelas escolas provinciais e até hoje considerado obra de referência. Hoje, dá nome a uma rua da Baixa dos Sapateiros, em Salvador.

Os restos mortais de Júlia Clara Fetal repousam na Igreja da Graça, na capital baiana. Sua história tem sido contada em verso e prosa e, não poucas vezes, seu desejo de ser livre e se casar com o homem que amava foi usado para justificar seu assassinato. Em “ABC de Castro Alves”, Jorge Amado a descreve como “traiçoeira como a correnteza, gostava de ver pousados no seu rosto os olhos dos homens e de ver presos ao seu sorriso os corações de todos que encontrava”.

Em 2023, 176 anos após o assassinato de Júlia, a tese da “legítima defesa da honra” foi considerada inconstitucional por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal. No entanto, ainda precisa ser erradicada da sociedade brasileira. Fonte: https://oglobo.globo.com

Dominação funciona melhor quando não chamamos dominação de dominação

Até hoje a mulher é tratada como território a ser controlado, dominado, delimitado

 

Becky S. Korich

Advogada, escritora e dramaturga, é autora de 'Caos e Amor'

 

As pessoas morrem de doenças, acidentes, desgosto, tiros e de causas naturais. Além das causas que atingem todos, as mulheres morrem também por outra "causa natural": ser mulher. Não é um "mal genético", é um mal da engenharia social.

O que está explodindo nas notícias não são eventos pontuais, não são picos de um gráfico, é uma constante. O roteiro se repete diariamente. Ameaça, grito, humilhação, estupro, espancamentoesfolamento, enforcamento e, muitas vezes, o fim.

O que assusta é que os assassinos não são monstros, são "pessoas comuns". Trabalham, têm família, circulam na rua, sentam ao nosso lado no trabalho e, com frequência assustadora, moram dentro de casa.

feminicídio é último degrau de uma escada de violências contra a mulher. Quase nunca começa no soco, no tiro, na faca, no fogo. Começa no tom. No "cala a boca", no "você tá exagerando", no "ninguém diz não para mim", no "ela me provocou". Quando essa engrenagem de poder e controle se repete dentro de casa, o filho aprende, o vizinho aprende, o bairro aprende, a cidade aprende, a sociedade aprende, até a mulher aprende.

A brutalidade é tamanha que, às vezes, o homem só não mata porque a mulher não morreu. A violência parece ter ficado mais violenta. Ou talvez já fosse assim, a diferença é que agora há câmeras, há vídeo, há redes, há vozes femininas. Ficamos indignadas com as cenas e seguimos com medo dos próximos capítulos dessa série de horror sem fim. O horror não está só no ato, está também na normalidade.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu ajuda a entender a dinâmica através do que ele chama de violência simbólica. Ela não precisa quebrar ossos para quebrar pessoas, porque opera por linguagem, por gestos, por aquilo que vai sendo aceito como "as coisas são assim" e, assim, prepara o terreno para a agressão concreta.

A violência simbólica é esperta: suave, paciente, sutil e, por isso, especialmente eficaz. Ela entra pelas frestas, contamina o ambiente e vira o que os filósofos chamam de "doxa", uma crença sedimentada que ninguém mais questiona. A partir daí, a subordinação passa a se reproduzir sozinha, e o intolerável vira rotina e socialmente aceito.

Até hoje a mulher é tratada como território –a ser controlado, dominado, delimitado. Bourdieu diria: a dominação funciona melhor quando a gente não chama dominação de dominação. Quando chama de "dinâmica do casal". Quando chama de "gênio forte". Quando chama de "ciúme". Quando chama de "crime passional".

Não se trata, portanto, apenas de violência física, trata-se da materialização de um discurso ancestral. Há mais de vinte séculos, Aristóteles já definia a mulher como um "homem incompleto", e a história cuida de adequar essa ideia ao seu tempo.

Cada feminicídio é um lembrete brutal de que falhamos, resultado de uma cadeia de omissões sociais e falhas institucionais. Só leis, por mais rigorosas que sejam, não são suficientes.

A violência simbólica se instala como ar. E quando vira ar, todo mundo respira sem notar. Até que falte ar. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br

Prisão de políticos acusados de conluio com facções expõe sociedade acuada pelo crime

 

A prisão preventiva do presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União Brasil), por suspeita de ligação com a facção criminosa Comando Vermelho (CV), é mais uma peça na apuração sobre a eventual infiltração do crime organizado não apenas na economia formal, mas também no poder público. Bacellar é acusado de ter vazado informações sigilosas da investigação policial que há cerca de três meses resultou na prisão do então deputado pelo MDB Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Joias, sob a mesma acusação de envolvimento com o CV.

No fim de semana anterior à prisão, Bacellar ocupava interinamente a cadeira de governador do Estado, substituindo Cláudio Castro (PL), que viajara ao Peru para acompanhar a final da Copa Libertadores. A sucessão direta de Castro por Bacellar, antigos aliados, faz parte de um arranjo político que culminou com a renúncia, em maio, do vice-governador Thiago Pampolha, indicado para o Tribunal de Contas do Estado. Bacellar, que até pouco tempo preparava candidatura a governador em 2026, precisava ganhar visibilidade.

Pelo menos nisso não se pode dizer que tenha fracassado. O deputado nunca esteve tão em evidência quanto nos últimos dias, preso durante a Operação Unha e Carne, da Polícia Federal. A presumível associação de facções criminosas em atividades econômicas formais e na política institucionalmente constituída também vem ganhando destaque nacional. Em agosto, a Operação Carbono Oculto revelou ligações da facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) com fintechs e empresas do setor de combustíveis.

O sequestro da atividade formal pelo crime organizado desafia o Estado Democrático de Direito. Em setembro, quando TH Joias foi preso, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) anunciou uma série de medidas que visavam a reduzir a interferência de traficantes e milicianos nas eleições de 2026. A principal delas é a mudança de endereço de dezenas de seções eleitorais no Estado. Na época, o vice-presidente do TRE-RJ, Claudio de Mello Tavares, destacou que eleitores de áreas sob o domínio do crime votam com medo. Ou seja, o eleitor, que parece ter se livrado do voto de cabresto do antigo coronelato político, agora se vê acuado pelo crime.

O ex-deputado TH Joias, aliado de Bacellar na Alerj, é um suspeito reincidente. Em 2017, foi preso pela Delegacia de Combate às Drogas (DCOD), acusado de ser articulador do tráfico de drogas e armas do Rio. De acordo com a acusação, lavava dinheiro para as três facções rivais do Rio. Apesar do histórico, concorreu nas eleições de 2022 e conseguiu uma suplência, assumindo o cargo dois anos depois, com a morte do deputado titular. Depois da nova prisão, foi imediatamente expulso do partido.

O controle dos partidos políticos deveria ser rigoroso já no processo de filiação, funcionar como um filtro dos candidatos a cargos eletivos e aumentar ainda mais ao longo dos mandatos. Se o crime está, de fato, conseguindo se embrenhar com tanta facilidade no Estado, é porque, entre outras razões, os partidos têm permitido que criminosos se filiem e usem a política como blindagem e meio de ampliar poder e riqueza. Fonte: https://www.estadao.com.br

O engajamento com tecnologia, longe de contribuir para a “degeneração cerebral”, pode oferecer benefícios cognitivos a adultos mais velhos

 

Adultos mais velhos podem ter benefícios cognitivos ao interarir com novas tecnologias Foto: Picassology/Adobe Stock

 

Por Richard Sima (The Washington Post)

Você pode achar que passar tempo no smartphone ou no computador faz mal para o cérebro. De fato, “brain rot” — o termo usado como gíria para indicar um declínio mental causado pelo consumo irrefletido de redes sociais ou de lixo digital — foi eleito a “Palavra do Ano” de 2024 pelo Oxford Dictionary.

Mas novas pesquisas sugerem que adultos mais velhos que passam tempo interagindo com tecnologia podem ter um benefício cognitivo.

“Vimos que adultos mais velhos que usam tecnologias de modo geral parecem ter menos diagnósticos de demência, comprometimento cognitivo leve e melhores resultados em medidas cognitivas”, informa Jared Benge, professor associado da Dell Medical School da Universidade do Texas em Austin e autor do artigo — uma meta-análise de 57 estudos — publicado na revista Nature Human Behaviour.

Nos estudos, maior uso de tecnologias digitais do dia a dia, como computadores, smartphones e internet, foi associado a uma redução de 58% no risco de comprometimento cognitivo em pessoas acima de 50 anos.

 

Tecnologia digital e o cérebro

A relação entre cognição e uso de tecnologia provavelmente é bidirecional, afirmaram os pesquisadores: pessoas com cognição saudável tendem a usar mais tecnologia, e pessoas que usam mais tecnologia podem ter melhor cognição no futuro.

Tecnologia é cara, e seu uso pode refletir status socioeconômico, escolaridade ou riqueza — fatores associados a menor risco de demência.

Mas mesmo quando os pesquisadores analisaram estudos que controlavam essas variáveis, incluindo questões de saúde, a associação positiva entre uso de tecnologia e cognição permaneceu.

“O surpreendente é o quanto nossos resultados foram consistentes”, afirma Michael Scullin, professor de psicologia e neurociência na Universidade Baylor e autor da análise. Nenhum estudo encontrou efeitos prejudiciais da tecnologia para a cognição.

Como os estudos eram observacionais, não é possível provar causalidade. Mas estudos longitudinais que acompanharam participantes por cerca de seis anos mostraram que maior uso de tecnologia está associado a melhor saúde cognitiva no futuro.

Embora esses estudos indiquem uma ligação positiva consistente entre uso de tecnologia e saúde cognitiva em adultos mais velhos, isso também traz certos riscos — exposição a golpes financeiros, desinformação e a tentação de mexer no celular ao dirigir, afirmaram os pesquisadores. “Não existe uma resposta simples sobre se esses dispositivos são sempre bons ou sempre ruins”, resume Scullin.

O uso excessivo de tecnologia também pode ter outros custos: esse tempo poderia ser usado para atividades como exercícios ou interações sociais presenciais.

Um estudo de 2023 com mais de 18 mil adultos mais velhos descobriu que, embora usuários regulares da internet tivessem aproximadamente metade do risco de demência em comparação com quem não usa, aqueles com uso muito intenso talvez apresentassem risco maior.

“Demais de qualquer coisa não é bom”, avisa Virginia Chang, professora associada da Escola de Saúde Pública Global da Universidade de Nova York e autora do estudo de 2023.

 

Os três C’s do uso da tecnologia

Há três maneiras pelas quais a tecnologia pode impulsionar a saúde cognitiva. Benge pensa nelas como os “3 C’s”: complexidade, conexão e comportamentos compensatórios.

 

Complexidade

Estudos mostram de forma consistente que desafiar o cérebro com tarefas mentalmente complexas faz bem: palavras cruzadas, hobbies, música, leitura, mais anos de educação formal.

Hoje, temos a amplitude e a profundidade do conhecimento e da cultura humanas ao alcance dos dedos. “Se você tem interesse em aprender algo novo — seja uma nova técnica de marcenaria ou uma ideia acadêmica — você encontra praticamente tudo”, comenta Benge.

Como interagimos com a tecnologia parece importar, segundo um estudo de 2022 com mais de 145 mil pessoas acima de 60 anos. Quem passava mais tempo usando o computador tinha risco 15% menor de demência. Mas quem assistia mais TV — uma atividade de tela geralmente mais passiva — tinha risco 24% maior. Esses padrões se mantiveram independentemente do nível de atividade física.

Ironia: lidar com as frustrações da tecnologia — atualizar softwares, diagnosticar problemas de hardware, instabilidade da internet — também são desafios cognitivos. Embora não sejam “divertidos, são atividades estimulantes para o cérebro”, diz Scullin.

 

Conexão

Tecnologias digitais também podem nos conectar uns aos outros. Conexão social protege contra demência; isolamento e solidão aumentam o risco.

Ligações de longa distância deixaram de ser um luxo caro. E hoje é possível se conectar imediatamente com amigos e familiares por mensagem, e-mail ou chamada de vídeo — um recurso especialmente valioso para adultos mais velhos. Um estudo de 2022 mostrou que o uso da internet traz ainda mais benefícios cognitivos para pessoas idosas que vivem sozinhas.

Curiosamente, estudos sobre redes sociais mostraram resultados mais mistos, em parte porque há menos pesquisas nessa área, observam os pesquisadores.

O uso de computadores, smartphones e internet apresentou associações positivas muito mais consistentes — o que levanta a pergunta sobre se o modo como usamos redes sociais realmente estimula cognitivamente ou promove conexão social, embora sejam necessários mais dados de longo prazo, destaca Scullin.

 

Comportamentos compensatórios

Ao envelhecer, podemos enfrentar dificuldades em habilidades cognitivas como memória, tomada de decisão e navegação.

Tecnologias digitais podem ajudar compensando essas limitações, oferecendo uma “estrutura de apoio” para tarefas diárias. Por exemplo, podemos usar dispositivos digitais para definir lembretes de consultas médicas. E, para navegação, “GPS é realmente revolucionário”, afirma Scullin.

Ter ajuda tecnológica pode prolongar a vida independente mesmo quando a capacidade cognitiva está prejudicada, pontua ele.

 

As incógnitas digitais

Embora haja evidências consistentes de que usar tecnologia digital está associado a benefícios cognitivos para os pioneiros digitais — a primeira geração exposta a computadores, smartphones e internet já na vida adulta — ainda é cedo para saber como crescer ou nascer em um mundo de telas molda o desenvolvimento cerebral e a saúde cognitiva de gerações mais jovens.

“A quantidade de exposição, o tipo de exposição, o momento dessa exposição” provavelmente fará diferença, explica Virginia. Mas “se há algo em que o cérebro é bom, é em se adaptar ao ambiente”, nota Benge. “Tenho pouquíssima dúvida de que veremos mudanças em como o cérebro opera, mas isso faz parte de ser humano.”

 

Boas práticas para usar tecnologias digitais

Aprenda a usar tecnologia do jeito certo

 

Para adultos mais velhos que evitam tecnologias digitais por acharem intimidadoras, há maneiras mais simples de entrar nesse universo.

Mesmo pessoas com comprometimento cognitivo leve conseguem aprender a usar esses dispositivos com instrutores pacientes, o que melhora a vida dos idosos e de seus cuidadores, observaram Scullin e Benge em suas pesquisas.

Muitas vezes, parentes bem-intencionados não são os melhores professores porque a relação pode vir carregada de histórico, dinâmicas familiares e frustrações, informa Scullin. É melhor ter “alguém neutro, treinado para ser realmente paciente com pessoas nessa fase da vida, que não pressuponha conhecimento prévio e que não tenha nenhum histórico com essa pessoa”, afirma.

Em grandes cidades, há organizações com profissionais capacitados para ensinar a usar essas tecnologias a partir do básico, diz ele.

 

Monitore seu próprio uso

Revise seu tempo de tela a cada poucos meses, aconselha Scullin. Muitos celulares mostram essas métricas, e há aplicativos que monitoram o uso no computador.

Esses dados ajudam a avaliar se você está empregando seu tempo da forma que deseja e podem servir como um sinal para redirecionar alguns minutos para outra atividade — como ir mais cedo à academia ou sair ao ar livre, exemplifica ele.

Com as telas, “provavelmente existe um pouco mais de tempo desperdiçado do que gostaríamos”, afirma.

 

Reflita sobre o que você está ganhando com isso

“Essas são ferramentas. Não são uma realidade pré-definida”, define Benge. “Use as ferramentas que são boas para você e evite as que não trazem benefício.”

Você pode tentar um experimento pessoal semelhante ao de testar alergias alimentares: elimine algo por uma ou duas semanas e observe como se sente, orienta Benge. “Se você se autoavaliar de forma sistemática, pode identificar padrões interessantes — tanto no uso quanto nas coisas que funcionam bem para você.”

“Se ajuda você a realizar tarefas, a navegar pela vida, se traz conexão social, se estimula cognitivamente, se você gosta de ler jornal online ou jogar online, acho que tudo isso é positivo”, defende Virginia. “E eu diria apenas: tudo com moderação.” Fonte: https://www.estadao.com.br

Festejada como exemplo de linha dura, a ação policial mais letal da história, segundo relatório do próprio Estado, falhou em quase tudo e, para piorar, há poucas imagens de câmeras da PM

 

A Operação Contenção, realizada no fim do mês passado nos Complexos da Penha e do Alemão, no Rio, tornou-se um marco para o debate nacional sobre o modelo de segurança pública que o Brasil precisa adotar para enfrentar as organizações criminosas. Se ganhou essa importância, o ideal seria que a mais letal intervenção policial já registrada no País fosse devidamente escrutinada pela sociedade e pelas instituições de controle, como sói acontecer em qualquer democracia constitucional madura.

Mas, não obstante a gravidade da operação – que culminou em 121 mortos, entre eles quatro policiais –, o governador Cláudio Castro (PL) falhou miseravelmente em assegurar as condições mínimas para que as ações dos policiais civis e militares sob seu comando pudessem ser devidamente apuradas, sobretudo pelo Ministério Público, instituição incumbida pela Constituição de exercer o controle externo da atividade policial.

O Relatório Técnico-Probatório enviado pelo governo fluminense ao Supremo Tribunal Federal (STF), por ordem do ministro Alexandre de Moraes no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, expõe falhas absolutamente inaceitáveis à luz da dimensão daquela operação. Embora Castro classifique a Operação Contenção como um “divisor de águas” no combate às facções criminosas em seu Estado, o próprio relatório entregue por ele ao STF desmonta o discurso oficial. A Secretaria de Segurança Pública do Rio atualizou os números de prisões e apreensões, demonstrando que muitos dos mandados judiciais que originalmente embasaram a operação deixaram de ser cumpridos. Para piorar, a pasta foi incapaz de fornecer o elemento mais básico de qualquer operação policial moderna: o registro audiovisual por meio de câmeras corporais instaladas no fardamento dos agentes.

Dos cerca de 2.500 policiais mobilizados, só uma pequena parte portava câmeras. E, desse contingente já pífio, somente metade dos equipamentos registraram imagens. O restante, segundo o governo fluminense, apresentou falhas técnicas ou teve as baterias descarregadas. É uma explicação que zomba da inteligência alheia. Não há como justificar que um dos maiores Estados do País conduza uma operação policial daquele porte providenciando um número tão minguado de câmeras e, ademais, em prever baterias extras a fim de garantir o pleno funcionamento dos aparelhos. Não se pode condenar quem veja esse erro crasso de planejamento como uma ação deliberada para inviabilizar a reconstrução dos fatos e a identificação de eventuais ilegalidades cometidas pelas forças policiais.

Quando não se sabe exatamente o que aconteceu durante os confrontos, abre-se espaço para a desconfiança na polícia – e isso é péssimo para o Estado de Direito. A ausência das imagens torna-se ainda mais grave diante dos relatos de que corpos teriam sido removidos e manipulados antes da realização de perícia. Em qualquer parte do mundo civilizado, esse tipo de comprometimento da chamada cadeia de custódia seria suficiente para anular a credibilidade de toda a operação. No Brasil, onde o uso de câmeras corporais já foi reconhecido pelo próprio STF como mecanismo indispensável à atividade policial, até para resguardo dos próprios agentes, isso soa como afronta ao Estado de Direito.

A discussão sobre segurança pública, contudo, não se encerra nos eventuais erros da Operação Contenção. A escalada de poder de facções como PCC e Comando Vermelho, que se tornaram, na prática, organizações de caráter mafioso, exige uma abordagem nacional capaz de coordenar políticas públicas, fortalecer investigações e impor limites claros ao uso da força letal.

Se a Operação Contenção se converteu no ponto de partida para essa inflexão tão necessária, torna-se ainda mais imperativo que ela seja analisada com absoluta transparência e rigor. Não há dúvida de que o combate às facções criminosas frequentemente exige confronto. Mas o que diferencia policiais e bandidos é o compromisso inegociável com a legalidade. A sociedade brasileira, exausta tanto da violência cotidiana quanto da omissão histórica do poder público, não clama por vingança, mas por ordem, húmus da paz social. E ordem só se constrói com operações policiais circunscritas aos limites da Constituição. Fonte: https://www.estadao.com.br