Maioria dos crimes violentos ocorre dentro da própria casa e pandemia agrava a tragédia

Número de vítimas de mortes violentas aumenta a cada ano no país, segundo o relatório do Unicef (Shutterstock)

A cada ano, 7 mil crianças e adolescentes são mortos de forma violenta no Brasil e ao menos 45 mil são vítimas de violência sexual. Os números foram revelados pelo Panorama da Violência Letal e Sexual Contra Crianças e Adolescentes no Brasil, lançado nesta sexta-feira (22), pelo Unicef, braço das Nações Unidas para a infância, e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

O estudo diz que a violência ocorre de formas variadas, conforme a faixa etária da vítima. Crianças morrem na maior parte das vezes em decorrência de violência doméstica, cujo autor é conhecido, como um pai ou um padrasto. Um caso de grande repercussão neste ano foi a morte de Henry Borel, de 4 anos. O namorado da mãe do garoto, o ex-vereador do Rio conhecido como Dr. Jairinho, foi preso acusado do crime - ele nega.

No ano passado, 300 menores de até 9 anos de idade foram mortos de forma violenta no país. Foi praticamente um caso por dia, boa parte deles dentro da própria casa. O mesmo vale para a violência sexual, em geral também cometida dentro de casa por pessoas próximas. Já os adolescentes, que representam a maioria das vítimas, são mortos majoritariamente na rua. São vítimas, apontam os pesquisadores, da violência armada e do racismo. O estudo também destaca a alta proporção de jovens mortos durante intervenções policiais.

"A violência doméstica é um crime contra a infância. A violência urbana é um crime contra a adolescência, que atinge principalmente meninos negros", diferencia Florence Bauer, representante no Brasil da Unicef. "Embora sejam fenômenos complementares e simultâneos, é crucial entendê-los também em suas diferenças para desenhar políticas públicas efetivas de prevenção e resposta às violências", acrescenta ela.

A diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, afirma que a violência contra crianças e adolescentes é um problema grave, que precisa ser cada vez mais discutido por nossa sociedade. "São vítimas dentro de suas próprias casas enquanto são pequenas e sofrem com a violência nas ruas quando chegam à pré-adolescência", diz ela. "O poder público precisa encarar a questão com seriedade e evitar que mais vidas sejam perdidas a cada ano."

O trabalho é uma análise inédita dos boletins de ocorrência das 27 unidades da Federação registrados nos últimos cinco anos. Abrange mortes violentas intencionais (homicídio doloso, feminicídio, latrocínio, lesão corporal seguida de morte, mortes decorrentes de intervenção policial) e a violência sexual contra crianças e adolescentes.

Entre 2016 e o ano passado foram identificadas 35.626 mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos de idade no Brasil. Isso corresponde a uma média de 7,1 mil mortes violentas por ano. São cerca de 20 por dia.

Dados preocupantes

A maioria das vítimas de mortes violentas neste período era de adolescentes; 31 mil casos estavam na faixa etária de 15 a 19 anos. Entretanto, no mesmo período, foram identificadas pelo menos 1.449 mortes violentas de crianças de até 9 anos de idade. O número dessas mortes vem aumentando desde 2016, chegando a 300 crianças em 2020.

Olhando apenas para a primeira infância (até 4 anos), os dados são ainda mais preocupantes. Nos 18 estados que dispunham dos dados completos para o período, as mortes violentas de crianças de até 4 anos aumentaram 89% de 2016 a 2020. Passaram de 121 casos para 229.

O aumento foi puxado pelo crescimento do número de mortes por arma de fogo nessa faixa etária, que triplicaram nesse período. Foram de 28 para 85. Nos últimos anos, o governo Jair Bolsonaro tem flexibilizado o acesso a armas de fogo para civis, sob o argumento de ampliar as oportunidades de legítima defesa aos cidadãos. Especialistas criticam a política e apontam riscos de aumento da mortalidade com mais armas em circulação.

Entre as crianças de até 9 anos mortas de forma violenta, 44% eram brancas; 33% eram meninas. Do total, 40% morreram dentro de casa; quase metade (46%) perdeu a vida por causa do uso de arma de fogo; e 28% pelo uso de armas brancas ou agressão física.

Meninos negros são maiores vítimas

Em todas as idades, as principais vítimas de mortes violentas são os meninos negros. O perfil, no entanto, se intensifica ainda mais na adolescência. Para os meninos, a faixa etária dos 10 aos 14 anos marca a transição da violência doméstica para a prevalência da violência urbana. Nesta idade, começam a predominar mortes fora de casa, por arma de fogo e por autores desconhecidos.

Quando os adolescentes chegam à faixa etária de 15 a 19 anos, essa transição no perfil da violência letal está consolidada. As mortes violentas têm alvo específico: mais de 90% das vítimas são meninos, e 80% são negros. Esses meninos, pretos e pardos, morrem fora de casa, por armas de fogo. Em uma proporção significativa, são vítimas de intervenção policial.

Em 2020, nos 24 estados em que há dados (exceções são Bahia, Distrito Federal e Goiás), um total de 787 óbitos de crianças e adolescentes de 10 a 19 anos foram identificadas como "Mortes Decorrentes de Intervenção Policial". Esse número representa 15% do total das mortes violentas intencionais nessa faixa etária, e indica uma média de mais de duas mortes por dia no país.

Violência sexual

A violência sexual é um crime que acontece prioritariamente na infância e no início da adolescência. Por causa de problemas com os dados de 2016, a análise desses registros refere-se ao período entre 2017 e 2020. Nesses quatro anos, foram registrados 179.277 casos de estupro ou estupro de vulnerável com vítimas de até 19 anos. É uma média de quase 45 mil casos por ano. Crianças de até 10 anos representam 62 mil das vítimas nesses quatro anos - ou seja, um terço do total.

A maioria das vítimas de violência sexual é menina - quase 80%. Para elas, um número muito alto de casos envolve vítimas entre 10 e 14 anos de idade, sendo 13 anos a idade mais frequente. Para os meninos, o crime se concentra na infância, especialmente entre 3 e 9 anos de idade. A maioria dos casos de violência sexual contra meninas e meninos ocorre na residência da vítima. Para os casos em que há informações sobre a autoria dos crimes, 86% dos autores eram conhecidos.

De acordo com especialistas, a pandemia representou um risco ainda maior para esse tipo de crime. Com as crianças longe da escola e em um convívio social mais restrito, diminuem as chances de que sejam notados os sinais de abuso e o crime, denunciado.

Agência Estado/Dom Total: https://domtotal.com

As nossas orações pela alma da Sra. Margarida de Oliveira Andrade, mãe do Frei José Aparecido, O. Carm, falecida nesta sexta-feira 22, na cidade de Munhoz-MG. As nossas orações.

 

Em plataformas como TikTok, a história da produção artística passa a ser irrelevante

 

Ronaldo Lemos

Advogado, professor das Universidades de Columbia em Nova York e Tsinghua (em Pequim). É fundador do ITS ( Instituto de Tecnologia e Sociedade) Rio. Apresenta a série Expresso Futuro no Canal Futura e é colunista da Folha

 

SÃO PAULO

[resumo] Autor defende que uma nova forma de cultura em emergência nas redes digitais atua com força avassaladora e trata como irrelevante a história da produção artística e seus significados, que se transformam em massa amorfa instrumentalizada para a ostentação.

Sabe todos os livros, os filmes e as músicas que você consumiu ao longo da vida e que participaram de sua formação e de sua memória? Ou ainda, os textos, poemas, quadros e até o grafite no muro da cidade que você achou marcantes? Tudo isso tem cada vez menos valor para nossa experiência coletiva.

Para uma nova forma de cultura que emerge com força avassaladora nas redes digitais, toda a história da produção artística tem praticamente o mesmo significado: nenhum. Tudo não passa de uma massa amorfa pronta que pode ser instrumentalizada independentemente de seu conteúdo, ou então simplesmente esquecida.

Parodiando perversamente Roland Barthes: reduzir toda atividade criativa ao seu “grau zero” tornou-se não um experimento acadêmico, mas uma atividade de massa.

Essa é a Grande Ruptura. Uma nova forma de representação e comunicação para a qual o cânone é irrelevante ou não tem significado textual, apenas instrumental. Os sinais da Grande Ruptura estão em toda parte. Tanto na cultura mainstream como, principalmente, nas culturas de nicho (ou melhor, de meganichos, já que milhões de pessoas participam deles).

Para os mais otimistas, essa é uma realização inesperada dos projetos mais radicais da arte moderna e das vanguardas. Mas com um twist: ter como consequência voltar-se contra si mesma.

Como consequência, ataca a própria possibilidade de produção de artefatos culturais que possam ser compartilhados intersubjetivamente, ou que possam persistir na memória para além da experiência imediata. Em outras palavras, é a serpente que começa a consumir sua própria cauda.

Dá para enxergar um fiapo da Grande Ruptura quando o Spotify, a plataforma de música mais popular do Ocidente, organiza seu repertório não só em gêneros como rock ou pop (classificações do passado reconhecidas coletivamente), mas a partir de estados emocionais (“moods”), refletindo sensações como alegria, tristeza, preocupação, concentração e assim por diante. O coletivo e a memória (representados por categorias como gênero) são substituídos pela experiência sensorial imediata de um estado de espírito.

Não por acaso, a empresa obteve em 2021 uma patente do processo de análise das emoções do usuário e do seu ambiente para recomendar o que ouvir a seguir. Os dados coletados incluem o estado emocional do usuário e a análise de sua forma de falar (se tem stress emocional ou sotaques), além de informações contextuais como o lugar onde se encontra (ônibus, casa, parque) e seu contexto social (se está sozinho, em um pequeno grupo, em uma festa etc.).

Em outras palavras, preocupa-se em determinar a experiência imediata do usuário, inclusive emocional, mais do que suas preferências e gostos acumulados culturalmente na memória, arquivados por meio das classificações de gênero, nome do artista ou da música.

No entanto, essa é só uma ponta visível de um fenômeno mais complexo e profundo. Não é o Spotify que lidera esse processo de ruptura, a empresa apenas se apropriou de alguns de seus aspectos.

O “locus solus” da ruptura está sendo forjado em outros lugares: nos games, nos canais de áudio do Discord, nos fóruns anárquicos na internet e na darkweb, em ferramentas de edição e design para crianças como o Gacha Club, em plataformas como o Roblox e, sobretudo, no TikTok.

 

QUAIS AS CARACTERÍSTICAS DA GRANDE RUPTURA?

Em 2011, o crítico cultural inglês Simon Reynolds publicou o livro “Retromania: O Vício da Cultura Popular com Seu Próprio Passado”, que resumiu o estado das práticas culturais no Ocidente naquele início de década.

Sua tese era simples e poderosa: a cultura popular se transformou em pastiche. Nada de novo se criava. Ao contrário, tudo era remix ou releitura de algo que havia sido feito antes.

Na visão de Reynolds, todo o cânone cultural havia se tornado “matéria-prima” pronta para ser reapropriada, relida ou remixada de forma infinita, sem a criação de nada original.

Na tese do autor, o cânone era central, porque a partir dele tudo mais se derivaria. A primeira característica da Grande Ruptura é que o cânone não é mais central, mas irrelevante. A cultura que surge a partir dela é, essencialmente, uma arte da ferramenta, não dos conteúdos.

Assim, torna-se importante não o modo como algo é representado ou o conteúdo do que é representado, mas sim a forma e outros elementos “meta”: o exibicionismo da capacidade do que as inúmeras ferramentas de criação e manipulação de conteúdos podem fazer.

Como elas podem alterar, editar, sintetizar, distorcer e manipular conteúdos já existentes ou recém-criados. E, com isso, impactar a experiência emocional dos usuários, sua formação de memórias e a própria percepção da realidade.

Em outras palavras, todo o corpo cultural histórico é utilizado e remixado na Grande Ruptura, como Reynolds descreveu. A questão é que esse uso é essencialmente instrumental, desprovido de qualquer significado intrínseco ou contextual.

Não importa mais o que está sendo remixado, quem é seu autor, o gênero ou seu significado original. O que é importante é exibir (ou ostentar) como as ferramentas de manipulação digital atuais são capazes de produzir perturbações e alterações nos conteúdos e na apreensão que fazemos deles para produzir experiências sensoriais imediatas e automáticas, que apelam primordialmente ao inconsciente.

Nesse sentido, não interessa se o objeto digital a ser manipulado é um quadro de Chagall, com suas conexões com a história, ou uma selfie tirada acidentalmente no celular. O que importa é a manipulação em si. Chagall ou a selfie tirada acidentalmente têm o mesmo valor como significante: nenhum.

Ao mesmo tempo, ambos têm valor idêntico como combustível para o exibicionismo dos potenciais usos das ferramentas de transformação e síntese.

Outra característica da Grande Ruptura é que seu objetivo final não é transmitir informação, mas modular experiências imediatas, especialmente estados emocionais; é muito mais experiência do que conteúdo.

Para isso seus artefatos são instrumentalizados mais para produzir alegorias e mesmo manipulação emocional do que para comunicar qualquer coisa. A informação ou conteúdo textual, quando presentes, servem apenas de veículo para transportar efeitos emocionais.

No espectro das emoções humanas trabalhadas pela Grande Ruptura, existe uma que reina sobre todas as outras: a ansiedade. A Grande Ruptura é, em grande medida, ainda que não totalmente, a cultura da ansiedade.

É assim que a simbiose entre a Grande Ruptura e o TikTok se materializa. O TikTok é hoje a plataforma de mídia que mais cresce no planeta, sendo o único aplicativo não ligado ao Facebook a conseguir a façanha de ser utilizado por 3 bilhões de usuários, e com sinais de crescimento. Não por coincidência, foi o aplicativo mais baixado desde o início da pandemia, tendência que continua em 2021.

O TikTok é construído em torno de uma inteligência artificial capaz de entender rapidamente, e com poucos elementos de informação contextuais, as preferências dos seus usuários.

Antes mesmo de alguém dar um like em um conteúdo, a empresa já tem informações para determinar seu grupo social e preferências, derivados da marca do celular, do perfil de uso da bateria e até da forma como o dono do aparelho toca na tela, digita e o segura.

Um dos problemas da “era dos dados” em que vivemos é justamente que sua coleta vai muito além do modelo de escolha racional. Não somos nós que racionalmente escolhemos os conteúdos que aparecerão nas nossas redes sociais. Esses conteúdos são escolhidos e ordenados por algoritmos.

Que por sua vez levam em consideração tanto nossas escolhas conscientes (em quais posts ou perfis você deu um like), como também inconscientes.

Por exemplo, mesmo que o usuário não tenha dado nenhum like, é possível determinar que tipo de foto ou imagem realmente o impacta, prendendo sua atenção ou gerando uma reação emocional.

Tudo isso por meio de reações fisiológicas que independem de qualquer escolha, como o tempo em que um usuário olha para uma foto, sua expressão facial, o jeito que seus dedos se deslocam pela tela, o movimento dos seus olhos em direção à imagem e assim por diante.

Esse tipo de análise é capaz de revelar preferências e vários tipos de vieses que os próprios usuários das redes sociais não teriam coragem de confirmar publicamente —ou até mesmo que possivelmente desconhecem sobre si mesmos do ponto de vista consciente.

Dados e algoritmos são capazes de captar essas preferências sem a necessidade de qualquer escolha, analisando apenas contextos, reações e padrões de uso. O celular converte-se, assim, no objeto técnico mais íntimo que já existiu. Capaz de acessar não só as preferências racionais dos usuários, mas também o seu inconsciente.

Ou ainda, o contexto e o ambiente no qual o usuário habita, sua rotina diária, com quem se encontra, o mapa das suas amizades, flutuações emocionais, estado de saúde física e mental, contatos e assim por diante.

Poucas são as plataformas que fazem isso melhor que o TikTok. Na concorrência com o Facebook, o TikTok desenvolveu como ninguém a capacidade de analisar preferências inconscientes. E nem adianta tentar enganar a plataforma, clicando ou se engajando com vídeos “sérios” ou “respeitáveis”, que poderiam refletir melhor a imagem que gostaríamos de racionalmente projetar de nós mesmos.

A plataforma saberá que as preferências íntimas do usuário são outras —e continuará a oferecer conteúdos de acordo com elas, de forma irresistível.

É nesse contexto que a Grande Ruptura floresce. Muitos produtores de conteúdo do TikTok já perceberam, de propósito ou acidentalmente, que o que mais produz “engajamento” são as preferências inconscientes.

Com isso, adaptaram progressivamente seus conteúdos com essa finalidade. Passaram a produzir artefatos que provocam ou retratam experiências emocionais, verdadeiras galerias de estados emocionais inconscientes, alimentando de forma direta com as preferências inconscientes dos usuários.

Um exemplo, ainda que imperfeito, é um dos maiores hits do ano passado do TikTok: o vídeo em que um homem chamado Nathan Apodaca anda de skate. Enquanto isso, filma a si mesmo bebendo suco de framboesa e cranberry, com a trilha sonora da música “Dreams”, da banda Fleetwood Mac. Importa no vídeo de 23 segundos muito mais o estado emocional que ele projeta, de relaxamento ou tranquilidade, e muito menos quem é aquela pessoa, onde ela está, ou que música é essa.

O exemplo é imperfeito porque a Grande Ruptura é composta de conteúdos muito mais abstratos e radicais do que a imagem de um homem andando de skate. Essa é outra característica da Grande Ruptura: sua abstração e sua radicalidade.

O conteúdo mais típico do fenômeno é composto de imagens digitais reprocessadas de games, de vídeos, de outras contas do TikTok, editadas, distorcidas, filtradas, “croppadas” e moduladas para produzir experiências emocionais inconscientes, difíceis de serem descritas em palavras ou mesmo apreendidas racionalmente.

As emoções que esses conteúdos tocam derivam, na maioria dos casos, do sentimento de ansiedade e variações (medo, pânico, apreensão, stress, tensão, horror) ou contraposições (relaxamento, distração, meditação, cura, dissipação, luta permanente contra ataques de pânico).

São dois lados da mesma moeda que estão presentes na Grande Ruptura: o veneno e o remédio. De um lado há conteúdos abstratos e radicais, altamente manipulados e que se valem de qualquer coisa (imagens originalmente digitais, personagens de games, partes recortadas de outras imagens digitais, trechos de músicas reprocessados e distorcidos), com função de provocar novas experiências de tensão e ansiedade, bem como outras formas de perturbação emocional.

De outro lado ocorre o oposto. Toda uma sorte de conteúdos ansiolíticos, tais como milhões de vídeos de relaxamento, uso de fidget toys (brinquedos que provocam estímulo sensorial por meio de toques, cores e sons), hipnose, manipulação de slime e outras modalidades de experiências sensoriais mais radicais do que qualquer “baba antropofágica”. Tudo capaz de deixar Lygia Clark ao mesmo tempo espantada e preocupada.

Mesmo quando os conteúdos não são originados da manipulação de objetos digitais, mas sim captados a partir de pessoas e situações reais, a abstração e radicalidade continuam presentes.

Por exemplo, um dos principais fenômenos do TikTok são os vídeos com coreografias faciais. Pessoas que ligam a câmera para si mesmas e movimentam os olhos e a face de modo a produzir sensações em quem assiste, ao som de música ou ruídos. Não há texto, não há mensagem, não há conteúdo.

Apenas a face humana, muitas vezes manipulada por meio de ferramentas para ampliar seu impacto sensorial, buscando transmitir empatia digital e emoções difíceis de descrever, tudo disseminado por meio de algoritmos de inteligência artificial.

Aliás, é bom lembrar que um dos principais cronistas do TikTok atualmente é Kieran Press-Reynolds, jornalista de 21 anos e filho do escritor Simon Reynolds. Kieran é autor de um excelente artigo sobre as coreografias faciais no TikTok.

O núcleo típico da Grande Ruptura, contudo, não depende sequer de conteúdos captados na “realidade”. Consiste apenas no reprocessamento de imagens originariamente digitais, captadas em games como o Roblox, ou ainda, usando ferramentas infantis para construção de personagens ou “skins”, como o Gacha Life.

Cada um desses programas funciona como uma “caixa de areia” onde é possível criar e apagar qualquer coisa. A Grande Ruptura usa o conteúdo construído por esses “sandboxes”, que são posteriormente reprocessados, editados, “croppados”, com camadas sucessivas de aplicação de novas ferramentas, produzindo distanciamento cada vez maior da realidade.

O resultado desses vídeos é radical. O que Jean-Luc Godard ensaiou fazer no seu filme “Adeus à Linguagem” (2014) é hoje feito de forma muito mais eficaz por crianças de 5 a 12 anos no TikTok.

Digo eficaz porque “Adeus à Linguagem” é um filme 72 minutos que funciona como ensaio linguístico, mas falha miseravelmente como veículo emocional. Diga-se o que quiser do brilhantismo do filme, mas ele é essencialmente chato, apelando primordialmente para nosso lado racional e muito pouco para o lado emocional.

No TikTok, o filme não teria chance de viralizar (aliás, esse seria um bom experimento: fazer upload do filme recortado em trechos para ver como o algoritmo da plataforma e o público irão reagir, quanto “engajamento” acontecerá).

Apesar de “Adeus à Linguagem”, em sua radicalidade, ter elementos em comum com alguns dos vídeos que caracterizam a Grande Ruptura, o filme de Godard falha como veículo de perturbação emocional. E nisso os usuários que produzem conteúdos no TikTok —treinados e impulsionados por meio de tentativa e erro, tendo por base o algoritmo capaz de medir reações inconscientes— são bem-sucedidos.

Vídeos ultrarradicais na forma (nos cortes, na manipulação da imagem e do som, na justaposição, no remix, na estranheza de modo geral) são igualmente eficazes em despertar engajamento e experiências emocionais, inclusive viciantes. Mesmo no curto tempo que duram, de 1 a 60 segundos, transmitem sua cota de ansiedade ou outra perturbação emocional.

É claro que quem domina a Grande Ruptura e as ferramentas necessárias para sua concretização ganha “engajamento”. E o “engajamento” produz celebridades, poder e dinheiro. Inclusive para o próprio TikTok.

Por exemplo, não são poucos os ícones da plataforma, com centenas de milhares de seguidores, que não falam sequer uma palavra. Aparecem apenas por segundos nos vídeos realizando alguma expressão facial. Seu apelo é direcionado para o inconsciente, não para a racionalidade.

Perturbação emocional, aliás, é o que fica desses conteúdos. O que foi mostrado, quais foram as imagens, personagens, gênero ou mesmo o autor dos conteúdos não importa. A principal memória que se forma, por design, é o estado emocional que o vídeo buscou transmitir.

Essa é outra característica da Grande Ruptura: a total ausência de autoria ou de “catalografia”, créditos, arquivos ou qualquer coisa parecida. Outro sonho concretizado da ala mais radical da modernidade, na forma de anjo troncho.

É irrelevante saber quais são os autores da grande maioria desses conteúdos. São criações anônimas que se utilizam de bilhões de referências a outras obras, também não creditadas e também igualmente irrelevantes textualmente. Só o estado emocional transportado por elas importa.

Ou ainda, só a ferramenta é importante. Nesse sentido, os dois elementos centrais da Grande Ruptura são a modulação emocional (com a predominância da ansiedade) e a arte da ferramenta. Junte-se a eles os algoritmos e a inteligência artificial capazes de ler as preferências inconscientes de bilhões de pessoas.

E o smartphone, esse objeto técnico que funciona como ferramenta de psicometria individualizada e também como portal para consumo do resultado de todos esses processos.

O que mais importa nos vídeos da Grande Ruptura é justamente exibir as infinitas “graças” que essa manipulação pode gerar, tornando premonitório o título do livro de David Foster Wallace, “Infinite Jest” (a piada infinita, em português).

 

O alerta vermelho

Entramos em um momento em que vão ganhando preponderância artefatos culturais que possuem a estrutura de uma piada: ambicionam entregar uma reação emocional inevitável. Com a diferença de que o texto dessa piada infinita é irrelevante, e em vez de riso ela entrega ansiedade, suas variações e oposições.

Tudo se resume a um jogo duplo de dopamina. Por um lado, a ferramenta e suas infinitas capacidades de edição e manipulação digital. Do outro, os artefatos resultantes, consumidos por meio de objetos técnicos íntimos que nos compreendem mais do que nós mesmos.

Todos esses elementos em simbiose uns com os outros, observados e impulsionados por algoritmos de delicada graça, como no poema de Richard Brautigan. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br

 

Ele também teria tentado matar a outra filha que conseguiu fugir do local e acionar a polícia; homem se matou em seguida.

 

Por g1 Sul de Minas — Pouso Alegre, MG

Um homem de 47 anos matou a esposa e uma das filhas a facadas em Pouso Alegre (MG) na noite desta sexta-feira (15). Segundo a Polícia Militar, Evandro Donizete Soares também tentou assassinar uma outra filha, que conseguiu fugir. Ela saiu da casa, trancou o portão por fora e acionou a polícia.

"Uma das filhas narrou que estava chegando em casa na companhia de duas pessoas e se deparou com o pai, próximo ao corredor, com uma faca na mão, ensanguentado e muito descontrolado. Ele teria ido em direção a ela, e nesse momento ela trancou o portão e acionou a polícia", disse o tenente da Polícia Militar, Lucas Lopes Martins.

Ainda segundo a PM, a ocorrência foi no bairro Jardim Aeroporto. Quando a equipe chegou ao local, Suzan Flávia Moraes Neves Santos de 44 anos e a filha de 18, Gabriely Aparecida Neves Soares, foram encontradas já sem vida no banheiro. O corpo de Evando Donizete Soares estava pendurado com uma corda no pescoço no fundo da casa.

Segundo a polícia, os vizinhos disseram que não era comum ouvir brigas no local.

"Conversando com alguns populares ali, todos estranharam essa situação, não era corriqueira essa situação de briga lá, aparentemente, uma vizinha disse que no horário aproximado do fato ouviu um pedido de socorro, mas não conseguiu determinar de onde vinha, de quem era, e por não se repetir esse pedido, ela acabou não chamando a polícia, mas a informação era de que não era constante essa situação", disse o tenente.

A filha que conseguiu se salvar também disse que o pai estaria abalado pela perda dos pais e que tinha ciúme excessivo da esposa.

"A solicitante, que é uma das filhas, disse que ele fazia uso de bebida alcoólica e que recentemente ele estaria psicologicamente abalado devido à perda dos pais. Parece que foi em um intervalo curto a perda do pai e da mãe e isso o abalou. Ele também estaria com ciúme excessivo da esposa, informações prestadas pela filha", disse o tenente.

Os corpos das vítimas foram encaminhados para o Instituto Médico Legal (IML) de Pouso Alegre (MG). Já o corpo do homem será levado para Maria da Fé (MG), sua cidade natal. Fonte: https://g1.globo.com

 

POR LUCIANAKOTAKA

A grande maioria das vezes nós estabelecemos expectativas irreais em relação às pessoas com as quais convivemos

 

Desde muito cedo vamos sendo expostos às expectativas de outras pessoas, nossos pais quando receberam o teste positivo de gravidez já começaram a imaginar como seríamos, começando pelo sexo, cor de cabelos, olhos e comportamento. Depois já grandinhos vamos sendo moldados pelas vontades deles, pois como pais temos vários valores que achamos importantes, que aprendemos com a nossa família e no decorrer da nossa vida.

Quando ainda éramos crianças, fomos nos moldando de acordo com o que era esperado de nós, e nesse momento fomos aprendendo a esperar alguns comportamentos de quem vivia ao nosso redor, sejam dos familiares, dos colegas de escola, professores, etc. Ora, se os outros querem que façamos algumas coisas, nós também queremos que os outros façam por nós, concordam? E é nesse processo que aprendemos a criar expectativas a respeito das pessoas dos quais convivemos.

Talvez as expectativas tenham algo bom a acrescentar, mas eu penso que na grande maioria das vezes só nos frustramos, afinal projetamos no outro algo que vem da nossa mente, de nossos desejos, e na maioria das vezes isso provém de necessidades internas que temos. Um exemplo disso se dá na área dos relacionamentos, não importa se é em uma relação de amizade, amorosa ou profissional, estamos o tempo todo esperando algo do outro.

Ao estabelecermos um relacionamento com alguém começamos a projetar muitas de nossas necessidades, como, por exemplo, a nossa carência por afeto. O outro também passa pelo mesmo processo, também irá projetar aquilo que está em falta nele em nós, ou seja, normalmente as suas carências que não necessariamente são as mesmas que as nossas. Agora tudo se complica, pois são duas pessoas com bagagens diferentes que começam a se relacionar.

O conflito começa a se estabelecer justamente quando não percebemos que esse movimento nos remete à carência de afeto que carregamos de nossos pais, e que passamos a buscar em todo tipo de relação com as pessoas das quais interagimos. Um aspecto importante a ser destacado é que na maioria das vezes o outro não está disponível a ocupar esse lugar, e na maioria das vezes não temos uma percepção clara de que essas necessidades precisam ser curadas em nós. É preciso se dispor a olhar para as dores que carregamos, acolher a nossa criança interna e entender com o coração, e não com a cabeça, de que agora é cada um por si mesmo. O outro não tem dever algum de responder as nossas expectativas, cada um tem suas próprias necessidades e também tem questões a serem curadas e resolvidas.

Quando entramos nesse círculo vicioso de esperar que as pessoas ao nosso redor entendam nossas dores, respondam as nossas demandas, estabelecemos relacionamentos tóxicos, pois para dar certo um teria que se submeter ao desejo do outro, e assim anulando a si mesmo. Como ser feliz em uma situação do qual aniquilamos a outra parte? Têm muitas pessoas que vivem essa situação, algumas conseguem se desvencilhar em algum momento, outras se submetem a viver apagadas, abrindo mão dos próprios desejos para responder a algo que não lhe traz alegria.

A questão aqui é o quanto está consciente dessa dinâmica, de como se relaciona com outras pessoas, o que projeta e espera delas. A partir desse olhar mais apurado a respeito de como você funciona é possível conter as expectativas irreais e trabalhar em si mesmo os aspectos que estão em aberto para serem compreendidos e curados, pois a partir desse momento você abrirá as portas para estabelecer relacionamentos mais saudáveis e, possivelmente, mais duradouros. Fonte: https://emais.estadao.com.br

Sempre nos julgamos senhores do mundo, quando somos apenas mais um hóspede dele

 

CACÁ DIEGUES

O livro era tão pequenininho que nem parecia um livro. Mas quando meu amigo anunciou um presente para mim, me facilitou a identificação do objeto em sua mão: “Trouxe um livro de presente para você.” Enquanto eu lia o que ia na capa bem editada da Auster, ele me explicava: “É um equívoco o que dizem dos cineastas brasileiros, que resistimos ao rodo que os governos querem sempre passar no cinema nacional, em nome dos mesmos ideais esquerdistas com que fazemos os filmes.” Ele apontou para o livrinho que eu abria naquele momento: “O que nós somos está aí: somos estoicos, como Sêneca!”

Em minhas mãos, a bela capa de Zé Luiz Gozzo me dizia o que eram os textos que ela protegia: “Sêneca, cartas selecionadas”, com tradução do latim, seleção e notas de Aldo Dinucci. Meu amigo retomou o livrinho de minha mão, foi a uma página pré-sinalizada e leu com voz de comício no interior: “O estoicismo é um humanismo e a condição prévia para podermos saboreá-lo é sermos humanistas.”

Ele anunciou ter coisa ainda melhor para ler no livrinho. E leu: “Isso é o que há de mais belo e excelso no estoicismo: a visão do humano integrado na natureza, junto com a visão orgânica do cosmos como um grande ser vivo e a compreensão da fraternidade entre todos os humanos, filhos e filhas do cosmos.”

Me surpreendi. A revelação, vista de um jeito mais radical, era a de uma reinvenção do homem contemporâneo. Sempre nos julgamos senhores do mundo, quando, na verdade, somos apenas mais um hóspede dele, como o resto da natureza. Não entendendo nosso lugar no planeta, nos comportamos como se a natureza tivesse apenas que nos servir, estivesse à nossa disposição. Um dia, ela ia começar a protestar, como está protestando com fenômenos climáticos que não sabemos como conter, reações à nossa ferocidade em relação ao meio ambiente.

Percebi que não era bem essa a reação que meu amigo esperava de mim. Ele queria ver meus olhos cuspindo fogo, diante dos absurdos recentes em relação à nossa pobre e ferida atividade.

Como artistas, sempre tivemos dificuldades para explicar aos políticos quem somos e o que queremos. Eles declaram o que seus eleitores querem ouvir; nós, ao contrário, somos mais necessários, temos mais qualidade quando inventamos ideias novas que não estavam na cabeça de ninguém. Por isso, sempre tivemos problemas com os governantes. Mas acabávamos por nos entender, cedendo um pouquinho aqui, forçando a barra um pouquinho ali.

Agora estamos diante de um governo que odeia a cultura porque é ela que, de algum jeito, revela o que eles são e o que pretendem fazer do país. Somos seus principais inimigos, sem possibilidade de conciliação. Somos contra tudo que essa cambada tem feito e ainda quer fazer do Brasil.

Defendi com entusiasmo essas ideias, que eram as mesmas de meu amigo e parceiro, agora com os olhos marejados. Ele me tomou novamente o livrinho da mão, abriu uma página já marcada e leu comovido: “Os estoicos romanos acabaram por formar a ‘oposição estoica’, movimento republicano que se opunha sistematicamente aos tirânicos imperadores romanos”. O próprio Sêneca foi preceptor de Nero e acabou sendo condenado pelo imperador à “morte por livre escolha”. Sêneca cortou os pulsos.

Segundo o livrinho, “o estoicismo nos ajuda a desenvolver a coragem para encarar a realidade, é uma ferramenta para nos ajudar a acessar a realidade”. Meu amigo querido folheou mais umas poucas páginas e leu, com a voz embargada, como se faz ao final de um romance que se aprova: “Se contentus est sapiens. Ou: o sábio se basta. Isso significa, meu caro Lucílio, que o sábio se basta para viver de modo feliz, não para viver.” Fonte: https://oglobo.globo.com

 

Contra a fome, grupo recorre a veículo com restos de carne

 

Leonardo Vieceli

RIO DE JANEIRO

A desempregada Sheila Fernandes, 41, caminhou por uma hora e meia, na manhã desta quinta-feira (30), entre a região central e a zona sul do Rio de Janeiro. Por lá, sua missão era encontrar o caminhão que ficou conhecido por distribuir ossos e restos de carne recolhidos em supermercados da capital fluminense.

“Tudo está muito caro. Venho até aqui porque não tenho mais como comprar carne”, conta Sheila, acompanhada por sua filha.

O caminhão, para surpresa da desempregada, não apareceu durante a manhã. “É a nossa única maneira de comer carne no mês”, relata. ​

A distribuição de ossos e sobras na zona sul do Rio, em área entre os bairros Glória e Catete, ganhou repercussão nesta semana após reportagem do jornal Extra.

Com a crise econômica, que elevou desemprego e inflação, o caminhão virou a alternativa para quem tem fome e não tem dinheiro suficiente para comprar alimentos. A situação provocou repercussão nas redes sociais e no meio político.

A Folha tentou contato com os responsáveis pelo veículo, mas não obteve retorno.

"Cozinho na panela de pressão, e tempero com alho e cebola. A carne vai soltando do osso", diz Sheila. As refeições costumam ter ainda arroz e feijão e alimentam a desempregada e as outras oito pessoas de sua família, que vive em uma ocupação.

Sheila está sem emprego há cerca de dois anos. Sua última vaga foi em uma lavanderia. Mas, devido à crise, ela ressalta que aceitaria trabalhar em áreas diversas.

Enquanto não encontra emprego, os recursos do Bolsa Família ajudam a manter despesas básicas. “Estou buscando trabalho, correndo atrás, mas está muito difícil.”

O morador de rua Marcelo de Souza Lima, 48, também faz parte do grupo que busca ossos e sobras de carne para alimentação. Lima relata que começou a ir até o ponto de distribuição entre um ano e meio a dois anos atrás.

Segundo ele, era comum pessoas buscarem os ossos para dá-los a cachorros. Com a pandemia e o aumento da fome, as sobras passaram a ser mais usadas para alimentação das próprias pessoas, diz.

“O cachorro agora tem duas patas”, afirma o morador, que vende água de coco na praia. “Aquilo que a sociedade não quer, a gente aproveita”, acrescenta.

As sobras de carne também viraram alternativa para Joel Souza Costa, 54, nas últimas semanas. O morador de rua, que diz fazer bicos como pedreiro, lamenta a crise gerada pela Covid-19.

“Com uma pandemia dessa, a gente não está podendo jogar nada fora. Não seria digno jogar [as sobras de carne] fora”, afirma.

No estado do Rio, 32,2% da população vivia com algum nível de insegurança alimentar em 2018, antes da crise sanitária, conforme o centro de estudos FGV Social. O quadro era o mais delicado entre os estados do Sudeste e do Sul.

Com a pandemia, trabalhadores perderam renda, o que complicou a situação, ressalta o economista Marcelo Neri, diretor do FGV Social. Segundo ele, a melhora do setor de serviços, que tem grande peso na economia local, pode até ajudar nos próximos meses, embora o cenário seja “bem preocupante”.

Questionada sobre as ações para enfrentar a fome na pandemia, a Prefeitura do Rio afirmou que já repassou R$ 93 milhões por meio do Auxílio Carioca, atingindo cerca de 670 mil pessoas. O programa, anunciado em março de 2021, busca minimizar os efeitos da Covid-19 e contempla famílias em estado de vulnerabilidade social.

A prefeitura relata ainda que, entre outras ações, visita áreas pobres da cidade e oferece atendimentos técnicos, incluindo orientações trabalhistas e inscrições em cursos de qualificação profissional.

Segundo a prefeitura, que cita dados do Cadastro Único, o Rio tinha quase 310,5 mil famílias em situação de extrema pobreza (renda per capita de até R$ 89) e outras 58,5 mil em situação de pobreza (de R$ 89,01 a R$ 178) até agosto de 2021.

O desespero em busca de comida não é uma exclusividade carioca. Durante a crise sanitária, cidades como Cuiabá (MT) também registraram filas em busca de doações de restos de ossos de boi. Os resquícios de carne acabam virando prato principal na casa de quem sofre com dificuldades financeiras.

Como mostrou reportagem da Folha em julho, nem o feijão com arroz escapou da alta da inflação e do desemprego na pandemia. A aceleração de preços e a renda em queda mudaram o cardápio dos brasileiros mais pobres, que se viram obrigados a optar por produtos mais baratos.

Moradores da periferia passaram a recorrer até a pé de frango contra a escassez de comida.

Em 2020, a fome atingiu 19 milhões de brasileiros, conforme dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, conduzido pela Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional). O levantamento foi divulgado em abril.

Em conjunto, desemprego e inflação reduzem o poder de compra da população, sobretudo entre os mais humildes.

Dados compilados pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) ajudam a entender o cenário. Para as famílias com renda mais baixa, a inflação acumulada em 12 meses até agosto alcançou 10,63%, a maior marca entre as seis faixas de rendimento pesquisadas.

A taxa de desemprego no Brasil recuou para 13,7% no trimestre encerrado em julho, informou nesta quinta-feira (30) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Apesar da melhora, o país ainda tem 14,1 milhões de pessoas em busca de algum tipo de trabalho.

No mundo, cerca de 118 milhões de pessoas começaram a passar fome em 2020, indicou relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) publicado em julho. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br

 

Lívia Marra

Uma das zoonoses que causa preocupação mundial, a raiva depende da vacinação de animais para ser mantida sob controle e, assim, assegurar também a saúde dos humanos.

“Apesar de ser bastante conhecida, a raiva continua fazendo vítimas e ainda é uma ameaça em 150 países, sendo 59 mil mortes por ano em pessoas que acontecem em todo o mundo”, diz Daniela Baccarin, médica-veterinária e gerente de produto pet da MSD Saúde Animal.

Os principais transmissores são morcegos, gambás e macacos, que contaminam cães, gatos e homens. Animais domésticos podem ser infectados, por exemplo, ao caçar um morcego ou brigar na rua com um bichinho doente. A transmissão ao homem ocorre por meio de mordidas, arranhões ou lambedura.

Os registros são mais comuns em áreas rurais, o que não isenta o tutor em regiões urbanas de manter atualizada a carteirinha de vacinação do bichinho. A imunização contra a raiva é obrigatória —o pet pode ser exposto ao risco durante um passeio e o comprovante da vacina  pode ser exigido em viagens e hotéis.

Para conscientizar sobre a importância da prevenção, o Dia Mundial Contra a Raiva é lembrado em 28 de setembro.

 

TRANSMISSÃO E SINTOMAS

A principal forma de contaminação é o contato com a saliva de um animal infectado, por meio de mordidas, arranhaduras e lambeduras. O vírus afeta o sistema nervoso central, causando inflamação no encéfalo, encefalite e outros danos neurológicos fatais.

O período de incubação varia de alguns dias a vários meses. Os sintomas dependem de acordo com o estágio progressivo da doença.

Além de salivação excessiva, pets também podem apresentar febre, náuseas, irritabilidade, paralisia e convulsão.

“Qualquer sinal diferente que o cachorro apresente é importante encaminhá-lo ao veterinário, que poderá realizar o diagnóstico correto, com exame como testes laboratoriais ou saliva, bem como indicar os cuidados adequados”, afirma a veterinária.

Após o surgimento dos sintomas, não há cura para os animais. Em humanos, a letalidade é próxima a 100%. No Brasil, apenas dois pacientes sobreviveram.

A pessoa que for mordida ou arranhada por animal que não seja conhecido ou não esteja vacinado deve procurar atendimento médico.

Nos humanos, a doença pode provocar  febre, tontura, dor de cabeça, mal estar, formigamento, pontadas ou sensação de queimação no local da mordida. Com o avanço, acometerá o sistema nervoso central, provocando dificuldade para deglutir, paralisia, convulsão, evoluindo para coma e morte.

Em caso de morcegos encontrados em residências, a orientação é jogar um balde ou toalha sobre ele e acionar órgãos competentes para a remoção.

 

PREVENÇÃO

A doença é considerada controlada no Brasil. Mas a prevenção, por meio da vacina em cães e gatos, é a única forma de evitar a raiva.

“Os tutores precisam ficar atentos ao período de vacinação do animal. Algumas cidades possuem campanha de vacinação, mas se não houver campanha na cidade do tutor, é só procurar uma clínica veterinária. O importante é fazer a principal lição de casa, vacinar”, diz Daniela.

Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), ao menos 70% dos cães devem ser vacinados em massa todos os anos para eliminar a transmissão da raiva.

Devem ser imunizados cães e gatos a  partir dos três meses de vida, exceto doentes. A veterinária afirma que o especialista deve definir a aplicação do imunizante de acordo com o perfil do cão ou gato, que pode variar por diferentes fatores, como a região em que o animal mora. Fonte: https://bompracachorro.blogfolha.uol.com.br

 

Anúncio foi feito após o jornalista dizer que tratamento precoce 'salvou vidas'

 

CNN Brasil anunciou nesta sexta-feira (24) que decidiu rescindir o contrato de Alexandre Garcia, 80, que era comentarista do quadro Liberdade de Opinião, do programa Novo Dia. Em comunicado, o canal informa que pesou o fato de o jornalista ter defendido no ar tratamentos sem eficácia comprovada contra a Covid.

"A decisão foi tomada após o comentarista reiterar a defesa do tratamento precoce contra a Covid-19 com o uso de medicamentos sem eficácia comprovada", diz comunicado. A emissora diz que o quadro dele continuará no ar, mas não diz quem será seu substituto.

O texto distribuído pela assessoria de imprensa do canal também diz que a CNN Brasil "reforça seu compromisso com os fatos e a pluralidade de opiniões, pilares da democracia e do bom jornalismo". O jornalista ainda não se pronunciou.

No programa da manhã desta sexta-feira, Alexandre Garcia afirmou que "remédios sem eficácia comprovada salvaram milhares de vidas". O comentário foi feito enquanto ele falava das denúncias contra a operadora de saúde Prevent Senior, alvo de investigações no MP, na Polícia Civil e na CPI da Covid.

A empresa supostamente pressionou seus médicos conveniados a tratar pacientes com substâncias do "kit covid", como a cloroquina.

"Essa questão de eficácia comprovada a gente só vai saber daqui uns três anos", argumentou Garcia. "Agora tudo é tudo é experimental."

Ao final do quadro, a apresentadora Elisa Veeck desmentiu Garcia. "A CNN ressalta que não existe um tratamento precoce comprovado cientificamente para prevenir a Covid-19", disse. "O que a ciência mostra é que a prevenção, com o uso de máscaras e a vacinação, são as únicas maneiras de combater a pandemia."

Ela também reforçou que as opiniões dos comentaristas não refletiam a posição da emissora. Fonte: https://f5.folha.uol.com.br

 

"O objetivo da pedagogia freireana é fazer com que cada uma e cada um aprendam a dizer a própria palavra" (DW)

 

Para especialistas, é da natureza da pedagogia freireana incomodar, justamente porque ela propõe ensino libertador e baseado na formação crítica do aluno

 

Em dezembro de 2003, o então ministro da Educação Cristovam Buarque inaugurou, na frente da sede do Ministério, em Brasília, um monumento em homenagem ao educador Paulo Freire (1921-1997). O pedagogo era então aclamado como uma personalidade importante da história intelectual do país - nove anos mais tarde, uma lei federal o reconheceria como patrono da educação brasileira.

Em 2019, Abraham Weintraub comandava o mesmo Ministério no primeiro ano da gestão do presidente Jair Bolsonaro. Diante dos maus resultados obtidos pelo país no ranking Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), ele chamou o monumento a Freire de "lápide da educação" e afirmou que o pedagogo "representa esse fracasso total e absoluto".
O próprio Bolsonaro já criticou Paulo Freire, e em mais de uma oportunidade. Numa das ocasiões, referiu-se a ele como "energúmeno". É um discurso recorrente: nos últimos anos, a extrema direita brasileira tem usado Paulo Freire, cujo centenário de nascimento é celebrado neste 19 de setembro, como bode expiatório para a baixa qualidade do sistema educacional brasileiro.

De acordo com especialistas ouvidos pela DW Brasil, o que incomoda reacionários e também alguns conservadores é o fato de a pedagogia freireana ser essencialmente política. "A essência da obra de Freire é totalmente política, no sentido nobre do termo, não no sentido da política partidária", diz o sociólogo Abdeljalil Akkari, da Universidade de Genebra, na Suíça. "Por isso em todas as regiões do mundo, sua obra é lembrada como algo muito interessante para refletir sobre o futuro da educação contemporânea".

"O objetivo da pedagogia freireana é fazer com que cada uma e cada um aprendam a dizer a própria palavra, ou seja, tenham a capacidade de ler o mundo e se expressar diante do mundo. É a pedagogia da autonomia, da esperança: libertadora no sentido de as pessoas terem as capacidades de se libertarem das opressões que buscam calá-las", diz o educador Daniel Cara, professor da Universidade de São Paulo e dirigente da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

Professor do curso de pedagogia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Ítalo Francisco Curcio acredita que parte dessa controvérsia seja por desconhecimento do que é, enfim, o método Paulo Freire. "A maior parte dos que dizem rejeitá-lo nem é especialista em educação, acaba repetindo frases apregoadas por líderes com os quais se identifica", comenta. "Isso é muito ruim. Quem padece é a própria população, desde a criança até o adulto".

 

Diálogo em vez de lógica bancária

Paulo Freire desenvolveu sua pedagogia no início dos anos 1960. Em 1963 ele trabalhou na alfabetização de adultos no Rio Grande do Norte - e conseguiu resultados muito eficientes com sua abordagem. Em linhas gerais, ele defendia que a educação não poderia obedecer a uma "lógica bancária", em que o conhecimento era simplesmente depositado na cabeça dos alunos. Clamava por um ensino baseado no diálogo, em que professor e estudante constroem o conhecimento em conjunto.

Por princípio, é uma pedagogia inclusiva. E saberes específicos, de acordo com contextos particulares, são valorizados. "Ele ressaltou no meio educacional, especialmente na formação de professores e gestores escolares, que é imprescindível considerar os conhecimentos e saberes que o educando já possui, ao ser recebido como aluno. É célebre sua frase: 'Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo'", diz Curcio.

"Seu método não fala em ideologias, mas em formas de ensinar e aprender. Não é um instrumento proselitista", acrescenta. "Quem faz proselitismo é a pessoa, por meio de seus atos e discursos, e não o método. Eu posso utilizar uma faca tanto para cortar o pão ou a carne e me alimentar, quanto para matar alguém".

O educador Cara argumenta que Freire não é bem aceito pela extrema direita justamente porque sua filosofia não admite a doutrinação. "O sectarismo do autoritarismo impede o reconhecimento de uma pedagogia verdadeiramente libertadora", afirma. "Então, Freire se tornou inimigo dos ideólogos de direita porque busca uma pedagogia libertadora, enquanto o modelo tradicional é uma pedagogia opressora".

"Quando a extrema direita chegou ao poder no Brasil, precisava agir no campo da educação. E a figura de Freire se mostrou fácil de ser atacada, porque era algo comum nas comunidades educacionais do Brasil", diz Akkari.

Para o professor, conservadores tendem a acreditar que os problemas educacionais podem ser corrigidos com base em aspectos instrumentais, ou seja, mais tecnologia, equipamentos e carga horária, e não com uma mudança de abordagem. Além disso, existe um tabu sobre politização e formação crítica - ele lembra o movimento Escola Sem Partido, criado nos anos 2000 e que ganhou notoriedade no país após 2015.

Paulo Freire é o oposto de tudo isso: sua obra é baseada na formação crítica do aluno. "Ele é o pedagogo da politização da educação", define Akkari.

 

Mazelas do ensino

Outro mito que os especialistas combatem é o de atribuir à Paulo Freire a culpa pelos problemas educacionais brasileiros. O principal argumento contrário, ressaltam eles, é que a pedagogia dele nunca foi implementada de modo amplo e irrestrito no Brasil. E há ainda o aspecto oposto: o método freireano é muito disseminado em países que costumam se destacar em avaliações educacionais, como a Finlândia.

"Não faz o menor sentido culpar o Paulo Freire pelas mazelas educacionais brasileiras. Ele não é responsável pelo subfinanciamento da educação, pelos péssimos salários dos professores, pelo fato de que o Brasil só passou a colocar a educação como questão nacional a partir dos anos 1930. E, na prática, mesmo em governos alinhados à esquerda não se fez uma pedagogia freireana no país", diz Cara. "Até porque é uma pedagogia que demanda investimentos sólidos em formação e um replanejamento de todo o sistema de ensino".

Akkari observa que essa negação de Paulo Freire por um viés ideológico só ocorre no Brasil. "Se você observar o resto do mundo, a obra dele é consensual", diz.

Isso fica claro no amplo reconhecimento que Paulo Freire recebeu. Em vida, foi homenageado por pelo menos 35 universidades de todo o mundo - entre as quais as de Massachusetts e a de Illinois, nos Estados Unidos; a de Genebra, na Suíça; a de Estocolmo, na Suécia; a de Bolonha, na Itália; e a de Lisboa, em Portugal. O brasileiro também foi reverenciado pela Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciências e Cultura, com o Prêmio Educação para a Paz, em 1986.

"Particularmente, entendo que, por ele ter se tornado uma celebridade internacional, identificado historicamente com uma educação socializante, acaba incomodando algumas pessoas que vêm em sua obra alguma possibilidade de doutrinação", avalia Curcio. "E isso faz com que pessoas que desconhecem o método acabam por dispensar-lhe a mesma conotação".

Curcio ressalva que Paulo Freire não é criticado pela direita, "mas por certas pessoas de direita". Denominando a si mesmo conservador e mencionando que tem muitos amigos educadores também conservadores, ele afirma que, mesmo que haja críticas ao método Paulo Freire, é dispensado "o mais profundo respeito pelo trabalho dele", que continua sendo estudado. "É apenas uma questão de identificação. Não de rejeição ou abominação", diz. Fonte: https://domtotal.com 

 

Paulo Freire deu uma grande contribuição à educação para a justiça social e à concepção dialética da educação. (Arte: Instituto Paulo Freire)

 

As ideias de Paulo Freire continuam válidas não só porque precisamos ainda de mais democracia, mas porque os sistemas educacionais encontram-se frente a novos e grandes desafios

 

Moacir Gadotti*

Desde o ano passado, celebrações em torno dos cem anos de Paulo Freire estão sendo realizadas em diferentes partes do mundo. Alguns poderiam perguntar: por que celebrar o centenário de Paulo Freire? A pergunta procede, pois ele não gostava de homenagens. Costumava dizer, quando recebia homenagens, e foram muitas, que as recebia porque tinha certeza de que elas só aconteciam em função das causas que defendia.

Ele deixou marcas profundas em muitas pessoas e profissionais de diferentes áreas. Não apenas pelas suas ideias, mas, sobretudo, pelo seu compromisso ético-político. Entretanto, não deixou discípulos como seguidores de ideias. Deixou mais do que isso. Deixou um espírito. “Para me seguir não devem me seguir”, dizia ele. Pedagogia do Oprimido teve grande repercussão porque expressava o que muita gente já tinha em mente em seus sonhos e utopias, um mundo de iguais e diferentes, e ressoou nos mais diversos ambientes. Sua filosofia educacional cruzou as fronteiras das disciplinas, das ciências e das artes para além da América Latina, criando raízes nos mais variados solos.

Para nós, do Instituto Paulo Freire, ele continua sendo a grande referência de uma educação como prática da liberdade e de uma educação popular. Muitas das mensagens recebidas no Instituto Paulo Freire, em São Paulo, logo depois do dia 2 de maio de 1997, data de seu falecimento, dizem textualmente: “Minha vida não seria a mesma se eu não tivesse lido a obra de Paulo Freire”; “O que ele escreveu ficará no meu coração e na minha mente”. Essas mensagens revelaram o impacto na vida de tantas pessoas de muitas partes do mundo.

Não há dúvida de que Paulo Freire deu uma grande contribuição à educação para a justiça social e à concepção dialética da educação. A pedagogia autoritária e seus teóricos combatem suas ideias justamente pelo seu caráter emancipatório e dialético. Seja como for, aceitemos ou não as suas contribuições pedagógicas, ele constitui um marco decisivo na história do pensamento pedagógico mundial.

As ideias de Paulo Freire continuam válidas não só porque precisamos ainda de mais democracia, mais cidadania e de mais justiça social, mas porque a escola e os sistemas educacionais encontram-se, hoje, frente a novos e grandes desafios. E ele tem muito a contribuir para a reinvenção da educação atual. Essa reinvenção da educação passa pela recuperação dos educadores como agentes e sujeitos do processo de ensino-aprendizagem e da prática educativa. A reinvenção da educação só pode ser obra de um esforço coletivo, colaborativo, plural, não sectário, pensando numa transição gradual para outras formas de conceber os sistemas educacionais, seu planejamento, sua gestão e monitoramento, seus parâmetros curriculares, se quisermos dar uma contribuição significativa para a construção de novas políticas públicas de educação.

Paulo Freire defendia o saber científico sem desprezar a validade do saber popular, do saber primeiro. Dizia que não podemos mudar a história sem conhecimentos, mas que tínhamos que educar o conhecimento para colocá-lo a serviço da transformação social. Educar o conhecimento pelo entendimento da politicidade do conhecimento; entender o sentido histórico e político do conhecimento.

A utopia é uma categoria central do pensamento de Paulo Freire. Por isso, ele se opôs diametralmente à educação neoliberal, pois o neoliberalismo “recusa o sonho e a utopia”, como afirma na sua Pedagogia da Autonomia. O neoliberalismo não só recusa o sonho e a utopia. Ele também recusa o saber dos docentes, reduzindo-os a meros repassadores de informações como máquinas de reprodução social, excluindo-os de qualquer participação no debate sobre os fins da educação. A educação neoliberal não se pergunta sobre as finalidades da educação, investindo toda a energia nos meios e, particularmente, na eficácia e na rentabilidade, quantificadas milimetricamente por um certo tipo de avaliação. Sabemos avaliar com perfeição, sem nos perguntar sobre o que estamos avaliando.

Para essa concepção de educação, os docentes não têm conhecimento científico; seu saber é inútil. Por isso, não precisam ser consultados. Eles só precisam conhecer receitas sem se perguntar por que ensinam isto e não aquilo. Eles só servem para aplicar novas tecnologias: a sala de aula perde sua centralidade e a relação professor-aluno entra em declínio em favor da relação aluno-computador.

Portanto, há razões para celebrar o centenário de Paulo Freire.

E, como nossa celebração não é uma pura homenagem, nossa proposta de celebração do centenário de Paulo Freire é, também, um convite para um compromisso com uma causa. Nossas celebrações têm um sentido estruturante, um sentido propositivo e prospectivo. Para nós, celebrar não é esperar que o amanhã chegue a nós. É fazer, desde já, o amanhã que desejamos ver realizado. Não é pura espera. É esperançar. Entendemos o centenário de Paulo Freire como um espaço-tempo de articulações, como um processo formativo e de mobilização com vistas à transformação da realidade.

A práxis de Paulo Freire opôs-se ao neoliberalismo e hoje, ao celebrar o centenário, estamos também nos contrapondo à ofensiva ideológica neoconservadora e fortalecendo o pensamento crítico freireano, promovendo ações e projetos alternativos à mercantilização da educação.

Para nós, celebrar Paulo Freire é lutar para democratizar a escola e educar para e pela cidadania. Trata-se, portanto, de lutar por uma escola que forme o povo soberano, o povo que pode mudar o rumo da história, uma escola transformadora, uma escola que emancipa. Paulo Freire nos dizia que essa escola, a escola cidadã, era uma escola de companheiro, de comunidade, que vive a experiência tensa da democracia.

Por isso, saudamos com muito entusiasmo essas celebrações em torno do centenário de Freire. O que se destaca nelas é a defesa da educação pública e popular e a luta contra o neoliberalismo e a mercantilização da educação.

Em tempos como o que estamos vivendo hoje, de retrocessos sociais e políticos e de um neoconservadorismo crescente, precisamos de referenciais como os de Paulo Freire, para nos ajudar a encontrar o melhor caminho de resistência e luta nessa travessia.

Nossa resposta a esses tempos obscuros é celebrar Freire.

*Moacir Gadotti é professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e presidente de honra do Instituto Paulo Freire. Artigo publicado pelo Jornal da USP, 17-09-2021.

Fonte: https://domtotal.com

Valorizar a realidade do outro é o movimento mais revolucionário dos nossos tempos.

 

*Mário Antonio Sanches, O Estado de S.Paulo

A humanidade, como um todo, às vezes parece um ébrio que avança cambaleante, que titubeia à esquerda, deambula à direta, retrocede meio passo e, aos poucos, avança imprecisamente. Talvez se assemelhe melhor a um infante, quiçá a um bebê, que, inseguro, busca firmar seus passos e a quem a queda se apresenta não como mandatária, mas como experiência.

Todos nós, relutantes e amedrontados, transformamos a nossa realidade num lar, onde nos aconchegamos, repousamos e alardeamos ser este o nosso espaço possível, o único seguro. Fora deste “nosso lar” nada existe – e, se existir, é perigoso, é uma ameaça que precisa ser eliminada.

Mas será que para trombetear que nosso lar é acolhedor precisamos exorcizar os lares alheios? Quando guturalmente explicitamos que nosso espaço é possível, estamos negando que outros existam? Cada pessoa se depara com algo que gostaria de negar, precisa ver o que não gostaria de reconhecer e é colocada próxima daquilo de que gostaria de manter distância: o outro, a outra.

O “outro” impõe sua existência, está às vistas, circula na proximidade. Como vamos lidar com isso? Ou, ainda, como estamos percebendo este outro, esta outra? A realidade do outro e da outra não é mono, mas polissêmica; não é rotina, mas festejo; não é única, mas diversa. Assim, a diversidade se introduz como hóspede inoportuna, com galhardia imprópria. Desfila a si mesma, desarticulando nossa insegura e medrosa rotina.

O momento exige que o infante ébrio firme seus passos, encare o percurso, sorria desafiante e acalente um sonho. Deve-se festejar a diversidade, não apenas suportar sua presença; torná-la laudável, não um infortúnio imposto; anunciá-la abertamente, não a tratando como hóspede indesejada. Para isso, uma transformação se impõe e é preciso pôr em prática um vasto e generoso escambo, ir para a vida disposto a trocar o resultado pela paz interior, o falo pelo afeto, o linear pelo cíclico, a lógica pelo fenômeno, a colheita pelo plantio, a certeza pela dúvida, a razão pela vivência.

A diversidade elogiada se revela sorrateira e cativante nas suas múltiplas dobras, num convite claro para que a humanidade visualize a si mesma, encare-se como totalidade e não exclua de si a sua essência: o diverso. Negar a diversidade é impossível, por isso é que pessoas e povos com projetos de dominação forjam teorias – com alcunha de ciência ou nome de algum deus – que fazem classificações de “superiores” e “inferiores”. Desta forma, o modo de lidar com a diversidade se torna sutil e perverso. Seria, por acaso, tão difícil perceber que dizer que o “outro” é inferior carrega a lógica da dominação?

O relato sobre a diversidade laudável se torna extenso, mas também pode ser sucintamente apresentado, desde que sejam abandonados esquemas mentais de negação do(a) outro(a). Se esse passo for dado, a diversidade surge resplandecente, como joia desejada, que contabiliza para o tesouro da humanidade.

Invertendo esse sonho, a pobreza se torna nosso legado, pois, quando uma cultura desaparece, junto some uma maneira de interpretar a realidade; quando um idioma para de ser falado, cessa junto um jeito de expressar a palavra “mundo”; quando uma religião finda, empobrecem as sendas da humanidade na busca pelo sagrado; quando uma etnia é ocultada, é o olhar de todos que fica embaçado; quando uma expressão de gênero é perseguida, a humanidade revela sua própria infelicidade. Por fim, quando um humano é discriminado por aqueles que detêm o poder, todos correm riscos, pois o poder muda de mãos, mas a sua lógica, nunca.

Passamos de uma pauta pessoal para uma pauta política e coletiva, porque, quando se acalenta que um simples fragmento de diversidade possa ser excluído, dá-se a dica e a permissão para nossa própria exclusão. Sim, negar a diversidade é a mais sutil e astuta agenda dos ditadores de plantão. Os regimes autoritários não podem permitir que o diverso exista, já que cultuam a si mesmos. Eles precisam suplantar o outro, para fazer reluzir a própria egolatria. Preferem o espelho à janela e, mesmo com olhos abertos, só enxergam a própria face.

Valorizar a diversidade é o movimento mais revolucionário dos nossos tempos, o mais democrático dos impulsos, a empreitada mais transformadora. Valorizar a diversidade é raciocinar a partir da premissa de que todos contam. O pão acumulado em uma mesa e que falta na mesa do outro é injusto; o religioso que se apresenta como o único representante do sagrado é mentiroso; o modelo de família trazido como o único verdadeiro é falso; o líder que se apregoa como a única opção é um usurpador; a etnia que se infla de superior é insegura; o padrão de afeto que precisa se impor é decepcionante.

Que a diversidade ecoe em nossos ouvidos como a música predileta. Que ela ocupe nossos pensamentos como nossos melhores sonhos. E que, vigilantes, possamos escrutinar nosso cotidiano, para que nunca, nem no menor aceno, possamos afastá-la. Em última instância, a diversidade é o reflexo da vida, que misteriosamente desliza à nossa frente em muitas formas, desvelando seu mistério.

*PÓS-DOUTOR EM BIOÉTICA, DOUTOR EM TEOLOGIA, MESTRE EM ANTROPOLOGIA SOCIAL, PROFESSOR DA PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ (PUCPR) E COORDENADOR DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM BIOÉTICA DA PUCPR. Fonte: https://opiniao.estadao.com.br

 

 

A Rede Globo está entre a cruz e a caldeirinha

Grupo desmonta o elenco para tentar ficar no azul das contas

 

Talvez pior do que colunistas de política sejam os colunistas de mídia e TV. Estes escrevem qualquer coisa, citam fontes inexistentes e criam fábulas como se fossem enredos de novelas reais. Recusam-se a enxergar o que está a olhos vistos.

A última desta turma é sobre a saída de Tiago Leifert da Globo. Todos embarcaram na história em que ele decidiu procurar “novos caminhos” depois de 15 anos na emissora. Antes disso, venderam a balela de que Faustão pendurou as chuteiras porque queria novos desafios.

Tudo mentira. Faustão pediu o boné porque propuseram cortar seus ganhos num momento em que a Globo luta para sair do vermelho. Com o cofre cheio, Faustão foi cuidar da vida.

Com Leifert foi um pouco diferente. Uma das poucas novidades da emissora, sempre foi tratado como um stand by. Para quem é mais velho e conhece futebol, é como se fosse um Fedato do Palmeiras ou um Lima do velho Santos. Fica no banco de reservas para as eventualidades.

Mas se deu bem. Além das costas quentes, exibiu talento onde se meteu. É inegável que mostrou empatia, apareceu como um personagem simpático e conquistou admiradores. Inimigos então...

Leifert certamente sonhava em ser sucessor de Faustão, ou daquele Caldeirão insuportável, ou algum programa permanente como The Voice. Para isso, porém, teria que cortar salários seguindo as diretivas de Jorge Nóbrega, o novo manda-chuva da vênus platinada.

Uma criatura que conhece tanto de televisão e mídia como um jardineiro entende de eletrônica e stream.

A Rede Globo vive uma encruzilhada. Basta ver os intervalos comerciais. A maior parte é preenchida de calhaus da própria programação que explica a aparente “oposição” de sua grade jornalística.

Quem enxerga um pouco mais longe vai tratando de desembarcar de um barco indo a pique. Ou prestes a virar de lado como tem sido a história do grupo. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br

Por Pedro Doria

As redes sociais viverão seu primeiro teste pesado no próximo 7 de Setembro. Em 6 de janeiro, quando o Congresso americano estava reunido para homologar a eleição de Joe Biden, o então presidente Donald Trump incitou a invasão do Capitólio. Trump vinha mentindo descaradamente nas redes, acusando fraudes eleitorais onde não havia — e todo espaço lhe foi permitido para que atacasse a democracia como se não houvesse consequência. Quando o Vale do Silício descobriu que palavras têm consequências no mundo real, que palavras radicalizam pessoas e podem levar à implosão de democracias, Trump foi expurgado das principais redes. Pois agora será a vez de Jair Bolsonaro.

Bolsonaro tem tido espaço no Facebook, no Twitter e no YouTube para atacar sem qualquer traço de prova o processo eleitoral brasileiro. Mais recentemente, as redes que dão sustento ao presidente têm também incitado policiais militares à radicalização política. Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou que 27% dos PMs frequentam ambientes bolsonaristas radicais nas redes. Dentre os oficiais PMs, o que é mais preocupante, 23% estão nesses ambientes radicais. Um quarto. É muito. É inaceitável numa democracia.

São cidadãos armados, que, no exercício da função, não podem demonstrar preferência política, sendo incitados por um presidente da República que trata o atual ambiente político como uma guerra e prega o armamento da população.

É um erro, porém, nos limitarmos a Face, Twitter, YouTube ou mesmo ao WhatsApp. O ambiente não é o mesmo que era em 2018. A chinesa TikTok cresceu violentamente nos últimos meses e vem se tornando a principal rede social no Brasil. Não é, infelizmente, estudada ainda o suficiente na academia para termos uma noção de como anda seu pulso na radicalização.

Mas sabemos de outra rede que, para o bolsonarismo raiz, vem substituindo o WhatsApp. É o russo Telegram. Se já é difícil pressionar os americanos do Facebook, donos do zap, quanto mais esse app de mensagens cujo proprietário é russo e cujo centro de operações fica em Dubai. Segundo um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) divulgado em junho, 92,5% dos usuários preocupados com política no Telegram estão em canais bolsonaristas — dá aproximadamente 1,5 milhão de pessoas. De janeiro ao final do primeiro semestre, o volume de mensagens trocadas por ali foi catapultado em mais de 500%.

Nesses novos ambientes, estão protegidos até da tímida, porém existente, autorregulação das empresas americanas.

O presidente Jair Bolsonaro não está bem. Precisaria de Congresso e do Supremo para erguer um Orçamento capaz de lhe permitir aumentar o Bolsa Família e distribuir um Vale Gás. Sua relação com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, está cada vez pior. Com o Supremo, nem se fala. A perspectiva de apagões se aproxima. A inflação galopa. Enquanto o mundo vê crescimento econômico, o Brasil está em queda. Seguimos com mais de 14 milhões de desempregados pelos números do IBGE. Para não falar no mais de meio milhão de mortos pela Covid-19 e na campanha de vacinação precária pela falta de movimento do Planalto para comprar os imunizantes quando havia tempo de sobra.

Bolsonaro não radicaliza por ser forte. Ele radicaliza por estar fraco. Enquanto tiver livre espaço de ação nas redes sociais, haverá quem o ouça. Muitos dos que o ouvem são cidadãos armados — daqueles sem farda, também daqueles com farda. É um barril de pólvora. O presidente está tentando acender o pavio. Fonte: https://blogs.oglobo.globo.com

Bolsonarismo quer sequestrar festejos da Independência, como fez com a Bandeira

 

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 03h00

Vivemos hoje, no Brasil, momentos e situações tão terrivelmente insólitas que o bom senso e a razão jamais poderiam prever. De um lado, uma minoria enlouquecida prega a violência de forma aberta pelas chamadas redes sociais com a aprovação tácita do presidente da República. Munidos de invencionices e mentiras, buscam uma situação de “crise institucional” reivindicando até o “fechamento” do Supremo Tribunal Federal. Em verdade, pretendem dar “plenos poderes” ao atual presidente da República e torná-lo ditador constitucional.

De outra parte, essa pregação é a forma encoberta de obter milionários lucros financeiros, como demonstrou o corregedor do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Salomão, ao mandar congelar as receitas das chamadas redes sociais bolsonaristas.

No YouTube, os canais dedicados a ofender os críticos do presidente da República (e a santificar o que ele diz ou faz) tiveram receitas anuais de R$ 15 milhões a partir de 2019. A Procuradoria-Geral da República contabilizou ainda outros R$ 5,7 milhões obtidos a cada ano por canais menores, mas similares em conteúdo agressivo, de junho de 2018 a maio de 2020.

O cerne de tudo provém do “gabinete do ódio” instalado no Palácio do Planalto. Nada é mais convincente do que uma mentira elaborada com rigor, em que cada detalhe é pensado para atingir um fim maldoso e destrutivo. Em contraposição, a verdade é aquilo que é. Não há “botox” que retoque o rosto do dia a dia político.

As tais “redes sociais” deram status à mentira. Prometem revelações “secretas ou desconhecidas” e, assim, têm milhões de seguidores ávidos por saber o que se oculta. O canal oficial de Bolsonaro tem 3,5 milhões de inscritos. Os investigados agora pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), outros 10,1 milhões.

Essas centrais de invencionices são alimentadas com propaganda paga e doações dos fanatizados usuários, passando a ser rentáveis, mesmo que nada produzam. A não ser fantasiar ou mentir, como no caso das urnas eletrônicas. Ou chamar a covid-19 de “gripezinha”, desmobilizando a população dos cuidados com a pandemia.

Neste 7 de Setembro, o bolsonarismo quer sequestrar para si os festejos da Independência, tal qual fez com a Bandeira. Indago: não estarão, assim, impondo o pensamento único das ditaduras, em que o povo é mero papagaio repetidor do que diz o poderoso chefão?

O presidente da República ressuscitou a “guerra fria” e deu aparência de vida a um cadáver putrefato, revivendo a paranoia do anticomunismo. Com isso ressuscita (com outra roupagem) o episódio de 60 anos atrás, quando da renúncia do presidente Jânio Quadros, no final de agosto de 1961. Os três ministros militares anunciaram, então, que o vice-presidente João Goulart não podia assumir por se encontrar na China comunista e ter elogiado as “comunas populares”. Goulart fora à China em missão oficial, enviado por Jânio.

O golpe de Estado já se havia consumado ao longo do País, quando o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, se rebelou em armas “em defesa da Constituição”. Parecerá estranho “rebelar-se” para defender a Constituição, mas assim ocorreu. O governador gaúcho formou uma cadeia de rádio que penetrou nos lares e nos quartéis e a mobilização popular derrotou o golpe de Estado. Por fim, Goulart assumiu a Presidência, em 7 de setembro de 1961.

Hoje, 60 anos depois, a ideia do golpe de Estado ressurge como fantasma, alimentado pelo próprio presidente da República. E o 7 da Setembro passa a ser a data escolhida para exibir a baderna.

É estranho, insólito e absurdo que o presidente da República oficialize a baderna e outorgue “status” aos baderneiros, incitando-os, mesmo indiretamente, a invadir os prédios do Supremo Tribunal e do Congresso. Não há lugar no mundo em que o governante sugira que os habitantes comprem fuzis, e não alimentos, como o fez Bolsonaro dias atrás, nas conversas no “cercadinho” do Palácio da Alvorada.

O apego de Bolsonaro às armas tem aparência de amor orgástico. Já em 2018 o então candidato presidencial, com a mão direita ou o braço, imitava um revólver ou um fuzil, mas não apresentava planos concretos de administração. Depois, na Presidência, isentou de taxas a importação de armas e munições. Jamais se preocupou, porém sem isentar também remédios e equipamentos hospitalares vindos do estrangeiro.

O insólito e absurdo se renova a cada dia, num chocante dilúvio de insensatez. Agora, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal anunciam que vão se retirar da Federação Brasileira de Bancos porque essa entidade sugeriu que a Fiesp coordenasse o manifesto pedindo a pacificação nacional e a harmonia entre os Poderes da República.

Pergunto: transformaram-se os dois bancos oficiais em tementes serviçais das aspirações de Bolsonaro em fomentar o caos político e, assim, criar um golpe branco? Será o velho 1961 com farda nova?

JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA. Fonte: https://opiniao.estadao.com.br

Em sua 27ª edição consecutiva, mobilização ocupa as ruas nacionalmente no próximo dia 7 de setembro para lutar saúde, comida, moradia, trabalho, renda, impeachment e “contra esse governo que não nos representa”

 

Por Clara Assunção | RBA

Lema da 27ª edição do Grito dos Excluídos, apresentado nesta quinta (26), será "vida em primeiro lugar" sob o tema "na luta por participação popular, saúde, comida, moradia, trabalho e renda já"

São Paulo – Diante das mais de 576 mil vítimas de covid-19 que tiveram o direito à vida negado e da devastação de conquistas sociais promovidas pelo governo Bolsonaro, a 27ª edição do Grito dos Excluídos ocupa as ruas no próximo de 7 de setembro, por todo o país, para lembrar que a “vida deve estar em primeiro lugar”. Esse é o lema deste ano da tradicional mobilização organizada no chamado Dia da Independência, que terá como tema “na luta por participação popular, saúde, comida, moradia, trabalho e renda já”. O mote foi escolhido pela Confederação Nacional dos Bispos no Brasil (CNBB) e apresentando à imprensa em coletiva nesta quinta-feira (26). 

Desde 1995 mobilizando cidadãos em todo o Brasil – em contraponto às manifestações “cívicas” que marcam a data –, o Grito dos Excluídos soma-se novamente à campanha nacional pelo “Fora Bolsonaro” em protesto às vozes de brasileiros que foram “abafadas” pela política negacionista do governo federal. “O grito é sempre atual no sentido de questionar todas as mazelas que estão aí na sociedade. Assim, dizemos que precisamos lutar pela vida e pela vida com dignidade”, destacou dom José Valdeci Santos Mende, bispo da diocese de Brejo, no Maranhão, e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para Ação Sócio Transformadora da CNBB. 

“Por tudo que é negado, o direito à vida, essa derrubada dos direitos conquistados, a maneira como se encara a vacina – que na verdade deve ser para todos –, a negação da ciência (…), isso não é um governo que nos representa. Precisamos dizer ‘Fora Bolsonaro!’. Assumimos isso como um compromisso para uma sociedade mais justa e mais fraterna”, completou o religioso. 

 

Ato em São Paulo confirmado

Levando às ruas milhares de pessoas em diversas regiões do país, o Grito dos Excluídos completa 27 anos de edições ininterruptas. Mas, neste ano, a manifestação não ocorrerá na Avenida Paulista, em São Paulo. Em vez disso, foi transferida para o Vale do Anhangabaú, na região central. O governador João Doria (PSDB) tenta, no entanto, impedir a realização do protesto, que até o fechamento desta matéria estava confirmado pelos movimentos sociais, sindical e pela Campanha Nacional “Fora Bolsonaro” para a partir das 14h. A coordenação do evento aponta que Doria faz “jogo político” forma de se lançar como “terceira via” nas eleições presidenciais de 2022.

Em razão da pandemia, todos os atos que comporão o Grito dos Excluídos deste ano seguirão os protocolos sanitários de distanciamento, uso de máscaras, de preferência PFF2 e álcool em gel. 

 

As vozes dos excluídos

O coordenador nacional do Grito dos Excluídos e da Associação Rede Rua, Alderon Costa, conclamou a população a aderir concretamente aos protestos. “Neste momento difícil que o Brasil atravessa temos que ‘sair da arquibancada’ e, com todos os cuidados, irmos para as ruas nos juntarmos com as vozes dos indígenas, das periferias, da população em situação de rua, que já são mais de 200 mil em todo o país. Juntar-nos ao grito das mulheres, das pessoas transexuais e travestis, dos trabalhadores (…) que estão cada dia mais perdendo seus empregos, contra a carestia e a inflação.” 

Também na coletiva, a liderança do movimento Despejo Zero em Goiânia, Cinthia Nicássia, lembrou que, na pandemia, a desigualdade e o consequente aumento da população sem-teto foram aprofundados por conta das remoções de famílias e comunidades, aumentando também as fileiras da fome. “A pandemia atingiu muitas famílias não somente em saúde e perdas, mas na vida financeira. Muitas famílias foram despejadas por falta de serviço e ficaram em uma situação precária.”

 

Gritos pelo Brasil

Em Minas Gerais, até o momento, está confirmado o Grito dos Excluídos na Basílica do Senhor Bom Jesus em Congonhas, às 8h30. Em Manaus, a manifestação terá concentração no Largo Mestre Chico, na região central, às 17h. A manifestação na capital manauara será simbólica para o doutor em epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Jesem Orellana. Ele lembrou que a cidade “entrou negativamente para a história da saúde pública”. O Grito dos Excluídos será, por tudo isso, conforme descreve o pesquisador, fundamental para dar voz à dor de milhares que perderam seus entes asfixiados por falta de oxigênio. “Fruto de uma gestão inconsequente, irresponsável, tecnicamente reprovável tanto em âmbito federal, estadual e municipal”, criticou.

Em meio a tantas tragédias, o Grito dos Excluídos também lembra das vítimas da violência policial. Como as mães do Jacarezinho, comunidade da zona norte do Rio de Janeiro, onde uma operação da Polícia Civil deixou 28 mortos em 6 de maio deste ano. A maior letalidade oficialmente declarada em ações policiais. Entre eles, o filho de uma moradora que precisou deixar a comunidade e grita agora por justiça. “Jogaram ele fora, é assim que fazem com o povo da favela. São 28 corpos, fizeram 28 mães chorar. Esse Estado é genocida sim. E fora Bolsonaro sim”, protestou a mãe, que teve o nome protegido. 

 

Grito da democracia

Contra o racismo, a deputada federal Joenia Wapichana (Rede) também participou da apresentação da 27ª Edição do Grito dos Excluídos, destacando as vozes seculares de resistência dos povos indígenas. Na luta em defesa da Constituição, ao menos 173 povos estão hoje na linha de frente para derrubar a tese do “marco temporal”. Essa interpretação, defendida por ruralistas, pode alterar brutalmente as regras para a demarcação de terras indígenas e abrir os territórios para exploração mineral e agrícola, colocando ainda mais em risco a sobrevivência dos povos originários e com ainda mais desmatamento dos biomas nativos. 

Por conta de toda essa união de lutas, a deputada garante que o próximo 7 de Setembro será a grande oportunidade de se ouvir “as vozes que são invisibilizadas e clamam pela participação, inclusão e o exercício dos direitos sociais. Os povos indígenas não estão falando mais do que já está assegurado em nossa Constituição”, lembra Joenia Wapichana. Fonte: https://www.redebrasilatual.com.br

 

Quinto grande ato de rua pelo fim do governo Bolsonaro está confirmado para 7 de setembro e também defenderá os serviços públicos e a rejeição da 'reforma' Administrativa

 

DA REDAÇÃO DA ADUFF

Está confirmada a realização do ato pelo fim do governo de Jair Bolsonaro no dia 7 de setembro no Centro do Rio de Janeiro. O tradicional Grito dos Excluídos e Excluídas levará às ruas da capital fluminense o grito "Fora Bolsonaro e Mourão". 

A concentração para a manifestação será na esquina da Rua Uruguaiana com a avenida Presidente Vargas, a partir das 9 horas. O uso de máscaras é obrigatório, de preferência as de melhor eficácia como a PFF2. Será o quinto grande protesto em pouco mais de três meses - o primeiro ocorreu em 29 de maio de 2021- que defenderá o fim do governo de extrema-direita e neoliberal.

A Associação dos Docentes da UFF (Aduff-SSind), Seção Sindical do Andes-SN, participará e convida a categoria e toda a comunidade da Universidade Federal Fluminense a ajudar na construção dos protestos - que também vão defender a educação pública e gratuita e as liberdades democráticas. Haverá manifestações em todas as regiões do país.

As campanhas contra a 'reforma' do governo para os serviços públicos vão levar aos atos a defesa do arquivamento ou rejeição da Proposta de Emenda Constitucional 32/2021, bandeira que foi incorporada à pauta dos protestos.

A mobilização ocorre num momento que pode ser decisivo para o desfecho da proposta do governo: o relator da PEC-32 na comissão especial da Câmara, Arthur Oliveira Maia (PP-BA), disse que entregará o seu parecer sobre a matéria na segunda-feira (30). A partir daí, o texto pode entrar na pauta de votação da comissão. Já o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), disse que pretende levar a proposta para apreciação em Plenário na primeira quinzena de setembro. Os movimentos contrários à 'reforma' querem intensificar as mobilizações para impedir que isso ocorra.

 

Defesa da vida, da vacina e de direitos

Também integram as reivindicações das manifestações programadas para o dia 7 de setembro a defesa da vida, com a exigência da aceleração da vacinação e aplicação de medidas sanitárias como testagem e distanciamento, políticas de geração de emprego e auxílio emergencial digno para quem está em situação de vulnerabilidade na pandemia. 

Outra exigência que ganhará destaque é a defesa da rejeição da nova 'reforma' Trabalhista, que já passou pela Câmara e agora se encontra no Senado Federal. O projeto elimina direitos e permite a contratação de trabalhadores sem que o empregador tenha que pagar a Previdência Social, o FGTS, férias e as horas extras nas condições previstas nas leis trabalhistas (CLT).

 

O Grito

O Grito dos Excluídos é um ato tradicional que ocorrerá pela 27ª vez, sempre no dia em que se comemora a Independência do Brasil. Com forte participação dos movimentos sociais, é de certa forma um contraponto aos desfiles oficiais que costumam celebrar os feitos dos governos e autoridades. 

Neste ano, além de ganhar uma articulação mais ampla em torno da bandeira "Fora Bolsonaro", ocorrerá no mesmo dia em que bolsonaristas programaram atos em defesa do governo. Os atos da extrema-direita carregam ainda bandeiras como a defesa da intervenção militar e de um golpe de Estado. 

Em São Paulo, o governador João Dória (PSDB) tenta proibir a realização da tradicional manifestação do Grito dos Excluídos por ser um protesto contrário ao governo Bolsonaro. O empresário que ocupa o Palácio dos Bandeirantes diz que só permitirá a realização dos atos a favor do presidente, que também defendem o golpe e a ditadura militar. Alega preocupação com a segurança para isso - embora os dois atos estejam programados ara locais distintos. Os movimentos que organizam o Grito dos Excluídos afirmaram que não vão admitir censura e cerceamento da liberdade de expressão e manifestação e que seguirão construindo o ato.

 

DA REDAÇÃO DA ADUFF

Por Hélcio Lourenço Filho

Fonte: aduff.org.br

 

Cristiane Nogueira da Silva, de 48 anos, e o ex-marido, Leonardo Machado de Andrade, de 50, saíram para passeio em 22 de agosto

 

Paolla Serra e Diego Amorim

RIO — A família reconheceu na manhã desta segunda-feira que o corpo achado na Marambaia, no domingo, é o de Cristiane Nogueira da Silva, de 48 anos. Ela e o ex-marido, Leonardo Machado de Andrade, de 50, destavam desaparecidos desde 22 de agosto após passeio de barco em Angra dos Reis. As tatuagens ajudaram familiares a reconhecer por fotos o corpo de Cristiane. O cadáver será levado para o Instituto Médico-Legal no Centro do Rio. Leonardo segue desaparecido.

Nesta segunda-feira, o Corpo de Bombeiros confirmou que um corpo do sexo feminino foi encontrado numa área pertencente ao Exército e levado para o quartel de Sepetiba, onde a família fez o reconhecimento pelas tatuagens de Cristiane. No domingo, o mar revolto e a intensa chuva que se estenderam ao longo da manhã e tarde na região impediram que os agentes chegassem até o local, acessível apenas por barco ou helicóptero. O professor titular de Medicina Legal da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Nelson Massini, afirmou ao analisar as fotos do cadáver, que ele apresenta características de lesões provocadas pela fauna marinha.

— Animais como siri e caranguejo começam a atacar pelas partes mais moles do corpo, como lábios, pálpebras e mamilos e depois entrar nos orifícios que fazem. É preciso uma análise mais aprofundada para se chegar a causa da morte e o que motivou essas lesões, mas, à princípio, foram feitas dessa maneira — explicou o perito.

Desde o desaparecimento, o filho de Cristiane, Guilherme Brito, pede orações pela mãe e pelo ex-companheiro dela. Os dois estão desaparecidos desde que saíram em um barco para ver o pôr do sol. Num vídeo publicado nas redes sociais, Guilherme afirmou que tem recebido muitas mensagens de apoio. A viagem do casal, que estava separado, era uma tentativa de reconciliação.

— Peço que rezem para o Leonardo também, para ele estar bem, saudável, porque minha mãe, apesar de ser muito forte, não saberia sobreviver na mata, não saberia sobreviver no mar — disse.

O barco em que o casal estava era uma traineira que já havia pertecido a Leonardo. Ele pegou o barco emprestado para que ele e Cristiane fossem à Lagoa Verde assistir ao pôr do sol. Os dois saíram da Praia da Longa, em Ilha Grande. Fonte: https://oglobo.globo.com

 

Familiares estão sendo ouvidos para contribuir com elementos que possam ajudar a desvendar mistério

 

Geraldo Ribeiro

Leonardo e Cristiane estão desaparecidos desde domingo Foto: Reprodução

RIO — O delegado Vilson de Almeida Silva, da 166ª DP (Angra dos Reis), que está investigando o desaparecimento de Cristiane Nogueira da Silva, de 48 anos, e seu ex-companheiro Leonardo Machado de Andrade, de 50, disse que está analisando a vida dos dois para tentar entender o que aconteceu com eles. Para isso, está ouvindo familiares das duas partes,  para contribuir com elementos que possam ajudar a desvendar o caso. Uma das chaves do mistério, que nesta sexta-feira entra no seu quinto dia, é a embarcação em que estavam e não foi avistada durante as buscas feitas ao longo da semana. O casal está sumido desde a tarde de domingo, depois de ter saído em um passeio de barco na Ilha Grande, em Angra dos Reis.

— Estamos analisando a vida tanto dele (Leonardo) como dela (Cristiane) para tentar entender o que aconteceu. A linha de investigação é o desaparecimento. A gente quer encontrar o barco, mas eu não descarto nenhuma possibilidade. Estou ouvindo os familiares de um e de outro para ver se encontro algum elemento sobre o que aconteceu — disse o delegado, que já ouviu quatro pessoas dos dois lados.

O casal viveu junto por dois anos e estava separado por um período igual, mas ensaiava uma reconciliação. Na semana passada Cristiane aceitou o convite de Leonardo para passar o fim de semana na Ilha Grande, onde ele reside atualmente. O ex-companheiro pediu que um motorista viesse ao Rio buscá-la na sexta-feira e deveria trazê-la de volta na segunda-feira. Na tarde de domingo os dois saíram de barco para apreciar o pôr do sol de uma praia próxima, e desde então não deram mais notícias.

Segundo o filho, ela parecia feliz e comunicou que Leonardo havia comprado presentes para ela levar para os familiares e se despediu com um "até amanhã", dando a entender que retornaria ao Rio no dia seguinte

Segundo o delegado, o Corpo de Bombeiros e a Capitania dos Portos trabalharam nas buscas nesta quinta-feira, sem sucesso, mesmo feito uma varredura completa. As buscas devem continuar nesta sexta-feira.

Os filhos de Cristiane, Guilherme e Pamella Brito montaram um verdadeiro diário virtual, onde desde o começo da semana vão postando todo tipo de informação que possa ser útil na localização da mãe e de seu ex-companheiro. As postagens rarearam, mas a campanha ganhou um novo aliado. O Disque Denúncia divulgou e publicou nas suas redes sociais, um cartaz com fotos dos dois, dando início a uma campanha para ajudar na busca por pistas sobre o que aconteceu com o casal.

Numa das poucas postagens que fez, Guilherme lançou um apelo emocionado por informações que ajudem os bombeiros e a polícia a encontrar sua mãe e o ex-companheiro dela. Em uma rede social, o rapaz disse que recebeu mensagem falando sobre um pedido de ajuda que alguém teria feito no domingo, mas em horário diferente ao que o casal foi visto pela última vez.

— Recebi uma imagem de alguém em Mangaratiba que teria pedido ajuda, no domingo. A questão do horário não bater muito, mas é uma das opções. Não estamos descartando nada. Peço que ajudem da forma que puderem. Compartilhando a foto dela (da mãe e de Leonardo), a imagem dele, de perguntar se conhece alguém de Angra, de Paraty. Qualquer ajuda é muito bem-vinda. Qualquer notícia relevante pode mandar para mim. Estamos olhando tudo — disse Guilherme, visivelmente emocionado.

Nesta quinta-feira, bombeiros de Sepetiba, Paraty, Angra dos Reis, Sepetiba e Mambucaba fizeram buscas por ilhas da Baía de Angra dos Reis e pelo mar, para tentar localizar o casal desaparecido ou a embarcação que era usada por eles. A ação conta com o uso de motos aquáticas e barcos.

— Nossa prioridade é encontrar a embarcação para entender o que está acontecendo nesse desaparecimento — disse o delegado Vilson de Almeida Silva.

As buscas tiveram início ainda no domingo, quando um funcionário de Leonardo começou a perguntar a conhecidos se tinham alguma informação sobre o casal. O delegado disse que diferentes órgãos participam de uma varredura na região à procura da embarcação. Ele acredita que, ao conseguir localizar o barco, possivelmente encontrará o casal ou terá pistas sobre o paradeiro.

Campanha é nova aliada por buscas 

O Disque Denúncia pede para quem tiver alguma informação para entrar em contato pelos seus canais oficiais, que são os números 2253-1177 e (21) 98849-6254 (WhatsApp) ou pelo aplicativo Disque Denúncia RJ. Fonte: https://oglobo.globo.com