Frei Boaga O. Carm.

Analisando a vida dos Mendicantes, como aprece das muitas fontes que se referem ao momento de sua plena evolução, é possível colher toda uma série de características que podem ser resumidas como segue:

 

15 Evangelho e Vida Apostólica:

 

  • Nas respectivas legislações (cf. as Regras de S. Francisco e Dominicanos) a impostação da vida Religiosa é segundo um modelo evangélico apostólico:
    • Modelo evangélico porque é um consciente, constante e perseverante discipulado de Cristo encontrado no seu Evangelho, na sua palavra, na sua humanidade.
    • Modelo apostólico enquanto qualificado a própria existência (opções, atos, etc) em sintonia com os exemplos dos Apóstolos. Esse modelo Evangélico – Apostólico de Vida é a base da “Conversão”, que os Mendicantes entendem fazer para edificar a própria Vida Religiosa e são base comuns a cada verdadeiro seguimento de Cristo.
  • A vida Religiosa assim vem caracterizada do tema dda imitação dos apóstolos. Este tema apresenta dois aspectos:
    • A insistência sobre a unanimidade dos apóstolos no cenáculo e sobre a sua total comunhão de bens (primitiva comunidade apostólica).
    • A presença da missão dos Apóstolos enviados dois a dois por Jesus, a pregar por toda a Galiléia.
  • No curso da Vida Religiosa por e ter modelo (a Vida Apostólica). Poe-se a ênfase sobre um outro desses aspectos acima. Assim em breve temos:
    • O primeiro Monaquismo Egipciano apresenta os dois aspectos do modelo de vida Apostólica (aspectos Comunitário e Apostólico).
    • Toda corrente monástica (S. Bento, etc). Poe a ênfase sobre o primeiro aspecto e, portanto, apresenta a Vida Religiosa mais como Vida em Comum de bens materiais e unidade de Oração.
    • A reforma dos Cônegos Regulares (séc XII) descobre praticamente os aspectos apostólicos, vividos, porém na própria Igreja ou comunidade. Portanto, os Cônegos Regulares têm uma vida comum com orientação pastoral.
    • Finalmente, os Mendicantes se referem aos dois aspectos do modelo de Vida Apostólica com interpretação da vida comum como Fraternidade, pobreza Coletiva e Pregação Itinerante.

 

17 Fraternidade

 

  • A Vida Comum, segundo o modelo dos Apóstolos está estruturada entre os Mendicantes como fraternidade que exige não somente comunhão, mais ainda uma chamada divina , na qual esta em memória a mesma denominação de “frades” (os discípulos são chamados de frades = irmãos em Atos 1,15). Portanto, a fraternidade está construída sobre a base Evangélica.
  • A encarnação da relação interpessoal de um frade ou outro conduz os Mendicantes a caracterizar sua própria fraternidade Mendicante:
    • A Igualdade Econômica dos Irmãos (Todos estão despojados de seus próprios bens ao ingressarem na Ordem); com isso se faz a superação da distinção de classes na sociedade Feudal e também das classes criadas pelo comércio no sistema comunal (regime de corporações).
    • A Igualdade Humana: A Fraternidade está aberta a todos e portanto não existem Conventos reservados só aos nobres ou com a maioria nobres, assim como naquele tempo acontecia. Essa abertura, então, conduz ao fenômeno de agregação à Ordem com desenvolvimento de formas originais de oblação (raiz do surgimento da 2ª e 3ª Ordem).
    • A Igualdade Jurídica dos Frades: Ou seja, todos gozam do mesmo e único título de irmãos (Frater). A distinção jurídica entre clérigo e leigo não impede ao início donde – se busca distinção – o exercício dos direitos na comunidade (eleições, cargos); em seguida, na clerizalização, entre os séculos XIII-XIV, e neste contexto nascem os impedimentos e as privações de diretos.
    • A Igualdade de vida: A existência concreta dos irmãos está motivada e conduzida com inspiração na fraternidade. A fraternidade é também o lugar da Vida em Comum. O Convento é o lugar de convergência de todos e isto é bem expresso na sua estrutura arquitetônica, ao menos nas primeiras gerações. Mendicantes. Esta estrutura de fato expressa-a idéia de comunhão, de vizinhança (proximidade) e de fraternidade.

 

18 Pobreza.

 

  • A pobreza voluntária individual e coletiva está entendida pelos Mendicantes não so como meio de libertação e de contestação da potência a riqueza, fontes da não-fraternidade na Igreja e no mundo daquele tempo, mas, porém como um meio privilegiado para dar testemunho do Evangelho na própria Vida.
  • É notário como o ideal da pobreza voluntária nos séc. XII e XIII estão ligados a devoções da humanidade de Cristo. Conseqüência disto é o desejo de imitação de uma vida em dependência e humildade do pobre para condividir a situação de Cristo por Ele aceita para a pregação de Reino. Os Mendicantes, portanto, fazem da pobreza não só uma disposição moral ou um elemento do edifício espiritual, mas ainda uma condição social da própria pregação.
  • O estilo e clima da pobreza nas várias Ordens Mendicante podem ser expressa através de algumas palavras muito densas de sentido e de fascínio para eles que concebiam essas palavras como expressão da própria convicção e motivação:
    • Minoritas: Opção pelos pobres e humildes de vida.
    • Humilitas: humildade, abnegação, respeito.
    • Comunio: Comunhão de bens e comunhão fraternal.
    • Fraternitas: Igualdade de direitos e comunhão.
    • Servitium: Uso social dos bens.
    • Labor: Trabalho manual como meio de sobrevivência.
  • Pra uma plena compreensão da pobreza que inspira os Mendicantes, vejamos a relação da mesma pobreza com:
    • O Monaquismo do tempo. Naquele tempo o ideal de pobreza era a pobreza individual e não coletiva. A abadia, autônoma na sua realidade, impulsionava a um sistema de autarquia que tinha a necessidade da propriedade e se desenvolvia como um sistema feudal. Daí a riqueza dos mosteiros. Os Mendicantes renunciam a cada forma de posse também coletiva e recusam cada renda neste fato está uma divisão precisa da posição monástica. Não faltam autores (Guglielmo de Sto Amore) que considerem herético esta renúncia de posse porque “a Igreja não é fundada se não tem posse.”
    • O Renascimento do comércio e o surgir da economia monetária são a nova característica da sociedade daquele tempo. Neste contexto a não utilização do dinheiro põe uma pergunta necessária sobre o sentido desta opção feita pelos Mendicantes. É de precisar que a motivação da opção da pobreza Mendicante não é sempre as mesmas. É suficiente aqui lembrar:
      • Francisco de Assis vive numa região que está entre as principais regiões que gozam da nova realidade comercial, a sua opção de Pobreza Mendicante conduz a situar-se fora das classes sociais nas quais até aquele momento era-estruturada a sociedade feudal; a mesma opção da pobreza põe S. Francisco, porém, fora da nova distinção e das classes sociais criadas pelo dinheiro e pelo novo sistema comunal. S. Francisco com a sua pobreza pretendi propor um novo tipo de sociedade seja: a sociedade Fraterna na qual todos se situam no mesmo plano, seja econômico, seja humano, solidário uns com os outros e animados por atitude evangélica da confiança no Pai Celeste. A pobreza neste contexto é parte viva do ideal.
      • Os Dominicanos e os Agostinianos vêem no contexto do tempo a pobreza mais como meio de apostolado, e como uma tática para influir melhor sobre os heréticos, os movimentos laicais, e desenvolver a ministério pastoral.
    • O capitulo Pobreza conhece na realidade viva dos mendicantes, já desde o início, uma ontologia de admiráveis experiência e exemplaridades inspirastes, e também de tristes prevaricações.
    • As conseqüências da opção da pobreza Mendicantes são:
      • A coleta da esmola, não praticada por monges e não permitida aos clérigos.
      • O trabalho manual quer, porém, depois da disputa feita nos primeiros anos da história dos Mendicantes não é obrigatório como conseqüência da pobreza (cfr. Sto. Tomás de Aquino); é assim a opção primitiva do trabalho manual, desde o lugar outras atividades culturais, artísticas, etc.
      • O impulso para a urbanização (os conventos se situam na cidade para garantir-se a sobrevivência, com distancia determinada um dos outros).

 

19 Pregação Itinerante.

 

  • Pregação: é o meio privilegiado pelos mendicantes e também é o fato do tempo para a reforma da Igreja e para a renovação da vida cristã e social. Nas correntes reformistas já no séc XII está ligada à pobreza e a itinerância, aqui está o trinômio que é estandarte da época.
  • Initinerância: é andar onde se fez necessária a pregação. Esta contraposta a estabilidade monástica. Portanto, o vagar de um lugar ao outro esta em função do serviço da pregação mais do que a ascese em si mesma. A conseqüência da itinerância é a certeza da hospedagem (exemplarmente forte e nisto está a experiência inicial dos franciscanos) e a mendicância, com a assimilação aos pobres, excluídos da época.
  • O processo de clericalizão advindo das intervenções papais conduz, portanto, os Mendicantes a uma determinada estabilidade pondo um limite assim à sua itinerância. A clericalização, ademais conduz os Mendicantes a privilégios, a pregação doutrinal, e aos ministérios pastorais; na família Franciscana permanece ainda largo espaço a pregação exortativa.

 

20 Clericalização:

  • Os Dominicanos são clérigos desde o início. Para as outras Ordens Mendicantes se verifica prontamente um lento e progressivo processo de clericalização que geralmente não acha oposição seria dentro das mesmas Ordens. Salvo a exceção dos Franciscanos, os quais, porém, estão orientados nesta linha de clericalização desde a sua aprovação feita no ano de 1209.
  • Se trata de um processo provocado por vários fatores, entre os quais tem primeiro lugar a política segunda pelo papado romano, de fato os Papas determinam este processo como meio para a reforma da Igreja juntando precedente reforma gregoriana, e por isso para uma nova orientação pastoral. As conseqüências da clericalização estão indicadas nos pontos anteriores.

 

21 Isenção e Ministério Pastoral

 

  • Os Mendicantes são favorecidos pelos Papas com muitos privilégios; entre eles, o privilégio da isencçao da Igreja-conventual, etc. Os Mendicantes, assim chegam a desenvolver um novo tipo de apostolado ou de ministério pastoral que se adapta à nova situação da cidade, suprindo ao mesmo tempo as lacunas do clero secular e dos monges.
  • A pastoral até aquele tempo estava baseada sobre um conceito de Igreja no qual os Bispos e Párocos tinham o próprio poder imediatamente de Cristo; daqui o princípio “Igreja Própria e Próprio Sacerdote”. Ademais, a estrutura eclesial-local (diocese, paróquia) tinham como base o beneficio e o ministério pastoral; o dizimo e os direitos de estola porque segundo a tradição e o direito: “A Igreja não está fundada se não está fundada senão se não esta dotada”.
  • A novidade introduzida neste esquema pastoral pelos Mendicantes é:
    • A isenção dos Bispos e dos Párocos, obtida dos Mendicantes pelo Papa e sustentada por uma concessão da Igreja piramidal, cujo vértice está o pontifício romano que doa o poder aos Bispos e Párocos. Assim é desvalorizado ao mesmo tempo o poder do Pároco e ainda do Bispo; aqui surge às acusações aos Mendicantes de serem Párocos universais.
    • A fratura da estrutura tradicional pastoral diocesana através do acréscimo e da isenção de outra “estrutura universal”(Igreja-Convento). Se trata de uma estrutura mais elástica, mais sabia, mais vizinha ao povo (ao menos em algum período), com respeito a estrutura tradicional diocesana.
    • As atividades pastorais estão orientadas de modo diverso em relação ao passado e não mais limitadas somente à missa e aos sacramentos na Paróquia; tem-se a difusão de confraternidade e de associações, etc.
    • Com respeito à atividade paroquial, as primeiras gerações dos Mendicantes, mostram-se geralmente contrarias; tal atividade, porém está prontamente assumida pelos conventuais e pelos carmelitas ao fim do séc XIII.
    • A gratuidade dos ministérios pastoral feito pelos Mendicantes está três novidades: a isenção do Bispo, a gratuidade dos ministérios feitos pelos Mendicantes.
    • A conseqüência de tudo é afastar os fieis da Igreja própria e do Sacerdote próprio; isto é, causa polemica contra os Mendicantes, o que será visto em seguida.

 

22 Centralização e Participação

 

  • Ordens Centralizadas: Aprofundando o impulso à centralização segundo a obra do movimento de CLUNY e de CHITEAUX, em forma federativa e em seguida misturada pelas Ordens Militares, os Mendicantes assumem a figura de um corpo único fortemente centralizado.

Na base está a fraternidade local, mas todas as fraternidades dependem de um único superior, mestre, ministro, e prior-geral da ordem; a divisão em Províncias é puramente, em sentido administrativa (isto é, não são autônomas, ainda que tenham costumes a normas próprias).

O frade neste corpo centralizado está disponível á comunidade local, provincial e geral e demais, a cada tipo de atividade.

      A estrutura centralizada, portanto, oferece certas utilidades para o ministério pastoral (através da mobilidade dos Frades) e responde às exigências do papado para as necessidades mais urgentes da igreja.

  • Participação: A centralização não as opõe à participação que busca no sistema capitular a todos níveis o meio privilegiado de expressar-se. É forte nesta linha a influência dos fatores sociais da inspiração que provem da fraternidade evangélica.

 

23 Urbanização:

 

  • O ingresso na cidade (urbanização) não se dá na origem dos Mendicantes (exceto no caso dos Dominicanos), mas é presente em seguida a clericalização e a causa da atividade pastoral. Em prática é forte a urbanização depois do ano 1240, e se desenvolve melhor na segunda metade do séc XIII, em modo inevitável (isto conduzirá ao conventualismo)
  • As motivações podem ser várias:
    • De Ordem econômica, isto é, para garantir através da coleta de esmolas a possibilidades de sobrevivência. Assim nas fundações estão presentes e se seguem critérios demográficos e econômicos a grandeza, a riqueza, a importância e os números das cidades. Em conseqüência disto surge ema tipologia de cidade naquele tempo caracterizada pela presença de quatro, três, dois e uma das Ordens Mendicantes maiores (Dominicanos, Franciscanos, Agostinianos e Carmelitas).
    • De ordem pastoral. Disso já discorre anteriormente quando se falou da criação de estruturas típicas dos Mendicantes na pastoral e na reforma da Igreja.
    • De ordem cultura. Aqui está o ingresso na universidade e a vida dos Mendicantes como resposta a um desafio cultural do tempo.
  • A urbanização dos Mendicantes tem frutos:

Antes de tudo comporta um desvio em alguns conceitos da Vida Religiosa: Fuga e Fundações.

  • No monaquismo e até aquele tempo a fuga comporta em sair da sociedade civil e a fundação estimulava por sua vez a fundação de uma cidade de Deus na sociedade.
  • Através dos Mendicantes a fuga não é mais do consórcio civil, mas do poder e da posse, permanente, digo, permanecendo dentro da cidade dos homens, escolhendo a condição dos menores (dependência e trabalho mendigado à sociedade).
  • A fundação se opera na cidade e se faz pedra para a construção da sociedade. Assim o ideal tem propostas e através de um gesto de fraternidade e comunhão tendo a ser proposta para todos e assim envolve todos os cidadãos.
  • Da cidade os Mendicantes trazem:
    • Muitas vocações
    • Os meios para viver
    • O impulso e o estimulo para o estudo
    • E através do contato com as pessoas trazem motivo para agir como força de paz e de união entre as continuas opostas facções citadinas.
  • A urbanização dos Mendicantes, com a mutua integração entre eles e a cidade, conhecem porém ainda efeitos colaterais. Entre eles aqueles derivados pela sua mendicância. Eles pregam que dinheiro era uma das formas de opressão ao povo. Em virtude de própria mendicância eles aceitavam com realismo para viver, as esmolas dos benfeitores. Daí surge uma contradição implícita que ao mesmo tempo vem a diminuir a força da pobreza absoluta. Esta contradição, porém, conduz através do tempo a justificar as atividades comercias e no compromisso de questões sociais como é o caso dos Franciscanos a identificar toda uma série de praticas não usuária (monte Pio – Banco para os pobres).

 

24 Conclusão

As características aqui enumeradas mostram sob vários aspectos como os Mendicantes constituem uma síntese das várias reformas e dos vários movimentos eclesiais (monásticos, eremíticos, cônegos e laicais) presentes na Igreja desde a época gregoriana em diante. Os Mendicantes colhe os fermentos presentes na Igreja e na sociedade os coagulam, os purificam em chave eclesial e lhe redistribui na vida da Igreja mesma como resposta ao desafio do tempo, criando assim, uma forma de vida nova na qual concilia a pobreza individual e coletiva com a vida apostólica, no sentido novo de pregação e trabalho para os homens.

Imagens da Missa em Lídice, Rio de Janeiro em 2011 na comemoração dos 80 Anos de Dom Vital Wilderink, O Carm. NOTA: Dom Frei Vital Wilderink, O Carm- Eremita Carmelita e 1º Bispo de Itaguaí/RJ - foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo. Convento do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro. 23 de agosto-2019.

Da série de entrevistas sobre os 300 Anos da Província Carmelitana de Santo Elias, veja o 4º vídeo da entrevista com Frei Paulo Gollarte, O. Carm.  Convento do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro. 23 de agosto-2019.

Nesta segunda 19 de agosto-2019, vamos ouvir as irmãs da Ordem Terceira do Carmo de Sabará-MG, falando sobre a importância da vocação carmelita.

A Missão do Frei Petrônio

Letra: Frei Petrônio de Miranda, O. Carm

Música: Frei Petrônio e Carlos Maka

(Música composta passando em São Sebastião-AL e Arapiraca-AL no dia 31 de março-2018.)

 

1-Frei Petrônio, Frei Petrônio, pra onde você vai? Diga lá, ó carmelita, nesta vida a caminhar / Eu vou, eu vou, eu vou, vou Evangelizar, com Santo Escapulário, de Jesus eu vou falar (bis)

 

2-Frei Petrônio, Frei Petrônio, onde é que você está, no Sudeste ou no Nordeste, vive a peregrinar/ Eu vou, eu vou, eu vou, vou Evangelizar, com Santo Escapulário, de Jesus eu vou falar (bis)

 

3- Frei Petrônio fala de política, religião e futebol, diga lá ô Frei Petrônio, abra logo o seu gogó. / Eu vou, eu vou, eu vou, vou Evangelizar, com Santo Escapulário, de Jesus eu vou falar (bis)

 

4- Frei Petrônio denuncia, os corruptos a roubar, lá no Norte ou no Sul, ele não para de gritar / Eu vou, eu vou, eu vou, vou Evangelizar, com Santo Escapulário, de Jesus eu vou falar (bis)

 

5- Frei Petrônio no Centro Oeste, também vai anunciar, a Boa Nova pra todos, ainda é tempo de sonhar/ Eu vou, eu vou, eu vou, vou Evangelizar, com Santo Escapulário, de Jesus eu vou falar (bis)

No Olhar do dia desta segunda-feira 12 de agosto-2019- Direto da Lapa/RJ- vamos conhecer um pouquinho o Mártir Carmelita, Isidoro Bakanja? Vamos que vamos!

 

Em 11 de junho de 1977, a Congregação da Causa dos Santos dava permissão para a publicação do decreto de abertura do processo canônico sobre o martírio de Isidoro Bekanja, na diocese de Mbandaka-Bikoro, no Zaire.

A história da paixão deste jovem leigo, das mais emocionantes pelo candor e firmeza de fé, é quase desconhecida fora da África, mas tem características tais que a tornam incrivelmente atual. A vítima, primeiramente, é um leigo de condição humilde, que recebeu o batismo há pouco: é um neófito. É um operário que emigrou à procura de uma ocupação que lhe consentisse melhorar a situação econômica e ajudar os familiares. O perseguidor não é um pagão, mas um cristão europeu que rejeitou o batismo e é animado por fobia anticlerical: a África aproxima-se do evangelho, a Europa distancia-se. Enfim, a espiritualidade deste jovem negro está impregnada de devoção mariana: a recitação do terço constitui para ele a fonte cotidiana de elevação a Deus e de fortalecimento espiritual.

As acusações, em virtude das quais é sacrificado, são substancialmente duas:

1ª - Ele usa o Escapulário de Nossa Senhora do Carmo e não pretende separar-se dele nem por um instante;

2ª - Vai rezar no bosque, porque isto lhe está proibido em casa. O Bankoto Malia, isto é, o Bentinho, lhe será arrancado no momento do suplício, mas espiritualmente permanecerá eternamente com ele, será sua veste nupcial que o introduzirá no banquete sem fim.

 

O AMBIENTE EM QUE VIVEU

A paixão de Bekanja nasce e cresce enquanto o cristianismo dá os primeiros passos lentos na África negra, particularmente na região que tem por capital Mbandaka, a cidade a que os colonizadores deram o nome de Coquilhatville. A região se estende na área centro-setentrional do Zaire, em pleno ambiente equatorial. Mesmo agora, esta extensa planície de leves ondulações do solo não é muito hospitaleira e difícil de ser atravessada em razão da falta de estradas, dos pântanos, das insídias da floresta e das doenças. Condições muitas vezes proibitivas, tornam difícil o trabalho, a evangelização e o desenvolvimento das capacidades humanas. Na época do Bekanja, não se havia desencadeado o processo da modernização. Mesmo o da missão estava apenas nos projetos das autoridades civis e eclesiásticas belgas. Os padres trapistas de Westmalle só em 1895 assinaram a convenção pela força da qual a região lhes era confiada).

Não conhecemos as circunstâncias, através das quais Bekanja bateu à porta da fé. É certo, porém, que ele foi um dos primeiros habitantes da sua região a pedir o batismo.

Nasceu em Bokandela, nas proximidades de Mbilankamba, entre 1880 e 1890. Seus pais se chamavam Iyonzwa e I nyuka e o irmão mais velho Bokungu. Da sua infância, nada se sabe: o primeiro documento referente a ele é o do seu batismo, ocorrido na paróquia de Santo Eugênio, em Bolokwa Nsimba, isto é, em Mbandaka, a 6 de maio de 1906. Deste registro, apreendemos também, com certeza, a data da sua Crisma (25de novembro de 1906) e o da sua Primeira Comunhão ( 8 de agosto de 1907 ). A data da sua morte geralmente vem indicada na Festa da Assunção de 1909. Outros testemunhos mostram hesitação ao indicar tal morte, mas, se existe diferença, é de dias ou até mesmo de horas.

O encontro de Bekanja com a fé cristã teve como moldura o ambiente de trabalho. Nos idos de 1904-1905, ele abandonou o torrão natal, á procura de trabalho melhor remunerado. No cento da região havia construção de casas destinadas aos técnicos que a sociedade Anônima Belga (SAB),que tinha assegurada a exclusiva exploração dos recursos agrícolas e minerais, enviara para aquela zona. Bekanja foi empregado como servente de pedreiro e parece que, com o tempo, fez notáveis progressos nesta arte. Em Mbandaka, por razões óbvias, se dera início também à atividade missionárias dos trapistas . Um catecumenato havia sido aberto pelo padre Gregório VanDun e pelo padre Robert Brepoels. O padre Gregorio Debrulle, que dará assistência a Bekanja no leito de morte, desenvolvia, juntamente com outro padre, a atividade de missionário itinerante. O jovem operário, ao ter notícia, mediante um catequista, da obra dos missionários, pediu para inscrever-se no catecumenato e deu início à caminhada da sua iniciação cristã.

 

UM ANTICLERICAL BELGA TRANSPLANTADO PARA A ÁFRICA

Por razões que ignoramos, após um breve período de permanência em Mbandaka, Bekanja decidiu mudar de ares. Não sabemos se antes se dirigiu ao seu povoado natal. Sabemos só que pela primeira de 1909 ele se acha ao serviço de André Van Cauteren (Longange), um funcionário nascido em Bruxelas, administrador da empresa SAB de Ikili, como empregado doméstico. As casas dos brancos, naquele tempo como agora, regurgitam de empregados negros para a cozinha, jardinagem, manutenção da casa.  Ao serviço ao mesmo Van Cauteren-Longange, estão também diversos servos e guardiães, além das concubinas.

A diligência e o zelo de Bekanja são atestado unanimemente por todos os seus companheiros de trabalho. O seu colega Mputu Mboyo, na pesquisa efetuada por P. De Witte em 1913, quando alguém surgiu a hipótese de que ele tivesse sido torturado porque havia cometido roubo, reagiu assim:

Não é verdadeiro! Isidoro não havia furtado. Longange não o puniu por um latrocínio. Se tivesse roubado, certamente eu estaria a par: morávamos na mesma casa. Isidoro nunca tirou nada de alguém, como também jamais teve relações com alguma das concubinas de Longange. Alem disso, Isidoro não ficou muito tempo em Ikili: a sua flagelação aconteceu quando ali se achava há dois meses.

 Uma outra hipótese foi aventada, com a intenção de inocentar Van Vauteren: Bekanja teria mexido com alguma de suas concubinas. A mesma testemunha, que partilhava trabalho e teto com ele, desmentiu de maneira incisiva esta suposição também:

 - Não vejo nada de mal em Isidoro, acrescentou ele. - Eu residia com minha esposa e ele ocupava o outro lado da casa. Era solteiro, mas nunca ouvi dizer que ele havia tocado uma mulher. Era muito afável com todos, tanto negros como brancos. Nunca teve atritos. Rezava muito.

A este propósito, cumpre notar que aos africanos não foge absolutamente nada da vida, da atividade e até dos projetos e dos pensamentos dos seus colegas de trabalho: se algum aspecto da existência da ocasião a críticas, pode-se estar certo que isso é perfeitamente conhecido por toda a comunidade que o rodeia.

 

Um outro colega de trabalho em casa de Van Cauteren, Joseph Iyongo, falando com P. de Witte, foi de uma precisão acima de qualquer crítica:

- P. Luís, não creia naqueles que vêm dizer-lhe que Isidoro foi chicoteado por causa disso ou daquilo. Foi chicoteado unicamente porque era cristão e porque usava o Escapulário, a veste de Nossa Senhora.

O mesmo Iyongo, na sua linguagem ingênua, mas de olhos abertos para os fatos que se dão ao seu redor, nos dá a chave para iluminar o ódio anti-cristão que dominava Van Cauteren-Longange. Este transferia para o coração da África as diatribes que, em Bruxelas, punham laicistas e anticlericais em luta sem interrupção contra a Igreja.

Diz o Criado Iyongo: - Mais de uma vez, ouvi Longange repetir: “Não quero nenhum sacerdote aqui! Se encontro um deles, o mato!” Disse a mim: “Se um dia você for ter com o missionário, acabo com sua vida, corto-lhe a cabeça! Naquela época, eu não tinha idéia da religião (cristã), desconhecia completamente a oração, não tinha idéia dos missionários. Perguntei a Longange, que coisa era sacerdote: “Na Europa não existem padres?” Ele me respondeu: “Não, entre nós não existem... É coisa do passado... Na Europa conseguimos fazê-los desaparecer”.

- Eu dizia para mim mesmo: “Se padre é alguma coisa do passado, algo de mau, então por que Bulamatari (Rompe-rochas, o apelido de Stanley, aplicado depois do colonialismo) não o extermina? Por que lhe permite que venha ter conosco?... Eu não acreditava naquilo que Longange falava. Não creio que padre seja um nada, um zero, como ele afirma.

Van Cauteren não podia suportar que Bekanja rezasse em sua casa. Proibiu-lhe severamente. Não podia engolir que um criado seu mostrasse capacidade de pensar com a própria cabeça. E sabia que no catecumenato os africanos aprendiam noções que desenvolviam sua personalidade. Ele queria servidores camareiros, guardiães e concubinas, o mais possível privados de riqueza mental e espiritual: animais de carga incapazes de pensar e de alimentar idéias pessoais. Visto que Isidoro era dedicado ao trabalho, preciso e honesto, o patrão tomava consciência que ele exercia um silencioso, mas importante influxo sobre os companheiros de trabalho. Se todos aprenderem a rezar, pensava ele – aprenderão também a pensar com a própria cabeça e isto não deve acontecer.

 

FLAGELADO POR AMOR A NOSSA SENHORA

Isidoro, nos momentos de saída livre de casa, ia para além do pomar, na vereda ladeada de bambus e de grandes árvores. Ali desfiava o terço. Desta oração tirava força e alegria. Na volta, as reprimendas caíam sobre ele. Mas como antes os apóstolos foram julgados diante do Sinédrio, assim também o jovem trabalhador analfabeto do Zaire se dirigia segundo a inspiração do Espírito: “Cumpre obedecer antes a Deus que aos homens”. E desobedecia ao tirano.

A primeira flagelação teve lugar uma manhã. Van Cauteren, ao ver o Escapulário o pescoço de Isidoro, foi tomado de fúria: Tire esse negócio! gritou. Isidoro respondeu: “Não o tirarei nunca. Arranque-me se quiser!” O patrão chamou o seu guarda-costas, Iseboya, e lhe deu ordem de chicotear Isidoro. Foram-lhe aplicados 25 golpes de chibata.

Bekanja não abandonou suas práticas religiosas. Van Cauteren estava decidido a dobrar a resistência deste cristão de 24 quilates. Um dia, em pleno meio-dia, Isidoro dirigiu-se ao seu refúgio habitual: a espessa vegetação ao lado da terra batida se transformara em uma catedral edificada pela natureza equatorial. O patrão, não o vendo em casa, mandou Iseboya procurá-lo. “Por que você vai lá?”, perguntou-lhe. “Vou em razão das minhas necessidades naturais!”, respondeu Bekanja. “Não é verdade, você vai para pôr em prática os truques de padre!”

A ira do patrão chegou ao paroxismo. Lançou-se contra o jovem, encheu-o de socos e pontapés, arrancou-lhe o Escapulário e o atirou ao cão, que, meneando a causa, se pôs a brincar. Ordenou a Beongele, um tiranozinho da região que partilhava o seu ódio anti-cristão, que o flagelasse não com a chibatada comum, mas com um chicote de pele de elefante que tinha preparado prendendo-lhe dois pregos. Passemos a palavra ao próprio executor material do assassínio:

Comecei então a chicoteá-lo, mas com outro objetivo; ocultei os pregos na mão. Longange percebeu e gritou: “Não é assim! Bata com os pregos!” Segui as duas ordens, a princípio levemente, mas Longange gritou: “Assim não! Mais forte!” Então me enchi de medo, porque Longange é um branco perverso, e o golpeei mais forte. Quando Isidoro se contorcia pela dor, Longange pressionava o pé sobre seu dorso a fim de impedi-lo de mover-se e, assim, também o golpeou com seus pés. Tive de chicoteá-lo por muito tempo: contei entre 200 a 250 golpes. Bekanja foi chicoteado tanto que no fim me doía o braço. Enquanto o golpeava, duas sentinelas o seguravam: Iseboya segurava-lhe os braços, Bolonge imobilizava-lhe as pernas. Depois da flagelação, Isidoro foi levado à prisão.

 

COMO OS PRIMEIROS MÁRTIRES

Quando se escreve a história das cristandades no Terceiro Mundo, sobretudo das mais pobres, é espontâneo ressaltar os pontos que ela tem em comum com a história das velhas cristandades, aquelas do mundo clássico e, mais ainda, com a história da paixão do Mestre e dos seus primeiros seguidores. Durante a Paixão, Jesus teve de aparecer diante do pretório de Pilatos, mas também perante a corte de Herodes, rodeado de cortesãos, mulheres de má vida, expoentes debochados de uma direção corrupta e corruptora. Também o martírio de Bekanja se deu frente a um grupo de pessoas, que efetuavam a exploração de uma terra conquistada a golpes de tratados de chacelerias, sem consultar de nenhum modo os interessados, considerados objetos e não pessoas. A testemunha Mputu nos dá a lista das pessoas, que depois de uma refeição, assistiram sem emoção à tortura de um jovem operário, culpado somente de seguir a sua consciência, afirmando no coração da África negra o direito à liberdade e à dignidade do serviço de Deus e dos irmãos.

Eles eram, além de Longange e de Lomane, um outro branco, cujo nome se omitiu, e as respectivas concubinas. Registramos os seus nomes porque, no fundo, eram vítimas inconscientes, não por razão de infâmia mas por fidelidade histórica: Maria Mputu, Ekila, ambas trazidas de longe, e duas mulheres daquele lugar, Margarida Isako e Teresa Mdombe. Como é fácil deduzir dos seus nomes, elas eram cristãs.

Parece-nos muito oportuno escutar a narração do martírio também por uma outra testemunha, Mputu Mboyo, companheiro de trabalho de Bekanja e seu auxílio em diversas ocasiões, mesmo no final, quando o mártir foi encaminhado para Yele, mas caiu aniquilado ao longo do caminho.

-Eles haviam chicoteado Isidoro. A parte inferior das costas se tornara uma grande ferida. Longange havia fixado dois pregos no chicote feito de pele de elefante. Isidoro perdia muito sangue. Mais tarde, lavei suas calças ensangüentadas, tirei de seu bolso o terço e o dei a um parente ou amigo seu, Ifaso. Os dois são da mesma aldeia. Penso que foi Ifaso quem denuciou ao tribunal os maus tratos infligidos a Isidoro. Atualmente, está em Léopoldville ou nas vizinhanças. Quando Isidoro foi torturado, Ifaso trabalhava em uma das embarcações da SAB. Durante a flagelação, Longange arrancou o Escapulário do pescoço de Isidoro e atirou-o ao chão. O cão, então, o pegou.

- Depois da tempestade de golpes, Isidoro não estava mais em condições de andar. Longange mandou que fosse levado à prisão, onde diversos negros estavam presos em cadeias. Longange fechou as axilas de Isidoro com anéis de ferro, que ele mesmo forjara, ligados a um peso e fechados com um cadeado. Isidoro ficou na cadeia uns dois ou quatro dias. Quando precisava satisfazer sua necessidades pessoais, nós tínhamos de segurá-lo, porque não conseguia mais mover-se. Durante todo o tempo em que ficou preso, eu e Lyongo, o criado de Longange , lhe levamos ocultamente alimento. Tínhamos medo que Longange nos visse e nos chicoteasse, porque ele é um branco mau”.

Com a intenção de acabar tudo, Van Cauteren ordenou a Bekanja de ir com Reybders a Isoko, um povoado perdido na floresta. Pretendia tirá-lo do meio: uma viagem tão desastrosa, entre pântanos e ataques das feras, teria acabado com ele certamente. Além disso, estava prevista a vinda de W. Dorpinghaus-Potatama para uma inspeção geral na fazenda e ele queria eliminar qualquer pretexto de discussão.

- Bekanja deu alguns passos na estrada em direção a Yele, mas acabou por cair por terra, atrás de uma moita, privado de forças, tomado de fome e frio. Potatama, deixado o vapor, para ir à fazenda de Langange, passou ao lado da moita e ouviu os gemidos do coitado, que se dirigiu a ele dizendo: “Branco, olhe como Longange me reduziu!” Levantou a camisa e mostrou sua horríveis chagas.

- Dorpinghaus-Potatama debruçou-se sobre ele e socorreu, mas Longange, sabendo que Bekanja esta ali perto, mandou o fiel Iseboya com o fuzil para exterminá-lo definitivamente. Potatama o deteve. Chegou também Longange, que desejava surrar o coitado. Potatama segurou-lhe o braço”. A testemunha neste ponto notou: “Os dois falaram muito animadamente em francês, eu não entedia, mas se soube depois que Potatama havia dito que Longange sofreria um processo, como de fato aconteceu, e com uma condenação exemplar: foi transferido para outra fazenda da SAB.

 

“SE MORRER, REZAREI POR ELE NO CÉU”

Bekanja foi abrigado em uma cabana na aldeia de Busira. Os vizinhos cuidam dele com carinho, o padre George Dubrulle, que se acha nas cercanjas, vem à sua cabeceira e o assiste até a morte. O mártir lhe diz: “Não tenho nada contra o branco. Ele me bateu, mas é problema dele e não meu. Se morrer, rogarei no céu por ele”.

O padre George lhe pergunta: “Isidoro, por que o branco o surrou?” Ele responde: “O branco não ama os cristãos. Não queria que eu usasse o Escapulário de Nossa Senhora. Quando eu rezava, me repreendia sempre... Não faz mal. Se Deus quiser que viva, viverei; se quiser que eu morra, morrerei, É a mesma coisa”. Morreu repetindo ainda uma vez as palavras do perdão: “Se morrer, rogarei por ele no céu”.

A história de Bekanja se encerra em plena pobreza, assim como transcorreu toda sua vida. Pobreza de documentação, de narração. O essencial, porém, está salvo: é a doação total da vida, na fidelidade irremovível às promessas batismais, mesmo quando tudo parecia capaz de não mover este pobre de Javé na generosa doação do perdão, nos passos do ensinamento do Crucificado. Mounier advertia justamente o mundo: “O que o africano tem para dizer, ainda não o disse. Mas o branco desconfie quando pensa que o negro não tem nada dizer”. Certamente, Bekanja disse tudo, em uma palavra só: Fiat! Ele grita em nome do seu continente: Presente! Estamos no seguimento da cruz. Somos talvez os últimos a chegar, mas somos os mais jovens. Agora, toda a humanidade pode caminhar. Não falta mais ninguém!

Da série de entrevistas sobre os 300 Anos da Província Carmelitana de Santo Elias, veja o 3º vídeo da entrevista com Frei Paulo Gollarte, O. Carm.  Convento do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro. 11 de agosto-2019.

Da série de entrevistas sobre os 300 Anos da Província Carmelitana de Santo Elias, veja o 1º vídeo da entrevista com Frei Paulo Gollarte, O. Carm.  Convento do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro. 10 de agosto-2019.

Santa Teresa Benedita da Cruz foi canonizada, em 1998, por João Paulo II que a chamou “Ilustre filha de Israel”. Um ano atrás, o Papa Francisco recordou a santa como "mulher de diálogo e de esperança”

A figura desta mulher de diálogo e de esperança, canonizada por João Paulo II, em 1998, foi recordada pelo Papa Francisco, precisamente há um ano, ao término da Audiência Geral de quarta-feira (8/8/18), na Sala Paulo VI, no Vaticano:

 

Padroeira da Europa

Edith Stein nasceu em Breslávia, na Polônia, em 1891, e morreu como mártir no Campo de Concentração de Auschwitz, em 9 de agosto de 1942. Até 1922, Edith dedicou-se totalmente à filosofia e ao estudos dos manuscritos do seu mestre Husserl.

Aos 13 anos de idade, deixou o Judaísmo e tornou-se agnóstica. Durante seu curso de filosofia, começou manter seus primeiros contatos com o Catolicismo. Em 1920, a I Guerra Mundial agravou sua crise pessoal.

 

Conversão

Ao ler a autobiografia de Santa Teresa De Ávila, Edith Stein decidiu ser batizada em 1º de janeiro de 1922. Assim, deixou seu mestre Husserl e começou a lecionar no Liceu Dominicano de Spira, onde passou dez anos. Depois, deixou sua cátedra por causa da legislação anti-semita.

Em 1934, ingressou para o Carmelo alemão de Colônia, recebendo o nome de Teresa Benedita da Cruz. Em 1938, por questão de segurança, foi transferida para o Carmelo holandês de Echt. Em 1942, o episcopado holandês sofreu as atrocidades nazistas e todos os católicos, não arianos, foram presos.

Irmã Teresa e sua irmã de sangue, Rosa, foram presas pela Gestapo e levadas para o Campo de Concentração de  Auschwitz, onde, na noite de 6 de agosto, foram executadas na câmara de gás. Fonte: www.vaticannews.va

"Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a vós, Deus Pai Todo-Poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre".

Com estas palavras solenes o sacerdote finaliza a oração eucarística cujo ponto central é o mistério da transubstanciação. Estas palavras expressam, de modo sintético, todo o sentido da oração da Igreja: honrar e glorificar ao Deus Trino, por Cristo, com Cristo e em Cristo. Embora aquelas palavras estejam dirigidas ao Pai elas são, ao mesmo tempo, glorificação do Filho e do Espírito Santo. O que a oração exalta é a majestade transmitida, por toda a eternidade, do Pai ao Filho e deles ao Espírito Santo.

Todo louvor a Deus se realiza por, com e em Cristo. Por ele porque somente por meio de Cristo a humanidade chega ao Pai e porque sua existência como Deus-homem e sua obra de salvação são a mais perfeita glorificação do Pai. Com Ele, porque toda oração verdadeira é um fruto da união com Cristo e, ao mesmo tempo, um aprofundamento desta união. Assim, todo louvor ao Filho é também um louvor ao Pai. Do mesmo modo, quando se louva ao Pai também o filho é louvado. Em Cristo, porque a Igreja em oração é o próprio Cristo - cada indivíduo que ora participa do seu Corpo Místico - e porque o Pai está no Filho. O Filho é o reflexo resplandecente do Pai, cuja glória manifesta. O duplo sentido de cada uma destas três expressões - "por ele", "com ele"e "nele- exprime, claramente, o papel de mediador do homem-Deus. A oração da Igreja é a oração do Cristo sempre vivo. Seu modelo original é a prece do Cristo durante sua vida humana.

 

A oração da Igreja como Liturgia e Eucaristia

Os evangelhos nos contam que Cristo rezou, como rezava um judeu devoto e fiel à Lei. Nos tempos prescritos ia a Jerusalém em peregrinação para participar - quando criança com seus pais e mais tarde com seus discípulos - das celebrações das grandes festas no Templo. Certamente ele cantou com santo fervor, junto com seu povo, os cânticos de regozijo que transbordavam a alegria antecipada dos peregrinos: "Que alegria, quando me disseram: Vamos à casa do Senhor!"(Sl.122,1). Ele pronunciou as antigas orações de bençãos sobre o pão, o vinho e os frutos da terra, tal como são pronunciadas ainda hoje . Disto nós sabemos pela narração da ceia quando, pela última vez, ele reuniu seus discípulos para cumprirem um dos deveres religiosos mais sagrados: o cerimonial da ceia pascal, que celebrava o fim da escravidão no Egito. E é, talvez, precisamente esta última reunião que nos oferece o mais profundo vislumbre do interior da oração do Cristo e nos dá a chave para compreender a oração da Igreja.

"Durante a ceia, Jesus pegou o pão, pronunciou a benção, o partiu e o deu a seus discípulos dizendo: "Tomai, comei: isto é meu corpo". Depois, pegando uma taça e dando graças, ele a deu a eles dizendo: "Bebei todos vós, pois este é meu sangue, o sangue da Aliança, derramado por todos para a remição dos pecados."1 Abençoar, repartir o pão e o vinho pertencem ao rito da ceia pascal. Mas, aqui, eles receberam um sentido inteiramente novo. Foi aqui o começo da vida da Igreja. É bem verdade que somente em Pentecostes ela surgirá como comunidade visível e cheia do Espírito. Mas aqui, nesta ceia pascal, se realizou o enxerto dos brotos sobre a vinha, enxerto que tornou possível a efusão do Espírito. As antigas fórmulas de benção, na boca de Cristo, se tornaram palavras criadoras de vida. Os frutos da terra se tornaram seu corpo e seu sangue, repletos de sua vida.

A criação visível, no ceio da qual Ele já havia penetrado pela Encarnação está, agora, unida a Ele de um modo novo e misterioso. As substâncias que servem para sustentar a vida humano foram radicalmente transformadas e, aqueles que as consumir na fé, também serão transformados: passaram a participar da vida de Cristo, a Ele incorporados e, repletos de Sua vida divina. O poder do Verbo, criador de vida, está ligado ao sacrifício. O Verbo se tornou carne para libertar a vida que ele havia assumido; para oferecer a si mesmo e a criação redimida, por seu sacrifício, em louvor ao Criador. Pela última ceia do Senhor, a ceia Pascal da Antiga Aliança converteu-se na Páscoa da Nova Aliança - no sacrifício da cruz sobre o Gólgota, em cada uma das ceias alegremente celebradas entre a Páscoa e a Ascensão, quando os discípulos reconheciam o Senhor nas frações do pão e no sacrifício da missa, pela Santa Comunhão. 1Mt 26, 26-28

Ao pegar a taça, o Senhor deu graças; nós podemos considerar que aquelas palavras de benção exprimiam, tão somente, um agradecimento ao Criador. Mas nós sabemos, também, que Cristo acostumava dar graças cada vez que, antes de realizar um milagre, elevava os olhos para seu Pai do céu. Ele dava graças porque sabia, antecipadamente, que seria atendido. Ele dava graças, também, pelo poder divino que trazia em si e pelo qual manifesta, aos olhos dos homens, a onipotência do Criador. Ele dava graças pela obra de Redenção que lhe foi dada realizar, obra que foi, em si, glorificação da trindade divina pela qual ele restaurou, para a sua pura beleza a imagem de Deus que fora desfigurada. Pode-se considerar também o contínuo sacrifício do Cristo sobre a cruz, na santa Missa e na eterna glória do céu como sendo uma só e grande ação de graças: a Eucaristia. Como ação de graças pela criação, redenção e consumação. Cristo ofereceu a si mesmo em nome de toda a criação, da qual é o modelo original, e na qual desceu para renovar interiormente e conduzi-la à perfeição. Mas ele chama, também, todo o mundo criado para, em união com Ele, dar as graças devidas ao Criador.

Na Antiga Aliança, já havia uma certa compreensão deste caráter eucarístico da oração. A obra prodigiosa da Tenda da Aliança e, mais tarde, o Templo de Salomão, construídos segundo especiações divinas, foram consideradas como a imagem de toda criação, unida na adoração e no culto do seu Senhor. A tenda em volta da qual o povo de Israel acampava durante sua peregrinação no deserto, chamava-se "A casa de Deus entre nós"(Ex. 38, 21). Ela foi concebida como a "morada aqui de baixo"em oposição à "morada lá do alto". Ela "representava mais que o universo criado", por isto o salmista canta :"Iahweh, eu amo a beleza de tua casa e o lugar onde a tua glória habita."(Sl 26, 8). Assim, como o céu - segundo a história da criação foi estendido como um tapete, também foi prescrito que as paredes da tenda deveriam ser constituídas de tapetes.

Assim como as águas do céu foram separadas das águas da terra, também uma cortina, no Templo, devia separar o lugar santo do lugar santíssimo(Cf. Ex.26,33). O mar de "bronze" foi construído tendo por modelo o mar contido por suas praias. Na tenda, o candelabro de sete braços, representava as luzes do céu. Os cordeiros e os pássaros representavam a multidão de seres vivos que povoam a água, a terra e o ar. Da mesma forma que a terra foi entregue aos cuidados dos homens, o santuário foi entregue aos cuidados do sumo-sacerdote, "que foi ungido para agir e servir na presença do Senhor". Quando concluiu a construção da morada, Moisés a abençoou, consagrou com os santos óleos e a santificou , tal como Senhor havia bendito e santificado no sétimo dia, a obra de suas mãos (Dt. 30:19).

Assim como o céu e a terra dão testemunho de Deus, também a tenda devia ser, na terra, o Seu testemunho. Em lugar do Templo de Salomão, Cristo construiu um templo de pedras vivas: a comunhão dos santos. No centro deste templo ele se encontra como o Sumo e eterno Sacerdote; sobre o altar está, Ele mesmo, o eterno sacrifício ofertado. E toda a criação participa desta "liturgia", o solene serviço de adoração: os frutos da terra, reunidos em oferendas misteriosas , as flores e os candelabros, os tapetes e as cortinas do Templo, o sacerdote consagrado, como também, a unção e a benção da casa de Deus. Os Querubins não estão ausentes. Suas figuras visíveis, esculpidas pela mão do artista, foram postos como vigias ao lado do Santo dos Santos. E, como cópias vivas deles, os monges, "semelhantes aos anjos", rodeiam altar do sacrifício e asseguram que o louvor a Deus, jamais cesse, tanto na terra como no céu. Eles são a boca da Igreja que canta, suas orações solenes emolduram o Santo Sacrifício. Elas também impregnam, emolduram e santificam todas as outras tarefas do dia, de tal forma que a oração e o trabalho tornam-se uma única opus Dei, uma única liturgia. Suas leituras da Santa Escritura e dos Santos Padres da Igreja, do santoral da Igreja e dos ensinamentos de seus pastores são um grande, contínuo e crescente hino de louvor à ação da Providência e à realização progressiva do plano eterno da salvação. Seus cantos matinais de louvor convidam toda a criação a se unir no louvor ao Senhor: montanhas e colinas, rios e riachos, mares e terras e todos aqueles que neles habitam; nuvens e ventos, chuva e neve, todos os povos da terra, todos os homens - de todas condições e de todas as raças - e também, todos os habitantes do céu, anjos e santos. Os anjos participam da grande Eucaristia da criação, não somente por meio de suas representações feitas pela mão do homem ou de suas imagens humanas, mas em pessoa.2 Nós todos devemos nos unir, em nossa liturgia, aos seus eternos louvores a Deus. "Nós", aqui, não se refere somente aos religiosos que foram chamados para os louvores solene a Deus, mas a todo o povo cristão.

Quando o povo cristão vêm, nos dias santos, às catedrais e igrejas, quando eles participam ativa e jubilosamente nos corais e nas formas renovadas da vida litúrgica, este povo cristão está testemunhando que está consciente de sua vocação para louvar o Senhor. A unidade litúrgica da Igreja do céu e da Igreja da terra, que dá sua ação de graça "por Cristo", encontra sua mais forte expressão no Prefácio e no Sanctus da Santa Missa. Entretanto, a liturgia não deixa subsistir qualquer dúvida sobre o fato de que nós não somos, ainda, cidadãos plenos da Jerusalém celeste, mas somente peregrinos a caminho da nossa pátria eterna. Nós temos de nos preparar antes de poder ousar elevar os olhos para as alturas radiantes e unir nossas vozes ao «Santo, Santo, Santo...» do coro celestial. Toda coisa criada, para ser empregada no ofício divino, deve ser retirada de seu uso profano; deve ser purificada e consagrada. Antes de subir ao altar o sacerdote deve purificar-se, confessando suas faltas e, os fiéis como ele, devem fazer o mesmo. A cada nova etapa da Missa, ele deve renovar a oração pela remissão de seus pecados, daqueles que estão à sua volta e por todos aqueles que devem receber em abundância os frutos do sacrifício.

O sacrifício é sacrifício de expiação, que transforma os fiéis, assim como as oferendas, abrindo o céu para eles, tornando-os capazes de dar graças de um modo que seja agradável a Deus. Tudo aquilo de que necessitamos para sermos acolhidos na comunhão dos santos está resumido nos sete pedidos do Pai Nosso que o Senhor rezou, não em se próprio nome, mas para nos ensinar. Nós o dizemos antes da comunhão e, se o fizermos sinceramente e segundo a expressão utilizada por Erik Peterson em seu livro "Buch von dem Engeln - (Livro dos Anjos) Leipzig, Hegner, 1935 - que mostrou, de uma maneira insuperável, a união da Jerusalém celeste e da terra na celebração da liturgia.

de todo nosso coração e recebermos a santa comunhão com a disposição de um espírito apropriado, Ela nos trará a realização de todos nossos pedidos. A comunhão nos livra do mal porque nos purifica de todos os pecados e nos dá a paz do coração que afasta o aguilhão de todos outros "males". Ela nos dá o perdão dos pecados cometidos e nos fortalece contra as tentações. Ela é, em si mesma, o Pão da Vida de que necessitamos todosdos os dias, para lançarmos raízes e crescer até a entrada na vida eterna. Ela faz de nossa vontade um instrumento dócil à vontade divina. Além disso, ela põe as fundações do Reino de Deus em nós dando-nos lábios limpos e coração puro para glorificarmos o Santo Nome de Deus. De novo, portanto, se manifesta como o ofertório, a comunhão e o louvor divino são intrinsecamente unidos. A participação no sacrifício e na ceia sagrada transforma a alma em uma pedra viva da Cidade de Deus e, verdadeiramente, cada uma em templo de Deus.

 

O Diálogo solitário com Deus como oração da Igreja

A alma de cada ser humano é um templo de Deus - isto nos abre um novo e vasto horizonte. A vida de oração de Jesus pode ser a chave para compreendermos a oração da Igreja. Vimos que Cristo participou nas cerimônias públicas e prescritas do seu povo, isto é, participou daquilo que usualmente denominamos de "liturgia. "Ele estabeleceu a mais íntima relação entre esta liturgia e a oferta de sua própria pessoa e, também, pela primeira vez deu-lhe o pleno e verdadeiro sindicado, que é a ação de graça da criação para o seu Criador. Foi assim que ele fez a liturgia do Antiga Aliança realizar-se na Nova Aliança. Mas Jesus não participou somente das cerimônias públicas e prescritas. Talvez, com mais frequência que estas, os evangelhos nos falam de sua oração solitária no silêncio da noite, no alto das montanhas, no deserto, distante dos homens. Quarenta dias e quarenta noites em oração precederam a vida pública de Jesus.

Antes de escolher e enviar seus doze apóstolos, Ele retirou-se para rezar na solidão das montanhas. Com sua oração no monte das oliveiras se preparou para sua subida ao Calvário. O pedido que fez ao seu Pai, nesta hora que foi a mais difícil de sua vida, nos é contada em poucas palavras. Palavras que foram dadas a nós, como estrelas-guia, para nos orientar quando vivemos nosso calvário pessoal: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita!" Como relâmpago, estas palavras iluminaram por um instante, para nós, a vida espiritual mais íntima de Jesus, o insondável mistério de sua existência como Deus homem e seu diálogo com o Pai. Este diálogo foi, certamente, contínuo e durante toda a sua vida.

Cristo rezava interiormente não somente quando se afastava da multidão, mas também quando estava entre seu povo. E, uma vez, ele nos permitiu olhar longa e profundamente este diálogo secreto. Foi pouco antes da hora do Monte das Oliveiras; na despedida: ao final da última ceia com seus discípulos que foi, como já vimos, a hora do nascimento da Igreja. "Tendo amado os seus ... amou-os até o fim."Ele sabia que esta era a última vez que estariam juntos, e procurou dar-lhes tudo o que era possível dar naquele momento. Ele teve que se conter para não dizer mais. Certamente sabia que eles não conseguiriam compreender mais nada , na verdade, eles sequer podiam entender o pouco que já haviam recebido até aquele momento. Era necessário que o Espírito da Verdade viesse abrir seus olhos para tudo o que estava acontecendo. Depois de ter dito e feito tudo o que podia dizer e fazer, ele ergueu seus olhos para céu e falou para ao Pai diante deles. Nós chamamos estas palavras de "Oração Sacerdotal" de Jesus. Esta conversação solitária com Deus também tem antecedente na Antiga Aliança.

Uma vez por ano, no maior e mais santo dos dias, o dia da reconciliação, o Sumo Sacerdote entrava no Santo dos santos para, diante da face do Senhor, orar" em favor da sua casa e em favor de toda assembleia de Israel",  aspergia o trono da graça com o sangue de um novilho e de um carneiro anteriormente imolado e, deste modo, absolvia a ele mesmo e sua casa "das impurezas dos filhos de Israel e das rebeldias deles, isto é, de todos os seus pecados. "Ninguém podia estar na tenda (i.e., no lugar santo que se estendia diante do Santo dos Santos) quando o Sumo Sacerdote ficava na presença de Deus, neste temível e sublime lugar, neste local onde ninguém, exceto ele ingressava e somente naquela hora. Além disso, tinha que queimar incenso para que "a nuvem perfumada recobrisse o propiciatório ... para que ele não morresse. "Aquele encontro solitário se realizava no segredo mais profundo. O Dia de Reconciliação é, no Antigo Testamento, a figura da sexta-feira santa. O carneiro imolado pelos pecados do povo representa o Cordeiro imaculado de Deus (como o representa, também, aquele outro, que era enviado ao deserto, após ter sido escolhido pela sorte, para carregar os pecados do povo). E Sumo Sacerdote, da descendência de Aarão, simbolizava o Sumo e Eterno Sacerdote. Na última ceia Cristo previu sua morte como sacrifício e pronunciou a Oração Sacerdotal. Ele não tinha necessidade de oferecer sacrifício para si, pois Ele não tinha pecados. Ele não tinha que esperar a hora prescrita pela Lei e tampouco entrar no Santo dos Santos do templo. Ele está, sempre e em todos lugares, diante da face de Deus; sua alma é o Santo dos Santos, não somente como a morada de Deus, pois a Ele está unida de modo essencial e indissoluvelmente. Ele não tinha que se esconder de Deus por trás de uma nuvem protetora de incenso. Ele contempla, diretamente, a face do Eterno e não tem nada a temer. A visão do Pai não o mataria. E ele desvela o mistério do reino do Supremo Sacerdote. Todos que a ele pertencem podem entender como Ele falou ao Pai no Santo dos Santos do Seu coração; Todos que a Ele pertencem podem ter a mesma experiência, quando aprenderem falar ao Pai em seus próprio corações.3

A oração sacerdotal de Jesus desvela o segredo da vida interior: unidade íntima das pessoas divinas e habitação de Deus na alma. Foi, nestas secretas profundezas - no mistério do silêncio - , que a obra da Redenção foi preparada e se realizou. E é desse modo que continuará até que todos estejam reunidos, no final dos tempos. A Redenção foi decidida no silêncio eterno da vida divina. No segredo da silenciosa morada de Nazaré o poder do Espírito Santo cobriu, com sua sombra, a jovem virgem que orava na solidão e operou a Encarnação do Redentor. Reunida em torno da Virgem, orando silenciosamente, a igreja nascente esperou ardentemente a nova efusão do Espírito que lhe havia sido prometido para a vivificar, para lhe dar luz interior e tornar fecunda sua ação.

Na noite de trevas que Deus pôs em seus olhos, Saulo esperou, orando na solidão, a resposta de Deus para sua pergunta, "Senhor, o que queres que eu faça?". Foi também, na prece solitária que Pedro se preparou para sua missão junto aos gentios. Assim, através dos séculos, os acontecimentos visíveis da história-aqueles que  renovam a face da terra - são preparados, sempre, no diálogo silencioso que as almas consagrado

3Os limites deste ensaio me impedem de transcrever integralmente a oração sacerdotal de Jesus. Devo pedir ao leitor que a leia no Evangelho de São João, cap. 17.  Deus mantêm com o seu Senhor. A Virgem, que guardou em seu coração toda palavra que Deus lhe enviou, é o exemplo das pessoas que escutam e nas quais a oração sacerdotal de Jesus revive. E aquelas que, como ela, se entregam totalmente, esquecendo-se delas mesmas na imitação da vida e paixão de Cristo, são as escolhidas, preferencialmente, por Deus como instrumentos de suas grandes obras na igreja: uma Santa Brígida, uma Catarina de Sena, por exemplo. Quando St. Teresa, a enérgica reformadora de sua Ordem, na época da grande apostasia, quis ajudar a igreja, viu a renovação da autêntica vida interior como o meio para tal fim. Teresa estava muito transtornada pelas notícias do alastramento da apostasia: "...e, como se pudesse ou valesse alguma coisa, chorava como Senhor, suplicando-lhe para remediar tanto mal. Parecia-me que mil vidas daria eu para salvação de uma só alma das muitas que ali se perdiam.. Sendo mulher e ruim, senti-me incapaz de trabalhar como desejava para a glória de Deus. Tendo o Senhor tantos inimigos e tão poucos amigos, toda a minha ânsia era, e ainda é, que ao menos estes fossem bons. Determinei-me então a fazer este pouquinho a meu alcance, que é seguir os   conselhos evangélicos com toda a perfeição possível e procurar que estas poucas irmãs aqui enclausuradas fizessem o mesmo. Confiava na grande bondade de Deus.... E, ocupadas todas em oração pelos defensores da Igreja, pregadores e letrados que a sustentam, ajudaríamos, no que estivesse a nosso alcance, a este meu Senhor, tão atribulado por aqueles a quem fizeram tanto bem. Até parece que esses traidores pretendem crucificá-lo e novo..... Ó minhas Irmãs em Cristo! Ajudai-me a suplicar isto ao Senhor, já que para este fim vos reuniu aqui. Esta é a vossa vocação."4

A Teresa parecia necessário fazer: "...como em tempo de guerra, quando o inimigo invade uma região. O soberano, em apuros, se recolhe a uma cidade, que fortifica muito bem. Dali sai para atacar os adversários. Os da cidadela são gente tão escolhida que podem mais, eles sozinhos, que muitos soldados, se estes são covardes. Desta maneira muitas vezes conseguem a vitória..... Mas para que vos digo isto? Para que entendais, minhas irmãs, o que havemos de pedir a Deus. É que neste pequeno castelo, já guarnecido de bons cristãos, nenhum se bandeie para os adversários. Que os comandantes deste castelo ou cidade, isto é, os pregadores e teólogos, se tornem ilustres no caminho do Senhor. Na maior parte eles pertencem às ordens religiosas, suplicai para que avancem na perfeição própria de sua vocação, .... 4Cf. Caminho de perfeição. Cap. 1

Eles são obrigados a viver entre os homens, a tratar com eles, a estar em palácios, e ainda algumas vezes a conformar-se exteriormente com as exigências dos mundanos..... E julgais, minhas filhas, que é preciso pouca virtude para tratar assim com o mundo, e viver no mundo, e se envolver em negócios do mundo, ... e, não obstante, ser no íntimo estranhos ao mundo...; em uma palavra: não ser homens, mas, anjos? Com efeito, se assim não fossem, nem merecem o nome de comandantes, nem permita o Senhor que saiam de suas celas. Fariam mais mal do que bem. Não é tempo agora de se verem imperfeições nos que devem ensinar.... Não é com o mundo que eles têm que negociar? Estejam certos: o mundo nada lhes perdoa, nem deixa de perceber as menores imperfeições. De muitas obras boas, os mundanos não farão caso e talvez nem as tenham nesta conta. Mas faltas ou imperfeições, não há dúvida, nada escapa! Causa-me espanto: quem lhes ensina a perfeição? Não para praticá-la - parece-lhes que disto não têm obrigação e muitos fazem se guardam sofrivelmente os mandamentos senão para tudo condenar e, por vezes, considerar comodismo o que é virtude.

Não penseis, por conseguinte, que seja mister pouco favor de Deus para esses soldados ....precisam de grandíssimo auxílio. Peço-vos, por amor de Deus, rogai a Sua Majestade que nos atenda. Eu, embora indigna, peço-o a sua majestade, pois é para sua glória e bem de sua Igreja que estão dirigidos meus desejos.... Se vossas orações e desejos, disciplinas e jejuns não se empregarem no que deixei indicado, ficai certas de que não realizais nem cumpris o fim para o qual o Senhor vos reuniu aqui".5 O que levou esta religiosa, que consagrou à oração décadas de sua vida na cela de um mosteiro, ao desejo apaixonado de fazer algo para a igreja e à lucidez para discernir as necessidades e demandas do seu tempo? Precisamente o fato de que ela vivia em oração e deixou que o Senhor a conduzisse, mais e mais profundamente, em seu "castelo interior" até que encontrasse àquela morada escura onde ele poderia lhe dizer, "que já era tempo de tomar como seus os interesses divinos. Por sua vez, ele cuidaria dos interesses dela."6 . Foi por isso que ela não pode fazer outra coisa senão "arder de zelo pelo Senhor, o Deus dos exércitos"[zelo zelatus sum pro Domino Deo Exercituum] (palavras de nosso Pai Santo, Elias, que estão presentes, como divisas, no brasão de nossa Ordem). (5O Caminho de perfeição - Essas duas citações são lidas, por nós, todos os anos no mês de setembro. 6 Castelo interior ou Moradas - 7,2,1)

 

Vida interior, forma exterior e ação

A obra da Redenção se realiza no silêncio e no segredo. No diálogo silencioso do coração com Deus as pedras vivas são preparadas para edificar o Reino de Deus e os instrumentos escolhidos são forjados para servir na sua edificação. O rio místico, que flui por todos os séculos, não é um braço isolado e secundário, separado da vida de oração da Igreja, ele é sua vida mais íntima. Quando este fluxo místico rompe as formas tradicionais, é porque o Espírito que vive nele, este Espírito que sopra para onde quer - ele que suscitou todas as formas antigas - está sempre está suscitando o novo. Sem ele não haveria nenhuma liturgia e nenhuma igreja. Não era a alma do salmista real uma harpa cujas cordas ressoaram sob o sopro suave do Espírito Santo? Do coração transbordante de alegria da virgem Maria, abençoada por Deus, fluiu o exultante hino do "Magnificat". Igualmente, o cântico profético do "Benedictus" abriu os ábios mudos do velho sacerdote Zacarias, quando se tornou realidade visível o que o anjo anunciara secretamente. Pois, o que jorra de um coração repleto do Espírito Santo procura exprimir-se em cânticos e hinos e se transmite de boca em boca. Cabe ao "Ofício Divino", mantê-los sempre vivos, ressoando de geração a geração. É assim que o rio místico forma seu canto de muitas vozes que vai se ampliando, sem cessar, em hinos de louvor ao Deus trino, ao Criador, ao Salvador, àquele que conduz todos à perfeição. Por isso, não faz sentido conceber a oração interior, mais livre, como "piedade subjetiva "em oposição à liturgia que seria a "oração objetiva "da Igreja. Toda oração sincera é oração da Igreja. Pela oração sincera algo acontece na igreja, e é ela própria que a ora, pois é o Espírito Santo, que nela vive, quem intercede por cada alma individual, "com gemidos inexprimíveis". Esta é a "oração verdadeira", pois "ninguém pode dizer, ’Jesus é Senhor’, a não ser pelo Espírito Santo".

O que seria a oração da Igreja se ela não fosse a oferta daqueles ardentes de um grande amor, doando-se ao Deus que é Amor? A doação de si a Deus, por amor e de modo ilimitado, é a mais alta elevação do coração e a resposta divina a esta doação - a união plena e constante - é a mais alta elevação atingível pelo coração, o mais elevado grau da oração. As almas que atingiram tal grau são o verdadeiro coração da igreja: nelas vive o mais alto amor sacerdotal de Jesus. Ocultas em Deus, com Cristo, só podem irradiar a outros corações o amor divino do qual estão plenificadas, participando assim, na perfeição de todos na união com Deus, que foi e é o grande desejo de Jesus. Foi assim que Marie-Antoinette de Geuser compreendeu sua vocação. Ela teve que empreender sua suprema missão de cristã no meio do mundo. Como o fez tem um valor exemplar muito significativo e de encorajamento para aqueles que, numerosos hoje em dia, sentem-se impulsionados para as coisas e causas da Igreja - tornando radicalmente séria sua vida interior-, mas não podem seguir o chamado na solidão de um mosteiro.

A alma que alcançou o mais alto grau da oração mística e, neste mais alto degrau entrou na "calma atividade da vida divina "nada mais pensa senão dar-se inteiramente ao apostolado para o qual Deus a chamou: "É um repouso na ordem e, ao mesmo tempo, atividade livre de todo o constrangimento. A alma administra a luta na paz, porque está agindo inteiramente dentro dos decretos eternos. Ela sabe que a vontade de seu Deus se realiza perfeitamente para sua maior glória, pois, se a vontade humana sempre limita a onipotência divina, esta acaba, ao final, triunfando e criando algo magnífico com o material que lhe restou. Esta vitória do poder divino sobre a liberdade humana, a qual ele permite seja usada como se queira, é um dos aspectos mais maravilhosos e adoráveis do plano de Deus para o mundo....7 Quando Marie-Antoinette de Geuser escreveu esta carta, ela estava próxima ao limiar da eternidade. Só um tênue véu ainda a separava daquela última realização que nós chamamos de vida gloriosa. Para essas almas santificadas que entraram na unidade da vida íntima de Deus, nada se diferencia: o repouso e a atividade, a contemplação e a ação, o silêncio e a fala, a escuta e a comunicação, receber dentro de si, no amor, o dom divino, e retribuir o amor em abundância, na ação de graça e louvor. Como nós ainda estamos a caminho - e tanto mais acentuadamente quanto mais distante é a meta de chegada - permanecemos presos às leis temporais e somos instruídos para tornar efetiva a vida divina em toda sua abundância, em nós mesmos, em cada um e em todos os membros, completando, mutuamente, uns aos outros.

Nós precisamos de tempo para escutar atenta e silenciosamente e permitir que a palavra de Deus aja em nós até que ela nos motive a levar os frutos em um oferecimento de louvor e em um oferecimento de ação. Nós precisamos das formas tradicionais, temos necessidade de participar do serviço divino público para que a vida interior permaneça desperta e sem desvios de modos a expressar-se de maneira apropriada. Deve haver lugares especiais na terra para o louvor solene a Deus, lugares onde este louvor se faça na maior perfeição da qual a humanidade é capaz. De tal lugar tal louvor, em nome da Igreja, pode subir ao céu. Agir sobre todos os seus membros; pode despertar suas vidas interior e estimular a buscar de uma harmonia exterior. Mas ela deve ser vivificada do interior, aqueles lugares, então, devem dispor de espaços onde se possa aprofundar na oração silenciosa. Caso contrário, ela perderá sua natureza própria e não será senão um louvor da boca para fora, rígida e sem vida.8 Uma proteção contra este perigo é oferecida por casas para a oração interior onde as almas se põem diante da face de Deus em solidão e no silêncio, para ser no coração da Igreja o amor que tudo vivifica. 7Maria da Trindade - Cartas de Consumata a uma Carmelita (Carmelo de Avignon, 1930), carta de 27-9-1917. 8"Há uma adoração interior ... adoração no Espírito, que permanece nas profundezas do ser, na sua inteligência e na sua vontade; é a adoração autêntica, adoração principal, sem a qual a adoração exterior fica sem vida."(citação retirada de: "Oh! meu Deus, trindade que eu adoro- Oração da Irmã Elizabeth da Trindade)

Cristo é o caminho que nos conduz à vida Interior e ao coro dos espíritos celestes que cantam o eterno Sanctus. Seu sangue é o véu, pelo qual entramos no Santo dos Santos da vida divina.. No batismo e no sacramento da penitência seu sangue nos purifica do pecado, abre nossos olhos para a luz eterna, abre nossos ouvidos atentos para acolher a palavra de Deus. Abre nossos lábios para cantar seu louvor, para rezar em expiação, em petição e agradecimento. Todas estas orações, sob diferentes formas, são uma só adoração, isto é, a homenagem que a criatura presta a Deus que é onipotente e pura bondade.

No sacramento da confirmação, esse sangue marca e fortalece os soldados do Cristo, para que confesse seu Nome, livre e resolutamente. Porém, acima de todos, está o sacramento no qual o próprio Cristo está presente em pessoa e nos torna membros do seu corpo. Quando participamos da Santa Missa e recebemos a Santa Comunhão, somos nutridos pela carne e sangue de Jesus, tornamo-nos, por esta via, sua própria carne e seu próprio sangue. E porque nos tornamos membros do seu corpo, seu Espírito pode nos vivificar e reinar em nós. "É o Espírito que vivifica, porque é o Espírito que dá vida aos membros. Mas o Espírito só vivifica os membros do seu próprio Corpo... O Cristão não deve temer nada, senão estar separado do Corpo de Cristo. Pois separar-se do seu corpo é deixar de ser um de seus membros, não podendo mais ser vivificado pelo Seu Espírito. ...".9 Tornamo-nos membros do Corpo de Cristo "não somente pelo amor..., mas em toda a realidade, sendo um, unido à sua carne, união que se opera pelo alimento que Ele nos dá, mostrando seu amor por nós. Por isso Ele desceu em nós e fez de nós Seu próprio corpo, para que sejamos um, do mesmo modo que a cabeça é unida ao corpo à cabeça....."10 Como membros de seu Corpo, animados por seu Espírito, nós nos oferecemos em sacrifício "por Ele, com Ele, e n’Ele "e unimos nossas vozes à eterna ação de graças. Então, depois de receber a comida santa, a Igreja nos permite dizer: "Enriquecidos com tão valiosos dons, fazei, Senhor, que os aproveitemos para a salvação, e por eles vos agradeçamos sem cessar"11

9 Santo Agostinho - Tratado 27 sobre o evangelho de São João 10São João Crisóstomo - Homilia

61 ao povo da Antioquia

11 Missal Romano - Oração para depois da comunhão do Primeiro domingo depois de Pentencoste. (Para a tradução utilizei o Missal Romano Quotidiano da Edições Paulinas de 1959.  Atualmente esta oração passou para o 14ž domingo do tempo comum.- Nota do tradutor)

Santa Edith Stein

Tradução: José Alberto Pedra

Comunidade Santa Edith Stein

Quando, nos sombrios dias de dezembro[2], começa a brilhar a doce luz das velas do advento[3], cheia de mistério em uma obscuridade incompreensível, nós somos despertados para o pensamento consolador de que a divina luz, o Espírito Santo, jamais cessou de iluminar as trevas do mundo decaído. Ele tem permanecido fiel à sua criação, não obstante toda a infidelidade de suas criaturas[4]. E, mesmo se as trevas não quiserem se dissipar pela luz celeste[5] ela, ainda assim, jamais deixará de encontrar algum lugar onde será acolhida e poderá brilhar.  

Um raio desta luz penetrou os corações de nossos primeiros pais quando o julgamento os tocou. Foi um raio luminoso que despertou neles a consciência de suas faltas; um raio flamejante que os inflamou e provocou a ardente dor do arrependimento, refinando-os, purificando-os e tornando-os capazes de acolher a doce luz da estrela da esperança que irradiava para eles nas palavras de  promessas do Proto-evangelho 6.

 Ele está sempre encontrando, no curso dos tempos, os corações humanos que, como os corações dos primeiros homens, se deixaram tocar pela radiante luz de Deus. No segredo  ela os iluminou e os inflamou. Ela amoleceu a matéria dura, encrostada e deformada de seus corações e a remodelou à imagem de Deus com uma mão doce de artista. No silencio as pedras vivas foram, então, formadas e  reunidas para a edificação [6] de uma igreja, inicialmente, invisível. Desta Igreja invisível, surge e cresce a Igreja visível mediante as ações e revelações de Deus que projetam, ao longe, o seu brilho de epifanias sempre renovadas. O trabalho silencioso do Espírito Santo no mais íntimo da alma fez, dos patriarcas, amigos de Deus[7]. Todavia, quando eles se entregaram totalmente a Ele, tornando-se instrumentos dóceis, Ele os empregou para uma obra cuja eficácia exterior era visível.  Ele dirigiu, por intermédio deles, o curso da história e constituiu, a partir deles, seu povo eleito. Assim foi com Moisés, que antes de ser enviado como profeta e legislador[8], foi, primeiramente formado no silêncio. 

 Aqueles que Deus utiliza como instrumentos não são, todos eles, formados necessariamente desta maneira. Os homens podem ser instrumentos de Deus sem o conhecimento deles ou mesmo contra seus desejos10; eventualmente tais homens não pertencem à Igreja, nem à exterior, nem  à interior. Eles são usados como o martelo ou o buril do artista, ou então, como a foice com a qual o vinhateiro poda os galhos dos vinhedos. Naqueles que pertencem à Igreja, a participação exterior pode preceder, no tempo, à participação interior, e, na prática, pode até condicioná-la (uma pessoa batizada sem ter a fé pode, mais tarde, ser conduzido à fé por participar da vida da Igreja exterior.). A vida interior, no entanto, é o fundamento último: a formação se faz do interior para o exterior.  Quanto mais uma alma está afeiçoada a Deus,  quanto mais completamente ela se abandonar à graça, mais forte será sua influência na edificação da Igreja. Inversamente: quanto mais uma época está mergulhada na noite do pecado e afastada de Deus, maior será sua necessidade de almas unidas a Deus. E Deus, não lhes  faltará. Das noites mais escuras surgiram as maiores figuras dos profetas e santos. Mas a trajetória da vida mística que fazem as almas, permanece em grande parte invisível. Algumas almas, das quais nenhum livro de história faz menção, tiveram uma influência determinante nos momentos cruciais da história universal.  Somente no dia, quando tudo o que se encontra escondido for revelado, é que nós descobriremos aquelas almas às quais  devemos as mudanças decisivas em nossa vida pessoal.

 Nós podemos falar de uma Igreja invisível porque as almas enclausuradas não vivem no isolamento, mas em uma relação viva entre elas e em um grande corpo organizado, cujo modelo é Deus. Sua eficácia e sua relação mútua podem permanecer escondidas tanto a elas  mesmas, como aos outros, ao longo de todo sua existência  terrestre. Mas pode, também, que algo transpareça ao exterior.  Assim foi com as pessoas e acontecimentos relacionados ao  mistério da Encarnação.  Maria e José, Zacarias e Elizabeth, os pastores e os reis magos, Simeão e Ana,  todos viveram a experiência de uma vida solitária com Deus. Foram, assim, preparados para suas missões particulares. Somente depois, descobriram e compreenderam que o caminho que percorreram os conduzia para serem protagonistas naqueles acontecimentos prodigiosos. Nos cantos de louvor que nos foram transmitidos11 vemos suas adorações maravilhadas diante das extraordinárias ações divinas.

 Nas pessoas reunidas em volta do presépio temos uma analogia para a Igreja e seu desenvolvimento. Os representantes da antiga linhagem real à qual foi prometida o Salvador do mundo e os representantes do povo crente constituem a ligação entre a Antiga e a Nova Aliança. Os reis do longínquo Oriente representam as populações pagãs para as quais a salvação viria de Judá. Assim, " a Igreja conhecida dos Judeus e dos gentios" aqui já estava presente. Os reis magos, diante do presépio, são os representantes daqueles que buscam a Deus, de todos os países e de todas as nações. A graça os conduziu, mesmo sem que eles participassem  da Igreja visível.  Um desejo puro pela verdade os possuía, verdade que não se esgotava nos limites dos ensinamentos e nas tradições de seus países. 

Porque Deus é a verdade e porque Ele quer ser encontrado por aqueles que O procuram de todo  coração12,   mais cedo ou mais tarde, a estrela irá aparecer, para mostrar a estes sábios o caminho para a verdade. Foi assim que eles, se reconhecendo diante da Verdade feito homem, se prostram para adorá-Lo e depositaram suas coroas a seus pés, pois, comparadas a Ele, todas as riquezas do mundo não são mais do que um punhado de poeira.

 Os reis magos têm uma significação especial para nós. Mesmo já pertencendo exteriormente à Igreja, um desejo interior nos impele, contudo, a sair do círculo fechado das concepções e dos hábitos que herdamos. Nós conhecemos a Deus, mas nós sentimos que Ele  deseja ser procurado e encontrado de uma maneira nova. Eis porque  ficamos disponíveis e buscamos uma estrela que  nos indicaria o caminho correto a seguir. A estrela brilhou para nós na graça de nossa vocação. Nós a temos seguido e nós a encontramos na Criança divina. Ele tem as mãos estendidas para nossos presentes13: Ele quer o ouro puro de um coração desgarrado de todos os bens da terra; a mirra da renúncia  às alegrias deste mundo para participar, em troca, da vida e do sofrimento de Jesus; o incenso de uma vontade  dirigida diretamente para o céu, que renuncia a ela mesma para se perder na vontade divina. A Criança divina responde a estes presentes se dando, a si mesmo, a nós.

 Mas esta troca prodigiosa não se realiza de uma vez por todas. Ela permanece durante toda a nossa vida. O cotidiano de nossa vida religiosa segue a hora solene de nossa consagração nupcial. Nós tivemos que "retornar ao nosso país", mas, "por um outro caminho"14 e guiadas por esta nova luz que tem brilhado para nós neste abençoado lugar. A nova luz nos convida a continuar procurando. “Deus se deixa procurar”, nos disse Santo Agostinho, para se deixar

                                                 

11

  Lc 1, 68-79 (canto de Zacarias) ; Lc 1, 46-55 Magníficat ; Lc 2, 29-32 (canto de Simeão) 12

 Jr. 29,13 13

  Os presentes simbolizam os três votos : o ouro da pobreza; a mirra da castidade e o incenso da obediência 

14

 Mt. 2, 12

encontrar. Ele se deixa encontrar para ser novamente procurado[9]. Após cada grande momento de graça, é como se nós começássemos  somente, então, a compreender  nossa vocação. Isto porque ela corresponde, também, à uma necessidade interior de renovar nossos votos  agora e sempre. Além disso, tem uma significação profunda que celebremos a festa dos reis magos, cuja peregrinação e confirmação de fé são um símbolo para nossa vida. A cada renovação de nossos voto, autêntica e seguida de todo nosso coração, a Criança divina responde aceitando-os novamente com uma união mais íntima. E isto significa uma nova e sutil ação da graça em nossa alma. Talvez esta se mostre como uma nova Epifania , a ação divina se tornará visível em nosso comportamento externo e nossas atividades serão percebidas por aqueles que estão ao nosso redor. Mas, talvez,  ela também traga frutos sobre os quais ninguém adivinhará de quais fontes secretas eles tiram, em abundância, a  seiva da vida.

 Nós vivemos hoje, novamente, em um época que tem uma necessidade urgente desta renovação proveniente das fontes escondidas das almas unidas a Deus. E muitos colocam sua última esperança nestas fontes escondidas de salvação. É uma grave exortação: uma dádiva, sem reserva, ao Senhor que nos tem chamado. Isto nos é pedido a fim de que a face da terra possa ser renovada. Com uma confiança cheia de fé nós devemos abandonar nossas almas ao  impulso poderoso do Espírito Santo. Não é necessário que nós experimentemos a epifania em nossas vidas. Nós devemos viver na certeza da fé que a ação profunda do Espírito Santo em nós, traz seus frutos no Reino de Deus. Nós os contemplaremos na eternidade.

 Eis como nós queremos trazer nossas oferendas ao Senhor:  nós as depositaremos nas mãos da Mãe de Deus; este primeiro sábado do mês[10][11] é particularmente consagrado a sua veneração e nada pode causar a seu coração tão puro maior alegria do que nós nos  abandonarmos sempre mais profundamente no Coração divino. Ela não pedirá, ao menino Jesus, de mais bom grado, outra coisa senão que tenhamos padres santos e que seus ministérios sejam ricos de benção. Este pedido  nos foi fortemente recomendado, neste sábado de orações pelos padres, e  nossa Santa mãe nos pediu para gravá-lo em nossos corações como um elemento essencial de nossa vocação carmelitana. 

 

[1] Para construir esta tradução, utilizei a versão inglesa, divulgada pela "Ordo Carmelitarum Discalceatorum" - Província Austríaca -  e a versão francesa publicada pela Cerf. Trata-se de uma tradução para uso particular cuja finalidade é divulgar, para as pessoas amigas e interessadas na obra escrita desta Santa, alguns documentos por ela produzidos que não foram, ainda, traduzidos para a língua portuguesa. 

[2] 2

 Dezembro europeu, quando é inverno e os dias são nublados.

[3] Uma tradição, particularmente viva na Europa do Norte, consiste em dispor quatro velas no começo do advento e as acender progressivamente durante as quatro semanas antes da festa do natal.

[4] Referência a  2Tm 2,13

[5] Referência a Jo 1,5 6

 É assim que os Pais da Igreja designaram o versículo Gn 3,15. A tradição vê, aqui, o anúncio da vitória de Cristo.

[6] Ver 1P 2, 5.

[7] Sb 7, 27

[8]   Ver Ex 2-3 10

 Este é um tema bíblico importante. Afirma que tudo está na mão de Deus ( Ver Is 10, 5-19;  45,14; 48,12)

[9]  Esta citação refere-se, certamente, a : "sic ergo quaeramus tanquam inventori et sic inveniamus tanquam quaesituri ( Procurar como se  devêssemos encontrar e encontrar com a intenção de sempre procurar) [De Trinitate, IX, I, 1])

[10]

[11] de janeiro de 1940 foi um Sábado, dia em que a ordem do Carmelo celebra, particularmente, a memória da Virgem Maria.

COMENTÁRIO

Edith Stein nasceu em Breslau no dia 12 de Outubro de 1891, no seio duma família judaica. Tendo procurado apaixonadamente a verdade através de profundos estudos filosóficos, encontrou-a mediante a leitura da autobiografia de Santa Teresa de Jesus. Em 1922 recebeu o batismo na Igreja católica e em 1933 entrou no Carmelo de Colônia. Morreu mártir da fé cristã nos fornos crematórios dos campos de concentração de Auschwitz no dia 9 de Agosto de 1942, durante a perseguição nazi, oferecendo o seu holocausto pelo povo de Israel. Mulher de inteligência e cultura singulares, deixou numerosos escritos de elevada doutrina e de profunda espiritualidade. Foi canonizada por João Paulo II no dia 11 de Outubro de 1998.

 

ANTÍFONA DE ENTRADA (Gal 6, 14)

Toda a minha glória está na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.

 

ORAÇÃO COLETA

Senhor, Deus dos nossos pais, que conduzistes a mártir Teresa Benedita ao conhecimento do vosso Filho crucificado e à sua imitação até à morte, concedei, pela sua intercessão, que todos os homens conheçam o Salvador, Jesus Cristo, e por Ele cheguem à perpétua visão do vosso rosto. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

PRIMEIRA LEITURA (Os 2, 16b.17b.21-22 )

«Desposar-te-ei para sempre»

Leitura da Profecia de Oseias Eis o que diz o Senhor: «Hei-de conduzir Israel ao deserto e falar-lhe ao coração. Ali corresponderá como nos dias da sua juventude, quando saiu da terra do Egito. Naquele dia, diz o Senhor, farei de ti minha esposa para sempre, desposar-te-ei segundo a justiça e o direito, com amor e misericórdia. Desposar-te-ei com fidelidade e tu conhecerás o Senhor». Palavra do Senhor.

 

SALMO RESPONSORIAL (Salmo 44 (45), 11-12.14-15.16-17 (R. cf. 11a ou Mt 25, 6)

Refrão: Ide ao encontro de Cristo Senhor.    

 

1-Ouve, filha, vê e presta atenção, esquece o teu povo e a casa de teu pai. De tua beleza se enamora o Rei, Ele é o teu Senhor, presta-Lhe homenagem.

2-A filha do Rei avança cheia de esplendor: de brocados de ouro são os seus vestidos. Com um manto multicor é apresentada ao Rei, seguem-na as donzelas, suas companheiras.

3-Cheias de alegria e entusiasmo, entram no palácio do Rei. Em lugar de teus pais, terás muitos filhos; estabelecê-los-ás príncipes sobre toda a terra.

 

EVANGELHO

Refrão: Aleluia, Aleluia, Aleluia (bis)

Vem, esposa de Cristo, recebe a coroa de glória, que o Senhor te preparou para sempre.

 

EVANGELHO (Mt 25, 1-13)

«Aí vem o Esposo: ide ao seu encontro»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a dez virgens, que, tomando as suas lâmpadas, foram ao encontro do esposo. Cinco eram insensatas e cinco eram prudentes. As insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo, enquanto as prudentes, com as lâmpadas, levaram azeite nas almotolias. Como o esposo se demorava, começaram todas a dormitar e adormeceram. No meio da noite ouviu-se um brado: ‘Aí vem o esposo; ide ao seu encontro’. Então, as virgens levantaram-se todas e começaram a preparar as lâmpadas.

As insensatas disseram às prudentes: ‘Dai-nos do vosso azeite, que as nossas lâmpadas estão a apagar-se’. Mas as prudentes responderam: ‘Talvez não chegue para nós e para vós. Ide antes comprá-lo aos vendedores’. Mas, enquanto foram comprá-lo, chegou o esposo: as que estavam preparadas entraram com ele para o banquete nupcial; e a porta fechou-se. Mais tarde, chegaram também as outras virgens e disseram: ‘Senhor, senhor, abre-nos a porta’. Mas ele respondeu: ‘Em verdade vos digo: Não vos conheço’. Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora». Palavra da salvação.

Comentário do Evangelho por Frei Carlos Mesters, O. Carm. (Mateus 25,1-13)

Hoje é a festa de Santa Edith Stein que no Carmelo assumiu o nome de Tereza Benedita da Cruz. Por isso, o evangelho de hoje traz a parábola das dez virgens que deviam dar as boas vindas ao noivo quando chegasse para a festa do casamento.

 

Mateus 25,1ª: O começo: “Naquele dia”

A parábola começa com estas duas palavras: “Naquele dia”. Trata-se do dia da vinda do Filho do Homem (cf Mt 24,37). Ninguém sabe quando virá esse dia, “nem os anjos do céu, nem mesmo o filho, mas somente o Pai” (Mt 24, 36). Não adianta os adivinhos quererem fazer cálculos. O Filho do Homem virá de surpresa, quando a gente menos espera (Mt 24,44). Pode ser hoje, pode ser amanhã. Por isso, o recado final da parábola das dez virgens é “Vigiai!’ As dez moças devem estar preparadas para qualquer eventualidade. Quando a polícia nazista bateu na porta do mosteiro das irmãs Carmelitas em Echt na província de Limbúrgia nos Países Baixos, Edith Stein, a irmã Tereza Benedita da Cruz, estava preparada. Assumiu a Cruz e foi eles para o martírio no campo de extermínio por amor a Deus e ao seu povo. Ela era uma das virgens prudentes da parábola.

Mateus 25,1b-4: As dez virgens escaladas para aguardar o noivo

A parábola começa assim: “O Reino do Céu é como dez virgens que pegaram suas lâmpadas de óleo, e saíram ao encontro do noivo”.Trata-se das moças que deviam acompanhar o noivo para a festa do casamento. Para isto, elas deviam levar consigo as lâmpadas, sejam para iluminar o caminho, seja para abrilhantar a festa. Cinco delas eram previdentes e cinco não tinham juízo. Esta diferença transparece na maneira de elas se prepararem para a função que receberam. Junto com as lâmpadas acesas, as previdentes levaram consigo também uma vasilha com óleo de reserva. Elas se preparavam para qualquer eventualidade. As sem juízo só levaram as lâmpadas e não pensaram em levar consigo um pouco de óleo de reserva.

 

Mateus 25,5-7: A demora não prevista da chegada do noivo

O noivo estava demorando. Não havia hora marcada para ele chegar. Enquanto esperam, as dez moças são vencidas pelo sono. Enquanto isso, as lâmpadas acesas continuam gastando o óleo e vão se apagando aos poucos. De repente, no meio da noite, se ouve o grito: “O noivo está chegando. Saiam ao seu encontro”.  Todas elas despertam e começam a preparar as lâmpadas que já estavam quase no fim. Deviam colocar óleo de reserva para evitar que as lâmpadas se apagassem.

 

Mateus 25,8-9: As reações diferentes diante da chegada atrasada do noivo

É só agora que as sem juízo se deram conta de que esqueceram de levar consigo óleo de reserva. Foram pedir às prudentes: “Deem um pouco de óleo para nós, porque nossas lâmpadas estão se apagando”.  As prudentes não puderam atender ao pedido delas, pois naquela hora o que importava não era as prudentes partilharem o seu óleo com as outras, mas sim elas estarem prontas para acompanhar o noivo até o lugar da festa. Por isso aconselharam: É melhor vocês irem aos vendedores e comprar.

 

Mateus 25,10-12: O destino das moças prudentes e das sem juízo

As sem juízo seguiram o conselho das prudentes e foram comprar óleo. Foi nesta breve ausência da compra que o noivo chegou e que as prudentes puderam acompanhá-lo e entrar com ele para a festa do casamento. E a porta se fechou atrás delas. Quando as outras chegaram, bateram na porta e pediram: “Senhor, Senhor, abre a porta para nós!” E receberam a resposta: “Eu garanto a vocês que não as conheço”

 

Mateus 25,13: A recomendação final de Jesus para todos nós

A história desta parábola é muito simples e a lição é evidente: “Fiquem vigiando, pois vocês não sabem qual será o dia, nem a hora”. Moral da história: não seja superficial, olhe para além do momento presente, procure descobrir o apelo de Deus até nas mínimas coisas da vida, até mesmo no óleo que pode falta na lamparina.’

 

ORAÇÃO SOBRE AS OFERTAS

Recebei e santificai, Senhor, os dons que trazemos ao vosso altar, na festa de Santa Teresa Benedita, vossa mártir, Vós que levastes à perfeição todos os sacrifícios da antiga aliança no único sacrifício que Jesus Cristo, vosso Filho, vos ofereceu com o seu sangue. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

ANTÍFONA DA COMUNHÃO (Salmo 22, 4-5)

Ainda que tenha de passar por vales tenebrosos, não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo.

 

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO

Concedei, Deus clementíssimo, que, celebrando a festa de Santa Teresa Benedita, recebamos em nossos corações os frutos celestes da árvore da cruz, de modo que, seguindo fielmente a Cristo na terra, mereçamos comer da árvore da vida no reino celeste. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

BÊNÇÃO SOLENE

Deus, nosso Pai, que hoje nos reuniu para celebrar a festa de Santa Teresa Benedita da Cruz, vos abençoe e proteja e vos confirme na sua paz.

Amém

Cristo Nosso Senhor, que manifestou de modo admirável em Santa Teresa Benedita a força e a imagem do mistério pascal, faça de vós testemunhas fiéis do seu Evangelho.

 Amém

O Espírito Santo, que em Santa Teresa Benedita nos deu um sinal da caridade divina, vos torne capazes de formar uma verdadeira comunidade de fé e amor.

 Amém

Abençoe-vos Deus todo-poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo.

Amém

Congresso da Ordem Terceira do Carmo em Aparecida/SP- de 3-4 de agosto. No vídeo, testemunhos dos novos Sodalícios de Saquarema/RJ e Campo Limpo/SP. Convento do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro. 8 de agosto-2019.

 

Frei Carlos Mesters, O. Carm. 

(Meditação pessoal ou comunitária, por Frei Petrônio de Miranda, O. Carm) 

 

Como irmãos e irmãs da mesma família somos todos iguais, e formamos juntos a Família Carmelitana: homens e mulheres, casados e solteiros, jovens e idosos, frades e freiras, religiosos e religiosas, monges e monjas, sacerdotes e leigos.

A própria Regra de Santo Alberto nos inclui todos e todas, quando diz no prólogo “Muitas vezes e de muitas maneiras os Santos Padres estabeleceram como cada um, qualquer que seja o estado de vida a que pertença ou qualquer que seja o modo de vida religiosa que tenha escolhido, deve viver em obséquio de Jesus Cristo e servi-lo fielmente com coração puro e consciência serena”  Todos temos em comum a mesma vontade de viver a fraternidade em obséquio de Jesus Cristo e “servi-lo fielmente com coração puro e consciência serena”.

 

O Símbolo do Escudo que nos define

O Escudo do Carmo simboliza nossa pertença à Família Carmelitana. É a nossa carteira de identidade espiritual, o distintivo visível que carregamos na roupa. O Escudo traz as três estrelas-guia do Carmelo: Elias, Maria e Eliseu.

As palavras ao redor expressam nossa maneira carmelitana de viver “a fraternidade em obséquio de Jesus Cristo”: oração, fraternidade, missão profética. Quando oração e fraternidade se unem, nasce a ternura. Quando fraternidade e missão profética se unem, elas geram a solidariedade. Quando missão profética e oração se unem, a pessoa lutará pela justiça. Na origem de tudo: a contemplação, a mística.

 

A estrela do Profeta Elias:

“Vivo é o Senhor, em cuja presença estou!” (1Rs 17,1). A frase de Elias: “O zelo por Javé dos Exércitos me consome”, indica o ardor com que ele se engajava pela causa de Deus.

A estrela de Maria, a Mãe de Jesus:

“Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38). As doze estrelas que envolvem a mulher do Apocalipse (Apoc 12,1), trazem à memória tudo que Maria fez para encarnar a Palavra de Deus em sua vida.

 

A estrela do profeta Eliseu:

“Eliseu levantou-se, seguiu Elias, e se colocou a seu serviço” (2Reis 19,21). O seu pedido para ter uma dupla porção do espírito de Elias revela a consciência que tinha de ser o sucessor do profeta (2Rs 2,9). As três estrelas indicam como devemos viver a fraternidade em obséquio de Jesus Cristo. Que é o tema deste nosso Congresso da Ordem Terceira do Carmo.

 

Para Meditação pessoal ou comunitária.

1-Na Ordem Terceira do Carmo- E na Espiritualidade Carmelitana- a Fraternidade não é apenas uma oração, um rito ou uma leitura espiritual, mas o nosso objetivo de vida. O que fazemos para colocar em prática este ideal?

2-O Escudo da Ordem do Carmo- Nossa Senhora, Elias e Eliseu- simbolizam a riqueza espiritual fraterna da nossa caminhada. O que podemos destacar destas três personagens bíblicas?

3-Fraternidade é diálogo, respeito, ajuda mútua, correção fraterna, amor, perdão e festa. O nosso sodalício preza por estes valores?    

Congresso da OTC em Aparecida/SP. 3-4 de agosto-2019.

Frei Carlos Mesters, O. Carm.  

(Meditação pessoal ou comunitária por Frei Petrônio de Miranda, O. Carm)  

 

A Regra do Carmo surgiu como proposta de vida naquele grupo de peregrinos que viviam no Monte Carmelo. Eles pediram ao Alberto para que, em nome da Igreja, confirmasse a proposta deles. A forma de vida que eles adotaram, desde o começo, era o novo tipo de Vida Religiosa que estava surgindo na Europa e que se chamava Movimento Mendicante.

A novidade da vida mendicante era a insistência na fraternidade como revelação da Boa Nova do amor de Deus para os pobres, os “menores”. A fraternidade mendicante era a fraternidade dos “menores”, do povo pobre que necessitava criar entre si laços de solidariedade para poder sobreviver nas cidades. Ser mendicante significava optar para viver numa fraternidade pobre, de “menores”. Eles eram chamados frades menores.

Esta raiz mendicante da nossa fraternidade carmelitana não pode ser esquecida, pois ela é a característica básica que afeta a nossa vida desde a sua origem e é uma dimensão muito atual para nós na América Latina, onde os “menores”, os pobres, são a grande maioria. Enumeramos aqui cinco características da fraternidade mendicante na Regra do Carmo, com quatro perguntas para nós da Ordem Terceira do Carmo,

 

A função do prior e o exercício da autoridade (Rc 4).

A primeira coisa que a Regra estabelece é ter um prior e não um abade. Os grandes mosteiros tinham como superior um abade, eleito ou nomeado para a vida inteira. Os mendicantes não tinham abade, mas sim um prior, eleito para três anos pelos próprios confrades. Depois dos três anos, o prior voltava a ser frade. Conforme a Regra, o prior deve exercer a sua autoridade em conjunto com os outros frades, na escolha do lugar (Rc 5), na indicação da cela (Rc 6). Devia envolver a todos e criar neles um senso de corresponsabilidade e de participação. Prevalecia a fraternidade sobre a hierarquia.

 

Meditação pessoal ou comunitária

1-Temos a liberdade de conversar com o prior sobre os diferentes desafios e problemas da nossa fraternidade ou temos medo?   

2-Ser prior é missão passageira. Somos chamados a ser carmelitas ou ser prior? Qual a diferença?

3-Faço os votos perpétuos para servir ou para mandar no sodalício?  

 

A dimensão comunitária e o contato entre os sodalícios (Rc 8).

Na Regra, os Carmelitas aparecem como eremitas que vivem em comunidade. Naquela época havia muitos eremitas itinerantes. Eles não viviam em comunidade. Tinham um compromisso com um monge “diretor espiritual”. Depois de um tempo de convivência com um monge, procuravam outro monge diretor em outro lugar. Os carmelitas mendicantes tinham compromisso não com um monge, mas com a comunidade e com o ideal expresso na Regra. Para impedir o retorno ao modo de viver dos eremitas itinerantes sem vida comunitária, onde cada um buscava seu próprio diretor lugar ou diretor espiritual, a Regra estabelece: Não é permitido a nenhum irmão, a não ser com licença do prior em exercício, mudar-se de lugar de moradia que lhe foi indicado ou trocá-lo com outro. Os primeiros carmelitas renunciavam à itinerância dos eremitas que viviam em busca de um guia espiritual. Eles eram eremitas que viviam em comunidade e submetiam sua vida às normas da comunidade. O mesmo vale para a cela do prior na entrada. Tanto os novos candidatos como os visitantes e peregrinos que vêm ao lugar, todos são acolhidos e orientados pelo prior que representa a comunidade.

 

Meditação pessoal ou comunitária

1-Somos da Ordem Terceira do Carmo que preza e vive a espiritualidade carmelitana FRATERNA. Somos um grupo de amigos, um clube ou Carmelitas?

2-No Monte Carmelo os primeiros monges viviam em COMUNIDADE. O Carmelo é COMUNIDADE! Sinto esta harmonia no Sodalício ou estamos longes desse sonho carmelitano?

3- Como é possível expressar a fraternidade real em nosso Sodalício?

 

Ter tudo em comum para que ninguém passe necessidade (Rc 12)

A comunhão de bens era um ponto característico das fraternidades mendicantes. A preocupação, para que tudo seja distribuída de acordo com as necessidades de cada um, é uma expressão desta fraternidade.

 

Meditação pessoal ou comunitária

1- Temos a preocupação com as necessidades dos nossos irmãos e irmãs do Sodalício?

2- Os bens da Ordem Terceira ou doações- moveis e imóveis- nos une ou nos separa da fraternidade e espiritualidade carmelitana?

3- Somos IRMÃOS! Em outras palavras, TEMOS TUDO EM COMUM. Sabemos dos reais gastos e ganhos do Sodalício ou isso é apenas coisa do Prior e seu conselho?

 

Todos são responsáveis pelo todo e pelo bem-estar de cada um (Rc 15)

A reunião semanal ou Capítulo era uma expressão típica, própria das fraternidades mendicantes. Nela se tratava de três coisas fundamentais para a vida comunitária: do bem comum do conjunto, do bem-estar de cada um e da correção fraterna, feita com caridade. O capítulo local semanal era o lugar da partilha e da direção espiritual.

 

Meditação pessoal ou comunitária

1-Enfrentamos os problemas do Sodalício ou “empurramos para baixo do tapete?

2-O nosso encontro mensal é motivo de alegria- encontro de família -ou de acusações?

3- Nos sentimos bem no Sodalício ou somos obrigados a fazer parte dos momentos de formação e confraternização?