NOVOS DIÁCONOS CARMELITAS: Foram ordenados diáconos hoje, domingo 17 de novembro-2019 em Roma, os Freis carmelitas da Ordem do Carmo; Juliano e William, da Província Carmelitana de Santo Elias e o Frei Alex, da Província Italiana. Parabéns! F

Rito de Admissão ao Noviciado

(Após a oração da coleta- Antes da Liturgia da Palavra)

 

Flávio:

A Ordem Terceira do Carmo ou Ordem Carmelita Secular, junto a outros grupos ou comunidades que se inspiram na Regra do Carmo, na sua tradição e valores expressos na espiritualidade do Carmelo, constitui na Igreja a Família Carmelita.

Como Maria, a senhora do Carmo, primeira entre os humildes e pobres do Senhor, os leigos Carmelitas veem-se chamados a glorificar as maravilhas realizadas pelo Senhor na sua vida.

Os leigos Carmelitas partilham, além disso, da paixão do profeta Elias pelo Senhor e pela defesa de seus direitos. Com o profeta, aprendem a abandonar tudo, para se refugiarem no deserto e serem purificados, tornando-se prontos para o encontro com o Senhor e para acolher sua Palavra.

Com a admissão ao noviciado, os Postulantes carmelitas iniciam hoje o ano de formação e a experiência na Ordem Terceira do Carmo.

(A Priora faz a chamada dos Postulantes para que se apresentem ao Noviciado).

Celebrante: Irmãos e irmãs, o que pedis à Ordem do Carmo

Postulantes: Pedimos a graça de poder perseverar na formação evangélica e da espiritualidade carmelita, no noviciado do Sodalício da Ordem Terceira do Carmo de Passa Quatro

Celebrante- Flávio: Estes irmãos e irmãs estão aptos para ingressarem no Noviciado?

Flávio: Sim, estes irmãos e irmãs, após uma longa caminhada na Fraternidade do Escapulário, optaram por seguir a caminhada Carmelitana na Ordem  Terceira do Carmo desta cidade.

Comentarista.

O hábito é o nome que se dá à determinadas vestes de ordens monásticas-Carmelitas, Dominicanos, Franciscanos, Beneditinos... que variam de acordo com a Ordem. As ordens religiosas são a forma mais comuns da vida consagrada na Igreja. Com o passar dos anos, também os leigos passaram a usar tais vestes nas chamadas Ordens Terceiras agregas a tais espiritualidades. É interessante lembrar que a Padroeira da América Latina era uma leiga da terceira Dominicana, Santa Rosa de Lima.

O hábito Carmelita- de cor marrom encimado pelo Escapulário de Nossa Senhora e por uma capa branca por cima- é uma das vestes mais antigas da história das Ordens Religiosas remontando a aparição de Nossa Senhora do Carmo no dia 16 de julho de 1251 na Inglaterra. Segundo a tradição, foi nesse dia que Nossa Senhora aparece ao superior Geral do Carmo, São Simão Stock, entregando-lhe o Escapulário.

De pé, vamos receber os padrinhos e madrinhas destes noviços e noviças que trazem o santo hábito carmelitano.

(Procissão – Canto) 

 

ORAÇÃO QUE SE RECITA AO VESTIR O HÁBITO CARMELITA

 

TÚNICA (Um Postulante ler). Revesti-me, meu Deus, dos Santos hábitos, a fim de que apareça diante de vós, tal qual como meu hábito e profissão o pedem.

 

CORREA (Um Postulante ler).  Uni -me a Vós, ó meu Deus, com uma união muito   íntima e prendei-me a Vossa bondade, compaixão e misericórdia pelos laços da caridade, cujo  nó   jamais  se rompa.

 

ESCAPULÁRIO (Um Postulante ler).  Senhor, dai-me a graça de confiar na tua mãe, a Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo- a exemplo de São Simão Stock- para que eu, revestido com o Santo Escapulário, me coloque a serviço do Reino. 

 

TERÇO (Um Postulante ler).  Seja o meu noviciado pautado pela simplicidade de Nossa Senhora do Carmo e o silêncio de Santo Elias. Que na reza diária do terço e do santo Rosário, possa eu encontrar os valores evangélicos que me leve ao topo do Monte Carmelo- Jesus Cristo. 

 

VÉU (Um Postulante ler). Meu Senhor, este véu me ensina que devo morrer para os valores do mundo; A mentira, o ódio, a violência, o consumismo, a arrogância- e para mim mesmo, para só viver para vós: Caminho, verdade e vida. Fazei-me, pois, a graça ó meu Deus, de vos seguir sob o manto da proteção da Mãe do Carmelo, Nossa Senhora do Carmo e do nosso pai, Santo Elias. AMÉM.

 

Celebrante: Que o Senhor abençoe os bons propósitos formulados por estes irmãos e irmãs, agora noviços e noviças da Ordem Terceira do Carmo. Que Deus os ajude na caminhada sob as bençãos de Nossa Senhora do Carmo e de Santo Elias-Profeta, nosso Pai e Guia.

 

Todos: Amém!

(Segue a Missa com a liturgia da Palavra)

Do dia 6 de maio tintilou o telefone no Convento do Carmo de Nimegue. Foram atender: Era a voz de Frei Tito! Por uma deferência extraordinária permitiram-lhe comunicar pessoalmente aos confrades a sua próxima partida para o campo de concentração de Dachau. Uma carta com a mesma data dá mais pormenores. Desde 28 de abril Tito encontra-se outra vez em Scheveningen, esperando a sua deportação. Aos 16 de maio segue para a prisão de Kleef, na Alemanha, onde permanece até 13 de junho, provavelmente. Parece que o Bom Deus deseja confortar Seu servo fiel por mais um período de sossego contemplativo antes de uni-lo a Si definitivamente pela segunda provação horrorosa que vai ser para ele o campo de Dachau. De Scheveningen nada sabemos, a não ser que foi instaurado um novo processo. De Kleef sabemos pouco. O Diretor não é mau e o Capelão tem alguma influência sobre ele. Frei Tito pode guardar o Breviário, o terço, a caneta e algumas outras coisas. Viram-no, às vezes, rezando o Breviário ou escrevendo tranqüilamente. Aqui recebe ainda uma grande consolação. Há uma capela e nos domingos e nos deis dias de Pentecostes pode assistir à Missa e comungar. Depois de quatro meses de abstinência!

A alimentação é ainda mais deficiente do que no campo de Amersfoort: sopa de batata ou de couve para o almoço e algumas fatias de pão duro para o jantar. Duas vezes por semana um pouco de manteiga e aos domingos um pedaço de lingüiça. Camuflando a realidade, Frei Tito escreve: “Nunca estive com tanto apetite como atualmente”.

O abandono de tudo às mãos paternais de Deus não é um fatalismo inerte. Tito luta pela vida. Em Kleef dirige um requerimento às autoridades, expondo a nu a sua situação e pedindo o internamente num dos conventos da Ordem na Alemanha. Refere-se às suas cólicas estomacais, às insônias que ainda mais o enfraquecem. A memória começa à falhar assustadoramente. Durante dias esforçou-se para recordar o nome do filosofo francês Bérgson. Sintomas de alucinação se apresentam: freqüentemente parece ouvir o repicar de sinos. Jogando dama, o tabuleiro continua a atrapalhar-lhe a vista durante vários dias, dividindo tudo em quadrados. O menor esforço causa um cansaço mortal. O organismo intestinal está numa debilidade extrema, com todas as conseqüências humilhantes. O requerimento traz a data de 12 de junho de 1942.

O cálice porém, não passa. Frei Tito é deportado para o campo de Dachau logo no dia seguinte, ao que parece. Dachau... o inferno nazista, onde campeiam a mais crua bestialidade pagã e a espiritualidade da civilização cristã. Dachau... um produto da civilização nazista e comunista, onde os chefes nazistas e os algozes comunistas rivalizam no combate à cultura representada pelos sacerdotes. A apostasia da Europa atinge aqui o grau mais negro e mais baixo. Com as humilhações mais desumanas e vergonhosas, de requintes satânicos, os algozes atacam os sacerdotes e os pastores, querendo tirar-lhes as últimas reservas espirituais. Apenas conseguem torturar e arruinar os corpos, o espírito continua firme e inabalável em Deus.

Frei Tito chegou a Dachau no período mais brutal, que durou de abril até dezembro de 1942. Reinava uma disciplina de ferro, a arma dos impotentes. O dia começava às quatro horas. Até o apelo geral às 4,45 tinham tempo para arrumar a cama, etc., tomar café com um pedacinho de pão, se havia, e conversar um pouco. Tito entretinha-se então com o Irmão leigo Frei Rafael, Carmelita, preso desde o início da guerra e que depois da sua libertação descreveu a vida de Frei Tito em Dachau. Juntos iam diariamente a um barracão vizinho, onde estavam mais seis Carmelitas, estes da Polônia. Dois deles trabalhavam com Tito no mesmo comando de trabalho.

Logo depois do apito todo se dirigiam aos seus respectivos lugares de trabalho. Deviam marchar impecavelmente, cantando umas canções nazistas. Essa marcha de 20 minutos era um verdadeiro martírio para Tito, cujos pés apresentavam feridas de quatro a seis centímetros sempre abertas. Nos últimos dias os dois Carmelitas poloneses deviam arrastar a pobre vítima, que já não agüentava mais a marcha. Urna vez fora da vista dos guardas, deitavam-no no chão afim de que descansasse um pouco. E assim repetisse a marcha quatro vezes por dia. Voltavam do trabalho às onze horas, para o “almoço”: sopa de batata, de nabo ou de couve. Muitas vezes Tito tomava só a água e dava o resto a algum companheiro, dizendo: “Tome, Você está precisando mais do que eu!” Ao meio dia e quinze iniciava-se outra vez a via sacra para o trabalho. As sete horas estavam de volta no campo onde deviam reunir-se para o grande apelo. Alguns milhares de presos enfileiravam-se para essa cerimônia que por vezes era bastante demorada. Vários não resistiam e desmaiavam. Quando alguns impacientemente perguntavam: “afinal por que é que estamos esperando aqui?”, Tito respondia fleumaticamente: “bem, esperemos mais um pouco, temos tempo para isso”.

Freqüentemente havia depois desse apelo ainda um exercício especial para os sacerdotes que, por castigo, deviam marchar mais um pouco, cantando os hinos nazistas. Em seguida podiam tomar o jantar: -um pouco de pão molhado. Esse pão era uma questão de vida e de morte para os presos sempre famintos e exaustos em conseqüência dos pesados trabalhos de quase doze horas, além das marchas. Conscienciosamente o pão era dividido em quatro partes, que em seguida ainda eram rigorosamente conferidas. Qualquer falha era escrupulosamente corrigida. Às oito e meia o silêncio da noite descia sobre o campo e o asno fazia esquecer por algumas horas a miséria e a fome.

Algumas semanas deste regime bastaram para aniquilar a resistência de Frei Tito. Todos tinham compaixão dele menos os algozes, que de preferência o escolhiam para objeto das suas demonstrações de zelo e de força. Frei Tito foi muito maltratado, mais do que os outros.

Certa manhã foi dado o sinal para abandonar o barracão. Já fora, Frei Tito percebeu que se tinha esquecido dos óculos. Queria voltar, mas os companheiros o impediram. O guarda comunista, armado dum pau, postara-se à entrada, para apressar um pouco os atrasados ou acolher carinhosamente aqueles que tentassem retornar ao barracão. Depois de alguns minutos ele se retira para o seu quartinho ao lado da entrada. Tito aproveita o ensejo e já se encontra na sala antes que os outros o possam impedir. Rapidamente apanha os óculos e já se prepara para sair. Mas o guarda, percebendo alguma coisa, talvez algum ruído, vira-se e vê Tito. “O que há, Brandsma?”, pergunta ele, levantando-se e empunhando o pau. “Tinha-me esquecido dos óculos”, responde Tito, e ao mesmo tempo tenta passar, ligeiramente pela entrada. Um soco brutal na cabeça prostra-o por terra e pauladas impiedosas chovem sobre a pobre vítima. Saciado o seu sadismo o comunista volta para seu quartinho. Tito levanta-se, o sangue escorrendo do nariz e dos lábios e... sem os óculos, que haviam sido despedaçados logo com o primeiro soco. Calmo, sem perturbar-se por tão pouco, ele junta-se aos outros e passa a dar o ponto diário da meditação.

Depois do almoço os presos deviam limpar a sua panelinha e caneca de alumínio, que não podiam apresentar a mínima mancha. No entanto havia só cinco torneiras para uns quinhentos presos. Numa ocasião um dos brutos acha que a panelinha de Tito não está limpa. Num acesso de fúria arranca-lhe e com ela bate-lhe na cabeça e no rosto, correndo o sangue aos borbotões.

Repetidas vezes é prostrado no chão com socos e pauladas, ou jogado escadaria abaixo. Um dia a raiva de um dos guardas explode contra um grupo de presos, Tito torna-se a vítima; um soco o derruba, sendo em seguida maltratado de uma maneira horrorosa. Acontece então o incrível: a calma e a paciência do sofredor desarmam o algoz que, na presença de todos, balbucia uma desculpa.

Não obstante todos esses ataques contra a matéria mantinha-se firme o seu espírito. “Devemos dar graças a Deus”, costumava dizer “porque nos achou dignos de sofrer tudo isso; Ele há de sustentar-nos com o Seu auxílio”. Diariamente comunicava aos outros da plenitude de sua alma contemplativa, escolhendo um ponto de meditação da doutrina de Santa Teresa. Faziam essa meditação andando, pois os guardas não o podiam perceber. No seu zelo estendia o apostolado até ao chefe comunista do barracão, que era um católico renegado, mas não obteve resultado, pois quase sempre devia fugir apressadamente para não receber umas pauladas. Estava entre presos um sacerdote polonês, grande devoto de Nossa Senhora do Carmo e muito desejoso de ser recebido na Ordem Terceira. Já tinha começado o Noviciado quando fora transportado para Dachau. Receando não voltar vivo para a Polônia, a sua grande aspiração era fazer a Profissão nas mãos de Frei Tito. Depois de umas “conferências” e uma novena a Nossa Senhora do Carmo, o sacerdote fez a sua profissão, recebendo o nome de João da Cruz. Frei Tito impôs-lhe as mãos, enquanto o neo-professo prometia completar mais tarde as cerimônias e fazer confirmar oficialmente a Profissão. Tudo isso foi feito em plena rua, no meio dos transeuntes, pois qualquer manifestação religiosa era rigorosamente punida.

Havia uma capela no campo de Dachau para os sacerdotes alemães. Aos outros presos, porém, era severamente proibido sequer estacionar na sua proximidade. Quantas vezes, na escuridão de manhã cedo, visitando os confrades poloneses no outro barracão, Frei Tito e Frei Rafael contemplavam com profunda saudade o bruxulear das velas do altar. Sentiam sede e fome de Deus, daquele que é a vida das almas. Fizeram então uma combinação: Se “Irmão”, disse Tito, “apesar de Você não ser sacerdote” podendo, traga-nos Nosso Senhor. Ninguém vai suspeitar de Você”. Frei Rafael foi falar com um dos sacerdotes alemães e os dois combinaram encontrar-se na escuridão logo depois do apelo, num determinado lugar, onde o sacerdote lhe entregaria de vez em quando uma Hóstia consagrada. Assim Rafael recebia freqüentemente o Santíssimo, guardado num pedacinho de papel ordinário. Entregava a hóstia a Frei Tito, que a dividia em duas partes. Uma parte era distribuída aos diversos sacerdotes e religiosos, a outra era conservada. Durante o dia Frei Rafael era o escolhido para guardar Nosso Senhor. Na hora de deitar este devolvia o precioso Tesouro a Frei Tito, que O escondia atrás do couro de um estojo de óculos. Desta maneira Nosso Senhor quis estar presente entre os Seus servos tão duramente provados, participando da sua miséria e confortando- os com o próprio Corpo e Sangue. Não, Nosso Senhor não abandona os Seus.

Certa vez, no controle dos pés ao deitar, os de Frei Tito foram taxados de não estarem bastante limpos. Vindo descalço do lavatório para o barracão um pouco de poeira ficara presa em baixo dos pés ainda umedecidos. Mas um nazista ou comunista não é capaz de compreender tal coisa. A situação era perigosa, pois contra o regulamento que proibia aos presos levar alguma coisa para o barracão, Frei Tito trazia de baixo do braço a caixinha de óculos com o Divino Prisioneiro. Com uma fúria selvagem o cabo comunista lança-se sobre o indefeso “criminoso”, derrubando-o com uma paulada violenta e descarregando uma saraivada de socos e ponta-pés pelo corpo já tantas vezes espancado. Rolando pelo chão, rastejando, a pobre vítima tenta alcançar o barracão, o que finalmente consegue. Frei Rafael Tijhuis o toma nos braços e o leva para a cama. Quer consolá-lo, mas Frei, Tito olhando-o com um sorriso nos lábios, diz: “Irmão não foi nada pois eu sabia quem estava comigo”, e aponta o estojo, firmemente guardado debaixo do braço. “Vamos rezar um Adoro Te”. Depois de alguns momentos de adoração, Frei Tito dá a bênção com o Santíssimo escondido num humilde estojo. No dia seguinte, a uma pergunta de Frei Rafael, responde que não dormiu mais desde as duas horas, mas se sente feliz por ter podido fazer uma vigilância com Nosso Senhor.

Os maus tratos e o trabalho pesado na fazenda “Liebhof” (jardim de amor!) liquidaram a última resistência do corpo de Frei Tito, que enfraquecia dia a dia, mal podendo conservar-se em pé. Não queria saber de recolher-se ao hospital, pois receava os terríveis transportes para as câmaras de gás. Mas no barracão é que não podia continuar. A sua fraqueza provocava constantemente conflitos com o cabo comunista, que sempre terminavam em pauladas. Um dia Frei Rafael dirigiu-se ao posto de saúde para o tratamento de algumas feridas infeccionadas. Lá conseguiu falar com o chefe que não era mau. Tudo ficou acertado, Frei Tito devia apresentar-se no dia seguinte. O chefe ai arranjar um lugar para ele. Assim conseguiu finalmente ser internado. Mas já era tarde demais. Durante os oito dias que passou no hospital ainda recebeu algumas vezes a Santa Comunhão, graças à dedicação de um enfermeiro, excelente católico e antigo secretário particular do chanceler Bruening que, com risco da própria vida distribuía a Comunhão aos doentes. Um sacerdote que por vezes conseguia entrar no hospital garantiu que Frei T'to ainda, recebeu a Ex-trema Unção. Nos últimos três dias esteve continuamente desacordado. Chegara o fim da sua paixão. No dia 26 de julho, festa de Sant'Ana. Protetora da Ordem Carmelitana, Frei Tito entregou sua bela e heróica alma nas mãos de Deus.

Os pagãos queimaram seu corpo, mas sua alma já atingira o Fim da via mística: Deus.

Imagens do Retiro Provincial da Ordem Terceira do Carmo -Todos os Sodalícios da Província Carmelitana de Santo Elias- De 08-10 de novembro-2019 em São José dos Campos, São Paulo.

O Frei Petrônio de Miranda, O. Carm- Direto de São José dos Campos/SP, fala sobre a Regra do Carmo e a Ressurreição a partir do Evangelho deste 32º Domingo do Tempo Comum. (Lc 20, 27-38).  Convento do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro. 10 de novembro 2019.

Venerável Ordem Terceira do Carmo

Retiro Provincial, São José dos Campos, São Paulo.

De 08-10 de novembro-2019.

Tema: Viver a Fraternidade em Obséquio de Jesus Cristo.

Pregador: Frei Petrônio de Miranda, O. Carm. Delegado Provincial

Objetivo específico

         O objetivo não é sair da rotina diária, mas sim entrar nela com mais empenho, garra e compromisso. É viver mais intensa e mais conscientemente aquilo que a espiritualidade carmelitana propõe como ideal de vida. Isto tem três aspectos:

Transfiguração.

O retiro deve tornar transparente (transfigurar) o dia-a-dia da nossa vida como carmelitas terceiros. A experiência do retiro deve purificar o olhar e revelar uma nova dimensão desta vida. Fazer olhar o presente com outros olhos. Na expressão do Beato Frei Tito Brandsma, mártir carmelita, “É olhar o mundo com Deus no fundo”.

         Um retiro não é um curso. Um retiro não tem como objetivo ensinar ou fazer saber algo. Mas sim fazer experimentar algo-rezar, parar, refletir. Sentir Deus e viver Deus a exemplo do Profeta Elias na gruta: “Vivo é o Senhor em cuja presença estou!” 1Reis 17,1 e “Eu me consumo de zelo pelo Senhor, o Deus dos Exércitos!”.

         Para que o retiro possa alcançar este objetivo é necessário que ele tenha uma dinâmica própria, tirada da Regra e da Tradição da Família Carmelitana. Trata-se de aprofundar a maneira carmelitana de viver o Evangelho, de “viver a fraternidade em obséquio de Jesus Cristo”.

         Há muitas maneiras de se percorrer este itinerário. Há muitas escolas de espiritualidade. No nosso retiro procura-se percorrer este itinerário segundo a maneira que é própria e característica da espiritualidade carmelitana. O esboço deste itinerário aparece na vida dos santos e santas do Carmelo, nos escritos dos autores espirituais carmelitanos e na tradição das práticas espirituais da nossa família. Aparece sobretudo na vida do profeta Elias, cujo testemunho e exemplo inspirou a espiritualidade carmelitana desde o seu começo.

         A Regra do Carmo recomenda, por bem oito vezes, de maneira explicita, que o carmelita ou a carmelita medite e ore a Palavra de Deus, em particular e em comum. Ela pede que a Palavra habite abundamente na boca e no coração, a ponto de produzir pensamentos santos e de envolver a pessoa em tudo que faz. Tudo deve ser feito na Palavra de Deus. Onde a Palavra de Deus é acolhida, ela produz como resposta a oração que orienta e sustenta no itinerário em direção a Deus.

         Quando uma pessoa decide responder ao apelo da Palavra de Deus, ela inicia uma longa caminhada sem retorno. Na mesma medida em que ela vai em busca de Deus, este mesmo Deus já se faz presente na vida dela. O efeito da chegada de Deus é a escuridão. A pessoa faz a experiência do deserto, do esvaziar-se. É o caminho da Subida do Monte Carmelo e da Noite Escura. A luz escura da contemplação! Aquilo que empurra e sustenta a pessoa neste itinerário para Deus é a oração.

         Por tudo isso, o retiro terá que ser antes de tudo e em primeiro lugar uma experiência concreta de oração; uma oficina onde se aprende a rezar, onde a pessoa se apropria de um método de oração, o método carmelitano. O método de oração próprio do Carmelo é simples e atrevido: tende diretamente à intimidade com Deus.

Quando no Carmelo se fala em perfeição, entende-se a união da alma com Deus e esta jamais é proposta com limites nem medida alguma. Para alcançar o estado de união com Deus é preciso caminhar na presença de Deus. O retiro terá que ser um tempo em que se dê uma atenção quase exclusiva à prática da oração de tal modo que leve a pessoa a viver continuamente na presença de Deus. Numa palavra, o retiro deve ser uma escola da leitura orante, da oração aspirativa e da oração comunitária.

         Os autores espirituais do Carmelo procuram definir este itinerário espiritual marcado pela oração e esclarecem suas etapas, para que os que nele se iniciam não se percam e saibam situar-se. Procuram ainda definir como a pessoa cresce na ora­ção e como a oração vai se modificando e se aprofundando na mesma medida em que a pessoa vai se adentrando neste caminho em direção a Deus. É destes autores espirituais que vamos tirar os elementos para definir as etapas e a dinâmica do retiro.

         Para que o retiro carmelitano tenha este caráter e alcance o objetivo proposto, é necessário que se crie um ambiente. Para que um rio alcance o mar, é necessário cavar um leito. O leito por onde corre o retiro não consiste em primeiro lugar em dar muitas conferências e longas meditações sobre o caminho espiritual, mas sim em colocar as pessoas no caminho, pedir que nele andem e dar algumas breves orientações de como andar nele. Elas mesmas vão ter que percorrer e experimentar as etapas do itinerário espirituais em direção a Deus.

         A caminhada em direção a Deus é muito exigente. Nem todos que começam chegam ao fim. Caminho cheio de riscos, crises e dificuldades! Por isso, os autores espirituais carmelitanos procuram orientar-nos, para que possamos passar pelas curvas perigosas da estrada e chegar sãos e salvos no porto do destino que é Deus, ele mesmo. Eles descrevem as várias etapas deste itinerário e os sintomas que as acompanham.

         São Joao da Cruz descreve este itinerário com imagens e símbolos. A primeira fase é a Subida do Monte Carmelo. A pessoa decide iniciar a caminhada em direção a Deus, deixando para trás o que não combina com este ideal. É a fase da meditação discursiva. A segunda fase é a purificação e a progres­siva iluminação, descrita tanto na Subida do Monte Carmelo como na Noite Escura. É a fase da contemplação. A terceira fase é a chegada no alto do Monte, na união com Deus, descrita na Chama de Amor Viva. Pelos seus conselhos, João da Cruz ajuda a pessoa a se situar no caminho, e a orienta na apreciação exata dos fenômenos que ela sente e descobre em si ao longo do caminho.

         No retiro carmelitano, vamos usar como pano de fundo a vida comunitária. A Leitura Orante da Bíblia deve ser a espinha dorsal do retiro. Deve haver uma orientação bem concreta em dois sentidos: no método de como fazer e nos textos bíblicos a serem usados. O assunto dos textos deve estar em consonância com os assuntos da caminhada a ser percorrida durante o nosso retiro provincial à luz das nossas experiências comunitárias nos diversos sodalícios.

 

Escola de silêncio

         O retiro deve ser também uma escola de silêncio. A Regra fala do silêncio como um dos meios para realizar o ideal do Carmelo. A prática do silêncio como exercício que ajuda a recolher a mente, a ter a atenção voltada para Deus, a ter uma atitude de escuta, a ter um olhar benevolente de contemplação.

*Frei Romualdo, O. Carm e Frei Carlos Mesters, Carm.  Adaptação para a Ordem Terceira do Carmo, Frei Petrônio de Miranda, O. Carm. 

 

O silêncio no Carmelo

Letra e música: Frei Petrônio de Miranda, O. Carm.

 

A simplicidade falou, o amor foi escutar, era a brisa do Carmelo, com o Profeta a contemplar.

1- Zelo zelatus sum, pro Domino Deo exercituum/ Eu me consumo de zelo, dia e de noite, pelo Senhor (bia)

2- No barulho da grande cidade, na agitação do metrô/ Quem caminha sem o silêncio, jamais encontra, o meu Senhor. (bis)

3-Tem gente que grita aqui, fala alto em todo lugar/ Esse não é o carmelita, aqui o silêncio veio habitar. (bis)

4-Deus não está surdo, não adianta jamais gritar/ Ele ouve a nossa prece, atende o clamor, do pobre a chorar. (bis)

5-No rádio e na tv, no jornal ou no celular/São palavras e mais palavras, e o vazio, sempre a reinar. (bis)

6- Com Teresa e Teresinha, eu quero silenciar/ Com Madalena de Pazzi, buscando essa paz, eu vou me encontrar. (bis)

Venerável Ordem Terceira do Carmo

Retiro Provincial, São José dos Campos, São Paulo.

De 08-10 de novembro-2019.

Tema: Viver a Fraternidade em Obséquio de Jesus Cristo.

 

Celebração Penitencial

 

Canto

Pecador, agora é tempo de pesar e de temor:
serve a Deus despreza o mundo, já não sejas pecador! (2X)

Neste tempo sacrossanto o pecado faz horror:
contemplando a cruz de Cristo, já não sejas pecador! (2X)

Vais pecando, vais pecando, vais de horror em mais horror:
Filho, acorda dessa morte, já não sejas pecador! (2X)

Passam meses, passam anos, sem que busques teu Senhor:
Como um dia para o outro, assim morre o pecador! (2X)

Pecador arrependido, pobrezinho pecador,
Vem, abraça-te contrito com teu Pai, teu Criador! (2X)

Compaixão, misericórdia vos pedimos, Redentor:
Pela Virgem, Mãe das dores, perdoai-nos, Deus de amor! (2X)

 

Leitura Bíblia (Lc 7, 36-50)

 

Meditação- Papa Francisco

“O Evangelho que ouvimos abre-nos um caminho de esperança e de conforto. É bom sentir sobre nós o mesmo olhar compassivo de Jesus, assim como o sentiu a mulher pecadora na casa do fariseu. Neste trecho repetem-se com frequência duas palavras: amor e juízo. Há o amor da mulher pecadora que se humilha diante do Senhor; mas ainda antes há o amor misericordioso de Jesus por ela, que a estimula a aproximar-se. O seu choro de arrependimento e de alegria lava os pés do Mestre, e os seus cabelos enxugam-nos com gratidão; os beijos são expressão do seu afecto puro; e o perfuma que deitou com abundância confirma quanto Ele é precioso aos seus olhos. Cada gesto desta mulher fala de amor e exprime o seu desejo de ter uma certeza inabalável na sua vida: ser perdoada. Esta certeza é uma boa certeza! E Jesus dá-lhe esta certeza: acolhendo-a demonstra-lhe o amor de Deus por ela, precisamente por ela, uma pecadora pública! O amor e o perdão são simultâneos: Deus perdoa-lhe muito, perdoa-lhe tudo, porque «amou muito» (Lc 7, 47); e ela adora Jesus porque sente que n’Ele há misericórdia e não condenação. Sente que Jesus a compreende com amor, a ela, que é uma pecadora. Graças a Jesus, Deus esquece os seus muitos pecados, não os recorda mais porque também isto é verdade: quando Deus perdoa, esquece. É grande o perdão de Deus! Agora para ela começa uma nova fase; renasceu no amor e numa vida nova”.

*HOMILIA DO PAPA FRANCISCO- Basílica Vaticana-Sexta-feira, 13 de Março de 2015

 

Salmo 50

 

Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia! *
Na imensidão de vosso amor, purificai-me!

Lavai-me todo inteiro do pecado, *
e apagai completamente a minha culpa!

Eu reconheço toda a minha iniquidade, *
o meu pecado está sempre à minha frente.
 Foi contra vós, só contra vós, que eu pequei, *
e pratiquei o que é mau aos vossos olhos!

Mostrais assim quanto sois justo na sentença, *
e quanto é reto o julgamento que fazeis.
Vede, Senhor, que eu nasci na iniquidade *
e pecador já minha mãe me concebeu.

Mas vós amais os corações que são sinceros, *
na intimidade me ensinais sabedoria.
Aspergi-me e serei puro do pecado, *
e mais branco do que a neve ficarei.

Fazei-me ouvir cantos de festa e de alegria, *
e exultarão estes meus ossos que esmagastes.
Desviai o vosso olhar dos meus pecados *
e apagai todas as minhas transgressões!

Criai em mim um coração que seja puro, *
dai-me de novo um espírito decidido.
Ó Senhor, não me afasteis de vossa face, *
nem retireis de mim o vosso Santo Espírito!

Dai-me de novo a alegria de ser salvo *
e confirmai-me com espírito generoso!
Ensinarei vosso caminho aos pecadores, *
e para vós se voltarão os transviados.

Da morte como pena, libertai-me, *
e minha língua exaltará vossa justiça!
Abri meus lábios, ó Senhor, para cantar, *
e minha boca anunciará vosso louvor!

Pois não são de vosso agrado os sacrifícios, *
e, se oferto um holocausto, o rejeitais.
Meu sacrifício é minha alma penitente, *
não desprezeis um coração arrependido!

Sede benigno com Sião, por vossa graça, *
reconstruí Jerusalém e os seus muros!
E aceitareis o verdadeiro sacrifício, *
os holocaustos e oblações em vosso altar!

 

Demos Glória a Deus Onipotente, e a seu filho

Jesus Cristo Senhor Nosso, demos Glória a Deus

Pai Onipotente, pelos séculos dos séculos. Amem.

*Meditação

“O salmo 50 é o salmo penitencial por excelência. Seu título recorda o pecado do rei Davi e seu conteúdo é o desafogo de um coração angustiado pela culpa e pelas consequências do pecado. Ele nos recorda a triste situação do homem pecador, a compulsão de seu arrependimento e a sua confiança inabalável em Deus misericordioso:“Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia! Na imensidão de vosso amor purificai-me!” (v.3)

Quantas vezes nós também, sob a luz de Deus, nos confrontamos com a verdade sobre nós mesmos? Somos capazes de portar um coração mesquinho, incapaz de acolher a Deus ou ao irmão, violento nos julgamentos, impaciente com o próximo, cego, distraído e relaxado em relação à Boa Nova do Evangelho. Deus conhece esta nossa miséria e nos pede somente a sinceridade e a coragem de confessarmos nossos pecados: “Mas vós amais os corações que são sinceros” (v. 8) “Meu sacrifício é minha alma penitente, não desprezeis um coração arrependido!”

*Dom Edney Gouvêa Mattoso, Bispo Diocesano de Nova Friburgo.

 

PRESIDENTE: CONFESSEMOS OS NOSSOS PECADOS!

TODOS: CONFESSO A DEUS TODO PODEROSO
E A VÓS, IRMÃOS E IRMÃS,
QUE PEQUEI MUITAS VEZES
POR PENSAMENTOS E PALAVRAS
ATOS E OMISSÕES,
POR MINHA CULPA, MINHA TÃO GRANDE CULPA
E PEÇO A VIRGEM MARIA, AOS ANJOS E SANTOS
E A VÓS, IRMÃOS E IRMÃS,
QUE ROGUEIS POR MIM A DEUS, NOSSO SENHOR.

 

Momento Comunitário Penitencial

(Lavar as mãos em gesto de purificação dos pecados)

 

Canto final

Obrigado, Senhor

 

Obrigado, Senhor, porque és meu amigo
Porque sempre comigo Tu estás a falar
No perfume das flores, na harmonia das cores
E no mar que murmura o Teu nome a rezar

 

Escondido Tu estás no verde das florestas
Nas aves em festa, no Sol a brilhar
Na sombra que abriga, na brisa amiga
Na fonte que corre ligeiro a cantar

 

Te agradeço ainda, porque na alegria
Ou na dor de cada dia, posso Te encontrar
Quando a dor me consome, murmuro o Teu nome
E mesmo sofrendo, eu posso cantar.

 

Final

Benção final.

Venerável Ordem Terceira do Carmo

Retiro Provincial, São José dos Campos, São Paulo.

De 08-10 de novembro-2019.

Tema: Viver a Fraternidade em Obséquio de Jesus Cristo.

Pregador: Frei Petrônio de Miranda, O. Carm. Delegado Provincial

Venha para o Carmelo.

Letra e música: Frei Petrônio de Miranda, O. Carm.

 

Venha, venha, venha, venha conhecer, entre pro Carmelo, aqui você crescer.

 

1-Não somos anjos, somos humanos, não somos santos, somos humanos. A nossa humanidade, vai te ajudar crescer, subir no Carmelo, desta fonte vai beber.

 

2- Com Teresinha, eu vou amar, com Tito Brandsma, eu vou falar. E com o Profeta Elias, eu vou profetizar, subir no Carmelo e na brisa contemplar.

 

3- Com Santo Nuno, eu vou rezar, com Santo Alberto, vou adorar. E com Izodoro Bakanja, o Escapulário vou usar, servir na comunidade, para o mundo transformar.

 

4- Com Simão Stock, vou confiar. Com João Soreth, vou renovar. E com Madalena de Pazzi, com Jesus eu vou encontrar, mudar a minha vida, para saber amar.

 

5-Com Edith Stein, vou escolher, com João da Cruz, eu vou viver. Com Teresa de Jesus, vou sempre caminhar, renovando a vida, para o Cristo encontrar 

 

6- Com Santo Ângelo, vou testemunhar. Com André Coursini, vou ajudar. Com Santo Eliseu, o manto vou pegar, no corre-corre da vida vou evangelizar.

 

7- Na Ordem primeira, eu vou chegar, na Ordem segunda, vou meditar. Na Ordem Terceira, vou evangelizar, este é o Carmelo, para todos há lugar.  

 

Texto-5

*A Fraternidade: Um desafio permanente para a vida Carmelitana (Texto Bíblico. JO 13, 34-35).

 

A fraternidade é um valor irrenunciável.

Buscando o fundamento de nossa vida fraterna em comunidade, parei meu olhar em Jesus.  Nós escolhemos ser “irmãs”, “irmãos”? Ou ser “irmãs”, “irmãos já é algo que faz parte do nosso ser, da nossa identidade?

Jesus nos disse: “Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisso reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros”. Jesus não nos deu um conselho, uma sugestão. Ele foi bem claro: dou-vos um mandamento. E não disse isso apenas para as religiosas, religiosos e padres. Ele colocou o mandamento do amor como exigência para ser seu discípulo, isto é, para ser cristão/cristã. O amor é, pois, exigência fundamental no cristianismo. E sabemos que Deus não nos pede coisas impossíveis, além das nossas forças.

Ao nos dar o mandamento do amor, Jesus nos pede que busquemos a nossa essência mais profunda. Filhas/filhos do Deus Amor, criadas/os à sua imagem e semelhança, somos feitos para o amor. “O ser humano aspira por amor verdadeiro; por um amor que não fira nem destrua, mas que vivifique e enobreça; que não controle e aprisione, mas liberte e abra um espaço para a vida” (Anselm Grun). O amor não é algo estranho ao nosso ser. E não há nada que possa preencher nossa vida de sentido e alegria fora do amor. Certamente que não se trata do amor puro sentimento que logo desaparece, mas o amor decisão em que se possa permanecer. Como Jesus nos pede: “permanecei no meu amor” (Jo 15, 19). Podemos, pois, fazer do amor o nosso lugar de morada. Só de pensar em morar no amor de Jesus, um profundo sentimento de bem-estar, de realização profunda surge em nosso íntimo. O amor deve ser o nosso modo de ser, de viver, de conviver, porque é parte de nossa essência.

 

Em Jesus encontramos o modelo para o exercício e a construção da Fraternidade.

Volto a fixar meu olhar em Jesus: “Eu quando for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32). Antes mesmo de abrir seus braços na cruz, Jesus atraía as pessoas de todos os tipos. Posso imaginá-lo tão acolhedor e aberto que ninguém tinha medo de se aproximar dele. Temos experiências assim, pessoas das quais gostamos de estar perto, porque sua simples presença nos faz sentir bem. Jesus é o próprio Amor, feito homem. Fico pensando naquelas mulheres, que enfrentaram as normas e as restrições de uma sociedade machista, dominada pela lei da pureza, e se aproximaram de Jesus. A mulher Cananéia, aquela que sofria de hemorragia (Lc 8, 43-48), a pecadora que ungiu os pés de Jesus (Lc 7, 36-50)... Todas elas sabiam que seriam acolhidas, que seriam atendidas em suas necessidades.  Jesus não só acolhe aquelas mulheres e as eleva em sua dignidade, ele convida a elas e a todas nós: “permaneçam no meu amor” (Jo 15, 19).

NINGUÉM TINHA MEDO DE SE APROXIMAR DE JESUS. Tal expressão nos faz pensar em nossas atitudes diante daqueles e daquelas que nos procuram, batem na porta do sodalício para ter uma palavra amiga, um gesto de amizade, ou, muitas vezes, solidariedade. Como agimos? Lembram da pecadora lavando os pés de Jesus ou do próprio Filho de Deus entrando na casa de Zaqueu, conversando com a samaritana e “apagando todos os pegados de Dimas? Eu disse- TODOS!

 

Perigos que desfiguram a beleza da vida fraterna.

No mundo em que vivemos inúmeros problemas afloram e se multiplicam a cada momento.  O ativismo, o individualismo, o comodismo, a competição, a falta de compromisso, de generosidade, o fechamento, a crise no relacionamento, o uso inadequado dos meios de comunicação, a fuga da vida fraterna e de oração, tudo isso gera consequences sérias para a vivência fraterna. Torna-se comum a perda de referência dos valores, a dificuldade de lidar com os próprios limites, a tendência à facilidade, à comodidade e, em meio a tudo isso, a fidelidade se revela como algo pesado demais, às vezes até insuportável. Estaria os nossos sodalícios imune a tudo isso? É evidente que não. 

Com frequência perdemos o ardor. Caímos na rotina dos atos comunitários do sodalício, praticamos uma oração formal e vazia; entregamo-nos à correria das atividades e compromissos de trabalho e, assim, nos esvaziamos, nos fragmentamos, perdendo o contato com a Fonte da Vida. Esquecemos uma Presença e afastamos nosso olhar d’Aquele que é o sentido das nossas atividades e compromissos. A vida se torna pesada, os relacionamentos interpessoais, que deveriam ser marcados pela ternura e gratuidade, ficam duros, cheios de cobranças e acusações. E isso entristece o nosso coração, nossa vida murcha.

A nossa presença enquanto consagrados na Ordem Terceira do Carmo perde o valor e a atração. É então que precisamos retomar o caminho, reacender a chama e redescobrir o encanto de nossa vida em suas várias faces. Precisamos parar; aquietar-nos e novamente voltar nosso olhar enamorado para Aquele a quem decidimos seguir e entregar a nossa vida.  Fixar nosso olhar n’Aquele a quem queremos, a cada dia de novo, dar o nosso coração.

 

Para reflexão pessoal

1-Estou no sodalício por amor a Jesus ou por devoção vazia e tradição morta?

(Devoção e tradição são valores positivos quando tem como centro Jesus e a sua mensagem de misericórdia, acolhimento e amor).

2- O que faço para que o meu sodalício seja uma comunidade de amor-dialogal e comprometido com o reino?   

3-A fraternidade, a vida de oração e a missão são elementos fundamentais no Carmelo. Percebo estes valores entre os meus irmãos de comunidade carmelita? Caso o contrário, como eu poderia ajudar neste objeto?

* Irmã Dazir da Rocha Campos-Congregação das Irmãs Carmelitas da Divina Providência. Adaptação para o sodalício, Frei Petrônio de Miranda, O. Carm

Venerável Ordem Terceira do Carmo

Retiro Provincial, São José dos Campos, São Paulo.

De 08-10 de novembro-2019.

Tema: Viver a Fraternidade em Obséquio de Jesus Cristo.

Pregador: Frei Petrônio de Miranda, O. Carm.

Delegado Provincial

 

Canto: Pelos Pecados, Erros Passados.

1-Pelos pecados, erros passados, por divisões na sua Igreja ó Jesus.  

Senhor piedade! Senhor piedade! Senhor piedade! piedade de nós (2x) 

 
2-Quem não te aceita, quem te rejeita, pode não crer por ver cristãos que vivem mal.  

Cristo piedade! Cristo piedade! Cristo piedade, piedade de nós  (2x)

  
3-Hoje se a vida, é tão ferida, deve-se a culpa e a indiferença dos cristãos!

 Senhor piedade! Senhor piedade! Senhor piedade! piedade de nós (2x)

 

Texto-4

Carmelo: Uma comunidade de reconciliação. Leitura Bíblica. (Mt 18, 21-35)

Frei Fernando Millán Romeral, O. Carm. Ex-Prior Geral.

 

A referência à comunidade apostólica não é exclusiva da regra. Todos os movimentos que desejam reforma foram de alguma forma inspirados pela comunidade de Jerusalém. Essa inspiração foi muito frequente no período histórico em que a regra é gerida (movimentos pauperistas, cátaros, valdenses, etc.). Essa referência é acentuada no primeiro grupo carmelita, devido à sua proximidade a Jerusalém e ao "fervor Jerosolimitano" das Cruzadas.

- No caso da Regra, a referência à comunidade apostólica está ligada à “arquitetura espiritual” do Templo criada por Ezequiel (Ez 40-48), da qual se conclui que a comunidade da Regra aparece como uma comunidade cênica. comunidade em torno da Eucaristia e a presença de Deus.

Como a comunidade de Jerusalém, a comunidade carmelita da Regra compartilha a mesa (convívio e eucaristia) e sente uma comunidade reconciliada e acolhida pelo Senhor. Segue um estilo de vida que dá grande importância à reconciliação que se torna um recurso contínuo dessa comunidade. Mas essa reconciliação (típica de uma comunidade crente, madura e sensível, em um processo contínuo de conversão) não exclui a correção, isto é, a verdade que é revelada com caridade e espírito positivo.

De fato,  embora não seja fácil estabelecer um vínculo direto entre os dois elementos, não se deve esquecer que o próprio Santo Alberto estava acostumado a reconciliar-se, a mediar disputas intra-eclesiais tão frequentes na época, em disputas entre cidades, entre apoiadores. do papa e do imperador, etc. Essa comunidade reconciliada se torna um sinal, um testemunho e uma semente de perdão e reconciliação.

Esse apostolado da reconciliação (como todo apostolado carmelita), não se baseia tanto nas armas espirituais, mas antes do valor de testemunho de uma comunidade reconciliada no Senhor. Modernamente, o valor "ecumênico" da figura de Elias também foi bastante enfatizado, uma figura reverenciada pelas três grandes religiões monoteístas.

Além disso, a comunidade de Jerusalém é a comunidade de Pentecostes, ou seja, a comunidade que espera e acolhe o Espírito Santo (Atos 2), que é mostrado como o Espírito de perdão (JO 20), como o Espírito que rompe barreiras e divisões, que Faz com que os seres humanos, mesmo que falem línguas diferentes ou venham de tradições diferentes, entendam as boas novas do Kerygma anunciado por Pedro em Jerusalém.

Finalmente, poderíamos perguntar se havia uma certa "cultura de paz" entre os carmelitas primitivos, mais impressionante se for possível, considerando que esse grupo, de alguma forma, veio de Evento de cruzadas. Portanto, a forma serena, dialógica e evangélica proposta pela Regra para resolver conflitos internos chama mais atenção. É uma reconciliação que nasce da mesma experiência de Deus, da Palavra que ilumina a experiência pessoal e comunitária e da mesa comum (do convívio fraterno e da Eucaristia que está no centro da experiência carmelita).

O elemento mariano: na comunidade de Jerusalém, que espera e acolhe o Espírito, foi Maria, Mãe de Jesus. A comunidade que serve de modelo inspirador para a Regra é uma comunidade em que Maria, a Mãe de Jesus, desempenha um papel importante. Como a comunidade dos discípulos de Jerusalém, a comunidade carmelita com Maria, nossa Mãe e Irmã, constantemente espera, perseverando em oração, a vinda do Espírito Santo, o Espírito de perdão e comunhão.

Como comunidade "mariana" (no sentido mais autêntico da expressão), a comunidade carmelita é orientada para o mistério da salvação (que para Paulo é "mistério da reconciliação"), pois Maria participa intensamente desse mistério e nos direciona para ele (Lumen Gentium VIII). Maria é para os carmelitas o livro de mistérios do mistério da reconciliação. Não pode haver verdadeira devoção mariana onde esse espírito de reconciliação e perdão não reine.

Contemplação e reconciliação são proporcionais. Somente aqueles que olham o mundo com olhos contemplativos podem trabalhar pela verdadeira reconciliação ... Se considerarmos a contemplação como o coração da Regra, ou se, pelo contrário, considerarmos que o coração dela é fraternidade, o elemento "reconciliação" tem em ambos os casos uma grande importância e uma certa centralidade. Como João no lago da Galileia, o Carmelita olha em volta e percebe a misteriosa presença de Deus (Ele é o Senhor ...). Isso energiza a Igreja (a comunidade de barcos), torna seu apostolado (pesca) frutífero e possibilita, finalmente, o banquete na praia, a congregação dos discípulos que abandonaram Jesus, a restauração da comunidade de mesa e comunhão.

No agitado século XX, dois grandes carmelitas refletiram de maneiras diferentes esse espírito de reconciliação e perdão e tornaram-se o que alguns autores chamam de "regras vividas". As duas biografias são encontradas indiretamente em 26 de julho de 1942, quando Tito Brandsma morre em Dachau e os bispos holandeses publicam uma nota dura contra o socialismo nacional. Em retaliação à referida carta, alguns dias depois, religiosos de origem judaica serão presos e deportados. Entre eles, você encontrará Edith Stein e sua irmã Rosa. Que 26 de julho de 1942, portanto, entrelaça os caminhos da vida daqueles que podem ter sido os maiores carmelitas do século XX e, na minha opinião, aqueles que poderiam ser considerados padrões da união espiritual da família dos Carmelitas.

 

Reflexão pessoal

1- O perdão está na essência da espiritualidade carmelitana. Ser da OTC e fechar o coração, é o mesmo que tentar subir e não chegar no cume do Monte Carmelo. Tenho me esforçado nesta dinâmica espiritual e humana?   

2- O que a espiritualidade carmelitana me ensina nesta busca e vivência do perdão ou é mais uma reza, devoção e obrigação religiosa vazia?    

 

 

Retiro Provincial, São José dos Campos, São Paulo.

De 08-10 de novembro-2019.

Tema: Viver a Fraternidade em Obséquio de Jesus Cristo.

Pregador: Frei Petrônio de Miranda, O. Carm. Delegado Provincial

 

Vou Evangelizar


1-Senhor, eu quero te agradecer,
De todos os dias a gente poder conversar.
Senhor, às vezes me ponho a chorar,
Só tu és a força que anima o meu caminhar.

Eu quero te dizer agora
Que eu já vou embora
Evangelizar (bis)

2-Senhor, eu vejo irmãos a sofrer,
E sei pela fé que pedes a todos amar.
Senhor, o mundo precisa entender,
Que só com amor a justiça sobreviverá.

 

Texto-3

Tema: A Missão da Comunidade (Texto Bíblico. Lc 4, 18-19)    

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          A missão não é uma tarefa que a comunidade pode executar, terminar e, depois, ficar livre dela. A missão é a natureza mesma da comunidade. Ela se expressa no novo estilo de vida que a comunidade assume. Toda nova experiência de Deus, quando de fato é verdadeira, traz mudanças profundas na maneira de viver e de conviver. A comuni­dade cristã ou é missionária ou não é comunidade cristã.

Através da descrição do início da missão de Jesus, Ele apresenta para as comunidades dos anos setenta os pontos principais que devem caracterizar a missão da comunidade cristã:

 

1- Criar comunidade.  (Mc 1,16-20)

A primeira coisa que Jesus faz é chamar discípulos para segui-lo. O primeiro objetivo da missão é congregar as pessoas em torno de Jesus. É criar comunidade.

            Ninguém deve aceitar o título de mestre, nem de pai, nem de guia, pois "um só é o mestre e todos vocês são irmãos" (Mt 23,8-10). A base da comunidade formadora não é o sa­ber, nem o poder, nem a hierarquia, mas sim à igualdade de todos como irmãos. É a fraternidade ou irmandade de todos ao redor do mesmo Mestre.

Hoje eu estou prior, formador, tesoureiro, secretário… amanhã eu serei um irmão ou irmã para servir a comunidade e evangelizer a partir das minhas capacidades. A função, ou a missão que eu assumo no sodalício não é um poder ou um privilégio, mas um serviço na comunidade e para a comunidade.     

A relação de poder e serviço é o ponto em que Jesus mais insiste. "Os reis das nações as dominam e os que as tiranizam são chamados bem­feitores. Entre vocês não seja assim" “Quem quiser ser o primeiro se­ja o último!”. Ele acrescenta ainda, "O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate para muitos".

 

2- Igualdade homem-mulher         

Jesus muda o relacionamento homem-mulher. Tira o privi­lé­gio do homem com relação à mulher. Não só os homens, também as mulheres “seguem” Jesus, desde a Galileia. Ele revela os seus segredos tanto aos homens como às mulheres. À Samaritana revelou que é o Messias. À Madalena apareceu por pri­meiro depois de ressuscitado e lhe deu à ordenação de anunciar a Boa Nova aos apóstolos.

O sodalício não privilegia homem ou mulher, todos tem a mesma Missão de testemunhar o Cristo vivo e ressuscitado no cotidiano.

 

3- Partilha dos bens

            Na comunidade que se formou ao redor de Jesus, ninguém tinha nada de próprio, mas havia uma caixa comum que era partilhada tam­bém com os pobres. Nas viagens o missionário devia confiar no povo que o acolhia. Ele dependia da par­tilha que recebia. Jesus elogiou a viúva que soube doar até do seu necessário (Mc 12, 41-44).

Os bens de um sodalício pode ser motivo de missão ou divisão. A história da nossa comunidade Carmelita é passado e presente. Devemos zelar dos nossos bens enquanto doação e Missão. Uma mesa administrativa passa, o sodalício permanece.

 

4-Poder de perdoar e reconciliar

            O poder de perdoar em nome de Deus foi dado a Pedro, aos apósto­los e às comunidades. O perdão de Deus passa pela comunidade, que deve ser um lu­gar de perdão e de reconciliação, e não de condenação mútua.

Ao fazermos nossa profissão através dos votos de pobreza, castidade e obediência, nos comprometemos com um grupo de pessoas reais que são fundamentalmente boas, mas imperfeitas. Somos convidados à amar nosso próximo, que é um ser humano de carne e osso com sentimentos, que nem sempre reage como esperamos. É fácil amar outro ser humano na teoria, mas é mais difícil fazê-lo na prática.

Existe um certo paralelo entre a vida de um sodalício e a vida matrimonial. Sabemos que se um casal não mantém um diálogo, pequenas coisas se tornarão problemas maiores ou o casal se separará. A mesma questão está em atividade numa comunidade religiosa.

Um irmão (a) que não consegue conviver com o outro pode tentar evitá-lo pedindo uma transferência, mas existem alguns irmãos (as) que viveram em diversos sodalícios e não estão felizes em lugar algum. Muitos nunca perguntam se o problema pode estar vindo deles.

O encontro comunitário é uma ferramenta essencial para o crescimento de um grupo de indivíduos numa comunidade. Às vezes, surgirão tensões nos encontros comunitários. Isso é muito natural e não é algo que devemos temer. Se os encontros comunitários são realizados freqüentemente, de acordo com o que está estabelecido na regra da OTC, isso dá aos membros do sodalício a oportunidade de manifestar seus ressentimentos. Isso diminui o nível de tensão. Se os encontros comunitários não acontecem regularmente, não há foro no qual levantar as questões normais que emergem em toda comunidade. Na ausência de encontros comunitários regulares, à informação será transmitida por meio de discussões nos corredores. Isso também pode levar à apatia o que não é saudável.

 

5- Alegria.  

            Jesus diz aos discípulos: "Felizes são vocês!", porque seus nomes estão es­critos no céu (Lc 10,20), seus olhos vêem a realização da promessa e o Reino é de vocês!

Estas são algumas das características da comunidade que nasceu ao redor de Jesus como amostra do Reino. Ela se tornou o modelo para a comunidade dos primeiros cristãos, descrita nos Atos dos Apóstolos e serve de modelo para todos nós! Este tipo de convivência humana é necessariamente formadora.

Na primeira Exortação Apostólica do Papa Francisco, Evangelii Gaudium ou Alegria do Evangelho, ele deixa claro que o verdadeiro seguidor do Cristo é uma pessoa alegre, não no sentido de festa-passageira, mas a alegria que nasce da esperança, da misericordia e da convivência comunitária. Assim diz o Papa: “Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa” (n. 6). Ele ainda acrescenta; “Um evangelizador não deveria ter constantemente uma cara de funeral” (n. 10).

*Textos; ASSEMBLÉIA DA PROVÍNCIA CARMELITANA DE SANTO ELIAS-2017 e Frei Carlos Mesters. Adaptação, Frei Petrônio de Miranda, O. Carm

 

Oração

Senhor Deus, na vossa imensa bondade suscitastes no coração dos primeiros carmelitas a iniciativa de criar a Família Carmelitana.

Como membros desta grande família, nosso maior desejo é viver em à Fraternidade em Obséquio de Jesus Cristo e praticar o que Ele nos ensinou sobre a oração, a fraternidade e o zelo profético.

Para nos ajudar na realização deste ideal, apontastes, desde o início, o duplo caminho da devoção à Virgem Maria e do exemplo do profeta Elias- Nosso Paia e Guia.

Nós vos agradecemos, porque, ao longo dos séculos, fizestes com que aquela pequena família, nascida há quase 800 anos lá no Monte Carmelo, mostrasse o seu vigor, crescendo e abrindo o seu carisma para todos.

Hoje, ela congrega, numa única família, homens e mulheres, religiosas, sacerdotes e leigos de quase todas as raças e línguas, nações e continentes.

Nós vos pedimos: que nossos Sodalícios sejam comunidades verdadeiras e Pequenos Carmelos, onde se cultiva a Vontade de Deus e onde o povo possa saborear a abundância dos teus frutos e matar sua sede de Deus, de fraternidade e de justiça.

Isto te pedimos por Jesus, teu Filho, que nos revelou a tua face, e pelo Espírito Santo que reza em nós e nos atrai para Ti que vives e reinas pelos séculos dos séculos.  Amém.

 

Venerável Ordem Terceira do Carmo

Retiro Provincial, São José dos Campos, São Paulo.

De 08-10 de novembro-2019.

Tema: Viver a Fraternidade em Obséquio de Jesus Cristo.

Pregador: Frei Petrônio de Miranda, O. Carm. Delegado Provincial

 

Texto-2

Ordem Terceira do Carmo: Comunidade de acolhimento e de cultivo da intimidade divina.

 

Santidade

Letra e música: Frei Petrônio de Miranda, O. Carm.

 

Santidade, não se encontra no altar, santidade, não se encontra na oração/ Santidade se encontra na humildade, na alegria, no amor e no perdão.

 

1-Eu fico triste, quando vejo na igreja, uma irmãzinha, nos seus olhos a chorar/ Quando eu pergunto, porque vive essa dor, ela responde, ninguém quer me escutar. (bis)  

 

2-Eu fico triste, quando vejo a multidão, ninguém confia, ninguém gosta de olhar/Vem ó meu Deus, transforma a nossa vida, o que será, desse povo a se odiar. (bis)

 

3-Não me pergunte, se gosto de oração, se os mandamentos, eu procuro meditar/ a minha vida, é que deve responder, não palavras, que pode me apresentar. (bis)

 

4-Eu fico triste, com esta fé digital, um mundo frio, sem abraço e sem olhar/ Vem ó meu Deus, mostra a tua compaixão, não deixes nunca, o carinho deletar. (bis

 

1º Texto Bíblico para iluminar a caminhada

Texto Bíblico. (Gn 18- 1-8).

             O projeto de vida da Regra do Carmo, no seu capítulo IX- A cela do prior esteja junto à entrada onde habitardes, para que seja ele o primeiro a acorrer aos que vierem a esse lugar; e depois proceda-se em tudo o que for necessário de acordo com o seu critério e disposições- delineia uma fraternidade aberta ao mundo num estilo de acolhimento carinhoso e disponibilidade total tendo como motivo bíblico inspirador a hospitalidade acolhedora de Abraão assentado junto à entrada da sua tenda (Gn 18,1-8; Hb 13,2).

            Os Sodalícios, ao menos aquelas que têm estruturas e meios adequados, poderiam estar abertas ao acolhimento de todos os que pretendem fazer experiência de oração, de escuta orante da Palavra, como diz a regra da OTC, Nº 44 - A fraternidade se reflete também em sinais externos. Cada leigo Carmelita é como uma centelha de amor fraterno lançada em direção ao jardim da vida: deve ser capaz de incendiar quem quer que se aproxime… - Ou seja, cada sodalício, deve ser um pequeno Carmelo, não no sentido geográfico, mas espiritual e fraterno.

Onde estamos e convivemos, as pessoas devem nos conhecer não pela quantidade de regras, devoções, ritos ou penitências, mas pela fraternidade e amorisidade uns para com os outros. Ainda na Regra da OTC do Carmo, Nº 44, encontramos uma bela explicação desta relação-comunitária; “A comunidade de leigos Carmelitas toma-se, deste modo, um centro de vida autenticamente humana, porque autenticamente cristã. Da experiência de se reconhecerem como irmãos e irmãs, nasce à exigência de envolver outros na fascinante aventura humano-divina da construção do Reino de Deus”. Ou seja, quanto mais nos aproximamos do sagrado, mas nos tornamos humanos e fraterno.

Quando, na madrugada de 02 de novembro de 1535, Teresa de Ávila saiu da casa paterna para ser monja Carmelita no carmelo da Encarnação, tal convento se encontrava em livre expansão demográfica, num processo de crescimento de mais de 30 professas em 1536, de 65 em 1545, de mais de 150 em 1562, até chegar inclusive a 180[1]. Contrariamente, as rendas comuns estavam em diminuição e eram mal administradas, tornando-se insuficientes para satisfazer a necessidade daquele mundo heterogênio e crescente. Como consequência, o mosteiro oferecia um espetáculo chocante: de um lado as monjas pobres, do refeitório e dormitório comum, que passavam fome, e de outro, as senhoras privilegiadas, que dispunham de recursos próprios e que viviam magnificamente em suas celas de aluguel vitalício, com capacidade para manter criadas, talvez alguma escrava, alojar parentes e com um estilo de vida exatamente igual ao secular.

Ao contrário do Carmelo da encarnação, temos a missão de cultivar uma profunda experiência com Deus em Jesus Cristo e com o nosso próximo mais próximo. Vamos pensar um pouquinho na palavra cultivar. Sabemos em que consiste cultivar uma horta, um pomar ou um jardim. Quem cuida de uma horta gasta tempo, fazendo coisas muito obvias para que as hortaliças tenham vida e cresçam: regar, tirar o mato, matar as pragas que estão destruindo as verduras. Mas, uma pessoa que ama sua horta ou jardim vai além. Ela descobre e inventa minúcias de cuidado. Contempla o desenvolvimento da planta, conhece cada detalhe que diferencia uma planta de outra e assim, esta pessoa se torna doutora na arte de cultivar.

Como realizamos a missão de cultivar uma profunda experiência de Deus em Jesus Cristo? Nós, Carmelitas, escolhemos ser especialistas na vida de intimidade com nosso Deus. Publicamos essa nossa escolha diante da Igreja e da sociedade através dos votos. Estamos nos ajudando à abrir espaços para que Ele mais e mais nos transforme e o nosso coração pulse forte só ao lembrarmo-nos sua presença amorosa continuamente conosco? 

Essas são perguntas essenciais. Viemos ao Carmelo para viver uma profunda entrega ao amor de Deus manifestado em Jesus Cristo em comunidade orante, fraterna e profética.  Este Deus, que é todo ternura, compaixão, misericordia e comunidade- Pai, Filho e Espirito Santo, irá transformando-nos nele, de tal modo, que também nós vamos adquirindo e expressando cada vez mais ternura, compaixão e misericordia através do nosso relacionamento com o nosso irmão e irmã de caminhada.

*Textos de; Pe. Salvador Ros García, OCD, Frei Carlos Mesters e irmã Dazir da Rocha Campos-Congregação das Irmãs Carmelitas da Divina Providência.

 

Para reflexão pessoal

1°-O meu sodalício é uma casa de acolhimento ou um alojamento?

2º- Cultivo a minha vocação no Carmelo ou estou deixando a vida me levar? 

3º - O que faço para acolher na minha caminhada carmelitana?

Venerável Ordem Terceira do Carmo

Retiro Provincial, São José dos Campos, São Paulo.

De 08-10 de novembro-2019.

Tema: Viver a Fraternidade em Obséquio de Jesus Cristo.

Pregador: Frei Petrônio de Miranda, O. Carm. Delegado Provincial

 

Texto-1

Tema: Não somos clube, somos comunidade.

 

O silêncio no Carmelo

Letra e música: Frei Petrônio de Miranda, O. Carm.

 

A simplicidade falou, o amor foi escutar, era a brisa do Carmelo, com o Profeta a contemplar.

 

1- Zelo zelatus sum, pro Domino Deo exercituum/ Eu me consumo de zelo, dia e de noite, pelo Senhor (bia)

 

2- No barulho da grande cidade, na agitação do metrô/ Quem caminha sem o silêncio, jamais encontra, o meu Senhor. (bis)

 

3-Tem gente que grita aqui, fala alto em todo lugar/ Esse não é o carmelita, aqui o silêncio veio habitar. (bis)

 

4-Deus não está surdo, não adianta jamais gritar/ Ele ouve a nossa prece, atende o clamor, do pobre a chorar. (bis)

 

5-No rádio e na tv, no jornal ou no celular/São palavras e mais palavras, e o vazio, sempre a reinar. (bis)

 

6- Com Teresa e Teresinha, eu quero silenciar/ Com Madalena de Pazzi, buscando essa paz, eu vou me encontrar. (bis)

 

1º Texto Bíblico para iluminar a caminhada

(Mt 18,15-20)

 

2-Olhar a história do Carmelo

           "Viver em obséquio de Jesus Cristo" é a expressão usada pela Regra do Carmo para indicar o nosso relacionamento com Jesus. "Seguir" era o termo que fazia parte do sistema educativo no tempo de Jesus. Indicava o relacionamento dos discípulos com o mestre. O relacionamento mestre-discípulo é diferente do relacionamento professor-aluno. Os alunos assistem às aulas do professor sobre uma determinada matéria, mas não convivem com ele. Os discípulos "seguem" o mestre e se formam na convivência com ele. O formador ou a formadora de postulantes, noviços e junioristas não é professor/a, mas sim mestre ou mestra.

            Nas origens do Carmelo não encontramos uma pessoa isolada como Fundador, mas sim uma comunidade. Ela está provavelmente vivendo uma certa evolução interna: de pessoas mais ou menos isoladas rumo a um grupo; pede ajuda e discernimento ao Patriarca de Jerusalém, Alberto, a fim de que (a nível não apenas jurídico, mas também teológico-espiritual) consolide e codifique o projeto de vida deles que a seguir, com o discernimento do Papa, adquirirá o status de Regra.

            Podemos, então, dizer que Fundadores do Carmelo foi aquela primeira comunidade de frades do Monte Carmelo, não outros. Eles devem permanecer o ponto de referência constante, original do carisma e da missão do Carmelo.

 

3-Uma história para ilustrar

Certa vez, notei que uma irmã de comunidade tinha desistido da caminhada no sodalício. Perguntei, você não quer mais ser carmelita? Ela respondeu; “sabe frei, eu trabalho pesado toda a semana para sustentar a minha família, a vida não é fácil na empresa, fui para Igreja com o objetivo de crescer espiritualmente e na amizade com todos. Depois de 8 meses no grupo fiquei decepcionada. Muita fofoca! Disputa por cargos... Tudo é motivo de disse-me disse. Pensei, basta! Quero isso não frei”.

 

4-Um Olhar para o Sodalício

Ninguém é perfeito e todos podemos causar problemas aos outros, mas existe uma situação realmente que complica uma comunidade quando a vida de todos gira em torno de uma única pessoa.

O caso clássico seria o de um alcoólatra no sodalício. Ninguém contesta o indivíduo sobre a bebida e não se enfrenta o problema. Nenhum encontro comunitário pode ser realizado na santa Paz porque os outros têm medo de como o indivíduo (a) reagirá e tudo é feito em nome da paz. Nesse caso, toda a comunidade está alcoolizada porque o problema de um domina e estabelece a ordem do dia de todo o sodalício. Aliás, já diz o provérbio popular, “Apenas uma laranja podre, estraga todas as outras”.

Acima de tudo, cabe ao prior e seu conselho intervir em tal situação para ter certeza de que tal indivíduo (a) possa obter o apoio de que necessita. Se o irmão (a) não aceitar ajuda, ao menos não devemos permitir que ele domine a vida do sodalício.

Cada um de nós precisa se examinar no tocante à nossa própria vida em comunidade na Ordem Terceira do Carmo. Deus usará as pequenas falhas de nossos irmãos e irmãs para nos purificar e usará nossas fraquezas para purificar toda a comunidade.

 

5-Perguntas para reflexão pessoal

1-A convivência conosco é agradável?

2-Somos egoístas ou realmente tentamos viver uma vida fraterna?

3-Estamos preparados para permitir que nossos irmãos desafiem e purifiquem o nosso modo de vida?

4-Não adianta sermos especialistas na Regra da Ordem Terceira do Carmo ou na espiritualidade carmelitana, se não tivermos o amor pelo nosso próximo.

5-Na prática, permito se corrigido ou sou uma pedra no caminho dos outros?

5- Porque muitas vezes julgamos o nosso irmão (a) do sodalício e preferimos contar aos outros, sem dizer a ele (a) diretamente sobre nosso julgamento! 

*ASSEMBLÉIA DA PROVÍNCIA CARMELITANA DE SANTO ELIAS. Convento do Carmo – São Paulo- JANEIRO 2007. (Adaptação para Ordem Terceira do Carmo por Frei Petrônio de Miranda, O. Carm. Convento do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro. 28 de agosto-2019)

No Dia de Santo Nuno De Santa Maria Álvares Pereira (1360-1431) os Freis; Petrônio e Donizetti e as irmãs da Ordem Terceira do Carmo da Lapa/RJ; Assunta e Anália, vão até o túmulo do Frei Nuno, O. Carm e Frei Bento, para prestar uma homenagem. Convento do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro. 6 de novembro-2019. www.instagram.com/freipetronio

O silêncio no Carmelo

Letra e música: Frei Petrônio de Miranda, O. Carm.

 

A simplicidade falou, o amor foi escutar, era a brisa do Carmelo, com o Profeta a contemplar.

 

1- Zelo zelatus sum, pro Domino Deo exercituum/ Eu me consumo de zelo, dia e de noite, pelo Senhor (bia)

 

2- No barulho da grande cidade, na agitação do metrô/ Quem caminha sem o silêncio, jamais encontra, o meu Senhor. (bis)

 

3-Tem gente que grita aqui, fala alto em todo lugar/ Esse não é o carmelita, aqui o silêncio veio habitar. (bis)

 

4-Deus não está surdo, não adianta jamais gritar/ Ele ouve a nossa prece, atende o clamor, do pobre a chorar. (bis)

 

5-No rádio e na tv, no jornal ou no celular/São palavras e mais palavras, e o vazio, sempre a reinar. (bis)

 

109 ANOS!... Os nossos parabéns e as nossas orações para a carmelita mais experiente da Província Carmelitana de Santo Elias, Maria Aparecida Pires Daher, de Angra dos Reis/RJ . Entrou na OTC em 1927. Parabénswww.olharjornalistico.com.br

RETIRO DA ORDEM TERCEIRA DO CARMO- Todos os Sodalícios da Província Carmelitana de Santo Elias: De 08-10 de novembro-2019 em São José dos Campos, São Paulo. www.olharjornalistico.com.br www.instagram.com/freipetronio

Ressurreição (1 Coríntios 15)

Letra e música: Frei Petrônio de Miranda, O. Carm.

 

1-Se não acreditamos na ressurreição, se ficamos na noite da- escuridão/ É vã, a nossa fé, é vã a nossa fé. (bis)

 

2-Se Ele foi condenado e a cruz venceu, se no Monte Calvário Ele- padeceu/ É vã, a nossa fé, é vã a nossa fé. (bis)

 

3-Se na cruz foi o fim quando Ele gritou, se o saldado com a lança- o derrotou / É vã, a nossa fé, é vã a nossa fé. (bis)

  

4-Se a sombra da morte o dominou, se botaram na tumba e não- mais voltou/ É vã, a nossa fé, é vã a nossa fé. (bis)

 

5-Se a morte venceu e o fim chegou, se no terceiro dia Ele- não voltou/ É vã, a nossa fé, é vã a nossa fé. (bis)

Pe. Salvador Ros García, OCD.

 

            Se perguntássemos a santa Teresa que experiência ela teve de vida comunitária, e como esta influenciou em sua vida espiritual, ela começaria, com quase certeza, respondendo-nos que não teve mestres, nem formadores, nem amigos que nela introduzissem: “Eu não encontrei mestre - digo confessor que me entendesse -, embora procurasse durante vinte anos, depois do que estou a dizer. Isto fez-me muito dano e voltar muitas vezes atrás e até de todo me perder” (V 4,7).  “Creio que se tivesse tido mestre ou pessoa que me avisasse para fugir das ocasiões...” (V 4,9). “Todo mal estava em não poder eu furtar-me de todas as ocasiões e nos confessores que ajudavam pouco (V 6,4). “Grande mal é ver-se sozinha uma alma entre tantos perigos (...) Porque para cair tinha muitos amigos que me ajudassem; mas para levantar-me via-me tão só que agora me espanto ao ver que nem sempre estava por terra, e louvo a misericórdia de Deus, pois só ele me estendia a mão” (V 7, 20-22).

            Como se vê, a lembrança da falta de um orientador é uma constante, semelhante a uma fibra solta e dolorida que pulsa no interior do seu relato biográfico. Essa carência foi real: se  observarmos  o resumo que ela própria faz de seu noviciado e da comunidade da Encarnação, nos damos conta que não menciona, em nenhum momento,  o nome de uma mestra ou de uma priora que lhe tenha marcado significadamente. Somente recorda-se de uma amiga passageira e ninguém mais (cf. V 3,2; 4,1): nem os amigos que a acompanharam, nem sequer um sacerdote dentre os mais de 15 confessores que frequentaram o Mosteiro da Encarnação e que a ajudaram. Isso durou quase 20 anos (dos 20 aos 39 de idade) até que, por fim, aparece alguem disposto a estender-lhe a mão. É Francisco de Salcedo, um leigo, ao que chama “o cavaleiro santo”, e de quem exclama emocionada e agradecida: “que grande coisa é entender uma alma”

            Apesar disso, o panorama não foi tão obscuro como parece. Ela mesma revela, em seguida, uma confidência surpreendente: “uma coisa posso dizer com verdade: Sua majestade (Deus) foi sempre meu mestre. Seja Ele bendito! Muita confusão é para mim poder dizer isto com verdade” (V 12,6). Disse isso em meio ao que é mais amargoso do relato da sua experiência de solidão e carência, em um constraste tão chamativo que se torna intencional, justamente para acentuar ainda mais este segundo plano que é a fonte de seu carisma e de seu magistério.

 

A experiência na encarnação (1535-1562)

             Quando, na madrugada de 02 de novembro de 1535, Teresa saiu da casa paterna para ser monja no Convento da Encarnação, “onde estava aquela minha amiga” (V 4,1), tal convento se encontrava em livre expansão demográfica, num processo de crescimento de mais de 30 professas em 1536, de 65 em 1545, de mais de 150 em 1562, até chegar inclusive a 180[1]. Contrariamente, as rendas comuns estavam em diminuição e eram mal administradas, tornando-se insuficientes para satisfazer a necessidade daquele mundo heterogênio e crescente. Como consequência, o mosteiro oferecia um espetáculo chocante: de um lado as monjas pobres, do refeitório e dormitório comum, que passavam fome, e de outro, as senhoras privilegiadas, que dispunham de recursos próprios e que viviam magnificamente em suas celas de aluguel vitalício, com capacidade para manter criadas, talvez alguma escrava, alojar parentes e com um estilo de vida exatamente igual ao secular[2].

            Diante de tal situação de pobreza comunitária, em contraste com a riqueza individual de algumas, uma alternativa encontrada era a de amenizar a superpopulação do mosteiro através de saídas frequentes, às vezes de longa duração, motivada por aparente mendicância, por imperativos de gratidão ou expectativas de ajuda que não sempre se cumpriam. Isto era possível porque no Convento da Encarnação “não se prometia clausura” (V 4,5). Consequentemente, a dependência afetiva gravitava mais em torno da vida extra-conventual, o que tornava impossível a vida comunitária intra-conventual. De fato, as próprias constituições do mosteiro manifestam também estas mesmas carências, comuns à mentalidade da época: não se tinha em conta o número de monjas nem os critérios de idoneidade para a vida comum; a oração mental não se apresentava como ato da comunidade; não existia a recreação comunitária nem se prescreviam outros encontros para o diálogo fraterno[3].

            Obrigada ou de boa vontade, Teresa se viu envolvida nesse ambiente e viveu esta realidade: passou longos momentos no locutório a falar com algum cavaleiro da aristocracia local (V 7,7); esteve fora do mosteiro durante a prolongada e aguda enfermidade que a deixou paralítica aos seus 25 anos, e que a fez acorrer à curandeira famosa de Becedas, por-se em contato com o sacerdote enfeitiçado, convencer-se da miséria da medicina de seu tempo e de que podiam mais os terapeutas do céu, em especial o valoroso São José (V 6,5-8). Falecido o seu pai em 1543, Teresa teve que tomar conta de sua irmã Joana, que residiu com ela até seu casamento; foram frequentes as estadas na casa de seu tio Francisco Alvarez de Cepeda; fez com Joana uma peregrinação votiva a Guadalupe, com desvios bem aproveitados; esteve anos e anos com sua amiga íntima dona Guiomar de Ulloa; teve que ir a Toledo, por ordens do Provincial para consolar a aristocrata viúva dona Luisa de la Cerda (V 34-35). Com tudo, deve-se dizer que tais saídas tornaram-se proveitosas, pois graças a elas pôde entrar em contato com ideias e personagens decisivos: São Pedro de Alcântara, São Francisco de Borja, etc.

            Seus encontros, fruto das saídas do convento, somados a sua sensibilidade às correntes reformistas, possibilitaram a gestação e o nascimento da ideia reformadora (cf. V 32,10). Todavia, não se deve esquecer que foi do Carmelo da Encarnação que veio a inspiração aos textos institucionais primitivos, bem como as próprias monjas que alimentaram as primeiras fundações descalças. Mesmo assim, essa herança ou elementos de continuidade não podem encobrir os muitos outros aspectos transcendentais que dotaram o projeto teresiano de um espírito novo e inconciliável com o vivido na encarnação – espírito e mosteiro que, sem dúvida, traumatizaram Teresa, apesar das contínuas desculpas que demonstra sem cessar (cf. V 37,9-10).

O ideal reformador (1562-1567)

             No começo, o projeto teresiano carecia de um programa inicial concreto. Parece que, inicialmente, dois foram os motores propulsores: a simpatia com os movimentos reformistas, de observância frente aos conventuais (V 32,10), e o incômodo gerado pelo estilo de vida generalizado na Encarnação, “que eu já não sabia como viver quando aqui me meti” (V 37,9-10). Isso porque, ainda que se falasse do slogan reformista de volta às origens, chama a atenção que o ponto de referência, a assim chamada Regra Primitiva, tenha sido descoberta por Teresa quando se achava em Toledo, e a edificação do modesto edifício de São José em Ávila, já iniciada (V 35, 1-2; 36, 26). Tampouco se sabe exatamente quando apareceu no horizonte teresiano a outra integrante substancial: a imagem triste e deformada dos “luteranos”. Quando ela reflete sobre o assunto, anos mais tarde, mistura tempos e elementos de um projeto impreciso, que iria se materializando pouco a pouco, por sua própria dinâmica interna e a imposição de circunstâncias externas, em um todo homogênio, especialmente sensibilizada e convencida de que no trabalho eclesial podia ser mais eficaz a batalha silenciosa de mulheres orantes que os gigantescos e ideológicos exércitos armados de Felipe II, de cujo fracasso seria ela, precisamente, uma previsora perspicaz (cf. CP  3,1-2).

            Porém, o que sabemos com certeza é que, em torno a ela se fora formando um grupo de pessoas espirituais, impactadas com sua experiência e sua palavra. Primeiro foi um pequeno grupo de amigos, “os cinco que no presente nos amamos em Cristo” (V 16,6-7). Teresa, ao lhes falar de sua oração, da ação de Deus, se conectava com o mais profundo de cada um deles e despertava forças escondidas. Um deles, o dominicano Pedro Ibáñez, atestou: “É tão grande o aproveitamento de sua alma, nestas coisas, e a boa edificação que dá com o seu exemplo, que mais de quarenta monjas cuidam, em sua casa [no Mosteiro da Encarnação], de grande recolhimento... E digo, por certo, que tem feito proveito a muitas pessoas, e eu sou uma delas” [4].

            Daí que, ao fundar sua primeira comunidade, o Convento de São José de Ávila, Teresa tenha começado estabelecendo algo que naquela época tornava-se arriscado, uma novidade perigosa: a comunicação espiritual em grupo. Reuniam-se para “poder falar de Deus” (com Ele e d’Ele), ou seja, para orar e comunicar-se.  Uma comunidade orante, porém não somente de recitação orante, mas de persuasão à experiência, pois esta, semelhante à caridade, cresce ao ser comunicada (V 7, 22; 17, 5). Isso, naqueles tempos difíceis, naquele ambiente inquisitorial de suspeita institucionalizada (V 33,5), era realmente perigoso, pois havia se estabelecido um estado de opinião que associava quase instintivamente o círculo de mulheres espirituais com o fenômeno dos iluminados e com a heresia luterana.

            Apesar disso, Teresa propunha essa experiência a suas monjas no Caminho de Perfeição: “Por isso, filhas, procurai que todas as pessoas com quem tratardes –se estiverem bem dispostas e vos tiverem alguma amizade – percam o receio de buscar tão grande bem [a oração]; e por amor de Deus vos peço: nas vossas conversações tende sempre em vista o proveito dos que vos falam, pois vossa oração há de visar o bem das almas. Já que o haveis de pedir sempre ao Senhor, não ficaria bem, irmãs, senão o procurásseis por todos os modos (...) Pode acontecer que seja necessário dispor o ânimo de vosso parente, ou irmão, ou pessoa conhecida, mediante essas frases e expressões de afeto, sempre agradáveis à natureza. Assim vos darão ouvidos e aceitarão uma verdade. Não raro uma boa palavra – como dizem – dá mais resultado que muitas de Deus e abre o caminho a estas (...) Todos sabem que sois religiosas e que tendes vida de oração. Não se passe pela ideia dizer: “não quero  que me tenham em boa conta”. Em honra ou descrédito para a comunidade, redundará aquilo que virem em vós. E mal é que pessoas tão obrigadas a falar senão em Deus, como as monjas, tenham por lícito usar de dissimulação em tais circunstâncias, a não ser alguma vez para conseguir maior bem. Este é o vosso trato e modo de falar. Quem quiser ter relações convosco , aprenda-o (...) Se vos julgarem grosseiras, pouco perdereis! Se hipócritas, ainda menos. Saireis ganhando, porque não virá procurar-vos senão quem souber a vossa língua (...) Se os que falarem convosco quiserem aprender vossa linguagem, contai-lhes as riquezas que se ganham em aprendê-las. Disto não vos canseis. Insisti com piedade e amor, fazendo também oração, para que lhes seja proveitoso; e já que não tendes missão de ensinar, entendendo eles o grande lucro deste caminho, procurem mestre que os instrua.  Não seria pequena mercê, se o Senhor vos desse graça para despertar em alguma alma o desejo deste bem (CP.V 20, 3-6).

            Já antes, no brevíssimo texto das Constituições que ela escreveu para sua primeira comunidade, e que o Pe. Rubeo aprovou em abril de 1567, havia-o formulado também deste modo: “Uma vez ao mês, todas as irmãs prestem contas, à priora, de como aproveitaram a oração e como Nosso Senhor as conduz; pois sua majestade lhe dará luz para que as guie, caso não vão bem; e fazer isso é útil para a prática da humildade e mortificação e para muito aproveitamento” (Const 41). Convém recordar que quando Teresa escreve isso, a priora da comunidade é ela; portanto, o referido texto é simples codificação do que toda a comunidade praticava sob sua direção[5].

            Por outra parte, o projeto teresiano – aquele círculo de mulheres orantes –  estava cheio de sinais inovadores e de clamoroso protesto. Representava, em primeiro lugar, um desafio contra o ambiente marginalizador das mulheres, consideradas então como um estorvo, como um mal necessário, e que, apesar disso, eram mais adiantadas que os homens nos caminhos do espírito, com havia dito Frei Pedro de Alcântara à Teresa, que o cita favoravelmente para afirmar sua convicção pessoal (cf. V 40,8); e isso em uma Igreja necessitada de tudo e em tempos em que não se podia dar ao luxo “de desprezar ânimos virtuosos e fortes, ainda que de mulheres” (CP.E 4,1)[6]. Em segundo lugar, o novo estilo de vida implantado no Convento de São José era também um desafio aos convencionalismos sociais da mentirosa honra, encobridora de outros interesses, identificada com as conotações de linhagem e da pureza de sangue – protesto teresiano que se materializou com a absoluta igualdade e trato de suas monjas (CP.V 4,7), a extirpação de títulos e preferências (CP.V 7,10), “pois aquela que for de família mais nobre, seja a que menos tenha na boca o nome do pai” (CP.V 27,6), e com o trabalho manual por norma e sem exceções (Const 22).

            Este novo estilo de vida comunitária de São José de Ávila, em um convento menor e acolhedor, frente ao enorme e impessoal da Encarnação, de ambiente de oração e de vida alegre, sem as tensões e ressentimentos sociais do anterior, impactou de tal maneira o geral Rubeo, quando o visitou em abril de 1567, que “alegrou-se de ver a maneira de viver” (F 2,3), “e com a vontade que tinha de que fosse mais adiante o que tinha começado, deu-me completa autorização para que se fizessem novos mosteiros” (F 2,3); além disso, aprovou as constituições que ela mesma lhe apresentou e nas que figuravam as seguintes características: uma comunidade pequena, seleta e culturalmente bem formada (n.8)[7], “integradas por pessoas de oração e bom entendimento” (n. 1-2;21;42), exercitada nas virtudes teologais (n. 40), de trabalho e austeridade (n. 9-13;22;24), em um clima de liberdade (n. 7;17), de fraternidade (n. 21-23;28-29), de recreação (n. 26-28) e comunicação espiritual (n. 7; 40-41), de estrita igualdade, sem privilégios nem discriminações por diferenças sociais ou questões de dotes (n. 21-22;30). Finalmente, um estilo que poderia resumir-se em sua palavra de ordem predileta: “perfeição com suavidade” (V 36,29; 11,16; Carta a Isabel de Santo Domingo, 12 de maio de 1575, 3)[8].

 

“Nosso estilo de irmandade e recreação” (1568-1582)

             O conteúdo desta típica expressão teresiana é o que também ela quis inculcar a Frei João da Cruz, seu jovem candidato, ainda estudante e tentado a fugir para a cartuxa, quando o levou consigo à fundação de Valladolid, no verão de 1568, e o introduziu na vida de comunidade,  naqueles dias sem clausura em que se preparava a casa, a fim de que aprendesse “ sobre o nosso modo de proceder, para que ele entendesse bem tudo quanto se referia à mortificação, ao estilo de nossa irmandade e à recreação em comum. Porque fazemos tudo com tal moderação que a recreação serve apenas para que as irmãs reconheçam suas falhas e tenham um pouco de alívio para suportar o rigor da Regra” (F 13,5).

            Talvez convenha aclarar que “entender as faltas das irmãs”, nas recreações, não quer dizer observar imperfeições, mas sim carências, ou seja, as necessidades das irmãs[9]. E, para isso, precisamente, era útil a recreação comunitária, novidade teresiana que não existia no Mosteiro da Encarnação, e que ela introduziu em dois momentos diários, depois do almoço e depois das completas e oração (Const. 26-28), e para o qual não duvidou em modificar a Regra, atenuando a prescrição do silêncio durante o dia e atrasando o tempo de “silêncio maior” (Const. 7 e 28; carta a Maria de São José, 8 de novembro de 1581,20)[10].

            Ainda assim, convém advertir também que o termo “mortificação”, no léxico teresiano, não equivale a penitências e asperezas externas, mas à oração e virtudes, como ela mesma deixou bem claro quando teve que explicar as razões de sua oposição a reformar mosteiros alheios:  “Acerca do mosteiro da condessa, não sei que dizer, porque embora há muito se fale nisso, confesso a Vossa Senhoria: antes quisera fundar, desde o começo, quatro dos nossos de monjas, porque em quinze dias fica assentado nosso modo de viver, e as que entram não fazem mais do que seguir o que veem nas que já estão. É mais fácil do que adaptar essas benditas, por santas que sejam, à nossa maneira de proceder. Falei a duas em Toledo; vejo que são boas, e, no seu gênero de vida, vão indo bem; além disso, asseguro, não sei como me atreveria a tomá-las a meu cargo, porque me parece vão mais por via de aspereza e penitências que por mortificação e oração” (Carta a Dom Antônio de Bragança, 02 de janeiro de 1575,8)[11]

            Assim, frente ao isolamento e o rigor medievais da cartuxa, que buscava Frei João, Teresa quis inculcar a seu candidato um modelo de vida comunitária resumido em um moderno estilo de irmandade, de recreação e comunicação: “Ele era tão bom que mais podia eu aprender com ele do que ele aprender comigo. Minha intenção, porém, não era essa e sim mostrar-lhe a maneira de proceder das irmãs” (F 13,5). Um estilo que implica três elementos: a) as coisas referentes à mortificação (vida teologal); irmandade e recreação (vida fraterna em um ambiente propício à essa oração tão sua, não só de recitação orante, mas sim de indução à experiência, ou seja, para orar e comunicar-se); d) e tudo com moderação, com suavidade “de modo a não afligir demais o natural” ( F18, 6; Carta a Dom Teutonio de Bragança, 3 de julho de 1574, 4).

            Anos mais tarde, outro bom conhecedor do espírito teresiano, o Padre Jerônimo Graciano, ponderava a importância que dava a fundadora a esse dado da comunicação espiritual: “Ó Jesus, com quanto rigor e cuidado a madre Teresa de Jesus fazia suas religiosas guardarem uma constituição a elas posta, e que suas preladas dessem conta de seu espírito. E quanto proveito achou certa alma que, tendo repugnância a isto, por ser tentada contra seu superior, ao lhe mandarem dar conta de seu espírito, o fez, embora lhe custasse muito”[12].

            Porém, para ver realmente o ideal comunitário de Santa Teresa, as características da comunidade teresiana, o melhor documento, sem dúvida, é o Caminho de Perfeição, onde explicita seu ideal contemplativo ao serviço da Igreja (CP.V 1,5; 3,6.10), o exercício das virtudes teologais, amplamente desenvolvidas (CP.V 4-15), e toda uma gama de atitudes do melhor humanismo. Vale como exemplo o resumo que faz ao final do livro, no capítulo 41, onde recorda a suas monjas o princípio de “quanto mais santas, mas conversáveis”, e convida a “andar com uma santa liberdade” – nem “encolhidos” nem “oprimidos” – , a “ser afáveis,  agradar e contentar as pessoas com quem conversamos”. Tudo isso com expressões transbordante de humanismo e desmascaradoras de toda falsa experiência de Deus que “encolha a ânima e o animo)”.

“Assim não vos acanheis porque, se a alma começa a se encolher, é coisa muito má para tudo quanto é bem e às vezes dão em ser escrupulosas, e aqui a tendes inabilitada para si e para os outros e, mesmo que não dê nisto, será boa para si, mas não levará muitas almas para Deus, pois veem tanto constrangimento e aperto (...). E daqui vem outro dano, que é julgar a outros: como não vão pelo vosso caminho, mas com mais santidade para dar proveito ao próximo, tratam com liberdade e sem esses encolhimentos e assim logo vos parecerão imperfeitas. Se têm alegria santa, parecerá dissipação, principalmente às que não temos letras, nem sabemos no que se pode tratar sem pecado. É coisa muito perigosa e andarem em tentação contínua e de muito má digestão porque é em prejuízo do próximo. E pensar que, se não vão todos pelo mesmo modo, encolhidos, não vão tão bem, é muitíssimo mal”. (...) Assim, irmãs; tanto quanto puderdes, sem ofensa de Deus, procurai ser afáveis e entender de modo com todas as pessoas que convosco tratarem, a que amem a vossa conversação e desejem a vossa maneira de viver e de tratar, e não se atemorizem e amedrontem da virtude. A religiosas importa muito isto: quanto mais santas, mais conversáveis com vossas irmãs. E, ainda que sintais muito pesar se todas as suas conversas não vão como vós as quereríeis, nunca vos esquiveis, se quereis que aproveitem e quereis ser amadas por elas. É isto o que muito devemos procurar: ser afáveis e agradar e contentar às pessoas com quem tratamos, especialmente às nossas irmãs. (...)

Assim, pois, filhas minhas, procurai entender de Deus, em verdade, que Ele não olha a tantas minúcias como pensais e não deixeis que se vos tolha a alma e o ânimo, pois com isso se poderão perder muitos bens. Mas, intenção reta, vontade determinada, como tenho dito, de não ofender a Deus! Não deixeis encurralar a vossa alma: em lugar de achar santidade, ganhará muitas imperfeições que o demônio lhe porá por outras vias e, como já disse, não  aproveitará nem para si nem às outras tanto quanto poderia.” (CP.V 41,5-8)

 

Conclusão

            Permita-me, para terminar, insistir em um aspecto do carisma e da comunidade teresiana que considero de capital importância e de grande atualidade. Refiro-me a seu caráter mistagógico, a essa capacidade de impacto, de persuasão à experiência, pois foi isso que ela fez com seus próprios escritos –não só informar sobre o Mistério, senão, sobretudo, introduzir nele – , e o que quis instaurar em suas comunidades. Uma mistagogia explícita, com recursos à iniciação, proposta de forma concreta, respondendo à dificuldades e estímulos para aspirar a suas formas mais perfeitas[13].

            Não faz muito tempo que o tema da experiência de Deus estava restrito ao âmbito excepcional dos fenômenos místicos e inacessível fora deles. Uma das grandes falhas da teologia pós-tridentina da Graça, e causa, por sua vez, de outras deficiências de dita teologia, foi essa visão negativa ao abordar o tema da experiência de Deus, ou pior ainda, haver suposto que o tema estava definitivamente explicado, só que negativamente: não há nem pode haver experiência da graça. Isso até que a genialidade religiosa – mais que a genialidade teológica – de Karl Rahner começou a rever essa falsa evidência e a questioná-la: “se se tivesse apresentado a vivência mística separada dos seus fenômenos marginais, teríamos compreendido melhor que estas experiências não são absolutamente acontecimentos que estejam mais além dos cristãos normais. Teríamos compreendido que o testemunho dos místicos acerca de suas experiências místicas se refere a uma experiência que cada cristão, inclusive cada homem, pode experimentar, porém que, com frequência omite ou se reprime. De qualquer forma, é válida a afirmação de que existe a mística e de que não está tão longe de nós como somos tentados a supor”[14].

            A questão é que hoje, diante do fenômeno da descrença e das dificuldades na transmissão da fé, é mais urgente que nunca promover uma pastoral da experiência de Deus. Como? Não pelo caminho do convencimento, das ideias e das lições teóricas. Tampouco pelo suposto “contágio” ao que com frequência se acorre em determinadas pastorais, porque o contágio supõe uma forma de transmissão que não passa pela razão nem pela liberdade do contagiado, e uma adesão racional e livre como a fé requer o assentimento racional e o consentimento livre por parte do destinatário.  A pastoral da experiência de Deus supõe a mistagogia, ou seja, a iniciação, o acompanhamento por parte de alguém (pessoas, comunidades) que haja passado por essa experiência.

            Quando Teresa definiu sua comunidade como “colégio de Cristo” (CP.E 20, 1; CV 27, 6), não foi só por uma idealização dos tempos apostólicos ou uma pretendida volta a essas origens míticas, mas sim porque dita comunidade tem a missão fundamental de ser, antes de mais nada, sacramento, relato e rosto de Deus. Se todas as tarefas pastorais da Igreja têm que ter algo de processo mistagógico,  poderíamos dizer que a tarefa primordial e  insubstituível das comunidades teresianas consiste nisto: iniciar e acompanhar na experiência do Mistério, ser lugares onde se vive e se comunica a experiência de Deus, onde se oferece a ajuda de mestres, de peritos nas coisas de Deus.

  1. Quales los valores basicos para una comunidad, según Santa Teresa ?

 

  1. Quales son las dificultades reales que tenemos para vivir estos valores ?

 

  1. Como S. Teresa viveria hoy con nosotros la vida comunitária-fraterna, como base también de toda misión ?

 

 

Bibliografia

 

- A. RUIZ, Un estilo de hermandad, Burgos 1981; E. RENAULT, «Genèse et évolution de l.esprit apostolique chez Thérèse d.Avila», en Revue d.Histoire de la Spiritualité 53 (1977) 95-116.

- J.MURILLO, La comunidad en Teresa de Jesús, Vitoria 1982; ID., «Comunidad (en Santa Teresa de Jesús)», en T. Álvarez (dir.), Diccionario de Santa Teresa, Burgos, pp. 148-156; G.

- POZZOBON, La comunità teresiana. Genesi e formulazione, Roma 1979; Id., «La comunità teresiana, una significativa esperienza di comunione ecclesiale», en Teresianum 33 (1982) 515-585;

- S. ROS, «El carisma del Carmelo vivido e interpretado por Santa Teresa», en La recepción de los místicos Teresa de Jesús y Juan de la Cruz, Salamanca 1997, pp. 537-572; ID., «El carisma mistagógico de Santa Teresa», en Revista de Espiritualidad 66 (2007) 419-443.

 

[1] Segundo dados da própria autora: cf . F 2,1;  carta a uma aspirante, fim de maio de 1581,2.

[2] Remetemos à documentação publicada por  O. STEGGINK, «Santa Teresa y el Carmelo femenino anterior», en  Experiencia y realismo en Santa Teresa y San Juan de la Cruz,Madrid 1974, pp. 70-98; ID., Arraigo e innovación, Madrid 1976, pp. 51-68; T. ÁLVAREZ, «La visita del Padre Rubeo a las Carmelitas de la Encarnación de Ávila (1567)», en Monte Carmelo 86 (1978) 5-48; 269-280.

[3] Texto publicado por SILVERIO DE SANTA TERESA, «Constituciones del convento de la Encarnación de Ávila que se observaban viviendo allí Santa Teresa de Jesús», em Biblioteca Mística Carmelitana (= BMC), t. 9, pp. 481-523.

[4]  Cf. Dictamen del P. Pedro Ibáñez, en BMC, t. 2, pp. 131-132.

[5] Anos mais tarde, ao refazer o texto constitucional, acrescentou: “Entenda-se que ao prestar contas as noviças à mestra, e as demais religiosas à priora,  da oração e seu aproveitamento, que se faça de maneira que elas não sejam constrangidas a  tal coisa, mas que por sua própria vontade percebam  o muito aproveitamento espiritual  que disto receberão” (Constituições de 1581, cap. 14, n. 4 )

[6] Aspecto resaltado por historiadores e teresianistas: cf. T. ÁLVAREZ, «Santa Teresa y la polémica de la oración mental. Sentido polémico del Camino de Perfección», en IV Centenario de la Reforma Carmelitana, Universidad de Barcelona, 1963, pp. 39-61; ID., «Santa Teresa y las mujeres en la Iglesia. Glosa al texto teresiano de Camino 3», en Monte Carmelo 89 (1981) 119-132; T. EGIDO, «Santa Teresa y su condición de mujer», en Surge 42 (1982) 255-275; S. ROS, «Santa Teresa en su condición histórica de mujer espiritual», en Revista de Espiritualidad 56 (1997) 51-74.

[7] Seu número ideal era de 13 monjas, como o pequeno “colégio de Cristo” (os 12 apóstolos com Jesus), “porque, tendo tomado a opinião de muitas pessoas, cheguei à conclusão de que convém ser assim; e tenho visto por experiência que, para manter o espírito agora reinante (...) não podem ser em maior número” (V 36,29), pois “onde há poucas, há mais conformidade e quietude” (F 2,1), e “onde são tão poucas, pede a razão que sejam bem escolhidas” (Carta a dona Maria de Mendoza, 7 de março de 1572, 14).

[8] Escrevia o Padre Graciano em 1611, evocando a figura da Santa: «Tenía hermosísima condición y tan apacible y agradable, que todos los que la comunicaban y trataban con ella llevaba tras sí y la amaban y querían, aborreciendo ella las condiciones ásperas y desagradables que suelen tener algunos santos crudos, con que se hacen a sí mismos y a la perfección aborrecibles» (BMC, t. 16, pp. 499-500). E Maria de São  José em 1585, recordando a origem de sua própia vocação: “ O Senhor me chamou à religião vendo e conversando com nossa Madre e suas companheiras, que moviam as pedras com sua admirável vida e conversação. E o que me fez segui-las foi a suavidade e grande discrição de nossa boa Madre. Creio verdadeiramente que, se os que têm ofício de levar a alma a Deus usassem o projeto e a habilidade que aquela santa usava, levariam muitas mais almas” (MARÍA DE SAN JOSÉ (SALAZAR), Libro de Recreaciones, n. 2, em Escritos Espirituales, ed. Simeón de la Sagrada Familia, Roma 1979, pp. 63-64).

[9] Assim o explica T. ÁLVAREZ, «El estilo de hermandad y recreación que tenemos juntas», em Monte Carmelo 100 (1992) 149-158

[10] Sabemos também como protestou quando algum visitador propôs que as monjas e os frades não tivessem recreação nos dias que comungavam: Se as irmãs não hão de ter recreações nos dias em que comungam, eles, os Padres, que dizem Missa cada dia, nunca a deveriam ter. E se os sacerdotes não observam isto, para que o hão de observar os pobres dos outros (Carta ao P. Graciano, 19 de novembro de 1576, 2).

[11]  Sejam vistos  outros textos similares onde o termo «mortificação»  está associado a oração e virtudes:

V 23, 9.16; Carta a Dom Lourenço de Cepeda, 23 de dezembro de 1561, 3; Carta a Maria de São José, 11 de novembro de 1576, 13; F 6, 9; 14, 11; 18, 5-8; 24, 6; 6M 8, 10; 7M 4, 14.

[12] J. GRACIÁN, Dilucidario del verdadero espíritu, en BMC, t. 15, p. 114.

[13] Ver «El carisma mistagógico de Santa Teresa», em Revista de Espiritualidad 66 (2007)

419-443.

[14] K. RAHNER, Experiencia del Espíritu, Madrid 1977, pp. 25-26.