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O julgamento ficou empatado até o último momento, sendo decidido pelo voto da presidente do STF, ministra Cármen Lúcia
Por 6 votos a 5, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quarta-feira, 27, que o ensino religioso ministrado em escolas públicas pode ser confessional, ou seja, pode promover crenças específicas.
Depois de quatro sessões dedicadas ao tema, a Corte concluiu o julgamento de uma ação direta de inconstitucionalidade ajuizada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) em 2010.
O caso girou em torno de um acordo entre Brasil e o Vaticano, firmado na Cidade do Vaticano em novembro de 2008.
O decreto em questão, assinado pelo então ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, promulga um acordo entre Brasil e o Vaticano, que afirma que o “ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas” constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental.
Na avaliação da PGR, a redação evidencia a adoção de um ensino confessional, ou seja, com vinculação a certas religiões.
“Não vejo como se opor à laicidade a opção do legislador e não vejo contrariedade aqui que pudesse me levar a considerar inconstitucionais as normas questionadas”, disse a presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, que desempatou o julgamento e definiu o resultado.
“Não vejo submissão do Estado à submissão de religião na norma. A pluralidade de crenças, a tolerância – que é princípio da Constituição Federal – combina-se com os dispositivos aqui atacados. Pode-se ter conteúdo confessional em matérias não obrigatórias nas escolas”, concluiu a ministra.
Além de Cármen Lúcia, votaram a favor da possibilidade de o ensino religioso ser confessional – ou seja, vinculado a religiões específicas – os ministros Edson Fachin, Ricardo Lewandowski, Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes – coube a Moraes abrir a divergência no julgamento.
Em sentido divergente votaram o relator da ação, ministro Luís Roberto Barroso, e os ministros Celso de Mello, Marco Aurélio Mello, Luiz Fux e Rosa Weber.
Questão
Para Celso de Mello, a fé é questão essencialmente privada no Estado laico.
“A laicidade do Estado envolve a pretensão republicana de delimitar espaços próprios e inconfundíveis para o poder político e a fé. O Estado laico não pode nem pode ter preferências de ordem confessional e não pode portanto interferir na esfera das escolhas religiosas. O Estado não tem nem pode ter interesses confessionais”, sustentou Celso de Mello.
“Ninguém pode ser coagido a fazer parte de associação religiosa. Ninguém pode ser perguntado, indagado por qualquer autoridade acerca das suas convicções ou prática religiosa, nem ser prejudicado por se recusar a responder. Ninguém é obrigado a indicar sua religião. Ninguém pode ser obrigado a prestar juramento religioso. Nesta República laica, o direito não se submete à religião”, frisou Celso de Mello.
Na avaliação de Marco Aurélio Mello, a garantia do Estado laico obsta que dogmas da fé determinem o conteúdo de atos estatais.
“Concepções morais religiosas, quer unânimes, quer majoritárias, quer minoritárias, não podem guiar as decisões do Estado, devendo ficar circunscritas à esfera privada. A crença religiosa e espiritual – ou a falta dela, o ateísmo – serve precipuamente para ditar a conduta e a vida privada do cidadão que a possui ou não a possui. Paixões religiosas de toda ordem hão de ser colocadas à parte na condução do Estado”, disse Marco Aurélio Mello na sessão desta quarta-feira.
“É tempo de atentar para o lugar da religião na sociedade brasileira. Esta, embora aspecto relevante da comunidade, digno de tutela na Constituição Federal, desenvolve-se no seio privado no lar, na intimidade, nas escolas particulares. Nas públicas, espaço promovido pelo Estado para convívio democrático das diversas visões de mundo, deve prevalecer a ampla liberdade de pensamento, sem o direcionamento estatal a qualquer credo”, completou Marco Aurélio Mello.
Modalidade
Para o ministro Luís Roberto Barroso, relator da ação, somente o modelo não confessional de ensino religioso nas escolas públicas seria compatível com o princípio de um Estado laico. Como escolher a escola para seu filho: O Positivo te dá 8 dicas que podem ajudar Patrocinado
Nessa modalidade, explicou o ministro, a disciplina consiste na exposição neutra e objetiva de doutrinas, práticas, aspectos históricos e dimensões sociais das diferentes religiões.
A posição do ministro, no entanto, foi derrotada no julgamento concluído nesta quarta-feira. Fonte: Fonte: https://exame.abril.com.br
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Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Francisco celebrou hoje quarta-feira, dia 27 de Setembro de 2017, às 10 horas locais de Roma, na Praça de S. Pedro, a tradicional Audiência Geral. “Não estamos sozinhos na luta contra o desespero. Jesus é capaz de vencer em nós tudo aquilo que se opõe ao bem”. E “se Deus está connosco, ninguém poderá roubar-nos aquela virtude de que temos necessidade para viver. Enfim, ninguém nos roubará a esperança”. Daí, a necessidade, segundo Francisco, de conhecermos muito bem os principais “inimigos” da esperança em geral e da esperança cristã de modo particular. Esta, caros ouvintes, é o fulcro da mensagem catequética do Papa Francisco, na Audiência Geral de hoje na Praça de S. Pedro repleta de fiéis e peregrinos provenientes de diversas partes da Itália e do mundo. Recordamos que o tema da catequese do Papa para este ano é, precisamente, o tema da esperança cristã.
Na Audiência Geral de hoje em que foi também lançada a Campanha da Caritas Internacionalis, sob o lema “Partilhar a viagem”, o Papa Francisco concentrou a sua catequese sobre os piores “inimigos da esperança”. Neste sentido o Pontífice advertiu sobre a necessidade de ter sempre presente e nunca esquecer que, e citamos, “ter tudo da vida é um infortúnio”; que “a esperança não é virtude para pessoas com o estômago cheio”; e sobretudo, que “ter uma alma vazia é o pior obstáculo à esperança”.
Na sua reflexão o Santo Padre partiu do “antigo mito da caixa de Pandora”, que, segundo o Papa, revela-nos a importância da esperança para a humanidade.
Francisco recorda que “é a esperança que mantém em pé a vida, que a protege e a faz crescer”; esta esperança porém, sublinhou é assaz diferente daquilo que se costuma dizer que “enquanto houver vida há sempre esperança”.
“Se os homens não tivessem cultivado a esperança – observou - “nunca teriam saído das cavernas e não teriam deixado marcas na história do mundo”. É uma das coisas mais divinas que existe no coração do homem.
Ao referir-se ao poeta francês Charles Péguy – nas palavras do Santo Padre “deixou páginas estupendas sobre a esperança” – o Papa observou que a imagem de um dos seus textos evoca “os rostos de tanta gente que passou por este mundo – agricultores, pobres, operários, migrantes em busca de um futuro melhor – que lutaram tenazmente não obstante a amargura de um hoje difícil, cheio de tantas provações, animados porém pela confiança de que os filhos teriam uma vida mais justa e mais serena”.
Assim, acrescentou o Pontífice,“a esperança é o impulso no coração de quem parte deixando a casa, a terra, às vezes até familiares e parentes, para buscar uma vida melhor, mais digna para si e para os próprios familiares”, mas é também “ o impulso no coração de quem acolhe, o desejo de encontrar-se, de conhecer-se, de dialogar”.
“A esperança é o impulso para “partilhar a viagem” da vida, como nos recorda a Campanha da Caritas que hoje iniciamos”.(…) “Irmãos, não tenhamos medo de partilhar a viagem! Não tenhamos medo de compartilhar a esperança!”.
Francisco recordou então que “a esperança não é virtude para pessoas com o estômago cheio”, e é precisamente por este motivo que, sublinhou, “os pobres são os primeiros portadores da esperança”, como José e Maria e os pastores de Belém. “Enquanto o mundo dormia recostado nas tantas certezas adquiridas, os humildes preparavam no silêncio a revolução da bondade. Eram pobres de tudo”, mas “eram ricos do bem mais precioso que existe no mundo, isto é, o desejo de mudança”.
Daí que, “às vezes – observou o Pontífice – ter tudo na vida é um infortúnio”:
“Pensem num jovem a quem não foi ensinada a virtude da espera e da paciência, que não teve que suar por nada, que queimou as etapas e aos vinte anos “já sabe como funciona o mundo”. Está destinado à pior condenação: a de não desejar mais nada. Parece um jovem, mas já entrou o autuno no seu coração”.
Mas também, sublinhou ainda o Papa, “a alma vazia é o pior obstáculo à esperança”; “um risco para o qual ninguém está excluído, porque ser tentados contra a esperança pode acontecer também quando se percorre o caminho da vida cristã”, como advertiam os monges da antiguidade, ao denunciar um dos priores inimigos do fervor, que é aquele “demónio do meio-dia”.
A preguiça, de fato, – como a definiam os Padres – “é uma tentação que nos surpreende quando menos esperamos: os dias tornam-se monótonos e enfadonhos”, nenhum valor mais parece merecer algum esforço na nossa vida. E quando isto acontece, advertiu Francisco, o cristão sabe que aquela condição deve ser combatida, nunca aceitá-la passivamente, pois, Deus nos criou para a alegria e para a felicidade, e não para ardermos em pensamentos melancólicos.
Por esta razão, concluiu dizendo o Santo Padre, devemos custodiar o coração, “opondo-nos às tentações da infelicidade, que certamente não provém de Deus. E lá onde as nossas forças parecem fracas e a batalha contra a angústia dura, podemos sempre recorrer ao nome de Jesus. Podemos repetir aquela oração simples, que encontramos também nos Evangelhos e que se tornou a base de tantas tradições espirituais cristãs: Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tenha piedade de mim pecador!.
Não estamos sozinhos na luta contra o desespero. Jesus é capaz de vencer em nós tudo aquilo que se opõe ao bem. E se Deus está connosco, ninguém poderá roubar-nos aquela virtude de que temos necessidade para viver. Ninguém nos roubará a esperança”.
Na conclusão da sua audiência e come de costume, também hoje não faltou a habitual saudação do Papa Francisco aos peregrinos de língua oficial portuguesa presentes na Praça de S. Pedro: Saúdo, disse Francisco, todos os peregrinos de língua portuguesa, em particular os fiéis de Arruda dos Vinhos e Sobral e os diversos grupos do Brasil. Queridos amigos, a esperança cristã nos leva a olhar para o futuro como homens e mulheres que não se cansam de sonhar com um mundo melhor. Que Maria, causa da nossa esperança, vos guie nesse caminho. Fonte: http://pt.radiovaticana.va/
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“Francisco vê a Igreja como um hospital; seus inimigos a veem (como Lutero fez) como uma espécie de fortaleza contra erros e infiéis. O importante, porém, é que Francisco, depois de anos de discussão, está vencendo o debate”, afirma, em editorial, o jornal inglês The Guardian, 25-09-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Um grupo de clérigos conservadores acusou o Papa Francisco de heresia pelas suas tentativas de liberar o trato da Igreja às pessoas divorciadas. Isso levanta uma questão interessante: por quanto tempo um papa deve estar morto antes que as suas opiniões possam ser ignoradas com segurança?
Para muitas pessoas, a resposta é “por tempo algum”: não são apenas os humanistas, os muçulmanos e os protestantes, mas também a grande maioria dos católicos do mundo que dão pouca atenção à doutrina católica quando eles não concordam com ela. A direita católica ignora mais de 100 anos de um consistente ensino papal contra os excessos do capitalismo, junto com denúncias mais recentes da pena de morte, das guerras de agressão e da destruição ambiental. A esquerda católica ignora os ensinamentos do papa sobre a sexualidade – e todos ignoram a proibição da contracepção.
Os próprios papas, no entanto, devem levar seus antecessores muito a sério, mesmo que nenhuma das partes esteja escrevendo infalivelmente. As encíclicas papais soam como documentos legais, reforçados com notas de rodapé para provar que a doutrina não mudou, e que eles estão apenas repetindo o que seus antecessores queriam dizer, mesmo quando contradizem o que foi claramente dito.
Esses magníficos roupões escondem algumas coisas fantasiosas às vezes. É um artigo de fé – literalmente – que a doutrina nunca pode mudar, apenas se desenvolver, e o olho da fé pode ver claramente as sutis diferenças entre mudança, desenvolvimento e decadência.
Assim, as denúncias do século XIX sobre a democracia e a liberdade de pensamento e de consciência são agora ignoradas, mas a recusa do Papa João Paulo II de admitir as mulheres ao sacerdócio parece que vai ficar de pé por mais alguns séculos, pelo menos.
O que dizer, porém, da denúncia igualmente clara do Papa João Paulo II dos casais divorciados em segunda união que recebem a comunhão, reafirmada com força apenas 14 anos atrás? “Aqueles que persistem obstinadamente no pecado grave manifesto”, como ele se referiu aos divorciados recasados, devem ser banidos da participação no rito central da Igreja.
Mesmo na época, isso foi amplamente ignorado – a sua carta é uma daquelas leis a partir das quais os historiadores podem concluir que o comportamento banido era lugar-comum. Deve haver poucas comunidades católicas no Ocidente sem divorciados em segunda união que comungam, e todos sabem disso. Afastá-los do altar causaria um escândalo público, e isso também é banido. Portanto, é improvável que a carta tenha qualquer efeito sobre os fatos in loco.
Mas os esforços do papa atual, Francisco, para reverter a política dos seus antecessores provocaram uma reviravolta vigorosa. Se ele está mudando a doutrina, como seus oponentes acusam, ou meramente a interpretação da doutrina, como afirmam seus defensores, não há dúvida de que ele quer que a Igreja encoraje algumas pessoas que violam suas normas sobre sexualidade a comungarem. A questão simplesmente não é mais controversa em nenhuma outra Igreja, apesar da clara afirmação de Jesus sobre o princípio da oposição ao divórcio.
Somente a Igreja Católica tem a combinação entre burocracia e autoritarismo que torna tão difícil para o clero aprender com a experiência dos seus rebanhos. A própria ideia de que a Igreja deveria aprender com o mundo e não ensiná-lo é uma afronta para alguns católicos.
O desdobramento mais recente é a publicação de uma longa carta que acusa o papa da heresia pelas suas crenças sobre a segunda união, assinado por 62 clérigos conservadores, que parecem interessados em combater novamente a Reforma 500 anos depois: eles também acusam Francisco de várias heresias luteranas incompreensíveis para a mente não treinada.
Francisco vê a Igreja como um hospital; seus inimigos a veem (como Lutero fez) como uma espécie de fortaleza contra erros e infiéis. O importante, porém, é que Francisco, depois de anos de discussão, está vencendo o debate. Existem 4.000 bispos na Igreja em todo o mundo; apenas um, que tem 94 anos, assinou a carta. Inúmeros católicos podem não concordar com Francisco. Mas ninguém na hierarquia se atreve a ignorá-lo publicamente, pelo menos enquanto ele está vivo. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
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O Papa Francisco celebrou na manhã desta terça-feira (26/09) a Missa na capela da Casa Santa Marta. Na sua homilia, falou do conceito de família, inspirando-se no Evangelho de Lucas proposto pela liturgia do dia.
Para Jesus, família são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática. No Evangelho, é o Senhor que chama “mãe”, “irmãos” e “família” os que o circundavam e o ouviam na pregação. E isso, observou o Papa, "faz pensar no conceito de familiaridade com Deus e com Jesus”, que é algo a mais em relação ao ser “discípulos” ou “amigos”; “não é uma atitude formal nem educada e muito menos diplomática”, afirmou o Papa.
E então "o que significa esta palavra que os padres espirituais na Igreja tanto usaram e nos ensinaram?".
Antes de tudo, explicou Francisco, significa "entrar na casa de Jesus: entrar naquela atmosfera, viver aquela atmosfera, que está na casa de Jesus. Viver ali, contemplar, ser livres, ali. Porque os filhos são os livres, os que moram na casa do Senhor são os livres, os que têm familiaridade com Ele com os livres. Os outros, usando uma palavra da Bíblia, são os ‘filhos da escrava’, digamos assim, são cristãos, mas não ousam se aproximar, não ousam ter esta familiaridade com o Senhor, e sempre há uma distância que os separa do Senhor".
Mas familiaridade com Jesus, como nos ensinam os grandes Santos, acrescentou o Papa, significa também “estar com Ele, olhá-Lo, ouvir a sua Palavra, tentar praticá-la, falar com Ele" .
E a palavra é oração, destacou Francisco: "aquela oração que se faz inclusive na rua: 'Mas, Senhor o que acha?' Esta é a familiaridade, não? Sempre. Os santos tinham isso. Santa Teresa, é bonito, porque diz que via o Senhor em todos os lugares, era familiar com o Senhor por todos os lados, mesmo entre as panelas na cozinha, era assim".
Por fim, familiaridade é "permanecer" na presença de Jesus como Ele mesmo nos aconselha na Última Ceia ou como nos recorda o início do Evangelho, destacou Francisco, quando João indica: "este é o cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. E André e João foram atrás de Jesus" e, como está escrito, “permaneceram, ficaram com Ele todo o dia”.
Esta é, portanto, reiterou o Papa, a atitude de familiaridade, não aquela dos cristãos que, porém, mantêm distância de Jesus. E então Francisco pede a cada um: "vamos dar um passo nesta atitude de familiaridade com o Senhor. Aquele cristão, com problemas, que vai no autocarro, no metrô e interiormente fala com o Senhor ou pelo menos sabe que o Senhor o vê, lhe está próximo: esta é a familiaridade, é proximidade, é sentir-se da família de Jesus. Peçamos esta graça para todos nós, entender o que significa familiaridade com o Senhor. Que o Senhor nos conceda esta graça". Fonte: http://pt.radiovaticana.va
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O padre Francesco Cosentino, da Diocese de Catanzaro-Squillace, professor e diretor de retiros e encontros espirituais, atualmente é membro na Congregação para o Clero e Professor da Pontifícia Universidade Gregoriana, reflete sobre a 'crise do padre', em artigo publicado por Settimana News, 02-07-2017. A tradução é de Ramiro Mincato.
Eis o artigo.
O ministério sacerdotal perde valor e significado. Atrai cada vez menos. Parece mover-se com dificuldades, como se estivesse "fora do tempo", isto é, em um tempo que não é mais o seu. Assim, Padre Armando Matteo fotografou, em seu site, a "crise do padre", sem muitos rodeios.
Penso que se deva dar prosseguimento àquelas observações, e tentarei fazê-lo, embora sob uma ótica um pouco mais otimista do que meu amigo Matteo, enfrentando algumas questões e abrindo algumas pistas de reflexão.
Qual identidade?
Para abordar seriamente a "crise do presbítero", é necessário fazer referência a questão - tanto debatida, mas sem solução fácil - de sua identidade. Não se trata apenas de um teórico argumento teológico, mas, pelo contrário, quando se fala de identidade presbiteral é preciso não se fixar logo sobre um modelo abstrato, mas sobre a figura do padre, assim como se configurou na história concreta da comunidade de fé. Ainda mais, deve-se fazer referência à Palavra de Deus, que representa o horizonte subjacente dentro do qual devem surgir os critérios do ministério presbiteral.
Se é verdade que, como afirma o conhecido teólogo Greshake em Essere preti in questo tempo (Queriniana, 2008), "nos últimos anos o tema do “padre" tornou-se uma espécie de muro das lamentações, onde tantos sacerdotes batem com a cabeça, assim como bispos desesperados e também leigos desorientados", é igualmente verdade que, antes de questionar-se sobre a crise numérica, o modelo de vida e as atribuições pastorais, é preciso voltar-se à questão de fundo: o que Jesus realmente queria quando reuniu em torno a si os apóstolos e os enviou em missão?
Somente se esta questão for tomada a sério poder-se-á enfrentar a crise, talvez até descobrindo que ela não é pois tão dramática, não porque não seja real, mas pelo fato de afetar aspectos provavelmente não tão essenciais ao ministério.
Assim, como primeira provocação – deixando para depois escavar mais a fundo sobre o tema, - gostaria de debruçar-me sobre a questão da identidade.
Um olhar sobre a história
Podemos recordar suas origens, quando o cristianismo organizou-se em pequenas comunidades, errantes e nômades, centradas principalmente na evangelização; mais tarde, como sabemos, as coisas mudaram consideravelmente.
Durante anos, de fato, talvez séculos, o ministério presbiteral foi se configurando no interior da nascente cristandade, isto é, daquele processo de simbiose entre religião, sociedade e cultura, que, se por um lado, favoreceu a integração e expansão de fé, por outro lado, de alguma maneira, obscureceu a potência profética do Evangelho, a força da sua fraqueza, a riqueza da sua pobreza e, em geral, a sua voz "obstinadamente outra" em relação ao mundo.
O modelo de Igreja, a simbologia litúrgica, as formas de fé e, não por último, a própria figura do padre passaram, lentamente, a parecer-se mais ao modelo do Império Romano do que ao da identidade evangélica. É verdade que a Igreja tornou-se estrutura fundamental da sociedade, e que o cristianismo alastrava-se como incêndio, desenvolvendo sua capacidade de presença e incidência na vida pública; no entanto, é igualmente verdade que o cristianismo deixou de ser uma resposta pessoal a um chamado evangélico, para tornar-se um fator natural e cultural; a Igreja mudou sua forma externa e suas estruturas, e, consequentemente, o ministério presbiteral também teve que se adequar.
O padre sobre um “pedestal”, autoridade indiscutível capaz de exercer certo poder espiritual, mas não só, era um modelo bem integrado com uma sociedade marcada pela fé religiosa, em que acreditar era algo "normal".
Este é, para mim, o primeiro motivo sério para a crise atual. Hoje, com o desenvolvimento moderno da liberdade da pessoa, o crescimento do valor da democracia, o mundo fortemente marcado pelo secularismo e pelo abandono da fé, ainda pode reger aquela ideia e aquele modelo de padre que, mesmo diante das inovadoras indicações do papa Francisco, parece ser o sonho latente de muitos e a imagem escondida por trás de algumas estratégias pastorais? Pode-se ainda continuar falando de "serviço", mas com uma convicção secreta de monarcas absolutos?
Uma crise provisória?
Talvez, a crise atual do cristianismo, que força a Igreja a tornar-se novamente minoritária, poderia ser uma ocasião profícua: Deus quer seu povo de volta ao deserto e à diáspora, para aliviá-lo de um sistema imperial e mundano, para destruir um cristianismo que se tornou um subsistema da sociedade, e permitir-lhe recuperar um espírito evangélico. Este caminho, profético e corajosamente traçado pelo atual pontificado, deixa ainda perplexas muitas figuras do clero.
O medo de abandonar um modelo "seguro", no qual fomos formados e habituados, por ora vence sobre a coragem de se tentar novas vias. Na paralisia, esquece-se que a identidade do presbítero está em caminho, está aberta, em constante evolução.
Não existe o presbítero "válido de uma vez por todas", mas um ministro chamado, no concreto da história, feita de rostos, de alegrias e de lágrimas, em um mundo real que possui coordenadas precisas e dentro das quais, se realmente se quer incidir, é preciso habitar. Não como um chefe, um supervisor ou um estranho, mas como um companheiro de estrada. Se tudo muda, me pergunto também sobre a identidade e o modelo de presbítero: pode-se continuar parado? Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
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Santa Teresinha do Menino Jesus, Carmelita.
“Minha vocação é o AMOR”. (Ms B, f. 3r)
“O amor pode suprir uma longa vida. Jesus não considera o tempo, pois no céu o tempo não existe mais. Ele só deve considerar o AMOR”. (CT 111)
Para Santa Teresinha Jesus é, no plano doutrinal, o Cristo. Entretanto, no plano afetivo, ao empregar o nome Jesus, demonstra familiaridade e proximidade com Ele, entrega amorosa “nota dominante” de sua doutrina e de sua vida e característica de sua santidade. Queria amar o bom Deus de forma muita intensa. E “o bom Deus” é Jesus. Na parede de sua cela escrevera: “Jesus é o meu único amor” (Proc. Ord., 1730). “Com o amor não somente avanço, mas vôo” (Ms A, f. 80v). Sua divisa carmelitana era “O amor, só com amor se paga”, lema tomado de João da Cruz (Cântico espiritual, estr. 9,7). “A cada instante o Amor Misericordioso me renova, purifica e não deixa em meu coração vestígio algum de pecado” (Ms A, f. 84r). O amor é para Santa Teresinha a fonte de energia que fecunda toda a sua vida espiritual.
Para compreender o amor de Deus e traduzi-lo em palavras compreensíveis desde a Bíblia, passando pela Liturgia e pelos santos, precisamos de usar muitos raciocínios e elecubrações. Santa Teresinha pouco usa a literatura teológica para compreender o AMOR. Sua atitude preferida, no amor como em tudo o mais, é uma atitude vivencial muito profunda: aquela que reconhece a transcendência divina e os privilégios da graça da filiação divina, conciliando com audaciosa confiança a dimensão da justiça e da misericórdia do amor de Deus. O caráter filial de seu amor é o corolário de sua síntese de vida: permanecer sempre “bem pequenina” em face de Deus, confiante como a criancinha em seu pai, sabendo ser-lhe agradecida seja quando está adormecida, seja quando está acordada (Ms A, f. 75v).
Santa Teresinha expressa seu amor em gestos concretos, para “agradar a Jesus”, num eco ao próprio Jesus: “Faço sempre aquilo que é do agrado de meu Pai” (Jo 8,29). Perguntava-se às vezes angustiada: “O puro amor existirá mesmo em meu coração? Meus imensos desejos não são um sonho, uma loucura? ” (Ms B, f. 4v). Desejava viver um amor desinteressado; amar o bom Deus por Ele mesmo, sem qualquer introversão egoística. São frequentes as suas palavras confirmando este anseio. Numerosas vezes fala deste seu desejo ardente e confidencia que teria medo se “Jesus me dissesse que sou egoísta” (CT 65).
*Retiro Espiritual Carmelitano n. 6: A CAMINHO COM TERESA DO MENINO JESUS- Subsídio elaborado por AUGUSTA DE CASTRO COTTA C.D.P. e EMANUELE BOAGA O.Carm. In Memoriam.
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Domingo, 24 de Setembro de 2017. Ao meio dia, o Papa Francisco assomou, como habitualmente, à Janela do Palácio Apostólico para rezar com os fieis, reunidos na Praça de São Pedro, a oração do Ângelus. Antes, porém, fez uma breve reflexão sobre a página evangélica deste domingo, em que São Mateus nos coloca perante a parábola do trabalhador-a-dia que Jesus conta para comunicar dois aspectos do Reino de Deus:
“O primeiro é que Deus quer chamar todos a trabalhar para o seu Reino; e o segundo, que no fim Ele quer dar a todos a mesma recompensa, isto é a salvação, a vida eterna”.
Essa parábola narra a história do patrão de uma vinha que paga com o mesmo preço a trabalhadores que tinham trabalhado o dobro de horas de outros trabalhadores. Então os que trabalharam mais protestam por essa injustiça.
Na realidade – disse o Papa – o que Jesus quer com esta parábola não é “falar do problema do trabalho e do justo salário, mas sim do Reino de Deus”, onde não há desempregados, pois que cada um é chamado a fazer a sua parte; e no fim, para todos haverá a recompensa que vem da justiça divina – não humana, por nossa sorte – afirmou o Papa, explicando que se trata da “salvação que Jesus Cristo obteve para nós com a sua morte e ressurreição. Uma salvação que não é merecida, mas doada, pelo que os “últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos””.
Com esta parábola – prosseguiu Francisco – Jesus quer abrir os nossos corações à lógica do amor do Pai, amor que é gratuito e generoso. Há, todavia, que se deixar “maravilhar e fascinar pelos “pensamentos” e pelas “vias” de Deus que, como recorda o profeta Isaías, não são os nossos pensamentos e as nossas vias. Com efeito, os pensamentos humanos são, muitas vezes, marcados pelo egoísmo e interesses pessoais, e os nossos angustiosos e tortuosos caminhos não são comparáveis às ampla rede estradal do Senhor.
“Ele faz uso da misericórdia, é cheio de generosidade e de boa vontade que derrama sobre cada um de nós, abre a todos os territórios sem confins do seu amor e da sua graça, os únicos que podem dar ao coração humano a plenitude da sua alegria”.
O Papa aprofundou ainda mais o sentido da parábola do trabalhador e o olhar daquele patrão que vendo trabalhadores sem trabalho os convidou a trabalhar já ao meio do dia, dando-lhes ao fim o mesmo salário que os que tinham começado de manhã cedo.
É um olhar – disse Francisco – “cheio de atenção, de benevolência; é um olhar que chama, que convida a levantar-se, a pôr-se a caminho, porque quer a vida para cada um de nós, quer uma vida cheia, empenhada, salvada do vazio da inércia. Deus não exclui ninguém e quer que cada uma atinja a sua plenitude”.
Terminada a sua reflexão, o Papa rezou com os presentes a saudação do Anjo a Maria, à qual pediu, previamente, para nos ajudar a acolher na nossa vida, a lógica do amor, que nos liberta da presunção de merecer a recompensa de Deus e do julgamento negativo sobre os outros.
Após a oração do Ângelus, Francisco recordou que, ontem em Oklahoma City, nos Estados Unidos, foi proclamado Beato Stanley Francis Rother, sacerdote missionário, morto devido à sua fé e à sua obra de evangelização e promoção humana a favor dos mais pobres na Guatemala.
O seu exemplo heróico – afirmou o Papa – nos ajude a ser corajosos testemunhos do Evangelho, empenhando-nos a favor da dignidade do homem.
A concluir, Francisco saudou os romanos e peregrinos doutras partes do mundo, citando alguns grupos em particular, e a todos
desejou bom domingo, pedindo, como sempre, que não nos esqueçamos de rezar por ele. Fonte: http://pt.radiovaticana.va
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ATUALIZAÇÃO (Mt 20, 1-16)
Antes de mais, o nosso texto deixa claro que o Reino de Deus (esse mundo novo de salvação e de vida plena) é para todos sem exceção. Para Deus não há marginalizados, excluídos, indignos, desclassificados… Para Deus, há homens e mulheres – todos seus filhos, independentemente da cor da pele, da nacionalidade, da classe social – a quem Ele ama, a quem Ele quer oferecer a salvação e a quem Ele convida para trabalhar na sua vinha. A única coisa verdadeiramente decisiva é se os interpelados aceitam ou não trabalhar na vinha de Deus. Fazer parte da Igreja de Jesus é fazer uma experiência radical de comunhão universal.
Todos têm lugar na Igreja de Jesus… Mas todos terão a mesma dignidade e importância? Jesus garante que sim. Não há trabalhadores mais importantes do que os outros, não há trabalhadores de primeira e de segunda classe. O que há é homens e mulheres que aceitaram o convite do Senhor – tarde ou cedo, não interessa – e foram trabalhar para a sua vinha. Dentro desta lógica, que sentido é que fazem certas atitudes de quem se sente dono da comunidade porque “estou aqui há mais tempo do que os outros”, ou porque “tenho contribuído para a comunidade mais do que os outros”? Na comunidade de Jesus, a idade, o tempo de serviço, a cor da pele, a posição social, a posição hierárquica, não servem para fundamentar qualquer tipo de privilégios ou qualquer superioridade sobre os outros irmãos. Embora com funções diversas, todos são iguais em dignidade e todos devem ser acolhidos, amados e considerados de igual forma.
O nosso texto denuncia ainda essa concepção de Deus como um “negociante”, que contabiliza os créditos dos homens e lhes paga em consequência. Deus não faz negócio com os homens: Ele não precisa da mercadoria que temos para Lhe oferecer. O Deus que Jesus anuncia é o Pai que quer ver os seus filhos livres e felizes e que, por isso, derrama o seu amor, de forma gratuita e incondicional, sobre todos eles. Sendo assim que sentido fazem certas expressões da vivência religiosa que são autênticas negociatas com Deus (“se tu me fizeres isto, prometo-te aquilo”; “se tu me deres isto, pago-te com aquilo”)?
Entender que Deus não é um negociante, mas um Pai cheio de amor pelos seus filhos, significa também renunciar a uma lógica interesseira no nosso relacionamento com ele. O cristão não faz as coisas por interesse, ou de olhos postos numa recompensa (o céu, a “sorte” na vida, a eliminação da doença, o adivinhar a chave da lotaria), mas porque está convicto de que esse comportamento que Deus lhe propõe é o caminho para a verdadeira vida. Quem segue o caminho certo, é feliz, encontra a paz e a serenidade e colhe, logo aí, a sua recompensa.
Com alguma frequência encontramos cristãos que não entendem porque é que Deus ama e aceita na sua família, em pé de igualdade com os filhos da primeira hora, esses que só tardiamente responderam ao apelo do Reino. Sentem-se injustiçados, incompreendidos, ciumentos, invejosos e condenam, mais ou menos veladamente, essa lógica de misericórdia que, à luz dos critérios humanos, lhes parece muito injusta. Na sua perspectiva, a fidelidade a Deus e aos seus mandamentos merece uma recompensa e esta deve ser tanto maior quanto maior a antiguidade e a qualidade dos “serviços” prestados a Deus. Que sentido faz esta lógica à luz dos ensinamentos de Jesus?
(Leia na íntegra. Clique ao lado do no link- EVANGELHO DO DIA)
AO VIVO- 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM: Reflexão do Frei Petrônio, Carmelita, direto do Rio de Janeiro.
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Mathew Shurka tinha 16 anos quando decidiu contar para o pai que era gay. Apavorado, tinha certeza que "o homem que mais admirava" o aceitaria.
"Eu amo você e vou ajudá-lo", respondeu seu pai. A "ajuda" veio em forma de terapias que prometiam "curá-lo" da homossexualidade. Em cinco anos, a partir de 2004, o americano passou por quatro terapeutas, um acampamento de "conversão", foi obrigado a tomar Viagra para se relacionar com mulheres, ficou depressivo e pensou em se suicidar. "Meu pai não é religioso. Ele só pensava: 'Meu filho não vai sobreviver neste mundo como um homem gay'", conta.
Na última segunda-feira, o juiz federal da 14ª Vara do Distrito Federal Waldemar Cláudio de Carvalho concedeu uma liminar que autoriza psicólogos do Brasil a oferecerem a seus pacientes formas de terapia de reversão sexual. Esse tipo de procedimento era vedado no país pelo Conselho Federal de Psicologia desde 1999.
A decisão do juiz, que causou polêmica, foi motivada por um ação de uma psicóloga que queria oferecer serviços de "cura gay" e pode ser mudada nas instâncias superiores. Há quase 30 anos, a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da lista internacional de doenças. Nos EUA, nove Estados e o Distrito Federal têm leis proibindo a "cura gay" - no restante do país, tais tratamentos são legais.
Criado em uma pequena cidade conservadora perto de Nova York, membro de uma família com tradição judaica, Shurka nunca havia conhecido uma pessoa abertamente gay ou casais gays.
"Meu pai me dizia que eu ia sofrer muito, e eu tinha medo desse sofrimento - já havia apanhado na escola e sofria pressão para me relacionar com meninas. Quando um homem que eu amava e confiava me disse que havia uma solução para isso, eu acreditei", afirma.
Todos os terapeutas encontrados pela família nos cinco anos de tratamento eram profissionais graduados e registrados. "Isso dava mais credibilidade ao tratamento. Para o meu pai, era a oportunidade de dar a mim a vida que ele imaginou."
O primeiro terapeuta lhe disse que sua orientação sexual era fruto de um trauma de infância. "Mas eu tive uma infância maravilhosa. Não conseguia pensar em trauma algum. Acabei criando coisas que não haviam existido. Fiquei bravo com minha mãe por não ter me criado másculo o suficiente."
Viagra
Como parte da terapia, o jovem foi orientado a não falar com mulheres - para não se tornar efeminado - e a conviver mais com homens, de modo a torná-lo mais "macho". Por causa do tratamento, ficou três anos sem falar com a mãe e as irmãs. "Eu virava a cara, literalmente", conta.
Sua mãe passou a ser contrária à terapia de "conversão". "Ela chegava a me dizer: 'Filho, você é gay, não tem problema. Eu te amo'. E eu tinha muito medo e achava que, como ela era a culpada por minha homossexualidade, sua aceitação só piorava as coisas."Sem que o primeiro tratamento fizesse muito efeito, Shurka e seu pai procuraram outro profissional, em Los Angeles, do outro lado do país. Viajaram para a cidade só para conhecê-lo - o tratamento continuou por telefone. "No começo uma vez por semana, mas depois quase todos os dias."
"No começo, sentia que a terapia estava funcionando. Fiz muitos amigos homens e estava pronto para me relacionar com mulheres. Tinha inventado minha heterossexualidade", conta ele. Mas, por baixo disso, ainda sentia atração por homens. Passou a se sair mal na escola, ter crises de ansiedade e ir ao hospital com frequência achando que estava sofrendo um infarto.
Admitiu então para seu terapeuta que não estava conseguindo transar com mulheres.
"Meu terapeuta ligou para o meu pai e, juntos, decidiram que eu deveria tomar Viagra. Eu tinha 18 anos, era um rapaz saudável, e passei a tomar Viagra quando saía com mulheres."
Intervenção
Aos 19, Shurka se apaixonou por um homem e tentou namorá-lo. Seu terapeuta interferiu outra vez: ele e seu pai abordaram o rapaz e o mandaram embora. "Ao telefone, chorava com meu terapeuta, me perguntando porque era gay e porque ele (o namorado) havia me deixado. Meu terapeuta fingia não saber por quê."
Oito meses depois, seu ex-namorado lhe contou o que o pai e o terapeuta tinham feito. Foi a motivação necessária para romper o relacionamento com o pai e abandonar o tratamento com o profissional, de quem já era dependente - "eu amava, acreditava e confiava nele".
Shurka voltou a falar com a mãe, que lhe convenceu a fazer uma terapia normal. "Era bem melhor, mas não importava o quão bom era, eu sentia que não estava tentando o suficiente. Eu estava convencido de que ser gay era uma escolha e que era minha culpa." Sozinho, entrou e saiu de mais dois tratamentos na linha da "cura gay".
"Aos 20, sem conseguir terminar a faculdade, confuso, entrei em uma depressão profunda, engordei 30 kg. Ficava dias sem sair do meu apartamento, não gostava de nada do que eu era. Me cortava, pensando em me suicidar."
O jovem chegou a passar um fim de semana em um acampamento de "cura gay", onde cerca de 60 homens eram obrigados a reencenar casos de abuso sexual que supostamente os teriam levado à homossexualidade.
Aos 21, Shurka se mudou para Manhattan, em Nova York, onde trabalhou como garçom em um restaurante gerenciado por uma lésbica. "Ela era uma mulher forte, que me inspirou muito." Também passou a ver muitos homens gays bem-sucedidos que frequentavam o restaurante.
"Basicamente, estava vendo pela primeira vez como tudo aquilo era normal", diz. Voltou a frequentar terapias, mas, dessa vez, regulares, embora fosse muito difícil confiar nos profissionais outra vez.
Aceitação
Dois anos depois, em 2012, Shurka saiu do armário, ainda muito inseguro e temeroso com a reação das pessoas. Naquele ano, frequentou um curso para desenvolvimento pessoal. Voltou convicto de que teria de fazer as pazes com o pai e com o terapeuta.
"Depois de cinco anos sem falar com ele e de tê-lo processado durante o divórcio dos meus pais, fui falar com ele. Quando eu disse de novo que era gay e que estava feliz com isso, ele repetiu o discurso de que eu ia ser infeliz, me machucar. Não acreditei", afirma.
"Mas respondi: 'Pai, não tem com o que se preocupar. Vai ficar tudo bem. Vou viver uma vida maravilhosa'. E ele aceitou." Hoje, conta, seu pai é um dos seus melhores amigos. Pediu desculpas por tê-lo levado a terapias de "cura gay" e até foi para a parada gay com o filho neste ano.
Shurka também se encontrou-se com o terapeuta que lhe prometera "curar" e que ministrou Viagra e interferiu em seu relacionamento quando tinha 19 anos. "Ele chorou e admitiu ter 'tratado' outros 13 meninos. Disse que não os havia 'curado'."
O terapeuta, afirma, se arrepende e diz não acreditar mais em "cura gay".
Falando à BBC Brasil de seu escritório em Nova York, Mathew Shurka, hoje com 28 anos, tornou-se um ativista contra a terapia de "reversão sexual" nos Estados Unidos e no mundo à frente da campanha "Born Perfect" ("nascido perfeito", em tradução literal).
Segundo ele, a maior parte das pessoas que acaba em tratamentos do tipo são adolescentes, filhos de pais assustados que veem no terapia uma solução. E o tratamento, afirma, multiplica as chances de suicídio entre a população gay.
"Mesmo depois de sair do armário, as pessoas que passam pelo tratamento da 'cura gay' foram tão abusadas psicologicamente e têm tantos traumas que ainda têm dificuldade de se aceitar", diz.
Ele mesmo sofre de ansiedade e ainda está se curando dos anos nas terapias pelas quais passou. "Mas estou rodeado de pessoas que me amam e me apoiam." Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
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Cidade do Vaticano (RV) – José Fernandes de Oliveira, SCJ, ou simplesmente Padre Zezinho, completa este 21 de setembro 51 anos de ordenação sacerdotal. A data foi celebrada na Missa presidida pelo Papa Francisco na Casa Santa Marta.
Seu pai era violeiro e foi dele que herdou o amor pela música. Quando criança, José Fernandes passou a conviver com os padres, que davam assistência à sua família. Zezinho é o mais jovem de seis irmãos. Quando tinha dois anos de idade, sua família mudou-se de Machado para Taubaté, depois de seu pai ter sofrido um acidente e ficar paralítico. Aos onze anos, ingressou no seminário dos padres dehonianos.
Ordenado padre aos 25 anos de idade, em 1966 nos Estados Unidos, adotou no ano seguinte o teatro e a música como meios de evangelização e, em 1969, também os meios de comunicação com este propósito.
Em visita à Rádio Vaticano na manhã desta quinta-feira, o Padre Zezinho falou sobre sua participação na celebração e, naturalmente, sobre sua vocação:
“Ele tem uma maneira muito bonita de falar, de orar. Participar da Missa com ele é realmente uma aula de como se celebrar uma Missa. Ele é realmente uma pessoa totalmente entregue ao altar. Fiquei encantado! Não dá para assistir Missa dele, tem que participar! E também o sermão foi espetacular, em todo o sentido. Realmente ele é um mestre de comunicação. E para mim que dei aula 32 anos como comunicador e padre e professor, foi mais uma aula que eu gostei de receber do Papa”.
RV: Depois de 51 anos, o que o senhor aprendeu então do Papa hoje?
“Hoje ele falou de São Mateus, aquele que era traidor da pátria, porque ele pegava dinheiro do povo para mandar para um outro país e falou também ... imagina se ele não estava falando com a gente... E depois ele disse também uma coisa que me marcou, muito várias vezes: “Mas como é que é? Como é que é?”, o comportamento das pessoas quando veem alguém que se converteu e que não é mais o pecador que eu era. Então ele disse que as pessoas depois, vendo a mudança de Mateus, perguntavam: “Como é que é? Como que é que é? O que houve que aconteceu com ele? O que foi? O que é? O que é?, várias vezes. Como por dizer assim: as pessoas não estão prontas para enfrentar alguém que se converte. Ele mostrou também, acentuou muito o olhar de Jesus. Segundo o Papa, ele acha que o que mudou mesmo o Mateus que estava ali naquela arcada coletando impostos não foi nada, foi somente o olhar, porque daquele momento – diz ele – ele deve ter visto o olhar de Jesus que nunca tinha ouvido e visto e naquele momento alguma coisa aconteceu, o Papa diz foi o olhar de Jesus. Ele olhou com amor! E isso também me marcou muito, porque o Papa faz a mesma coisa, né. Ele mira no olho e fala. Então eu até acredito que foi mesmo isso palavras, porque não foram palavras, foi “Vem, seguem-me!”. Então eu acho que o quadro é bem este: você conversa com alguém, mas antes de mandar “siga-me!”, ele deve ter olhado bem nos olhos e disse: eu te conheço!”.
RV: 51 anos atrás o senhor também recebeu também este olhar. O senhor teve alguns momentos nestes 51 anos em que disse “não, acho que este olhar não era para mim?”
“Felizmente não! Eu desde criança queria ser padre, e sempre quis isso. Sofrimento houve, mas não por causa disto. Dúvida sobre Jesus, tive uma ou outra, mas muito pouco. E dúvida de que eu gostaria de ser padre, nunca houve não. Eu queria, eu queria, eu queira. E quando era difícil eu disse: mas eu quis isso. Quando houve momentos difíceis de calúnias, agressões, deturpações, eu disse: mas eu quis isso! Eu sabia muito bem que poderia acontecer isto. Então não houve decepção. Eu acho que quem pega a sua cruz e segue Jesus, ele sabe que vai ser crucificado. Então não me assustou nem um pouco. Todas as agressões, todas as dificuldades, dentro e fora da Igreja, não atrapalharam não. Eu acho que eu consegui entender que eu queria ser padre, custasse o que custasse, eu queria isso. Então fazia parte do sacerdócio. Eu cantei várias vezes isso também”. (SP). Fonte: http://br.radiovaticana.va
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“A porta para encontrar Jesus é reconhecer-se pecador”, afirmou o Papa Francisco na Missa celebrada na manhã desta quinta-feira, (21/09/2017) na Capela da Casa Santa Marta.
A sua homilia repassou a conversão de São Mateus – que hoje a Igreja festeja - episódio retratado pelo pintor italiano Caravaggio, numa tela muito cara ao Papa Francisco. São Três as etapas do acontecimento: 1º Encontro, 2º- Festa e 3º- Escândalo.
1º MOMENTO: O ENCONTRO.
Jesus havia curado um paralítico e encontra Mateus, sentado no banco dos impostos. Fazia o povo de Israel pagar os impostos para depois dá-los aos romanos e por isto era desprezado, considerado um traidor da pátria.
Jesus olhou para ele e disse: “Segue-me”. Ele levantou-se e o seguiu, como narra o Evangelho do dia.
De um lado, o olhar de São Mateus, um olhar desconfiado, olhava “de lado”. “Com um olho, Deus” e “com o outro o dinheiro”, “agarrado ao dinheiro como pintou Caravaggio”, e também com um olhar impertinente. De outro, o olhar misericordioso de Jesus que – disse o Papa – olhou para ele com tanto amor”.
A resistência daquele homem que queria o dinheiro “cai”: levantou-se e o seguiu. “É a luta entre a misericórdia e o pecado”, sintetiza o Papa.
O amor de Jesus pode entrar no coração daquele homem porque “sabia ser pecador”, sabia “não ser bem querido por ninguém”, era desprezado.
E justamente “a consciência de pecador abriu a porta para a misericórdia de Jesus”. Assim, “deixou tudo e foi”. Este é o encontro entre o pecador e Jesus:
“É a primeira condição para ser salvo: sentir-se em perigo; a primeira condição para ser curado: sentir-se doente. E sentir-se pecador, é a primeira condição para receber este olhar de misericórdia. Mas pensemos no olhar de Jesus, tão bonito, tão bom, tão misericordioso. E também nós, quando rezamos, sentimos este olhar sobre nós; é o olhar de amor, o olhar da misericórdia, o olhar que nos salva. Não ter medo”.
Como Zaqueu, também Mateus, sentindo-se feliz, convidou depois Jesus para comer em sua casa. A segunda etapa é justamente “a festa”.
2º MOMENTO: A FESTA.
Mateus convidou todos os amigos, “aqueles do mesmo sindicato”, pecadores e publicanos. Certamente à mesa, faziam perguntas ao Senhor e ele respondia.
Isto – observou o Papa – faz pensar naquilo que disse Jesus no capítulo 15 de Lucas: “Haverá mais festa no Céu por um pecador que se converta do que por cem justos que permanecem justos”.
Trata-se da festa do encontro do Pai, a festa da misericórdia”. Jesus, de fato, trata a todos com misericórdia sem limite, afirma Francisco.
3º MOMENTO: O ESCÂNDULO.
Então, o terceiro momento, o do “escândalo”. Os fariseus vendo que publicanos e pecadores sentaram-se à mesa com Jesus, perguntavam aos seus discípulos: “Por que o vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?” “Um escândalo sempre começa com esta frase: “Por que?””, explica o Papa. “Quando vocês ouvem esta frase, cheira” – sublinha – e “por trás vem o escândalo”.
Tratava-se, em substância, da “impureza de não seguir a lei”. Conheciam muito bem “a Doutrina”, sabiam como seguir “pelo caminho do Reino de Deus”, conheciam “melhor do que ninguém como se devia fazer”, mas “haviam esquecido o primeiro mandamento do amor”.
E assim, “fecharam-se na gaiola dos sacrifícios, quem sabe pensando: “Mas, façamos um sacrifício a Deus”, façamos tudo o que se deve fazer, “assim, nos salvamos”. Em síntese, acreditavam que a salvação viesse deles próprios, sentiam-se seguros.
“Não! Deus nos salva, nos salva Jesus Cristo”, enfatizou o Papa:
“Aquele “por que” que tantas vezes ouvimos entre os fiéis católicos quando viam obras de misericórdia. “Por que?” E Jesus é claro, é muito claro: “Ir e aprender”. E os mandou aprender, não? “Ide e aprendei o que quer dizer misericórdia - (aquilo que) eu quero – e não sacrifícios, porque eu não vim, de fato, para chamar os justos, mas os pecadores”. Se tu queres ser chamado por Jesus, reconhece-te pecador”.
Francisco exorta, portanto, a reconhecer-se pecadores, não de forma abstracta, mas “com pecados concretos”: “todos nós os temos, tantos”, afirma.
“Deixemo-nos olhar por Jesus com aquele olhar misericordioso cheio de amor”, prosseguiu.
E permanecendo-se ainda no escândalo, ressaltou que existem tantos:
“Existem tantos, tantos. E sempre, também na Igreja hoje. Dizem: “Não, não se pode, é tudo claro, é tudo, não, não... eles são pecadores, devemos afastá-los”. Também tantos Santos são perseguidos ou se levanta suspeitas sobre eles. Pensemos em Santa Joana d’Arc, mandada para a fogueira, porque pensavam que fosse uma bruxa, pensem no Beato Rosmini. “Misericórdia eu quero, e não sacrifícios”. E a porta para encontrar Jesus é reconhecer-se como somos, a verdade. Pecadores. E ele vem, e nos encontramos. É tão bonito encontrar Jesus!” Fonte: http://pt.radiovaticana.va
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“Com o Papa Francisco, a Igreja é desafiada a promover uma 'comunicação encarnada', que passa justamente pela 'via da atração', ou seja, pelo testemunho, que não depende de grandes discursos dogmáticos ou teológicos, mas exige concretude e coerência: fazer o que se diz e dizer o que se faz. (...) Uma comunicação católica deve se explicitar tanto na sua abrangência (uma comunicação 'universal', que dialoga realmente com todos e todas) quanto na sua unidade (não uniformidade) de pensamento e prática em questões religiosas ou não.”
O Master em Evangelização do Instituto Teológico Franciscano (ITF), de Petrópolis, recebeu o jornalista Moisés Sbardelotto, que lecionou a disciplina “Comunicação e Linguagem”. Moisés é graduado em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e também é doutor e mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), na linha de pesquisa Midiatização e Processos Sociais.
Nesta entrevista ele nos conta sobre a comunicação na Igreja, a sua opinião sobre os padres midiáticos, e a influência das mídias na relação interpessoal. A reportagem é de Neuci Lopes e Igor Fernandes, publicada no sítio do ITF, 14-09-2017.
Eis a entrevista.
Deus dialoga com a humanidade desde a sua criação. Se o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus, qual seria, então, a causa da dificuldade de diálogo entre as pessoas?
Creio que a causa é justamente o fato de sermos humanos, e não deuses. Trazemos a “imagem e semelhança” de Deus no nosso DNA, de um Deus que sai ao encontro do “outro”, de um Deus que se “faz Palavra”, que se comunica. O Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil (Doc. 99 da CNBB) afirma: “Criado à imagem e semelhança de Deus, o ser humano se comunica não por uma exigência, mas por um dom natural; não por uma ordem, mas por uma vocação. No ato da criação, Deus o constitui comunicador, dotando-o de imaginação, talento, inteligência e criatividade artística” (n. 36).
Mas, ao mesmo tempo, por sermos humanos, e não deuses, somos seres limitados, inclusive em nossas capacidades de comunicação. E o “ruído” (aquilo que dificulta o diálogo) faz parte de todo e qualquer processo de comunicação humana. Antes de tentar eliminá-lo, o importante é reconhecê-lo como algo que constitui o próprio ato da comunicação, e esse reconhecimento nos leva a agir com mais consciência dos limites e das possibilidades de todo diálogo.
Por outro lado, é paradoxal: a dificuldade de diálogo, muitas vezes, se deve justamente ao fato de acharmos que somos “semideuses”, seres autossuficientes, autônomos, independentes. E o “outro” acaba sendo visto apenas como um “apêndice”, como um “objeto” inerte e passivo da minha comunicação. Contudo, dessa forma, agimos “diabolicamente” (dia-bolos, aquilo que divide, que separa), ignorando e negando o “tu” que deveria nos interpelar na sua diferença radical. Um verdadeiro diálogo demanda o reconhecimento desse “outro”, desse “tu”, que não sou eu, não pensa como eu (é outro “logos”), não tem as mesmas experiências e vivências que eu e, portanto, tem também suas verdades próprias. Há uma frase do Papa Francisco que sintetiza muito bem essa ideia: “Dialogar não significa renunciar às próprias ideias e tradições, mas à pretensão de que sejam únicas e absolutas”.
As redes sociais têm sido benéficas para a comunicação interpessoal? Elas aproximam ou afastam os indivíduos?
Aquilo que costumamos chamar de “redes sociais” não são nem boas, nem más, mas também não são neutras. Facebook, Twitter, Instagram e outras plataformas são sistemas muito complexos, que envolvem aspectos sociais (o modo como os brasileiros interagem, por exemplo, é diferente do modo como outros povos interagem nessas plataformas, além de algumas plataformas terem um uso muito mais disseminado em alguns países e não em outros etc.), aspectos tecnológicos (o Facebook apresenta uma determinada interface e determinados protocolos de interação que são diferentes do Twitter, e uma coisa é usar essas plataformas no computador fixo, outra é usá-las no celular etc.) e ainda aspectos simbólicos (como as temáticas que mais gostamos, as páginas e contas que “curtimos”, o tipo de postagens que publicamos etc.), entre outros.
Dentro desse panorama complexo, é difícil dar uma resposta “sim” ou “não”, pois não é apenas o uso pessoal que vai determinar o benefício ou malefício das “redes sociais”, pois há outros aspectos em jogo, que não controlamos. Sendo redes, são as interconexões, as inter-relações, as interações entre as diversas pessoas e os diversos elementos tecnológicos e simbólicos que vão dar um sentido positivo ou negativo ao que circula nesses ambientes. Por isso, prefiro falar em “redes comunicacionais”, porque elas só existem e se mantêm a partir de um esforço comunicacional ativo e constante por parte das pessoas – e é esse processo, na sua indeterminação, que vai ordenando (ou desordenando…) os sentidos em jogo.
Em poucas palavras, as plataformas que conhecemos, sem dúvida, facilitam a aproximação entre as pessoas, conhecidas ou desconhecidas, encurtando distâncias e reduzindo tempos. Mas é só no momento específico e concreto da interação entre essas pessoas que podemos perceber se esse ambiente que chamamos de “rede social” está sendo benéfico ou não para essa relação. É todo o processo de comunicação que vai indicar isso, e não apenas o “local” onde ele ocorre.
Podemos afirmar que Jesus foi um grande comunicador? Por quê?
Sem dúvida. Deixo a palavra ao Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil, que é muito rico a esse respeito:
“A imagem de Jesus é a imagem viva do amor de Deus e de seu desejo de relacionar-se com o ser humano, expresso nos gestos, nas emoções e nos comportamentos que caracterizam Jesus: o amor misericordioso e primoroso para com os rejeitados, os pobres, os marginalizados, os sofredores, o que não é uma mera representação do amor de Deus, mas sua atualização. Revelando-nos a perfeição do amor, Jesus põe-se também como perfeito comunicador” (nn. 41-43).
Em sua comunicação, Jesus não recorria aos mais elevados padrões da estilística retórica nem às mais aprimoradas técnicas de expressão da época, mas falava a linguagem do povo, com o gênero discursivo mais simples, as parábolas, usando como referência elementos do cotidiano daquelas pessoas, como as próprias relações humanas, as festas, as ovelhas, o campo, a pérola, o fermento, a moeda, a videira, a figueira… E não só “discursava”, mas comunicava com a própria vida, com gestos, com lágrimas, suor, saliva (ou, melhor, “cuspe”, cf. Jo 9, 6), barro, sangue, vinho, pães, peixes… Não era uma comunicação “desencarnada”, mas, ao contrário, muito encarnada nos costumes e na cultura do seu povo, com grande riqueza de sabores, cheiros, cores.
Jesus também foi um comunicador paradoxal: seu único “texto” escrito de próprio punho perdeu-se com o vento, por ter sido escrito na areia… (cf. Jo 8, 6). Assim, não temos nenhum vestígio ou registro direto de Jesus, apenas o relato oral e escrito daqueles e daquelas que o conheceram pessoalmente e o comunicaram. A Igreja e a experiência de fé dos cristãos são fruto dessa comunicação, que surge a partir do amor de um Deus que se comunica. Trata-se de um “fluxo comunicacional” que só foi possível porque uma menina, Maria, soube inserir-se nele, ouvindo e tendo a audácia de dialogar com o anjo Gabriel; e que, por sua vez, só continuou depois da crucificação de Jesus porque outra mulher, Madalena, teve a coragem de anunciar a “loucura” da ressurreição, sendo reconhecida hoje como “apóstola dos apóstolos”.
Além disso, para os que creem, Jesus não apenas “foi” um grande comunicador, mas continua se comunicando com a humanidade no hoje da história. Jesus segue “fazendo-se carne” nas realidades mais humanas que existem. Tudo o que é humano nos revela Jesus, e é aí que temos que buscá-Lo. E Jesus nos revela o que há de divino no humano, e é isso que devemos encontrar nas pessoas com quem nos comunicamos.
A Igreja católica, hoje, estabelece uma comunicação atraente e efetiva?
Para uma resposta mais precisa, seria necessário especificar sobre que nível da Igreja Católica estamos falando. De um modo geral, a Igreja só se manteve e se mantém viva ao longo da história porque se comunica com as diversas culturas e sociedades, entre acertos e erros, entre gestos de grande “atração e efetividade” (mesmo que realizados com muita singeleza e pobreza, como em grande parte da ação missionária da Igreja), e gestos menos edificantes e até mesmo pouco cristãos.
Com o Papa Francisco, a Igreja é desafiada a promover uma “comunicação encarnada”, que passa justamente pela “via da atração”, ou seja, pelo testemunho, que não depende de grandes discursos dogmáticos ou teológicos, mas exige concretude e coerência: fazer o que se diz e dizer o que se faz.
As TVs católicas, no Brasil, atingem o objetivo de “chegar” aos fiéis?
Como meios de comunicação massivos, certamente elas chegam a muitos milhões de fiéis. E essa é uma grande riqueza e, ao mesmo tempo, um grande limitador. Riqueza porque é um alcance impressionante, com um poder simbólico gigantesco. Mas é também um limitador porque, para poder falar numa linguagem que um público grande e diverso como esse possa entender, é preciso simplificar e “padronizar” a fé cristã em uma “média”, que possa ser recebida por um “cristão médio”. “Dilui-se” a mensagem cristã para atender ao grande público. Isso pode empobrecer a ação evangelizadora desses canais, que, muitas vezes, acabam oferecendo aos telespectadores apenas “leite” e não “alimento sólido” sobre a fé (cf. Hb 5, 11-14). Ou, então, certos modelos pastorais e litúrgicos ou estilos de “ser católico” podem passam a se constituir como norma, o que pode levar ao esquecimento ou até ao menosprezo de outros modelos e estilos que enriquecem a diversidade característica do catolicismo, especialmente em um país como o Brasil.
Mas as aspas da sua pergunta apontam para outro “chegar”, que vai além do aspecto numérico da quantidade de telespectadores. E aqui eu acho que ainda estamos engatinhando, como Igreja. Alguns canais já alcançaram um excelente nível técnico nas suas produções, sem dúvida. Mas isso não basta. Assim como não basta um “bom conteúdo” de um programa específico se a grade de programação do canal como um todo denuncia uma ênfase em aspectos que se distanciam da fé cristã. Insere-se aí a presença de “intervalos” excessivamente voltados ao puro negócio, à venda não mais de “indulgências”, mas de “acessórios cristãos”, de “penduricalhos da fé”, quando não de produtos que beiram até mesmo o engodo (cintas de emagrecimento, gotas para parar de beber que podem ser misturadas na própria bebida alcoólica, cremes rejuvenescedores etc.). É claro, manter um canal em TV aberta não é barato. Mas até que ponto vale a pena investir milhões de reais obtidos mediante parcerias publicitárias com certas empresas e produtos que desmentem a simplicidade e a veracidade daquele Galileu a quem seguimos? Para que e, mais importante, para quem busca-se manter um canal de TV católico no ar?
Às vezes, também é perceptível um certo proselitismo na linguagem televisiva católica, que só sabe falar “catoliquês”. Isso, no fundo, desrespeita a própria Constituição, que, no seu artigo 221, determina que a produção e a programação das emissoras de televisão devem atender também a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas, promovendo especialmente a cultura regional. Uma programação 100% religiosa e centrada no eixo Rio-São Paulo desrespeita esses princípios, além de ir contra aquilo que Bento XVI já afirmava: “A Igreja não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por ‘atração’”.
E, por fim, dentro desse proselitismo, muitas vezes, há também um certo “sectarismo católico”, em que se fala “sempre o mesmo para os mesmos”. Cada movimento, cada congregação, cada diocese deseja “traduzir” o catolicismo à sua maneira, segundo o seu linguajar, gerando uma dispersão (senão até uma divergência) que pode ser contraproducente. Por exemplo, sobre questões-chave no contexto nacional, como a situação política, a Amazônia, os desempregados e empobrecidos, expressa-se uma sintonia entre os canais católicos, em termos de posicionamento editorial? Segue-se o magistério do Papa Francisco e da CNBB, quando esta toma uma posição como colégio episcopal?
Em suma, uma comunicação católica deve se explicitar tanto na sua abrangência (uma comunicação “universal”, que dialoga realmente com todos e todas) quanto na sua unidade (não uniformidade) de pensamento e prática em questões religiosas ou não.
Qual a sua opinião sobre os “padres midiáticos”?
Muito do que eu falei na resposta anterior pode ser dito aqui. Os “padres midiáticos” cumprem um papel na cultura católica brasileira (em outros países, esse “sujeito social” seria inconcebível). Eles ajudam a anunciar a fé católica e a traduzi-la para o grande público de uma forma mais próxima da vida comum do cidadão médio, alguém que “fala e canta aos corações”, como se costuma dizer.
O problema, novamente, é quando um certo estilo de “ser padre” começa a se impor como norma em toda a Igreja, tornando quase obrigatório que os demais sacerdotes assumam esse estilo, ou ainda obstaculizando que outros estilos sejam bem aceitos nas comunidades locais. Essa padronização é extremamente empobrecedora para a Igreja.
Há ainda o problema da fama e do clericalismo. Porque o fato de “aparecer na TV” – que, para o senso comum, já indica uma certa “aura” de extraordinariedade – reforça o imaginário popular do padre como “autoridade” em si mesmo, para além de suas verdadeiras qualidades pessoais. O “padre-estrela” também é constantemente cercado pela tentação do exibicionismo. O risco é anunciar apenas a si mesmo (os gostos pessoais e a própria imagem, roupas, cortes de cabelo…), em uma “eu-vangelização” pouco cristã. Evangelizar é outra coisa, porque é inserir-se na ação comunicacional de um Outro, que nos precede e nos supera.
A relação padre-fiel – na mídia e fora dela – não deveria ser de “fanatismo”, “idolatria” ou “veneração”, pois é uma relação de fraternidade, de um “caminhar juntos” entre irmãos na fé, compartilhando o mesmo batismo e a mesma vocação de discípulos-missionários, na expressão do Documento de Aparecida. Somos todos “servos inúteis”.
Que qualidade do diálogo está mais em falta, atualmente: clareza, mansidão, confiança ou prudência?
Estamos vivendo tempos de extrema polarização. Por isso, embora as quatro qualidades sejam essenciais, parece-me que a prudência e a mansidão são mais do que nunca fundamentais. Prudência para não “sair falando o que der na telha” – inclusive porque as nossas próprias “telhas”, muitas vezes, são de vidro… e de um vidro muito frágil. E mansidão para saber falar apenas o necessário e quando necessário. E que seja um falar manso, pacífico, sem o peso excessivo dos preconceitos, dos apriorismos, das generalizações, da agressividade. Como diz a canção, “aprende-se mais ouvindo”. O silêncio é sempre mais comunicativo e significativo do que qualquer palavra vã.
A mídia exerce grande poder sobre a sociedade. O senhor acredita que ela tenha influência na “migração” de fiéis para outras denominações religiosas?
Primeiramente, é preciso ponderar esse “grande poder”. Sem dúvida, a “grande mídia” tem um poder de disseminar informações em larga escala, “pautando” o dia a dia sociedade. Mas, no caso específico da TV, cada telespectador também tem um “grande poder” sobre a TV, seja trocando de canal, desligando o televisor ou ainda “vendo” aquilo que não é mostrado, isto é, indo além do conteúdo que é exibido e tentando ler os interesses que estão em jogo no modo como a notícia é construída.
Porque toda informação passa por uma “fôrma” que “dá forma” à notícia. Mudando de fôrma, a notícia já não é mais a mesma. Por isso, para além daquilo que a TV “in-forma”, o telespectador – que não é passivo – pode “re-formar” a informação. E aqui é preciso lembrar o papel pedagógico da Igreja, mediante seus vários ministros e pastorais, de formar os fiéis para que saibam “ler” criticamente o que a mídia faz e produz, a partir das “lentes” oferecidas pela tradição cristã.
Quanto à “migração” de fiéis, é importante perceber que ela tem inúmeras influências, seja no âmbito das Igrejas ou religiões que “perdem” fiéis (pois esse não é um fenômeno que ocorre apenas na Igreja Católica), seja no âmbito das denominações que os acolhem. E aqui está um detalhe importante: a acolhida feita por essas denominações. Ninguém troca o certo pelo duvidoso. Há algo de bom que o fiel encontra nessas denominações, algo que realmente preenche o vazio ou que satisfaz alguma necessidade. Na outra denominação, há uma capacidade positiva que nós abandonamos, ou menosprezamos, ou ainda não desenvolvemos o suficiente, mas que foi eficaz na atração desse fiel. É claro que há também abusos e distorções em todo trânsito religioso, mas certamente há uma busca real de “algo mais” por parte desses fiéis, que não é encontrado nas Igrejas de origem.
Por isso, antes de qualquer crítica a essa “substituição”, é necessário fazer um mea culpa sincero como Igreja, reconhecendo “onde foi que erramos” ou onde fomos indiferentes na relação com esse fiel, a ponto de fazê-lo optar por outra denominação. É importante não alienar o problema, isto é, não jogar a culpa dessa migração sobre o outro (o fiel ou a nova denominação).
A mídia entra nesse “pacote”. Embora algumas denominações religiosas apostem muito na ação midiática, aprimorando o uso das diversas linguagens, desde o púlpito até as redes, creio que o aspecto midiático não tem um papel fundamental nem acessório, não é causa nem consequência. A questão em jogo é toda a rede comunicacional (para além das mídias) envolvida nessa “migração”. E essa rede começa antes do abandono da Igreja de origem, quando esta já não dá mais conta de reconhecer e de responder às necessidades do fiel nos seus vários processos de comunicação (por exemplo, promovendo celebrações meramente formais e pouco abertas ao Mistério, com ministros distantes, indisponíveis ou com discurso maçante, conteúdos alheios à realidade de vida das pessoas, comunidades “frias” ou preconceituosas, locais de culto desleixados ou “pirotécnicos” demais etc.).
Essa rede comunicacional se estende e se complexifica, depois, na atração do fiel pela nova denominação, mediante uma boa comunicação realmente “em rede”, chegando ao fiel pelas mais diversas mídias, desde um simples panfleto até um moderno aplicativo de celular, mas que também passa pela boa acolhida no templo, por ministros dispostos, acessíveis e com boa retórica, locais de culto bem cuidados, celebrações envolventes, comunidades vivas e festivas etc. Tudo isso é comunicação, para além de uma mídia propriamente dita.
A Igreja, nesse sentido, é em si mesma uma “mídia” complexa, pois tudo o que ela faz (ou deixa de fazer) é comunicação, seja no âmbito midiático ou fora dele. De nada adianta uma paróquia ter um meio de comunicação excelente (rádio, TV, jornal, site), se, na primeira visita de um fiel, este não recebe nem um “bom dia” do pároco ou dos agentes de pastoral. Esse “furo” na rede comunicacional pode ser sintomático de um tecido paroquial prestes a romper – o que, muito provavelmente, levará esse fiel a buscar “outra comunicação”. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
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Queridos irmãos e irmãs:
Na história religiosa do antigo Israel, os profetas tiveram grande relevância, com seus ensinamentos e sua pregação. Entre eles, surge a figura de Elias, suscitado por Deus para levar o povo à conversão. Seu nome significa “o Senhor é meu Deus” e é de acordo com este nome que se desenvolve toda a sua vida, consagrada inteiramente a provocar no povo o reconhecimento do Senhor como único Deus. De Elias o Eclesiástico diz: “O profeta Elias surgiu como o fogo, e sua palavra queimava como tocha” (Eclo 48,1). Com esta chama, Israel volta a encontrar seu caminho rumo a Deus. Em seu ministério, Elias reza: invoca o Senhor para que devolva a vida ao filho de uma viúva que o havia hospedado (cf. 1Re 17,17-24), grita a Deus seu cansaço e sua angústia, enquanto foge pelo deserto, jurado de morte pela rainha Jezabel (cf. 1Re 19,1-4), mas sobretudo no monte Carmelo, onde se mostra todo o seu poder de intercessor, quando, diante de todo Israel, reza ao Senhor para que se manifeste e converta o coração do povo. É o episódio narrado no capítulo 18 do Primeiro Livro dos Reis, no qual hoje nos deteremos.
Encontramo-nos no reino do Norte, no século IX antes de Cristo, em tempos do rei Ajab, em um momento em que Israel havia se criado uma situação de aberto sincretismo. Junto ao Senhor, o povo adorava Baal, o ídolo tranquilizador de quem se acreditava que vinha o dom da chuva e a quem, por isso, se atribuía o poder de dar fertilidade aos campos e vida aos homens e às bestas. Ainda pretendendo seguir o Senhor, Deus invisível e misterioso, o povo buscava segurança também em um deus compreensível e previsível, de quem acreditava poder obter fecundidade e prosperidade em troca de sacrifícios. Israel estava cedendo à sedução da idolatria, a contínua tentação do crente, figurando-se poder “servir a dois senhores” (cf. Mt 6,24; Lc 16,13) e de facilitar os caminhos inescrutáveis da fé no Onipotente, colocando sua confiança também em um deus impotente feito por homens.
Precisamente para desmascarar a necedade enganosa dessa atitude, Elias reúne o povo de Israel no monte Carmelo e o coloca diante da necessidade de fazer uma escolha: “Se o Senhor é o verdadeiro Deus, segui-o; mas, se é Baal, segui a ele” (1Re 18, 21). E o profeta, portador do amor de Deus, não deixa sua gente sozinha diante desta escolha, mas o ajuda, indicando o sinal que revelará a verdade: tanto ele como os profetas de Baal prepararão um sacrifício e rezarão, e o verdadeiro Deus se manifestará respondendo com o fogo que consumirá a oferenda. Começa assim a confrontação entre o profeta Elias e os seguidores de Baal, que na verdade é entre o Senhor de Israel, Deus de salvação e de vida, e o ídolo mudo e sem consistência, que não pode fazer nada, nem para bem nem para mal (cf. Jr 10,5). E começa também a confrontação entre duas formas completamente diferentes de dirigir-se a Deus e de rezar.
Os profetas de Baal, de fato, gritam, agitam-se, dançam, pulam, entram em um estado de exaltação, chegando a fazer-se incisões no corpo, “com espadas e lanças, até o sangue escorrer” (1Re 18,28). Usam a si mesmos como recurso para interpelar o seu deus, confiando em suas próprias capacidades de provocar sua resposta. Revela-se assim a realidade enganosa do ídolo: este está pensado pelo homem como algo de que se pode dispor, que se pode gerenciar com as próprias forças, a que se pode aceder a partir de si mesmos e da própria força vital. A adoração do ídolo, ao invés de abrir o coração humano à Alteridade, a uma relação libertadora que permita sair do espaço estreito do próprio egoísmo para aceder a dimensões de amor e de dom mútuo, fecha a pessoa no círculo exclusivo e desesperador da busca de si mesma. E o engano é tal que, adorando o ídolo, o homem se vê obrigado a ações extremas, na tentativa ilusória de submetê-lo à sua própria vontade. Por isso, os profetas de Baal chegam até a causar-se dano, a retalhar-se, em um gesto dramaticamente irônico: para obter uma resposta, um sinal de vida do seu deus, eles se cobrem de sangue, recobrindo-se simbolicamente de morte.
Muito diferente é a atitude de oração de Elias. Ele pede ao povo que se aproxime, envolvendo-o assim em sua ação e em sua súplica. O objetivo do desafio dirigido por ele aos profetas de Baal era o de voltar a levar a Deus o povo que se havia extraviado seguindo os ídolos; por isso, quer que Israel se una a ele, convertendo-se em partícipe e protagonista da sua oração e do que está acontecendo. Depois, o profeta erige um altar, utilizando, como recita o texto, “doze pedras, segundo o número das doze tribos dos filhos de Jacó, a quem Deus tinha dito: 'Teu nome será Israel'” (v. 31). Essas pedras representam todo Israel e são a memória tangível da história de eleição, de predileção e de salvação de que o povo foi objeto. O gesto litúrgico de Elias tem uma repercussão decisiva; o altar é o lugar sagrado que indica a presença do Senhor, mas essas pedras que o compõem representam o povo, que agora, por mediação do profeta, está colocado simbolicamente diante de Deus, converte-se em “altar”, lugar de oferenda e de sacrifício.
Mas é necessário que o símbolo se converta em realidade, que Israel reconheça o verdadeiro Deus e volte a encontrar sua própria identidade de povo do Senhor. Por isso, Elias pede a Deus que se manifeste, e essas doze pedras, que deveriam recordar a Israel sua verdade, servem também para recordar ao Senhor sua fidelidade, à qual o profeta apela na oração. As palavras da sua invocação são densas em significado e em fé: “Senhor, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, mostra hoje que tu és Deus em Israel, e que eu sou teu servo e que é por ordem tua que fiz estas coisas. Ouve-me, Senhor, ouve-me, para que este povo reconheça que tu, Senhor, és Deus, e que és tu que convertes o seu coração!” (v. 36-37; cf. Gn 32, 36-37). Elias se dirige ao Senhor chamando-o de Deus dos Pais, fazendo memória implícita, assim, das promessas divinas e da história de eleição e de aliança que uniu indissoluvelmente o Senhor e o seu povo. O envolvimento de Deus na história dos homens é tal, que seu Nome já está inseparavelmente unido ao dos Patriarcas, e o profeta pronuncia esse Nome santo para que Deus recorde e se mostre fiel, mas também para que Israel se sinta chamado pelo seu nome e volte a encontrar sua fidelidade. O título divino pronunciado por Elias parece, de fato, um pouco surpreendente. Ao invés de usar a fórmula habitual, “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”, ele utiliza um apelativo menos comum: “Deus de Abraão, de Isaac e de Israel”. A substituição do nome “Jacó” pelo de “Israel” evoca a luta de Jacó no vau de Jaboc, com a mudança de nome a que o narrador faz referência explícita (cf. Gn 32,31) e de que falei em uma das catequeses passadas. Esta substituição adquire um significado a mais dentro da invocação de Elias. O profeta está rezando pelo povo do reino do Norte, que se chamava precisamente Israel, diferente de Judá, que indicava o reino do Sul. E agora, este povo, que parece ter esquecido sua própria origem e sua própria relação privilegiada com o Senhor, sente que o chamam pelo seu nome, enquanto se pronuncia o Nome de Deus, Deus do Patriarca e Deus do Povo: “Senhor, Deus (…) de Israel, mostra hoje que tu és Deus em Israel”.
O povo por quem Elias reza é colocado diante da sua própria verdade e o profeta pede que também a verdade do Senhor se manifeste e que Ele intervenha para converter Israel, afastando-o do engano da idolatria e levando-o, assim, à salvação. Sua petição é que o povo finalmente saiba, conheça em plenitude quem é verdadeiramente seu Deus, e faça a escolha decisiva de seguir somente Ele, o verdadeiro Deus. Porque somente assim Deus é reconhecido pelo que é, Absoluto e Transcendente, sem a possibilidade de colocá-lo junto a outros deuses, que O negariam como absoluto, relativizando-o. Esta é a fé que faz de Israel o povo de Deus; é a fé proclamada no bem conhecido texto do Shema‘ Israel: “Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6,4-5). Ao absoluto de Deus, o crente deve responder com um amor absoluto, total, que comprometa toda a sua vida, suas forças, seu coração. E é precisamente para o coração do seu povo que o profeta, com sua oração, está implorando conversão: “Que este povo reconheça que tu, Senhor, és Deus, e que és tu que convertes o seu coração” (1Re 18,37). Elias, com sua intercessão, pede a Deus o que o próprio Deus deseja fazer, manifestar-se em toda a sua misericórdia, fiel à sua própria realidade de Senhor da vida que perdoa, converte, transforma.
E isso é o que acontece: “Caiu o fogo do Senhor, que devorou o holocausto, a lenha, as pedras e a poeira, e secou a água que estava no rego. Vendo isto, o povo todo prostrou-se com o rosto em terra, exclamando: “É o Senhor que é Deus, é o Senhor que é Deus!'” (v. 38-39).
O fogo, este elemento ao mesmo tempo necessário e terrível, ligado às manifestações divinas da sarça ardente e do Sinai, agora serve para mostrar o amor de Deus que responde à oração e se revela ao seu povo. Baal, o deus mudo e impotente, não havia respondido às invocações dos seus profetas; o Senhor, no entanto, responde, de forma irrevocável, não só queimando o holocausto, mas inclusive secando toda a água que havia sido derramada ao redor do altar. Israel já não pode duvidar; a misericórdia divina saiu ao encontro da sua fraqueza, das suas dúvidas, da sua falta de fé. Agora, Baal, o ídolo vão, está vencido, e o povo, que parecia perdido, encontrou o caminho da verdade e se reencontrou.
Queridos irmãos e irmãs, o que esta história do passado nos diz? Qual é o presente desta história? Antes de tudo, está em questão a prioridade do primeiro mandamento: adorar somente a Deus. Onde Deus desaparece, o homem cai na escravidão de idolatrias, como mostraram, em nossa época, os regimes totalitários, e como mostram também diversas formas de niilismo, que tornam o homem dependente de ídolos, de idolatrias, o escravizam. Segundo, o objetivo primário da oração é a conversão: o fogo de Deus que transforma nosso coração e nos torna capazes de vê-Lo e, assim, de viver segundo Deus e de viver para o outro. E o terceiro ponto. Os Padres nos dizem que também esta história de um profeta será profética se – afirmam – for sombra do futuro, do futuro Cristo; é um passo no caminho rumo a Cristo. E nos dizem que aqui vemos o verdadeiro fogo de Deus: o amor que guia o Senhor até a cruz, até o dom total de si. A verdadeira adoração de Deus, então, é doar-se a Deus e aos homens, a verdadeira adoração é o amor. E a verdadeira adoração de Deus não destrói, mas renova, transforma. Certamente, o fogo de Deus, o fogo do amor queima, transforma, purifica, mas precisamente assim não destrói, e sim cria a verdade do nosso ser, recria nosso coração. E assim, realmente vivos pela graça do fogo do Espírito Santo, do amor de Deus, somos adoradores em espírito e verdade. Obrigado!
*Papa Bento XVI. CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 15 de junho de 2011
Fonte: http://cleofas.com.br
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Venham trabalhar na vinha
Do CD- CD - O Espírito da Missão
1-"Venham trabalhar na minha vinha", dilatar meu reino entre as nações, convidar meu povo ao banquete, quero habitar nos corações.
Unidos pela força da oração, ungidos pelo espírito da missão. Vamos juntos construir uma igreja em ação.
2-"Venham trabalhar na minha vinha", espalhar na terra o meu amor, muitos não conhecem a Boa Nova, vivem como ovelhas sem pastor.
3-"Venham trabalhar na minha vinha", com fervor meu nome proclamar, que ninguém se queixe ao fim do dia, ninguém me chamou a trabalhar
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