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“Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus...” (Mt 5,12)
O artigo é de Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o evangelho segundo Mateus 5,1-12, correspondente à quinta-feira, dia 2 de novembro, Comemoração dos fiéis defuntos.
No dia de Finados, fazemos memória e nos unimos a todas aquelas pessoas cujos rostos estão gravados em nossa mente e coração, pois foram presenças que nos sustentaram, nos confortaram, nos animaram e nos impulsionaram. E podemos expressar a confiança profunda de que a vida é conduzida secretamente a um Porto de Amor definitivo, e todo pranto, impotência e fragilidade serão abraçados e sanados n’Ele.
Há tanto que agradecer a estas pessoas que, como silencioso fermento, fizeram história com Deus no interior de nossa pobre humanidade. Foram presenças inspiradoras que melhoraram uma parte do mundo e nossa gratidão as acompanha. Ditosos eles e elas, e ditosos também nós porque, na comunhão com aqueles(as) que já vivem a páscoa definitiva, somos movidos a seguir seus passos pelo caminho da vida, para sermos dispensadores humildes de felicidade, compaixão, mansidão, famintos e sedentos de justiça, de paz.
Com a morte começa a vida para sempre, no coração do Deus amor. E se a morte é capaz de nos privar do dom da vida, o “amor tem poder para nos devolvê-la”, nos afirma o bispo Balduino de Cantebery.
Ao falar da morte sempre nos sentimos impotentes, pois ela nos ultrapassa. Sabemos de sua existência, mas muitas vezes nos dá medo. E o medo da morte impede viver adequadamente o presente. Mais grave ainda, o medo da morte pode chegar a nos travar profundamente e alimentar uma angústia a ponto de impedir-nos de viver a vida com sentido, qualidade e prazer.
Nossa sociedade tende a negar a morte, afastando-a dos nossos ambientes cotidianos, tornando-a invisível; procuramos negá-la, escondê-la, dissimulá-la; preferimos não falar dela e, mesmo quando falamos desta realidade última, a ela nos referimos com temor e tremor. O pânico e a negação são nosso pão de cada dia: a compulsão por manter-nos – ou ao menos parecer-nos – jovem, o culto à saúde e à vitalidade, a incapacidade de aceitar a fragilidade e a finitude de nossa natureza humana, deixam transparecer o medo de nos deparar com a morte.
A morte nos golpeia em dimensões muito sensíveis e frágeis de nossa experiência humana; ela desnuda e des-vela a precariedade de nossa existência. Com nada chegamos ao mundo e sem nada partiremos dele. E a realidade é que sem aceitação da morte continuamos presos à onipotência infantil que nos faz fantasiar de seres imortais.
E, no entanto, a morte está aí, na volta da esquina; por ser algo seguro e certo, a morte é realidade freqüente de distância, mistério e silêncio; ela nos faz cruzar o umbral do desconhecido, do qual é impossível dar um passo atrás; ficamos paralisados frente ao desconhecido e ao irreversível. A morte põe fim ao nosso estado de caminhantes neste mundo, tempo no qual fomos nos amadurecendo e crescendo.
A experiência cristã, por outro lado, nos revela o caminho de uma morte preparada ao longo da vida, porque a entende em relação com a vida e a vida em relação com a morte. Vida sem morte é irresponsável. Tira a seriedade da vida, que lhe é dada pela morte.
Na verdade, a morte nunca fala sobre si mesma. Ela sempre nos fala sobre aquilo que estamos fazendo com a própria vida: as perdas, os sonhos não realizados, os riscos que não enfrentamos por medo...
É de todos conhecido o refrão: “A morte menos temida dá mais vida”.
Superar o medo da morte é um processo longo, complexo, mas para o cristão constitui uma experiência religiosa muito profunda, que o desafia a aprofundar na consciência de si mesmo e em sua capacidade de confiar em Deus. Vencer o medo da morte é reconhecer que a vida sempre é um dom, não o resultado de nosso esforço; e que, por isso mesmo, o essencial não é encontrar um caminho para alcançar a imortalidade, mas aprender a “morrer em Cristo”.
Não é a morte aquela que deve dar sentido à nossa vida, mas ao contrário, só aprendendo a viver é que se aprende a morrer. Mesmo que nos restasse apenas um segundo de vida, faríamos muito mal em pensar na morte. Seria muito mais positivo viver plenamente esse segundo.
A fé cristã não é masoquista ou sádica quando nos ensina a bem morrer. Assim nos dá maior responsabilidade para com a própria vida. O teólogo Soren Kierkegaard afirma que “só a fé proporciona ao ser humano o valor e a audácia necessárias para olhar a morte de frente”. Sem medos, sabendo que o Deus da vida, acolhe com amor e ternura, àqueles(as) que são “aspirados(as)” para dentro de suas entranhas misericordiosas.
O diretor japonês Akira Kurosawa retrata, de maneira original, questão da morte, em seu filme Ikiru, uma obra-prima de 1952. Trata-se da história de Watanabe, um humilde burocrata japonês que descobre ter câncer de estômago e apenas mais alguns meses de vida. O câncer serve de experiência reveladora para este homem, que antes tinha vivido uma vida tão limitada e atrofiada que seus próprios funcionários o apelidaram de “a múmia”.
Depois de descobrir o diagnóstico, ele falta ao trabalho pela primeira vez em 30 anos, retira uma grande quantia de dinheiro de sua conta-corrente e tenta voltar à vida em vibrantes boates japonesas. No meio desse ambiente devasso, ele encontra inesperadamente uma ex-funcionária que havia pedido demissão de seu escritório porque o emprego era tedioso demais: ela queria viver.
Fascinado por sua vitalidade e energia, ele a segue e implora para que ela o ensine como viver. Ela lhe disse apenas que odiava seu antigo trabalho porque se tratava de uma burocracia sem sentido. No novo emprego, em que faz bonecas numa fábrica de brinquedos, ela se sente inspirada e motivada a viver a partir da idéia de poder levar felicidade a muitas crianças.
Quando o burocrata revela a ela seu câncer e a proximidade da morte, ela fica horrorizada e corre para longe, emitindo apenas uma única mensagem por sobre os ombros: “Faça alguma coisa”.
Watanabe retorna, transformado, ao seu trabalho, recusa-se a ser engessado pelo ritual burocrático, quebra todas as regras e dedica o restante da vida à construção de um parque infantil, que seria aproveitado por muitas crianças, durante muitos anos. Na última cena, Watanabe, próximo da morte, está sentado em um balanço no parque. Apesar da nevasca, ele está sereno e se aproxima da morte com uma tranquilidade impressionante.
De fato, aqueles que que vivem com mais intensidade são os que deixam a segurança da margem e se dedicam apaixonadamente à missão de comunicar vida aos outros.
Por isso, para os cristãos, a morte sempre se refere à Vida e à vida; à Vida com maiúscula, junto a Deus e para sempre (que chamamos Vida Eterna), e a vida de todos os dias, na qual somos chamados a ser testemunhas do amor de Deus a todos os homens e mulheres deste mundo; uma vida de serviço, de compromisso, de entrega generosa para construir um mundo melhor; uma vida com sentido, para que, quando cruzar o umbral da porta desta vida, de verdade encontremos plenamente o que tanto buscávamos: o amor, a paz e o rosto bondoso de um Deus que é Amor.
A vida se expande quando compartilhada e se atrofia quando permanece no isolamento e na comodidade. E a morte é o instante da expansão plena para aquele que soube dar um sentido inspirador à sua existência. Podemos afirmar, então, com muita propriedade, que todos morremos para o interior da Vida.
Para meditar na oração
A certeza de nossa fé em Cristo morto e ressuscitado nos ajuda a tirar do coração os medos, os impulsos auto-referentes na busca de segurança e imortalidade, para encontrar uma paz profunda que nos permita fazer de nossa vida uma oferenda gratuita em favor da vida de outros.
Como você se situa diante da morte: medo? serenidade? certeza de poder mergulhar numa Vida maior?... Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
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A proposta Orçamentária para 2018 (PLN 20/2017), entregue ao Congresso Nacional pelo poder Executivo no 31/10 que prevê cortes bruscos em várias políticas, especialmente na área social, recebeu duras críticas do bispo de Pesqueira (PE), dom José Luiz Ferreira Salles. Os cortes, segundo o Governo Federal, foram feitos de acordo com a Emenda Constitucional 95, que impôs o teto de gastos e congela investimentos pelos próximos 20 anos.
Para se ter uma ideia o programa de inclusão social por meio do Bolsa Família – que ajudou o Brasil a sair do Mapa da Fome – perdeu mais R$ 3 bilhões na sua dotação orçamentária. Caiu de R$ 29,7 bilhões este ano para R$ 26,5 bilhões em 2018, uma redução de 12%. E os recursos da área de Segurança Alimentar e Nutricional caíram de R$ 736,3 milhões em 2017 para R$119,4 milhões em 2018, uma redução de 84%.
Em pronunciamento, o bispo de Pesqueira (PE), dom José Luiz Ferreira Salles, bispo referencial do Setor de Mobilidade Humana da CNBB criticou o Projeto de Lei Orçamentária do próximo ano que reduziu milhões de reais do investimento nas políticas públicas que atendem à agricultura familiar, a reforma agrária e o acesso à água.
Os cortes afetam fortemente o Programa 1 Milhão de Cisternas, encabeçado pela Articulação no Semiárido Brasileiro que recebeu, recentemente, o Prêmio “Política para o Futuro” (Future Policy Award), em Ordos, na China, mostrando para o mundo que é possível uma ação pensada pela sociedade civil ser reconhecida como uma política de Estado referente.
Segundo a avaliação de Naidison Baptista, coordenador executivo da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA) na Bahia, os ajustes nos orçamentos serão prejudiciais, porque “esses são programas essenciais do governo federal, os quais têm tido uma repercussão muito forte na vida das pessoas mais pobres”. Nos últimos 12 anos, o Programa Cisternas instalou 1,2 milhão de cisternas de consumo humano no semiárido, mas ainda é preciso atender mais de 350 mil famílias que ainda não têm acesso à água.
Em seu pronunciamento, o religioso reforça a importância, de neste momento, “nos unirmos na luta para garantir que o Estado brasileiro promova vida e dignidade para o nosso povo”. “Apelo, ainda, para as organizações e forças sociais e para as pessoas de boa vontade a reagirem. na perspectiva de uma mobilização, em vista de uma não aprovação de um orçamento que inviabilize as políticas sociais para o semiárido”.
Veja abaixo a íntegra do pronunciamento de dom José Luiz Ferreira Salles.
PRONUNCIAMENTO DO BISPO DIOCESANO: GUARDAR A ÁGUA: SEGREDO PARA CONVIVER COM O SEMIÁRIDO
“No pé da casa você faz sua cisterna
E guarda a água que o céu lhe enviou
É dom de Deus, é água limpa, é coisa linda
Todo idoso, o menino e a menina
Podem beber que é água pura e cristalina
(Roberto Malvezzi – Gogó)
O semiárido brasileiro abrange onze Estados do Nordeste e Sudeste. É reconhecido pela força e pela capacidade organizativa do seu povo. Foi nessa região que várias organizações se uniram em torno de uma causa: a convivência com o mesmo. Iniciativas como a ocupação da Sudene em 1993, que contou com a presença de Dom Hélder Câmara, e a união de diversas organizações da sociedade civil na criação de programas de captação de água de chuva fortaleceram essa causa.
Os cortes em benefícios públicos como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PAA), o cancelamento da contratação da assistência técnica rural e a diminuição de recursos para os programas de construção de cisternas comprovam a diminuição da importância da agricultura familiar para os atuais governantes. O Projeto de Lei Orçamentária deste ano reduziu milhões de reais do investimento nas políticas públicas que atendem à agricultura familiar, a reforma agrária e o acesso à água.
Nos próximos dias, os nossos parlamentares, eleitos pelo povo com a função de legislar em defesa dos direitos deste mesmo povo, discutirão o orçamento para o ano 2018. Faz-se necessário, assim, que nos mobilizemos e acompanhemos o que será votado. Não podemos apenas agir como espectadores passivos neste momento. É hora de levantarmos as vozes para que não fiquemos reféns de carros-pipa e de políticos inescrupulosos que são eleitos com a miséria de nossa gente.
Apelo a vocês, agricultores e agricultoras, que têm sua cisterna, que entrem nessa luta para que outros irmãos e irmãs possam ter qualidade de vida através de uma tecnologia muito simples e que tem feito tanto bem ao nosso povo.
A Articulação no Semiárido Brasileiro recebeu, recentemente, o Prêmio “Política para o Futuro” (Future Policy Award), em Ordos, na China, mostrando para o mundo que é possível uma ação pensada pela sociedade civil ser reconhecida como uma política de Estado referente. Reforço, neste momento, a importância de nos unirmos na luta para garantir que o Estado brasileiro promova vida e dignidade para o nosso povo. Apelo, ainda, para as organizações e forças sociais e para as pessoas de boa vontade a reagirem. na perspectiva de uma mobilização, em vista de uma não aprovação de um orçamento que inviabilize as políticas sociais para o semiárido.
O Espírito do Deus da vida, que consagrou e conduziu Jesus em sua missão, nos acompanhe e nos sustente na missão de cuidar e defender a vida, sobretudo onde e quando estiver mais ameaçada.
Dom José Luiz Ferreira Salles, CSsR
Bispo da Diocese de Pesqueira-PE
Fonte: http://cnbb.net.br
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Dia dos Fiéis Defuntos: “Velas são símbolos de uma oração contínua diante de Deus”
No Dia de Finados, 2 de novembro, dezenas de famílias lotam os cemitérios para visitar os jazigos de seus entes queridos e acender velas em sua homenagem. O costume faz com que as fábricas de velas tripliquem suas produções, sendo que as vendas atingem seu pico no mês de outubro, época em que a procura pelo artefato começa a aumentar.
De acordo com Gabriele da Silva Azevedo Gurgel, secretária da “Fábrica de Velas Pedras Vivas”, localizada em Brazlândia (DF), no período normal, o estabelecimento vende cerca de 50 caixas de velas por dia; com o Dia de Finados, o número salta para 200 caixas. Segundo ela, nesse período os funcionários também aumentam suas horas de trabalho para dar conta da demanda. Ela explica ainda que as velas mais procuradas para a ocasião são as comuns, chamadas de “palito” e as “duplex”. “Costumamos falar que o Dia de Finados é como o Natal para a gente, em questão de vendas”, afirma Gabriele.
O costume de acender velas para os fiéis defuntos, segundo a Igreja Católica faz parte do culto da humanidade e revela um ato de homenagem aos entes queridos. Para o assessor da Comissão para a Liturgia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), frei Faustino Paludo, a iniciativa representa a relação com a fé em Cristo e, o gesto, quando feito por um familiar significa que o ente “está na luz de Deus, plenamente iluminado ou participa da luz plena que é Jesus Cristo ressuscitado”.
As velas, no culto cristão católico, simbolizam o próprio Cristo, Luz do mundo. Elas são símbolos de uma oração contínua diante de Deus “para que queimem continuamente diante do Senhor” (Lev 24,4). A importância de acendê-las na intenção dos falecidos, segundo o frei, se dá no fato de que a oração, simbolizada na vela, seja contínua diante do Senhor. Isso porque depois de rezar e acender a vela, deixa-se na presença do Senhor um símbolo material do pedido, que o perpetuará “continuamente diante do Senhor” (Lev 24,4).
Para quem acha que as velas substituem as orações, frei Faustino alerta para o fato de que os falecidos não precisam do artefato e sim das orações, no entanto as orações e intenções podem ser simbolizadas pela vela. “No gesto de iluminarmos nossas liturgias com velas, estamos querendo dizer que queremos ser luzes e que queremos iluminar, assim como diz Jesus quando afirma que nós somos a Luz do mundo e que nossa luz deve brilhar”, finaliza.
“O uso de velas é antiquíssimo na Igreja, de longa tradição. Acompanham a oração pelo seu simbolismo: no Evangelho Jesus nos aconselha a esperarmos por ele com as vestes cingidas (com cordão, significando preparação para a viagem) e nas mãos lâmpadas acesas (simbolizando a fé e a caridade). É um dos símbolos do sacrifício. Claro que não substituem a oração, mas a acompanham. Em uso desde o tempo das catacumbas”, afirma o bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, dom Fernando Âreas Rifan.
Velas virtuais – Em tempos de tecnologia e com a utilização da internet, muitos estão acendendo velas virtuais. Questionado se o hábito tem legitimidade, o arcebispo de Palmas, dom Pedro Brito Guimarães afirma que o ato depende muito: “Se a pessoa reduz a sua religião e a sua fé a algo virtual e se isola da comunidade, alguma coisa está errada. Caiu no isolamento, no individualismo, no deserto espiritual. A fé nos leva a pertencer. Aliás, é simbolo de pertença. E a igreja vive da pertença e da presença dos seus fieis. Não se é e nem se vive plenamente o ser igreja, deitado, sentado, diante da tela de um computador, acendendo vela para defuntos”, argumenta. Fonte: http://cnbb.net.br
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A Igreja, no mundo inteiro, celebra em um só dia, 1º de novembro, a Solenidade de todos os santos. Algumas outras comunidades de fé como as igrejas ortodoxa, luterana e anglicana também considera em seus calendários, em outros dias, esta mesma motivação. Trata-se de fazer memória de todos os batizados que, pelo Batismo, são chamados a viver a santidade. A celebração de todos os santos remete ao século IV quando se fazia festa com essa intenção no primeiro domingo depois de Pentecostes. Somente no ano de 835, Papa Gregório IV passou para a data que perdura até os dias atuais. Portanto, o primeiro dia de novembro é marcado com a solenidade, pelos católicos, há mais mil anos.
Testemunho dos santos
Há testemunhos de grande antiguidade como o de São Cipriano de Cartago, do século III, falava da importância em se celebrar a memória dos santos: “Lembremo-nos uns aos outros em concórdia e unanimidade. Que em ambos os lados [isto é, o lado da vida e da morte] sempre oremos uns pelos outros. Vamos aliviar o fardo e as aflições por amor recíproco, que se um de nós, com a rapidez da condescendência divina, for primeiro, o nosso amor possa continuar na presença do Senhor, e as nossas orações por nossos irmãos e irmãs não cessam com a presença da misericórdia do Pai.” (São Cipriano de Cartago, Epístola 56:5)”.
Que em ambos os lados [isto é, o lado da vida e da morte] sempre oremos uns pelos outros
São Cipriano
São João Paulo II dizia que esta festa é “uma das maiores do Ano Litúrgico, sem dúvida entre as mais características e mais queridas ao povo cristão”. Em 1º de novembro do terceiro ano do seu pontificado, em 1980, o santo polonês disse: “A festa hodierna recorda e propõe à comum meditação algumas componentes fundamentais da nossa fé cristã. No centro da Liturgia estão sobretudo os grandes temas da comunhão dos santos, do destino universal da salvação, da fonte de toda a santidade que é Deus mesmo, da esperança certa na futura e indestrutível união com o Senhor, da relação existente entre salvação e sofrimento, e de uma bem-aventurança que já desde agora qualifica aqueles que se encontram nas condições descritas por Jesus no Evangelho segundo Mateus. Como chave de toda esta rica temática, porém, está a alegria, como recitamos na Antífona da entrada: ‘Alegremo-nos todos no senhor nesta solenidade de todos os santos’; e é uma alegria singela, límpida, corroborante, como a de quem se encontra numa grande família onde sabe que aprofunda as próprias raízes e da qual haure a linfa da própria vitalidade e da sua própria identidade espiritual“.
Santidade
Em 2002, o então cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa emérito Bento XVI, explicava o que vem a ser as virtudes heróicas, necessária para se reconhecer alguém como santo num processo de canonização. A explicação está registrada em matéria publicada pelo jornal “L’Osservatore Romano”: “Virtude heroica não quer dizer que o santo seja uma espécie de ‘atleta’ da santidade, que consegue fazer coisas que pessoas normais não conseguiriam fazer. Quer dizer, em vez disso, que na vida de um homem se revela a presença de Deus, e se torna mais patente tudo aquilo que o homem não é capaz de fazer por si mesmo (…). Virtude heroica não significa propriamente que alguém faz coisas grandes por suas forças pessoais, mas que na sua vida aparecem realidades que não foi ele quem fez, porque ele só esteve disponível para deixar que Deus atuasse.”
Peçamos ao Senhor a graça de ser pessoas simples e humildes, a graça de saber chorar, a graça de ser mansos, a graça de labutar pela justiça e pela paz, mas acima de tudo a graça de nos deixarmos perdoar por Deus, para assim nos tornarmos instrumentos da sua misericórdia
Papa Francisco
Papa Francisco, na solenidade de todos os santos de 2015, meditou as “bem-aventuranças” e afirmou que segui-las é o mesmo que buscar a santidade: “Estimados irmãos e irmãs, esta é a vereda da santidade, que é o mesmo caminho da felicidade. Foi esta a estrada percorrida por Jesus, aliás, Ele mesmo é este Caminho: que o percorre com Ele e passa através dele, entra na vida, na vida eterna. Peçamos ao Senhor a graça de ser pessoas simples e humildes, a graça de saber chorar, a graça de ser mansos, a graça de labutar pela justiça e pela paz, mas acima de tudo a graça de nos deixarmos perdoar por Deus, para assim nos tornarmos instrumentos da sua misericórdia. Foi assim que agiram os santos, que nos precederam na Pátria celestial. Eles acompanham-nos na nossa peregrinação terrena, encorajando-nos a ir em frente“. Fonte: http://cnbb.net.br
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Dom Armando Bucciol
Bispo da diocese de Livramento de Nossa Senhora (BA) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
“Como membros da família humana, orar uns pelos outros, num eterno presente de Deus, expressa um profundo sentido de comunhão e de ajuda recíproca”, desta forma o bispo da diocese de Livramento de Nossa Senhora (BA) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Armando Bucciol define o sentido da oração pelos mortos, por ocasião do Dia de Finados, 2 de novembro.
A Comemoração dos Fiéis Defuntos, como é chamada a celebração litúrgica do dia 2 de novembro, é uma continuação da Festa de Todos os Santos, vivida no dia anterior. “A Igreja quer abraçar a todos os que pelo batismo mergulhamos em Cristo morto e ressuscitado e pertencemos ao corpo místico por esta comunhão dos santos que cria e gera um laço profundo”, disse.
Segundo dom Armando, a oração pelos mortos tem sua razão na comunhão que existe entre todos os que pertencem ao corpo místico de Cristo. “Sendo Jesus o salvador da humanidade existe por meio dele uma comunhão com a esta”, disse.
A origem da Comemoração de todos os Fiéis Defuntos vem de longe, recorda o religioso. O culto aos mortos, no sentido de respeitosa e comovida recordação, pertence à história mais antiga da humanidade. Os cristãos, desde os primórdios, mantiveram o costume, dando a este rito o toque próprio da fé na “ressurreição”, elemento essencial e fundamental da visão cristã da vida e da morte.
Ao longo da história, há abundante documentação a respeito da necessidade de orar pelos falecidos. Desde o livro dos Macabeus se fala da necessidade de rezar pelos mortos afim de que sejam absolvidos de seus pecados. O Dia de Finados adquire rosto e data, como hoje o conhecemos, no início do segundo milênio por obra do santo Odilon, abade da famosa e importante abadia de Cluny, na França.
A Igreja, desde o início de sua caminhada, deu culto especial aos mártires, pessoas que ganharam a coroa do martírio. Disso, começou a devoção aos santos – irmãos e irmãs que fizeram da própria vida um dom, ficando fieis até o fim, imitando Jesus, o Mártir, a testemunha fiel como canta o livro do Apocalipse.
Para quem crê: a morte não é o fim
A visita aos cemitérios juntos aos túmulos dos entes queridos é expressão de comunhão, feita de dor e saudade. Mas pela fé que ilumina os que crêem em Jesus Cristo, afirma dom Armando, deve permanecer a certeza, como canta a liturgia, de que a vida não é tirada, mas transformada.
Para o religioso ao ir ao cemitério refletimos sobre a morte que pertence à nossa condição humana. Por outro lado, ele adverte que a correria cotidiana, a superficialidade, a banalização da vida e o progresso da medicina, entre outros fatores, contribuem para que não se pense na morte e se viva na ilusão da imortalidade. “A liturgia da Igreja fala a linguagem da realidade e da esperança. Convida a pensar na morte, porém não como perca, mas como passagem que gera dor e não desespero”, disse.
“O discípulo de Jesus caminha da fé para esperança, que é a salvação definitiva. Apesar de não termos superado ainda todas as alienações das quais a morte é a última expressão, caminhamos sob o impulso do amor desinteressado de Deus com o compromisso de sermos gratos e gratuitos em nossa vida. Vivamos, portanto com a nossa fé este dia que com certeza enriquece a nossa espiritualidade, o nosso relacionamento com a vida e com os demais irmãos e irmãs da caminhada do dia a dia”, concluiu. Fonte: http://cnbb.net.br
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Sua modéstia e humildade fizeram dele uma figura popular em todo o mundo. Mas dentro da Igreja, suas reformas têm enfurecido os conservadores e desencadeado uma revolta.
O Papa Francisco é um dos homens mais odiados do mundo atualmente. Os que mais o odeiam não são ateus, protestantes, nem muçulmanos, mas alguns de seus seguidores. Fora da Igreja, ele é muito conhecido como uma figura de modéstia e humildade quase ostensivas. Desde que o Cardeal Jorge Bergoglio tornou-se Papa, em 2013, seus gestos capturaram a imaginação mundial: o novo Papa dirigia um Fiat, carregava suas próprias malas e cuidava de suas próprias contas de hotel; perguntava, a respeito dos gays, "Quem sou eu para julgar?" e lavou os pés de mulheres muçulmanas refugiadas. A reportagem é de Andrew Brown, publicada por The Guardian, 27-10-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.
Mas dentro da Igreja Francisco tem provocado uma reação feroz dos conservadores, que temem que este espírito a divida e possa chegar a destruí-la. Neste verão, um importante sacerdote inglês me disse: "Mal podemos esperar por sua morte. O que dizemos em particular não é publicável. Quando dois padres se encontram, falam sobre o quão horrível é Bergoglio... é como o Calígula: se tiver um cavalo, iria nomeá-lo cardeal." Claro, depois de 10 minutos reclamando, acrescentou: "Nada disso pode ser publicado, ou vou ser demitido."
Esta mistura de ódio e medo é comum entre os adversários do Papa Francisco, o primeiro papa não Europeu dos tempos modernos e o primeiro papa jesuíta, foi eleito como alguém fora do sistema do Vaticano e, naturalmente, faria inimigos. Mas ninguém previa que seriam tantos. Desde sua pronta renúncia da pompa do Vaticano, que notificou os 3.000 integrantes da do serviço da Igreja da qual queria ser o mestre, até seu apoio aos migrantes, ataques ao capitalismo global e, acima de tudo, seus movimentos para re-examinar os ensinamentos da Igreja sobre sexo, ele tem escandalizado reacionários e conservadores. A julgar pelas figuras que votaram no último encontro mundial dos bispos, quase um quarto do Colégio dos Cardeais – o mais alto clero da Igreja – acredita que o Papa está flertando com a heresia.
O ponto alto da crise chegou em um conflito sobre sua visão a respeito do divórcio. Rompendo com séculos, se não milênios, de teoria católica, o Papa Francisco tentou encorajar os padres católicos a dar a comunhão a alguns casais divorciados e recasados e famílias em que os pais são solteiros e moram juntos. Seus inimigos estão tentando forçá-lo a desistir dessa tentativa.
Como isso não vai acontecer, e suas ideias têm prosperado apesar do descontentamento de muitos, eles estão se preparando para lutar. No ano passado, um cardeal, apoiado por alguns colegas aposentados, levantou a possibilidade de uma declaração formal de heresia – a rejeição deliberada de uma doutrina estabelecida da Igreja, um pecado punível com a excomunhão. No mês passado, 62 católicos insatisfeitos, incluindo um bispo aposentado e um ex-chefe do banco do Vaticano, publicaram uma carta aberta acusando Francisco de sete ocorrências específicas de ensino herético.
Acusar um Papa atual de heresia é a opção nuclear em conflitos católicos. A doutrina afirma que o Papa não pode estar errado ao falar sobre as questões centrais da fé; se estiver errado, não pode ser Papa. Por outro lado, se estiver certo, todos os antecessores deviam estar errados.
A questão é particularmente tóxica, porque é quase completamente teórica. Na prática, em grande parte do mundo, os casais divorciados e recasados recebem a comunhão rotineiramente. O Papa Francisco não está propondo uma revolução, mas o reconhecimento burocrático de um sistema que já existe e pode até ser essencial para a sobrevivência da Igreja. Se as regras fossem aplicadas de forma literal, ninguém cujo casamento não deu certo poderia ter relações sexuais novamente. Não é uma maneira prática de garantir que existam futuras gerações de católicos.
Mas as cautelosas reformas de Francisco parecem, para os seus adversários, ameaçar a crença de que a Igreja ensina verdades atemporais. Se a Igreja Católica não ensina verdades eternas, perguntam os conservadores, qual é o sentido? A batalha acerca do divórcio e do novo casamento trouxe à tona duas ideias profundamente contrárias da função da Igreja. A insígnia do Papa é duas chaves cruzadas, representando aqueles que Jesus supostamente ofereceu a São Pedro e simbolizando a capacidade de vinculação e perda: proclamar o que é pecado e o que é permitido. Mas qual é mais importante e mais urgente agora?
A crise atual é a mais grave desde que as reformas liberais dos anos 60 impulsionaram um grupo dissidente de conservadores radicais a romper com a Igreja. (Seu líder, o arcebispo francês Marcel Lefebvre, foi depois excomungado). Durante os últimos anos, escritores conservadores têm levantado o espectro do cisma por diversas vezes. Em 2015, o jornalista americano Ross Douthat, que se converteu ao catolicismo, escreveu um artigo para a revista Atlantic cuja manchete era Será que o Papa Francisco vai quebrar a Igreja?; um post do blogue Spectator do tradicionalista inglês Damian Thompsonameaçou que o "Papa Francisco está em guerra com o Vaticano. Se ele vencer, a Igreja pode desmoronar." A visão do Papa sobre o divórcio e a homossexualidade, de acordo com um arcebispo do Cazaquistão, permitiu que "a fumaça do Satanás" entrasse na Igreja.
A Igreja Católica passou grande parte do século passado lutando contra a revolução sexual, tanto quanto lutou contra as revoluções democráticas do século XIX, e nesta luta teve que defender uma posição absolutista indefensável, que proíbe qualquer forma de contracepção artificial, assim como qualquer relação sexual fora do casamento para toda a vida. Como Francisco reconhece, as pessoas não se comportam assim. O clero sabe disso, mas deve fingir que não. O ensino oficial não pode ser questionado, mas também não pode ser obedecido. Alguém tem que ceder, e quando isso acontece, a explosão que resulta pode quebrar a Igreja.
Apropriadamente, o ódio às vezes amargo dentro da Igreja – direcionado ao aquecimento global, à migração ou ao capitalismo – chegaram a um ponto de uma luta gigantesca sobre as implicações de uma única nota de rodapé em um documento chamado The Joy of Love (ou, em latim, Amoris Laetitia). O documento, escrito por Francisco, é um resumo do debate atual sobre o divórcio, e é nesta nota de rodapé que ele faz uma afirmação aparentemente suave de que casais divorciados e recasadospodem, às vezes, receber a comunhão.
Com mais de 1 bilhão de seguidores, a Igreja Católica é a maior organização global que o mundo já viu, e muitos deles são pais divorciados ou solteiros. A Igreja depende de trabalho voluntário para realizar sua obra em todo o mundo. Se os fiéis comuns deixarem de acreditar no que estão fazendo, tudo desmorona. O papa sabe disso. Se não for possível conciliar teoria e prática, a Igreja pode se esvaziar em todos os lugares. Seus adversários também acreditam que a Igreja enfrenta uma crise, mas afirmam o contrário. Para eles, a lacuna entre teoria e prática é exatamente o que confere valor e significado à Igreja. Se eles conseguem viver sem o que a Igreja oferece, segundo acreditam os adversários de Francisco, ela certamente entrará em colapso.
Ninguém previu isso quando Francisco foi eleito em 2013. Um dos motivos para sua nomeação como papa por seus colegas cardeais foi resolver a esclerose da burocracia do Vaticano. Há muito que se esperava por isso. O Cardeal Bergoglio de Buenos Aires foi eleito como alguém relativamente de fora, que poderia limpar parte do bloqueio no centro da Igreja. Mas essa missão em breve colidiu com uma linha de falha ainda mais acirrada na Igreja, que é geralmente descrita como uma batalha entre "liberais", como Francisco, e "conservadores", como seus inimigos. Mas isso é uma classificação escorregadia e enganosa.
O conflito central é entre católicos que acreditam que a Igreja deve definir a agenda do mundo e os que pensam que o mundo deve definir a agenda da Igreja. São tipos ideais: no mundo real, os católicos são uma mistura dessas orientações, mas, em sua maioria, uma predomina.
O papa Francisco é um exemplo puro de católico extrovertido ou "voltado para o exterior", especialmente em comparação com seus antecessores imediatos. Seus adversários são os introvertidos. Muitos atraíram-se pela Igreja por sua distância das preocupações do mundo. Um número surpreendente dos principais introvertidos advém de pessoas convertidas do protestantismo estadunidense, algumas conduzidas pela superficialidade dos recursos intelectuais com que foram criadas, mas principalmente por um sentimento de que o protestantismo liberal estava morrendo justamente porque já não oferecia nenhuma alternativa para a sociedade ao seu redor. Querem mistério e romance, não o senso comum estéril ou a sabedoria convencional. Nenhuma religião pode florescer sem esse impulso.
Assim como nenhuma religião global pode ficar totalmente contra o mundo. No início da década de 60, um encontro de três anos entre os bispos de todas as partes da Igreja, conhecido como o Segundo Concílio Vaticano, o Concílio Vaticano II, "abriu as janelas para o mundo", nas palavras do Papa João XXIII, que iniciou o movimento, mas morreu antes de concluir seu trabalho.
O Concílio renunciou ao antissemitismo, abraçou a democracia, proclamou direitos humanos universais e em grande medida aboliu a missa em latim. O último ato, em particular, surpreendeu os introvertidos. O escritor Evelyn Waugh, por exemplo, nunca foi a uma missa em inglês após a decisão. Para homens como ele, os rituais solenes de um serviço realizado por um sacerdote de costas para a Congregação, falando inteiramente em latim, diante de Deus no altar, eram o coração da Igreja – uma janela para a eternidade promulgada em cada performance. O ritual foi central para a Igreja de uma forma ou de outra desde a sua fundação.
A mudança simbólica provocada pela nova liturgia – substituindo o padre introvertido voltado para Deus no altar pela figura extrovertida voltado à congregação – era imensa. Alguns conservadores ainda não se reconciliaram com a reorientação, como o Cardeal ganês Robert Sarah, apontado por introvertidos como um possível sucessor de Francisco, e o Cardeal estadunidense Raymond Burke, que emergiu como o adversário mais explícito de Francisco. A crise atual, nas palavras da jornalista católica inglesa Margaret Hebblethwaite – partidária apaixonada de Francisco – o "Vaticano II está voltando novamente".
"É preciso ser inclusivo e acolhedor a tudo o que é humano", disse Sarah em uma reunião do Vaticano no ano passado, em uma denúncia das propostas de Francisco, "mas o que vem do inimigo não pode e não deve ser assimilado. Não se pode juntar Cristo e Belial! O que foram o nazi-fascismo e o comunismo no século XX, são as ideologias ocidentais da homossexualidade e do aborto e o fanatismo islâmico hoje."
Nos anos imediatamente depois do Concílio, freiras descartaram seus hábitos, sacerdotes descobriram as mulheres (mais de 100.000 deixaram o sacerdócio para se casar), e teólogos jogaram fora com as algemas da ortodoxia introvertida. Após 150 anos resistindo e repelindo-o, a Igreja viu-se engajada com o mundo exterior em todos os lugares, parecer aos introvertidos que todo o edifício entraria em colapso, tornando-se escombros.
O número de frequentadores da Igreja despencou no mundo ocidental, assim como em outras denominações. Nos EUA, 55% dos católicos iam à missa regularmente em 1965; em 2000, apenas 22%. Em 1965, 1.3 milhões de bebês católicos eram batizados nos Estados Unidos; em 2016, apenas 670.000. Se foi causa ou correlação, permanece o debate feroz. Para os introvertidos, a culpa é do abandono das verdades eternas e práticas tradicionais; já os extrovertidos sentiram que a Igreja não tinha mudado muito ou rápido o suficiente.
Em 1966, uma comissão papal de 69 membros, com sete cardeais e 13 médicos, em que leigos e até mesmo algumas mulheres eram representadas, votou esmagadoramente pela revogação da proibição da contracepção artificial, mas o Papa Paulo VI negou o pedido em 1968. Ele não podia admitir que seus antecessores estavam errados, e os protestantes estavam certos. Para uma geração de católicos, o debate passou a simbolizar a resistência à mudança. No mundo em desenvolvimento, a Igreja Católica em grande parte foi dominada por um enorme renascimento Pentecostal, que oferecia muito carisma e status para os leigos, mesmo para as mulheres.
Os introvertidos vingaram-se com a eleição do Papa (agora Papa São) João Paulo II, em 1978. Sua igreja polonesa havia sido definida por sua oposição ao mundo e seus poderes dividiram o país a partir dos nazistas e comunistas, em 1939. João Paulo II era um homem de uma tremenda energia, força de vontade e dons importantes. Ele também era profundamente conservador em assuntos de moralidade sexual e, quando era cardeal, forneceu a justificativa intelectual para a proibição do controle de natalidade.
Desde o momento da sua eleição, ele começou a remodelar a Igreja à sua imagem. Se não podia transmitir seu próprio dinamismo e força de vontade, podia, ao que parecia, expurgar a Igreja da extroversão e configurá-la mais uma vez como uma rocha, contra as correntes do mundo secular.
Ross Douthat, o jornalista católico, foi uma das poucas pessoas no partido introvertido que estava disposto a falar abertamente sobre o conflito atual. Por ser jovem, ele foi um dos que se converteram na época do Papa João Paulo II. Agora, diz: "A Igreja pode estar bagunçada, mas o importante é que o centro é sadio, e sempre se pode reconstruir as coisas a partir do centro. Ser católico é bom porque há garantia de continuidade no centro, e, com isso, a esperança de reconstituição da ordem católica."
João Paulo II teve o cuidado de nunca repudiar as palavras do Concílio Vaticano II, mas trabalhou para esvaziá-las do espírito extrovertido. Ele começou impondo uma disciplina feroz sobre o clero e os teólogos. Dificultou tanto quanto possível que os sacerdotes saíssem para se casar. Seu aliado nisso era a Congregação para a Doutrina da Fé - CDF, antes conhecida como Santo Ofício. A CDF é o departamento mais institucionalmente introvertido do Vaticano (ou "dicastérios", como são conhecidos desde a época dos impérios romanos; é um detalhe que indica o peso da experiência institucional e inércia – se o nome era bom o suficiente para Constantino, por que mudar?).
Para a CDF, era axiomático que o papel da Igreja fosse ensinar o mundo, e não aprender com ele. Há uma longa história de punição aos teólogos que discordam: foram proibidos de publicar ou retirados de universidades católicas.
No início do pontificado de João Paulo II, a CDF publicou Donum Veritatis (o dom da verdade), um documento explicando que todos os católicos devem praticar a "submissão da vontade e intelecto" ao que o Papa ensina, mesmo quando não é infalível; e que teólogos, embora possam discordar e dar a conhecer aos superiores, nunca devem expressar desacordo em público. Isso foi usado como uma ameaça, e, por vezes, como uma arma, contra qualquer pessoa suspeita de dissidência liberal. Francisco, no entanto, transformou esses poderes contra os que haviam sido seus defensores mais entusiastas. Os padres, bispos e cardeais católicos servem ao Papa e podem a qualquer momento ser demitidos. Os conservadores aprenderiam tudo sobre isso durante o papado de Francisco, que demitiu pelo menos três teólogos da CDF. Os jesuítas demandam disciplina.
Em 2013, logo após sua eleição, enquanto ainda estava numa onda de aclamação quase universal pela ousadia e simplicidade de seus gestos – havia se mudado para dois quartos com pouca mobília nos jardins do Vaticano, em vez dos apartamentos suntuoso do Estado usados por seus predecessores –, Francisco expurgou uma pequena ordem religiosa dedicada à prática da missa em latim.
Os Frades Franciscanos da Imaculada, um grupo com cerca de 600 membros (homens e mulheres), estava sendo investigado por uma Comissão em junho de 2012, durante o papado de Bento XVI. Eles eram acusados de combinar cada vez mais uma política de extrema direita com uma devoção à missa em latim. (Esta mistura, muitas vezes vista ao lado de declarações de ódio do "liberalismo", também estava se espalhando na mídia on-line nos EUA e no Reino Unido, como o blogue Holy Smoke, do Daily Telegraph, editado por Damian Thompson).
Quando houve o relato da Comissão, em julho de 2013, a reação de Francisco chocou os conservadores rígidos. Ele fez os frades deixarem de usar o latim na missa em público e fechou seu seminário. Ainda podiam educar novos sacerdotes, mas não segregados do resto da Igreja. Além disso, foi muito direto, sem passar pelo sistema jurídico interno do Vaticano, liderado na época pelo Cardeal Burke. No ano seguinte, Francisco demitiu Burke de seu trabalho poderoso no sistema jurídico interno do Vaticano e ganhou um inimigo implacável.
Burke, um estadunidense audacioso, dado às vestes de rendas bordadas e (em ocasiões formais) à capa escarlate cerimonial, que de tão longa precisa de pessoas que carreguem sua cauda, foi um dos principais reacionários no Vaticano. Na forma e na doutrina, ele representa uma longa tradição de grandes corretores de poder estadunidense do Catolicismo étnico branco. A Igreja hierática, patriarcal e conflituosa da missa em latim é seu ideal, ao qual parecia que a Igreja de João Paulo II e de Bento XVI foi voltando lentamente – até Francisco começar a trabalhar.
A combinação do Cardeal Burke de anticomunismo, orgulho étnico e ódio do feminismo tem alimentado uma sucessão de figuras proeminentes de direita nos Estados Unidos, de Pat Buchanan a Bill O'Reilly e Steve Bannon, ao lado de intelectuais católicos conhecidos como Michael Novak, que promoveram incansavelmente as guerras no Oriente Médio e a compreensão Republicana dos mercados livres.
Foi o Cardeal Burke que convidou Bannon, que já era o espírito que animava o Breitbart News, para falar em uma conferência no Vaticano, por videoconferência, da Califórnia, em 2014. O discurso de Bannon foi apocalíptico, incoerente e historicamente excêntrico. Mas não havia como confundir a urgência da sua convocação para uma guerra santa: a segunda guerra mundial, disse, tinha sido "judaico-cristãos do oeste contra os ateus", e agora a civilização estava "em estágios iniciais de uma guerra global contra o fascismo islâmico... um conflito brutal e sangrento... que erradicará completamente todo o nosso legado dos últimos 2.000, 2.500 anos... se as pessoas nesta sala, as pessoas na Igreja, não... lutarem por nossas crenças, contra esta nova barbárie que está começando."
Tudo no discurso é um anátema para Francisco. A primeira viagem oficial do Papa para fora de Roma, em 2013, foi para a ilha de Lampedusa, que havia se tornado o ponto de chegada de dezenas de milhares de migrantes desesperados do norte da África. Como ambos seus predecessores, ele se opõe firmemente às guerras no Oriente Médio, embora o Vaticano tenha apoiado, de forma relutante, a extirpação do califado doEstado Islâmico. Ele se opõe à pena de morte. Ele abomina e condena o capitalismo estadunidense: depois de dar seu apoio a migrantes e homossexuais, a primeira grande instrução política do seu período no cargo foi uma encíclica, documento que traz um ensinamento, dirigido a toda a Igreja, que condenava ferozmente o funcionamento de mercados globais.
"Algumas pessoas continuam defendendo teorias de gotejamento que pressupõem que o crescimento econômico, incentivado por um mercado livre, inevitavelmente terá sucesso em trazer maior justiça e inclusão no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma enorme e ingênua confiança na bondade daqueles que exercem o poder econômico e no funcionamento sacralizado do sistema econômico vigente. Enquanto isso, os excluídos ainda estão esperando."
Acima de tudo, Francisco está do lado dos imigrantes – ou os emigrantes, como ele os vê – expulsos de casa por um capitalismo voraz e destrutivo sem limites, que causou uma mudança climática catastrófica. É uma questão racial, assim como profundamente política, nos EUA. Os evangélicos que votaram em Trump e no seu muro são esmagadoramente brancos. Assim como a liderança da Igreja Católica estadunidense. Mas cerca de um terço dos leigos são hispânicos, e essa proporção está crescendo. No mês passado, Bannon afirmou, em entrevista ao programa 60 Minutes da CBS, que os bispos estadunidenses eram a favor da imigração em massa só porque mantinha suas congregações – embora a questão vá adiante do que a maioria dos bispos de direita diga publicamente.
Quando Trump anunciou que construiria um muro para manter os imigrantes fora do país, Francisco chegou muito perto de negar que o então candidato seria cristão. Na visão do papa dos perigos para a família, os banheiros para transgêneros não são o problema mais urgente, como afirmam alguns guerreiros culturais. O que destrói famílias, escreveu, é um sistema econômico que força milhões de famílias pobres a se separar em busca de trabalho.
Assim como abordou os praticantes da antiga missa em latim, Francisco começou uma ampla ofensiva contra a velha guarda dentro do Vaticano. Cinco dias após sua eleição, em 2013, ele convocou o Cardeal hondurenho Óscar Rodríguez Maradiaga e disse que ele seria o coordenador de um grupo de nove Cardeais de todo o mundo cuja missão era limpar o lugar. Todos eles haviam sido escolhidos por sua energia e pelo fato de já terem discordado do Vaticano. Foi um movimento popular em todos os lugares fora de Roma.
João Paulo II passou a última década de sua vida cada vez mais debilitado pela doença de Parkinson, e as energias que restavam não foram gastas com lutas burocráticas. A Cúria, como a burocracia do Vaticano é conhecida, ficou ainda mais poderosa, estagnada e corrupta. Muito pouco foi feito contra os bispos que abrigaram padres que abusaram de criança. O banco do Vaticano - IOR era conhecido pelos serviços de lavagem de dinheiro. O processo de fabricação de santos – algo que João Paulo II tinha feito a um ritmo sem precedentes – tornou-se uma confusão extremamente cara. (O jornalista italiano Gianluigi Nuzzi estimou o custo de uma canonização em €500.000 por halo.) As finanças do Vaticano em si eram uma confusão horrível. O próprio Franciscorefere-se a "um fluxo de corrupção", na Cúria.
O estado pútrido da Cúria era amplamente conhecido, mas nunca abordado em público. Em nove meses da nomeação, Francisco disse a um grupo de freiras que "na Cúria, também existem pessoas santas, realmente, existem pessoas santas" – sendo que a revelação foi que ele imaginou que o público de freiras ficaria chocado ao descobrir isso.
A Cúria, disse, "vê e cuida dos interesses do Vaticano, que ainda são, em grande parte, interesses temporais. Esta visão centrada no Vaticano ignora o mundo que nos rodeia. Não compartilho desta opinião, e vou fazer o que puder para mudar isso." Ele disse ao jornal italiano La Repubblica: "Os líderes da Igreja muitas vezes foram narcisistas, orgulhosos e emocionados por seus cortesãos. O tribunal é a lepra do papado".
"O Papa nunca falou nada agradável sobre os sacerdotes," disse o padre que mal pode esperar por sua morte. "Ele é um jesuíta anticlerical. Lembro disso pelos anos 70. Eles diziam: 'Não me chame de Padre, me chame de Gerry' – essa porcaria – e nós, o clero paroquial oprimido, sentimos que perdemos o chão."
Em dezembro de 2015, Francisco fez seu tradicional discurso de Natal à Cúria Romana, e não teve papas na língua: Acusou-os de arrogância, “Alzheimer espiritual”, "hipocrisia típica dos medíocres e um vazio espiritual progressivo que graus acadêmicos não conseguem preencher", bem como materialismo vazio e vício por fofoca e calúnia – não é o tipo de coisa que se quer ouvir do chefe na festa do escritório.
Porém, quatro anos após ter se tornado papa, a resistência passiva do Vaticanoparece ter triunfado sobre a energia de Francisco. Em fevereiro deste ano, apareceram cartazes durante a noite nas ruas de Roma que perguntavam, "Francisco, onde está sua compaixão?", atacando-o por seu tratamento ao Cardeal Burke. Os cartazes só podem ter vindo de desafetos no Vaticano e são sinais exteriores de uma teimosa recusa de ceder poder ou privilégio aos reformadores.
Esta batalha, porém, tem sido ofuscada, assim como todas as outras, pelos conflitos internos sobre a moralidade sexual. A luta sobre o divórcio e o recasamento centra-se em dois fatos. Primeiro, que a doutrina da Igreja Católica não mudou em quase 2.000 anos – o casamento é indissolúvel pela vida toda; isso é muito claro. Assim como o segundo fato: As taxas de pessoas que se divorciam ou casam novamente entre os católicos são as mesmas do restante da população, e quando isso acontece, eles não veem nada imperdoável em suas ações. Portanto, as igrejas do mundo ocidental estão cheias de casais divorciados e que se casaram novamente que recebem a comunhão com os outros, mesmo que eles e seus sacerdotes saibam perfeitamente que isso não é aceitável.
Os ricos e poderosos sempre exploraram as lacunas. Quando querem se livrar de uma mulher e casar novamente, um bom advogado encontra uma forma de provar que o primeiro casamento foi um erro, não algo que tenha entrado no espírito que a Igreja exige, para que seu registro possa ser limpo – no jargão, anulado. Isto se aplica especialmente para os conservadores: Steve Bannon conseguiu se divorciar das suas três esposas, mas talvez o exemplo atual mais escandaloso seja o de Newt Gingrich, que liderou a aquisição republicana do Congresso na década de 90 e desde então reinventou-se como aliado de Trump. Gingrich terminou com sua primeira esposa enquanto ela se tratava para um câncer e, ainda casado com sua segunda esposa, teve um caso de oito anos com Callista Bisek, devota católica, antes de se casar com ela na Igreja. Ela está prestes a assumir o cargo de embaixadora de Donald Trump no Vaticano.
O ensino sobre casar-se novamente após um divórcio não é o único ensino sexual católico que nega a realidade dos leigos, mas é o mais prejudicial. A proibição da contracepção artificial é ignorada por todos onde quer que seja legal. A hostilidade aos gays é comprometida pelo fato geralmente conhecido de que uma grande proporção do sacerdócio no Ocidente é gay, e alguns deles são bem ajustados celibatários. A rejeição do aborto não é um problema onde o aborto é legal, e, em todos os casos, não é particular à Igreja Católica. Mas a recusa em reconhecer segundos casamentos, a menos que o casal prometa nunca mais fazer sexo, destaca os absurdos de uma casta de homens celibatários que regulam a vida das mulheres.
Em 2015 e 2016, Francisco convocou duas grandes conferências ou sínodos de bisposde todo o mundo para discutir tudo isso. Ele sabia que não podia operar mudanças sem amplo acordo. Ele manteve-se em silêncio e encorajou os bispos a discutir. Mas logo ficou claro que favoreceu um considerável afrouxamento da disciplina em torno da comunhão, após um novo casamento. Como isso é o que se passa na prática de qualquer forma, é difícil para alguém de fora entender as paixões que desperta.
"O que me preocupa é a teoria", disse o padre inglês que confessou seu ódio por Francisco. "Na minha paróquia há muitos casais divorciados e recasados, mas muitos deles, se ouvissem que o primeiro cônjuge havia morrido, correriam para casar na igreja. Conheço muitos homossexuais que estão fazendo todo tipo de coisa errada, mas que sabem que não devem fazer. Somos todos pecadores. Mas temos que manter a integridade intelectual da fé católica".
Pensando assim, o fato de que o mundo rejeita seu ensino meramente prova o quão correto é. "A Igreja Católica deveria ser contracultural na esteira da revolução sexual", diz Ross Douthat. "A Igreja Católica é o último lugar do mundo ocidental que diz que o divórcio é ruim."
Para Francisco e seus apoiadores, tudo isso é irrelevante. A Igreja, afirma, deveria ser um hospital ou um posto de primeiros-socorros. As pessoas que estão divorciadas não precisam que alguém lhes diga que isso é ruim. Precisam recuperar e reconstruir suas vidas novamente. A Igreja deve ficar ao seu lado e demonstrar piedade.
No primeiro Sínodo dos Bispos em 2014, essa ainda era uma opinião minoritária. Um documento liberal estava preparado, mas foi rejeitado pela maioria. Um ano depois, os conservadores estavam claramente em minoria, mas uma minoria muito determinada. O próprio Francisco escreveu um resumo das deliberações de A Alegria do Amor. É um documento longo, reflexivo e cuidadosamente ambíguo. A dinamite é enterrada na nota de rodapé 351 do capítulo oito e teve grande importância nas revoluções subsequentes.
A nota de rodapé faz um adendo a uma passagem que vale a pena citar tanto pelo que diz como pela forma com que diz. Sua mensagem é clara: algumas pessoas vivendo segundos casamentos (ou parcerias civis) "podem viver na graça de Deus, podem amar e podem também crescer na vida de graça e de caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja".
Mesmo a nota de rodapé, que diz que esses casais podem receber a comunhão se confessarem seus pecados, aborda o assunto com cautela: "Em certos casos, isso pode incluir a ajuda dos sacramentos." Portanto, "quero lembrar os sacerdotes que o confessionário não pode ser uma câmara de tortura, mas um encontro com a misericórdia do Senhor." E: "Gostaria também de salientar que a Eucaristia 'não é um prêmio para a perfeição, mas um poderoso remédio e alimento para os fracos'."
"Por pensar que tudo é preto ou branco", acrescenta Francisco, "às vezes fechamos o caminho da graça e do crescimento".
É esta pequena passagem que uniu todas as rebeliões contra sua autoridade. Ninguém consultou os leigos para sabem sua opinião sobre isso, que em caso algum foi de interesse para o partido introvertido. Mas entre um quarto e um terço dos bispos resiste passivamente à mudança, e uma pequena minoria está fazendo isso de forma ativa.
O líder dessa facção é o grande inimigo de Francisco, o Cardeal Burke. Demitido primeiro do cargo no Tribunal do Vaticano e depois da comissão de liturgia, ele acabou no conselho de fiscalização dos Cavaleiros de Malta – um órgão de caridade dirigido pelas velhas aristocracias católicas da Europa. No outono de 2016, despediu o líder da ordem por supostamente permitir que freiras distribuíssem preservativos na Birmânia. Isso é algo que as freiras fazem muito no mundo em desenvolvimento, para proteger as mulheres vulneráveis. O homem que havia sido demitido apelou ao Papa.
O resultado foi que Francisco reintegrou o homem que Burke tinha demitido e nomeou outra pessoa para assumir a maioria das funções de Burke. Foi um castigo por suas afirmações completamente falsas de que o Papa estava do seu lado no conflito original.
Enquanto isso, Burke utilizou-se de outras frentes, que chegaram o mais próximo que conseguiu de acusar o Papa de heresia. Juntamente com três outros cardeais, dois dos quais já morreram, Burke produziu uma lista de cinco questões destinadas a verificar seAmoris Laetitia violava o ensino anterior ou não. As questões foram enviadas como uma carta formal para Francisco, que ignorou. Depois de ser demitido, Burke divulgou as questões e disse que estava preparado para emitir uma declaração formal de que o Papa era um herege se ele não as respondesse, para satisfazê-lo.
Claro, Amoris Laetitia representa uma ruptura com o ensino anterior. É um exemplo da Igreja ter aprendido com a experiência. Mas é difícil os conservadores assimilarem: historicamente, estas explosões de aprendizagem só aconteceram em convulsões, a séculos de distância. Essa chegou apenas 60 anos após a última explosão de extroversão, com o Concílio Vaticano II, e somente 16 anos depois de João Paulo II ter reiterado a velha linha dura.
"O que significa um papa contradizer um papa anterior?", pergunta Douthat. "É notável o quão perto Francisco chegou de discutir com seus predecessores imediatos. Foi apenas há 30 anos que João Paulo II previu no Veritatis Splendor uma linha que parece contradizer Amoris Laetitia."
O Papa Francisco está deliberadamente contradizendo um homem que ele mesmo proclamou santo. Isso dificilmente vai incomodá-lo. Talvez a mortalidade incomode. Quanto mais Francisco altera a linha de seus predecessores, mais fácil fica para que um sucessor reverta a sua. Embora a doutrina católica sofra alterações, depende de sua força a ilusão de que não. Os pés podem estar dançando sob a batina, mas o manto pode nunca se mover. No entanto, isso também significa que mudanças que haviam ocorrido podem ser revertidas sem qualquer movimento oficial. É assim que João Paulo IIatingiu o Vaticano II.
Para garantir que as mudanças de Francisco vão perdurar, a Igreja tem que aceitá-las. Essa é uma pergunta que não será respondida em sua vida. Ele tem 80 anos e só tem um pulmão. Seus adversários podem ser rezando por sua morte, mas ninguém sabe se seu sucessor tentará contradizê-lo – e dessa questão depende o futuro da Igreja Católica. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
- Detalhes
Talvez chegou a hora para aquele que é a fonte de inspiração da oposição romper o seu silêncio e dizer para os dissidentes pararem. O comentário é de Robert Mickens, jornalista, publicado por La Croix International, 27-10-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
O Papa Francisco está enfrentando uma oposição estridente e, por vezes, perversa de certos grupos de católicos. A hostilidade cada vez maior que eles estão mostrando para com o Bispo de Roma não tem, provavelmente, paralelo na história moderna da Igreja romana.
Mas hoje, na verdade, temos uma boa – assim como uma má – notícia sobre isso.
A boa notícia é que aqueles que remam contra o atual timoneiro da Barca de Pedro fazem parte de uma minúscula, conquanto barulhenta, minoria.
A má notícia é que nós os encontramos entre os que foram ordenados dentro da Igreja: homens que trabalham como padres e bispos.
A estatística vaticana mais recente afirma que existem aproximadamente 1.285 bilhão de membros da comunidade católica em nível mundial. Entre eles, quase 416 mil são padres e outros 5.300 são bispos – apenas 0,03% de todos os católicos batizados.
E mesmo neste subconjunto, o número dos que se opõem ativamente ao papa é provavelmente marginal. Trata-se de uma minoria dentro de uma minoria.
É impossível afirmar os números exatos. No entanto, podemos identificar certos traços e tendências discerníveis. Por exemplo, a oposição a Francisco emancipa-se mais energicamente a partir dos países falantes de inglês, de certas partes da Europa e em regiões da África onde os críticos do papa tendem a ser mais jovens (abaixo dos 50 anos), doutrinariamente rígidos e membros liturgicamente “retrodoxos” do clero.
As pessoas no campo anti-Francisco também demonstram tendências no sentido de terem uma compreensão um tanto estreita da aplicação do Direito Canônico, uma devoção servil ao rubricismo litúrgico e uma visão eurocêntrica ultrapassada de mundo que remonta aos sistemas filosóficos greco-romanos clássicos.
Já seria bastante problemático se os opositores do papa fossem somente membros do clero. No entanto, não é este o caso: Há pequenos grupos de fiéis batizados que também são altamente críticos e até mesmo desprezíveis dele. Demonstram características parecidas do clero rebelde. Tendem também a ser mais jovens, fundamentalistas, quando se trata do magistério católico e promovem uma liturgia e uma eclesiologia pré-Vaticano II.
Estes críticos papais são barulhentos e perturbadores. Estão também organizados e se mostram tenazes. Mas sejamos francos: ao mesmo tempo, eles formam uma minoria tanto dentro do clero quanto entre os leigos.
Entretanto, eles conseguiram parecer mais representativos da população católica geral capitalizando-se nas mídias sociais e usando o enorme megafone que o ciberespaço proporciona. Desse modo, com sucesso estas pessoas vêm conseguindo enganar inúmeras pessoas (especialmente na imprensa convencional), levando-as a acreditar que a Igreja está igualmente dividida em dois grupos: os que amam o Papa Francisco e os que não estão ao seu lado.
Recentemente, Massimo Faggioli descreveu estes que fazem uma oposição furiosa ao papa e a seus movimentos que visam renovar a Igreja como a “milícia cibernética católica”.
Mesmo assim, há algo ainda mais perturbador com estes vários grupos do clero e de leigos. Eles tentam reivindicar uma legitimidade às suas críticas violentas ao Papa Francisco professando uma aliança aos escritos e às ideias defendidas pelo seu antecessor, o hoje Papa Emérito Bento XVI. Ao fazerem isso, tomam o nome (e a teologia) de Joseph Ratzinger em vão.
Eles simplificam exageradamente e até mesmo distorcem o pensamento complexo e mais matizado do homem que foi um perito no Concílio Vaticano II e, depois, o prefeito por vários anos da Congregação para a Doutrina da Fé antes de se tornar o Bispo de Roma.
Eles leem os escritos de Ratzinger como leem todo o restante, com lentes opacas e estreitas.
Estes autoprofessos críticos “ratzingerianos” de Jorge Bergoglio rotineiramente transformam ideias complexas de Bento XVI (as quais, aliás, não são absolutamente inquestionáveis) em frases de efeito fáceis e chamativas.
Por exemplo, eles reduziram maliciosamente a visão do papa emérito de que existem basicamente dois modos concorrentes de interpretar a implementação do Vaticano II (uma “hermenêutica da descontinuidade e ruptura” versus uma “hermenêutica da reforma”, a qual ele esclareceu como “renovação na continuidade do único sujeito-Igreja”) e transformaram esta segunda chave interpretativa numa muito mais simplista e errônea “hermenêutica da continuidade”, frase que o ex-papa jamais proferiu.
Eles também revelaram que a compreensão que Ratzinger tem da noção de John Henry Newman a respeito do "desenvolvimento orgânico da doutrina" (e sua aplicação às formas litúrgicas) não significa muito mais do que sempre fazer acréscimos, e jamais subtrações, às formulações teológicas anteriores.
A maior parte da oposição a Francisco vem dos católicos dedicados celebrarem a Missa Tridentina. E muitos deles são dos grupos periféricos que Bento, primeiramente como cardeal e, depois, como papa, trabalhou insistentemente para incluí-los dentro da corrente principal da Igreja.
O seu ato mais monumental foi emitir um motu proprio em 2007 para normalizar a liturgia pré-Vaticano II. Segundo ele, parte da razão que o levou a fazer isto era fazer surgir uma “reconciliação interior no coração da Igreja”. Francisco não demonstrou apego à missa antiga, mas nada fez para restringi-la.
Os membros destes grupos reconciliados compostos por entusiastas da Missa Tridentina, no entanto, traem a intenção de Bento de “reconquistar a reconciliação e a unidade” numa Igreja dividida. E, em vez disso, com os ataques contra o atual papa, eles estão intensificando as divisões.
Sejamos claros aqui agora: não há, absolutamente, nenhum indício para sugerir que Bento XVI apoie – ou simpatize, de alguma forma, com – a campanha que os seus autonomeados apologistas têm promovido contra o Papa Francisco.
Mas é desanimador existir bispos e cardeais que usam as palavras do papa emérito como um meio para pôr em dúvida a ortodoxia e a legitimidade do magistério e do comando do atual papa.
O que se pode fazer para pôr um fim a isso?
Poucos dias depois de Bento XVI anunciar a sua renúncia do papado em meados de fevereiro de 2013, ele contou ao clero de Roma que iria se “retirar” para estar “escondido do mundo” e recluso “em oração”.
Mas nestes mais de quatro anos desde que se aposentou, ele não esteve totalmente escondido ou recluso. Rotineiramente, Bento recebe visitas em sua residência, nos Jardins do Vaticano. E muitos deles são padres, bispos e leigos – incluídos jornalistas e escritores – que têm sido críticos destacados do Papa Francisco.
O papa emérito já enviou também cerca de uma dúzia de mensagens escritas (das quais temos notícia) para vários encontros religiosos e pessoas. Concedeu uma entrevista em forma de livro, providenciou uma eulogia para de um dos cardeais que se opuseram ao documento de Francisco sobre o matrimônio (Amoris Laetitia) e, inclusive, escreveu uma introdução e uma nota para, no mínimo, dois livros.
Ratzinger tem todo o direito de assim proceder, visto que ninguém impôs silêncio sobre ele ou o proibiu de receber visitantes.
No entanto, no dia em que, de fato, se retirou como Bispo de Roma (28-02-2013), ele reuniu os cardeais e lhes disse para serem “totalmente dóceis à ação do Espírito Santo na eleição do novo Papa”.
Neste dia ele também fez esta promessa:
“E entre vós, entre o Colégio de Cardeais, está também o futuro Papa ao qual desde já prometo a minha reverência e obediência incondicionadas”.
Dada a maneira como alguns dos mais dedicados amigos, ex-colegas e admiradores de Bento tiraram vantagem de sua aliança com ele para denegrir o Papa Francisco, e dado o tom horrível e a hostilidade crescente desta oposição que fazem ao papa, talvez é chegada a hora de Bento XVI honrar a promessa e romper o seu silêncio mais uma vez.
É provável que isto não detenha os opositores do Papa Francisco caso ele publicamente lhes diga para pararem com esta dissidência, porém seria um sinal claro de que o amado Bispo Emérito de Roma deles não os apoia. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
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O Conselho Permanente da CNBB, reunido em Brasília, de 24 a 26 de outubro, emitiu nota oficial repudiando com veemência a Portaria 1129 do Ministério do Trabalho considerando que ela elimina proteções legais contra o trabalho escravo.
A agência de notícias do Governo Federal, a agência Brasil (AB), explicou o caso da seguinte forma: “Há uma semana, o Ministério do Trabalho publicou no Diário Oficial da União (DOU) a Portaria 1.129, assinada pelo ministro Ronaldo Nogueira, na qual dispõe sobre os conceitos de trabalho forçado, jornada exaustiva e condições análogas de escravo, com o objetivo de disciplinar a concessão de seguro-desemprego a pessoas libertadas”.
A Portaria, segundo a AB, “além de acrescentar a necessidade de restrição da liberdade de ir e vir para a caracterização da jornada exaustiva, por exemplo, a portaria também aumentou a burocracia da fiscalização e condicionou à aprovação do ministro do Trabalho a publicação da chamada lista suja, com os nomes dos empregadores flagrados reduzindo funcionários a condição análoga à escravidão”. A portaria gerou reações contrárias de entidades como a Organização Internacional do Trabalho (OIT), da Procuradoria-Geral da República (PGR) e do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda).
A ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu liminar (decisão provisória) na terça-feira, 24 de outubro, suspendendo os efeitos da Portaria. Segundo a AB, “A decisão da ministra foi dada em uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) aberta pela Rede na semana passada. Rosa Weber acatou os argumentos do partido de que a referida portaria abre margem para a violação de princípios fundamentais da Constituição, entre eles, o da dignidade humana, o do valor social do trabalho e o da livre inciativa”.
A Nota da CNBB é assinada pela Presidência e foi apresentada numa Entrevista Coletiva nesta quinta-feira, 26 de outubro, na sede provisória da Conferência, na Asa Norte, em Brasília (DF).
Leia a Nota.
NOTA DA CNBB SOBRE O TRABALHO ESCRAVO
“O Espírito do Senhor me ungiu para dar liberdade aos oprimidos” (cf. Lc 4, 18-19)
Reunido em Brasília-DF, nos dias 24 a 26 de outubro de 2017, o Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB manifesta seu veemente repúdio à Portaria 1129 do Ministério do Trabalho, publicada no Diário Oficial da União de 16/10/2017. Tal iniciativa elimina proteções legais contra o trabalho escravo arduamente conquistadas, restringindo-o apenas ao trabalho forçado com o cerceamento da liberdade de ir e vir. Permite, além disso a jornada exaustiva e condições degradantes, prejudicando assim a fiscalização, autuação, penalização e erradicação da escravidão por parte do Estado brasileiro.
Como nos recorda o Papa Francisco, “hoje, na sequência de uma evolução positiva da consciência da humanidade, a escravatura – delito de lesa-humanidade – foi formalmente abolida no mundo. O direito de cada pessoa não ser mantida em estado de escravidão ou servidão foi reconhecido, no direito internacional, como norma inderrogável” (Papa Francisco, Dia Mundial da Paz, 1º de janeiro de 2015). Infelizmente, esse flagelo continua sendo uma realidade inserida no tecido social. O trabalho escravo é um drama e não podemos fechar os olhos diante dessa realidade.
A desumana Portaria é um retrocesso que, na prática, faz fechar os olhos dos órgãos competentes do Governo Federal que têm a função de coibir e fiscalizar esse crime contra a humanidade e insere-se na perversa lógica financista que tem determinado os rumos do nosso país. Essa lógica desconsidera que “o dinheiro é para servir e não para governar” (Evangelii Gaudium, 58). O trabalho escravo é, hoje, uma moeda corrente que coloca o capital acima da pessoa humana, buscando o lucro sem limite (cf. Papa Francisco, Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, 2014).
Nosso País no qual, por séculos, vigorou a chaga da escravidão de modo legalizado, tem o dever de repudiar qualquer retrocesso ou ameaça à dignidade e liberdade da pessoa humana. Reconhecendo a importância da decisão liminar no Supremo Tribunal Federal que suspende essa Portaria da Escravidão e somando-nos a inúmeras reações nacionais e internacionais, conclamamos a sociedade a dizer mais uma vez um não ao trabalho escravo.
Confiamos a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, a proteção de seus filhos e filhas, particularmente os mais pobres.
Brasília, 26 de outubro de 2017
Cardeal Sergio da Rocha/ Presidente
Dom Murilo S. Krieger / Vice-Presidente
Dom Leonardo U. Steiner / Secretário-Geral
Fonte: http://cnbb.net.br
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O Papa começou a semana celebrando a Missa na capela da Casa Santa Marta (30/10/ 2017). Na sua homilia, Francisco comentou o episódio narrado por Lucas no Evangelho do dia, da cura da mulher encurvada.
Na sinagoga, no sábado, Jesus encontra uma mulher que não conseguia endireitar-se, “uma doença na coluna que há anos a obrigava a viver assim”, explicou o Papa. E o evangelista usa cinco verbos para descrever o que faz Jesus: viu-a, chamou-a, lhe falou, impôs as mãos sobre ela e a curou.
Cinco verbos de proximidade, destacou Francisco, porque “um bom pastor está próximo, sempre”. Na parábola do bom pastor, ele está próximo da ovelha perdida, deixa as outras e vai procurá-la. Não pode ficar distante do seu povo.
Ao contrário, os clérigos, doutores da Lei, fariseus, saduceus, os ilustres, viviam separados do povo, repreendendo-o continuamente. Eles não eram bons pastores, esclareceu o Papa, estavam fechados no próprio grupo e não se interessavam pelo povo. “Talvez estivessem preocupados, quando acabava o serviço religioso, em controlar quanto dinheiro havia nas ofertas”. Mas não estavam próximos às pessoas.
Jesus, ao contrário, é próximo, e a sua proximidade vem daquilo que Cristo sente no coração: “Jesus se comoveu”, diz outro trecho do Evangelho.
“Por isso, Jesus sempre estava ali com as pessoas descartadas por aquele grupinho clerical: estavam ali os pobres, os doentes, os pecadores e os leprosos; estavam todos ali, porque Jesus tinha essa capacidade de se comover diante da doença, era um bom pastor. Um bom pastor que se aproxima e tem a capacidade de se comover. Eu diria que a terceira característica de um bom pastor é a de não se envergonhar da carne, tocar a carne ferida, como fez Jesus com esta mulher: tocou, impôs as mãos, tocou os leprosos, tocou os pecadores.”
“Um bom pastor”, prosseguiu o Papa, “não diz: sim, está bom. Sim, sim eu estou próximo de ti no Espírito. Isso é distância. Mas fazer o que Deus Pai fez, aproximar-se, por compaixão, por misericórdia, na carne de seu Filho”.
O grande pastor, o Pai, nos ensinou como se faz um bom pastor: abaixou-se, esvaziou-se a si mesmo, aniquilou-se, assumiu a condição de servo.
“Mas, e esses outros, aqueles que seguem o caminho do clericalismo, aproximam-se de quem?” Aproximam-se sempre ao poder de turno ou ao dinheiro. São pastores maus. Eles pensam apenas como subir no poder, ser amigos do poder, negociam tudo ou pensam nos bolsos. Estes são hipócritas, capazes de tudo. O povo não tem importância para essas pessoas. Quando Jesus lhes diz aquele adjectivo que utiliza muitas vezes com eles, hipócritas, eles se ofendem: Mas nós, não, nós seguimos a lei”.
Quando o povo de Deus vê que os maus pastores são espancados, fica feliz, recorda Francisco, e isso é um pecado, sim, mas eles sofreram tanto que “gostam” um pouco disso. Mas o bom pastor, enfatiza o Pontífice, é Jesus que vê, chama, fala, toca e cura. É o Pai que se faz no seu Filho carne, por compaixão:
“É uma graça para o povo de Deus ter bons pastores, pastores como Jesus, que não têm vergonha de tocar a carne ferida, que sabem que sobre isso - e não apenas eles, mas também todos nós - seremos julgados: estava com fome, estava na prisão, estava doente ... Os critérios do protocolo final são os critérios da proximidade, os critérios dessa proximidade total, o tocar, o compartilhar a situação do povo de Deus. Não nos esqueçamos disso: o bom pastor está sempre perto das pessoas, sempre, como Deus nosso Pai se aproximou de nós, em Jesus Cristo feito carne”. Fonte: http://pt.radiovaticana.va
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Guerra dos panfletos e publicação inédita de livros em línguas locais popularizaram imagem e teses de alemão, também marcado por sua intransigência e polêmicas
WITTENBERG – A Reforma Protestante jamais teria ocorrido se, antes, a imprensa de Gutenberg não tivesse sido criada. Historiadores e teólogos consultados pelo Estado revelam que, ainda que a nova tecnologia tenha sido criada sete décadas antes, Martinho Lutero foi um dos primeiros “revolucionários da mídia” e a soube usar como poucos.
Hoje, a exposição que marca seus 500 anos conta com um cartaz que dá a dimensão de seu poder de comunicação. Ao lado de imagens de Lutero em seus momentos mais decisivos, um pássaro azul – símbolo reconhecido de uma rede social – o observa atentamente.
“Lutero teria usado o Twitter e o Facebook de uma maneira exaustiva se as redes existissem”, analisa o escritor e curador da exposição, Benjamin Hasselhorn. “Ele tinha um desespero enorme por fazer chegar suas convicções aos fiéis”, comentou.
Só a difusão de suas ideias é que o garantiu vivo e permitiu o cisma. Wittenberg, naquele momento, contava com apenas 2,5 mil habitantes. Lutero sabia disso. Outras tentativas de reformar a Igreja haviam fracassado por causa da falta de um apoio das massas e de uma repercussão que não ia além de uma pequena região.
Ao comentar o poder da imprensa, Lutero apontou que “seus benefícios não podem ser explicados apenas por palavras”. “Por meio dela, as escrituras estão abertas e espalhadas em todas as línguas e preservada aos descendentes”, disse.
Até 1500, cerca de 27 mil livros haviam sido publicados na Europa. Com o desembarque da polêmica de Lutero, esse número se multiplicou. Mesmo a proibição de que suas obras circulassem a partir de 1519 não freou sua proliferação.
Um dos motivos era o novo formato que ganhara espaço: os panfletos. Livros pequenos, baratos e capazes de serem levados no bolso. Verdadeiros instrumentos de propaganda, eles serviram como meio para que Lutero explicasse, em alemão, a doutrina da Igreja e publicasse textos bíblicos. Entre 1517 e 1524, o número de livros publicados aumentou em dez vezes e Wittenberg passou a ser responsável por 15% de todos os novos títulos lançados na Alemanha.
A estratégia de Lutero era de que suas teses deixassem a esfera dos teólogos e autoridades. Para isso, traduziu sua proposta ao alemão e, rapidamente, a imprensa o transformou em panfletos. Junto com eles vieram milhares de apoios.
A velocidade das publicações e de sua disseminação ao norte da Alemanha se contrastava com a dificuldade e o tempo de se fazer chegar uma carta de Wittenberg até a Santa Sé, em Roma. Enquanto meses foram necessários para que o Vaticano soubesse o que exatamente tinha ocorrido e ordenar sua excomunhão, em 1519 o movimento contestatário já havia estabelecido sua fundação.
Mesmo escondido para não ser morto e protegido por um dos príncipes, Lutero manteve seu maior projeto literário: traduzir a Bíblia ao alemão. Doze anos depois e com mais de mil páginas, a primeira Bíblia na língua local chegava ao mercado. Para a história do cristianismo, ela foi um divisor de águas, permitindo que a população pudesse ter acesso direto à palavra de Deus. Sem passar por alguém que a interpretasse. Para isso, Lutero teve de a escrever de uma forma acessível e até inventar palavras.
O golpe funcionou. Em apenas três meses, 3 mil cópias foram vendidas, o que na época foi um best-seller. Imediatamente, novas edições foram realizadas, que voltaram a se esgotar.
O impacto ainda foi sentido na formação de uma nação. Pela primeira vez, um livro para as “massas” teve a capacidade de unir as diferentes regiões que, até então, falavam diferentes dialetos. Assim, a bíblia de Lutero consolidou o alemão como língua nacional.
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Apenas publicar não era suficiente. Lutero precisava de um interlocutor de poder para que o debate ganhasse uma dimensão maior. Sua estratégia foi a de enviar suas teses não aos padres locais. A carta em que ele questiona a Igreja em 1517 é endereçada a Albrecht de Brandeburgo, o máximo representante.
Também em uma estratégia de comunicação, ele mudou seu nome. Na carta de 31 de outubro, Martinho Luder – seu nome original – se transforma em Martinus Lutherus. O sobrenome seria uma palavra criada a partir do grego Eleutherios, “aquele que foi liberado por Deus”.
Com o tema saindo da esfera religiosa e se transformando numa questão de insubordinação diante das autoridades, aliados de Lutero ainda colocaram em circulação panfletos com imagens explicando e denunciando os papas da época.
Não demorou para que aquele movimento alimentasse uma revolta dos campesinos locais em 1525, que publicaram reivindicações ao mesmo estilo de Lutero pedindo o fim do trabalho forçado. O movimento levou à destruição de dezenas de monastérios e o assassinato de monges e freiras. Para a surpresa dos pequenos agricultores, o reformador os abandonou e fechou seu apoio aos príncipes. Lutero chegou a escrever contra os rebeldes e pediu sua morte, o que acabou ocorrendo.
Odiado por muitos e venerado por outros tantos, Lutero ainda causou polêmica ao se expressar de forma dura contra os judeus e os atacar. 500 anos depois, um dos poucos partidos de extrema-direita da Alemanha, NPD, usou nas eleições de 2017 a imagem de Lutero insinuando que ele seria a base de parte do pensamento neonazista, algo que historiadores negam.
Mas a imprensa em 1517 também foi usada para o atacar. Satirizado, livros passaram a espalhar o rumor de que Lutero havia sido dominado por Lúcifer ou criticar seu estilo de vida e intolerância aos que o questionavam.
Houve ainda a censura, inclusive de príncipes que eram seus aliados. Uma das primeiras reproduções do rosto do jovem monge Martinho acabou sendo proibida pelo príncipe Frederico e encontrada apenas depois de sua morte. Nela, o reformador aparecia com um rosto determinado e uma calma de quem sabia o que estava fazendo. O motivo da censura: seu carisma o transformara em militância, algo perigoso para os monarcas.
Mas o resultado foi uma popularidade cada vez maior do monge insubordinado. Sua imagem passou a fazer parte das publicações e, para historiadores na Europa, Lutero foi o primeiro “ícone midiático da modernidade”. Em mais de 80 retratos, ele foi apresentado como cavaleiro em armas ou como um iluminado.
Queimando livros católicos em praça pública ou adotando posições polêmicas para a época, a vida de Lutero passou a ser acompanha de perto.
Para historiadores, ele se considerava como um profeta e, ao longo de sua reforma, a mudança que ela promoveria na sociedade não se limitaria ao destino das almas. Com o fim da relação com o Vaticano, as igrejas passaram a ter de se organizar localmente, com seminários aos religiosos, com o abandono de centenas de pessoas de instituições católicas, com a transformação até das finanças.
No programa escolar, Lutero passou a defender o ensino do pensamento de Aristóteles e o fim de dezenas de feriados relacionados a santos. Fonte: http://brasil.estadao.com.br
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Num período em que as crianças se vestem de bruxas para o Halloween, somos lembrados de que houve um momento em que as bruxas eram perseguidas e executadas pela sociedade. Para um olhar sobre este período horrível da história europeia, entrevistei o Pe. David Collins, professor jesuíta de história da Universidade de Georgetown. A entrevista é de Thomas Reese, jesuíta, jornalista, publicada por Religion News Service, 25-10-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Eis a entrevista.
Por que se interessou em bruxas?
Acabei me interessando em bruxas porque tinha interesse em magia de um modo geral. Os historiadores estudam magia medieval por causa da luz que ela lança sobre a maneira como as pessoas da Idade Média achavam que o mundo natural funcionava e como poderiam usar, subordinar e tirar vantagem das forças naturais no mundo criado.
Escrevi minha tese sobre os santos. Os milagres formam uma grande parte desta história, e os teólogos medievais, juntamente de figuras eclesiásticas, muito se interessavam em desvendar a diferença entre milagres e magia. Em alguns casos, era até mesmo difícil distinguir entre pessoas a que haviam ocorrido milagres e aquelas que haviam praticado magia. Se os milagres eram provas de santidade e a magia era o produto da mágica, como ter, na prática, um modo confiável para distinguir santos de feiticeiros?
Após muita pesquisa sobre os santos, desejei misturar as coisas e me voltei aos feiticeiros e às bruxas, sobre os quais trabalho atualmente.
O que é uma bruxa?
Não há uma definição clara. Depende muito da cultura e do período histórico analisado. Na Idade Média, raramente era algo que a pessoa atribuía a si mesma; em geral, era uma característica que outras pessoas acusavam alguém de ter.
O que as pessoas têm em mente, hoje, é uma mulher velha a pilotar uma vassoura, usando um chapéu pontudo e que pratica o mau. É também alguém que foi assombrado e perseguido com um fervor irracional no passado.
A caça às bruxas histórica que as pessoas pensam em geral não é medieval; ela é um pouco mais recente. Quando pensamos nas bruxas que foram queimadas ou condenadas, estamos falando de algo que surge no século XV e que dura até o fim do século XVIII.
Nesse período, definia-se bruxa como alguém que fez um pacto com o diabo. O pacto era normalmente selado com o intercurso sexual, e as bruxas formavam uma comunidade de malfeitoras, reunindo-se regularmente nos assim-chamados “sabbats”. Os pactos eram o que tornava a maldade delas tão poderosa.
Sempre houve a noção da mulher que faz coisas más ou pessoas que usam da magia para prejudicar outros indivíduos. O negócio de um pacto com o diabo é singular, característico da história ocidental, em oposição ao resto do mundo. E o pacto estava no centro das preocupações sociais que motivaram as perseguições do início do período moderno (1400-1800).
É algo que surge no fim da Idade Média e começa a ser perseguido com vigor no meio do século XV. As primeiras grandes condenações são do começo do século XV e os últimos datam da década de 1770, aproximadamente.
Isto é como os opositores descreviam as bruxas. As bruxas, elas pensavam que estavam fazendo um pacto com o diabo?
Há duas escolas de pensamento nesta questão. Uma sustenta que a crença em bruxaria foi inventada por grupos que a acusavam, tendo em vista a consecução de seus próprios objetivos. A outra escola de pensamento sustenta que as pessoas acusadas acreditavam, genuinamente, em bruxaria.
Está claro que os processos por bruxaria nasceram de jogos de poder de forças religiosas e seculares que queriam ganhar um maior controle sobre as comunidades religiosas e civis. Mas, hoje, temos também inúmeros exemplos de pessoas que se confessavam perante as acusações, conforme definido. Nem todos estes casos podem ser explicados por tortura, muito embora a possibilidade de tortura sempre esteve presente.
De onde vem a ideia de um pacto com o diabo?
Na verdade, a ideia começa por volta de 1200, entre os literatos, pessoas instruídas, no momento em que cogitaram aprender sobre magia e feitiçaria. Pensemos no Fausto: um pacto com o diabo para obter um conhecimento oculto e para manipular o mundo natural como a alquimia.
Temos manuais de necromancia, que claramente foram produzidos pessoas letradas ligadas à Igreja, em fins do século XIV, início do século XV. Eles invocam os espíritos dos mortos para conseguir a ajuda deles na feitura das coisas. Os manuais de necromancia, na estrutura dos rituais e das cerimônias, são imagens espelhadas de exorcismos. “Se podemos expulsar demônios, talvez possamos invocá-los”.
Além de um desejo de dominar um conhecimento oculto, havia um elemento financeiro impulsionando esta “pesquisa”. Estas pessoas faziam por dinheiro. Quem não iria querer ver os seus tesouros aumentados com o recém-criado lingote de outro do alquimista? E todos os tipos de pessoas poderosas se interessavam em horóscopos – príncipes, papas, todos eles. De que outra forma elas saberiam os dias propícios para assinar contratos, fazer tratados, casar as filhas, etc.?
Por volta de 1400, a preocupação com a ajuda do diabo para chegar a fontes mais profundas de conhecimento místico, conhecimento esotérico, se funde com a magia popular praticada nas aldeias, vilarejos.
Parte da tragédia social é que é mínimo o número de processos e execuções contra essas figuras da elite. Existe um certo tipo de pessoa que acaba comprimida entre uma fixação bizarra com o poder do diabo no mundo vindo de cima, e a amargura e o preconceito que vêm debaixo. No final das contas, as bruxas acabam comprimidas entre os dois.
A magia em si era vista como má?
Historicamente, surgiu a ideia de forças ocultas que podem ser usadas para fins bons. O teólogo escolástico dos séculos XV e XVI diria: “Se você estiver manipulando os poderes do mundo natural de um modo que é natural e para fins bons, então, de fato, não é magia”. Estas forças ocultas nos objetos materiais estão aí para se tirarem a vantagem mais completa delas.
A poção do amor constitui um caso de estudo interessante nas escolas. “Podemos usar a poção do amor contra o parceiro que não está apaixonado por nós?” Há dois problemas para os alunos debaterem. Um tem a ver com a licitude da produção da substância e se esta é natural. A outra tem a ver com o livre arbítrio. “O uso da poção do amor está privando o outro de sua liberdade, apesar da infelicidade que é o parceiro não estar mais apaixonado?”
Mas há outros que diriam que a poção do amor é uma coisa boa porque o casamento pode, às vezes, ser difícil. As brasas esfriam-se, e seria bom elas se reacenderem.
Que tipo de prova era usada num processo por bruxaria?
Temos aí algo bastante arbitrário. Lembremos da cena do filme “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado” com o pato. Não gosto de usar arte popular contemporânea para explicar coisas em história, mas acho que essa cena capta o problema.
Acreditava-se que havia pessoas que eram bruxas e que fizeram pactos com o diabo, e criam que elas causavam um mal verdadeiro. Se um conselho municipal ou os consultores do arcebispo recebessem um conjunto coerente de problemas lançados em seu colo e ele começasse a associá-los, poderia pensar: “Bem, podem ser bruxas”.
Em seguida, diria: “Por que não ter um processo?” Então se começa a caminhar numa dada direção, está-se à procura de certa coisa, e esta é encontrada.
O primeiro livro realmente importante contra os processos por bruxaria é “Cautio Criminalis”, de Friedrich Spee, publicado em 1631. Spee é um jesuíta e confessor de bruxas que haviam sido condenadas. Ele escreveu um tratado que defendia parar a realização destes processos com base em que não havia um padrão adequado de provas. Ele não questionava a existência ou não uma tal coisa chamada bruxas.
O guia mais famoso para estes processos, muito embora não o mais comumente usado na época, é “Malleus Maleficarum” (O martelo das bruxas), de Heinrich Kramer, que escreveu a obra na década de 1480 depois de não conseguir obter as condenações de um conjunto particular de processos em Innsbruck. Cerca de um terço é um longo discurso misógino, ideias tiradas da Antiguidade e trazidas para o momento contemporâneo; um outro terço fala sobre como encontrar uma bruxa; e o outro terço fala a respeito dos procedimentos, como realizar um julgamento.
Quantas bruxas foram executadas?
De 1450 até 1750 foram provavelmente 100 mil julgamentos, no máximo. Na década de 1970, o número estimado estava em torno de 9 milhões, mas hoje ficamos entre 100 mil e 70 mil julgamentos. Grande parte deles foram processos civis, e não eclesiásticos. Houve de 30 mil a 50 mil execuções nesse período de 300 anos. Pesquisas recentes sustentam números menores ainda.
É importante também perceber que não houve um número constante, coerente de processos entre os anos de 1450 e 1750. Os casos irrompem em lugares particulares e em épocas particulares. Os julgamentos continuam por alguns anos e então desaparecem. Ou duram por um ano e então, de repente, 50 anos mais tarde desaparece de novo.
Há um alto índice de execuções, mas há um índice ainda mais alto de condenações. Houve mais condenações do que execuções. Havia a possibilidade de penalidades alternativas à execução. Assim, se a pessoa renunciasse o pacto com o demônio, se as provas não fossem suficientes para uma condenação plena por bruxaria, havia penalidades menores.
O que fazia irromper estes processos?
Uma vez que a ideia da elite de magia e a ideia popular de bruxaria se juntaram, o ator principal para o surgimento dos processos em geral tende a ser a pessoa proeminente de uma pequena localidade. Muitas vezes, o que parece ter acontecido é que coisas ruins ocorriam e alguém precisava ser culpado.
Na ausência de alguma explicação, a magia maléfica servia para estes propósitos: pôr a culpa de qualquer coisa que precisa ser explicada em alguém que, por alguma outra razão, estava socialmente separada, era odiada ou, simplesmente, era alguém sem confiança dentro da comunidade.
Há problemas que, por muito tempo, perduraram. E, de repente, num momento apetece: “Ah, a solução para estes problemas duradouros é começar uma caça às bruxas”.
Que impacto a Reforma teve sobre os processos?
Quando começa a Reforma há um declive, há uma pausa. As pessoas estão distraídas. Mas, por volta das décadas de 1550 e 1560, o número de processos e execuções aumenta de novo, especialmente na Alemanha. Um total de 70% dos processos e execuções aconteceu na Alemanha. Algo entre 90 e 95% das pessoas executadas por bruxariafalavam um dialeto alemão.
Além disso, após a Reforma, são os tribunais seculares que processam as bruxas. E é aí quando as coisas se tornam realmente brutais. No período entre 1560 e 1660, que é quando as acusações mais brutais se encontram, são os tribunais seculares, com o incentivo das autoridades eclesiásticas, que os realizam.
Parece também haver uma pequena associação com uma preocupação religiosa de reformar a sociedade cristã. As figuras eclesiásticas que se preocupavam com os pactos com o diabo estão também falando sobre a reforma da Igreja. Elas estão olhando para a cristandade e dizendo: “Estamos trabalhando nisso há 1.500 e ainda não temos o Reino de Deus. Por que isso? É porque muitíssimas pessoas estão fazendo pactos com o diabo”.
Por que havia mais processos por bruxaria na Alemanha do que em outras partes da Europa?
Imaginemos a importância dos atores locais em conseguir com que alguém fosse julgado por bruxaria. Se tivermos um sistema jurídico altamente centralizado, ele força camadas múltiplas de revisões. Na França, por exemplo, temos um número pequeno de execuções, e eles malogram logo em seguida. Depois de um entusiasmo inicial, este número estanca. Por quê? Por causa do sistema jurídico.
Na França, um judiciário centralizado em Paris assume o papel-chave de supervisionar os processos. Um pequeno vilarejo perto de Toulouse poderia condenar 20 bruxas de uma vez só, mas estas condenações iam para Paris, e muitas delas que aí chegavam eram anuladas.
O que não temos no Sacro Império Romano? Não temos um governo central forte. Temos o imperador, mas temos estes principados, mais de 300 deles, cada qual sendo o responsável pelo seu próprio sistema de justiça. Exatamente estas camadas de supervisão é que faltam, e isso uma das razões pelas quais os processos duraram todo aquele tempo na Alemanha.
Qual o sistema jurídico mais centralizado da Europa nos séculos XV, XVI e XVII? A inquisição. Portanto, em lugares onde as inquisições organizadas – a romana e a espanhola – eram as mais fortes, quase não temos julgamentos por bruxaria. Na Espanha e na Irlanda, não temos quase nenhum. Na Itália, pouquíssimos. De novo, onde temos os sistemas jurídicos menos centralizados, vemos mais e mais casos [de processos].
Que lição os julgamentos por bruxaria nos deixam para os dias de hoje?
As tendências humanas que levam a elite e outras pessoas a conspirar para processar e perseguir nos primórdios da era moderna estão ainda entre nós, hoje. A nossa criatividade em fazer bodes expiatórios – em inventar ideologias para explicar coisas que a razão e a experiência real não dão conta; em expressar as nossas frustrações nos limites das nossas realizações com violência; em justificar esta violência com o apelo à raison d’etat [razão de Estado] e à pureza da crença – desconhece fronteiras.
Curiosamente, foi a burocracia que deu início a esta calamidade particular, e a burocracia que o encerrou. A atenção à irracionalidade humana e a prática de duvidar de si próprio, especialmente quando se trata das formas como nós restringimos, punimos e acusamos os outros, são, com certeza, desafios recorrentes desde a caça às bruxas. Mas, então, não temos muita coisa no século passado que dê a entender que iremos, em algum momento, aprender esta lição. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
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*(Com comentário do Frei Petrônio de Miranda, Carmelita/RJ)
A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo (Mateus 22,34-40), que corresponde ao 30° Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.
Eis o texto
A religião cristã representa, para muitos, um sistema religioso difícil de entender e, sobretudo, um quadro de leis demasiado complicado para viver corretamente ante Deus. Não necessitamos, os cristãos, de concentrar muito mais a nossa atenção em cuidar antes de mais nada do essencial da experiência cristã?
Os evangelhos recolheram a resposta de Jesus a um setor de fariseus que lhe perguntam qual é o mandamento principal da Lei. Assim resume Jesus o essencial: o primeiro é “amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu ser”; o segundo é “amarás o teu próximo como a ti mesmo”.
A afirmação de Jesus é clara. O amor é tudo. O decisivo na vida é amar. Aí está o fundamento de tudo. Por isso, o primeiro é viver ante Deus e ante os demais numa atitude de amor. Não devemos perder-nos em coisas acidentais e secundárias, esquecendo o essencial. Do amor sai todo o resto. Sem amor, tudo fica desvirtuado.
Ao falar do amor a Deus, Jesus não está pensando nos sentimentos ou emoções que podem brotar do nosso coração; tampouco está nos convidando à multiplicação das nossas rezas e orações. Amar o Senhor, nosso Deus, com todo o coração é reconhecer Deus como Fonte última da nossa existência, despertar em nós uma adesão total à sua vontade e responder com fé incondicional ao seu amor universal de Pai de todos.
Por isso agrega Jesus um segundo mandamento. Não é possível amar a Deus e viver de costas aos seus filhos e filhas. Uma religião que predica o amor a Deus e se esquece dos que sofrem é uma grande mentira. A única postura realmente humana ante qualquer pessoa que encontramos no nosso caminho é amá-la e procurar o seu bem como quiséssemos para nós mesmos.
Toda esta linguagem pode parecer demasiado velha, demasiado gasta e pouco eficaz. No entanto, também hoje o primeiro problema no mundo é a falta de amor, que vai desumanizando uma e outra vez os esforços e as lutas por construir uma convivência mais humana.
Há alguns anos, o pensador francês Jean Onimus escrevia assim: “O cristianismo está, todavia, nos seus começos: tem vindo a trabalhar apenas há dois mil anos. A massa é pesada e serão necessários séculos de maduração antes que a caridade a faça fermentar”. Os seguidores de Jesus não devem esquecer-se da sua responsabilidade. O mundo necessita de testemunhas vivas que ajudem as futuras gerações a acreditar no amor, pois não há um futuro esperançoso para o ser humano se acaba por perder a fé no amor. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
*Comentário do Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita e jornalista, Rio de Janeiro.
Fiquei pensando...
Fiquei... Pensando nos corruptos da Lava Jato- todos, ou 99, 9 % são cristãos- Como é possível alguém dizer que segue o amor de Jesus e desvia bilhões dos pobres? Quantos estão padecendo nos hospitais ou em suas casas vítimas dos desvios das verbas da saúde? No Rio de Janeiro, várias crianças foram vítimas das balas perdidas. Enquanto o Gedel Vieira Lima- Cristão- “guardava” mais de 50 milhões em seu apartamento, no sertão baiano diversas famílias não tem o precioso líquido, a água. É possível seguir o Cristo e o seu amor e deixando o povo padecer?
Fiquei... Pensando nos moradores de rua das grandes cidades. Ontem estive na Praça da Sé, São Paulo. Lá tem a maior concentração de moradores e rua por metro quadrado. Onde resido, na Lapa, Rio de Janeiro, também se repete a mesma sena da Sé. Será que podemos falar do amor de Jesus e fingir que não existem homens e mulheres vivendo de uma maneira sub-humana? Que amor é esse?
Fiquei pensando... Pensando nos refugiados e seus diversos campos- verdadeiros campos de concentração- onde crianças e anciões- as principais vítimas- morrem por não ter o básico para a sobrevivência. É possível falarmos em alto e bom som no amor do Nazareno sem voltar o nosso olhar para esta realidade que envergonha o mundo?
Fiquei pensando... Pensando nos milhares de desempregados no Brasil. Famílias que não tem mais o básico para sobreviver. Jovens sem perspectivas de futuros, sem sonhos e sem brilho nos olhos. Como podemos falar do amor de Jesus fechando os nossos olhos para esse Brasil real que os nossos governantes fingem não ver?
Fiquei pensando... Pensando nos novos escribas, sacerdotes, fariseus e doutores da lei de nossas igrejas que esquecem o fundamental da nossa espiritualidade: O AMOR. Muitas vezes tais “guardiões” da doutrina excluem aqueles que, por um motivo ou outro falharam, seja na vida conjugal, moral ou social. Será o Jesus-amor desses letrados o mesmo do Evangelho? Tenho absoluta certeza que não.
Fiquei pensando...
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"As entrevistas, para mim, têm sempre um valor pastoral, se não tivesse esta confiança, não concederia entrevistas". Esta fala do Papa Francisco sobre suas entrevistas realizadas após cada viagem, no interior do avião, é o ponto de partida para a produção do conteúdo do primeiro livro de Jorge Mario Bergoglio sobre seu continente de origem.
No próximo dia 30, o Pontífice lançará sobre a bandeira da Editora Planeta seu primeiro livro sobre a América Latina, redigido a partir de uma série de entrevistas concedidas ao jornalista argentino Hernán Reyes, correspondente do jornal Téslan no Vaticano desde maio de 2015. As vendas iniciam na Argentina e posteriormente em outros países latinoamericanos.
A obra será a primeira publicada junto a um jornalista não-europeu e surge dos encontros com Francisco em julho e agosto passados na Casa Santa Marta, residência do Pontífice. América Latina, conversas com Hernán Reyes Alcaide (Editora Planeta, 2017) celebra os dez anos da Conferência do Episcopado da América Latina e Caribe, realizada em Aparecida, e repassa temas como o papel da mulher na Igreja, a pastoral carcerária, as experiências de diálogo inter-religioso e ecumênico, o destino do que define como a “Pátria Grande” latino-americana e seus políticos.
Na obra em que estreia abordando o continente latino-americano, Francisco responde às perguntas do jovem compatriota de 33 anos. As questões de desenvolvem em torno de temas como os desafios da religião, o retrato político do católico latino-americano, as crises econômicas e políticas na América Latina o papel do Vaticano nessas crises.
A frase de abertura da matéria está no prefácio que o papa escreveu para o outro livro, Adesso Fate le vostre domande (Agora façam as vossas perguntas), do Padre Antônio Spadaro. O Santo Padre sublinha que nas entrevistas, assim como nas coletivas com os jornalistas no avião, lhe agrada olhar as pessoas nos olhos e responder às perguntas com sinceridade. Em entrevista à Radio Vaticano, ele recorda que quando era Arcebispo em Buenos Aires, "tinha um pouco de medo dos jornalistas" e por esta razão não concedia entrevistas. Como Pontífice, porém, convenceu-se de que as entrevistas são "uma maneira de comunicação" de seu ministério".
“Sei que isto pode me tornar vulnerável, mas é um risco que quero correr. Para mim, as entrevistas são um diálogo, não uma lição”, eis porque “não me preparo”.
Como já se tornou costume após suas viagens, o Papa concede entrevistas coletivas no avião, durante o voo. Após sua última passagem pela América latina, quando visitou a Colômbia em ocasião dos acordos de paz estabelecido entre o governo de Juan Manuel Santos e as Farc, Francisco foi questionado pelo correspondente argentino sobre a possibilidade de replicar o modelo colombiano em outros conflitos no mundo, e envolvendo outros sujeitos. Na resposta, ele diz que “esse é um modo de seguir em frente, um modo sapiencial e político”. http://www.ihu.unisinos.br
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Ele foi atingido por tiros dentro do próprio carro, quando estava com familiares e um amigo, na entrada da cidade de Ibirapitanga, na noite de quarta-feira (25).
pastor e cantor gospel Melquiades Santos Neto, conhecido como Netto Paz, ex-vocalista da banda Shalom, de 37 anos, morreu após ser baleado dentro do próprio carro, no entroncamento da cidade de Ibirapitanga, sul da Bahia, na noite de quarta-feira (25). A filha dele de 12 anos também foi atingida de raspão no peito, socorrida e não corre risco de morrer.
Além de Netto e a filha de 12 anos, também estavam no carro a outra filha dele, de sete anos, a mulher dele, Flávia Sampaio Oliveira, e um pastor que é natural do Pará. Flávia se machucou na boca e os demais não ficaram feridos.
A amiga da família Louane Silva Santana contou que o crime ocorreu quando Netto chegava na cidade de Ibirapitanga, depois de ter ido em Ubaitaba para comer acarajé com o pastor que veio do outro estado. Dois homens em um carro branco chegaram atirando, sem anunciar assalto e não levaram nada das vítimas. Ele perdeu o controle do carro, que caiu na ribanceira.
“A gente nem consegue imaginar o motivo (da morte), porque ele era uma pessoa do bem que só pensava em ajudar. A gente não consegue ter ideia do que pode ter acontecido. Ele não tinha inimigos e era amado por todos”, disse Louane.
A filha do pastor que foi atingida de raspão está internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no Hospital Manoel Novaes, em Itabuna, e passa bem.
Depois do ataque, policiais da Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM), com sede fica no município vizinho, Ubaitaba, fizeram buscas na região pelos suspeitos, mas não conseguiu localizá-los.
Segundo o titular da 7ª Coordenadoria de Polícia Civil do Interior (Coorpin), Evy Paternostro, a Polícia Civil em Ibirapitanga está colhendo informações e irá investigar o crime. A autoria e motivação ainda são desconhecidas.
O corpo de Netto Paz foi levado para o Departamento de Polícia Técnica (DPT) de Ilhéus e deverá ser velado ainda nesta quinta-feira (26) na igreja onde ele atuava.
Netto seguia carreira solo depois de deixar a banda Shalom e atuava como pastor na Igreja do Evangelho Quadrangular, em Ibirapitanga. A Banda Shalom lamentou a morte de Netto no Facebook.
"Tristeza profunda!! Difícil escrever alguma coisa neste momento, alguém que por 17 anos trabalhamos e lutamos na obra do Senhor, juntos exaltamos e glorificamos o nome do Eterno, não entendemos agora, Senhor, mas tenho certeza de que carinhosamente meu irmão 'Merquide', como eu o chamava,já tem lugar preparado no Céu para onde devemos estar preparados para ir", diz a postagem. Fonte: https://g1.globo.com
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Reflexões do Papa sobre o Pai Nosso na TV2000 da CEI
(26/10/2017). “Pai Nosso” é o nome do programa que vai ao ar no canal dos bispos italianos entre este 25 de outubro e 21 de novembro.
Trata-se de conversas entre o Capelão da Prisão de Pádua, Padre Marco Pozza e diversos convidados que falam sobre a Oração do Pai Nosso. A novidade, é a presença do Papa Francisco.
“É preciso coragem para rezar o Pai Nosso, é preciso coragem!” - começa dizendo o Pontífice – “acreditar que há um Pai que me acompanha, que me perdoa, que me dá o Pão, que está atento a tudo o que eu peço, que me veste melhor ainda do que as flores do campo”.
E para acreditar nisto, é preciso “ousar, mas todos juntos”, por isto a importância de “rezar todos juntos, pois um ajuda o outro e ousamos”.
“Dizemos ser cristãos, dizemos ter um Pai, mas vivemos como... – não digo como animais – mas como incrédulos, sem fé e vivemos também fazendo o mal. Não no amor, mas no ódio, na competição, ou nas guerras”.
O Papa pergunta se o nome de Deus é santificado “nas jovens sequestradas pelo Boko Haram, se é santificado nos cristãos que lutam entre eles pelo poder, é santificado na vida daqueles que contratam um matador de aluguer para resolver uma situação? É santificado na vida daqueles que não cuidam dos próprios filhos? Não, Deus não é santificado ali”.
Francisco recorda os tempos de sua infância em que o pão jamais era colocado fora, pois o pão “é o símbolo desta unidade da humanidade, é símbolo do amor de Deus”. As mães, as avós, reaproveitavam de alguma forma ou outra o pão, mas jamais era deitado fora.
O Papa também conta que quando era Bispo em Buenos Aires, a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima visitou a capital argentina e foi celebrada uma Missa para os doentes num grande estádio.
Ele atendia às confissões, quando ao final chegou uma senhora pequenina, portuguesa, muito simples, com “os olhos esplêndidos”. Ele disse a ela que ela não tinha pecados e ela respondeu que todos pecamos, e que “Deus perdoa tudo”.
“E como a senhora sabe isto?”, perguntou Bergoglio. “Se Deus não perdoasse, o mundo não existiria!”, respondeu ela.
“Naquele momento tive vontade de dizer: “Mas a senhora estudou na Gregoriana?””.
Um presente inesperado!
“Quando falamos sobre isto a primeira vez – conta o Diretor da TV2000, Paolo Ruffini – ficamos fascinados com a ideia, e assustados. Fazer um programa sobre o Pai Nosso, sobre a oração com a qual Jesus respondeu aos discípulos que pediam a ele para “ensinar-nos a rezar””.
“Procurar restituir àquelas palavras, que conhecemos todos, o valor original. Tentar pela televisão refletir sobre esta oração, e redescobrir a beleza escondida, a profundidade, a atualidade. Buscar, por meio de uma série de encontros, de narrativas e histórias, os traços perdidos do Pai Nosso. Um caminho difícil. Mas sobre esta estrada temos encontros surpreendentes. E o mais surpreendente de todos foi aquele com o Santo Padre. Inesperado! Um verdadeiro presente”, disse por sua vez Padre Marco Pozza. Fonte: http://pt.radiovaticana.va
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Papa Francisco na audiencia geral desta quarta-feira, 25 de Outubro 2017 - ANSA
Na audiência geral desta quarta-feira 25 de Outubro, o Papa Francisco apresentou a última catequese sobre a esperança cristã que vinha tratando desde o início do ano litúrgico. E falou do Paraíso como meta da nossa esperança.
Paraíso – disse – é uma das últimas palavras pronunciadas por Jesus na Cruz, ao dirigir-se ao bom ladrão. Francisco convidou a deter-se sobre essa cena em que ao lado de Jesus, estão dois malfeitores, um dos quais reconhece ter merecido aquele terrível suplício. Jesus o chama “o bom ladrão”.
“No Calvário, naquela trágica e santa sexta-feira, Jesus chega ao estremo da sua incarnação, da sua solidariedade para connosco, pecadores. Ali se realiza aquilo que o profesta Isaías tinha dito do Servo sofredor: “Foi contado entre os malfeitores“.
No Calvário – continuou Francisco – Jesus tem o seu último encontro com um pecador para abrir de par em par também a ele as portas do seu Reino. É a única vez que a palavra “paraíso” aparece nos evangelhos. Jesus promete-o a um “pobre diabo” que sobre o madeiro da cruz teve a coragem de lhe fazer um humilde pedido “Recorda-te de mim quando entrares no teu reino”. Ele não tinha nada para fazer valer, mas confiou-se a Jesus que ele reconheceu como inocente, bom, muito diferente dele - ladrão. E Jesus sentiu-se tocado no seu coração por aquela humilde palavra de arrependimento.
A atitude do bom ladrão, recorda-nos – prossegui Francisco que somos filhos de Deus, que Ele sente compaixão em relação a nós, que e fica desarmado cada vez que lhe manifestamos a nostalgia do seu mor.
“Nos quartos de tantos hospitais e nas celas das prisões este milagre se repete inumeráveis vezes: não há pessoa, por mais mal que tenha vivido, lhe reste só o desespero e lhe seja proibida a graça. Perante Deus nos sentimos todos de mãos vazias, um pouco como o publicano da parábola que tinha parado a rezar ao fundo do templo. E todas as vezes que um homem, fazendo o último exame de consciência da sua vida, descobre que as suas faltas ultrapassam largamente as suas boas obras, não deve desencorajar-se, mas confiar-se à misericórdia de Deus.”
O Papa frisou mais uma vez que “Deus é Pai, e até ao último momento espera o nosso regresso”, e recordou que o paraíso não é, contudo, um lugar de fábula ou um jardim encantado. “O paraíso é um abraço com Deus, Amor infinito, e entramos nele graça a Jesus, que morreu na cruz por nós. Onde há Jesus, há misericórdia e felicidade, sem Ele há frio e treva”.
Na hora da morte, mesmo que não haja ninguém que se recorde de nós, Jesus estará ali ao nosso lado e quer levar-nos para o lugar mais belo que existe. E à casa do Pai levará o que fizemos de bom e o que precisa ainda de redenção: as faltas, os erros de toda a nossa vida.
E esta é a meta da nossa vida: que tudo se realize, e seja transformado em amor. “Se acreditarmos nisto, a morte deixa de nos meter medo, e podemos esperar mesmo partir deste mundo de forma serena, com muita confiança. Quem conheceu Jesus, já não teme nada”. E tal como o velho Simão (…) poderemos dizer: “Agora deixa, oh Senhor que o teu servo vá em paz, segundo a tua palavra, porque os meus olhos já viram a tua salvação”. E naquele instante, rematou o Papa – não teremos necessidade de mais nada, não choraremos mais inutilmente, porque tudo passou, mas o amor não, ele permanece. Porque a caridade nunca acabará”. Fonte: http://pt.radiovaticana.va
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“Acolhendo a proposta da Congregação para a Evangelização dos Povos, indico um mês missionário extraordinário em outubro de 2019, a fim de despertar ainda mais a consciência da missio ad gentes e de retomar com novo impulso a transformação missionária da vida e da pastoral.” Foi o anúncio – já conhecido há alguns meses – contido na mensagem que o Papa Francisco enviou ao prefeito da Propaganda Fide, o cardeal Fernando Filoni, lembrando a aproximação do centenário da carta Maximum illud, com a qual Bento XV deu um novo impulso às missões. A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 22-10-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
“Era o ano de 1919: ao término de um terrível conflito mundial, que ele mesmo definiu como ‘inútil massacre’, o papa sentiu necessidade de requalificar evangelicamente a missão no mundo – afirma Francisco –, para que fosse purificada de qualquer incrustação colonial e se mantivesse distante daquelas ambições nacionalistas e expansionistas que causaram tantos desastres. ‘A Igreja de Deus é universal, nenhum povo lhe é estranho’, escreveu, exortando também a rejeitar qualquer forma de interesse, já que só o anúncio e a caridade do Senhor Jesus, difundidos com a santidade da vida e com as boas obras, são a razão da missão.”
Assim, Bento XV “deu um impulso especial à missio ad gentes, esforçando-se, com o instrumentário conceitual e comunicativo em uso na época, para despertar, particularmente no clero, a consciência do dever missionário”, que responde “ao perene convite de Jesus: ‘Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda criatura’”.
Um “mandato do Senhor” que “não é uma opção para a Igreja; é a sua ‘tarefa imprescindível’” como recordou o Concílio Vaticano II, pois a Igreja “é, por sua natureza, missionária”. Para corresponder a essa identidade missionária, escreveu ainda Francisco, citando as palavras do Concílio, “é necessário que a Igreja, sempre movida pelo Espírito Santo, siga o mesmo caminho de Cristo: o caminho da pobreza, da obediência, do serviço e do sacrifício de si mesmo”.
O Papa Bergoglio também lembrou as palavras de São João Paulo II, convencido de que a missão “renova a Igreja, revigora a fé e a identidade cristã, dá novo entusiasmo e novas motivações. É dando que a fé se fortalece!”.
Por fim, o papa citou as palavras escritas por ele na exortação Evangelii gaudium: “Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho de uma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma ‘simples administração’. Constituamo-nos em ‘estado permanente de missão’. (…) A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de ‘saída’ e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade”.
Ao se aproximar o centenário da Maximum illud, Francisco, então, pede para se “superar a tentação recorrente que se esconde por trás de toda introversão eclesial, de todo fechamento autorreferencial nas próprias fronteiras seguras, de toda forma de pessimismo pastoral, de toda estéril nostalgia do passado, para, em vez disso, nos abrirmos à alegre novidade do Evangelho. Também nestes nossos tempos, dilacerados pelas tragédias da guerra e insidiados pela triste vontade de acentuar as diferenças e fomentar os confrontos, seja levada a todos, com renovado ardor, e infunda confiança e esperança a Boa Nova de que, em Jesus, o perdão vence o pecado, a vida derrota a morte, e o amor vence o medo”.
E convocou um mês missionário extraordinário para outubro de 2019, para que “todos os fiéis tragam verdadeiramente no coração o anúncio do Evangelho e a conversão das suas comunidades em realidades missionárias e evangelizadoras; para que cresça o amor pela missão”. http://www.ihu.unisinos.br
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Papa Francisco nomeia bispo para a diocese de Propriá, no Sergipe
A Nunciatura Apostólica no Brasil comunicou nessa quarta-feira, 25 de outubro, a nomeação do novo bispo da diocese de Propriá, no Estado de Sergipe (SE). Padre Vitor Agnaldo de Menezes, atual pároco da Paróquia Nossa Senhora das Graças em Maracá, na Bahia (BA) irá assumir o governo pastoral da diocese. A decisão foi tomada com base no pedido de renúncia apresentada pelo então bispo, dom Mário Rino Sivieri, por motivo de idade.
Trajetória
Nascido em 15 de junho de 1968, na cidade de Curaçá (BA), padre Vitor é formado em Filosofia pelo Institutum Sapientiae, em Anápolis (GO) e em Teologia pela Universidade Católica de Salvador, na Bahia. Também tem especialização em Espiritualidade Sacerdotal e Missionária.
Sua ordenação sacerdotal ocorreu em 18 de abril de 1998, na diocese de Jequié, na Bahia. Entre as funções que exerceu estão a de pároco da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Jequié (BA); reitor do Seminário Maior Diocesano; diretor Nacional da Pontifícia Obra da Propagação da Fé, de 2006 a 2010; pároco da Paróquia Catedral de Santo Antônio, em Jequié, de 2011 a 2016 e, por último, pároco da Paróquia Nossa Senhora das Graças, em Maracás (BA), função que exerce desde agosto de 2016.
Confira, abaixo, a saudação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ao novo membro do episcopado:
Prezado Irmão, Vítor Agnaldo de Meneses.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) se alegra com sua nomeação como bispo da diocese sergipana de Propriá. Com sua nomeação, Papa Francisco manifesta, mais uma vez, cuidado e zelo para com a Igreja no Brasil, nomeando-o como o sucessor de dom Mário Rino Sivieri.
Sua trajetória como sacerdote no campo da pastoral e da formação do clero nos faz lembrar que se trata da ação da Providência em vista do que a Igreja iria lhe confiar.
São João Paulo II, recentemente celebrado na memória litúrgica da Igreja, por ocasião da visita Ad Limina dos bispos do nordeste do Brasil, em 1995, disse: “Os votos que vos faço, Bispos do Brasil, é que encontreis em vossos fiéis a colaboração construtiva para serdes sustentados no cumprimento da responsabilidade que vos foi confiada”. Com estas palavras, saudamos sua chegada ao episcopado para servir a Igreja no nordeste brasileiro.
Pedimos que o Irmão leve o nosso abraço de gratidão a dom Mário Rino Sivieri. O lema episcopal “Omnium Servus – servo para todos” nos deixa antever, com alegria, a grande força do ministério dele realizado por 20 anos em Propriá. Enviamos nossos melhores votos de saúde e de paz em seu tempo de emeritude que agora tem início.
Desejamos que seu pastoreio seja fecundo!
Em Cristo,
Dom Leonardo Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário-Geral da CNBB
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O mistério de Jesus Cristo esteve no centro da homilia que o Papa Francisco pronunciou na manhã desta terça-feira (24/10/2017) na capela da Casa Santa Marta.
A homilia do Pontífice teve como ponto de partida a Primeira Leitura extraída da Carta aos Romanos, na qual São Paulo usa contraposições – pecado, desobediência, graça e perdão – para que possamos compreender algo, mas sente que é “impotente" para explicar este mistério. Por detrás disso tudo, está a história da salvação, da criação, da queda e da redenção. São Paulo, portanto, nos leva a ver Cristo, e não tendo palavras suficientes para explicá-Lo, “nos impulsiona”, “nos empurra, para que caiamos no mistério” de Cristo, explica Francisco.
Essas contraposições, portanto, são somente passos no caminho para imergir-se no mistério de Cristo, que não é fácil de entender: é tão “superabundante”, “generoso”, “inexplicável”, que não se pode entender com argumentações, porque estas levam até certo ponto. Para entender “quem é Jesus Cristo para ti”, “para mim”, “para nós”, o Papa exorta, portanto, a imergir-se neste mistério.
Em outro trecho, São Paulo, olhando Jesus Cristo diz: “Amou-me e deu a si mesmo por mim”. Dificilmente se encontra alguém disposto a morrer por uma pessoa justa, mas somente Jesus Cristo quer dar a vida “por um pecador como eu”. Com essas palavras, São Paulo tenta nos introduzir no mistério de Cristo. Não é fácil, “é uma graça”. Isso foi compreendido não somente pelos santos canonizados, mas também por muitos santos “escondidos na vida quotidiana”, pessoas humildes que depositam unicamente a sua esperança no Senhor: entraram no mistério de Jesus Cristo crucificado, “que é uma loucura”, afirma Paulo.
O Papa evidencia que, quando vamos à missa, vamos rezar, sabemos que ele está na Palavra, que Jesus vem, mas isto não é suficiente para poder entrar no mistério:
“Entrar no mistério de Jesus Cristo é mais, é deixar-se ir naquele abismo de misericórdia onde não existem palavras: somente o abraço do amor. O amor que o levou à morte por nós. Quando nós vamos nos confessar porque pecados – sim, devo tirar os pecados, digamos; ou “que Deus me perdoe os pecados” – vamos, contamos os pecados ao confessor e ficamos tranquilos e contentes. Se eu vou lá, vou encontrar Jesus Cristo, entrar no mistério de Jesus Cristo, entrar naquele abraço de perdão do qual fala Paulo; daquela gratuidade de perdão”.
À pergunta sobre “quem é Jesus Cristo para ti”, se poderia responder “o Filho de Deus”, se poderia recitar todo o Credo, todo o Catecismo e é verdade, mas se chegaria a um ponto em que não conseguiríamos dizer o centro do mistério de Jesus Cristo, que “me amou” e “entregou-se a si mesmo por mim”. “Entender o mistério de Jesus Cristo não é uma coisa de estudo” – observa o Papa – porque “Jesus Cristo é entendido somente por pura graça”.
É então assinalado um exercício de piedade que ajuda: a Via-Sacra, que consiste em caminhar com Jesus no momento em que nos dá “o abraço de perdão e de paz”:
“É bonito fazer a Via-Sacra. Fazê-la em casa, pensando nos momentos da Paixão do Senhor. Também os grandes Santos aconselhavam sempre começar a vida espiritual com este encontro com o mistério de Jesus Crucificado. Santa Teresa aconselhava as suas monjas: para chegar à oração de contemplação, a elevada oração que ela tinha, começar com a meditação da Paixão do Senhor. A Cruz com Cristo. Cristo na Cruz. Começar a pensar. E assim, tentar entender com o coração, que ‘me amou e deu a si mesmo por mim’, ‘deu a si mesmo até a morte por mim’”.
Na primeira leitura, São Paulo quer justamente revelar o abismo do mistério de Cristo, reitera o Papa Francisco:
“’Eu sou um bom cristão, vou à Missa no domingo, faço obras de misericórdia, recito as orações, educo bem os meus filhos’: isto está muito bem. Mas a pergunta que faço: “Você faz tudo isto: mas entra no mistério de Jesus Cristo? Aquilo que você não pode controlar... Peçamos a São Paulo, verdadeira testemunha, alguém que encontrou Jesus Cristo e deixou-se encontrar por Ele e entrou no mistério de Jesus que nos amou, deu a si mesmo até à morte por nós, que nos fez justos diante de Deus, que perdoou todos os pecados, também as raízes do pecado: de entrar no mistério do Senhor”.
O convite conclusivo do Papa é justamente o de olhar para o crucifixo, “Cristo crucificado, centro da História, centro da minha vida”. Fonte: http://pt.radiovaticana.va
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