Dom Joel Portella Amado, secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil Foto: Divulgação CNBB

Dom Joel Portella Amado fala sobre reação de grupos que pedem boicote à Campanha da Fraternidade 2021, que condena a violência contra mulheres, negros, indígenas e LGBTQI+

 

Raphaela Ramos

 

RIO — Na última quarta-feira, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic) lançaram a Campanha da Fraternidade de 2021, com um texto-base que desagradou grupos conservadores. Com o tema "Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor”, a campanha critica a violência contra mulheres, negros, indígenas e LGBTQI+, além de desaprovar discursos negacionistas e a falta de políticas efetivas no combate à Covid-19.

Para dom Joel Portella Amado, secretário-geral da CNBB e bispo auxiliar da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, reações como as críticas e ataques que foram feitos nas redes sociais podem surgir devido à "mentalidade polarizada" que cresce no mundo todo e também no Brasil.

— Num tempo de fanatismos e polarizações, o equilíbrio entre fé e ciência tem sido difícil — afirma o bispo, que também destaca que a indiferença com o outro está se tornando "um estilo de vida", contribuindo para gerar violência, critica os "fura-filas" na vacinação contra a Covid-19 e propõe a autocrítica entre os religiosos.

Em entrevista ao GLOBO, ele respondeu, por escrito, perguntas sobre a campanha e a escolha do tema deste ano, a atuação da CNBB em relação a eles, as reações ao texto-base e seus possíveis impactos.

 

Como foi a escolha do tema da Campanha da Fraternidade deste ano?

Os temas das Campanhas da Fraternidade são escolhidos com uma antecedência média de dois anos. São considerados dois aspectos: a realidade vivenciada pelo país e os temas anteriores. O tema de 2021, fraternidade e diálogo, faz parte de uma sequência que se iniciou em 2016 e, pelo menos até o momento, deverá chegar a 2022. Ao pensar a Campanha de 2021, propusemos ao Conic que se abordasse a questão do diálogo como postura humana e social indispensável para se conseguir tudo que as campanhas anteriores vinham propondo. Após análise e consultas, o Conic aceitou.

 

O texto-base traz um posicionamento contra a violência contra as mulheres, negros, indígenas e LGBTQI+. Por que a CNBB decidiu se posicionar sobre esses temas?

A Igreja Católica traz em seu DNA a defesa da vida como condição irrenunciável. Como sabido, entende a vida desde a concepção até a morte natural. Em consequência, atua na defesa da vida ameaçada, seja que vida for. Se está vulnerável, recebe a atenção da Igreja Católica. O texto-base da CFE 2021, seguindo um estilo literário próprio do Conic, indicou algumas situações. Essas, porém, são exemplos de muitas outras que também experimentam a vulnerabilidade. Por isso, não se trata de uma postura nova da CNBB, mas da continuidade de um histórico longo de solidariedade. Basta lembrar tudo que a CNBB fez durante, por exemplo, o período da ditadura militar no Brasil.

 

 

 

Qual a importância de falar sobre esses temas?

É o chamado de atenção para a sociedade brasileira de que não podemos construir um país, uma sociedade de indiferentes, para os quais a dor das outras pessoas nada me diz porque não me atinge. Sabemos que a indiferença mata, pois não se mata apenas por comissão, mas também por omissão, por braços cruzados, por virar as costas. Se, por um lado, sempre houve indiferentes na face da Terra, qualquer pessoa observa e sente na pele que esta indiferença está se tornando um estilo de vida, uma opção que solidifica o egoísmo e gera a violência. Basta ver a lamentável situação dos fura-filas na vacinação contra a Covid-19. Por isso, é tão importante alertar para o fato de que há seres humanos sofrendo. Se, no texto-base, há uma lista, essa lista não é exaustiva. Ela destaca alguns exemplos que preocupam as Igrejas que compõem o Conic, mas deve ser lida em abertura a tantas outras situações de pessoas sofrendo.

 

O fato de a campanha incluir temas como a crítica à violência contra pessoas LGBTQI+ representa um passo da igreja para avançar em questões referentes a essa população?

De algum modo, já respondi a essa questão. A Igreja Católica olha as pessoas, se preocupa por elas, defende a vida. Por isso, critica qualquer forma de violência a um ou outro grupo, com olhar mais atento para onde a vulnerabilidade é maior.

 

Outro ponto mencionado foi a falta de políticas efetivas no combate à Covid-19 e o negacionismo científico, citando inclusive igrejas que permaneceram abertas contrariando orientações de distanciamento. Esse posicionamento tem relação com o contexto de polarização que o país vive?

A polarização foi um dos motivos que levou à sugestão e depois à decisão de abordar o tema diálogo. De fato, vivemos uma triste e generalizada situação em que, por um lado, temos uma sociedade culturalmente plural, mas, por outro, uma forte inaceitação de quem pensa diferente. A solução que parece estar sendo mais divulgada e aceita é a da violência, com consideração do diferente como inimigo e, consequentemente, alguém até mesmo a ser abatido. Foi, portanto, para tratar dessa barbárie que o tema do diálogo foi escolhido. Queremos dizer que uma outra forma de enfrentar as polarizações é possível, viável e necessária. Ela se encontra no diálogo.

 

E como se dá essa relação entre fé e ciência, entre os cristãos, durante a pandemia?

Esse é um tema que atravessa séculos, com o pêndulo indo para um lado e para o outro. O Conic, ao elaborar o texto-base, quis chamar a atenção para o fato de que, também entre os religiosos, existem atitudes que precisam ser revistas. Ninguém é perfeito. Num tempo de fanatismos e polarizações, o equilíbrio entre fé e ciência tem sido difícil, um lado desejando extinguir o outro, quando, na verdade, diante de um ser humano que é racionalidade e transcendência, as duas dimensões precisam encontrar articulação, diálogo portanto.

A CNBB tem a clara postura de se manifestar em favor das orientações dos cientistas, orientações que não mudaram desde o início da pandemia e que, a meu ver, não mudarão em curto prazo. Não temos vacinas. Não temos plano de vacinação. Ao mesmo tempo, nos assustamos com as vergonhosas aglomerações que vêm acontecendo. Reconheço que as pessoas estão cansadas, deprimidas mesmo. Isso, porém, não autoriza que se fechem os ouvidos às orientações dos cientistas. Nessa pandemia, somos todos responsáveis, cabendo, portanto, a cada um fazer a sua parte.

 

O texto-base da campanha tem provocado reações entre alguns grupos cristãos, com críticas e ataques nas redes sociais e sugestões de boicote. Por que acredita que isso aconteceu? Já era esperado?

Em razão exatamente da mentalidade polarizada que cresce no mundo todo e também no Brasil, esse e outros tipos de reação podem surgir. O mundo, pelo menos o ocidental, está passando por uma fase de reorganização. Momentos históricos como esse de nossos dias geram posturas radicais, fundamentalistas ou que outro nome possam ter. O importante é que, numa sociedade que se queira democrática, todos têm direito à manifestação. Importa que assumam a responsabilidade pelo que vierem a dizer e fazer. Aqui está, a meu ver, a grande diferença entre falar, mostrar, indicar e, do outro lado, acusar, atacar e sugerir boicotes. Se queremos o bem e a paz, não vamos conseguir com ataques e outras posturas violentas. Só vamos conseguir com o diálogo, tema da campanha.

 

Também receberam manifestações de apoio?

Sim, ao mesmo tempo que esses grupos mencionados têm se manifestado nas redes sociais, temos igualmente recebido o apoio de muitos mais, preocupados com a paz, com o diálogo e com o respeito. Esse não é, na história da Igreja, um fato novo. Em uma família, nem todos pensam igual e seria muito ruim se houvesse a família ou a sociedade do pensamento uniformizado, com clones. A diferença de pensamentos é importante. Entretanto, ela precisa ser vivenciada na maturidade do diálogo. Caso contrário, o que se faz é suscitar perplexidade e mesmo violência. Temos visto algumas situações assim mundo afora.

 

Qual a sua avaliação sobre essa repercussão e como a CNBB se posiciona em relação a essas críticas?

Repito que temos buscado colocar a repercussão no seu devido lugar, ou seja, mensurando entre esses posicionamentos e os outros. Em sua história, a CNBB sempre ouviu as críticas, avaliando e verificando se, de fato, procedem. Assim temos feito também com as críticas mencionadas. A Presidência da CNBB mantém contato diário, pois os recursos virtuais assim os permitem. As diversas assessorias também são ouvidas e, quando necessário, os diversos conselhos da entidade são igualmente chamados a se pronunciar.

 

Um dos objetivos da campanha é arrecadar recursos para os Fundos Diocesanos e Nacional da Solidariedade. Acredita que essa reação possa trazer impactos para a arrecadação deste ano?

O Fundo Nacional de Solidariedade é uma experiência muito significativa na vida da Igreja no Brasil, e se constrói exclusivamente da generosidade que se manifesta na coleta feita no Domingo de Ramos, com 60% ficando com a diocese arrecadadora e 40% sendo enviados para a CNBB para atender em média a 200 projetos anualmente. O importante é destacar que tudo isso só acontece se houver a generosidade das pessoas. Em 2020, não houve arrecadação. O Fundo zerou por completo. Este ano, como a pandemia não está vencida, corremos o risco de viver a mesma experiência. Isso preocupa porque são situações muito sofridas, por exemplo, a fome.

Por isso, as campanhas contra a generosidade das pessoas, além de manifestarem desconfiança em relação à gestão do fundo e à destinação dos recursos, estimulam a que não se pratique a caridade. Isso significa não viver o Evangelho, querer levar outras pessoas a não viverem e fazer com que os mais pobres, que seriam beneficiados com os recursos do Fundo, não sejam atendidos. Eu me pergunto o que existe de cristão nessa atitude. Graças a Deus e à generosidade dos brasileiros e brasileiras, havendo possibilidade de se realizar a coleta, os recursos chegarão. Por isso, temo mais a pandemia que tanto nos tem maltratado. Essa, sim, é preocupante. Fonte: https://oglobo.globo.com

 

 

 

Frei Carlos Mesters, O.Carm

 

1) Oração

Ó Deus, assisti com vossa bondade a penitência que iniciamos, para que vivamos interiormente as práticas da Quaresma. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

2) Leitura do Evangelho (Mateus 9, 14-15)

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Mateus - Naquele tempo, 14os discípulos de João, dirigindo-se a Jesus, perguntaram: "Por que jejuamos nós e os fariseus, e os teus discípulos não?" 15Jesus respondeu: Podem os amigos do esposo afligir-se enquanto o esposo está com eles? Dias virão em que lhes será tirado o esposo. Então eles jejuarão. - Palavra da salvação.

 

3) Reflexão

O evangelho de hoje é uma versão abreviado do evangelho que já meditamos no dia 21 de janeiro, onde nos foi proposto o mesmo assunto do jejum (Mc 2,18-22), mas com uma pequena diferença. A liturgia de hoje omitiu os acréscimos sobre o remendo novo em pano velho e sobre vinho novo em odre velhos (Mt 9,16-17), e concentrou a sua atenção no jejum.

Jesus não insiste na prática do jejum.  O jejum é um costume muito antigo, praticado em quase todas as religiões. O próprio Jesus praticou-o durante quarenta dias (Mt 4,2). Mas ele não insiste com os discípulos para que façam o mesmo. Deixa a eles a liberdade. Por isso, os discípulos de João Batista e dos fariseus, que eram obrigados a jejuar, querem saber porque Jesus não insiste no jejum.

Enquanto o noivo, está com eles não precisam jejuar. Jesus responde com uma comparação. Enquanto o noivo está com os amigos do noivo, isto é, durante a festa do casamento, estes não precisam jejuar. Jesus se considera o noivo. Os discípulos são os amigos do noivo. Durante o tempo em que ele, Jesus, estiver com os discípulos, é festa de casamento. Chegará o dia em que o noivo vai ser tirado. Aí, se eles quiserem, poderão jejuar. Nesta frase Jesus alude à sua morte. Sabe e sente que, se ele continuar neste caminho de liberdade, as autoridades religiosas vão querer matá-lo.

O jejum e a abstinência de carne são práticas universais e bem atuais. Os muçulmanos têm o jejum do mês do Ramadan, durante o qual não comem nem bebem, desde o nascer até o pôr do sol. Cada vez mais, há pessoas que, por motivos diversos, se impõem a si mesmas alguma forma de jejum. O jejum é um meio importante para se chegar a um domínio de si mesmo, a um auto-controle, como existe em quase todas as religiões e como é apreciado pelos esportistas. 

A Bíblia faz muita referência ao jejum. Era uma forma de se fazer penitência e provocar a conversão. Através da prática do jejum, os cristãos imitavam Jesus que jejuou quarenta dias.  O jejum visa alcançar a liberdade da mente, o controle de si, uma visão crítica da realidade. É um instrumento para manter livre a mente e para não se deixar levar por qualquer vento. Através do jejum, a clareza da mente aumenta. É também uma forma de cuidar melhor da saúde. O jejum pode ser uma forma de identificação com os pobres que fazem jejum forçado o ano inteiro e raramente comem carne. Existe o jejum como protesto: Dom Luis Cappio.

Mesmo que hoje não se pratique mais o jejum e a abstinência, o objetivo que estava na base desta prática continua inalterada como força que deve animar a nossa vida: participar na paixão, morte e ressurreição de Jesus. Doar a vida para poder possuí-la em Deus. Tomar consciência de que o compromisso com o Evangelho é uma viagem sem retorno, que exige perder a vida para poder possuí-la e reencontrar tudo na total liberdade. 

 

4) Para um confronto pessoal

1) Qual a forma de jejum você faz? E se não faz, qual a forma que você poderia fazer?

2) Como o jejum pode ajudar-me a preparar-me melhor para a festa de páscoa?

 

5) Oração final

Ó Deus, tem piedade de mim, conforme a tua misericórdia; no teu grande amor cancela o meu pecado. Lava-me de toda a minha culpa, e purifica-me de meu pecado. (Sl 50, 3-4)

Missa de Cinzas: Homilia do Frei Petrônio de Miranda, O. Carm- Na abertura da Campanha da Fraternidade-2021 em Angra dos Reis/RJ- Diocese de Itaguaí. Quarta-feira de Cinzas. 17 de fevereiro-2021. www.instagram.com/freipetronio

 

Frei Carlos Mesters, O.Carm

 

1) Oração

Inspirai, ó Deus, as nossas ações e ajudai-nos a realizá-las, para que em vós comece e termine tudo aquilo que fizemos. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

2) Leitura do Evangelho (Lucas 9,22-25)

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Lucas - Naquele tempo, 22Jesus acrescentou: É necessário que o Filho do Homem padeça muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas. É necessário que seja levado à morte e que ressuscite ao terceiro dia. 23Em seguida, dirigiu-se a todos: Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me. 24Porque, quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem sacrificar a sua vida por amor de mim, salvá-la-á. 25Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vem a perder-se a si mesmo e se causa a sua própria ruína? - Palavra da salvação.

 

3) Reflexão

Ontem entramos na Quaresma. Até agora a liturgia diária seguia o evangelho de Marcos, passo a passo. A partir de hoje até o dia de Páscoa, a seqüência das leituras diárias será dada pela tradição antiga da quaresma com suas leituras próprias, já fixas, que nos ajudarão a entrar no espírito da quaresma e da preparação para a Páscoa. Já desde o primeiro dia, a perspectiva é a Paixão, Morte e Ressurreição e o significado deste mistério para a nossa vida. É o que nos é proposto pelo texto bem pequeno do evangelho de hoje. O texto fala da paixão, morte e ressurreição de Jesus e afirma que o seguimento de Jesus implica em carregar a cruz atrás de Jesus.

Pouco antes em Lucas 9,18-21, Jesus tinha perguntado: “Quem diz o povo que eu sou?”. Eles responderam relatando as várias opiniões: -“João Batista”.  -“Elias ou um dos antigos profetas”. Depois de ouvir as opiniões dos outros, Jesus perguntou: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. Pedro respondeu: “O Cristo de Deus!”, ou seja, o senhor é aquele que o povo está esperando! Jesus concordou com Pedro, mas proibiu de falar sobre isto ao povo. Por que Jesus proibiu? É que naquele tempo todos esperavam o messias, mas cada um do seu jeito: uns como rei, outros como sacerdote, doutor, guerreiro, juiz, ou profeta! Jesus pensa diferente. Ele se identifica com o messias servidor e sofredor, anunciado por Isaías (Is 42,1-9; 52,13-53,12).

O primeiro anúncio da paixão.  Jesus começa a ensinar que ele é o Messias Servidor e afirma que, como o Messias Servidor anunciado por Isaías, será preso e morto no exercício da sua missão de justiça (Is 49,4-9; 53,1-12). Lucas costuma seguir o evangelho de Marcos, mas aqui ele omitiu a reação de Pedro que desaconselhava Jesus de pensar no messias sofredor e omitiu também a dura resposta: “Vá embora Satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as dos homens!” Satanás é uma palavra hebraica que significa acusador, aquele que afasta os outros do caminho de Deus. Jesus não permite que Pedro o afaste da sua missão.

Condições para seguir Jesus. Jesus tira as conclusões que valem até hoje: Quem quiser vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me! Naquele tempo, a cruz era a pena de morte que o império romano impunha aos criminosos marginais. Tomar a cruz e carregá-la atrás de Jesus era o mesmo que aceitar ser marginalizado pelo sistema injusto que legitimava a injustiça. Era o mesmo que romper com o sistema. Como dizia Paulo na carta aos Gálatas: “O mundo é um crucificado para mim, e eu um crucificado para o mundo” (Gl 6,14). A Cruz não é fatalismo, nem é exigência do Pai. A Cruz é a conseqüência do compromisso livremente assumido por Jesus de revelar a Boa Nova de que Deus é Pai e que, portanto, todos e todas devem ser aceitos e tratados como irmãos e irmãs. Por causa deste anúncio revolucionário, ele foi perseguido e não teve medo de dar a sua vida. Prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão.

 

4) Para um confronto pessoal

1) Todos esperavam o messias, cada um do seu jeito. Qual o messias que eu espero e que o povo hoje espera?

2) A condição para seguir Jesus é a cruz. Como me situo frente às cruzes da vida?

 

5) Oração final

 

Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores, nem se assenta entre os escarnecedores. Feliz aquele que se compraz no serviço do Senhor e medita sua lei dia e noite. (Sl 1, 1-2)

Iniciativa lançada nesta quarta (17) também desaprova falta de políticas efetivas no combate à Covid-19; posicionamentos despertaram reações entre grupos católicos

 

Raphaela Ramos

 

Dom Joel Portella Amado, secretário-geral da CNBB Foto: Reprodução

 

RIO — A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic) lançaram oficialmente nesta quarta-feira (17) a Campanha da Fraternidade de 2021. Com o tema "Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor”, a iniciativa critica a cultura de violência contra as mulheres, pessoas negras, indígenas e pessoas LGBTQI+.

Também está presente no texto-base da campanha uma crítica a "sinais da necropolítica perceptíveis em setores da segurança pública que é altamente repressiva e violenta contra pessoas negras e pobres", na não regulação de territórios indígenas e quando o "governo brasileiro não adota políticas efetivas no combate à Covid-19".

São citados o assassinato da vereadora Marielle Franco e do seu motorista Anderson Gomes e também o de Paulo Paulino, liderança do povo Guajajara, e outros três guardiões da floresta do território indígena Arariboia, no Maranhão.

Outro ponto mencionado são os "recorrentes" discursos negacionistas sobre a realidade e fatalidade da Covid-19, assim como "a negação da ciência e do papel de organismos multilaterais como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial da Saúde (OMS)".

Na cerimônia de abertura virtual nesta quarta-feira, dom Joel Portella Amado, secretário-geral da CNBB, lembrou "os mais de 235 mil" brasileiros que morreram pelo coronavírus, e destacou o compromisso de lutar "até onde for possível" para que a pandemia encontre seu término.

— Não podemos negar que o vírus já tão letal em si mesmo encontrou aliados na indiferença, no negacionismo, no obscurantismo, desprezo pela vida — afirmou. — Sejamos aliados na responsabilidade, na lucidez e na fraternidade.

Em seu discurso, o secretário-geral da CNBB também lembrou a morte de George Floyd, que foi sufocado por um policial nos Estados Unidos no ano passado, e a falta de oxigênio em Manaus durante o colapso do sistema de saúde. Ele criticou as radicalizações, a polarização no Brasil e o desrespeito às pessoas, em especial as mais simples e mais fragilizadas.

— O mundo não pode ser organizado a partir da separação, da divisão, do sectarismo, das polarizações, da destruição, nem muito menos da morte, que é consequência de tudo isso — disse dom Joel.

A Campanha da Fraternidade é realizada pela CNBB todos os anos na Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa. Este ano a iniciativa é promovida de forma ecumênica, ou seja, em parceria entre várias Igrejas Cristãs.

 

Campanha despertou reações

Os temas abordados na Campanha da Fraternidade 2021 provocaram reações entre alguns católicos conservadores, que criticaram o posicionamento nas redes sociais. Alguns grupos pediram boicote à iniciativa, que tem como um dos objetivos arrecadar recursos para os Fundos Diocesanos e Nacional da Solidariedade, "os quais apoiam projetos sociais relacionados à temática da campanha".

Em nota, a CNBB afirmou que o texto da campanha foi elaborado em várias reuniões, seguiu a estrutura de pensamento e trabalho do CONIC e passou por revisão da assessoria teológica do conselho.

"Nos últimos dias, reações têm surgido quanto ao texto. Apresentam argumentos que esquecem da origem do texto, desejando, por exemplo, de uma linguagem predominantemente católica. Trazem ainda preocupações com relação a aspectos específicos, a saber, as questões de gênero", informa a nota.

E continua: "A doutrina católica sobre as questões de gênero afirma que gênero é a dimensão transcendente da sexualidade humana, compatível com todos os níveis da pessoa humana, entre os quais o corpo, a mente, o espírito, a alma. O gênero é, portanto, maleável sujeito a influências internas e externas à pessoa humana, mas deve obedecer a ordem natural já predisposta pelo corpo”.

Em artigo publicado no portal da CNBB, dom Manoel Ferreira dos Santos Junior, Bispo de Registro (SP), afirmou que todos os anos algumas pessoas procuram "polemizar" a campanha, e questionou se o grupo que gera polêmicas é grande ou um grupo pequeno "que faz bastante barulho".

"No texto base da Campanha da Fraternidade, são citados diversos grupos de pessoas marginalizadas em nossa sociedade. Neste mesmo texto, são colocadas estatísticas de violência contra estas minorias. A única coisa que o Conselho das Igrejas Cristãs pede é o diálogo, o amor e a vida para os que são diferentes", escreveu dom Manoel.

 

Papa Francisco

Em mensagem enviada à CNBB e divulgada durante a cerimônia de abertura nesta quarta-feira, o Papa Francisco reforçou o tema da campanha, pediu orações pelos que morreram durante a pandemia e destacou o serviço dos profissionais da saúde.

"Precisamos vencer a pandemia e nós o faremos à medida em que formos capazes de superar as divisões e nos unirmos em torno da vida", afirmou. "Neste ano de 2021, com o tema Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor, os fiéis são convidados a sentar-se a escutar o outro e, assim, superar os obstáculos de um mundo que é muitas vezes um mundo surdo", escreveu o Papa. Fonte: https://oglobo.globo.com

 

A abertura simbólica e virtual da quinta edição da Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE), uma realização da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), aconteceu nesta Quarta-feira de Cinzas, 17 de fevereiro.

O lançamento virtual foi uma escolha das entidades promotoras da Campanha como forma de prevenção da Covid-19.  Como constava na programação, às 10h houve a divulgação de um vídeo, por meio das redes sociais da CNBB, com pronunciamentos de representantes das Igrejas que compõem o Conic. Também houve a apresentação da mensagem do Papa Francisco sobre a CFE e a quaresma.

No vídeo, dom Joel Portella Amado (secretário-geral da CNBB) acolheu e saudou a todos e, especialmente, a memória dos mais de duzentos e trinta mil irmãos e irmãs que o coronavírus levou de nosso convívio. “A esses e essas, nossa saudade e nosso compromisso por lutarmos até onde for possível para que essa pandemia encontre o seu término e sejamos capazes de construir um mundo eminentemente marcado pela fraternidade”, disse dom Joel.

“É certo que a fraternidade exige presença, contato, convívio. Mas, exige também maturidade suficiente para podermos viver o distanciamento quando, por razões que nos ultrapassam, ele se faz necessário”, disse o bispo.

Dom Joel enfatizou, no vídeo, que esta Campanha da Fraternidade traz consigo um significado que não podemos perder, que não podemos deixar morrer, sufocar, abafar. “Perplexas pela pandemia, as Igrejas que compõem o CONIC, Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, e algumas Igrejas observadoras uniram-se e identificaram no tema do diálogo a mensagem que nosso tempo necessita”, disse.

Segundo o bispo, é triste ver que nosso tempo vem apresentando a marca das radicalizações, das polarizações, com o desrespeito às pessoas, em especial as mais simples, as mais fragilizadas. “Nosso tempo necessita que radicalizemos a fraternidade e a comunhão, a solidariedade e a partilha”.

 

O que é o diálogo?

Ainda, em seu depoimento, dom Joel afirmou que não se trata, por certo, de querer que todos pensem do mesmo modo, pois Deus não nos criou clones. “Trata-se, porém, de perceber que a diferença é convite ao encontro, encontro que se faz exatamente através do diálogo”.

É por isso, de acordo com ele, que a Campanha da Fraternidade desse ano, Campanha da Fraternidade Ecumênica, tem como tema não um ou outro aspecto da realidade humana, social, religiosa, econômica ou política.

“Ela une tudo isso e chega aos fundamentos maiores, ou, como costumamos dizer, aos fundamentos últimos do modo como estamos organizando o mundo atualmente. E o mundo não pode ser organizado a partir da separação, da divisão, do sectarismo, das polarizações, da destruição nem muito menos da morte, que é a consequência de tudo isso”.

O secretário-geral da CNBB também afirmou que a fé nos ensina de onde vem a divisão. “Ela nos mostra quem é o divisor. Ao contrário, como nos diz a carta aos Efésios, o Senhor Jesus Cristo uniu, formou um único povo, ainda que as diferenças permaneçam. A Campanha da Fraternidade Ecumênica desse ano nos recorda, a partir da Carta aos Efésios, que Cristo derrubou os muros, ou seja, as razões que o pecado faz surgir para a separação”, disse.

Dom Joel pediu para que não nos esqueçamos de que o tema do diálogo se encontra em linha de continuidade com a Campanha da Fraternidade de 2020. “Ano passado, nós fomos convidados a encontrar caminhos para superar a indiferença e construir relações baseadas no cuidado. E essa construção se dá exatamente por meio do diálogo, da busca em comum, envolvendo partilha de ideias, escuta e discernimento”.

“Por isso, irmãs e irmãos, celebremos mais uma Campanha da Fraternidade, neste ano, uma Campanha da Fraternidade Ecumênica, com o coração aberto, afastando o que divide e buscando sempre a unidade. Onde a dificuldade se fizer presente, façamos do diálogo nosso caminho de solução. Diante da pandemia do coronavírus, o mundo busca vacinas. Diante dos impasses da vida, onde as radicalizações e polarizações se manifestam, vacinemo-nos com o diálogo. Esse o Bom Deus não deixa faltar não”.

Após a exibição do vídeo, jornalistas credenciados puderam participar de uma entrevista coletiva com representantes das igrejas por meio da plataforma Zoom.

 

A CFE

Neste ano, o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica é “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” e o lema “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade”, extraído da carta de São Paulo aos Efésios, capítulo 2, versículo 14.

Realizada pela CNBB todos os anos no tempo da Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa, a Campanha da Fraternidade de 2021 é promovida de forma ecumênica, ou seja, em parceria entre várias Igrejas Cristãs. A CFE 2021 quer convidar os cristãos e pessoas de boa vontade a pensarem, avaliarem e identificarem caminhos para a superação das polarizações e das violências que marcam o mundo atual. Tudo isso através do diálogo amoroso e do testemunho da unidade na diversidade, inspirados e inspiradas no amor de Cristo.

 

Gesto concreto

A Campanha da Fraternidade tem como gesto concreto a Coleta Nacional da Solidariedade, realizada no Domingo de Ramos nas comunidades de todo o Brasil. Os recursos são destinados aos Fundos Diocesanos e Nacional da Solidariedade, os quais apoiam projetos sociais relacionados à temática da campanha. Em 2019, o Fundo Nacional de Solidariedade (FNS) distribuiu a quantia de R$3.814.139,81, atendendo a mais de 230 projetos. Em 2020, por causa da pandemia, não ocorreu arrecadação. Conheça alguns projetos apoiados pelo FNS.

 

Histórico

A Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) tem sido realizada, em média, a cada cinco anos. A iniciativa congrega diversas denominações cristãs, sempre de forma ecumênica, valorizando as riquezas em comum entre as igrejas. Desde 2000, abordou os seguintes temas:

2000 – Tema “Dignidade humana e paz” e lema “Novo milênio sem exclusões”;

2005 – Tema “Solidariedade e paz” e lema “Felizes os que promovem a paz”;

2010 – Tema “Economia e Vida” e lema “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”;

2016 – Tema “Casa Comum, nossa responsabilidade” (tratou do meio ambiente e saneamento básico) e lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca”. Fonte: https://www.cnbb.org.br 

 

Queridos irmãos e irmãs do Brasil!

Com o início da Quaresma, somos convidados a um tempo de intensa reflexão e revisão de nossas vidas. O Senhor Jesus, que nos convida a caminhar com Ele pelo deserto rumo à vitória pascal sobre o pecado e a morte, faz-se peregrino conosco também nestes tempos de pandemia. Ele nos convoca e convida a orar pelos que morreram, a bendizer pelo serviço abnegado de tantos profissionais da saúde e a estimular a solidariedade entre as pessoas de boa vontade.

Convoca-nos a cuidarmos de nós mesmos, de nossa saúde, e a nos preocuparmos uns pelos outros, como nos ensina na parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37). Precisamos vencer a pandemia e nós o faremos à medida em que formos capazes de superar as divisões e nos unirmos em torno da vida. Como indiquei na recente Encíclica Fratelli tutti, «passada a crise sanitária, a pior reação seria cair ainda mais num consumismo febril e em novas formas de autoproteção egoísta» (n. 35). Para que isso não ocorra, a Quaresma nos é de grande auxílio, pois nos chama à conversão através da oração, do jejum e da esmola.

Como é tradição há várias décadas, a Igreja no Brasil promove a Campanha da Fraternidade, como um auxílio concreto para a vivência deste tempo de preparação para a Páscoa. Neste ano de 2021, com o tema “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor”, os fiéis são convidados a «sentar-se a escutar o outro» e, assim, superar os obstáculos de um mundo que é muitas vezes «um mundo surdo». De fato, quando nos dispomos ao diálogo, estabelecemos «um paradigma de atitude receptiva, de quem supera o narcisismo e acolhe o outro» (Ibidem, n. 48). E, na base desta renovada cultura do diálogo está Jesus que, como ensina o lema da Campanha deste ano, «é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade» (Ef 2,14).

Por outro lado, ao promover o diálogo como compromisso de amor, a Campanha da Fraternidade lembra que são os cristãos os primeiros a ter que dar exemplo, começando pela prática do diálogo ecumênico. Certos de que «devemos sempre lembrar-nos de que somos peregrinos, e peregrinamos juntos», no diálogo ecumênico podemos verdadeiramente «abrir o coração ao companheiro de estrada sem medos nem desconfianças, e olhar primariamente para o que procuramos: a paz no rosto do único Deus» (Exort. Apost. Evangelii gaudium, n. 244). É, pois, motivo de esperança, o fato de que este ano, pela quinta vez, a Campanha da Fraternidade seja realizada com as Igrejas que fazem parte do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC).

Desse modo, os cristãos brasileiros, na fidelidade ao único Senhor Jesus que nos deixou o mandamento de nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou (cf. Jo 13,34) e partindo «do reconhecimento do valor de cada pessoa humana como criatura chamada a ser filho ou filha de Deus, oferecem uma preciosa contribuição para a construção da fraternidade e a defesa da justiça na sociedade» (Carta Enc. Fratelli tutti, n. 271). A fecundidade do nosso testemunho dependerá também de nossa capacidade de dialogar, encontrar pontos de união e os traduzir em ações em favor da vida, de modo especial, a vida dos mais vulneráveis.

Desejando a graça de uma frutuosa Campanha da Fraternidade Ecumênica, envio a todos e cada um a Bênção Apostólica, pedindo que nunca deixem de rezar por mim.

Roma, São João de Latrão, 17 de fevereiro de 2021

Fonte: https://www.cnbb.org.br 

 

 

Tema é 'Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor'. Texto-base ainda reprova igrejas que descumpriram distanciamento social. Lançamento oficial é na quarta-feira de cinzas (17).

 

Por Carolina Cruz, G1 DF

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lança oficialmente nesta quarta-feira (17) a Campanha da Fraternidade de 2021, com o tema "Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor". No texto-base que detalha a iniciativa, a CNBB faz críticas relacionadas aos seguintes temas:

'Negação da ciência' durante a pandemia de Covid-19; Atuação do governo federal no combate ao coronavírus; Igrejas que não respeitaram o distanciamento social;

 

A "cultura de violência" contra mulheres, negros, indígenas e pessoas LGBTIQ+.

A campanha da fraternidade é tradicionalmente realizada pela Igreja Católica em parceria com instituições cristãs desde a década de 1960. O texto-base é escrito por membros do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic) e passa pelo aval da direção-geral da CNBB.

“A CFE 2021 quer convidar os cristãos e pessoas de boa vontade a pensarem, avaliarem e identificarem caminhos para a superação das polarizações e das violências que marcam o mundo atual”, afirmou a CNBB em nota.

A confederação representa os bispos do país, e funciona como uma espécie de entidade de classe. A adesão à campanha não é obrigatória e depende de cada diocese.

O lançamento do tema ocorre sempre na quarta-feira de cinzas, quando tem início a Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa. O assunto é difundido nas celebrações e programações da comunidade religiosa.

 

O que diz a campanha sobre pessoas LGBTQI+

O texto da Campanha da Fraternidade de 2021 cita dados do Atlas da Violência 2020. Segundo a publicação, em 2018 "420 pessoas LGBTQI+ foram assassinadas, destas 164 eram pessoas trans".

"Estes homicídios são efeitos do discurso de ódio, do fundamentalismo religioso, de vozes contra o reconhecimento dos direitos das populações LGBTQI+ e de outros grupos perseguidos e vulneráveis", diz texto da Campanha da Fraternidade.

O documento contextualiza parte da história da relação entre a religião e a sociedade, fazendo um paralelo com o cenário atual. O texto cita que, no Império Romano, "como estratégia militar e de conquista para manter a falsa paz, utilizavam, por vezes, a religião como instrumento de manutenção da hierarquia social". Em seguida, cita que "esse sistema de segregação e descarte de pessoas consideradas empecilhos e inúteis permanece ainda hoje".

O material aponta ainda que a juventude negra, mulheres, povos tradicionais, imigrantes, grupos LGBTQI+, "por causa de preconceito e intolerância, são classificados como não cidadãos e, portanto, inimigos do sistema".

"Jesus questionou essas estruturas de poder e desigualdade. As pessoas não poderiam ser descartadas e sofrer as consequências para a manutenção de um poder segregador", diz o documento.

A Campanha da Fraternidade ainda recomenda que a população cobre das autoridades respostas sobre casos de violência contra vulneráveis que têm responsáveis impunes. Entre eles, cita o desaparecimento de Davi Fiuza, de 16 anos, após uma abordagem policial, em Salvador (BA), em 2014.

A vereadora Marielle Franco executada em 2018 no Rio de Janeiro, e o líder indígena Paulo Paulino, assassinado no Maranhão, também são lembrados. "Provavelmente em sua região existem casos similares. Procure identificá-los", orienta o texto.

 

Igrejas e pandemia

O texto-base cita que "o governo brasileiro não adota políticas efetivas no combate à Covid-19”, e que a pandemia "dilacerou famílias e deixou espaços vazios na cultura nacional". Diz ainda que "algumas igrejas reivindicaram o direito de permanecerem abertas, realizando suas celebrações, apesar das aglomerações causarem contaminações e mortes".

"Surgiu a discussão sobre o que seria essencial no papel desempenhado pelas igrejas: o templo aberto e as celebrações numerosas ou o serviço ao próximo e à próxima?", questiona o documento.

O negacionismo também é alvo de reprovação no documento. Em um trecho, as autoridades religiosas afirmam que "teorias conspiratórias de que a Covid-19 fora desenvolvida em laboratório, na China, contribuíram para fomentar a luta geopolítica, bem como a xenofobia".

“Discursos negacionistas sobre a realidade e fatalidade da Covid-19 são recorrentes, assim como a negação da ciência e do papel de organismos multilaterais como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial da Saúde (OMS)”.

 

Reação

Após a divulgação do texto-base, o posicionamento da CNBB e do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic) foi criticado nas redes sociais por parte de alguns internautas. Movimentos defendem que fiéis não façam doações para a campanha, que também tem como objetivo arrecadar recursos para melhorias nas igrejas e projetos sociais.

Parte do público que não apoia o tema afirma que o documento foi escrito por apenas uma pessoa. Em nota, o Conic afirmou que a redação "foi resultado de um processo coletivo de construção, que iniciou no final de 2019" e que "teve participação direta de pessoas de diferentes áreas do conhecimento, em especial, sociologia, ciência política e teologia".

Após o caso, a Aliança de Batistas do Brasil divulgou uma nota de solidariedade às instituições e apoio à campanha, classificando os ataques como "demoníacos".

"Nos causa espanto e temor, que precisemos defender de pessoas ditas cristãs aquilo que há de mais belo e cristão nessa nossa CFE-2021: a compreensão de que o Evangelho nos obriga a amar ao próximo como a si mesmo", diz a aliança. Fonte: https://g1.globo.com

 

Frei Carlos Mesters, O. Carm

 (Leituras: Lv 13,1-2.44-46 / Sl 31 (32) / 1Cor 10,31-11,1 / Mc 1,40-45)

As leituras deste domingo nos colocam diante da grande novidade trazida por Jesus. Todos nós temos o poder de purificar. Naquela época não havia os conhecimentos que temos hoje a respeito da saúde, da higiene e da transmissão das doenças. Como nos diz a primeira leitura, todo doente se transformava numa ameaça para as pessoas das casas e das aldeias. Eles não sabiam da existência de vírus nem de bactérias. Uma pessoa doente era um foco de contaminação. Assim, quem tinha qualquer doença deveria ser afastado da convivência e passar um período de quarentena até ficar bom.

Estas pessoas eram consideradas “impuras”. Todo impuro era excluído, marginalizado. Este processo de exclusão era feito em nome da Lei de Deus. Desta forma, a religião misturava doença com pecado, castigo, possessão do demônio e maldição. A pessoa, além de toda angústia causada pela doença, era excluída pela religião como uma pecadora castigada por Deus. A doutrina oficial ensinava que os impuros deveriam ser afastados da comunidade porque os impuros contaminavam os puros.

Jesus trouxe um ensinamento novo. Ele diz que os puros devem ir ao encontro dos impuros, tocar neles, conviver e comer com eles. Jesus ensinava que os puros é que purificam os impuros. Não há, portanto, razão para marginalização e exclusão dos enfermos. Assim Jesus passou a conviver com os doentes, considerando-os livres e purificados.

Este poder de purificar causou muito impacto no povo. Jesus estava enfrentando uma doutrina de mais de quatrocentos anos! Para um fariseu observante, o que Jesus fazia era uma coisa muito perigosa.

Ele estava tocando e falando com leprosos, comia publicamente com os doentes, deixava-se tocar pelos malditos e endemoninhados. Ameaçados em sua doutrina, eles começam a combater a proposta de Jesus. Por isso, quando o leproso se aproxima de Jesus com dúvidas, Jesus fica “cheio de ira”. Não se pode duvidar do poder de Deus dado a Jesus. Há necessidade de uma conversão. Por isso, quando se vê purificado, o leproso torna-se uma testemunha viva deste poder de Deus manifestado em Jesus.

Ele pode cantar como o salmista no Salmo de nossa celebração de hoje: Feliz aquele que recebeu de Deus o perdão. Feliz o pecador que foi absolvido de suas faltas! A ação purificadora de Jesus traz uma nova vida para os fiéis.

 

Frei Carlos Mesters, O.Carm

 

1) Oração

Velai, ó Deus, sobre a vossa família, com incansável amor; e, como só confiamos na vossa graça, guardai-nos sob a vossa proteção. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

2) Leitura do Evangelho (Marcos 7, 31-37)

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Marcos - Naquele tempo, 31Jesus deixou de novo as fronteiras de Tiro e foi por Sidônia ao mar da Galileia, no meio do território da Decápole. 32Ora, apresentaram-lhe um surdo-mudo, rogando-lhe que lhe impusesse a mão. 33Jesus tomou-o à parte dentre o povo, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e tocou-lhe a língua com saliva. 34E levantou os olhos ao céu, deu um suspiro e disse-lhe: Éfeta!, que quer dizer abre-te! 35No mesmo instante os ouvidos se lhe abriram, a prisão da língua se lhe desfez e ele falava perfeitamente. 36Proibiu-lhes que o dissessem a alguém. Mas quanto mais lhes proibia, tanto mais o publicavam. 37E tanto mais se admiravam, dizendo: Ele fez bem todas as coisas; fez que ouçam os surdos e falem os mudos. - Palavra da salvação.

 

3) Reflexão

No evangelho de hoje, Jesus cura um surdo que gaguejava. Este episódio é pouco conhecido. No episódio da Mulher Cananéia, Jesus ultrapassou as fronteiras do território nacional e acolheu uma mulher estrangeira que não era do povo e com a qual era proibido conversar. A mesma abertura continua no evangelho de hoje.

Marcos 7,31. A região da Decápole

“Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galiléia, atravessando a região da Decápole”.   Decápole significa, literalmente, Dez Cidades. Era uma região de dez cidades ao sudeste da Galiléia, cuja população era pagã.

Marcos 7,31-35. Abrir o ouvido e soltar a língua.

Um surdo gago é levado a Jesus. O jeito de curar é diferente. O povo queria que Jesus apenas impusesse as mãos sobre ele. Mas Jesus foi muito além do pedido. Ele levou o homem para longe da multidão, colocou os dedos nas orelhas e com saliva tocou na língua, olhou para o céu, fez um suspiro profundo e disse: “Éfata!”, isto é, “Abra-se!” No mesmo instante, os ouvidos do surdo se abriram, a língua se desprendeu e o homem começou a falar corretamente. Jesus quer que o povo abra o ouvido e solte a língua! 

Marcos 7,36-37: Jesus não quer publicidade.

“Jesus recomendou com insistência que não contassem nada a ninguém. No entanto, quanto mais ele recomendava, mais eles pregavam. Estavam muito impressionados e diziam: "Jesus faz bem todas as coisas. Faz os surdos ouvir e os mudos falar". Ele proíbe a divulgação da cura, mas não adiantou. Quem teve experiência de Jesus, vai contar para os outros, queira ou não queira! As pessoas que assistiram á cura começaram a proclamar o que tinham visto e resumiram a Boa Notícia assim: "Jesus faz bem todas as coisas. Faz os surdos ouvir e os mudos falar".  . Esta afirmação do povo faz lembrar a criação, onde se diz: “Deus viu que tudo era muito bom!” (Gn 1,31). E evoca ainda a profecia de Isaías, onde este diz que no futuro os surdos vão ouvir e os mudos vão falar (Is 29,28; 35,5. cf Mt 11,5).

A recomendação de não contar nada a ninguém.

Às vezes, se exagera a atenção que o evangelho de Marcos atribui à proibição de divulgar a cura, como se Jesus tivesse um segredo a ser preservado. Na maioria das vezes que Jesus faz um milagre, ele não pede silêncio. Uma vez até pediu publicidade (Mc 5,19). Algumas vezes, porém, ele dá ordem para não divulgar a cura (Mc 1,44; 5,43; 7,36; 8,26), mas ele obtém o resultado contrário. Quanto mais proíbe, tanto mais a Boa Nova se espalha (Mc 1,28.45; 3,7-8; 7,36-37). Não adianta proibir! Pois a força interna da Boa Nova é tão grande que ela se divulga por si mesma!

Abertura crescente no evangelho de Marcos

Ao longo das páginas do evangelho de Marcos há uma abertura crescente em direção aos outros povos. Assim, Marcos leva os leitores e as leitoras a abrir-se, aos poucos, para a realidade do mundo ao redor e a superar os preconceitos que impediam a convivência pacífica entre os povos. Na sua passagem pela Decápole, região pagã, Jesus atende ao pedido do povo do lugar e cura um surdo gago. Ele não tem medo de contaminar-se com a impureza de um pagão, pois ao curá-lo, toca-lhe os ouvidos e a língua. Enquanto as autoridades dos judeus e os próprios discípulos têm dificuldades de escutar e entender, um pagão que era surdo e gago passa a ouvir e a falar pelo toque de Jesus. Lembra o cântico do servo “O Senhor Iahweh abriu-me os ouvidos e eu não fui rebelde” (Is 50,4-5). Ao expulsar os vendedores do templo, Jesus critica o comércio injusto e afirma que o templo deve ser casa de oração para todos os povos (Mc 11,17). Na parábola dos vinhateiros homicidas, Marcos faz alusão ao fato de que a mensagem será tirada do povo eleito, os judeus, e será dada aos outros, aos pagãos (Mc 12,1-12). Depois da morte de Jesus, Marcos apresenta a profissão de fé de um pagão ao pé da cruz. Ao citar o centurião romano e seu reconhecimento de Jesus como Filho de Deus, está dizendo que o pagão é mais fiel do que os discípulos e mais fiel do que os judeus (Mc 15,39). A abertura para os pagãos aparece de maneira muito clara na ordem final dada por Jesus aos discípulos, depois da sua ressurreição: ”Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15).

 

4) Para um confronto pessoal

  1. Jesus teve muita abertura para as pessoas de outra raça, de outra religião e de outros costumes. Será que nós cristãos hoje temos a mesma abertura? Será que eu tenho?
  2. Definição da Boa Nova: “Jesus fez bem todas as coisas!” Sou Boa Nova de Deus para os outros?

 

5) Oração final

Cantai ao Senhor um cântico novo. Cantai ao Senhor, terra inteira. Cantai ao Senhor e bendizei o seu nome, anunciai cada dia a salvação que ele nos trouxe.  (Sl 95, 1-2)

"O Papa Francisco continua a sacudir a Igreja italiana, da qual ele não é apenas Papa, mas também primaz com uma presença primacial direta em seu corpo episcopal", escreve Enzo Bianchi, monge italiano e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por La Repubblica, 08-02-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo. 

O Papa Francisco continua a sacudir a Igreja italiana, da qual ele não é apenas Papa, mas também primaz com uma presença primacial direta em seu corpo episcopal. São para ele os últimos anos do ministério petrino e é o momento em que se decide a sua relação com os bispos italianos e, portanto, com a Igreja do país. Ao publicar a Evangelii gaudium (2013), pediu que sua exortação fosse implementada quase como um programa de conversão da Igreja. Em seguida, na Conferência Nacional de Florença 2015, ele insistiu na urgência de estabelecer um estilo sinodal, única forma de envolver o povo de Deus em um caminho feito juntos, para dar um novo rosto a uma Igreja cansada, paralisada, pouco criativa e sempre mais "exculturada" em relação ao país. Sim, o verdadeiro drama é sobre a fé cristã, sua autenticidade, a capacidade de ser significativa para os homens e mulheres de hoje.

Essa convocação não recebeu oposição explícita, mas continuou-se a ignorá-la, deixando as palavras do Papa caírem no esquecimento. O Papa não pediu o mais fácil, isto é, um sínodo como conferência, a celebração de um evento eclesial nacional, a reflexão dos “quadros” da Igreja sobre a sua situação e sobre o futuro. “Mas o que ele quer de nós?” foi a reação de muitos bispos: uma pergunta sem raiva, mas um sinal de um pedido que não foi compreendido. O Papa Francisco, um homem “teimoso” e cristão, em 30 de janeiro, em um discurso aos representantes dos catequistas, depois de focar em Jesus Cristo como o centro da fé, renovou o convite a considerar o Vaticano II como a voz autêntica da Igreja hoje e pediu "à Igreja italiana que volte à conferência de Florença, para começar um processo de sínodo nacional, comunidade por comunidade, diocese por diocese. Agora é a hora. Temos que começar a caminhar”.

O Papa não fala de uma convenção nacional, mas pede que o processo de sinodalidade seja iniciado, desde as comunidades menores até as igrejas locais, de baixo para cima; ao mesmo tempo, um itinerário promovido de cima, pela autoridade episcopal na direção do povo de Deus. Sinodalidade como caminhar juntos para todos os batizados, com base no princípio tradicional católico "o que diz respeito a todos, deve ser tratado e resolvido por todos”. A sinodalidade como caminho de quem compõe uma pirâmide invertida, segundo a imagem de Francisco: no alto do povo de Deus e embaixo, ao seu serviço, bispos e Papa. Processo celular, de cada paróquia e comunidade religiosa, de cada igreja local, da Igreja.

Não sei se esse processo vai acontecer, mas é preciso dizer que o Papa Francisco como profeta o pediu, não se calou, aceitando o risco de não ser ouvido, ele que se colocou à escuta daquilo que o Espírito diz à Igreja. As questões colocadas são importantes, mas o processo de sinodalidade a ser iniciado é mais decisivo. Por enquanto, porém, poucos o querem e a maioria não sabe e não quer saber o que é! Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

 

Frei Carlos Mesters, O.Carm

1) Oração

Velai, ó Deus, sobre a vossa família, com incansável amor; e, como só confiamos na vossa graça, guardai-nos sob a vossa proteção. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

2) Leitura do Evangelho (Marcos 7, 24-30)

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Marcos - Naquele tempo, 24Em seguida, deixando aquele lugar, Jesus foi para a terra de Tiro e de Sidônia. E tendo entrado numa casa, não quis que ninguém o soubesse. Mas não pôde ficar oculto, 25pois uma mulher, cuja filha possuía um espírito imundo, logo que soube que ele estava ali, entrou e caiu a seus pés. 26(Essa mulher era pagã, de origem siro-fenícia.) Ora, ela suplicava-lhe que expelisse de sua filha o demônio. 27Disse-lhe Jesus: Deixa primeiro que se fartem os filhos, porque não fica bem tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães. 28Mas ela respondeu: É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos debaixo da mesa comem das migalhas dos filhos. 29Jesus respondeu-lhe: Por causa desta palavra, vai-te, que saiu o demônio de tua filha. 30Voltou ela para casa e achou a menina deitada na cama. O demônio havia saído. - Palavra da salvação.

 

3) Reflexão

No Evangelho de hoje, veremos como Jesus atende a uma mulher estrangeira de outra raça e de outra religião, o que era proibido pela lei religiosa daquela época. Inicialmente, Jesus não queria atendê-la, mas a mulher insistiu e conseguiu o que ela queria: a cura da filha.

Jesus vai tentando abrir a mentalidade dos discípulos e do povo para além da visão tradicional. Na multiplicação dos pães, ele tinha insistido na partilha (Mc 6,30-44). Na discussão sobre o puro e o impuro, tinha declarado puros todos os alimentos (Mc 7,1-23). Agora, neste episódio da Mulher Cananéia, ele ultrapassa as fronteiras do território nacional e acolhe uma mulher estrangeira que não era do povo e com a qual era proibido conversar. Estas iniciativas de Jesus, nascidas da sua experiência de Deus como Pai, eram estranhas para a mentalidade do povo da época. Jesus ajuda o povo a abrir sua maneira de experimentar Deus na vida.

Marcos 7.24Jesus sai do território 

No evangelho de ontem (Mc 7,14-23) e de anteontem (Mc 7,1-13), Jesus tinha criticado a incoerência da “Tradição dos Antigos” e tinha ajudado o povo e os discípulos a sair da prisão das leis da pureza. Aqui, em Mc 7,24, ele sai da Galiléia. Parece querer sair da prisão do território e da raça. Estando no estrangeiro, ele não quer ser conhecido. Mas a sua fama já tinha chegado antes. O povo ficou sabendo e faz apelo a Jesus.

Marcos 7.25-26A situação 

Uma mulher chega perto e começa a pedir pela filha doente. Marcos diz explicitamente que ela era de outra raça e de outra religião. Isto é, era uma pagã. Ela se lança aos pés de Jesus e começa a suplicar pela cura da filha que estava possuída por um espírito impuro. Os pagãos não tinham problema em recorrer a Jesus. Os judeus é que tinham problemas em conviver com os pagãos!

Marcos 7.27: A resposta de Jesus

Fiel às normas da sua religião, Jesus diz que não convém tirar o pão dos filhos e dar aos cachorrinhos. Frase dura. A comparação vinha da vida em família. Até hoje, criança e cachorro é o que mais tem nos bairros pobres. Jesus afirma uma coisa certa: nenhuma mãe tira o pão da boca dos filhos para dar aos cachorrinhos. No caso, os filhos eram o povo judeu e os cachorrinhos, os pagãos. Na época do AT, por causa da rivalidade entre os povos, um povo costumava chamar o outro povo de “cachorro” (1Sam 17,43). Nos outros evangelhos Jesus explica o porque da sua recusa: “Não fui enviado a não ser para as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15,24). Ou seja: “O Pai não quer que eu atenda à senhora!”

Marcos 7,28: A reação da mulher

Ela concorda com Jesus, mas amplia a comparação e a aplica ao caso dela: “É verdade, Jesus! Mas também os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa das crianças!” É como se dissesse: “Se sou cachorrinho, então tenho o direito dos cachorrinhos, a saber, as migalhas me pertencem!” Ela simplesmente tirou as conclusões da parábola que Jesus contou e mostrou que, até na casa de Jesus, os cachorrinhos comiam das migalhas que caíam da mesa das crianças. E na “casa de Jesus”, isto é, na comunidade cristã, a multiplicação do pão para os filhos foi tão abundante que estavam sobrando doze cestos (Mc 6,42) para os “cachorrinhos”, isto é, para ela, para os pagãos!

Marcos 7,29-30: A reação de Jesus:

“Pelo que disseste: Vai! O demônio saiu da tua filha!” Nos outros evangelhos se explicita: “Grande é a tua fé! Seja feito como queres!” (Mt 15,28). Se Jesus atende ao pedido da mulher, é porque compreendeu que, agora, o Pai queria que ele acolhesse o pedido dela. Este episódio ajuda a perceber algo do mistério que envolvia a pessoa de Jesus e como ele convivia com o Pai. Era observando as reações e as atitudes das pessoas, que Jesus descobria a vontade do Pai nos acontecimentos da vida,. A atitude da mulher abriu um novo horizonte na vida de Jesus. Através dela, ele descobriu melhor que o projeto do Pai é para todos os que buscam a vida e procuram libertá-la das cadeias que aprisionam a sua energia. Assim, ao longo das páginas do evangelho de Marcos há uma abertura crescente em direção aos outros povos. Deste modo, Marcos leva os leitores e as leitoras a abrir-se, aos poucos, para a realidade do mundo ao redor e a superar os preconceitos que impediam a convivência pacífica entre os povos. Esta abertura para os pagãos aparece de maneira muito clara na ordem final dada por Jesus aos discípulos, depois da sua ressurreição: ”Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15).

 

4) Para um confronto pessoal

  1. Como você faz, concretamente, para conviver em paz com pessoas de outras igrejas cristãs ou com espíritas? No bairro onde você vive tem gente de outras religiões? Quais? Você conversa normalmente com pessoas de outra religião?
  2. 2. Qual a abertura que este texto pede de nós, hoje, na família e na comunidade?

 

5) Oração final

Felizes aqueles que observam os preceitos, aqueles que, em todo o tempo, fazem o que é reto. Lembrai-vos de mim, Senhor, pela benevolência que tendes com o vosso povo. Assisti-me com o vosso socorro. (Sl 105, 3-4)

O Frei Petrônio de Miranda, O. Carm- Direto do Convento do Carmo de Angra dos Reis/RJ- fala sobre a irmã de São Bento, Santa Escolástica. Nota: O nome de Santa Escolástica, irmã de São Bento, nos leva para o século V, para o primeiro mosteiro feminino ocidental, fundamentado na vida em comum, conceito introduzido na vida dos monges. São Bento foi o primeiro a orientar para servir a Deus não "fugindo do mundo" através da solidão ou da penitência itinerante, como os monges orientais, mas vivendo em comunidade duradoura e organizada, e dividindo rigorosamente o próprio tempo entre a oração, trabalho ou estudo e repouso.

Escolástica e Bento, irmãos gêmeos, nasceram em Nórcia, região central da Itália, em 480. Eram filhos de nobres, o pai Eupróprio ficou viúvo quando eles nasceram, pois a esposa morreu durante o parto. Ainda jovem Escolástica se consagrou a Deus com o voto de castidade, antes mesmo do irmão, que estudava retórica em Roma. Mais tarde, Bento fundou o mosteiro de Monte Cassino criando a Ordem dos monges beneditinos. Escolástica, inspirada por ele, fundou um mosteiro, de irmãs, com um pequeno grupo de jovens consagradas. Estava criada a Ordem das beneditinas, que recebeu este nome em homenagem ao irmão, seu grande incentivador e que elaborou as Regras da comunidade. Fonte: http://www.arquisp.org.br

O Papa Francisco ofereceu sua clara interpretação sobre o Concílio Vaticano II em mensagem aos bispos da Itália. O artigo é de Massimo Faggioli, historiador e professor da Villanova University, nos EUA, publicado por La Croix International, 02-02-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

O Papa Francisco criticou recentemente os bispos da Itália por ignorarem seu apelo, feito há cinco anos, para um sínodo nacional e ofereceu à Igreja em todo o mundo o que mais próximo já vimos de sua interpretação do Concílio Vaticano II.

Em uma mensagem à pastoral da catequese da Conferência dos Bispos da Itália, em 30 de janeiro, o papa pediu a eles, como já havia feito em 2015, quando reunidos em Florença, para começar um processo de sínodo nacional.

Até então a conferência dos bispos tem basicamente ignorado a diretriz do papa. Mas outros atores importantes da Igreja na Itália não o têm. Muitas revistas católicas, incluindo a jesuíta La Civiltà Cattolica, e um número de teólogos tem mantido viva a ideia de um sínodo.

Seria interessante ver se, mesmo depois da última intervenção de Francisco, os bispos italianos continuarão ignorando o pedido do papa para planejarem um sínodo nacional.

Essa mensagem não foi apenas para os italianos. Foi também um sinal enviado para as igrejas que já iniciaram um processo sinodal nacional (como a Alemanha e Austrália) e outros que estão contemplando um.

Mas nós não vivemos mais em uma Igreja onde as conferências episcopais fazem automaticamente o que o papa pede ou as encoraja de fazer. E não é unicamente a Conferência dos Bispos dos EUA e seu comportamento que está contra Francisco.

 

“O Concílio é o Magistério da Igreja”

Mas, além da questão dos sínodos nacionais, havia algo ainda mais importante na mensagem do papa: seus comentários sobre o Concílio Vaticano II.

Durante seu pontificado, Francisco nunca havia destacado sua interpretação do Concílio de uma forma tão sistemática.

Embora, algumas vezes, ele tenha constatado suas preocupações sobre as tendências de redução do Vaticano II a questão de negociações com aqueles que se veem como defensores de uma estrita – e autointitulada mais fiel – versão da tradição católica.

“Esse é o Magistério. O Concílio é o Magistério da Igreja”, disse o papa em 30 de janeiro.

“Vocês ou seguem o Concílio e, portanto, estão com a Igreja, ou vocês não seguem o Concílio ou o interpretam de sua própria maneira como desejarem e, assim, não estão com a Igreja”, continuou.

“O Concílio não pode ser negociado... Não. O Concílio é o que é”, insistiu.

Ele então fez comparações com o cisma da Igreja Veterocatólica depois do Vaticano I (1869-1870). (A Igreja Veterocatólica já existia antes do Vaticano I, mas ela recebeu novos membros, de alto escalão, depois da rejeição das declarações conciliares sobre o papado).

“E esse problema que nós estamos vivenciando, de seletividade em respeito ao Concílio, tem sido repetido ao longo da história com outros Concílios. Isso me faz pensar muito sobre um grupo de bispos que depois do Vaticano I saíram da Igreja... continuaram a ‘verdadeira doutrina’ que não era a do Vaticano I”, afirmou o papa.

Francisco falou que esse comportamento era de “nós somos os verdadeiros católicos”. E, evidentemente, para provar que estavam errados, o papa disse: “Hoje eles ordenam mulheres”.

 

Mais católico que o Vaticano II

À parte desta última fala, a qual foi vista como ecumenicamente insensível, o ponto principal do papa de 84 anos é que existem aqueles que, ainda hoje, se consideram mais católicos do que o Concílio Vaticano II.

“Esse comportamento estrito, de manter a fé sem o magistério da Igreja, leva vocês à ruína”, afirmou.

“Por favor, sem concessões a esses que tentam apresentar uma catequese que não está alinhada ao magistério da Igreja”, alertou o papa aos bispos italianos.

Essa reflexão sobre o Vaticano II foi revelada por inúmeras razões. Isso ajudou a iluminar a diferença entre a forma de Francisco e de seu predecessor, Bento XVI, de falar sobre a interpretação do Vaticano II.

Ambos tiveram a difícil tarefa de tentar orientar uma recepção magisterial do Concílio.

De um lado, eles tiveram que guiar para longe dos ultratradicionalistas que veem o Vaticano II como muito moderno para ser católico. E por outro, eles tiveram que manter distância dos ultraprogressistas que veem o Vaticano II como muito católico para ser moderno.

 

Bento XVI e seus tradicionalistas

Em teoria, isso é particularmente o que Bento XVI tentou fazer com seu famoso discurso à Cúria Romana, logo antes do Natal em 2005. Essa mensagem pode ser lida como repúdio a uma interpretação do concílio com uma ruptura com as tradições, algo compartilhado, ironicamente, tanto por ultraprogressistas e lefebvrianos.

Na prática, sabemos que a política doutrinal de Bento XVI era mais favorável à interpretação do Vaticano.

Não esqueçamos as calamitosas consequências que se teve sobre a liturgia. (É interessante como os bispos franceses responderam a um inquérito do Vaticano sobre os efeitos do motu proprio Summorum Pontificum, de 2007, que autorizou o uso da liturgia pré-conciliar).

Comparado a Bento, Francisco mostrou uma interpretação diferente do Vaticano II com bases na sua visão de uma Igreja em um mundo multicultural e multirreligioso, enraizado em uma realidade que ele conheceu muito bem como pastor.

Na mensagem de 30 de janeiro, Francisco também revelou sua oposição, não apenas à mentalidade de resistência ao Vaticano II em nome de um falso senso de ortodoxia, mas também para negociar com os tradicionalistas sobre o significado do concílio.

Tais negociações eram uma parte integral da política doutrinal do pontificado de Bento XVI.

Francisco silenciosamente – mas sem errar – desfez essa política quando aboliu a Comissão Ecclesia Dei no início de 2019. João Paulo II havia a criado em 1988 para negociar com a cismática Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) e colocou o cardeal Ratzinger encarregado disso.

Abolição da “Ecclesia Dei” é uma das mais importantes mudanças que Francisco fez para a estrutura da Cúria Roma desde que se tornou papa.

 

Francisco e o pragmatismo pastoral

Francisco é famoso por não ser um fã da linguagem dos “não-negociáveis” quando se trata de questões morais, mas esse é um termo que ele provavelmente aplicaria ao Concílio Vaticano II – não está em negociação.

É a partir da firme defesa do papa ao concílio que devemos interpretar os passos que ele deu para reestruturar as relações da Igreja Católica com os tradicionalistas da FSSPX, especialmente desde o Jubileu da Misericórdia.

Francisco concedeu a todos os padres da FSSPX as faculdades de celebrar os sacramentos da reconciliação e do matrimônio. Ele fez isso por uma questão de pragmatismo pastoral.

Não se tratava de reconhecer a equivalência entre o Vaticano II e aqueles que se opõem abertamente ou rejeitam seus ensinamentos e fazem proselitismo sobre um falso senso de ortodoxia.

 

Este é um ponto crítico para a compreensão do pontificado.

Uma leitura cuidadosa dos pronunciamentos de Francisco sobre o Vaticano II o caracteriza como claramente oposto à mentalidade anticonciliar dos tradicionalistas.

Mas - talvez de forma menos evidente - ele também esteja se opondo à cultura teológica a-conciliar de progressistas radicais, para os quais a legitimidade do concílio não reside sobre o que dizem os documentos, mas principalmente nas diferenças com a tradição magisterial anterior..

Em algumas questões, Francisco demonstrou que sua interpretação do Vaticano II pode ir além da letra dos documentos (como sobre o diálogo inter-religioso ou questões de família e casamento).

Mas em outras questões, como ministério sacerdotal, é mais complicado: Francisco parece não querer adotar uma interpretação dinâmica do Vaticano II semelhante à sua interpretação de Nostra Aetate, por exemplo.

 

A posição centrista do papa jesuíta

Recentemente, Francisco decretou que os ministérios do leitorado e acolitado passariam a ser abertos às mulheres, de forma estável e institucionalizada por meio de mandato específico. Mas nestes últimos quase oito anos, ele disse mais de uma vez que se opõe claramente à ordenação de mulheres.

A interpretação do Vaticano II por Francisco está mais distante do cardeal Raymond Leo Burke (por exemplo), e muito mais próxima do cardeal Walter Kasper. Mas não apenas para o Kasper que se tornou alvo dos conservadores católicos desde 2013, mas também para o Kasper mais “centrista” das décadas de 1980 e 1990.

Em outras palavras, as razões pelas quais Francisco mostrou algumas aberturas para com os tradicionalistas não são muito diferentes de suas razões para mostrar algumas aberturas para com os progressistas católicos. Eles estão enraizados no pragmatismo pastoral. Eles não abraçam uma interpretação teológica particular da tradição.

A contraposição entre a liderança da conferência episcopal dos Estados Unidos e Francisco é uma característica fundamental do pontificado, mas não deve sugerir um liberalismo teológico que nunca fez parte da mentalidade do papa jesuíta.

No entanto, os problemas de Francisco vêm mais do tradicionalismo radical do que do progressismo liberal.

A violência verbal que os tradicionalistas radicais usam para criticar Francisco vem da frustração. Eles sabem que uma reversão dos ensinamentos do Vaticano II e do período pós-conciliar é inimaginável – ou imaginável apenas a um custo enorme do ponto de vista doutrinário e em termos de fidelidade ao Evangelho.

 

Tradicionalistas, é hora de escolher

O Vaticano II foi fruto de uma ordem teológico-cultural que agora está em crise, e é por isso que a Igreja precisa de um novo comentário global do concílio.

Mas o pontificado de Francisco representa um momento de escolha – muito mais pelos tradicionalistas do que progressistas. As críticas dos dois grupos ao Vaticano II claramente não são iguais ou equivalentes.

Uma maneira de entender a eleição e o pontificado de Francisco é como uma resposta à onda neotradicionalista que foi encorajada pela época de Bento XVI como bispo de Roma.

O que Francisco diz e o que ele representa na interpretação do Vaticano II é mais uma correção do que uma conclusão do curso de Bento XVI.

Esse último pontificado nada fez para moderar a rejeição radical do Vaticano II pelos tradicionalistas cismáticos e realmente deu legitimidade aos tradicionalistas católicos anti-Vaticano II em comunhão com Roma.

O problema é que a divisão em torno das interpretações do Concílio é muito mais grave hoje do que durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI. Desde então, houve um endurecimento de posições, especialmente do lado conservador.

A negação de Francisco das bençãos dadas à agenda dos tradicionalistas até 2013 o faz parecer mais teologicamente progressista do que realmente é.

No que diz respeito à interpretação magisterial do Vaticano II, este pontificado tem mais a ver com desfazer do que com fazer. E isso, por si só, não é pouca coisa. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

 

Frei Carlos Mesters, O.Carm

 

1) Oração

Velai, ó Deus, sobre a vossa família, com incansável amor; e, como só confiamos na vossa graça, guardai-nos sob a vossa proteção. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

2) Leitura do Evangelho (Marcos 7, 14-23)

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Marcos - Naquele tempo, 14Jesus chamou a multidão para perto de si e disse: Ouvi-me todos, e entendei. 15Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa manchar; mas o que sai do homem, isso é que mancha o homem. 16[bom entendedor meia palavra basta.] 17Quando deixou o povo e entrou em casa, os seus discípulos perguntaram-lhe acerca da parábola. 18Respondeu-lhes: Sois também vós assim ignorantes? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode tornar impuro, 19porque não lhe entra no coração, mas vai ao ventre e dali segue sua lei natural? Assim ele declarava puros todos os alimentos. E acrescentava: 20Ora, o que sai do homem, isso é que mancha o homem. 21Porque é do interior do coração dos homens que procedem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, 22adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez. 23Todos estes vícios procedem de dentro e tornam impuro o homem. - Palavra da salvação.

 

3) Reflexão

O Evangelho de hoje é a continuação do assunto que meditamos ontem. Jesus ajuda o povo e os discípulos a entender melhor o significado da pureza diante de Deus. Desde séculos, os judeus, para não contrair impureza, observavam muitas normas e costumes relacionados com comida, bebida, roupa, higiene do corpo, lavagem de copos, contato com pessoas de outra religião e raça, etc (Mc 7,3-4) Eles eram proibidos de entrar em contato com os pagãos e de comer com eles. Nos anos 70, época de Marcos, alguns judeus convertidos diziam: “Agora que somos cristãos temos que abandonar estes costumes antigos que nos separam dos pagãos convertidos!” Mas outros achavam que deviam continuar na observância destas leis da pureza (cf Col 2,16.20-22). A atitude de Jesus, descrita no evangelho de hoje, ajudava-os a superar o problema.

Marcos 7,14-16: Jesus abre um novo caminho para o povo se aproximar de Deus

Ele diz para a multidão: “Não há nada no exterior do ser humano que, entrando nele, possa torná-lo impuro!” (Mc 7,15). Jesus inverte as coisas: o impuro não vem de fora para dentro, como ensinavam os doutores da lei, mas sim de dentro para fora. Deste modo, ninguém mais precisa se perguntar se esta ou aquela comida ou a bebida é pura ou impura. Jesus coloca o puro e o impuro num outro nível, no nível do comportamento ético. Ele abre um novo caminho para chegar até Deus e, assim, realiza o desejo mais profundo do povo.

Marcos 7,17-23: Em casa, os discípulos pedem explicação

Os discípulos não entenderam bem o que Jesus queria dizer com aquela afirmação. Quando chegaram em casa pediram uma explicação. Jesus estranhou a pergunta dos discípulos. Pensava que eles tivessem entendido a parábola. Na explicação aos discípulos ele vai até ao fundo da questão da pureza. Declara puros todos os alimentos! Ou seja, nenhum alimento que de fora entra no ser humano pode torná-lo impuro, pois não vai até o coração, mas vai para o estômago e acaba na fossa. Mas o que torna impuro, diz Jesus, é aquilo que de dentro do coração sai para envenenar o relacionamento humano. E ele enumera: prostituição, roubo, assassinato, adultério, ambição, etc. Assim, de muitas maneiras, pela palavra, pelo toque e pela convivência, Jesus foi ajudando as pessoas a ver e obter a pureza de outra maneira. Pela palavra, purificava os leprosos (Mc 1,40-44), expulsava os espírito impuros (Mc 1,26.39; 3,15.22 etc), e vencia a morte que era a fonte de toda a impureza. Pelo toque em Jesus, a mulher excluída como impura ficou curada (Mc 5,25-34). Sem medo de contaminação, Jesus comia junto com as pessoas consideradas impuras (Mc 2,15-17).

 As leis da pureza no tempo de Jesus

O povo daquela época tinha uma grande preocupação com a pureza. A lei e as normas da pureza indicavam as condições necessárias para alguém poder comparecer diante de Deus e se sentir bem na presença dele. Não se podia comparecer diante de Deus de qualquer jeito. Pois Deus é Santo. A Lei dizia: “Sede santos, porque eu sou santo!” (Lv 19,2). Quem não era puro não podia chegar perto de Deus para receber dele a bênção prometida a Abraão. A lei do puro e do impuro (Lv 11 a 16) foi escrita depois do cativeiro da Babilônia, cerca de 800 anos depois do Êxodo, mas tinha suas raízes na mentalidade e nos costumes antigos do povo da Bíblia. Uma visão religiosa e mítica do mundo levava o povo a apreciar as coisas, as pessoas e os animais, a partir da categoria da pureza (Gn 7,2; Dt 14,13-21; Nm 12,10-15; Dt 24,8-9).

No contexto da dominação persa, séculos V e IV antes de Cristo, diante da dificuldade para reconstruir o templo de Jerusalém e para a própria sobrevivência do clero, os sacerdotes que estavam no governo do povo da Bíblia ampliaram as leis da pureza e a obrigação de oferecer sacrifícios de purificação pelo pecado. Assim, depois do parto (Lv 12,1-8), da menstruação (Lv 15,19-24) ou da cura de uma hemorragia (Lv 15,25-30), as mulheres tinham que oferecer sacrifícios para recuperar a pureza. Pessoas leprosas (Lv 13) ou que entravam em contato com coisas e animais impuros (Lv 5,1-13) também deviam oferecer sacrifícios. Uma parte destas oferendas ficava para os sacerdotes (Lv 5,13).

No tempo de Jesus, tocar em leproso, comer com publicano, comer sem lavar as mãos, e tantas outras atividades, etc.: tudo isso tornava a pessoa impura, e qualquer contato com esta pessoa contaminava os outros. Por isso, as pessoas “impuras” deviam ser evitadas. O povo vivia acuado, sempre ameaçado pelas tantas coisas impuras que ameaçavam sua vida. Era obrigado a viver desconfiado de tudo e de todos. Agora, de repente, tudo mudou! Através da fé em Jesus, era possível conseguir a pureza e sentir-se bem diante de Deus sem que fosse necessário observar todas aquelas leis e normas da “Tradição dos Antigos”. Foi uma libertação! A Boa Nova anunciada por Jesus tirou o povo da defensiva, do medo, e lhe devolveu a vontade de viver, a alegria de ser filho e filha de Deus, sem medo de ser feliz!

 

4) Para um confronto pessoal

  1. Na sua vida há costumes que você considera sagrados e outros que considera não sagrados? Quais? Por que?
  2. Em nome da Tradição dos Antigos os fariseus esqueciam o Mandamento de Deus. Isto acontece hoje? Onde e quando? Também na minha vida?

 

5) Oração final

Vem do Senhor a salvação dos justos, que é seu refúgio no tempo da provocação. O Senhor os ajuda e liberta; arranca-os dos ímpios e os salva, porque se refugiam nele. (Sl 36)

 

Uma importante ferramenta foi instituída pelo episcopado brasileiro, em 1998, durante a sua 36ª Assembleia Geral, com o propósito de promover a sustentação da Ação Social da Igreja Católica no Brasil. Trata-se do Fundo Nacional de Solidariedade (FNS) e o Fundo Diocesano de Solidariedade (FDS), que financiam empreendimentos locais e ambientalmente sustentáveis, fomentando o desenvolvimento comunitário com base nas necessidades, práticas e culturas locais.

À época, a Cáritas Brasileira, entidade de promoção e atuação social vinculada à CNBB, teve papel importante na gestão dessas ferramentas. A experiência na administração de fundos de apoio a pequenos projetos, ancorada numa perspectiva pedagógica não assistencial e sustentada por formas de relações de trocas comunitárias solidárias – próprias das culturas locais –, financiadas com recursos da Cooperação Internacional credenciou o organismo da CNBB para assumir os processos de animação, administração e gerência do FNS e do FDS até o ano de 2014. Em 2015, os Fundos de Solidariedade passaram a ser geridos diretamente pela CNBB, através do Conselho Gestor e de seu Departamento Social, com a finalidade de apoiar os projetos sociais da CNBB, em nível nacional.

A composição dos Fundos passa pelo histórico da Campanha da Fraternidade (CF), iniciativa da CNBB, realizada desde 1964. Formado por 60% de toda a arrecadação da Coleta Nacional da Solidariedade, gesto concreto da CF, realizado em todas as dioceses, paróquias e comunidades durante o Domingo de Ramos, o FDS é gerido pela própria diocese, em vista dos seus projetos sociais. Os outros 40% compõem o FNS, que é administrado pelo Departamento Social da CNBB, sob a orientação do Conselho Gestor.

Todo ano, o Departamento Social da CNBB publica um edital específico, com critérios, para seleção dos projetos sociais. São priorizados aqueles que estejam em sintonia com os objetivos gerais e específicos da Campanha da Fraternidade vigente no ano. “Desde 2015 temos aprimorado o conteúdo do edital e também as suas formas de garantir a idoneidade das entidades que nos procuram, então passamos a exigir cada vez mais da entidade documentações que vão nos dizer se ela tem condições ou não de ser avaliada em uma determinada reunião do Conselho Gestor que está prevista”, explica o coordenador de projetos e encarregado do Departamento Social, Franklin Ribeiro.

Para selecionar os projetos, fiscalizar e acompanhar a aplicação dos recursos, o FNS conta com um Conselho Gestor,  grupo vinculado à presidência da CNBB, que tem como missão decidir sobre a destinação do FNS, supervisionando a sua administração e aplicação.

“Foi algo impactante porque nós vimos que os recursos do Fundo Nacional Solidariedade têm gerado vida, resgatado a autoestima das pessoas, mobilizado as comunidades e resgatado alguns valores, como por exemplo os mutirões e os encontros da comunidade”.

Esse é o relato do secretário-executivo de campanhas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), padre Patriky Samuel, após uma visita de avaliação e monitoramento aos projetos apoiados pelo fundo na diocese de Januária, que fica no norte de Minas Gerais realizada de 10 a 12 de fevereiro de 2020.

O responsável pelo Departamento Social da CNBB, Franklin Ribeiro Queiroz, conta que, em média, são 200 projetos apoiados por ano, num valor em torno de 15 a 20 mil reais cada. “A transformação que eles nos reportam através desse pequeno recurso são coisas que nos surpreendem”, afirma.

Franklin também ressalta a origem do recurso, recordando a “oferta da viúva”, na passagem bíblica de Lucas 21: “Quando esse recurso chega aqui, ele já vem com esta carga de amor que é colocado na doação. É isso que multiplica esse dinheiro e faz esse efeito das entidades tão agradecidas por um recurso que faz uma diferença gigante na vida deles, pouco dinheiro que faz muito”.

A partir de amanhã, 10 de fevereiro, a Assessoria de Comunicação da CNBB vai divulgar a cada dia projetos apoiados com recursos do Fundo Nacional de Solidariedade em todo Brasil.

 

Transparência na gestão dos recursos

Desde 2018, o FNS disponibiliza um site onde é possível acompanhar e saber como anda a evolução da prestação de contas dos projetos, por meio do Portal da Transparência que pode ser acessado pelo site: www.fns.cnbb.org.br. Nele, há uma relação completa dos projetos aprovados.  A CNBB também presta contas ao Ministérios da Cidadania e Justiça, Ministério Público e ao Conselho de Assistência Social (CAS). Fonte: https://www.cnbb.org.br

 

A Campanha da Fraternidade recebe todos os anos uma mensagem especial do Santo Padre que é lida e divulgada na abertura da Quaresma, incentivando a participação ativa dos fiéis e de toda sociedade. O secretário-executivo de Campanhas da Fraternidade e Evangelização da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), padre Patriky Samuel Batista, recuperou a partir dos arquivos do Centro de Documentação da entidade a primeira mensagem e o que disseram os últimos três Pontífices sobre a campanha.

“Alegro-me que, há mais de cinco décadas, a Igreja no Brasil realize, no período quaresmal, a Campanha da Fraternidade, anunciando a importância de não separar a conversão do serviço aos irmãos e irmãs, sobretudo os mais necessitados”. Estas foram as palavras do Papa Francisco em mensagem enviada especialmente para a Campanha da Fraternidade em 2020.

A primeira mensagem foi enviada pelo Papa Paulo VI em 1970 a pedido do presidente da CNBB, cardeal Dom Agnelo Rossi. Neste ano o tema era “Participação” e o lema: “Ser cristão é participar”. Padre Patriky recorda que neste ano, a mensagem fazia uma ligação entre a encíclica Populorum Progressio e a CF ajudando a compreender que a conversão, no horizonte do Evangelho, é reorientação profunda da vida. Por isso a necessidade de “criar uma nova mentalidade em que todos se deem as mãos, o forte ajudando o fraco a crescer, oferecendo-lhe toda a sua competência, entusiasmo e amor desinteressado”.

Na mensagem para a CF de 1979, São João Paulo II falava da necessidade de viver a quaresma com ascese pessoal, mas sem esquecer da importância do doar-se. Em suas próprias palavras: “Dar mostras dessa conversão ao amor de Deus com gestos concretos de amor ao próximo”.

Em 2007, a mensagem do Papa Bento XVI afirmava: “Ao iniciar o itinerário espiritual da Quaresma, a caminho da Páscoa da ressurreição do Senhor, desejo uma vez mais aderir à Campanha da Fraternidade (…) tempo em que cada cristão é convidado a refletir de modo particular sobre as várias situações sociais do povo brasileiro que requerem maior fraternidade”.

Segundo secretário-executivo de Campanhas da CNBB ano após ano os Pontífices exortam os fiéis católicos no Brasil a abraçar a CF como testemunho de comunhão em vista da construção de um mundo novo como bem diz o apóstolo das nações: “Não vos conformeis com este mundo, mas, transformai-vos, pela renovação da mente, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, a saber, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito” (Rm 12,2).

Em sintonia com a 5ª Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) 2021, cuja abertura acontece na próxima quarta-feira, 17 de fevereiro, na Quarta-Feira de Cinzas, o padre Patriky recorda as palavras do Papa-emérito Bento XVI sobre a importância da comunhão:

“o caminho rumo à plena comunhão querida por Jesus para os seus discípulos exige, numa docilidade concreta ao que o Espírito diz às Igrejas, coragem, docilidade, firmeza e esperança de alcançar a finalidade. Exige em primeiro lugar a oração insistente e de um só coração, para obter do Bom Pastor o dom da unidade para o seu rebanho. (…) O mundo em que vivemos com frequência está marcado por conflitos, violência e guerras, mas aspira seriamente pela paz, uma paz que é sobretudo um dom de Deus, uma paz pela qual devemos rezar incessantemente. Contudo, a paz é também um dever pelo qual todos os povos se devem comprometer, sobretudo os que professam pertencer a tradições religiosas. (Novo millennio ineunte,55).

Fonte: https://www.cnbb.org.br

 

A presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou, nesta terça-feira, 9 de fevereiro, uma nota na qual esclarece pontos referentes à realização da Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano, cujo tema é: “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” e o lema: “Cristo é a nossa paz. Do que era dividido fez uma unidade”,  (Ef 2,14a).

O documento reafirma a Campanha da Fraternidade como uma marca e, ao mesmo tempo, uma riqueza da Igreja no Brasil que deve ser cuidada e melhorada sempre mais por meio do diálogo. Iluminado pela Encíclica Ut Unum Sint, de 1999, do Papa São João Paulo II, o texto aponta também ser necessário cuidar da causa ecumênica. 

Sobre o texto-base da CFE deste ano, os bispos afirmam que a publicação seguiu a estrutura de pensamento e trabalho do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), conselho responsável pela preparação e coordenação da campanha da fraternidade em seu formato ecumênico. “Não se trata, portanto, de um texto ao estilo do que ocorreria caso fosse preparado apenas pela comissão da CNBB”, aponta a Nota.

No documento, a presidência da CNBB reafirma que a Igreja Católica tem sua doutrina estabelecida a respeito das questões de gênero e se mantém fiel a ela. “A doutrina católica sobre as questões de gênero afirma que ‘gênero é a dimensão transcendente da sexualidade humana, compatível com todos os níveis da pessoa humana, entre os quais o corpo, a mente, o espírito, a alma. O gênero é, portanto, maleável sujeito a influências internas e externas à pessoa humana, mas deve obedecer a ordem natural já predisposta pelo corpo” (Pontifício Conselho para a Família, Lexicon – Termos ambíguos e discutidos sobre família, vida e questões éticas., pág. 673).

A nota informa que os recursos do Fundo Nacional de Solidariedade (FNS) seguem rigorosa orientação, obedecendo não apenas a legislação civil vigente para o assunto, mas também a preocupação quanto à identidade dos projetos atendidos. “Os recursos só serão aplicados em situações que não agridam os princípios defendidos pela Igreja Católica”, reforça a nota.

A presidência da CNBB afirma, no parágrafo final, que apesar de nem sempre ser fácil cuidar das dificuldades levantadas pela realização de uma Campanha da Fraternidade e da caminhada ecumênica e de muitos outros aspectos da ação evangelizadora da Igreja, nem por isso se deve desanimar e romper a comunhão, o que segundo os bispos é uma das maiores marcas dos cristãos. “Não desanimemos. Não desistamos. Unamo-nos”, exorta a presidência da CNBB.

Conheça, abaixo, a íntegra do documento. Aqui a versão em PDF:

 

NOTA DA PRESIDÊNCIA DA CNBB

Irmãos e irmãs em Cristo Jesus,

“Não apagueis o Espírito, não desprezais as profecias,
mas examinai tudo e guardai o que for bom” (1 Ts 5,21)

  1. No exercício de nossa missão evangelizadora, deparamo-nos com inúmeros desafios, diante dos quais não podemos esmorecer, mas, ao contrário, buscar forças para responder com tranquilidade e esperança.
  2. Nosso país vive um tempo entristecedor, com tantas mortes causadas pela covid-19, um processo de vacinação que gostaríamos fosse mais rápido e uma população que se cansou de seguir as medidas de proteção sanitária. Nosso coração de pastores sofre diante de tantas sequelas que surgem a partir da pandemia, em especial o empobrecimento e a fome.

A Campanha da Fraternidade 2021 e suas características

  1. Em meio a tudo isso e atendendo à solicitação de irmãos bispos, desejamos abordar a Campanha da Fraternidade deste ano. Algumas afirmações têm ocasionado insegurança e mesmo perplexidade.
  2. Como sabemos, a Campanha da Fraternidade é uma riqueza da Igreja no Brasil, nascida e amadurecida não sem dificuldades e mesmo sofrimentos. A cada Campanha, o aprendizado se fortalece e se mostra continuamente necessário. Assim acontece com cada tema escolhido e assim acontece quando as Campanhas, desde o ano 2000, são feitas em modo ecumênico.
  3. Para este ano, o tema escolhido foi o diálogo, com o tema, portanto, fraternidade e diálogo: compromisso de amor. Trata-se, como explicado nas formações feitas pelo nosso Setor de Campanhas, do recolhimento dos temas anteriores, em especial desde 2018, que tratou da superação da violência, até 2020, quando apresentou-se a proposta cristã do cuidado.
    6. Para 2021, conforme aprovação em nossa Assembleia Geral de 2018, a Campanha foi construída ecumenicamente e, conforme costume desde o ano 2000, sob a responsabilidade do CONIC. Nas primeiras reuniões, discerniu-se pelo tema do diálogo, urgência num tempo de polarizações e fanatismos, cabendo então ao CONIC a construção do texto-base. Isso foi feito conforme está explicado na apresentação do mesmo, com detalhamento da equipe elaboradora, na pág. 9.
  4. Consequentemente, o texto seguiu a estrutura de pensamento e trabalho do CONIC. Foram realizadas várias reuniões, o texto passou por revisão da assessoria teológica do CONIC, uma assessoria com membros das diversas igrejas, chegando, então, ao que hoje temos. Não se trata, portanto, de um texto ao estilo do que ocorreria caso fosse preparado pela comissão da CNBB, pois são duas compreensões distintas, ainda que em torno do mesmo ideal de servir a Jesus Cristo. O texto-base desse ano, por conseguinte, deve ser assim compreendido, como o foi nas Campanhas da Fraternidade levadas a efeito de modo ecumênico.

 

Algumas questões específicas

  1. Nos últimos dias, reações têm surgido quanto ao texto. Apresentam argumentos que esquecem da origem do texto, desejando, por exemplo, de uma linguagem predominantemente católica. Trazem ainda preocupações com relação a aspectos específicos, a saber, as questões de gênero, conforme os números 67 e 68 do referido texto.
    9. A doutrina católica sobre as questões de gênero afirma que “gênero é a dimensão transcendente da sexualidade humana, compatível com todos os níveis da pessoa humana, entre os quais o corpo, a mente, o espírito, a alma. O gênero é, portanto, maleável sujeito a influências internas e externas à pessoa humana, mas deve obedecer a ordem natural já predisposta pelo corpo” (Pontifício Conselho para a Família, Lexicon – Termos ambíguos e discutidos sobre família, vida e questões éticas., pág. 673).Uma ajuda destacável
  2. Já pronto o texto-base, fomos presenteados com a Fratelli Tutti, que recomendamos vivamente seja também utilizada como subsídio para a Campanha da Fraternidade deste ano. Ela estabelece forte conexão entre o tema de 2020 e o de 2021, cuidado e diálogo, e muito ajudará na reflexão sobre o diálogo e a fraternidade.

 

Coleta da Solidariedade


  1. Junto com essas preocupações de conteúdo, surgiu ainda a sugestão de que não se faça a oferta da solidariedade no Domingo de Ramos, uma vez que existiria o risco de aplicação dos recursos em causas que não estariam ligadas à doutrina católica.
    12. Lembramos que, em 2019, foi distribuída pelo Fundo Nacional de Solidariedade – FNS a quantia de R$3.814.139,81, fruto da generosidade de nossas comunidades, não se incluindo nessa quantia o que foi destinado aos fundos diocesanos. Em 2020, por causa da pandemia, não ocorreu arrecadação. Somente com a ajuda da instituição alemã Adveniat conseguimos atender a 15 projetos.
  2. Sobre isso, recordamos que o FNS segue rigorosa orientação, obedecendo não apenas a legislação civil vigente para o assunto, mas também preocupação quanto à identidade dos projetos atendidos. Desde o início da construção da Campanha da Fraternidade de 2021, temos informado ao CONIC a respeito da dificuldade e até mesmo da impossibilidade de mantermos a estrutura do Fundo de Solidariedade como ocorrido nas Campanhas ecumênicas anteriores. Sobre este ponto, tendo como base a última dessas Campanhas, a de 2016, esta Presidência já manifestou ao CONIC as dificuldades e, por espírito de comunhão e corresponsabilidade, vai conversar sobre o assunto na próxima reunião do CONSEP. A conclusão será informada em seguida.

 

Desse modo:

  1. Em consequência, respeitando a autonomia de cada irmão bispo junto aos seus diocesanos e como não poucos irmãos nos têm solicitado indicações para informar ao povo sobre a CF 2021, consideramos importante que sejam destacados os seguintes aspectos:
    1) A Campanha da Fraternidade é um valor que não podemos descartar.
    2) Alguns temas, conforme seu modo de ser apresentado, tornam-se mais difíceis que outros.
    3) A Igreja tem sua doutrina estabelecida a respeito das questões de gênero e se mantém fiel a ela.

4) Os recursos do Fundo Nacional de Solidariedade serão aplicados em situações que não agridam os princípios defendidos pela Igreja Católica.


5) A causa ecumênica se mantém importante. “Uma comunidade cristã que crê em Cristo e deseja com o ardor do Evangelho a salvação da humanidade não pode de forma alguma fechar-se ao apelo do Espírito que orienta todos os cristãos para a unidade plena e visível … O ecumenismo não é apenas uma questão interna das comunidades cristãs, mas diz respeito ao amor que Deus, em Cristo Jesus, destina ao conjunto da humanidade; e criar obstáculos a este amor é uma ofensa a Ele e ao Seu desígnio de reunir todos em Cristo” (S. João Paulo II, Encíclica Ut Unum Sint, 99)

  1. Concluímos lembrando a importância da Campanha da Fraternidade na história da evangelização do Brasil. É nossa marca. Cabe-nos cuidar dela, melhorá-la sempre mais por meio do diálogo, assim como nos cabe cuidar da causa ecumênica, um ideal que se nos impõe. Se nem sempre é fácil cuidar de ambos e de muitos outros aspectos de nossa ação evangelizadora, nem por isso devemos desanimar e romper a comunhão, uma de nossas maiores marcas, um tesouro que o Senhor Jesus nos deixou e do qual não podemos abrir mão. Não desanimemos. Não desistamos. Unamo-nos.

Brasília-DF, 09 de fevereiro de 2021


Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo de Belo Horizonte (MG)
Presidente da CNBB

 

Dom Jaime Spengler
Arcebispo de Porto Alegre (RS)
Primeiro Vice-Presidente da CNBB

 

Dom Mário Antônio da Silva
Bispo de Roraima (RR)
Segundo Vice-Presidente da CNBB

Dom Joel Portella Amado

Bispo auxiliar da arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)
Secretário-geral da CNBB

Fonte: https://www.cnbb.org.br

 

Foi apresentado, nesta terça-feira, o documento da Pontifícia Academia para a Vida sobre a condição da “terceira idade” depois da pandemia.

 

Davide Dionisi/Mariangela Jaguraba – Vatican News

“A velhice: o nosso futuro. A condição dos idosos depois da pandemia.” Este é o título do documento publicado, nesta terça-feira (09/02), com o qual a Pontifícia Academia para a Vida (PAV), de acordo com o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, propõe uma reflexão sobre os ensinamentos a serem extraídos da tragédia causada pela difusão da Covid-19, sobre suas consequências para hoje e para o futuro próximo de nossas sociedades.

 

Repensar o modelo de desenvolvimento

Ensinamentos que evidenciaram uma dupla consciência: “Por um lado, a interdependência entre todos e, por outro, a presença de fortes desigualdades. Estamos todos à mercê da mesma tempestade, mas num certo sentido, também se pode dizer que estamos remando em barcos diferentes: os mais frágeis estão afundando todos os dias. É indispensável repensar o modelo de desenvolvimento de todo o planeta”, afirma o documento, que retoma a reflexão já iniciada com a Nota de 30 de março de 2020 (Pandemia e Fraternidade Universal), prosseguida da Nota de 22 de julho de 2020 (A Humana Communitas na Era da Pandemia). Reflexões desatualizadas sobre o renascimento da vida) e com o documento conjunto com o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral (Vacina para todos. Vinte itens para um mundo mais justo e saudável) de 28 de dezembro de 2020. A intenção é “propor o caminho da Igreja, mestra de humanidade, a um mundo transformado pela Covid-19, a mulheres e homens em busca de sentido e esperança para suas vidas”.

 

A Covid-19 e os idosos

Durante a primeira onda da pandemia, uma proporção considerável de mortes pela Covid-19 ocorreu nas instituições para idosos, lugares que deveriam proteger a “parte mais frágil da sociedade” e onde a morte atingiu desproporcionalmente mais em relação à casa e ao ambiente familiar. “O que aconteceu durante a Covid-19 impede de descartar a questão com uma busca por bodes expiatórios, por culpados individuais. Por outro lado, é necessário que se levante um coro em defesa dos excelentes resultados daqueles que evitaram o contágio nos asilos. Precisamos de uma nova visão, de um novo paradigma que permita à sociedade cuidar dos idosos”.

 

Em 2050, dois bilhões de pessoas com mais de 60 anos

O documento da PAV evidencia que “do ponto de vista estatístico e sociológico, homens e mulheres têm geralmente hoje uma expectativa de vida mais longa. Esta grande transformação demográfica representa, de fato, um desafio cultural, antropológico e econômico”. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, em 2050, haverá dois bilhões de pessoas com mais de 60 anos no mundo: uma a cada cinco pessoas será idosa. “Portanto, é essencial tornar nossas cidades lugares inclusivos e acolhedores para os idosos e, em geral, para todas as formas de fragilidade”.

 

Ser idoso é um presente de Deus

Em nossa sociedade, prevalece muitas vezes a ideia da velhice como uma idade infeliz, sempre entendida apenas como a idade da assistência, da necessidade e das despesas para o tratamento médico. “Ser idoso é um presente de Deus e um enorme recurso, uma conquista a ser salvaguardada com cuidado, mesmo quando a doença se torna incapacitante e surge a necessidade de cuidados integrados e de alta qualidade. É inegável que a pandemia reforçou em todos nós a consciência de que a riqueza dos anos é um tesouro a ser valorizado e protegido”, ressalta o documento.

 

Um novo modelo para os vulneráveis

Quanto à assistência, a PAV indica um novo modelo especialmente para os mais frágeis inspirado na pessoa “A implementação deste princípio implica uma intervenção articulada em diferentes níveis, que realiza um cuidado contínuo entre a própria casa e alguns serviços externos, sem cesuras traumáticas, não adequadas à fragilidade do envelhecimento”, especifica o documento, observando que “as casas de repouso devem se requalificar num contínuo sócio-sanitário, ou seja, oferecer alguns de seus serviços diretamente nos domicílios dos idosos: hospitalização em casa, cuidando da pessoa individual com respostas de assistenciais moduladas nas necessidades pessoais em baixa ou alta intensidade, onde a assistência social e sanitária integrada e o cuidado domiciliar continuam sendo o pivô de um novo e moderno paradigma”. Em substância, espera-se reinventar uma rede mais ampla de solidariedade “não necessariamente e exclusivamente baseada em vínculos de sangue, mas articulada de acordo com as pertenças, amizades, sentimentos comuns, generosidade recíproca na resposta às necessidades dos outros”.

 

O encontro entre gerações

Quanto ao confronto com os jovens, o documento evoca um “encontro” que possa levar para o tecido social “aquela nova seiva de humanismo que tornaria a sociedade mais solidaria”. Muitas vezes o Papa Francisco exortou os jovens a ficarem perto de seus avós”, acrescentando que “o homem que envelhece não se aproxima do fim, mas do mistério da eternidade. Para entender isto ele precisa se aproximar de Deus e viver na relação com Ele. Cuidar da espiritualidade dos idosos, de sua necessidade de intimidade com Cristo e de partilha da fé é uma tarefa de caridade na Igreja”. O documento deixa claro que “é somente graças aos idosos que os jovens podem redescobrir suas raízes, e é somente graças aos jovens que os idosos recuperam a capacidade de sonhar”.

 

A fragilidade como magistério

O testemunho que os idosos podem dar através de sua fragilidade também é precioso. “Ele pode ser lido como um magistério, um ensinamento de vida”, observa a reflexão, esclarecendo que “a velhice também deve ser entendida neste horizonte espiritual: é a idade propícia do abandono a Deus. À medida que o corpo enfraquece, a vitalidade psíquica, a memória e a mente diminuem, a dependência da pessoa humana de Deus parece cada vez mais evidente.”

 

A mudança cultural

Por fim, um apelo: “Toda a sociedade civil, a Igreja e as diversas tradições religiosas, o mundo da cultura, da escola, do voluntariado, do espetáculo, da economia e das comunicações sociais devem sentir a responsabilidade de sugerir e apoiar medidas novas e incisivas, para que seja possível acompanhar e cuidar dos idosos em contextos familiares, em suas próprias casas e, em todo caso, em ambientes domésticos que mais se assemelham a uma casa do que a um hospital. Esta é uma mudança cultural a ser implementada.”. Fonte: https://www.vaticannews.va

 

1) Oração

Velai, ó Deus, sobre a vossa família, com incansável amor; e, como só confiamos na vossa graça, guardai-nos sob a vossa proteção. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

2) Leitura do Evangelho (Marcos 7, 1-13)

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Marcos - Naquele tempo, 1Os fariseus e alguns dos escribas vindos de Jerusalém tinham se reunido em torno dele. 2E perceberam que alguns dos seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras, isto é, sem as lavar. 3(Com efeito, os fariseus e todos os judeus, apegando-se à tradição dos antigos, não comem sem lavar cuidadosamente as mãos; 4e, quando voltam do mercado, não comem sem ter feito abluções. E há muitos outros costumes que observam por tradição, como lavar os copos, os jarros e os pratos de metal.) 5Os fariseus e os escribas perguntaram-lhe: Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos, mas comem o pão com as mãos impuras? 6Jesus disse-lhes: Isaías com muita razão profetizou de vós, hipócritas, quando escreveu: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. 7Em vão, pois, me cultuam, porque ensinam doutrinas e preceitos humanos (29,13). 8Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens. 9E Jesus acrescentou: Na realidade, invalidais o mandamento de Deus para estabelecer a vossa tradição. 10Pois Moisés disse: Honra teu pai e tua mãe; Todo aquele que amaldiçoar pai ou mãe seja morto. 11Vós, porém, dizeis: Se alguém disser ao pai ou à mãe: Qualquer coisa que de minha parte te pudesse ser útil é corban, isto é, oferta, 12e já não lhe deixais fazer coisa alguma a favor de seu pai ou de sua mãe, 13anulando a palavra de Deus por vossa tradição que vós vos transmitistes. E fazeis ainda muitas coisas semelhantes. - Palavra da salvação.

 

3) Reflexão

O Evangelho de hoje fala dos costumes religiosos daquele tempo e dos fariseus que ensinavam tais costumes ao povo. Por exemplo, comer sem lavar as mãos ou, como eles diziam, comer com mãos impuras. Muitos destes costumes estavam desligados da vida e tinham perdido o seu sentido. Mesmo assim, estes costumes eram conservados e ensinados, ou por medo, ou por superstição. O Evangelho traz algumas instruções de Jesus a respeito destes costumes.

Marcos 7,1-2: Controle dos fariseus e liberdade dos discípulos.

Os fariseus e alguns escribas, vindos de Jerusalém, observavam como os discípulos de Jesus comiam pão com mãos impuras. Aqui há três pontos que merecem ser assinalados: 1) Os escribas eram de Jerusalém, da capital! Significa que tinham vindo para observar e controlar os passos de Jesus. 2) Os discípulos não lavavam as mãos para comer! Significa que a convivência com Jesus os levou a criar coragem para transgredir normas que a tradição impunha ao povo, mas que já não tinham sentido para a vida. 3) O costume de lavar as mãos, que, até hoje, continua sendo uma norma importante de higiene, tinha tomado para eles um significado religioso que servia para controlar e discriminar as pessoas.

Marcos 7,3-4: A Tradição dos Antigos

“A Tradição dos Antigos” transmitia as normas que deviam ser observadas pelo povo para conseguir a pureza exigida pela lei. A observância da pureza era um assunto muito sério para o povo daquele tempo. Eles achavam que uma pessoa impura não podia receber a bênção prometida por Deus a Abraão. As normas de pureza eram ensinadas para abrir o caminho até Deus, fonte da paz. Na realidade, porém, em vez de serem uma fonte de paz, as normas eram uma prisão, um cativeiro. Para os pobres, era praticamente impossível observar as centenas de normas, costumes e leis. Por isso, eles eram desprezados como gente ignorante e maldita que não conhece a lei (Jo 7,49).

Marcos 7,5: Escribas e fariseus criticam o comportamento dos discípulos de Jesus

Os escribas e fariseus perguntam a Jesus: Por que os teus discípulos não se comportam conforme a tradição dos antigos e comem o pão com as mãos impuras? Eles fingem estar interessados em conhecer o porquê do comportamento dos discípulos. Na realidade, criticam Jesus por ele permitir que os discípulos transgridam as normas da pureza. Os fariseus formavam uma espécie de irmandade, cuja principal preocupação era observar todas as leis da pureza. Os escribas eram os responsáveis pela doutrina. Ensinavam as leis referentes à observância da pureza.

Marcos 7,6-13 Jesus critica a incoerência dos fariseus

Jesus responde citando Isaías: Este povo me honra só com os lábios, mas o seu coração está longe de mim (cf. Is 29,13). Insistindo nas normas da pureza, os fariseus esvaziavam os mandamentos da lei de Deus. Jesus cita um exemplo concreto. Eles diziam: a pessoa que oferecer ao Templo os seus bens, não pode usar esses bens para ajudar os pais necessitados. Assim, em nome da tradição esvaziavam o quarto mandamento que manda amar pai e mãe. Tais pessoas pareciam muito observantes, mas era só por fora. Por dentro, o coração delas fica longe de Deus! Como diz o canto: “Seu nome é Jesus Cristo e passa fome, e vive à beira das calçadas. E a gente quando vê passa adiante, às vezes, para chegar depressa à igreja!”. No tempo de Jesus, o povo, na sua sabedoria, não concordava com tudo que se ensinava. Esperava que, um dia, o Messias viesse indicar um outro caminho para alcançar a pureza. Em Jesus se realiza esta esperança.

 

4) Para um confronto pessoal

  1. Conhece algum costume religioso de hoje que já não tem muito sentido, mas que continua sendo ensinado?
  2. Os fariseus eram judeus praticantes mas sua fé estava desligada da vida da vida do povo. Por isso, Jesus os criticou. E hoje, Jesus nos criticaria? Em que?

 

5) Oração final

Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra! Vossa majestade se estende, triunfante, por cima de todos os céus. Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? (Sl 8, 2.5a)