O dia 25 de março de 2004, Festa da Anunciação, pareceu ser o dia mais longo da minha vida. Naquela noite, eu estava sendo homenageado pela United Way pelas pastorais da minha paróquia junto aos pobres e marginalizados na comunidade. Pouco antes da cerimônia, uma jovem repórter do jornal local me entrevistou. Ela notou que eu falava abertamente sobre muitas questões sociais e apoiava particularmente a comunidade LGBT. Eu sabia que este era o momento para “sair do armário” publicamente como padre gay católico romano. O depoimento é do padre estadunidense Fred Daley, pároco da Igreja de Todos os Santos, em Syracuse, Nova York. O artigo foi publicado por America, 23-03-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A jornada até aquele momento foi longa e muitas vezes dolorosa. Eu sabia que queria ser padre desde que estava no Ensino Médio. Como os padres são chamados ao celibato, devo ter reprimido minha sexualidade plena até o Ensino Médio, o seminário e os primeiros anos de sacerdócio. A sociedade e a Igreja Católica me ensinaram que o sexo antes do casamento era pecaminoso e que a homossexualidade era abominável.

Desde o momento em que fui ordenado, senti-me realizado em minha vocação e amei todos os aspectos do meu ministério: presidir as liturgias, visitar os doentes, ensinar as crianças e aproveitar a vida paroquial. Fui abençoado por ter um pároco que me ensinou que servir ao povo era o coração do sacerdócio.

Depois de alguns anos, no entanto, comecei a notar uma dor dentro de mim. Essa dor se aprofundou quando reconheci o surgimento de uma energia sexual que eu tentara resistir por tanto tempo. Logo, a dor se tornou pavor. Quando comecei a admitir para mim mesmo as minhas atrações a pessoas do mesmo sexo, esse pavor se tornou horror.

Durante um retiro, compartilhei a verdade sobre minha sexualidade pela primeira vez com o padre jesuíta designado como meu diretor espiritual. Eu rezei para que ele me ajudasse a voltar aos trilhos. Eu queria aprender a reprimir esses pensamentos impuros.

Em vez disso, o Pe. Paul explicou que a minha orientação sexual faz parte de quem Deus me criou para ser. Eu fui e sou totalmente amado por Deus.

Pouco a pouco, com a ajuda de alguns aconselhamentos e de orientação espiritual, comecei a me aceitar e, no fim, a me amar como homem gay. Finalmente, entendi o verdadeiro sacrifício do celibato. Embora eu nunca tenha praticado nenhum dos meus desejos, eu precisava me comprometer de novo, conscientemente, com esse modo de vida, a fim de viver como padre, com integridade. Gradualmente, eu disse a alguns amigos e familiares que eu era gay. Mas, em geral, eu fiquei ‘dentro do armário’.

Essa jornada interior de autoaceitação mudou dramaticamente a minha relação com Deus. Eu experimentei o amor incondicional de Deus na minha alma, nas minhas entranhas e na minha cabeça. Esse amor por Deus se transformou em amor pelos meus paroquianos. Minha capacidade de amizade e empatia se aprofundou muito.

Mas eu também comecei a ficar cada vez mais frustrado pelo fato de que ficar “dentro do armário” me impedia de compartilhar minha história de uma maneira que pudesse beneficiar a outros. Eu queria acompanhar e ministrar aos pobres, aos excluídos e aos marginalizados na Igreja e na sociedade, e isso incluía o ministério à comunidade LGBT.

Então, em 2002, o escândalo dos abusos sexuais irrompeu nos Estados Unidos, e várias lideranças da Igreja começaram a culpar os padres gays como a causa da crise. Eu sabia que isso não era verdade. Concluí que, se devia viver com integridade e pregar o Evangelho sem concessões desonrosas, eu precisava “sair do armário” publicamente. Não foi uma decisão impulsiva. Ela foi precedida de oração e foi fortalecida por consultas com o meu diretor espiritual e com o bispo auxiliar. Eu confiei no Espírito Santo para me mostrar o momento certo para “sair”. A entrevista na Festa da Anunciação acabou sendo esse momento.

Eu compartilhei com a repórter que, nos meus anos acompanhando membros da comunidade LGBT, eu reconheci, em sua dor profunda, a minha própria luta de autoaceitação como homem gay.

Esperei o jornal na manhã seguinte com um pouco de medo e tremor. Será que a repórter relataria o que eu disse com precisão? Será que eu seria suspenso pelo bispo? Será que os meus paroquianos me rejeitariam? Será que eu feriria as pessoas que não entendessem?

A manchete na primeira página dizia: “Padre Daley revela que é gay”. Enquanto o título “Padre Daley recebe o prêmio ‘Herói de Verdade’ da United Way por seu trabalho com os pobres” foi relegado a uma seção interna do jornal.

Naquele fim de semana, compartilhei minha história nas liturgias paroquiais. Deparei-me com ovações em pé. Uma das minhas preocupações em discernir se eu devia “sair do armário” ou não era um medo de que eu estivesse ferindo ou confundindo paroquianos que talvez não entendessem. Uma paroquiana irlandesa idosa e muito tradicional – ela odiava “aquelas malditas guitarras na missa” – aliviou meus medos. Mary sempre contava a coleta do ofertório depois da missa dominical das 8h da manhã. Prendendo a respiração, eu bati na porta da secretaria paroquial. Mary se levantou da cadeira, me deu um abraço e disse: “Não se preocupe, padre, eu também gosto de homens!”.

Eu recebi centenas de cartas de todo o país oferecendo apoio. Algumas pessoas enviaram cartas negativas, expressando preocupação com o fato de a minha alma homossexual ir para o inferno – mas até mesmo elas me asseguraram suas orações. Meu bispo na época e seu sucessor me respeitaram e apoiaram meu ministério.

Muitas pessoas me perguntam se eu acho que outros padres gays deveriam “sair do armário”. Dar esse passo é uma decisão muito pessoal e sagrada para cada pessoa. Eu só pediria que meus irmãos padres homossexuais rezassem pela graça de refletir profundamente sobre a questão. Eu posso dizer que, para mim, “sair do armário” foi e continua sendo uma bênção.

As pessoas que estão enfrentando lutas pessoais me percebem como mais acessível, porque sabem que eu também tive lutas pessoais. Qualquer ilusão de estar em um pedestal clerical, felizmente, se desfez.

Sendo uma pessoa pública, tenho muitas oportunidades para combater os preconceitos homofóbicos que ainda existem na nossa Igreja e sociedade. Um dos meus temas espirituais favoritos vem dos escritos e dos ensinamentos do Pe. Henri Nouwen, que disse: “Nós tendemos a ser compassivos na medida em que sofremos a Paixão em nossas próprias vidas”.

Quando olho para trás, para aqueles dias em que estava no “armário”, sou muito grato porque, através do dom do Espírito, aquela porta do armário foi escancarada. Através desse dom, eu pude me tornar a pessoa que Deus pretendia que eu fosse. Se eu tenho algum arrependimento? Nenhum! Nos últimos 14 anos, eu aguardo ansiosamente pelo dia 25 de março, Festa da Anunciação do Senhor, como o dia em que um anjo sussurrou no meu ouvido: “Fred, ‘não tenha medo’”.

Naquele dia, o amor derrotou o medo nas minhas relações com Deus, com meus vizinhos e comigo mesmo. Muitas vezes, com gratidão, eu reflito sobre as palavras: “Estamos tão doentes quanto os nossos segredos”. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

Em sua homilia na celebração da Vigília Pascal, o Papa Francisco nos interpela: "Queremos participar neste anúncio de vida ou ficaremos mudos perante os acontecimentos?”.

Cidade do Vaticano (31/03/2018)

O Papa Francisco presidiu na Basílica Vaticana na noite deste Sábado Santo, à solene celebração da grande Vigília Pascal. Durante a celebração foram batizados oito catecúmenos, provenientes da Albânia, Itália, Peru, Nigéria e Estados Unidos.

A cerimônia teve início no átrio da Basílica, com a celebração da Luz, a bênção do fogo e a preparação do Círio Pascal.

Após a procissão até ao altar da Cátedra, Francisco proclamou solenemente o anúncio da Ressurreição do Senhor, enquanto fiéis, com velas acesas, o acompanhavam o Canto Exultet.

A seguir, com o Canto do Glória e a Liturgia da Palavra, o Santo Padre continuou o rito da Vigília Pascal com a celebração da Santa Missa, durante a qual pronunciou sua homilia.

Francisco partiu do significado da rito pascal, comentando o silêncio dos discípulos de Jesus, pela condenação à morte do seu Senhor, diante da qual ficaram sem palavras, por causa das injustiças, calúnias e falsos testemunhos.

Durante as horas difíceis e dolorosas da Paixão, os discípulos experimentaram, de forma dramática, a sua incapacidade de arriscar e de defender o Mestre, a ponto de renegá-lo e fugir. E o Papa explicou:

“Esta é a noite do silêncio do discípulo que se sente enrijecido e paralisado, sem saber para onde ir diante de tantas situações dolorosas que o oprimem e envolvem. É o discípulo de hoje, emudecido diante de uma realidade que se lhe impõe, diante da qual acredita que nada se pode fazer para vencer as tantas injustiças. O discípulo fica perplexo, emudecido e ofuscado. Em meio aos nossos silêncios, as pedras começam a gritar”.

De fato, disse Francisco, a pedra do sepulcro gritou e, com o seu grito, anunciou a todos um novo percurso: o triunfo da Vida! Ela foi a primeira a entoar um canto de louvor e entusiasmo, de júbilo e esperança, do qual, hoje, todos participamos.

Com as mulheres, discípulas de Jesus, somos chamados, hoje, a contemplar o túmulo vazio e ouvir as palavras do anjo: «Não tenhais medo! Ele ressuscitou!»:

“O túmulo vazio quer desafiar, mover, interpelar, mas, sobretudo, encorajar-nos a crer e confiar que Deus se faz presente em qualquer situação e em qualquer pessoa. Cristo Ressuscitou da morte! A expectativa das mulheres nos tornam partícipes da obra de salvação. O anúncio da Ressurreição sustenta a nossa esperança, transforma as nossas ações, renova a nossa fé, ressurge a nossa esperança cristã”.

A pedra do sepulcro – concluiu Francisco - desempenhou o seu papel e as mulheres fizeram a sua parte. Agora, o convite é dirigido a nós:

“Convite a quebrar os hábitos rotineiros, renovar a nossa vida, as nossas escolhas e a nossa existência; convite que nos é dirigido na situação em que nos encontramos, naquilo que fazemos e somos; com a «quota de poder» que temos. Queremos participar neste anúncio de vida ou ficaremos mudos perante os acontecimentos?”.

“Não está aqui, ressuscitou! – exclamou o Papa ao concluir. E espera por ti na Galileia, convida-te a voltar ao tempo e lugar do primeiro amor, para te dizer: «Não tenhas medo, segue-Me»”. Fonte: http://www.vaticannews.va

Tudo corria bem durante uma encenação da Paixão de Cristo no município de Nova Hartz, no Rio Grande do Sul, até que um "soldado romano" entra em cena e machuca "Jesus Cristo" com uma "lança". Neste momento, para surpresa de todos os presentes, um homem invade o palco e dá um golpe de capacete na nuca do "soldado". O momento inusitado ocorreu na última Sexta-feira Santa, 30.

De acordo com o jornal Panorama, da região do Vale do Paranhana, após a primeira agressão, o invasor ainda trocou socos com outro ator e acabou rendido por outros participantes da peça no próprio palco.

Um irmão do agressor apareceu no local e explicou que ele sofreria de surtos psicóticos e teria acompanhamento de medicamentos. Os atores agredidos registraram um boletim de ocorrências. Fonte: http://www.correio24horas.com.br

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO EM SALVADOR: Imagens do ritual diante do Senhor Morto na Igreja da Venerável Ordem Terceira do Carmo de Salvador- BA. Logo mais às 15h, Celebração da Paixão seguida pela grande procissão pelas ruas do centro histórico.

Sem transmissão ao vivo, o Pontífice celebrou a Missa da Ceia do Senhor na prisão de Regina Caeli. Após a homilia, Francisco lavou os pés de 12 detentos, entre os quais católicos, muçulmanos, um ortodoxo e um budista.

Cidade do Vaticano

Entre os encarcerados da prisão romana de Regina Caeli o Papa Francisco celebrou nesta Quinta-feira Santa a Missa da Ceia do Senhor, com o rito do Lava-pés.

A cerimônia foi feita em caráter reservado, sem transmissão ao vivo pela televisão.

Antes da celebração, o Papa visitou a enfermaria, para saudar os detentos doentes. Já em sua homilia, Francisco recordou o costume daquele tempo, de os escravos lavarem os pés dos hóspedes antes de entrarem à casa.

“Era o trabalho dos escravos, mas era também um serviço. E Jesus quis fazer este serviço para nos dar um exemplo de como devemos servir uns aos outros.”

Jesus pede aos discípulos que não façam como os chefes das nações, reis e imperadores, que eram servidos pelos escravos. “Entre vocês isso não deve acontecer. Quem comanda deve servir. Jesus inverte o costume histórico, cultural daquela época e também de hoje. Quem comanda, para ser um bom patrão, seja onde estiver, tem que servir. ”

Pensando na história, acrescentou o Papa, se muitos reis, imperadores e chefes de estado tivessem compreendido esse ensinamento de Jesus, muitas guerras teriam sido evitadas.

Serviço

Francisco prosseguiu recordando o modo amoroso de agir de Cristo. Às pessoas que sofrem, descartadas pela sociedade, Jesus vai e diz: você é importante para mim. Jesus aposta em cada um de nós. “Jesus se chama Jesus, não Pôncio Pilatos. Jesus não sabe lavar as mãos, sabe somente arriscar”, afirmou o Pontífice.

“Eu sou pecador como vocês, mas hoje represento Jesus. Sou embaixador de Jesus. Quando eu me ajoelho diante de cada um de vocês, pensem: Jesus apostou neste homem, um pecador, para vir até mim e dizer que me ama. Este é o serviço, este é Jesus. Jamais nos abandona, jamais se cansa de nos perdoar, nos ama muito”.

A Lava-pés

cerimônia prosseguiu com o rito do lava-pés a 12 homens provenientes de sete países: quatro italianos, dois filipinos, dois marroquinos, um moldavo, um colombiano, um nigeriano e um de Serra Leoa.

Oito são de religião católica, dois muçulmanos, um ortodoxo e um budista.

No momento do abraço da paz, o Papa improvisou mais algumas palavras para dizer que em nosso coração vivemos sentimentos contrastantes. É fácil estar em paz com quem queremos bem, mas é mais difícil com que nos ofendeu e a quem ofendemos.

“Peçamos ao Senhor, em silêncio, a graça de dar a todos, bons e maus, o dom da paz”, convidou o Santo Padre.

Esperança

Além da saudação aos doentes e a celebração da missa, a visita ao cárcere de Regina Caeli previa também um encontro com outros detentos e a saudação aos diretores e funcionários.

Como em outras ocasiões, Francisco reiterou que não se pode conceber uma prisão sem a dimensão da esperança, da recuperação e da ressocialização:

“Aqui os hóspedes estão para aprender, para semear esperança: não existe qualquer pena justa – justa! – sem que seja aberta à esperança. Uma pena que não seja aberta à esperança não é cristã, não é humana!”

O Papa falou ainda da pena de morte, que não é humana nem cristã justamente porque a condenação se insere num horizonte de esperança.

“Água de ressurreição, olhar novo, esperança: é isso que desejo a vocês.” Fonte: http://www.vaticannews.va

Imagens da Missa da Instituição da Eucaristia e Lava-Pés com Frei Petrônio de Miranda, O. Carm, na Igreja da Ordem Primeira do Carmo em Salvador- BA. No vídeo, momento de Adoração. Convento do Carmo de Salvador- BA. 29 de março-2018.

Frei Carlos Mesters, O. Carm.

No Calvário, estamos diante de um ser humano torturado, excluído da sociedade, condenado como herético e subversivo por três tribunais: religioso, civil e militar. Ao pé da cruz, pela última vez, as autoridades religiosas confirmam a sentença: trata-se realmente de um rebelde fracassado, e o renegam publicamente (Mc 15,31-32). Pendurado na cruz, privado de tudo, Jesus grita “Eli, Eli!”. O soldado pensava: “Ele está chamando por Elias!” (Mc 15,35) Os soldados eram todos estrangeiros, mercenários. Não entendiam a língua dos judeus. O homem pensava que Eli fosse o mesmo que Elias. Assim, pendurado na cruz, Jesus está num isolamento total. Mesmo que quisesse falar com alguém, não teria sido possível. Ninguém o entenderia. Seria o mesmo que falar português para quem só entende inglês. Ele ficou totalmente só: Judas o traiu, Pedro o negou, os discípulos fugiram, as autoridades zombam dele, os transeuntes caçoam, e nem a língua que ele fala serve mais para se comunicar.

As mulheres amigas tinham que ficar de longe, observando, sem poder fazer nada (Mc 15,40). Isolado, sem qualquer possibilidade de comunicação humana, Jesus se sente abandonado até pelo Pai: “Meu Deus! Meus Deus! Por que me abandonaste?” (Mc 15, 34). E soltando um grito, ele morre!

É assim que morre o Messias Servo! Foi este o preço que Jesus pagou pela sua fidelidade à opção de seguir sempre pelo caminho do serviço para resgatar seus irmãos e suas irmãs, para que, de novo, pudessem recuperar o contato com Deus e viver na fraternidade. Mas foi exatamente nesta hora da morte, a hora em que tudo desmoronava, que um novo sentido renasceu das cinzas.

A morte de Jesus foi uma vitória! Aquela sua obediência radical até à morte, a morte de cruz, no total abandono de uma Noite Escura sem igual, fez explodir as amarras que escondiam a sua identidade. A cortina do templo, símbolo do poder que condenou Jesus, rasgou de alto a baixo. O sistema que isolava Deus no Templo, longe da vida do povo, estava encerrado. O centurião, um pagão, que fazia a guarda, faz uma solene profissão de fé: “Verdadeiramente, este homem era filho de Deus!” (Mc 15,39) Ele descobre e aceita o que os discípulos não foram capazes de descobrir e de aceitar, a saber, reconhecer a presença do Filho de Deus num ser humano crucificado

Quem quer encontrar, verdadeiramente, o Filho de Deus, não deve procurá-lo no alto, num céu distante, mas deve olhar ao seu lado, para o ser humano excluído, torturado, desfigurado, sem beleza, e para aqueles e aquelas que, como Jesus, doam sua vida pelos irmãos. É lá que o Deus de Jesus se esconde, se revela e nos atrai, e é lá que ele pode ser encontrado. É lá que está a imagem desfigurada do Filho de Deus, dos filhos e filhas de Deus. “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão!”

Frei Joseph Chalmers O. Carm. Ex- Superior Geral da Ordem do Carmo

Somos o povo da ressurreição. A ressurreição é o “sim” de Deus à vida. Se queremos dizer “sim” à vida, devemos dizer “não” à morte em todas as suas formas. Dizer “não” à morte começa exatamente quando dizemos “não” a qualquer forma de violência física. Isso requer um profundo compromisso com as palavras de Jesus: “Não julgueis” (Lc 6,37). Requer dizer “não” à toda violência do coração e da mente (Mt 5,22).

O julgamento que faço das pessoas é uma forma de morte moral (Rm 14,4). Quando julgo outros seres humanos, rotulo-os, coloco-os em categorias fixas e mantenho-os à uma distância segura de mim mesmo para que eu não entre num verdadeiro relacionamento humano com eles. Por meus julgamentos divido meu mundo entre aqueles que são bons e aqueles que são maus e, assim, brinco de Deus. Mas todos que brincam de Deus terminam agindo como o diabo. As palavras de Jesus vão direto ao coração de nossa luta: “Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos difamam” (Lc 6,27-28).

Meu inimigo não merece de mim ira, rejeição, ressentimento ou desprezo, mas o meu amor (Mt 5,44-45). Somente um coração amoroso, um coração que continua a afirmar sempre a vida, pode dizer “não” à morte sem ser corrompido por ela.

O aumento da fome e da pobreza no mundo, as guerras que sempre acontecem nos oferecem muitas razões para temer, até desesperar. Quando ouvimos as vozes da morte ao nosso redor vemos os inúmeros sinais da superioridade dos poderes da morte. Fica difícil acreditar que a vida é realmente mais forte do que a morte. No entanto, deve ter sido difícil acreditar num futuro brilhante naquela primeira Sexta-Feira Santa.

Nosso Deus é um Deus de surpresas. Se dissermos “não” à morte em todas as suas formas, podemos ter a impressão de estar do lado perdedor. Na verdade, às vezes pode parecer que estamos sós, mas não estamos. Existe todo um exército de pessoas sem importância aos olhos do mundo, orando e trabalhando pela paz. Essas pessoas permitem que Deus transforme suas vidas a partir de dentro, para tirar de seus corpos o coração de pedra e substituí-lo por um coração de carne, que é capaz de amar (Ez 11,19). Essas pessoas estão deixando o falso “eu” que se baseia em critérios exteriores, como por exemplo, o sucesso, a riqueza, o poder, o reconhecimento dos outros e assim por diante, e descobrindo o “eu” verdadeiro que se encontra em Deus. O verdadeiro “eu” é criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27) e nada pode destruí-lo.

O “eu” verdadeiro não julga os outros nem os rotula, mas vê neles um outro “eu” verdadeiro lutando por libertar-se das correntes do falso “eu”. Esse exército de pessoas pacíficas está tendo um efeito em nosso mundo. Jesus disse, “Felizes os mansos porque herdarão a terra” (Mt 5,4). O poder de nosso Deus é mais forte do que todas as armas humanas (Jz 9,7; Is 40,15). Quando esta promessa se realizará? Não sabemos, mas ela se realizará!

Frei Carlos Mesters, O. Carm.

Todos já tivemos alguma experiência das etapas ou atitudes que acabamos de percorrer: entusiasmo do início, do primeiro amor (Mc 1,16 a 6,13); momentos de desencontro e de frustração (Mc 1,35 a 8,21); necessidade de revisão, de acolhimento, de in­strução e de testemunho (Mc 8,22 a 13,37). Nova e surpreenden­te, porém, é a última etapa que descreve a história da paixão, morte e ressurreição de Jesus (cap 14 a 16).

Geralmente, lemos a história da paixão e morte, olhando para o sofrimento de Jesus. Nós vamos olhar para saber como os discípulos reagiam diante da cruz. Pois a Cruz é a pedra de toque! Nas comunidades perseguidas da Itália, o povo vivia a sua paixão. Muitos tinham morrido no tempo de Nero, outros tinham abandonado a fé. Outros se perguntavam: “Será que vou aguentar a perseguição? Fico ou não fico na comunidade?” O cansaço estava tomando conta. E dos que tinham abandonado a fé, alguns queriam saber se podiam voltar. Queriam recomeçar a caminhada. Todos eles precisavam de novas motivações para continuar na caminhada. Precisavam de uma renovada experiência do amor de Deus que fosse maior do que a falha humana. A resposta estava no relato da Paixão e morte. Lá, onde se descreve a maior derrota dos discípulos, está escondida também a maior das esperanças!

Vamos olhar no espelho destes capítulos, para ver como os discípulos e as discípulas reagiam diante da Cruz e como Jesus reagia diante das infidelidades e fraquezas dos discípulos. Vamos descobrir, nas linhas e nas entrelinhas, como o evangelista vai animando a fé das comunidades perseguidas e como vai apontando quem é realmente discípulo fiel de Jesus.

Marcos 14,1-2:  O pano de fundo: conspiração contra Jesus.

Em Jerusalém, no fim da atividade missionária, Jesus é aguardado pelos que detêm o poder: Sacerdotes, Anciãos, Escri­bas, Fariseus, Herodianos, Saduceus, Romanos. Eles têm o controle da situação. Não vão permitir que Jesus, um carpinteiro agricultor lá do interior da Galileia, provoque desordem. A morte de Jesus já estava decidida por eles (Mc 11,18; 12,12). Jesus era um homem condenado. Agora vai realizar-se o que ele mesmo tinha anunciado aos discípulos: “O Filho do Homem vai ser entregue e morto” (cf. 8,31; 9,31; 10,33).  

Se a história da paixão acentua a derrota e o fracasso dos discípulos, não é para provocar desânimo nos leitores. Não! Mas sim para ressaltar que o acolhimento e o amor de Jesus superam a derrota e o fracasso dos discípulos!

Marcos 14,3-9: Atitude da discípula diante da cruz

Uma mulher, cujo nome não foi lembrado, unge Jesus com um perfume caríssimo (14,3). Os discípulos criticam o gesto dela. Achavam que era um desperdício (14,4-5). Mas Jesus a defende: “Por que vocês aborrecem esta mulher? Ela praticou uma ação boa para comigo. Ela se antecipou a ungir meu corpo para o enterro” (14,6.8). Naquele tempo, quem morria na cruz não costumava ter enterro nem podia ser embalsamado. Sabendo disso, a mulher se antecipou e ungiu o corpo de Jesus antes da condenação e da crucifixão. Com este gesto, ela mostrava que aceitava Jesus como o Messias Servo a ser morto na cruz. Jesus en­tendeu o gesto dela e o aprovou. Pedro tinha recusado o Mes­sias Crucificado (Mc 8,32). Esta mulher anônima é a discípula fiel, modelo para os discípulos que não tinham entendido nada. É modelo para todos, “em todo mundo” (14,9).  

Marcos 14,10-31:  Atitude dos discípulos diante da Cruz

Marcos 14,10-11. Judas decide trair Jesus.  Em con­traste total com a mulher, Judas, um dos doze, resolve trair Jesus e conspira com os inimigos que lhe prometem dinheiro. Ele continua convivendo, mas apenas com o objetivo de achar uma oportunidade para entregar Jesus. Da mesma maneira, na época em que Marcos escrevia o seu evangelho, havia discí­pulos que apenas aguardavam uma oportunidade para aban­donar a comuni­dade que lhes trazia tanta perseguição. Ou, quem sabe, talvez esperassem obter até alguma vantagem entregando seus companheiros e companheiras. E hoje?

Marcos 14,12-16. Preparação da Ceia Pascal.  Jesus sabe que vai ser traído. Apesar da traição por parte do amigo, ele faz questão de confraternizar com os discípulos na última Ceia. Ele deve ter gastado bastante dinheiro para poder alugar “aquela sala ampla, no andar superior, arrumada com almofadas” (Mc 14,15). A cidade estava superlotada de romeiros por causa da festa. Era difícil encontrar um lugar.

Marcos 14,17-21. Anúncio da Traição de Judas.  Estando reunido pela última vez, Jesus anuncia que um dos discípulos vai traí-lo, “um de vocês que come comigo!”(14,18). Este jeito de falar de Marcos acentua o contraste. Para os judeus, o comer juntos, a comunhão de mesa, era a expressão máxima de intimidade e de confiança. Assim, nas entrelinhas, Marcos sugere para os leitores: a traição será feita por al­guém muito amigo, mas o amor de Jesus é maior que a traição!

Marcos 14,22-25. A celebração da Ceia Pascal.  Jesus fez um gesto de partilha. Distribuiu o pão e o vinho como expressão da doação de si e convidou os amigos a tomar o seu corpo e o seu sangue. O evangelista colocou este gesto de doação (Mc 14,22-25) entre o anúncio da traição (Mc 14,17-21) e o da fuga e da negação (Mc 14,26-31). Deste modo, acentuando o contraste entre o gesto de Jesus e o dos discípulos, ele destaca, para as comunidades daquele tempo e para todos nós, a inacreditável gratuidade do amor de Jesus, que supera a traição, a negação e a fuga dos amigos.

Marcos 14,26-28. O anúncio da fuga de todos.  Terminada a ceia, saindo com seus amigos para o Horto, Jesus anuncia que todos vão abandoná-lo. Vão fugir e dispersar! Mas desde já ele avisa: “Depois da ressurreição, vou na frente de vocês lá na Galileia!” (14,28) Eles rompem com Jesus, mas Jesus não rompe. Ele continua esperando por eles no mesmo lugar, lá na Galileia, onde, três anos antes, os tinha chamado pela primeira vez. A certeza da presença de Jesus na vida do discípulo é mais forte que o abandono e a fuga! A volta é sempre possível.

Marcos 14,29-31. O anúncio da negação de Pedro. Simão, que tem o apelido de Cefas (pedra), é tudo menos pedra. Ele já foi Satanás para Jesus (Mc 8,33), e agora pretende ser o discípulo mais fiel de todos. “Ainda que todos se escandalizem, eu não o farei!”(Mc 14,29). Mas Jesus avisa: Pedro, você será mais rápido na negação do que o galo no canto!

Marcos 14,32-52:  Atitude dos discípulos no Horto

Marcos 14,32-42. A atitude dos discípulos durante a agonia de Jesus.  No Horto, Jesus entra em agonia e pede a Pedro, Tiago e João para rezar com ele. Ele está triste, começa a apavorar-se e busca apoio nos amigos. Mas eles dormem. Não foram capazes de vigiar uma hora com ele. E isto por três vezes! Novamente, o contraste entre a atitude de Jesus e a dos discípulos é grande e proposital! É aqui no Horto, na hora da agonia de Jesus, que se desintegra a coragem dos discípulos. Não sobra mais nada!

Marcos 14,43-52. A atitude dos discípulos durante a prisão de Jesus.  Na calada da noite, chegam os soldados. Judas na fren­te. O beijo, sinal de amizade, torna-se o sinal da traição. Judas não teve a coragem de assumir a traição. Disfarçou! Na hora da prisão, Jesus se mantém calmo, senhor da situação. Ele tenta ler o sentido do acontecimento: “É para que se cumpra a Escritura!” (14,49) Mas não adiantou para os discípulos. Todos o abandonaram e fugiram (14,50). Não sobrou ninguém. Jesus ficou só!

Marcos 14,53-15,20:  O processo: as visões de Messias.

Marcos 14,53-65. Condenação de Jesus pelo Supremo Tribunal.  Jesus é levado para o tribunal dos Sumos Sacerdotes, dos Anciãos e dos Escribas, o Sinédrio. Acusado por falsos teste­munhos, ele se cala. Sem defesa, é entregue nas mãos dos seus inimigos. Assim ele realiza o que foi anunciado por Isaías a respeito do Messias Servo, que foi preso, julgado e condenado como uma ovelha sem abrir a boca  (cf. Is 53,6-8). Interrogado, Jesus assume ser o Messias: “Eu sou!”, mas o assume sob o título de Filho do Homem  (Mc 14,62). E no fim, ele é esbofeteado por pessoas que o ridicularizam como Messias Profeta  (Mc 14,65).

Marcos 14,66-72. A negação de Pedro.  Reconhecido pela empregada como um dos que estavam no Horto, Pedro nega Jesus. Chegou a negá-lo com juramento e maldição. Nem desta vez ele não foi capaz de assumir Jesus como o Messias Servo que entrega sua vida pelos outros. Mas quando o galo cantou pe­la segunda vez, ele se lembrou da palavra de Jesus e começou a chorar. É o que acontece a quem tem os pés junto do povo, mas a cabeça perdida na ideologia dos herodianos e fariseus. Provavelmente, era esta a situação de muitos nas comunidades no tempo em que

Marcos escreveu o seu evangelho. E hoje?

Marcos 15,1-20. Condenação de Jesus pelo poder romano.  O processo segue o seu rumo. Jesus é entregue ao poder dos romanos e por eles condenado sob a acusação de ser o Messias Rei (Mc 15,2; cf. 15,25). Outros propõem a alternativa de Barrabas, “preso com outros revoltosos” (Mc 15,7). Estes veem em Jesus um Messias Guerrilheiro anti-romano. Depois de condenado, Jesus é cuspido no rosto, mas não abre a boca. Aqui, novamente, aparece o Messias Servo anunciado por Isaías (cf Is 50, 6-8).

Marcos 15,21-39:  Diante da Cruz de Jesus no Calvário

Marcos 15,21-22. Simão carrega a cruz.  Enquanto Jesus é levado para ser crucificado, Simão de Cirene, um pai de família, é obrigado a carregar a Cruz. Simão é o discípulo ideal que caminha na Estrada de Jesus. Ele, literalmente, carrega a cruz atrás de Jesus até o Calvário.

Marcos 15,23-32. A crucifixão.  Jesus é crucificado como um marginal ao lado de dois ladrões. Novamente, o evangelho de Marcos evoca a figura do Messias Servo, do qual Isaías afirma: “Deram-lhe sepultura com os criminosos” (Is 53,9). Como crime é indicado “Rei dos judeus!” (15,25) As autoridades religiosas caçoam de Jesus e dizem: “Desça da cruz, para que vejamos e possamos crer!”(15,32). Eles são como Pedro. Aceitariam Jesus como Messias, se ele não estivesse na Cruz. “Eles queriam um grande rei que fosse forte, dominador, e por isso não creram nele e mataram o Salvador”.

Marcos 15,33-39. A morte de Jesus.  Abandonado por todos, Jesus solta um grito e morre. O centurião, um pagão, que fazia a guarda, faz uma solene profissão de fé: “Verdadeiramente, este homem era filho de Deus!” Um pagão descobre e aceita o que os discípulos não foram capazes de descobrir e aceitar, a saber, reconhecer a presença do Filho de Deus num ser humano torturado, excluído e crucificado. Como a mulher anônima no começo destes dois capítulos(14,3-9), assim, agora no fim, aparece um outro discípulo modelo. É o centurião, um pagão!

Marcos 15,40-16,8:  Diante do sepulcro de Jesus

Mc 15,40-47. O enterro de Jesus.  Um grupo de mulheres fica olhando de longe: Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé. Elas não fugiram. Continuaram fiéis, até o fim. É deste pequeno grupo que vai nascer o novo no domingo de Páscoa. Elas acompanham José de Arimatéia que pediu licença para enterrar Jesus. No fim, duas delas, Madalena e Maria, continuam perto do sepulcro fechado.

Mc 16,1-8. O anúncio da ressurreição.  No primeiro dia da semana, bem cedo, as mesmas três foram ungir o corpo de Jesus. Mas encontraram o sepulcro aberto. Um anjo disse que Jesus tinha ressuscitado e lhes deu esta ordem: “Vão dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vai na frente deles na Galileia. Lá vocês vão vê-lo como ele mesmo tinha dito”(16,7). Na Galileia, à beira do lago, onde tudo tinha começado, é lá que vai recomeçar tudo de novo. É Jesus que convida! Ele não desiste, nem mesmo diante da desistência dos discípulos! Chama de novo! Chama sempre!

O Fracasso final como novo apelo

Esta é a história da paixão, morte e ressurreição de Jesus, vista a partir dos discípulos e das discípulas. A frequência com que nela se fala da incompreensão e do fracasso dos discípulos corresponde, muito provavelmente, a um fato histórico. Mas o interesse principal do evangelista não é contar o que aconteceu no passado, mas sim provocar uma conversão nos cristãos do seu tempo e despertar em todos uma nova esperança, capaz de superar o desânimo e a morte.

No Calvário, na hora da morte de Jesus, estamos diante de um ser humano que foi torturado, excluído da sociedade, condenado como herético e subversivo pelo tribunal civil, militar e religioso. Ao pé da cruz, as autori­dades religiosas confirmam, pela última vez, que se trata realmente de um rebelde fracassado, e o renegam public­amente (15,31-32). Pendurado na cruz, privado de tudo, Jesus grita “Eli, Eli!”, isto é, “Meu Deus! Meu Deus!”. O soldado pensava: “Ele está chamando por Elias!” (15,35) (Os soldados eram estrangeiros. Não entendiam a língua dos judeus. O homem pensava que Eli fosse o mesmo que Elias.) Isolado e incomunicável na cruz, privado de qualquer tipo de comunicação humana, Jesus se sente abandonado até pelo Pai: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?” (15, 34). E soltando um grito, ele morre! Lá do Templo Deus ouviu o grito! O véu se rompeu (cf Sl 18,7). Tudo mudou!

É nesta hora da morte, que um novo sentido renasce das cinzas, revelado por um pagão: “Verda­deiramente, este homem era Filho de Deus!” (15,39). Se você quiser encontrar, verdadeiramente, o Filho de Deus, não o procure no alto, num céu distante, mas procure-o ao seu lado, no ser humano ex­cluí­do, torturado, desfigurado, sem beleza. Procure-o naque­le que doa sua vida pelos irmãos. É lá que a divindade se es­conde e que ela pode ser encontrada. É lá que está a imagem desfigurada de Deus, do Filho de Deus, dos filhos de Deus. “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão!”

É assim que morre o Messias Servo!  Foi este o preço que Jesus pagou pela sua fidelidade à opção de seguir sempre pelo caminho do serviço para resgatar seus irmãos. Ele mesmo disse: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos” (10,45). Aqui alcançamos o ponto de chegada da Estrada de Jesus. Caminhamos na Estrada de Jesus!

Jesus morre como um pobre, gritando, pois sabe que Deus escuta o clamor dos pobres (cf. Ex 2,24; 3,7; 22,22.26; etc). E de fato, “Deus o escutou” (Hb 5,7) e “o exaltou” (Fil 2,9). A ressurreição é a resposta do Pai à fidelidade de Jesus. Pela ressurreição de Jesus o Pai anuncia ao mundo inteiro esta Boa Notícia: “Quem vive a vida servindo como Jesus, é vitorioso e viverá para sempre, mesmo que morra ou que o matem!” Esta é a Boa Nova do Reino que nasce da cruz! Aqui alcançamos o ponto onde recomeça a Estrada de Jesus! Caminhamos na Estrada de Jesus!

A chave para entender este grande mistério da fé e da vida, os primeiros cristãos a encontravam no Antigo Testamento, sobretudo nos escritos de Isaías, onde se descreve a missão do povo que sofre no cativeiro. Isaías já dizia e anunciava:

2 O Servo  cresceu diante de Deus como uma destas plantas secas lá do sertão.

Não tinha graça nem beleza

para a gente ficar olhando para ele.

Não era atraente para a gente poder gostar dele.

3  Era desprezado, ninguém gostava de tratar com ele.

Homem das dores, acostumado a sofrer.

A gente desviava o rosto para não vê-lo.

Deixava-o de lado e não fazia caso dele.

4  Mas eram nossas as dores que ele carregava,

nossos os sofrimentos que ele suportava.

E nós o considerávamos como um leproso,

ferido por Deus e humilhado por ele.

5  Na realidade, ele estava sendo castigado por nossos crimes, esmagado por nossas faltas.

O castigo que nos traz a paz caiu sobre ele,

nas suas chagas encontramos nossa cura.

6  Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas,

cada qual seguindo o seu caminho.

E o Senhor carregou sobre ele os crimes de todos nós.

7  Maltratado resignou-se, e não abria a boca.

Como um cordeiro que se deixa levar ao matadouro.

Como uma ovelha de que se corta a lã,

ele ficava mudo e não abria a boca.

8  Sem defesa e sem julgamento, foi levado embora.

Não havia ninguém para defendê-lo.

Sim, ele foi arrancado do mundo dos vivos,

foi ferido por causa dos crimes do seu povo.

9  Foi enterrado junto com os criminosos,

e recebeu sepultura entre malfeitores,

ele que nunca cometeu crime algum

e que nunca disse uma só mentira!

10  Oh! Senhor,

que o teu Servo, quebrado pelo sofrimento,

possa agradar-te! Aceita a sua vida como resgate!

Que ele possa ver os seus descendentes, ter longa vida,

e que o teu Projeto se realize por meio dele!”    (Is 53,2-10)

Entramos na escola Albertelli de Roma, onde estudam alguns dos jovens que o Papa Francisco pediu para escrever as meditações da Via Sacra deste ano. Greta, 18 anos: em Jesus sem roupa, vejo os migrantes que perdem tudo e depois são despojados também de sua dignidade. Andrea Monda, professor de religião: eles precisam de adultos críveis, que saibam escutá-los, mas também que lhes permitam se exprimir”.

Alessandro Di Bussolo, Silvonei José – Cidade do Vaticano

Na Sexta-feira Santa, o Papa Francisco, os fiéis reunidos no Coliseu, e milhões de telespectadores conectados em todo o mundo reviverão a Paixão de Cristo ajudados pelas suas meditações nas 14 estações da Via Sacra: são jovens de 16 a 20 anos coordenados por Andrea Monda, professor de religião jornalista e escritor. Entramos na escola Albertelli de Roma e conversamos com quatro delas, quatro jovens que estão se preparando para a Universidade.

Nos textos da Via Sacra no Coliseu, a interioridade da juventude de hoje

Cecilia Nardini, que escreveu a meditação da sexta estação, “Verônica enxuga o rosto de Jesus”, nos diz que a mulher no Gólgota não presta atenção ao rosto deformado de Cristo, mas o ajuda, enquanto no mundo de hoje as aparências são o que nos fazem julgar uma pessoa. Sofia Russo, a colega que meditou sobre o encontro de Jesus com as mulheres, da oitava estação, conta que não gosta da falta de clareza que existe também entre “nós jovens, enquanto me chama a atenção  - disse - como Jesus adverte as mulheres não para julgá-las, mas para trazê-las de volta ao caminho certo”.

Conversamos depois com Greta Giglio, que refletiu sobre a décima estação e sobre Jesus, que é despojado de suas vestes antes da crucificação. Em Jesus privado de tudo, até da roupa, - diz a jovem -, vejo as pessoas que vêm até nós, “muitas vezes privadas de suas casas e de todos os seus bens, e quando chegam aqui, também da dignidade”. Enfim, para Greta Sandri, que meditou sobre Jesus pregado na Cruz, a décima primeira estação, perguntamos o que ela teria feito se realmente estivesse em Jerusalém naquele dia. “Condicionada pela multidão - ela confidencia - acho que também eu o teria condenado, e depois me arrependeria. Talvez não teria a força para ver imediatamente a verdade”.

Na conclusão, falamos também com Andrea Monda, que coordenou o trabalho dos 15 autores, doze moços e três moças. “Eles estão sozinhos em um mundo que os bombardeia com mensagens e imagens - nos diz - e precisam de adultos críveis, que saibam escutá-los, mas também que lhes permitam de se exprimir”. Fonte: http://www.vaticannews.va

Papa Francisco mantém a tradição e celebra a Missa da Ceia do Senhor, com o rito do lava-pés, entre os encarcerados. Ouça o comentário do Pe. Gianfranco Graziola, vice-coordenador da Pastoral Carcerária Nacional.

Cidade do Vaticano

Cárcere para Menores "Casal del Marmo", Novo Pavilhão do Presídio de Rebibbia, Centro para requerentes de Asilo em Castelnuovo di Porto, Casa de Reclusão de Paliano, Prisão de Regina Caeli.

Também este ano a tradição se repete: o Papa celebra a Santa Missa em Coena Domini nos “Gólgotas modernos”, como os define o vice-coordenador da Pastoral Carcerária, Pe. Gianfranco Graziola. O local onde diariamente nossos irmãos e irmãs são crucificados, condenados à morte e executados:

Papa Francisco escolheu realizar novamente o “Lava-pés” num estabelecimento prisional, o de Regina Coeli em Roma. Aparentemente, pode parecer um simples ato que nestes últimos anos faz parte do calendário das celebrações litúrgicas da Semana Santa do Bispo de Roma.

Na realidade, a opção de Francisco continua incomodando e questionando os puritanos da liturgia que não veem com bons olhos este gesto que, em sua profundidade, questiona a liturgia espetáculo no qual infelizmente se transformaram muitas de nossas celebrações, reduzindo a própria mensagem evangélica a individualismo, sentimentalismo, ou como ele próprio frequentemente repete “mundanismo”.

E como não recordar outra opção de Francisco de dar a este momento celebrativo um caráter reservado, limitando ao essencial a presença dos meios de comunicação, reafirmando um princípio importante: o do encontro com a pessoa que, na sua sacralidade, precisa ser respeitada e valorizada.

Mas existe outra mensagem importante na gestualidade e nas opções de Francisco: a de atualizar e encarnar a mensagem evangélica nas realidades periféricas de nosso tempo, e entre elas aquelas que mais questionam, como o caso dos cárceres, os “Gólgotas” modernos, onde diariamente tantos nossos irmãos e irmãs são crucificados, condenados à morte e executados.

Indo a Regina Coeli, o Papa Francisco reafirma e confirma a identidade da Igreja e das comunidades cristãs: a de uma Igreja Samaritana, Cirenea e Verônica, capaz de parar diante do sofrimento da humanidade, de ajudar a carregar o peso da dor e de expressar sua ternura enxugando suas lágrimas e limpando seu rosto ensanguentado.

Ao mesmo tempo, ele anuncia e expressa uma Igreja viva, presente na história da humanidade capaz de manifestar e comunicar ao nosso tempo e à história a vida plena de Jesus Ressuscitado.

Feliz e Santa Páscoa.

Fonte: http://www.vaticannews.va

Concelebraram com o Pontífice cerca de mil sacerdotes, bispos e cardeais. Os sacerdotes renovaram seu compromisso; os óleos para os batizados e unção dos doentes foram abençoados e o óleo do sacramento da confirmação consagrado.

Cidade do Vaticano

O Papa Francisco abriu o Tríduo Pascal no Vaticano na manhã desta Quinta-feira Santa presidindo a Missa do Crisma. Os sacerdotes renovaram seu compromisso e os óleos dos Catecúmenos (usados nos batizados) e dos Enfermos (para a Unção dos doentes) foram abençoados e o óleo do Crisma (usado no sacramento do Crisma) consagrado.

Evangelizar estando sempre próximo do povo: assim como Jesus – narra o Evangelho de Lucas – o padre de hoje deve assumir este desafio e cumpri-lo. “Ser um pregador de estrada, um mensageiro de boas novas”: em sua homilia, o Papa sugeriu aos padres esta opção, que foi a de Deus:

“ A pedagogia da encarnação, da inculturação; não só nas culturas distantes, mas também na própria paróquia, na nova cultura dos jovens... ”

Estar 'sempre ' e falar com todos

Como definir um padre como “próximo” das pessoas? Para Francisco, ele deve estar “sempre” perto e “falar com todos”: com os grandes, com os pequenos, com os pobres, com aqueles que não creem... assim como o Apóstolo Filipe, pregador de estrada, que ia de terra em terra, anunciando a Boa-Nova da Palavra, inundando as cidades de alegria.

“A proximidade é a chave do evangelizador, porque é uma atitude-chave no Evangelho, mas é também a chave da verdade”, ressaltou o Papa, lembrando que esta é também fidelidade e que não devemos cair na tentação de fazer ídolos com algumas verdades abstratas. Francisco improvisou e falou da 'cultura do ajetivo', um hábito 'feio'...

“Porque a ‘verdade-ídolo’ se mimetiza, usa as palavras evangélicas como um vestido, mas não deixa que lhe toquem o coração. E, pior ainda, afasta as pessoas simples da proximidade sanadora da Palavra e dos Sacramentos de Jesus”.

O modelo da proximidade materna

E quem nos é mais próximo do que a “Mãe”? Segundo o Papa, podemos invocá-La como “Nossa Senhora da Proximidade”, que caminha conosco, luta conosco e aproxima-nos incessantemente do amor de Deus, a fim de que ninguém se sinta excluído.

Francisco sugeriu para meditação três âmbitos de proximidade sacerdotal que podem ressoar com o mesmo tom materno de Maria no coração das pessoas com quem falamos: o âmbito do acompanhamento espiritual, o da Confissão e o da pregação.

Diálogo, confissão e pregação

No diálogo espiritual, o Papa mencionou modelo o encontro do Senhor com a Samaritana: que soube trazer à luz o pecado sem ensombrar a oração de adoração nem pôr obstáculos à sua vocação missionária.

A passagem da mulher adúltera foi o exemplo citado para a proximidade na Confissão: assim como Jesus, usar o tom da verdade-fiel, que permita ao pecador olhar em frente e não para trás. O tom justo do “não tornes a pecar” é o do confessor que o diz disposto a repeti-lo setenta vezes sete.

Por último, a proximidade do sacerdote no âmbito da pregação: “Quanto estamos próximos de Deus na oração e quão próximo estamos do nosso povo na sua vida diária?”. A resposta do Papa é:

“ Se te sentes longe de Deus, aproxima-te do seu povo, que te curará das ideologias que te entorpeceram o fervor. As pessoas simples te ensinarão a ver Jesus de outra maneira ”

E explicou que “o sacerdote vizinho, que caminha no meio do seu povo com proximidade e ternura de bom pastor (e, na sua pastoral, umas vezes vai à frente, outras vezes no meio e outras vezes ainda atrás), as pessoas não só o veem com muito apreço; mas vão mais além: sentem por ele qualquer coisa de especial, algo que só sente na presença de Jesus”.

A proximidade do 'sim'

Dirigindo-se diretamente aos sacerdotes, Francisco elevou uma prece a Maria, “Nossa Senhora da Proximidade” pedindo que mantenha os sacerdotes unidos no tom, “para que, na diversidade das opiniões, se torne presente a sua proximidade materna, aquela que com o seu «sim» nos aproximou de Jesus para sempre”. Fonte: http://www.vaticannews.va

Esqueça os cabelos compridos e olhos azuis: para pesquisadores, ele tinha a pele e os olhos escuros e os cabelos curtos.

Foram séculos e séculos de eurocentrismo - tanto na arte quanto na religião - para que se sedimentasse a imagem mais conhecida de Jesus Cristo: um homem branco, barbudo, de longos cabelos castanhos claros e olhos azuis. Apesar de ser um retrato já conhecido pela maior parte dos cerca de 2 bilhões de cristãos no mundo, trata-se de uma construção que pouco deve ter tido a ver com a realidade.

O Jesus histórico, apontam especialistas, muito provavelmente era moreno, baixinho e mantinha os cabelos aparados, como os outros judeus de sua época.

A dificuldade para se saber como era a aparência de Jesus vem da própria base do cristianismo: a Bíblia, conjunto de livros sagrados cujo Novo Testamento narra a vida de Jesus - e os primeiros desdobramentos de sua doutrina - não faz qualquer menção que indique como era sua aparência.

"Nos evangelhos ele não é descrito fisicamente. Nem se era alto ou baixo, bem-apessoado ou forte. A única coisa que se diz é sua idade aproximada, cerca de 30 anos", comenta a historiadora neozelandesa Joan E. Taylor, autora do recém-lançado livro What Did Jesus Look Like? e professora do Departamento de Teologia e Estudos Religiosos do King's College de Londres.

"Essa ausência de dados é muito significativa. Parece indicar que os primeiros seguidores de Jesus não se preocupavam com tal informação. Que para eles era mais importante registrar as ideias e os papos desse cara do que dizer como ele era fisicamente", afirma o historiador André Leonardo Chevitarese, professor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor do livro Jesus Histórico - Uma Brevíssima Introdução.

Em 2001, para um documentário produzido pela BBC, o especialista forense em reconstruções faciais britânico Richard Neave utilizou conhecimentos científicos para chegar a uma imagem que pode ser considerada próxima da realidade. A partir de três crânios do século 1, de antigos habitantes da mesma região onde Jesus teria vivido, ele e sua equipe recriaram, utilizando modelagem 3D, como seria um rosto típico que pode muito bem ter sido o de Jesus.

Esqueletos de judeus dessa época mostram que a altura média era de 1,60 m e que a grande maioria deles pesava pouco mais de 50 quilos. A cor da pele é uma estimativa.

Taylor chegou a conclusões semelhantes sobre a fisionomia de Jesus. "Os judeus da época eram biologicamente semelhantes aos judeus iraquianos de hoje em dia. Assim, acredito que ele tinha cabelos de castanho-escuros a pretos, olhos castanhos, pele morena. Um homem típico do Oriente Médio", afirma.

"Certamente ele era moreno, considerando a tez de pessoas daquela região e, principalmente, analisando a fisionomia de homens do deserto, gente que vive sob o sol intenso", comenta o designer gráfico brasileiro Cícero Moraes, especialista em reconstituição facial forense com trabalhos realizados para universidades estrangeiras. Ele já fez reconstituição facial de 11 santos católicos - e criou uma imagem científica de Jesus Cristo a pedido da reportagem.

"O melhor caminho para imaginar a face de Jesus seria olhar para algum beduíno daquelas terras desérticas, andarilho nômade daquelas terras castigadas pelo sol inclemente", diz o teólogo Pedro Lima Vasconcellos, professor da Universidade Federal de Alagoas e autor do livro O Código da Vinci e o Cristianismo dos Primeiros Séculos.

Outra questão interessante é a cabeleira. Na Epístola aos Coríntios, Paulo escreve que "é uma desonra para o homem ter cabelo comprido". O que indica que o próprio Jesus não tivesse tido madeixas longas, como costuma ser retratado.

"Para o mundo romano, a aparência aceitável para um homem eram barbas feitas e cabelos curtos. Um filósofo da antiguidade provavelmente tinha cabelo curto e, talvez, deixasse a barba por fazer", afirma a historiadora Joan E. Taylor.

Chevitarese diz que as primeiras iconografias conhecidas de Jesus, que datam do século 3, traziam-no como um jovem imberbe e de cabelos curtos. "Era muito mais a representação de um jovem filósofo, um professor, do que um deus barbudo", pontua ele.

"No centro da iconografia paleocristã, Cristo aparece sob diversas angulações: com o rosto barbado, como um filósofo ou mestre; ou imberbe, com o rosto apolíneo; com o pálio ou a túnica; com o semblante do deus Sol ou de humilde pastor", contextualiza a pesquisadora Wilma Steagall De Tommaso, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e do Museu de Arte Sacra de São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião.

Imagens

Joan acredita que as imagens que se consolidaram ao longo dos séculos sempre procuraram retratar o Cristo, ou seja, a figura divina, de filho de Deus - e não o Jesus humano. "E esse é um assunto que sempre me fascinou. Eu queria ver Jesus claramente", diz.

A representação de Jesus barbudo e cabeludo surgiu na Idade Média, durante o auge do Império Bizantino. Como lembra o professor Chevitarese, eles começaram a retratar a figura de Cristo como um ser invencível, semelhante fisicamente aos reis e imperadores da época.

"Ao longo da história, as representações artísticas de Jesus e de sua face raras vezes se preocuparam em apresentar o ser humano concreto que habitou a Palestina no início da era cristã", diz o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

"Nas Igrejas Católicas do Oriente, o ícone de Cristo deve seguir uma série de regras para que a imagem transmita essa outra percepção da realidade de Cristo. Por exemplo, a testa é alta, com rugas que normalmente se agrupam entre os olhos, sugerindo a sabedoria e a capacidade de ver além do mundo material, nas cenas com várias pessoas ele é sempre representado maior, indicando sua ascendência sobre o ser humano normal, e na cruz é representado vivo e na glória, indicando, desde aí, a sua ressurreição."

Como a Igreja ocidental não criou tais normas, os artistas que representaram Cristo ao longo dos séculos criaram-no a seu modo. "Pode ser uma figura doce ou até fofa em muitas imagens barrocas ou um Cristo sofrido e martirizado como nas obras de Caravaggio ou Goya", pontua Ribeiro Neto.

"O problema da representação fiel ao personagem histórico é uma questão do nosso tempo, quando a reflexão crítica mostrou as formas de dominação cultural associadas às representações artísticas", prossegue o sociólogo.

"Nesse sentido, o problema não é termos um Cristo loiro de olhos azuis. É termos fiéis negros ou mulatos, com feições caboclas, imaginando que a divindade deve se apresentar com feições europeias porque essas representam aqueles que estão 'por cima' na escala social."

Essa distância entre o Jesus "europeu" e os novos fiéis de países distantes foi reduzida na busca por uma representação bem mais aproximada, um "Jesus étnico", segundo o historiador Chevitarese. "Retratos de Jesus em Macau, antiga colônia portuguesa na China, mostram-no de olhos puxados, com a forma de se vestir própria de um chinês. Na Etiópia, há registros de um Jesus com feições negras."

No Brasil, o Jesus "europeu" convive hoje com imagens de um Cristo mais próximo dos fiéis, como nas obras de Cláudio Pastro (1948-2016), considerado o artista sacro mais importante do país desde Aleijadinho. Responsável por painéis, vitrais e pinturas do interior do Santuário Nacional de Aparecida, Pastro sempre pintou Cristo com rostos populares brasileiros.

Para quem acredita nas mensagens de Jesus, entretanto, suas feições reais pouco importam. "Nunca me ocupei diretamente da aparência física de Jesus. Na verdade, a fisionomia física de Jesus não tem tanta importância quanto o ar que transfigurava de seu olhar e gestos, irradiando a misericórdia de Deus, face humana do Espírito que o habitava em plenitude. Fisionomia bem conhecida do coração dos que nele creem", diz o teólogo Francisco Catão, autor do livro Catecismo e Catequese, entre outros.

Fonte: https://g1.globo.com

O religioso deve cumprir prisão preventiva após investigações da Polícia Civil que apontam o envolvimento dele em oito crimes.

Investigado pela Polícia, José Amaro Lopes de Sousa - o Padre Amaro - já ingressou nesta terça-feira (27) no Centro de Recuperação Regional de Altamira (CRRALT), no sudoeste do Pará, onde deve cumprir prisão preventiva expedida pela Justiça. O presídio é o mesmo onde cumpre pena de 30 anos o mandante do assassinato de Dorothy Stang, o fazendeiro Regivaldo Pereira Galvão, conhecido como 'Taradão', preso em setembro de 2017 - 12 anos após o crime.

A Polícia está investigando o envolvimento do religioso, que é liderança da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Pará, nos crimes de associação criminosa, ameaça, esbulho possessório, extorsão, assédio sexual, importunação ofensiva ao pudor, constrangimento ilegal e lavagem de dinheiro.

José Amaro era considerado braço direito da missionária norte americana Stang, assassinada em 2005, e deu prosseguimento ao trabalho em favor dos camponeses depois da execução dela.

Em nota, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs disse que o padre vinha sendo ameaçado de morte por proprietários de terras e que o religioso pode estar correndo risco ao ser conduzido ao mesmo presídio que Regivaldo. A Polícia, no entanto, informou que o padre deve permanecer em cela individual.

Acusações

De acordo com a decisão do juiz da Comarca de Anapu, André Monteiro Gomes, "a medida se justifica para colheita de documentos, objetos e/ou quaisquer outros elementos de prova relacionados com os delitos em apuração".

O documento cita que a prisão foi determinada para que as autoridades policiais possam levantar termos de declarações, vídeos, conversas de whatsapp, relatório de missão e reportagens, dentre outros, a fim de constituir as provas necessárias.

A Polícia suspeita que o padre tenha recebido dinheiro de fazendeiro com a finalidade de proteger uma propriedade. As transferências, que somadas chegam a R$29 mil, foram realizadas, segundo a Polícia, na conta da irmã do padre.

Em depoimento na sede da Superintendência Regional da região do Xingu, o padre disse que não sabe explicar os valores em dinheiro que aparecem em depósitos bancários feitos.

Outra acusação envolve assédio sexual contra uma vítima que, segundo as investigações, apresentou um vídeo pornográfico que teria sido gravado no quarto do padre.

A CPT disse que só vai se pronunciar após ter acesso ao inquérito policial. A advogada disse que o padre negou as acusações em depoimento à polícia e que a defesa deve pedir a revogação da prisão. Fonte: https://g1.globo.com

O bispo da Prelazia do Xingu (PA), dom João Muniz Alves, divulgou uma nota nesta quarta-feira, 28, manifestando “fraterna solidariedade” ao padre José Amaro Lopes de Sousa, preso na manhã de ontem. O texto, que também é assinado pelo bispo emérito do Xingu, dom Erwin Kräutler, denuncia que o sacerdote, “incansável defensor dos direitos humanos, defensor da regularização fundiária, da reforma agrária e dos assentamentos de sem-terra”, há anos é alvo de ameaças e agora “vítima de difamação para deslegitimar todo o seu empenho em favor dos menos favorecidos”.

Leia o texto na íntegra:

“O servo não é maior do que o seu senhor. Se a mim perseguiram, também vos perseguirão.” Jo 15,20

A Semana Santa começou com grande sofrimento para a Prelazia do Xingu. Fomos surpreendidos na manhã do dia 27 de março com a notícia da prisão de nosso Padre José Amaro Lopes de Sousa, pároco da paróquia de Santa Luzia de Anapu.

Manifestamos nossa fraterna solidariedade a esse incansável defensor dos direitos humanos, defensor da regularização fundiária, da reforma agrária e dos assentamentos de sem-terra. Há anos alvo de ameaças, Padre Amaro agora é vítima de difamação para deslegitimar todo o seu empenho em favor dos menos favorecidos.

Repudiamos as acusações de ele promover invasões de terras que são reconhecidas pela Justiça como terras públicas, destinadas à reforma agrária, mas se concentram ainda nas mãos de pessoas economicamente poderosas.

Padre Amaro atua desde 1998 na Paróquia Santa Luzia. É líder comunitário e coordenador da Pastoral da Terra (CPT). O assassinato da Irmã Dorothy em 12 de fevereiro de 2005 no Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) “Esperança”, não mais o deixou quieto e o fez continuar a missão daquela Irmã mártir.

Acompanhamos apreensivos a investigação e elucidação dos fatos e insistimos que a verdade seja apurada com justiça e total transparência.

A Semana Santa nos recorda a Paixão e Morte do Senhor na cruz, muito mais ainda a Ressurreição de Jesus. Na Páscoa celebramos a vitória da Vida sobre a morte, mas também da Verdade sobre todas as mentiras.

Altamira, 28 de março de 2018

Dom João Muniz Alves, bispo do Xingu

Dom Erwin Kräutler, bispo emérito do Xingu.

Fonte: cnbb.net.br

Papa Francisco transfere bispo de Vitória (ES) para Bauru (SP)

A Nunciatura Apostólica no Brasil comunicou nesta quarta-feira, 28, a decisão do papa Francisco em acolher o pedido de renúncia apresentado por dom Caetano Ferrari, bispo de Bauru, no Estado de São Paulo, por motivo de idade. Com a decisão o atual bispo auxiliar de Vitória, no Espírito Santo, dom Rubens Sevilla assume a diocese. A notícia foi publicada no Jornal L’Osservatore Romano desta quarta-feira, às 12 horas de Roma.

Dom Rubens Sevilla 

Membro da Ordem dos Carmelitas Descalços (OCD), dom Rubens Sevilla é natural de Taraby (SP). Fez seus estudos eclesiásticos na Faculdade Nossa Senhora Medianeira dos Jesuítas em São Paulo, onde cursou Filosofia e em Roma estudou Teologia Internacional do Teresianum. Foi nomeado bispo auxiliar de Vitória em dezembro de 2011, pelo então papa Bento XVI. Seu lema episcopal é: “Pertransivit Benefaciendo”.

Dom Leonardo Steiner, secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), enviou saudação em nome da entidade ao novo bispo de Bauru.

Confira, abaixo, a saudação na íntegra:

 Brasília, 28 de março de 2018

Saudação da CNBB a dom Rubens Sevilha

Prezado Irmão, dom Rubens Sevilha

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil  (CNBB) tomou conhecimento, hoje, 28 de março, da decisão do Papa Francisco em acolher o pedido de renúncia apresentado pelo bispo da diocese de Bauru (SP), dom Caetano Ferrari, de acordo com o cânon 401§1º do Código de Direito Canônico, por motivo de idade e de nomear o senhor, como seu sucessor naquela diocese paulista.

Sabemos do seu trabalho realizado como auxiliar de dom Luiz Mancilha, arcebispo de Vitória (ES). Sabemos da sua formação e da sua espiritualidade. Tudo isso nos deixa esperançosos diante da nova missão que a Igreja lhe confia.

Acolhemos sua nomeação trazendo presente a palavra do Papa Francisco sobre a Igreja e o Espírito Santo dirigida ao pregador do retiro no qual participou durante a Quaresma: “Obrigado por nos ter recordado que a Igreja não é uma gaiola para o Espírito Santo, que o Espírito voa e age também fora. E com as citações e com aquilo que nos disse, o senhor mostrou-nos como Ele trabalha nos não-crentes, nos ‘pagãos’, nas pessoas de outras confissões religiosas: é universal, é o Espírito de Deus, que é para todos. Também hoje existem ‘Cornélios’, ‘centuriões’, ‘guardas da prisão de Pedro’ que vivem uma busca interior, ou que sabem distinguir quando há algo que chama. Obrigado por esta chamada a abrir-nos sem temores, sem rigidez, para sermos dóceis ao Espírito e para não nos mumificarmos nas nossas estruturas, que nos fecham”.

A CNBB agradece a fecunda vida e missão de dom Caetano Ferrari, e pede a Deus, por intercessão Maria, Mãe do Perpétuo Socorro, conceder aos senhores, a graça da saúde e da paz.

Em Cristo,

Dom Leonardo Ulrich Steiner

Bispo Auxiliar de Brasília

Secretário-Geral da CNBB

Fonte: cnbb.net.br

Crime aconteceu na pista sentido Centro do Rio

RIO - Um homem foi morto a tiros na Avenida Brasil na manhã desta quarta-feira, na pista lateral da via expressa, sentido Centro, na altura da Penha, na Zona Norte do Rio. Motoristas que passam pela via expressa devem redobrar a ateção. Devido ao crime, a pista está parcialmente interditada ao trânsito, que apresenta pontos de retenção.

Bombeiros já foram acionados, mas o homem não resistiu. Ainda não há informações sobre a identificação da vítima. Fonte: https://oglobo.globo.com

O arcebispo de Porto Alegre (RS) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada da CNBB, dom Jaime Spengler, um dos responsáveis pela elaboração do texto do tema central da 56ª Assembleia Geral dos bispos do Brasil que se realiza em Aparecida (SP), de 11 a 20 de abril falou ao portal da CNBB sobre o sentido das celebrações da quinta-feira Santa: a Missa Crismal e a missa do Lava pés. Nesta celebração, que marca o início do Tríduo Pascal, se consagram os Santos Óleos do Crisma, dos Catecúmenos e dos Enfermos. “Pode-se dizer que na Quinta-feira Santa sela-se o Testamento da Nova Aliança, em torno dos sacramentos, especialmente da Eucaristia, e do novo mandamento, significado pelo lava-pés”. 

A ocasião, reforça o pastor, também é oportuna para rezar pelas vocações tendo em vista que muitas comunidades não contam com a presença de um sacerdote nem mesmo no período da Semana Santa. “Todas as comunidades são convocadas a rezar pelas vocações. Contudo é também importante que, neste caso, os próprios ministros ordenados tenham coragem suficiente para dizer aos adolescentes e jovens de nosso tempo que o ministério ordenado vale a pena; que vale a pena ser presbítero. Que gostamos do que somos e amamos o que fazemos”.

O arcebispo lembra que povo brasileiro vive momentos difíceis em função do descrédito em relação às instituições, à corrupção, ao desemprego e às drogas o que, segundo ele, abre brechas para o risco de se cair em radicalismos tanto de direita como de esquerda. Para ele, o Evangelho de Jesus Cristo apresenta um caminho para superação de todas as expressões de morte. “A Páscoa é a celebração dos prodígios de Deus ao longo da história da salvação: a libertação do povo da escravidão do Egito e a vitória de Cristo sobre a morte”, disse. Confira abaixo, a íntegra da entrevista.

A celebração da quinta-feira santa tem a ver com a missão dos ministros ordenados na Igreja? Qual?

Aqui tratamos da Missa Crismal que o Bispo concelebra com o seu presbitério (presbíteros diocesanos e presbíteros religiosos que atuam no território da Diocese) e durante a qual se consagram os Santos Óleos do Crisma, dos Catecúmenos e dos Enfermos. Esta concelebração é manifestação da comunhão dos presbíteros com o seu Bispo.

Nesta solene concelebração, os presbíteros, na confecção do óleo do Crisma são testemunhas e cooperadores do seu Bispo, de cujo múnus sagrado são participantes, edificando, santificando e conduzindo o povo de Deus. É conveniente que todos os presbíteros atuantes no território da Diocese estejam presentes na concelebração da Missa Crismal, exprimindo-se assim a unidade do presbitério.  Em muitas comunidades do Brasil, católicos ficam impossibilitados de ter a presença de um sacerdote na semana santa.

O senhor considera ser hora importante para a oração pelas vocações?

É fato que em muitas comunidades do imenso território brasileiro é impossível a presença do presbítero não só nestes dias da Semana Santa. Tal situação representa um forte apelo à reflexão e ao estudo, no sentido de encontrar meios para superar essa deficiência. Em tempos idos, os bispos da América Latina, reunidos em Puebla, afirmaram que “a Eucaristia orienta-nos de modo imediato para a hierarquia sem a qual ela é impossível; porque foi aos apóstolos que o Senhor deu o mandato de celebrá-la ‘em minha memória’ (Lc 22,19).

Os pastores da Igreja, sucessores dos apóstolos, constituem por isso mesmo o centro visível onde se constrói, aqui na terra a unidade da Igreja” (n. 247). Quase 30 anos depois, reunidos em Aparecida dão continuidade à reflexão dizendo que “os fiéis devem desejar a participação plena na Eucaristia dominical, pela qual também os motivamos a orar pelas vocações” (n. 253). É certamente sempre tempo de rezar pelas vocações! A oração pelas vocações é resposta à exortação do próprio Jesus: “Pedi ao Senhor da messe que envie operários” (Mt 9,38).

Há na Igreja um serviço de animação vocacional. Faz parte da pastoral orgânica da Igreja o trabalho em prol das vocações. Para este trabalho é necessário planejamento, estratégias, organização. No entanto, não se pode jamais esquecer que fundamental é seguir aquilo que Jesus ensina. Vocações é sobretudo questão de oração. Pode-se aqui lançar uma provocação: será que acreditamos na força da oração? Cremos verdadeiramente que o Senhor mesmo inspira e chama para o trabalho na sua messe?

Todas as comunidades são convocadas a rezar pelas vocações. Contudo é também importante que, neste caso, os próprios ministros ordenados tenham coragem suficiente para dizer aos adolescentes e jovens de nosso tempo que o ministério ordenado vale a pena; que vale a pena ser presbítero. Em poucas palavras: dizer aos nossos adolescentes e jovens que gostamos do que somos e amamos o que fazemos.

Qual a mensagem de Páscoa o senhor envia ao povo brasileiro?

A solenidade da Páscoa é expressão maior do amor de Deus pela humanidade. Deus não poupou o seu próprio Filho (Rm 8,32); Ele “amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

O nosso povo vive momentos difíceis! Há um certo descrédito em relação às instituições; a corrupção é uma realidade em distintos níveis da sociedade; a violência atinge números alarmantes, vitimando, sobretudo, os menos favorecidos; o desemprego se alastra como praga, roubando o sonho de muitos; a drogadição espalha a morte por toda parte. Faz falta um projeto de nação! Com isso se corre o risco de cair em radicalismos tanto de direita como de esquerda. É urgente a necessidade de espaços para uma autocritica, que envolva distintos setores da sociedade.

O Evangelho de Jesus Cristo apresenta um caminho para superação de todas as expressões de morte. Somente o amor é mais forte que a morte (Ct 8,6) . A Igreja, através de sua Doutrina Social, deseja cooperar ativamente para que se possa construir uma ‘terra sem males’.

A Páscoa é celebração dos prodígios de Deus ao longo da história da salvação: a libertação do povo da escravidão do Egito e a vitória de Cristo sobre a morte. Possa a celebração da Páscoa reacender em nosso povo a esperança. A esperança num Deus que nos ama e que deseja que todos tenham vida e vida em abundância. Fonte: cnbb.net.br