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A missão, o ensinamento e o legado da Irmã Maria del Monte Carmelo da Santíssima Trindade OCD são: adorar a Sagrada Face de Cristo e reparar os ultrajes cometidos contra ela, fortalecer no coração dos fiéis o sensus Ecclesiae e a imolação constante pelo Pontífice reinante, mediante a oração quotidiana da Via Crucis e de uma vida de entrega total a Deus, na simplicidade, humildade e caridade, para atingir o seu ápice na união dos fiéis, como ela amava dizer: Congregavit nos in unum Christi amor!
Cidade do Vaticano
Ao receber em audiência em 23 de janeiro de 2020 o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, cardeal Angelo Becciu, o Santo Padre reconheceu o martírio e as virtudes heroicas da Serva de Deus brasileira Maria del Monte Carmelo da Santíssima Trindade (também conhecida como Carmen Caterina Bueno), religiosa professa da Ordem dos Carmelitas Descalças, nascida em Itú em 25 de novembro de 1898 – e criada pela avó em Campinas - falecida em 13 de julho de 1966 em Taubaté.
Biografia da Serva de Deus Madre Maria do Carmo da Santíssima Trindade, O.C.D.
A Serva de Deus Madre Maria do Carmo da Santíssima Trindade nasceu em Itu (SP), em 25 de novembro de 1898, Festa de Santa Catarina de Alexandria, sendo batizada com o nome de Carmem Catarina Bueno.
Filha de Teotônio Bueno e Maria do Carmo Bauer Bueno (que devido a pouca idade ao dar à luz a Carmem, 15 anos, ficou com a saúde abalada), foi criada pela avó paterna, Dona Maria Justina Camargo Bueno (conhecida como “Nhá Cota”), em Campinas, onde teve por amigo de infância o futuro bispo de Taubaté (SP), Dom Francisco Borja do Amaral.
Em 1916 moraram por algum tempo na Ilha de Paquetá, na Baía de Guanabara no Rio de Janeiro, transferindo-se no ano seguinte se para São Paulo, onde a Serva de Deus passou a estudar no Colégio Nossa Senhora de Sion.
Em 23 de setembro de 1917, ao se tornar Filha de Maria, sentiu o chamado do Senhor para consagrar-se inteiramente a Ele, dando então o seu “Sim”.
Tendo um grande amor por Jesus e pela Igreja desde a juventude, sua piedade se tornava cada vez mais profunda. O seu grande amor era a Cruz de Cristo, o seu lema era ser humilhada como ele.
Dedicava muito tempo à formação intelectual. Falava e escrevia em francês, escreveu pequenas obras literárias e aprendeu a arte da pintura.
Depois de ter lido o livro “História de uma Alma”, de Santa Teresinha de Lisieux, decidiu ser carmelita, escolhendo como diretor espiritual Dom Francisco de Campos Barreto, que a direcionou a viver cada vez mais uma vida de amor a Deus e cheia de virtudes.
Em 21 de abril de 1926, aos 27 anos, ingressou no Carmelo São José, no Rio de Janeiro e em 24 de outubro de 1926 recebeu o Santo Hábito e o nome religioso de Irmã Maria do Carmo da Santíssima Trindade.
Para buscar viver perfeitamente a humildade como meio de santificação, seguindo a orientação do seu diretor espiritual, fez o voto de mansidão.
Depois dos primeiros anos no mosteiro passou a exercer o Ofício de mestra de noviças, sub-priora e por fim priora. Como religiosa sempre demonstrou uma delicadeza e humildade especiais. Era a primeira a fazer os trabalhos mais humildes e a dar o exemplo de paciência e caridade para todas as monjas.
Em 1949 voltou a ser mestra de noviças, época em que começaram seus graves problemas de saúde.
Em 1952 voltou a dirigir o Carmelo, quando nasceu a ideia de fundar um novo mosteiro, o Carmelo da Santa Face e Pio XII, que foi erigido na Diocese de Taubaté, cujo Bispo era Dom Francisco Borja do Amaral.
Com sua permissão, em 24 de agosto de 1953 partiram entre lágrimas as seis primeiras irmãs, dirigidas por Madre Carminha e a cofundadora, Madre Antonieta Maria. A Serva de Deus era considerada por todos uma santa e muitas pessoas pediam para serem acompanhadas espiritualmente por ela.
Em 12 de setembro de 1961 Madre Maria do Carmo passou o governo da casa à Madre Antonieta Maria, ficando com a direção das obras e a formação do noviciado.
Seus problemas de saúde começavam a se agravar. Em 7 de julho de 1966 sofreu um derrame cerebral e entrou em coma profundo. Após uma semana de sofrimento, em 13 de julho, entregou santamente sua alma a Deus.
Já em vida a Serva de Deus gozava de uma grande fama de santidade, o que se tornou ainda maior após sua morte.
Muitíssimos fiéis visitavam continuamente o seu túmulo, pedindo sua intercessão junto a Deus. Em vista da supressão do Carmelo de Tremembé e de sua transferência para Mairinque, São Paulo, no sexto aniversário da morte da Serva de Deus, foi feita a exumação dos seus restos mortais e nessa ocasião o seu corpo foi encontrado intacto, inclusive suas vestes e as flores secas e, nem mesmo mau odor exalou de sua sepultura.
Sua missão, seu ensinamento e seu legado são: adorar a Sagrada Face de Cristo e reparar os ultrajes cometidos contra ela. Também fortalecer no coração dos fiéis o sensus Ecclesiae e a imolação constante pelo Pontífice reinante, mediante a oração quotidiana da Via Crucis e de uma vida de entrega total a Deus, na simplicidade, humildade e caridade, para atingir o seu ápice na união dos fiéis, como ela amava dizer: Congregavit nos in unum Christi amor!
Biografia extraída de postulazionecausasanti.it
Fonte: https://www.vaticannews.va
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1) Oração
Deus eterno e todo-poderoso, que governais o céu e a terra, escutai com bondade as preces do vosso povo e dai ao nosso tempo a vossa paz. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
2) Leitura do Evangelho (Marcos 3,13-19)
Naquele tempo, 13Jesus subiu ao monte e chamou os que ele quis. E foram até ele. 14Então Jesus designou Doze, para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar, 15com autoridade para expulsar os demônios. 16Designou, pois, os Doze: Simão, a quem deu o nome de Pedro; 17Tiago e João, filhos de Zebedeu, aos quais deu o nome de Boanerges, que quer dizer "Filhos do trovão"; 18André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o cananeu, 19e Judas Iscariotes, aquele que depois o traiu. Palavra da Salvação.
3) Reflexão (Marcos 3,13-19)
O evangelho de hoje descreve a escolha e a missão dos doze apóstolos. Jesus começou com dois discípulos e em seguida mais dois (Mc 1,16-20). Aos poucos, o número foi crescendo. Lucas informa que ele chamou mais 72 discípulos para ir com ele na missão (Lc 10,1).
Marcos 3,13-15: O chamado para uma dupla missão
Jesus chama os que ele quer e eles foram até ele. Em seguida, “Jesus constituiu o grupo dos Doze, para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar os demônios”. Jesus os chama para uma dupla finalidade, para uma dupla missão: 1) Estar com ele, isto é, formar comunidade na qual ele, Jesus, é o eixo. 2) Pregar e ter poder para expulsar os demônios, isto é, anunciar a Boa Nova e combater o poder do mal que estraga a vida do povo e aliena as pessoas. Marcos diz que Jesus subiu a uma montanha e, estando lá, chamou os discípulos. A chamada é uma subida! Na Bíblia, subir a montanha evoca a montanha onde Moisés subiu e teve um encontro com Deus (Ex 24,12). Lucas diz que Jesus tinha subido a montanha, rezou a noite toda e, no dia seguinte, chamou os discípulos. Rezou a Deus para saber a quem escolher (Lc 6,12-13). Depois de haver chamado, Jesus oficializa a escolha feita e cria um núcleo mais estável de doze pessoas para dar maior consistência à missão. É também para significar a continuidade do projeto de Deus. Os doze apóstolos do NT são os sucessores das doze tribos de Israel.
Nasce assim a primeira comunidade do Novo Testamento, comunidade modelo, que vai crescendo ao redor de Jesus ao longo dos três anos da sua atividade pública. No início, são apenas quatro (Mc 1,16-20), Aos poucos, a comunidade cresce de acordo com o aumento da missão nas aldeias e povoados da Galileia. Chegou ao ponto de eles não terem nem tempo para comer e descansar (Mc 3,2). Por isso, Jesus se preocupava em proporcionar um descanso para os discípulos (Mc 6,31) e em aumentar o número dos missionários e missionárias (Lc 10,1). Deste modo Jesus procura manter o duplo objetivo do chamado: estar com ele e ir em missão. A comunidade que assim se forma ao redor de Jesus tem três características básicas que pertencem à sua natureza: ela é formadora, missionária e inserida no meio dos pobres da Galileia.
Marcos 3,16-19: A lista dos nomes dos doze apóstolos.
Em seguida, Marcos traz os nomes dos doze: Simão, a quem deu o nome de Pedro; Tiago e João, filhos de Zebedeu, aos quais deu o nome de Boanerges, que quer dizer "filhos do trovão"; André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão o cananeu, Judas Iscariotes, aquele que depois o traiu. Grande parte destes nomes vem do Antigo Testamento. Por exemplo, Simeão é o nome de um dos filhos do patriarca Jacó (Gn 29,33). Tiago é o mesmo que Jacó (Gn 25,26). Judas é o nome de outro filho de Jacó (Gn 35,23). Mateus também tinha o nome de Levi (Mc 2,14), que é outro filho de Jacó (Gn 35,23). Dos doze apóstolos sete têm nome que vem do tempo dos patriarcas. Dois se chamam Simão; dois, Tiago; dois, Judas; um, Levi! Só tem um com nome grego: Filipe. Seria como hoje numa família todos os filhos terem nomes do tempo dos índios Raoni, Ubiratan, Jussara, etc, e um só ter um nome americano Washington. Isto revela o desejo do povo de refazer a história desde o começo! Vale a pena pensar nos nomes que hoje damos para os filhos. Como eles, cada um de nós é chamado por Deus pelo nome.
4) Para um confronto pessoal
1) Estar com Jesus e ir em missão é a dupla finalidade da comunidade cristã. Como você assume este seu compromisso na comunidade a que pertence?
2) Jesus chamou os discípulos pelo nome. Você, eu, todos nós existimos, porque Deus me chama pelo nome. Pensa nisso!
5) Oração final
Mostra-nos, SENHOR, a tua misericórdia e dá-nos a tua salvação. Ouvirei o que diz o SENHOR Deus: ele anuncia paz para seu povo, para seus fiéis, para quem volta para ele de todo coração. (Sal 84, 8-9)
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Se a publicação, em 15 de janeiro, de um livro como Des profondeurs de nos coeurs (Do fundo dos nossos corações, em tradução livre, Fayard) provocou tanta comoção no mundo católico, analisa o ensaísta François Huguenin, é também porque a situação única de coexistência entre um papa e um papa emérito mantém um apego real de parte dos fiéis a Bento. XVI. A reportagem é de François Huguenin, publicada por La Vie, 15-01-2020. A tradução é de André Langer.
No dia 28 de fevereiro de 2013, quase sete anos atrás, os telefones celulares vibraram em reuniões para anunciar uma notícia quase inacreditável, mas que, como foi anunciada em latim pelo papa, muitos jornalistas no Vaticano e membros da cúria tinham que ter certeza para garantir que tinham compreendido corretamente: Bento XVI anunciava que renunciaria ao seu cargo e se retiraria. O sucessor de João Paulo II, prefeito de longa data da Congregação para a Doutrina da Fé, não teve o carisma de seu antecessor. E, no entanto, esse gesto – que alguns qualificaram como profético – atraiu-lhe uma simpatia renovada, apesar do obscurecimento do fim de seu pontificado, marcado por alguns assuntos retumbantes: Williamson, Recife, abusos sexuais, “Vatileaks”...
Passado o estado de espanto e os instantes de júbilo que acompanharam a eleição de um papa vindo do Novo Mundo, muito menos familiar aos católicos da França do que a figura de Joseph Ratzinger na morte de João Paulo II, alguma coisa se estabeleceu gradualmente em uma parte dos católicos franceses, algo que se assemelha à nostalgia pela ausência de Bento XVI. Ausência que provoca uma forma de melancolia, por duas razões, cuja combinação é tão rara quanto emocionalmente forte.
Primeira razão: apesar do que os analistas especularam em 2005, Bento XVI rapidamente assumiu o hábito pontifício depois de João Paulo II, sem sofrer com a garbosidade e o carisma de seu antecessor. Ficou claro que ele estava menos à vontade com as reuniões de multidão e sofria em público. Mas ele rapidamente tomou as rédeas de seu cargo, instalando silenciosamente um novo estilo de pontificado: o de um papa intelectual, mas também profundamente espiritual e pudicamente sensível. É ainda mais importante notar que os papas intelectuais não são uma legião na história e que, desde Leão Magno, e Gregório, o Grande, os católicos referidos aos prazeres da inteligência não tinham estado nessa festa.
Nesse sentido, seu pontificado deixou, de fato, uma marca única, difícil de substituir, principalmente porque – e esta é a segunda razão do impacto dessa ausência – Bento XVI está de fato vivo e morando a dois passos do seu sucessor. Simplificando: não é a morte de um papa que os católicos tiveram que enfrentar, morte sempre sublimada pela eleição de um novo bispo de Roma, mas um luto branco, com o sentimento mais ou menos consciente e expresso de terem sido abandonados. Provavelmente, esse sentimento é reforçado pela vontade expressa de alguns – do outro lado do tabuleiro de xadrez – de fazer tabula rasa dessa herança com o advento de Francisco. Órfãos, portanto, mas de um pai ainda vivo, que se retirou para perto de Francisco, ainda vestido de branco, chamado papa emérito e não simplesmente “bispo emérito de Roma”, como teria sido mais sábio fazer.
Nessas circunstâncias, para grande parte dos fiéis apegados a Bento XVI, a fortiori aqueles que se sentem menos confortáveis com o estilo de Francisco, o pesar é muito mais doloroso, porque o luto não podia ser feito. De fato, atualmente, um certo número de católicos sente falta de Bento XVI, em toda a boa fé. Mas do que exatamente?
A primeira coisa é, evidentemente, a imensa aura intelectual de Bento XVI. Um papa que dialoga com um dos grandes intelectuais da época, como o filósofo Jürgen Habermas, é algo inédito. Um papa que, quando toma a palavra – lembremo-nos dos discursos no Collège des Bernardins ou no Westminster Hall –, faz uma reflexão que abre perspectivas brilhantes, se são sempre inovadoras nos conteúdos, pelo menos com uma profundidade singular e uma clareza sem precedentes. Um papa cujas três encíclicas foram sucessos inesperados de livraria, porque queríamos ouvir e ler Bento XVI.
Tudo o que Bento XVI trouxe nutriu o povo de Deus, mas também tranquilizou aqueles que temiam que a Igreja Católica ficasse sem argumentos diante dos desafios antropológicos de nossa sociedade e satisfizesse a necessidade de reconhecimento daqueles que sofrem às vezes com as homilias muito pobres ouvidas em sua paróquia. Sem negar que houvesse oposições, muitos católicos estavam orgulhosos desse papa respeitado por todos, e a comunicação mais confusa e menos límpida de Francisco deixou algumas dúvidas.
A segunda perda é que esse papa alemão foi o produto puro da grande tradição teológica, filosófica, histórica e artística europeia. Certamente, para o católico francês, esse homem que também falava perfeitamente o seu idioma, era um marco, um ponto de partida de toda uma história intelectual e cultural. Foi ele quem lembrou por sua simples presença, um discurso menor, que viemos de uma herança deslumbrante e imemorial, cujos códigos e matizes ele tratava com naturalidade prodigiosa. Na verdade, esse papa era a ponte entre toda a herança do cristianismo ocidental e os desafios contemporâneos incertos. Trouxe a solidez de uma tradição, a base de um pensamento ao mesmo tempo global e erudito, de modo a tranquilizar os fiéis preocupados em ver essa herança se desfazer.
A terceira falta é o tom equilibrado e matizado de um discurso cuja forma suave poderia deter a sangria de setores mais intelectualizados. Dessa maneira, encontrou um certo conservadorismo, que, além disso, deveria ser matizado, representativo da sociologia burguesa de uma parte importante do catolicismo francês. Aquele que acolheu Bento XVI na Esplanada dos Inválidos (Paris) em 2008. A assembleia, que acorreu em grande quantidade, era predominantemente composta por famílias bastante tradicionais.
Esse público, que vibrara com João Paulo II, que restabelecera seu entusiasmo, estava apegado à figura tranquila e ao pensamento firme do papa alemão. Estávamos em terreno familiar, em uma continuidade tranquilizadora e, diante das crises que abalaram o final do pontificado, para muitos católicos franceses, a época de Bento XVI, pelo menos no início, era bastante feliz. Com o estilo de Francisco, mais áspero, mais mordaz, menos polido e mais provocador, uma forma de segurança, desse ponto de vista, desapareceu.
O último aspecto, mais marginal, porque afeta principalmente, mas não exclusivamente, o meio tradicionalista, é a liturgia. Com seu motu proprio sobre a liturgia, em 2007, tornando a antiga missa a forma extraordinária de um único rito romano, Bento XVI, desejando reconciliar as várias sensibilidades da Igreja em conflito desde a crise lefebvrista, conseguiu reunir as famílias divididas sobre o assunto, facilitar a união entre os jovens, mais frequentemente do que os idosos que desejam sair dos guetos e dos anátemas.
Esse reconhecimento da tradição litúrgica (sem questionar o progresso da reforma) acompanhou uma interpretação do Concílio segundo uma hermenêutica da reforma na continuidade. Tudo isso serviu perfeitamente a um público ligado ao Concílio, mas ansioso pela bela liturgia e o apaziguamento após as brigas dos anos 1970-80. Francisco não tem o mesmo interesse pela liturgia. Ele conhece mal o caso tradicionalista, que diz respeito principalmente à França. Aí também, alguns podem ter se sentido abandonados, especialmente porque puderam acreditar – erroneamente – que Bento XVI estava do seu lado, o que é entender mal sua própria história, seu papel no Concílio e sua teologia.
Esses órfãos de Bento XVI tiveram duas reações. Alguns aderiram ao novo estilo de Francisco, fizeram sua conversão ecológica e acolheram sem medo a Amoris Lætitia, sem esquecer a importância singular que Bento XVI representava para eles em sua inteligência da fé. Outros, nos círculos mais extremistas, que fabricaram para si um Bento XVI à sua imagem, rapidamente recusaram Francisco, não litúrgico o suficiente, ousado demais, para não dizer um pouco “esquerdista” aos seus olhos.
Em alguns dos casos mais extremos, eles até inventaram um pupilo na pessoa do cardeal Robert Sarah, sem dúvida parcialmente enganado por um certo número de manipulações franco-francesas. E para eles, isso representava uma volta à estaca zero da desconfiança, como na época de Paulo VI... O risco é que, com imbróglios como esse do lançamento e do estatuto do livro Do fundo de nossos corações, os primeiros se encontrem embarcados um pouco sem o seu conhecimento na “cruzada” dos últimos.
Aqueles que opõem o papa e o atual bispo emérito de Roma absolutizam uma diferença bastante radical de temperamento e de matizes sem dúvida significativa sobre certos assuntos, esquecendo que em pontos importantes como a justiça social, a ecologia, a acolhida dos migrantes ou uma espiritualidade muito interior, Bento XVI foi um precursor de Francisco. Sem dúvida, alguns se encontram, especialmente nas redes sociais (onde o pior está saindo sem limites), nesta forma estéril de oposição e divisão. Outros, ao contrário, pensam que alguém pode ser nostálgico por Bento amando Francisco. Eles não falam tão alto, fazem menos barulho, mas dizem algo essencial sobre a vida na Igreja, que se chama fidelidade. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
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Rob Mutsaerts afirmou que o Sínodo foi uma “fachada” para tratar do tema dos viri probati e das mulheres diáconas.
“A caixa de Pandora está aberta e terá implicações para toda a Igreja, começando pelos bispos alemães”, afirmou o bispo-auxiliar da diocese de s’Hertogenbosch.
A reportagem é publicada por Vida Nueva, 17-01-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.
“Esperamos que o papa Francisco destrua o documento final do sínodo na Amazônia, porém há poucas probabilidades de que faça”. Assim afirmou Rob Mutsaerts, bispo auxiliar de s’Herogenbosch, Países Baixos, em uma entrevista a Il Giornale na qual criticou fortemente o Sínodo da Amazônia. Considera que esse não foi mais que uma “enganação aos fiéis” e que “representou uma piada com a fé”.
Precisamente suas palavras coincidem com o debate que se gerou nos últimos dias pela intervenção do papa emérito Bento XVI em um livro assinado pelo cardeal Robert Sarah sobre a necessidade de manter o celibato sacerdotal. O bispo holandês teme, do seu lado, que Francisco aceite as propostas dos padres sinodais sobre considerar, para a região amazônica, a ordenação sacerdotal de diáconos permanentes.
No entanto, Mutsaerts considera que isso não é necessário, já que, “80% da população amazônica vive em grandes cidades”. Por isso, “o problema da falta de padres não é diferente ao de muitas outras áreas do mundo”. Na verdade, para o bispo holandês, o problema reside em “uma falta de fé” que não se resolve aceitando padres casados.
Chegará à toda Igreja
Porém, ademais, o prelado crê que o Sínodo, celebrado em outubro de 2019, foi uma “fachada” para tratar esses temas. “As palavras-chave do documento final do Sínodo não foram Mãe-Terra e ecossistema, mas sim viri probati, diáconas e rito amazônico”, destaca, apontando o cardeal Cláudio Hummes como precursor para que documento tomasse essa direção.
“É claro, agora os resultados não se limitarão à região amazônica”, diz o bispo. “A caixa de Pandora está aberta e haverá implicações para toda a Igreja”, acrescenta, advertindo que “os bispos alemães” serão os primeiros que solicitarão a adoção dessa opção no seu país. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
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Por Ancelmo Gois
O Jesus da Mangueira
A Arquidiocese do Rio, por meio de sua diretora jurídica, Claudine Milione Dutra, tem conversado com a Liga das Escolas de Samba e com a própria Mangueira sobre esse polêmico enredo “A verdade vos fará livre”, uma espécie de releitura da biografia de Jesus, que, no desfile, assumirá várias faces. A conversa tem sido, até agora, positiva e respeitosa de ambos os lados. O cardeal Dom Orani Tempesta foi o primeiro chefe da Igreja no Rio a visitar vários barracões de escolas de samba.
Cala boca já morreu
A última vez em que a Arquidiocese tentou censurar uma escola foi um tiro no pé.
O cardeal Dom Eugenio Salles (1920-2012) conseguiu uma ordem judicial proibindo a Beija-Flor de mostrar o abre-alas do desfile “Ratos e Urubus”, em 1989, que traria uma reprodução do Cristo Redentor vestido como um mendigo. Joãosinho Trinta cobriu a alegoria com um plástico preto e acrescentou uma faixa com “Mesmo proibido, olhai por nós”. Foi um sucesso. Fonte: https://blogs.oglobo.globo.com
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1) Oração
Deus eterno e todo-poderoso, que governais o céu e a terra, escutai com bondade as preces do vosso povo e dai ao nosso tempo a vossa paz. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
2) Leitura do Evangelho (Marcos 3,7-12)
Naquele tempo, 7Jesus se retirou para a beira do mar, junto com seus discípulos. Muita gente da Galileia o seguia. 8E também muita gente da Judeia, de Jerusalém, da Iduméia, do outro lado do Jordão, dos territórios de Tiro e Sidônia, foi até Jesus, porque tinham ouvido falar de tudo o que ele fazia. 9Então Jesus pediu aos discípulos que lhe providenciassem uma barca, por causa da multidão, para que não o comprimisse.
10Com efeito, Jesus tinha curado muitas pessoas, e todos os que sofriam de algum mal jogavam-se sobre ele para tocá-lo. 11Vendo Jesus, os espíritos maus caíam a seus pés, gritando: "Tu és o Filho de Deus!" 12Mas Jesus ordenava severamente para não dizerem quem ele era.
- Palavra da Salvação.
3) Reflexão
A conclusão a que se chega, no fim destes cinco conflitos (Mc 2,1 a 3,6), é que a Boa Nova de Deus tal como era anunciada por Jesus dizia exatamente o contrário do ensinamento das autoridades religiosas da época. Por isso, no fim do último conflito, se prevê que Jesus não vai ter vida fácil e será combatido. A morte aparece no horizonte. Decidiram matá-lo (Mc 3,6). Sem uma conversão sincera não é possível as pessoas chegarem a uma compreensão correta da Boa Nova.
Um resumo da ação evangelizadora de Jesus. Os versículos do evangelho de hoje (Mc 3,7-12) são um resumo da atividade de Jesus e acentuam um enorme contraste. Um pouco antes, em Mc 2,1 a 3,6, só se falou em conflitos, inclusive em conflito de vida e morte entre Jesus e as autoridades civis e religiosas da Galileia (Mc 3,1-6). E aqui no resumo, aparece o contrário: um movimento popular imenso, maior que o movimento de João Batista, pois veio gente não só da Galileia, mas também da Judeia, de Jerusalém, da Idumeia, da Transjordânia e até da região pagã de Tiro e Sidônia para encontrar-se com Jesus! (Mc 3,7-12). Todos querem vê-lo e tocar nele. É tanta gente, que o próprio Jesus fica preocupado. Ele corre o perigo de ser esmagado pelo povo. Por isso, pediu aos discípulos para manter um barco à disposição a fim de que o povo não o apertasse. E do barco falava à multidão. Eram sobretudo os excluídos e os marginalizados que vinham a ele com seus males: os doentes e os possessos. Estes, que não eram acolhidos na convivência social da sociedade da época, são acolhidos por Jesus. Eis o contraste: de um lado, a liderança religiosa e civil que decide matar Jesus (Mc 3,6); do outro lado, um movimento popular imenso que busca a salvação em Jesus. Quem vai ganhar?
Os espíritos impuros e Jesus. A insistência de Marcos na expulsão dos demônios é muito grande. O primeiro milagre de Jesus é a expulsão de um demônio (Mc 1,25). O primeiro impacto que Jesus causa no povo é por causa da expulsão dos demônios (Mc 1,27). Uma das principais causas da briga de Jesus com os escribas é a expulsão dos demônios (Mc 3,22). O primeiro poder que os apóstolos vão receber quando são enviados em missão é o poder de expulsar os demônios (Mc 6,7). O primeiro sinal que acompanha o anúncio da ressurreição é a expulsão dos demônios (Mc 16,17). O que significa expulsar os demônios no evangelho de Marcos?
No tempo de Marcos, o medo dos demônios estava aumentando. Algumas religiões, em vez de libertar o povo, alimentavam nele o medo e a angústia. Um dos objetivos da Boa Nova de Jesus era ajudar o povo a se libertar deste medo. A chegada do Reino de Deus significou a chegada de um poder mais forte. Jesus é “o homem mais forte” que chegou para amarrar o Satanás, o poder do mal, e roubar dele a humanidade prisioneira do medo (Mc 3,27). Por isso, Marcos insiste tanto, na vitória de Jesus sobre o poder do mal, sobre o demônio, sobre o Satanás, sobre o pecado e sobre a morte. Do começo ao fim, com palavras quase iguais, ele repete a mesma mensagem: “E Jesus expulsava os demônios!” (Mc 1,26.27.34.39; 3,11-12.15.22.30; 5,1-20; 6,7.13; 7,25-29; 9,25-27.38; 16,9.17). Parece até um refrão! Hoje, em vez de usar sempre as mesmas palavras preferimos usar palavras diferentes. Diríamos: “O poder do mal, o Satanás, que mete tanto medo no povo, Jesus o venceu, dominou, amarrou, destronou, derrotou, expulsou, eliminou, exterminou, aniquilou, abateu, destruiu e matou!” O que Marcos nos quer dizer é isto: “Ao cristão é proibido ter medo de Satanás!” Depois que Jesus ressuscitou, já é mania e falta de fé apelar, a toda hora, para Satanás, como se ele ainda tivesse algum poder sobre nós. Insistir no perigo dos demônios para chamar o povo de volta para as igrejas é desconhecer a Boa Nova do Reino. É falta de fé na ressurreição de Jesus!
4) Para um confronto pessoal
1) Como você vive a sua fé na ressurreição de Jesus? Contribui para vencer o medo?
2) Expulsão dos demônios. Como você faz para neutralizar esse poder em sua vida?
5) Oração final
Exultem e se alegrem em ti todos os que te buscam; digam sempre: “O SENHOR é grande” os que desejam a tua salvação. (Sal 39, 17)
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Parar na vida... Apontamentos espirituais do Frei Petrônio de Miranda, O. Carm. Quarta-feira, 22 de janeiro-2020. Convento do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro. www.instagram.com/freipetronio
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1) Oração
Deus eterno e todo-poderoso, que governais o céu e a terra, escutai com bondade as preces do vosso povo e dai ao nosso tempo a vossa paz. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
2) Leitura do Evangelho (Marcos 3,1-6)
Naquele tempo, 1Jesus entrou de novo na sinagoga. Havia ali um homem com a mão seca. 2Alguns o observavam para ver se haveria de curar em dia de sábado, para poderem acusá-lo. 3Jesus disse ao homem da mão seca: "Levanta-te e fica aqui no meio!" 4E perguntou-lhes: "E permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?" Mas eles nada disseram. 5Jesus, então, olhou ao seu redor, cheio de ira e tristeza, porque eram duros de coração; e disse ao homem: "Estende a mão". Ele a estendeu e a mão ficou curada.
6Ao saírem, os fariseus com os partidários de Herodes, imediatamente tramaram, contra Jesus, a maneira como haveriam de matá-lo.
- Palavra da Salvação.
3) Reflexão
No evangelho de hoje vamos meditar o último dos cinco conflitos que Marcos colecionou no início do seu evangelho (Mc 2,1 a 3,6). Os quatro conflitos anteriores foram provocados pelos adversários de Jesus. Este último é provocado pelo próprio Jesus e revela a gravidade do conflito entre ele e as autoridades religiosas do seu tempo. É um conflito de vida e morte. Importa notar a categoria de adversários que aparece neste último conflito. Trata-se dos fariseus e dos herodianos, ou seja, das autoridades religiosas e civis. Quando Marcos escreve o seu evangelho nos anos 70, muitos traziam na lembrança a terrível perseguição dos anos 60, que Nero moveu contra as comunidades cristãs. Ouvindo agora como o próprio Jesus tinha sido ameaçado de morte e como ele se comportava no meio destes conflitos perigosos, os cristãos encontravam uma fonte de coragem e de orientação para não desanimar na caminhada.
Jesus na sinagoga em dia de sábado. Jesus entra na sinagoga. Ele tinha o costume de participar das celebrações do povo. Havia ali um homem com a mão atrofiada. Um deficiente físico não podia participar plenamente, pois era considerado impuro. Mesmo presente na comunidade, era marginalizado. Devia manter-se afastado.
A preocupação dos adversários de Jesus. Os adversários observam para ver se Jesus faz curas em dia de sábado. Querem acusá-lo. O segundo mandamento da Lei de Deus mandava “santificar o sábado”. Era proibido trabalhar nesse dia (Ex 20,8-11). Os fariseus diziam que curar um doente era o mesmo que trabalhar. Por isso ensinavam: “É proibido curar em dia de sábado!” Colocavam a lei acima do bem-estar das pessoas. Jesus os incomodava, porque ele colocava o bem-estar das pessoas acima das normas e das leis. A preocupação dos fariseus e dos herodianos não era o zelo pela lei, mas sim a vontade de acusar e de eliminar Jesus.
Levanta-te e vem aqui para o meio! Jesus pede duas coisas ao deficiente físico: Levanta-te e vem aqui para o meio! A palavra “levanta-te” é a mesma que as comunidades do tempo de Marcos usavam para dizer “ressuscitar”. O deficiente deve “ressuscitar”, levantar-se, vir para o meio e ocupar o seu lugar no centro da comunidade! Os marginalizados, os excluídos, devem vir para o meio! Não podem ser excluídos. Devem ser incluídos e acolhidos. Devem estar junto com todo mundo! Jesus chamou o excluído para ficar no meio.
A pergunta de Jesus deixa os outros sem resposta. Jesus pergunta: Em dia de sábado é permitido fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida ou matá-la? Ele podia ter perguntado: ”Em dia de sábado é permitido curar: sim ou não?” Aí, todos teriam respondido: “Não é permitido!” Mas Jesus mudou a pergunta. Para ele, naquele caso concreto, “curar” era o mesmo que “fazer o bem” ou “salvar uma vida”, e “não curar” era o mesmo que “fazer o mal” ou “matar uma vida”! Com a sua pergunta Jesus colocou o dedo na ferida. Denunciou a proibição de curar em dia de sábado como sendo um sistema de morte. Pergunta sábia! Os adversários ficaram sem resposta.
Jesus fica indignado diante do fechamento dos adversários. Jesus reage com indignação e tristeza diante da atitude dos fariseus e herodianos. Ele manda o homem estender a mão, e ela ficou curada. Curando o deficiente, Jesus mostrou que ele não estava de acordo com o sistema que colocava a lei acima da vida. Em resposta à ação de Jesus, os fariseus e os herodianos decidem matá-lo. Com esta decisão eles confirmam que são, de fato, defensores de um sistema de morte! Eles não têm medo de matar para defender o sistema contra Jesus que os ataca e critica em nome da vida.
4) Para um confronto pessoal
1) O deficiente foi chamado para estar no centro da comunidade. Na nossa comunidade, os pobres e os excluídos têm um lugar privilegiado?
2) Você já se confrontou alguma vez com pessoas que, como os herodianos e os fariseus, colocam a lei acima do bem-estar das pessoas? O que você sentiu naquele momento? Deu razão a eles ou os criticou?
5) Oração final
De todos tens compaixão porque tudo podes, e fechas os olhos aos pecados dos mortais, para que se arrependam. Sim, amas tudo o que existe e não desprezas nada do que fizeste; porque, se odiasses alguma coisa, não a terias criado. (Sab 11,23-24)
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"Assim, a guerra sem fim tritura suas vítimas e pode continuar. Se os combatentes se perdem pelo caminho e são sacrificados, no entanto, o general permanece, Bento desavisado e cuja intenção certamente não é contrastar Francisco ou servir de peão para a anti-Igreja. Quem duvida disso demonstra desconhecer toda a produção teológica de Joseph Ratzinger, assim como sua concepção do Pontificado", escreve Massimo Borghesi, filósofo, professor de Filosofia Moral na Universidade de Perugia, Itália, e autor do livro Jorge Mario Bergoglio. Una biografia intelettuale. Dialettica e mistica (Jaca Book 2017; tradução brasileira: Jorge Mario Bergoglio. Uma biografia intelectual. Petrópolis, Vozes, 2018), em artigo publicado por IlSussidiario.net, 19-01-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
O eco mundial causado pelas notícias da publicação, pela Fayard, do livro a quatro mãos "Des profondeurs des nos coeurs" (Do fundo de nossos corações, em tradução livre), do Papa emérito e do Cardeal Sarah, não depende apenas de seu conteúdo - a confirmação do celibato dos padres como condição obrigatória para o sacerdócio – quanto do uso midiático que a parte eclesial em oposição ao papa Francisco presume tirar disso. Há anos que essa parte tenta usar de todas as formas a figura de Bento XVI para contrapô-la com o Papa reinante. Seu sonho é dividir a Igreja em nível mundial, para que possa deslegitimar Francisco e obrigá-lo a renunciar. Em sua sanha, não se importa com a tragédia, com desorientação e com o escândalo. Semeia divisão, suspeitas, acusações de heresia.
Uma patologia religiosa percorre a Igreja e as vítimas são, principalmente, os simples fiéis que, muitas vezes desavisados, são envolvidos nas tramas obscuras dos potentados que movem as massas por trás de motivos de aparente zelo religioso. A direita mundial não gosta do papa "argentino", latino-americano. Considera-o, no campo social, muito inclinado à esquerda, não funcional, portanto, aos arranjos de poder que estão mudando, sensivelmente, a realidade atual.
Para deslegitimar um Papa, no entanto, não basta atacá-lo no terreno políticos. É preciso insinuar a dúvida naquele religioso, e é aí que entram em jogo as diatribes teológicos, os grupos de pressão, os ativistas da mídia que obsessivamente levantam acusações de heresia. Um Papa avançado socialmente só pode ser progressivo-modernista no terreno doutrinal. É assim que se cria a lenda: o Papa bonzinho é uma criatura de Soros, do "Dono do mundo" vaticinado por Robert Hugh Benson, cujo objetivo oculto é a dissolução da Igreja por dentro.
Delírios apocalípticas e profecias místicas se confundem em um imaginário para o qual a Igreja e o mundo estão caminhando para o fim. O apocalíptico é a outra face de um mundo sombrio que exige, de forma prepotente, ordem e segurança e permanece desorientado e zangado diante de um papa que pede para derrubar os bastiões e não ter medo. Assim a anti-Igreja que se move contra Bergoglio busca, sem descanso, líderes que, tanto no terreno político quanto no eclesial, possam assumir o papel do anti-Francisco. De Trump a Putin, de Orbán a Salvini, aos cardeais Burke, Müller, Sarah e ao bispo Viganò, tudo é uma tentativa de continuar deslegitimando da obra do Pontífice. A tal ponto que o pontificado de Bergoglio parecerá aos futuros historiadores pontilhado por uma série ininterrupta de etapas de remoção.
Essa estratégia de desgaste não teria o poder que possui se, nesses anos, não tivesse tentado de toda maneira envolver, em vão, a figura de Bento XVI. Para uma parte do catolicismo conservador, a grande renúncia do papa Ratzinger foi um gesto "revolucionário" e imperdoável. "Da cruz não se desce": como disse de maneira violenta o cardeal de Cracóvia Stanisław Dziwisz. Aquele mundo nunca perdoou Bento por sua escolha.
Nem tudo, no entanto. Parte dele confiou e confia que o Papa emérito, ao sair do silêncio ou agir nos bastidores, possa criar obstáculos à deriva "modernista" do Papa "oficial". É nesse contexto que a decisão de Ratzinger de participar do livro da Fayard, juntamente com o cardeal Sarah notoriamente não exatamente em sintonia com Francisco, assume um significado peculiar. Certamente não nas intenções de Bento, que escreveu expressamente que ele se reporta inteiramente à autoridade de seu sucessor, mas nos fatos. Nem a comunicação de Mons. Georg Gänswein, secretário do Papa emérito, segundo o qual não houve um entendimento editorial perfeito entre Bento e o cardeal, e o titular do livro Des profondeurs des nos coeurs só poderia ser Sarah, valeu para esclarecer e mitigar as discussões.
No entanto, estragou os planos e obteve como resultado atrair sobre Mons. Gänswein a ira daqueles que, até o dia anterior, o elogiavam como pedra angular de sua estratégia. Como mons. Viganò trovejou das colunas do jornal da direita política La Verità: "O padre Georg isolou o Pontífice emérito" (16 de janeiro de 20). Os anti-Francisco não têm escrúpulos: quando os peões não são mais necessários, devem ser substituídos. Para Viganò: “É hora de revelar o controle exercido de forma abusiva e sistemática pelo monsenhor Georg Gänswein contra o Sumo Pontífice Bento XVI desde o início de seu pontificado. Gänswein filtrava rotineiramente as informações, arvorando-se o direito de julgar por si próprio o quanto fosse apropriado ou não deixar chegar ao Santo Padre".
Assim, a guerra sem fim tritura suas vítimas e pode continuar. Se os combatentes se perdem pelo caminho e são sacrificados, no entanto, o general permanece, Bento desavisado e cuja intenção certamente não é contrastar Francisco ou servir de peão para a anti-Igreja. Quem duvida disso demonstra desconhecer toda a produção teológica de Joseph Ratzinger, assim como sua concepção do Pontificado. Aqueles que recitam, como em uma jaculatória, "Bento XVI é nosso Papa" demonstram uma concepção eclesial que Bento XVI absolutamente abomina. Uma concepção fora da "Católica". Seus atestados de fidelidade e de obediência ao Papa Francisco não podem ser questionados por nenhum livro de ficção-teológica que tanto apaixona os apocalípticos do sétimo dia.
Dito isto, permanece o fato de que a decisão de Ratzinger de participar da iniciativa editorial do cardeal Sarah permanece questionável, para além de boas intenções. Questionável, não porque ele não tenha o direito de falar ou publicar, mas pelo título que, no momento da abdicação, decidiu conservar: o de papa "emérito".
Um título que não tem precedentes em toda a história da Igreja e sobre cuja validade eminentes estudiosos, como o jesuíta Gianfranco Girlanda em sua "Cessação do ofício de romano pontífice" (La Civiltà Cattolica, 02 de março de 2013), levantaram sérias dúvidas.
É esse título, que o direito canônico não sabe como regulamentar, que oferece o espaço pra a ficção-teológica e para as manobras palacianas. Se, de fato, o cardeal Ratzinger tivesse tratado do celibato dos padres, um tema tratado pelo Sínodo dos Bispos sobre o qual o atual Papa ainda deve se pronunciar, seu discurso, mesmo com toda a sua autoridade, não teria criado o problema que estamos discutindo. A querela esquenta quando é apresentada como a disputa entre "dois papas". É nessa suposta dialética, entre o emérito e o governante, que se insere a vertente anti-Francisco, reivindicando sua força e legitimidade. Estamos, portanto, diante de um impasse que marca o momento presente, dramático, da Igreja.
Se Ratzinger quer ser coerente com o compromisso que assumiu ao decidir manter o nome de Bento XVI, Papa emérito, então deveria observar a regra do silêncio nos assuntos que são objeto de discussão pelos bispos e Papa. Ele só poderia intervir se sua palavra resultasse de apoio à ação papal. Onde ainda há margem para dúvidas, suas observações, de autoridade e preciosas, deveriam ser oferecidas, de forma pessoal e direta, ao Papa ao qual cabe jugar sobre sua utilidade ou não. Caso contrário, a possibilidade de expressar publicamente sua opinião sobre questões delicadas para a Igreja implica o abandono do hábito branco e do nome de papa emérito.
Somos, portanto, confrontados com uma opção que provavelmente não teria razão de ser na medida em que a cordialidade e estima que liga os dois pontífices, passado e presente, são únicas em toda a história da Igreja. Francisco acolheu as decisões de Bento XVI sem levantar objeções. Os dois trazem acentos distintos, escolhas diferentes, mas estão unidos pelo mesmo amor pela Igreja, a Igreja do Concílio, de uma perspectiva missionária igual. Por esse motivo, Bento XVI também não é do agrado de muitos tradicionalistas. Se o problema da comunicação surge hoje para as publicações de Ratzinger, não é pelos dois protagonistas diretos, mas por causa da oposição militante de uma parte, minoritária, da Igreja que tenta, todas as vezes, manipular as palavras do Papa emérito para desacreditar a autoridade do Pontífice. Daí a necessária discrição exigida de Ratzinger. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
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1) Oração
Deus eterno e todo-poderoso, que governais o céu e a terra, escutai com bondade as preces do vosso povo e dai ao nosso tempo a vossa paz. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
2) Leitura do Evangelho (Marcos 2, 23-28)
23Jesus estava passando por uns campos de trigo, em dia de sábado. Seus discípulos começaram a arrancar espigas, enquanto caminhavam. 24Então os fariseus disseram a Jesus: "Olha! Por que eles fazem em dia de sábado o que não é permitido?"
25Jesus lhes disse: "Por acaso, nunca lestes o que Davi e seus companheiros fizeram quando passaram necessidade e tiveram fome? 26Como ele entrou na casa de Deus, no tempo em que Abiatar era sumo sacerdote, comeu os pães oferecidos a Deus, e os deu também aos seus companheiros? No entanto, só aos sacerdotes é permitido comer esses pães". 27E acrescentou: "O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado. 28Portanto, o Filho do Homem é senhor também do sábado".
- Palavra da Salvação.
3) Reflexão
A lei existe para o bem das pessoas. Num dia de sábado, os discípulos passam pelas plantações e abrem caminho arrancando espigas. Em Mateus 12,1 se diz que eles estavam com fome. Invocando a Bíblia, os fariseus criticam a atitude dos discípulos. Seria uma transgressão da lei do Sábado (cf Ex 20,8-11). Jesus responde invocando a mesma Bíblia para mostrar que os argumentos dos outros não tinham fundamento. Ele lembra que o próprio Davi também fez coisa proibida, pois tirou os pães sagrados do templo e os deu de comer aos soldados que estavam com fome (1 Sm 21,2-7). E Jesus termina com duas frases importantes: 1) O sábado é para o ser humano, e não o ser humano para o sábado, 2) O Filho do Homem é dono até do sábado!
O sábado é para o ser humano, e não o ser humano para o sábado. Durante mais de quinhentos anos, desde os tempos do cativeiro na Babilônia até a época de Jesus, os judeus tinham observado a lei do sábado. Esta observância secular tornou-se para eles um forte sinal identidade. O sábado era rigorosamente observado. Na época dos Macabeus, meados do século II antes de Cristo, esta observância rígida chegou a um ponto crítico. Atacados pelos gregos em dia de sábado, os rebeldes macabeus preferiram deixar-se matar a transgredir o sábado usando as armas para defender sua vida. Por isso, morreram mil pessoas (1Mac 2,32-38). Refletindo sobre este massacre, os líderes macabeus concluíram que deviam resistir e defender sua vida, mesmo em dia de sábado (1Mac 2,39-41). Jesus teve a mesma atitude de relativizar a lei do sábado em favor da vida, pois a lei existe para o bem da vida humana, e não vice-versa!
O Filho do Homem é dono até do sábado! A nova experiência de Deus como Pai/Mãe fez com que Jesus, o Filho do Homem, dava a Jesus uma chave para descobrir a intenção de Deus que está na origem das leis do Antigo Testamento. Por isso, o Filho do Homem é dono até do Sábado. Convivendo com o povo da Galileia durante trinta anos e sentindo na pele a opressão e a exclusão a que tantos irmãos e irmãs eram condenados em nome da Lei de Deus, Jesus percebeu que isto não podia ser o sentido daquelas leis. Se Deus é Pai, então ele acolhe a todos como filhos e filhas. Se Deus é Pai, então nós temos que ser irmão e irmã uns dos outros. Foi o que Jesus viveu e pregou, desde o começo até o fim. A Lei do Sábado deve estar a serviço da vida e da fraternidade. Foi por causa da sua fidelidade a esta mensagem que Jesus foi preso e condenado à morte. Ele incomodou o sistema, e o sistema se defendeu, usando a força contra Jesus, pois ele queria a Lei a serviço da vida, e não vice-versa.
Jesus e a Bíblia. Os fariseus criticavam Jesus em nome de Bíblia. Jesus responde e critica os fariseus usando a Bíblia. Ele conhecia a Bíblia de memória. Naquele tempo, não havia Bíblias impressas como temos hoje em dia. Em cada comunidade só havia uma única Bíblia, escrita a mão, que ficava na sinagoga. Se Jesus conhecia tão bem a Bíblia, é sinal de que ele, durante aqueles 30 anos da sua vida em Nazaré, deve ter participado intensamente da vida da comunidade, onde todo sábado se liam as Escrituras. Ainda falta muito para nós termos a mesma familiaridade com a Bíblia e a mesma participação na comunidade!
4) Para um confronto pessoal
1) O Sábado é para o ser humano, e não vice versa. Quais os pontos em minha vida que devem mudar?
2) Mesmo sem ter Bíblia em casa, Jesus conhecia a Bíblia de memória. E eu?
5) Oração final
De todo coração darei graças ao SENHOR, na reunião dos justos e na assembléia. Grandes são as obras do SENHOR, merecem a reflexão dos que as amam. (Sal 110, 1-2)
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1) Oração
Deus eterno e todo-poderoso, que governais o céu e a terra, escutai com bondade as preces do vosso povo e dai ao nosso tempo a vossa paz. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
2) Leitura do Evangelho (Marcos 2,18-22)
Naquele tempo, 18os discípulos de João Batista e os fariseus estavam jejuando. Então, vieram dizer a Jesus: "Por que os discípulos de João e os discípulos dos fariseus jejuam, e os teus discípulos não jejuam?"
19Jesus respondeu: "Os convidados de um casamento poderiam, por acaso, fazer jejum, enquanto o noivo está com eles? Enquanto o noivo está com eles, os convidados não podem jejuar. 20Mas vai chegar o tempo em que o noivo será tirado do meio deles; aí, então, eles vão jejuar.
21Ninguém põe um remendo de pano novo numa roupa velha; porque o remendo novo repuxa o pano velho e o rasgão fica maior ainda. 22Ninguém põe vinho novo em odres velhos; porque o vinho novo arrebenta os odres velhos e o vinho e os odres se perdem. Por isso, vinho novo em odres novos".
- Palavra da Salvação.
3) Reflexão
Os cinco conflitos entre Jesus e as autoridades religiosas. Em Mc 2,1-12 vimos o primeiro conflito. Era em torno do perdão dos pecados. Em Mac 2,13-17, o segundo conflito tratava da comunhão de mesa com pecadores. O evangelho de hoje traz o terceiro conflito sobre o jejum. Amanhã, teremos o quarto conflito em torno da observância do sábado (Mc 2,13-28). Depois de amanhã, o último dos cinco conflitos será em torno da cura em dia de sábado (Mc 3,1-6). O conflito sobre o jejum ocupa o lugar central. Por isso, as palavras meio soltas sobre o remendo novo em pano velho e sobre o vinho novo em barril novo (Mc 2,21-22) devem ser entendidas como uma luz que joga sua claridade também sobre os outros quatro conflitos, dois antes e dois depois.
Jesus não insiste na prática do jejum. O jejum é um costume muito antigo, praticado em quase todas as religiões. O próprio Jesus praticou-o durante quarenta dias (Mt 4,2). Mas ele não insiste com os discípulos para que façam o mesmo. Deixa a eles a liberdade. Por isso, os discípulos de João Batista e dos fariseus, que eram obrigados a jejuar, querem saber por que Jesus não insiste no jejum.
Enquanto o noivo está com eles não precisam jejuar. Jesus responde com uma comparação. Enquanto o noivo está com os amigos do noivo, isto é, durante a festa do casamento, estes não precisam jejuar. Jesus se considera o noivo. Os discípulos são os amigos do noivo. Durante o tempo em que ele, Jesus, estiver com os discípulos, é festa de casamento. Chegará o dia em que o noivo vai ser tirado. Aí, se eles quiserem, poderão jejuar. Jesus alude à sua morte. Sabe e sente que, se ele continuar neste caminho de liberdade, as autoridades religiosas vão querer matá-lo.
Remendo novo em roupa velha, vinho novo em barril novo. Estas duas afirmações de Jesus, que Marcos colocou aqui, esclarecem a atitude crítica de Jesus frente às autoridades religiosas. Não se coloca remendo de pano novo em roupa velha. Na hora de lavar, o remendo novo repuxa o vestido velho e o estraga mais ainda. Ninguém coloca vinho novo em barril velho, porque a fermentação do vinho novo faz estourar o barril velho. Vinho novo em barril novo! A religião defendida pelas autoridades religiosas era como roupa velha, como barril velho. Não se deve querer combinar o novo que Jesus trouxe com os costumes antigos. Nem se pode querer reduzir a novidade de Jesus ao tamanho do judaísmo. Ou um, ou outro! O vinho novo que Jesus trouxe faz estourar o barril velho. Tem que saber separar as coisas. Jesus não é contra o que é “velho”. O que ele quer evitar é que o velho se imponha ao novo e, assim, o impeça de manifestar-se. Seria o mesmo que reduzir a mensagem do Concílio Vaticano II ao tamanho do catecismo anterior ao Concílio, como alguns estão querendo.
4) Para um confronto pessoal
1) A partir da experiência profunda de Deus que o animava por dentro, Jesus tinha muita liberdade com relação às normas e práticas religiosas. E hoje, será que temos a mesma liberdade ou será que nos falta a liberdade dos místicos?
2) Remendo novo em roupa velha, vinho novo em barril velho. Existe isto em minha vida?
5) Oração final
Todo aquele que professa que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus. E nós, que cremos, reconhecemos o amor que Deus tem para conosco. (1Jo 4,15-16)
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Ao final, o povo fica com essa canção: “En la Iglesia, hay dos Papas y, encima, se llevan a matar” (uma expressão espanhola para “não se dão bem”).
O que o povo das ruas não sabe é que o que estamos vivendo é um tensionamento não somente entre dois Papas, mas sim entre dois modelos de Igreja, e um ataque preventivo.
O tensionamento de Ratzinger-Sarah contra Francisco é uma espécie de ataque preventivo contra o processo sinodal alemão.
Para saírem minimamente “aliviados”, os implicados (o cardeal Sarah, o secretário de Ratzinger, monsenhor Gänswein e o próprio Ratzinger) brigam entre si e jogam culpa um ao outro em um espetáculo grotesco e difamatório.
Quiseram utilizar o Papa emérito ou este se deixou ser utilizado (algo que somente ele sabe), porém fracassaram tão clamorosamente que deixaram o campo aberto para que a primavera de Francisco siga florescendo, em Roma e no mundo.
O comentário é de José Manuel Vidal, publicado por Religión Digital, 15-01-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.
Um destacado e veterano vaticanista italiano, Marco Politi, chama de “livrogate” o primeiro episódio de uma “guerra civil” vaticana entre os dois Papas. Parece-me um pouco exagerado, tratando-se de dois Sumos Pontífices e duas Santidades. Creio que é mais ajustado falar de tensionamento e de ataque preventivo.
Neste sentido, não importam tanto, pois, os “diz que me disse” sobre a autoria total ou parcial do livro por parte do Papa emérito. O vivido nestes dias me parece rocambolesco, cômico, um pouco ridículo e de vergonha alheia, se não afeta a credibilidade social da Igreja. Ao final, o povo fica com essa canção “En la Iglesia, hay dos Papas y, encima, se llevan a matar”.
O que o povo das ruas não sabe é que o que estamos vivendo é um tensionamento não somente entre dois Papas, mas sim entre dois modelos de Igreja, e um ataque preventivo. Isso é, uma emenda à totalidade, disfarçada sob o manto de uma advertência sumária: o celibato é intocável, porque há um vínculo ontológico entre este e o sacerdócio. Para a ala mais conservadora eclesial a Igreja em saída de Francisco não os agrada e preferem a do Concílio congelado e a dos “princípios inegociáveis”. Inclusive se são discutidos ou discutíveis. Inclusive se não afetam os dogmas, mas sim a uma simples lei disciplinar da Igreja.
No fundo, é uma tentativa, afortunadamente fracassada, de dizer a Francisco: “Não tem enfrentamento neste tema secundário e terá muito mais em outro tipo de temas, que possam ser debatidos e consensuais nessa Igreja sinodal que está em marcha”. Uma alavanca sem apoio, uma alavanca sem força doutrinal, porque lhes dá pé para aglutinar seguidores e prepara-los para o cisma.
Porque, na realidade, o tensionamento de Ratzinger-Sarah contra Francisco é uma espécie de ataque preventivo contra o processo sinodal alemão, que já está em marcha e que pretende fundamentar doutrinalmente uma Igreja sinodal de facto, em saída, aberta ao mundo e que necessita implementar mudanças profundas em suas estruturas, em suas dinâmicas internas, na integração das mulheres, em respeito aos direitos humanos, na desclericalização, e especialmente, na atualização da moralidade sexual. O Sínodo da Amazônia parecia folclórico, mas também um precedente perigoso. O alemão os faz uma careta e o temem mais que o diabo.
E para tentar freá-lo desde o início, Ratzinger-Sarah atendem (“sempre em obediência a Deus e à consciência, pelo que não podem guardar silêncio”) a um dos principais cavalos-de-batalha do mais rançoso clericalismo. Se os eclesiásticos que são funcionários do sagrado e perdem este caráter por ficar sem celibato, acabam, portanto atirando pedras contra seu próprio telhado. Isso é, contra a casta clerical, que é a que está dinamitando desde dentro o papa Francisco e que é mais se opõe ao Evangelho de Jesus.
Por isso, Ratzinger-Sarah escolheram o tema do celibato, porque sabem que grande parte do clero os segue. E que todos os rigoristas do mundo vão cerrar fileiras com eles. E, ainda, envolver-se-ão nessa cruzada, sob a máscara do celibato, o que se trata de verdade é outonear a primavera de Francisco. Com esse novo ataque contra Francisco, se demonstra mais uma vez que o que realmente temem os rigoristas são que as reformas de Bergoglio os coíbam. E que Francisco está demonstrando que se pode reformar a fundo a Igreja sem tocar no núcleo doutrinar. E por aí não passam, inclusive a risco de que a instituição caia em irrelevância mais absoluta e na perda total de credibilidade social.
Porém, ao menos por agora, o tiro saiu pela culatra e Francisco que, como dizem alguns treinadores, parece ter “una flor en el culo” (ditado espanhol para dizer que uma pessoa tem sorte no jogo), sai reforçado do incidente. E, inclusive, a partir de agora pode se permitir o luxo de pôr em marcha o estatuto do Papa emérito. Um estatuto que não existe na atualidade e que fique claro que Papa existe apenas um, o reinante. E que o emérito deixa de ser Papa para tornar-se o bispo emérito de Roma. E, portanto, deve deixar de utilizar a batina branca e os títulos papais (Santidade, etc.) e abandonar Roma. Para que ninguém possa pensar, nem remotamente, que em Roma há dois Papas, como, de fato, muita gente pouco informada deve crer.
Em qualquer caso, Francisco, sem mover um dedo, ganhou dos rigoristas uma batalha crucial, que pretendiam converter em uma ordem das maiores. Tanto é assim que o que mais claro ficou de todo este episódio é que, para sair minimamente “aliviados”, os implicados (cardeal Sarah, monsenhor Gänswein e o prório Ratzinger) brigam entre si e jogam a culpa uns aos outros em um espetáculo grotesco e difamatório.
Quiseram utilizar o Papa emérito ou este deixou-se utilizar (algo que somente ele sabe), porém fracassou tão clamorosamente que deixaram o campo aberto para que a primavera de Francisco siga florescendo, em Roma e no mundo. E desativaram, para sempre, o estandarte do cisma que até agora levantavam os rigoristas solitários não redimidos e, agora, queriam colocá-lo nas mãos de ninguém menos que o Papa emérito. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
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"O cardeal Sarah continua coerentemente sua batalha de oposição à linha reformista do Papa Francisco, ontem sobre a questão da comunhão aos divorciados e novamente casados, hoje sobre o tema do celibato", escreve Marco Politi, jornalista, em artigo publicado por il Fatto Quotidiano, 16-01-20202. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Foram necessárias menos de 48 horas para desmontar a tese de um mal-entendido ou de uma armadilha na qual teria caído o ex-papa Ratzinger sobre o “pare” ao celibato lançado ao papa Francisco em um livro assinado em conjunto com o cardeal Robert Sarah. Em pouco tempo virou água a versão posta em circulação anonimamente, em primeiro lugar pelo entourage ratzingeriano: seriam simples "notas" enviadas pelo ex-papa ao cardeal guineense. Versão acompanhada pela alegação de não ter nada a ver com o projeto do livro. O cardeal mostrou que esteve em contato com Ratzinger por três meses seguidos: setembro, outubro e novembro (meses do Sínodo para a Amazônia, marcado precisamente pelo debate sobre a eventualidade de ordenar padres homens casados); trouxe as provas de uma troca de e-mails, explicou que os rascunhos do livro e da capa haviam sido enviados a Ratzinger em 19 de novembro e que recebeu o placet em 25 de novembro. Mais ainda: em 3 de dezembro, Sarah foi se encontrar pessoalmente com o papa emérito.
Sarah é um cardeal tradicionalista muito próximo de Bento XVI, sincero, conhecido no Vaticano por sua rigorosa espiritualidade. Prospectar a ideia de que ele tenha manipulado as notas recebidas de Ratzinger e tenha agido pelas costas do ex-pontífice é "abjeto" e difamatório, como ele mesmo disse. Não basta que Gänswein, no comunicado em que solicita a retirada da assinatura dupla da capa do livro e da introdução e das conclusões, afirme que apenas o capítulo escrito por Ratzinger seja dele.
Tanto o texto de introdução como o texto de conclusão são escritos usando o "nós". Falta nas declarações de Gänswein um elemento importante: a declaração de que o texto da introdução e das conclusões teria sido falseado, inserindo o pronome plural sem o conhecimento de Ratzinger. Essa declaração não veio. E o silêncio pesa sobre isso.
O livro já foi lançado na França com uma assinatura dupla vistosamente rasurada. O fato de a capa da segunda edição indicar o cardeal Sarah como autor "com a contribuição de Bento XVI" é apenas uma emenda pior que o soneto. Todos os textos permanecerão inalterados. É significativo que a editora católica estadunidense Ignatius Press (de orientação conservadora) tenha decidido publicar o livro com os dois nomes na capa de qualquer maneira.
Resumindo. O cardeal Sarah continua coerentemente sua batalha de oposição à linha reformista do Papa Francisco, ontem sobre a questão da comunhão aos divorciados e novamente casados, hoje sobre o tema do celibato. No livro, pede a Francisco que "vete" inovações e define como uma "catástrofe" a hipótese de um clero casado, mesmo que como exceção. Bento XVI, sob o mesmo teto do livro, se alinha pela primeira vez oficialmente com um dos partidos protagonistas da guerra civil em curso na Igreja.
Ratzinger, fraco no físico, mas absolutamente lúcido intelectualmente, estava ciente de intervir sobre o tema do celibato em coincidência com o debate sinodal - isto é, de uma instância oficial da Igreja Católica - e em uma fase em que Francisco devia tomar uma decisão na plenitude de seus poderes. Sua contribuição para o livro representa uma interferência grave. E a sucessiva marcha à ré com a retirada da assinatura na introdução e nas conclusões do livro acaba por evidenciar a irresponsabilidade inicial de sua intervenção, mas também a insustentabilidade de uma posição que despertou desorientação e irritação em uma grande massa de católicos.
Gänswein é o fiel apoio e o único elo entre o ex-pontífice e o resto do mundo. Ele poderia aconselhar Ratzinger a não se expor dessa maneira. Não é certo que o ex-papa o ouviria, mas não resulta que Gänswein tenha feito isso mesmo no ano passado, quando Ratzinger escreveu um ensaio sobre as raízes dos abusos na Igreja, contrapondo-se frontalmente à análise feita pelo papa Francisco. Na realidade, Gänswein está totalmente sintonizado no comprimento de onda de Ratzinger e há muito se sente desconfortável com muitas coisas que ocorrem durante o pontificado de Bergoglio.
Para a frente conservadora, a história toda não representa um sucesso. Aliás, relançou a discussão sobre a necessidade de definir rigorosamente o status dos papas demissionários, eliminando o título de "papa emérito" e a veste branca: um contrassenso, fonte de confusão.
Enquanto isso, o papa Bergoglio fala por sinais. O Vatican News, órgão oficial do dicastério pontifício da comunicação, acaba de publicar trechos do decreto conciliar sobre o sacerdócio Presbyterorum Ordinis, no qual é destacado oficialmente - e é a lei da Igreja – que a "perpétua continência (celibato) ... certamente não é exigida pela natureza própria do sacerdócio, como resulta evidente quando se pensa na praxe da Igreja primitiva e à tradição das Igrejas orientais".
Palavra do Concílio. Um tapa na tese de Ratzinger sobre o vínculo "ontológico" entre sacerdócio e impossibilidade do casamento. Francisco, qualquer que seja a decisão que tomar sobre a ordenação sacerdotal de diáconos casados, não pretende se deixar chantagear. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
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"Contemplar a força erótica de Jesus, a partir de uma ótica universal, nos faz pensar onde hoje ele se encontra. Se uma das dimensões do Eros é a atração pelos corpos, temos que aceitar que no caso de Jesus os corpos que o atraíam eram os pobres, os famintos, os prisioneiros, os publicanos, as viúvas, os leprosos, os cegos, os coxos", escreve Ademir Guedes Azevedo, padre, missionário passionista e mestrando em teologia fundamental na Pontifícia Universidade Gregoriana.
Eis o artigo.
Já escrevi em outros artigos sobre a energia erótica. Trata-se de uma força espetacular que cada um possui. O Eros não pode ser reduzido à ideia de desejo carnal. É o impulso vital de estar com outra parte que nos complete e nos traga sentido para viver. É o antídoto para a depressão, para o vírus da autorreferência que a atual sociedade do cansaço gerou. Mas não é apenas isso.
A tradição filosófica de matriz grega ensinou que o Eros está diretamente ligado à instrumentalização do outro para a satisfação do desejo sexual. Por outro lado, a tradição judaica sublinha o encontro de duas partes opostas (homem e mulher) que se completam. No relato da criação, Deus viu que algo estava faltando: criou uma companheira para o homem. Assim, ambos passaram a se desejar de tal forma que seria absurdo um viver sem o outro. Eles se completam pelo Eros que Deus pôs dentro de cada um deles. Desde então, são destinados a se desejarem para sempre.
Porém, para o cristianismo o Eros não é nem a satisfação do desejo sexual (mundo grego) nem para completar as partes opostas (mundo judaico). Isto só entendemos a partir do modo de agir de Jesus, o qual inaugura outra perspectiva. Ele purifica o Eros de todo interesse de instrumentalização do corpo humano a partir da compaixão. Veja-se aqui o caso do bom samaritano: ele enfaixa as feridas e cuida do corpo do outro com óleo. Com Jesus, o corpo do outro é para ser cuidado, é um fim em si mesmo, nunca um meio para alcançar um simples prazer sexual, como faziam os gregos em seus famosos banquetes. A energia erótica de Jesus o conduz rumo a uma alteridade universal. Ele se encontra com homens, mulheres, judeus, pagãos, gentios, pecadores, enfim toda a humanidade. Falar do ser erótico de Jesus significa contemplarmos um coração universal, onde há espaço para todos. O Ágape (a cruz), contudo, é a concretização do impulso erótico de Jesus de Nazaré.
O aspecto erótico que vemos em Jesus vai muito mais além do que estamos habituados a pensar. O seu grande desejo incontrolável, ou seja, aquilo que ele pensava dia e noite sem conseguir desapegar-se e que foi sua única paixão; ou então, para usar uma expressão conhecida, “o seu primeiro amor” foi absolutamente este: O Reino de Deus que seria instaurado unicamente no fazer e viver a vontade do seu Pai do céu. Jesus era fissurado, louco, apaixonado, gamado exclusivamente nisso. Para Ele, toda a sua existência, desejos e amor maior era trabalhar para isso. Em uma passagem do Evangelho, vemos como Ele se apresenta possuído por sua energia erótica, ao afirmar: “Eu vim para trazer fogo sobre a terra e como gostaria que já estivesse em chamas!” (Lc 12, 49). Esse fogo é o Reino de Deus, o projeto libertador inédito, que não se confundia com nenhuma forma de império até então existente.
O Eros que Jesus traz em seu ser é um divisor de águas. Se para os gregos, sempre o corpo do outro era usado para o prazer sexual, critério decisivo no assim chamado inebriamento divino, Jesus ao contrário usa o seu Eros para dar o próprio corpo para a salvação de todos. Sua energia erótica ultrapassa qualquer interesse pessoal.
Contemplar a força erótica de Jesus, a partir de uma ótica universal, nos faz pensar onde hoje ele se encontra. Se uma das dimensões do Eros é a atração pelos corpos, temos que aceitar que no caso de Jesus os corpos que o atraíam eram os pobres, os famintos, os prisioneiros, os publicanos, as viúvas, os leprosos, os cegos, os coxos. Foram estes os corpos que ele mesmo quis desejar de modo preferencial. O ser erótico de Jesus o fez mover-se para a compaixão com essas categorias sempre abandonadas por sua sociedade. Para irmos mais a fundo, era o Espírito Santo que nutria o Eros de Jesus. A partir daqui podemos entender melhor o programa de vida dele, narrado por Lucas: “O Espírito do Senhor está sobre mim, me ungiu para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos” (Lc 4,18).
O que temos que aprender é que não existe ágape sem Eros, uma vez que este é o desejo incontrolável para servir e ser solidário. Você já refletiu sobre o poder de sua energia erótica? Como você a usa? Que tal aprender a usá-la a partir de Jesus de Nazaré? O mundo seria bem melhor, sem dúvidas! Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
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1) Oração
Ó Deus, atendei como pai às preces do vosso povo; dai-nos a compreensão dos nossos deveres e a força de cumpri-los. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
2) Leitura do Evangelho (Marcos 2, 1-12)
1Alguns dias depois, Jesus entrou de novo em Cafarnaum. Logo se espalhou a notícia de que ele estava em casa. 2E reuniram-se ali tantas pessoas, que já não havia lugar, nem mesmo diante da porta. E Jesus anunciava-lhes a Palavra. 3Trouxeram-lhe, então, um paralítico, carregado por quatro homens. 4Mas não conseguindo chegar até Jesus, por causa da multidão, abriram então o teto, bem em cima do lugar onde ele se encontrava. Por essa abertura desceram a cama em que o paralítico estava deitado. 5Quando viu a fé daqueles homens, Jesus disse ao paralítico: "Filho, os teus pecados estão perdoados". 6Ora, alguns mestres da Lei, que estavam ali sentados, refletiam em seus corações: 7"Como este homem pode falar assim? Ele está blasfemando: ninguém pode perdoar pecados, a não ser Deus". 8Jesus percebeu logo o que eles estavam pensando no seu íntimo, e disse: "Por que pensais assim em vossos corações? 9O que é mais fácil: dizer ao paralítico: 'os teus pecados estão perdoados', ou dizer: 'Levanta-te, pega a tua cama e anda'? 10Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem, na terra, poder de perdoar pecados disse ele ao paralítico: 11eu te ordeno: levanta-te, pega tua cama, e vai para tua casa!" 12O paralítico então se levantou e, carregando a sua cama, saiu diante de todos. E ficaram todos admirados e louvavam a Deus, dizendo: "Nunca vimos uma coisa assim". - Palavra da Salvação.
3) Reflexão
Em Mc 1,1-15, Marcos mostrou como a Boa Nova de Deus deve ser preparada e divulgada. Em Mc 1,16-45, mostrou qual o objetivo da Boa Nova e qual a missão da comunidade. Agora, em Mc 2,1 a 3,6, aparece o efeito do anúncio da Boa Nova. Uma comunidade fiel ao evangelho vive valores que contrastam com os interesses da sociedade envolvente. Por isso, um dos efeitos do anúncio da Boa Nova é o conflito com aqueles que defendem os interesses da sociedade. Marcos recolhe cinco conflitos que o anúncio da Boa Nova de Deus trouxe para Jesus.
Nos anos 70, época em que ele escreve o seu evangelho, havia muitos conflitos na vida das comunidades, mas elas nem sempre sabiam como comportar-se diante das acusações que vinham da parte das autoridades romanas e dos líderes judeus. Este conjunto de cinco conflitos de Mc 2,1 a 3,6 servia como uma espécie de cartilha para orientar as comunidades, tanto as de ontem como de hoje. Pois o conflito não é um acidente de percurso, mas sim parte integrante da caminhada.
Eis os esquema dos cincos conflitos que Marcos conservou no seu evangelho:
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TEXTOS |
ADVERSÁRIOS DE JESUS |
CAUSA DO CONFLITO |
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1º conflito: Mc 2,1-12 2º conflito: Mc 2,13-17 3º conflito: Mc 2,18-22 4º conflito: Mc 2,23-28 5º conflito: Mc 3,1-6 |
Escribas escribas dos fariseus discípulos de João e fariseus fariseus fariseus e herodianos |
perdão dos pecados comer com pecadores prática do jejum observância do sábado cura em dia de sábado |
A solidariedade dos amigos consegue o perdão dos pecados para o paralítico. Jesus está de volta em Cafarnaum. Juntou muita gente na porta da casa. Ele acolhe a todos e começa a ensinar. Ensinar, falar de Deus, era o que Jesus mais fazia. Chega um paralítico, carregado por quatro pessoas. Jesus é a única esperança deles. Eles não hesitam em subir no telhado e tirar as telhas. Deve ter sido uma casa pobre, barraco coberto de folhas. Eles descem o homem em frente a Jesus. Jesus, vendo a fé deles, diz ao paralítico: Teus pecados estão perdoados! Naquele tempo, o povo achava que defeitos físicos (paralítico) fossem castigo de Deus por algum pecado. Os doutores ensinavam que tal pessoa ficava impura e tornava-se incapaz de aproximar-se de Deus. Por isso, os doentes, os pobres, os paralíticos, sentiam-se rejeitados por Deus! Mas Jesus não pensava assim. Aquela fé tão grande era um sinal evidente de que o paralítico estava sendo acolhido por Deus. Por isso, ele declarou: Teus pecados estão perdoados! Ou seja: “Você não está afastado de Deus!” Com esta afirmação Jesus negou que a paralisia fosse um castigo pelo pecado do homem.
Jesus é acusado de blasfêmia pelos donos do poder. A afirmação de Jesus era contrária ao catecismo da época. Não combinava com a ideia que eles tinham de Deus. Por isso, reagem e acusam Jesus: Ele blasfema! Para eles, só Deus podia perdoar os pecados. E só o sacerdote podia declarar alguém perdoado e purificado. Como é que Jesus, homem sem estudo, leigo, simples carpinteiro, podia declarar as pessoas perdoadas e purificadas dos pecados? E havia ainda um outro motivo que os levava a criticar Jesus. Eles devem ter pensado: “Se for verdade o que esse Jesus está falando, nós vamos perder nosso poder! Vamos perder também nossa fonte de renda”.
Curando, Jesus prova que ele tem poder de perdoar os pecados. Jesus percebeu a crítica. Por isso, pergunta: O que é mais fácil dizer: ‘Teus pecados estão perdoados!’ ou: ‘Levanta-te e anda!’? É muito mais fácil dizer: “Teus pecados estão perdoados”. Pois ninguém pode verificar se de fato o pecado foi ou não foi perdoado. Mas se digo: “Levanta-te e anda!”, aí todos podem verificar se tenho ou não esse poder de curar. Por isso, para mostrar que tinha o poder de perdoar os pecados em nome de Deus, Jesus disse ao paralítico: Levanta-te, toma teu leito e vá para casa! Curou o homem! Assim através de um milagre provou que a paralisia do homem não era um castigo de Deus, e mostrou que a fé dos pobres é uma prova de que Deus os acolhe no seu amor.
A mensagem do milagre e a reação do povo. O paralítico se levanta, pega seu leito, começa a andar, e todos dizem: Nunca vimos coisa igual! Este milagre revelou três coisas muito importantes: 1) As doenças das pessoas não são castigo pelos pecados. 2) Jesus abre um novo caminho para chegar até Deus. Aquilo que o sistema chamava de impureza já não era empecilho para as pessoas se aproximarem de Deus. 3) O rosto de Deus revelado através da atitude de Jesus era diferente do rosto severo do Deus revelado pela atitude dos doutores.
Isto lembra a fala de um drogado que se recuperou e agora participa de uma comunidade em Curitiba, Brasil. Ele disse: “Fui criado na religião católica. Deixei de participar. Meus pais eram muito praticantes e queriam que nós, os filhos, fôssemos como eles. A gente era obrigada a ir à igreja sempre, todos os domingos e festas. E quando não ia, eles diziam: "Deus castiga!” Eu ia a contragosto, e quando fiquei adulto, fui deixando aos poucos. Eu não gostava do Deus dos meus pais. Não conseguia entender como Deus, criador do mundo, ficasse em cima de mim, menino da roça, ameaçando com castigo e inferno. Eu gostava mais do Deus do meu tio que não pisava na igreja mas que, todos os dias, sem falta, comprava o dobro de pão, de que ele mesmo precisava, para dar para os pobres!"
4) Para um confronto pessoal
1) Você gostou do Deus do tio ou do Deus dos pais daquele ex-drogado?
2) Qual o rosto de Deus que transparece para os outros através do meu comportamento?
5) Oração final
O que nós ouvimos, o que aprendemos, o que nossos pais nos contaram não ocultaremos a seus filhos; mas vamos contar à geração seguinte as glórias do SENHOR, o seu poder e os prodígios que operou. (Sl 77, 3-4)
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1) Oração
Ó Deus, atendei como pai às preces do vosso povo; dai-nos a compreensão dos nossos deveres e a força de cumpri-los. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
2) Leitura do Evangelho (Marcos 1, 40-45)
Naquele tempo, 40um leproso chegou perto de Jesus, e de joelhos pediu: "Se queres tens o poder de curar-me". 41Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele, e disse: "Eu quero: fica curado!" 42No mesmo instante, a lepra desapareceu, e ele ficou curado. 43Então Jesus o mandou logo embora, 44falando com firmeza: "Não contes nada disso a ninguém! Vai, mostra-te ao sacerdote e oferece, pela tua purificação, o que Moisés ordenou, como prova para eles!" 45Ele foi e começou a contar e a divulgar muito o fato. Por isso Jesus não podia mais entrar publicamente numa cidade: ficava fora, em lugares desertos. E de toda parte vinham procurá-lo.
- Palavra da Salvação.
3) Reflexão
Acolhendo e curando o leproso Jesus revela um novo rosto de Deus. Um leproso chegou perto de Jesus. Era um excluído, impuro. Devia viver afastado. Quem tocasse nele ficava impuro também! Mas aquele leproso teve muita coragem. Transgrediu as normas da religião para poder chegar perto de Jesus. Ele grita: Se queres, podes curar-me! Ou seja: “Não precisa tocar-me! Basta você querer para eu ficar curado!” A frase revela duas doenças: 1) a doença da lepra que o tornava impuro; 2) a doença da solidão a que era condenado pela sociedade e pela religião. Revela também a grande fé do homem no poder de Jesus. Profundamente compadecido, Jesus cura as duas doenças. Primeiro, para curar a solidão, toca no leproso. É como se dissesse: “Para mim, você não é um excluído. Eu te acolho como irmão!” Em seguida, cura a lepra dizendo: Quero! Seja curado! O leproso, para poder entrar em contato com Jesus, tinha transgredido as normas da lei. Da mesma forma, Jesus, para poder ajudar aquele excluído e, assim, revelar um rosto novo de Deus, transgride as normas da sua religião e toca no leproso. Naquele tempo, quem tocasse num leproso tornava-se um impuro perante as autoridades religiosas e perante a lei da época.
Reintegrar os excluídos na convivência fraterna. Jesus não só cura, mas também quer que a pessoa curada possa conviver novamente. Reintegra a pessoa na convivência. Naquele tempo, para um leproso ser novamente acolhido na comunidade, ele precisava ter um atestado de cura assinado por um sacerdote. É como hoje. O doente só sai do hospital com o documento assinado pelo médico. Jesus obrigou o leproso a buscar o documento, para que ele pudesse conviver normalmente. Obrigou as autoridades a reconhecer que o homem tinha sido curado.
O leproso anuncia o bem que Jesus fez a ele, e Jesus se torna um excluído. Jesus tinha proibido o leproso de falar sobre a cura. Mas não adiantou. O leproso, assim que partiu, começou a divulgar a notícia, de modo que Jesus já não podia entrar publicamente numa cidade. Permanecia fora, em lugares desertos. Por que? É que Jesus tinha tocado no leproso. Por isso, na opinião pública daquele tempo, Jesus, ele mesmo, era agora um impuro e devia viver afastado de todos. Já não podia entrar nas cidades. Mas Marcos mostra que o povo pouco se importava com estas normas oficiais, pois de toda a parte vinham a ele! Subversão total!
Resumindo. Tanto nos anos 70, época em que Marcos escreve, como hoje, época em que nós vivemos, era e continua sendo importante ter diante de nós modelos de como viver e anunciar a Boa Nova de Deus e de como avaliar a nossa missão. Nos versículos 16 a 45 do primeiro capítulo do seu evangelho, Marcos descreve a missão da comunidade e apresenta oito critérios para as comunidades do seu tempo poderem avaliar a sua missão. Eis o esquema:
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TEXTO |
ATIVIDADE DE JESUS |
OBJETIVO DA MISSÃO |
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1. Marcos 1,16-20 |
Jesus chama os primeiros discípulos |
formar comunidade |
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2. Marcos 1,21-22 |
o povo fica admirado com o ensino |
criar consciência crítica |
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3. Marcos 1,23-28 |
Jesus expulsa um demônio |
combater o poder do mal |
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4. Marcos 1,29-31 |
a cura da sogra de Pedro |
restaurar a vida para o serviço |
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5. Marcos 1,32-34 |
a cura de doentes e endemoninhados |
acolher os marginalizados |
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6. Marcos 1,35 |
Jesus levanta cedo para rezar |
ficar unido ao Pai |
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7. Marcos 1,36-39 |
Jesus segue em frente no anúncio |
não se fechar nos resultados |
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8. Marcos 1,40-45 |
a cura um leproso |
reintegrar os excluídos |
4) Para um confronto pessoal
1) Anunciar a Boa Nova é dar testemunho da experiência concreta que se tem de Jesus. O leproso, o que ele anuncia? Ele conta aos outros o bem que Jesus lhe fez. Só isso! Tudo isso! E é este testemunho que leva os outros a aceitar a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe. Qual o testemunho que você dá?
2) Para levar a Boa Nova de Deus ao povo, não se deve ter medo de transgredir normas religiosas que são contrárias ao projeto de Deus e que dificultam a comunicação, o diálogo e a vivência do amor. Mesmo que isto traga dificuldades para a gente, como trouxe para Jesus. Já tive esta coragem?
5) Oração final
Vinde, prostrados adoremos, de joelhos diante do Senhor que nos criou. Ele é o nosso Deus, e nós o povo sob seu governo, o rebanho que ele conduz. (Sl 94, 6-7)
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1) Oração
Ó Deus, atendei como pai às preces do vosso povo; dai-nos a compreensão dos nossos deveres e a força de cumpri-los. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
2) Leitura do Evangelho (Marcos 1, 29-39)
Naquele tempo, 29Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, para a casa de Simão e André. 30A sogra de Simão estava de cama, com febre, e eles logo contaram a Jesus. 31E ele se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se. Então, a febre desapareceu; e ela começou a servi-los.
32À tarde, depois do pôr-do-sol, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio. 33A cidade inteira se reuniu em frente da casa. 34Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios. E não deixava que os demônios falassem, pois sabiam quem ele era.
35De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto. 36Simão e seus companheiros foram à procura de Jesus. 37Quando o encontraram, disseram: "Todos estão te procurando". 38Jesus respondeu: "Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim". 39E andava por toda a Galileia, pregando em suas sinagogas e expulsando os demônios. - Palavra da Salvação.
3) Reflexão
Jesus restaura a vida para o serviço. Depois de participar da celebração do sábado na sinagoga, Jesus entrou na casa de Pedro e curou a sogra dele. A cura fez com ela se colocasse de pé e, com a saúde e a dignidade recuperadas, começasse a servir as pessoas. Jesus não só cura a pessoa, mas cura para que a pessoa se coloque a serviço da vida.
Jesus acolhe os marginalizados. Ao cair da tarde, terminado o sábado na hora do aparecimento da primeira estrela no céu, Jesus acolhe e cura os doentes e os possessos que o povo tinha trazido. Os doentes e possessos eram as pessoas mais marginalizadas naquela época. Elas não tinham a quem recorrer. Ficavam entregues à caridade pública. Além disso, a religião as considerava impuras. Elas não podiam participar na comunidade. Era como se Deus as rejeitasse e as excluísse. Jesus as acolhe. Assim, aparece em que consiste a Boa Nova de Deus e o que ela quer atingir na vida da gente: acolher os marginalizados e os excluídos, e reintegrá-los na convivência da comunidade.
Permanecer unido ao Pai pela oração. Jesus aparece rezando. Ele faz um esforço muito grande para ter o tempo e o ambiente apropriado para rezar. Levantou mais cedo que os outros e foi para um lugar deserto, para poder estar a sós com Deus. Muitas vezes, os evangelhos nos falam da oração de Jesus no silêncio (Mt 14,22-23; Mc 1,35; Lc 5,15-16; 3,21-22). É através da oração que ele mantém viva em si a consciência da sua missão.
Manter viva a consciência da missão e não se fechar no resultado já obtido. Jesus se tornou conhecido. Todos iam atrás dele. Esta publicidade agradou aos discípulos. Eles vão em busca de Jesus para levá-lo de volta junto do povo que o procurava, e lhe dizem: Todos te procuram. Pensavam que Jesus fosse atender ao convite. Engano deles! Jesus não atendeu e disse: Vamos para outros lugares. Foi para isto que eu vim! Eles devem ter estranhado! Jesus não era como eles o imaginavam. Jesus tem uma consciência muito clara da sua missão e quer transmiti-la aos discípulos. Não quer que eles se fechem no resultado já obtido. Não devem olhar para trás. Como Jesus, devem manter bem viva a consciência da sua missão. É a missão recebida do Pai que deve orientá-los na tomada das decisões.
Foi para isto que eu vim! Este foi o primeiro mal-entendido entre Jesus e os discípulos. Por ora, é apenas uma pequena divergência. Mais adiante no evangelho de Marcos, este mal-entendido, apesar das muitas advertências de Jesus, vai crescer e chegar a uma quase ruptura entre Jesus e os discípulos (cf. Mc 8,14-21.32-33; 9,32;14,27). Hoje também existem mal-entendidos sobre o rumo do anúncio da Boa Nova. Marcos ajuda a prestar atenção nas divergências, para não permitir que elas cresçam até à ruptura.
4) Para um confronto pessoal
1) Jesus não veio para ser servido mas para servir. A sogra de Pedro começou a servir. E eu, faço da minha vida um serviço a Deus e aos irmãos e às irmãs?
2) Jesus mantinha a consciência da sua missão através da oração. E a minha oração?
5) Oração final
Povos todos, louvai o SENHOR, nações todas, dai-lhe glória; porque forte é seu amor para conosco e a fidelidade do SENHOR dura para sempre. (Sl 116)
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Pesquisador do IBGE projeta que já em 2022 seguidores do papa devem ser menos de 50% da população
Quando se diz "uma carola que virou crente", a ambulante Maria Aparecida dos Santos, 43, não deixa de ser uma boa metáfora para o Brasil.
Assim como essa ex-"tiete do João Paulo 2º" (na definição da própria) que há 15 anos migrou para a Assembleia de Deus, o país vive há três décadas uma transição religiosa que poderá, em 12 anos, destronar o catolicismo —os tais "carolas"— como a maior fé nacional.
Após cinco séculos de predomínio da Santa Sé, vem aí a era da maioria evangélica —os "crentes". A previsão é de José Eustáquio Alves, doutor e pesquisador em demografia.
Entre 1991 e 2010, os católicos caíam 1% ao ano, e os evangélicos cresciam 0,7%. Segundo Alves, são várias as indicações de que a queda do primeiro grupo passou para 1,2% nos últimos anos, a e a subida do segundo, para 0,8%. Se aplicar estas taxas num modelo de projeção geométrica, diz o demógrafo, chegamos a essa projeção.
De 2010 para cá, o tropeço seria ainda maior. Hoje, católicos são metade do país, segundo pesquisa Datafolha feita nos últimos dias 5 e 6 de dezembro. E foram os evangélicos que melhor ocuparam esse espaço vago, seguidos por pessoas que se declaram de outras religiões ou sem nenhuma delas (este grupo, no período, expandiu-se em torno de 0,4% por ano).
Alves, que se aposentou neste ano do IBGE, projeta que a partir de 2022, o ano em que o país comemora sua independência, os seguidores do Vaticano devem encolher para menos de 50% e, dez anos depois, seriam 38,6% da população. Já os evangélicos alcançariam em 2032 a marca dos 39,8%. Ou seja, superariam os irmãos de fé cristã.
Esse segmento, a mais veloz locomotiva dos protestantes, um movimento que se separou da Igreja Católica meio milênio atrás, teria então maioria simples, mas não absoluta —mais do que a metade populacional.
"Não sei se este crescimento vai continuar. Não existe nenhum determinismo nesta questão", diz Alves. "Mas é uma possibilidade que está aberta, e os evangélicos podem, sim, ser maioria absoluta lá pelos idos de 2050. O futuro dirá?"
De tão dinâmica, essa placa tectônica de fé fez o próprio pesquisador reajustar suas expectativas. Em artigo de 2017, Alves calculou que evangélicos ultrapassariam católicos até 2040. Esse deslocamento demográfico aligeirou, contudo, o que o levou a antecipar essa tendência em alguns anos.
Para o pesquisador, palavras-chave para essa aceleração: ativismo evangélico, passividade católica e maior interação entre igrejas evangélicas e política. E pode colocar nessa equação o apoio em massa dos maiores líderes do segmento ao presidenciável Jair Bolsonaro em 2018.
Três décadas bastaram para o Brasil perder um monopólio relativamente estável desde a chegada dos portugueses —que celebraram a primeira missa por aqui em 26 de abril de 1500, quatro dias após desembarcarem.
"A Igreja Católica participou do projeto de colonização e cresceu muito se fortalecendo junto às populações rurais, com baixa mobilidade social e com pouco dinamismo", afirma Alves.
O primeiro censo demográfico nacional, de 147 anos atrás, num território ainda sob auspícios imperiais, revelou que 99,7% da população (quase 10 milhões de pessoas) se curvava à Santa Sé.
É claro que é preciso certa cautela para se debruçar sobre esses dados, diz o pesquisador. "Em 1872, éramos uma monarquia, e a católica era a religião oficial. Outras religiosidades eram perseguidas ou bastante controladas. Por exemplo, todos os escravos foram definidos como católicos, sem ter chance de escolhas. As crenças indígenas também não apareceram."
Para Clemir Fernandes, pastor batista e sociólogo do Iser (Instituto de Estudos da Religião), outro cuidado a ser tomado diz respeito ao potencial de dilatação dos evangélicos. "Todos os movimentos têm tetos de crescimento, pois estão em interação com muitos outros."
Cravar se o grupo religioso vai ou não ser majoritário no país entra no terreno da futurologia, afirma. Mas comparações com fenômenos vizinhos seriam possíveis.
Fernandes lembra da Coreia do Sul. O país tem um número significativo de pessoas sem quaisquer filiações religiosas (56%, segundo censo de 2015). O maior bloco de fé é o protestante, com quase 20%, excedendo budistas e católicos.
Essa dianteira, contudo, se estabilizou, aponta o sociólogo. "Nos anos 1980 e 1990, evangélicos sul-coreanos aumentaram em taxas muito elevadas. Já nos anos 2000 isso arrefeceu, e a Igreja Católica voltou a crescer."
Para ele, são multicausais os fatores que levaram evangélicos ao atual patamar no Brasil. Se pararmos para pensar, o grupo propulsionou sua presença a partir da redemocratização, "quando a sociedade tradicionalmente católica passa por mudanças, e havia espaço para novas possibilidades, incluindo novas crenças".
Fora que a oratória evangélica, sobretudo a neopentecostal, parece ser o número dos nossos tempos, diz Fernandes. "A pregação católica é mais coletivista, e o mundo se tornou mais individualista, procurando resolver problemas de maneira mais individual. A evangélica tem uma pregação que conjuga esse tipo de apelo."
E ela atende também a tempos mais apegados à customização. "Essas igrejas têm uma diversidade enorme de discursos diferenciados para movimentos, tribos e classes sociais. Tem para todos os gostos, e é bom que se diga sempre, até para LGBTs, o que não acontece tanto no mundo católico, de certa homogeneidade."
Uma senhora com mais de dois milênios, a Igreja Católica pode ser mais lenta para se adaptar a novas realidades, mas não dá para menosprezar uma tradição de séculos, e parada ela também não está. A Renovação Carismática dos católicos é um bom exemplo de reação, segundo Fernandes.
"O declínio seria muito maior se não fosse a atuação forte dessa corrente em meios de comunicação, com um estilo de pregação e uma estética litúrgica muito parecidos com os pentecostais e neopentecostais, segmento que mais cresce no mundo evangélico."
Maria Aparecida, nossa "ex-carola" que hoje segue a pentecostal Assembleia de Deus, ama ouvir Marcelo Rossi e outros padres cantores, marca dos carismáticos. Também foi com a cara "deste novo papa aí", Francisco, que lidera a Igreja desde 2013. "Ele é fofinho, o anterior [Bento 16] era mais chatola", diz.
Batizada evangélica numa piscina dentro de uma igreja que não existe mais, Maria conta que virar crente foi a melhor coisa que aconteceu para sua vida. "Mas não tenho birra com os católicos, não. Se eles são maioria, se é a gente, o que importa é o Senhor nosso Deus ser soberano. Amém?". Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
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1-Oração
Inspire em sua bondade paterna, ó Senhor, os pensamentos e propósitos do seu povo em oração, para ver o que ele tem que fazer e ter força para fazer o que ele viu. Por Cristo Nosso Senhor.
2-Lendo o Evangelho (Marcos 1, 21-28)
Naquele momento, na cidade de Cafarnaum, Jesus, que entrou na sinagoga no sábado, começou a ensinar. E ficaram maravilhados com o ensino dele, porque ele os ensinou como alguém que tem autoridade e não gosta de escribas.
Então, um homem que estava na sinagoga, possuído por um espírito imundo, gritou: "O que tem a ver conosco, Jesus de Nazaré? Você veio nos arruinar! Eu sei quem você é: o santo de Deus ”. E Jesus o repreendeu: “Cale a boca! Saia desse homem. " E o espírito imundo, despedaçando-o e gritando alto, saiu dele.
Todos ficaram apavorados, tanto que se perguntaram: "O que é isso? Uma nova doutrina ensinada com autoridade. Ele até comanda espíritos imundos e eles lhe obedecem! "
Sua fama se espalhou imediatamente por toda a Galileia. Palavra da Salvação.
3- Reflexão
A sequência dos evangelhos dos dias desta semana
O evangelho de ontem informava sobre a primeira atividade de Jesus: chamou quatro pessoas para formar comunidade com ele (Mc 1,16-20). O evangelho hoje descreve a admiração do povo diante do ensinamento de Jesus (Mt 1,21-22) e o primeiro milagre expulsando um demônio (Mt 1,23-28). O evangelho de amanhã narra a cura da sogra de Pedro (Mc 1,29-31), a cura de muitos doentes (Mc 1,32-34) e a oração de Jesus num lugar isolado (Mc 1.35-39). Marcos recolheu estes episódios, que eram transmitidos oralmente nas comunidades, e os uniu entre si como tijolos numa parede. Nos anos 70, ano em que ele escreve, as Comunidades necessitavam de orientação. Descrevendo como foi o início da atividade de Jesus, Marcos indicava como elas deviam fazer para anunciar a Boa Nova. Marcos faz catequese contando para as comunidades os acontecimentos da vida de Jesus.
Jesus ensina com autoridade, diferente dos escribas. A primeira coisa que o povo percebe é o jeito diferente de Jesus ensinar. Não é tanto o conteúdo, mas sim o jeito de ensinar, que impressiona. Por este seu jeito diferente, Jesus cria consciência crítica no povo com relação às autoridades religiosas da época. O povo percebe, compara e diz: Ele ensina com autoridade, diferente dos escribas. Os escribas da época ensinavam citando autoridades. Jesus não cita autoridade nenhuma, mas fala a partir da sua experiência de Deus e da vida. Sua palavra tem raíz no coração.
Vieste para nos destruir! Em Marcos, o primeiro milagre é a expulsão de um demônio. Jesus combate e expulsa o poder do mal que tomava conta das pessoas e as alienava de si mesmas. O possesso gritava: “Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus!” O homem repetia o ensinamento oficial que apresentava o messias como “Santo de Deus”, isto é, como um Sumo Sacerdote, ou como rei, juíz, doutor ou general. Hoje também, muita gente vive alienada de si mesma, enganada pelo poder dos meios de comunicação, da propaganda do comércio. Repete o que ouve dizer. Vive escrava do consumismo, oprimida pelas prestações em dinheiro, ameaçada pelos cobradores. Muitos acham que sua vida ainda não é como deveria ser se eles não puderem comprar aquilo que a propaganda anuncia e recomenda.
Jesus ameaçou o espírito mau: “Cale-se, e saia dele!” O espírito sacudiu o homem, deu um grande grito e saiu dele. Jesus devolve as pessoas a si mesmas. Devolve a consciência e a liberdade. Faz a pessoa recuperar o seu perfeito juízo (cf. Mc 5,15). Não é nem era fácil, nem ontem, nem hoje, fazer com que a pessoa comece a pensar e atuar diferentemente da ideologia oficial.
Ensinamento novo! Ele manda até nos espíritos impuros. Os dois primeiros sinais da Boa Nova que o povo percebe em Jesus, são estes: o seu jeito diferente de ensinar as coisas de Deus, e o seu poder sobre os espíritos impuros. Jesus abre um novo caminho para o povo conseguir a pureza. Naquele tempo, uma pessoa declarada impura já não podia comparecer diante de Deus para rezar e receber a bênção prometida por Deus a Abraão. Ela teria que purificar-se primeiro. Esta e muitas outras leis e normas dificultavam a vida do povo e marginalizavam muita gente como impura, longe de Deus. Agora, purificadas pelo contato com Jesus, as pessoas impuras podiam comparecer novamente na presença de Deus. Era uma grande Boa Notícia para eles!
4) Per um confronto pessoal
1) Será que posso dizer: “Eu sou plenamente livre, senhor de mim mesmo”? Se não o posso dizer de mim mesmo, então algo em mim é possesso por outros poderes. Como faço para expulsar este poder estranho?
2) Hoje muita gente não vive, mas é vivido. Não pensa, mas é pensado pelos meios de comunicação. Já não tem pensamento crítico. Já não é dono de si mesmo. Como expulsar este “demônio”?
5-Oração final
Ó Senhor, nosso Deus, quão grande é o seu nome em toda a terra! O que é homem, porque você se lembra disso, por que você cuida do filho do homem? (Sl 8)
- Detalhes

Entre escândalos e intrigas de poder no Vaticano, a série The New Pope (O Novo Papa, em tradução livre), do diretor italiano Paolo Sorrentino – dá continuidade a The Young Pope, que entrará no ar a partir de 13 de janeiro no Canal+ – propõe um profundo questionamento sobre o mal, o pecado e o combate espiritual. A reportagem é de Marie-Lucile Kubacki, publicada por La Vie, 09-01-2020. A tradução é de André Langer.
O mal não é bonito. Ele pode adornar-se com o traje da sedução, às vezes, mas sob as sombras dele, seu rosto real é triste, repulsivo e assustador. É exatamente o que Paolo Sorrentino mostra na série O Novo Papa, que será transmitida a partir de 13 de janeiro no Canal+. Esta sequência de The Young Pope começa com o coma em que o muito conservador Papa Pio XIII da primeira temporada, encarnado por um indecifrável Jude Law, entra após um transplante de coração. Ao mesmo tempo, o todo-poderoso cardeal secretário de Estado, Angelo Voiello (interpretado por Silvio Orlando, verdadeira star na Itália), descobre um vídeo em que um novo califa islâmico declara guerra aos cristãos, enquanto o escândalo da pedofilia na Igreja Católica nunca para de crescer. Sozinho diante do abismo, empurrado por um estranho empresário, ele decide convocar um conclave.
Mas quem pode suceder o fascinante papa de ferro, sob cujas janelas multidões de fãs idólatras vigiam dia e noite, enquanto sua respiração é transmitida ao vivo pelo rádio? A guerra de sucessão começa. Angelo Voiello se veria trocando o roxo pelo arminho, mas na realidade não é uma unanimidade entre os outros cardeais. A maioria deles o considera muito perigoso, aquele que, ao longo dos anos na Secretaria de Estado, não demonstrou piedade, acumulando dossiês sobre cada um deles. Há também o cardeal Hernandez. O homem (também interpretado por Silvio Orlandi) é – detalhe altamente cômico – o sósia perfeito de Voiello, com um par de óculos de tartaruga e uma verruga na bochecha. Mas parece estar imune à cobertura dos abusos...
O terceiro papável possível, o misantropo John Brannox (John Malkovitch), um aristocrata inglês fã de John Henry Newman, conhecido por ter causado a passagem de uma grande quantidade de anglicanos à Igreja Católica Romana. Mas o artista, com um visual acentuado pelo uso do khol e um personagem parecido com uma diva, não se dignou a fazer o deslocamento até o local do conclave. Enquanto nem Hernandez nem Voiello conseguiram ganhar a maioria, Voiello lançou rapidamente: “Os cardeais adoram papas fracos”. E, portanto, é um homem quase desconhecido que aparece na janela, Francisco II.
The New Pope é de uma normalidade desorientadora. Ele gagueja com voz aguda quando perguntado se aceita o encargo. Enquanto todo mundo ri dissimuladamente, imaginando como será fácil manipulá-lo, o novo pontífice tira todo mundo do caminho, interpretando o radical franciscano. E é um festival feliniano de vestes marrons, bloqueando o caminho das cozinhas para os cardeais que estão sendo presos, enquanto os sem-teto ocupam seus lugares no refeitório e as caravanas de migrantes entram no Vaticano. Adorado pela mídia e odiado pela cúria, Francisco II morre poucas semanas após sua eleição, brutalmente e em circunstâncias misteriosas, abrindo caminho para um segundo conclave.
Escaldados por esse precedente, os cardeais da cúria querem reforçar seu controle. E, para isso, decidem ir ‘pescar’ eles mesmos seu “homem”: o melancólico Sir John Brannox. Entrincheirado com seus pais na mansão da família, ele se veste com um roupão de seda, assombrado pela lembrança de seu irmão gêmeo Adam, um padre como ele, que todo mundo preferia a ele. No meio de retratos de família, eles lhe garantem que seria um excelente papa...
Esteta místico, intelectual de outra era, mas acima de tudo prisioneiro de sua melancolia e de sua ferida por sempre ter visto seus pais preferirem seu irmão a ele, convencido de que Deus não o ama, mas completamente vulnerável à lisonja, Brannox é uma presa ideal. Ele se torna João Paulo III, exceto por uma pista – cuidado, spoiler: a que ele deu a Lenny Belardo, Pio XIII, sempre mergulhado no coma, embora esteja ficando sempre mais leve.
Devemos entendê-lo a partir deste resumo: O Novo Papa não tem nenhuma pretensão de realismo. Trata-se de uma ficção, e esse viés é plenamente assumido – ao contrário do filme Os Dois Papas, de Fernando Meirelles, transmitido pela Netflix pouco antes do Natal. Assim, a estética oscila entre punk-rock, renascentista e gótico, trágico e burlesco. A inspiração de Paolo Sorrentino empresta de Pier Paolo Pasolini – como ele, prefere um “cinema de poesia” a um “cinema de prosa” e, como ele, recorre a tomadas fixas apoiadas, trabalhadas como mesas –, de Federico Fellini – o filme é atravessado por ambientes de festas carnavalescas vagamente perturbadoras – e de William Shakespeare – tanto no tratamento dos temas do poder, da misantropia e da traição quanto no tom tragicômico e na arte do macabro.
Além disso, o diretor não hesita em puxar todas as cordas do escândalo: hipocrisia e homossexualidade ativa de alguns prelados, fraude financeira no mais alto nível, assédio sexual entre freiras, ameaças, pressões e chantagem estão no jogo. Se, de acordo com a fórmula de São Francisco de Sales, “là ou Il y a de l’homme, Il y a de l’hommerie” (onde há homem, há baixezas), a baixeza eclesial e vaticana é amplamente explorada, em alguns episódios, a ponto de causar desconforto e náusea. Assim, para tentar argumentar com o governo italiano, determinado a acabar com os privilégios fiscais da Igreja, um cardeal organiza uma orgia com um diplomata, um financista mafioso e uma jovem prostituta, naquilo que parece uma capela onde a cocaína foi colocada no altar.
Algumas cenas são chocantes, mas mesmo as provocações mais delirantes de Sorrentino contêm questões que parecem muito verdadeiras. Um papa que não pode mais exercer seu ministério porque é incapaz de fazê-lo – como Pio XIII, em coma indefinido – deixa de sê-lo? Até que ponto um santo pode ser um grande pecador? Qual é a fronteira entre o pecado e a corrupção? Deus “ama” alguns papas mais do que a outros? O que era idolatria (na primeira temporada, Pio XIII recusou as fotos e os objetos à sua semelhança, o que apenas aumentou em dez vezes o fascínio por sua pessoa)? Precisamos de santos para governar a Igreja? Qual é o preço espiritual dos ajustes diplomáticos e políticos necessários no governo da Igreja? Até que ponto o papa deve se envolver na política?
A série mostra claramente o limite de um papa que é prisioneiro demais de sua história pessoal e de suas fragilidades, por exemplo. Assim, Brannox, sobre quem não sabemos se ele tem mais de Caim ou de Abel no drama familiar que o viu perder o irmão, recusa-se a enfrentar sua história tanto quanto a fazer política, uma arte que ele julga muito pequeno-burguesa. “As virtudes cristãs são poéticas, defende-se, citando o cardeal Newman: a delicadeza e a graça, a compaixão e a modéstia. Onde reina a vulgaridade, os sentimentos servem à retórica: a raiva, a indignação, a emulação em espírito de luta. Temos que nos elevar, seguir a poesia e deixar a retórica para os outros”. “Receio que Newman não seja suficiente”, retruca-lhe seu conselheiro. “O mundo está mais uma vez confirmando que não se importa com a poesia, continua Brannox. Mas eu não sou o mundo”.
De fato, essa recusa em sujar as mãos ao enfrentar as “coisas humanas” leva-o a se deixar manipular por cortesãos mais corruptos do que os outros – “o verdadeiro papa é aquele que conhece os segredos do papa”, afirma cinicamente um deles. E a confessar esta terrível admissão de fraqueza: “Para salvar meu pontificado instável, pus os pés no jardim do pecado, fingindo não entender nada, mas eu sei”.
O pecado, no entanto, não é reservado ao Vaticano. Se for representado simbolicamente por uma espécie de pequeno verme que atravessa a tela de tempos em tempos, ou por personagens claramente malignos como o luciferiano “Essence”, um clérigo glabro e viscoso, Sorrentino também aparece nesse elegante advogado rico que, através de um paroquiano corrupto, compra os serviços de Esther (Ludivine Sagnier), uma jovem mãe à beira da ruína financeira, para que ela se torne a “assistente sexual” de seu filho, que sofre de pesadas malformações de nascimento: “Você é uma santa, Esther, declarou-lhe enquanto assinava um cheque. “Eu sou uma prostituta”, responde esta última. “Você sabe a diferença entre uma santa e uma prostituta, Esther? – Não. – Não há nenhuma”.
A força de Sorrentino vem da recusa do maniqueísmo. Às vezes, são os maiores pecadores que oferecem as melhores surpresas. É o caso do maquiavélico e temido político Voiello – aquele que cinicamente declara: “São necessários ratos como eu para preparar o terreno fértil para a santidade” – e que, com total discrição, cuida de um jovem tetraplégico que ele considera como o guardião de sua alma. Isso dá origem a uma cena avassaladora, quando Voiello, visitando seu pai espiritual, surdo e cego, instalado no meio de uma estufa, apresenta seu protegido, com um nó na garganta: “Como você, eu gosto das flores, e hoje eu te trouxe a mais linda de todas”.
Pelo fato de que não busca tornar “verdadeiro” – muito poucas referências explícitas a fatos históricos, exceto a morte de João Paulo I e a homenagem tragicômica ao atual Papa Francisco, através do personagem de Francisco II, que é uma espécie de caricatura burlesca de Bergoglio – e, principalmente, por não ter medo de tocar no sobrenatural, Paolo Sorrentino assina, mais do que uma grande série sobre os mistérios do poder no Vaticano, uma obra poética e profunda sobre o mal e o combate espiritual. Um mergulho metafísico no abismo da alma humana, ofegante como um filme de suspense, servido por planos cuidadosos e um elenco dos sonhos: além de John Malkovitch, Jude Law, Silvio Orlando e Ludivine Sagnier, já mencionados, encontramos Cécile de France, Sharon Stone e Marylin Manson, que competem em charme e graça. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
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