Olhar Jornalístico

Rezemos pela recuperação de Frei Hendrikus Wilhelmus Johannes Haamberg ou, Frei Gabriel, do Carmo de Mogi das Cruzes, São Paulo.

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Publicado em 06 maio 2026
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  • Hendrikus Wilhelmus Johannes Haamberg

 

No Dia do santo de sua devoção- Santo Ângelo, Frei Gabriel já saiu do hospital após passar por uma cirurgia de 3 horas e já está no conventão/SP, onde ficará até a próxima quinta-feira em recuperação e atenção médica. O nosso agradecimento a comunidade conventual pelo carinho e apoio na pessoa do Prior Provincial.

Convento do Carmo da Bela Vista, São Paulo, 5 de maio-2026, Festa de Santo Ângelo, Mártir Carmelita.

Morre Frei Paulo Gollarte aos 93 anos

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Publicado em 01 maio 2026
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A Província Carmelitana Fluminense da Ordem do Carmo comunicou, com pesar, o falecimento de Frei Paulo Gollarte, O.Carm., ocorrido nesta quarta-feira, 29, aos 93 anos, em São Paulo. Ele exercia a função de Vigário Paroquial na Paróquia Santa Teresa de Jesus, no bairro do Itaim Bibi, por cerca de 30 anos.

Nascido no bairro da Mooca, em São Paulo, em 9 de agosto de 1932, filho de Manuel Gollarte e Maria Pellaro, Frei Paulo iniciou sua formação no Colégio Santo Alberto, dos Padres Carmelitas, na Bela Vista, onde despertou sua vocação religiosa. Desde a infância, nutria o desejo de celebrar no altar da Basílica Nossa Senhora do Carmo.

Ingressou no Seminário do Carmo, em Itu, e foi ordenado sacerdote em 7 de julho de 1957, na Capela do Colégio Internacional Santo Alberto, em Roma, onde concluiu os estudos de Teologia. Na Pontifícia Universidade Gregoriana, obteve o mestrado em Ciências Sociais, com a tese “A nacionalização na doutrina social da Igreja”, e o doutorado com o trabalho “Migração e Família”. Durante esse período, realizou pesquisa de campo em Portugal, analisando o impacto da migração — especialmente no fluxo Portugal-Brasil — sobre a unidade familiar.

Ao longo de sua trajetória, exerceu importantes funções na Ordem do Carmo. Foi eleito Superior Provincial por dois triênios (1988–1990 e 1997–2002), além de ter atuado junto ao Comissariado Geral de Portugal. Entre 1990 e 1996, foi pároco da Paróquia Santa Teresa de Jesus, onde posteriormente continuou seu ministério como vigário paroquial.

Frei Paulo também se destacou como autor de livros, artigos e editoriais. Foi membro da Academia Teresopolitana de Letras e publicou obras como Teresópolis: Dimensões de uma joia, Pensando em Voz Alta, Quando dizer não é preciso e Oremos com Maria, em coautoria com Frei Claudio van Balen, além de três volumes de homilias: Deus Compromete – Ciclo A, Deus tem a Palavra – Ciclo B e À escuta de Deus – Ciclo C.

Em nota, a Província Carmelitana Fluminense manifestou solidariedade aos familiares: “Neste momento de dor, unimo-nos em oração a todos os familiares, pedindo a Deus que conceda ao Frei Paulo o descanso eterno e que conforte os corações entristecidos pela sua partida”. Fonte: https://osaopaulo.org.br

Nota de Falecimento: Morre Frei Paulo Gollarte, O. Carm.

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Publicado em 30 abril 2026
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  • Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo,
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Venho comunicá-los, com pesar, o falecimento de nosso irmão, Frei Paulo Gollarte,  O. Carm.

Damos graças a Deus por sua vida e vocação, vividas com fidelidade em nossa Província e na Ordem. Confiamos que o Senhor o acolha em sua paz eterna. Unidos na esperança da Ressurreição, recomendamos sua alma à intercessão de Nossa Senhora do Carmo e pedimos orações por seu descanso eterno.

“Dai-lhe, Senhor, o descanso eterno, e brilhe para ele a vossa luz.”

 

Velório na Paróquia Santa Teresa de Jesus, Itaim Bibi, São Paulo


8h Início do Velório com Missa de Corpo Presente.

12:15 Missa de Corpo Presente.

15h Missa de Corpo Presente e Exéquias.

16h Sepultamento VOTC - Consolação.

 

BIOGRAFIA

Nascido no bairro da Moóca em São Paulo no ano de 1932, filho de Manuel Gollarte e de Maria Pellaro, Frei Paulo estudou no Colégio Santo Alberto dos Padres Carmelitas, na Bela Vista, quando foi se afeiçoando cada vez mais à Igreja.

Desde criança, sonhava em celebrar no altar da Basílica Nossa Senhora do Carmo. Assim, ingressou no Seminário do Carmo em Itu e, em 7/07/1957, foi ordenado sacerdote na Capela do Colégio Internacional Santo Alberto em Roma, onde esteve para terminar os estudos de Teologia. 

Na Faculdade de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, fez o mestrado com a tese “A nacionalização na doutrina social da Igreja”. Também em Roma defendeu a tese de doutorado com o título “Migração e Família”. Estagiou em Portugal no exercício da pesquisa de campo entre as famílias ali residentes para estudar o impacto da emigração sobre a unidade familiar, em especial no fluxo migratório Portugal-Brasil. 

Por dois triênios 1988-1990, 1997-2002, consecutivos foi eleito Superior Provincial da mesma Província e do Comissariado geral de Portugal. No sexênio de 1990 a 1996, foi nomeado pároco da Paróquia de Santa Teresa de Jesus e Coordenador das paróquias do Setor Jardins, na Arquidiocese de São Paulo. Frei Paulo é atualmente Prior da Paróquia Santa Teresa de Jesus, no Itaim Bibi. 

Em 2014 foi eleito já com 83 anos de idade, terceiro conselheiro do governo da Província Carmelitana de Santo Elias. Em 2015 foi perito do provincial para a congregação das províncias em Fátima, em Portugal.

É autor de livros, artigos para revistas e editorais. Membro da Academia Teresopolitana de Letras, tem publicado os livros: “Teresópolis: Dimensões de uma joia”; “Pensando em Voz Alta”; “Quando dizer não é preciso”; “Oremos com Maria” em co-autoria com Frei Claudio van Balen e 3 volumes de suas homilias – “Deus Compromete – Ciclo A”; “Deus tem a Palavra – Ciclo B”; “À escuta de Deus – Ciclo C”.

“Não posso dizer que passou qual um vente, porque tudo é vivido dia a dia. Muitas foram as transformações da vida religiosa e da vida carmelitana. Posso garantir que a aragem ou o tufão do Concílio Vaticano II trouxe grandes transformações: um vento de primavera. Levou-me a reconhecer mais a fundo a vida religiosa que professei. A Ordem do Carmo foi muito receptiva à atualização aos novos tempos. Foram várias ondas que movimentaram este processo e, reconheço sinceramente, que a a atual corresponde bem ao que o livro do Apocalipse chama a volta ao primeiro amor” partilhou Frei Paulo Gollarte, O.Carm, na ocasião dos seus 70 anos de Ordem. 

ENTREVISTA COM FREI CARLOS MESTERS, CARMELITA.

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Publicado em 28 abril 2026
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Carlos Mesters chegou ao Brasil em 1949 como seminarista. Estudou em Roma e em Jerusalém, de  1954 a 1963 e desde então permanece entre nós. Considerado um dos maiores especialistas em Bíblia, um dos grandes biblicistas dos dias de hoje, esse frei holandês, que já publicou inúmeros livros, concedeu esta entrevista ao jovem Patrick, da Pastoral Jovem, para O Precursor.

 

Patrick.  As pessoas normalmente abrem a Bíblia e procuram respostas prontas para o que elas querem provavelmente porque não sabem como ler a Bíblia. O que afinal é a Bíblia e como lê-la?

 

Carlos Mesters.  Numa conversa, duas coisas são importantes: a pessoa com quem você fala e as coisas que ela diz. Para a Bíblia vale a mesma coisa: aquilo que está escrito e a pessoa, Deus, com quem você conversa. Para muitos basta o fato de a Bíblia ser Palavra de Deus. Não olham muito o assunto. Acho que tem que olhar os dois. É Deus quem fala, mas Ele fala de maneira humana. É a Palavra de Deus, mas na nossa linguagem humana. Por exemplo, se eu disser para você: “Patrick, vá tomar banho!”, você não vai tomar banho, porque você entende a nossa linguagem. Mas, se eu disser o mesmo para um alguém que não é brasileiro, ele vai responder: “Não vou não, porque tomei banho agora mesmo”. É que ele não entende a nossa linguagem. Assim também a bíblia tem uma linguagem que necessita você se acostumar um pouco. Tem expressões na Bíblia que podem criar dificuldades para quem não está acostumado com a linguagem dela. Daí a utilidade de algum cursinho de Bíblia, de um pouquinho de estudo, para se poder apreciar e entender melhor aquilo que a Bíblia fala.

 

Patrick.  Na Bíblia, especialmente os Evangelhos, em diversas partes, entram em contradições históricas, vamos dizer assim. E isso confunde um pouco. Qual é a idéia do Evangelho em si? Como o senhor diz em um dos seus livros: ‘as pessoas lêem os Evangelhos como lêem um livro de história’...

 

Carlos Mesters.  Sim. Por exemplo, você não pode tomar ao pé da letra tudo o que as pessoas dizem. Se o namorado diz: “Minha namorada é a moça mais bonita do mundo!”, ele afirma algo que é uma verdade para ele, mas não é verdade de fato. Você não pode tomar ao pé da letra, mas tem uma verdade por detrás disso. Se você tem quatro irmãos e pede para os quatro pintarem o rosto da mãe, vão ser quatro retratos iguais? As diferenças são contradições? Não! Cada um retrata o que vê na pessoa, um é de um jeito, o outro é de outro jeito. Se você compara o Pai Nosso de Lucas com o Pai Nosso de Mateus, você vê que não são iguais. É que uma comunidade o preservou de um jeito, e outra, de outro jeito. Veja as piadas de hoje. Você escuta uma e depois conta para os outros. Você conta igual? Não!, mas conta de acordo com a pessoa com quem você fala. Assim é também a transmissão oral, através da qual surgiram os quatro evangelhos. Por detrás dos Evangelhos, tem uma dupla fidelidade: uma, ser fiel ao que Jesus falou; outra, ser fiel à pessoa para qual eu falo. Se falo para uma criança, eu falo de um jeito, se falo para o prefeito da cidade, falo de outro jeito, mas transmito a mesma coisa. Essas diferenças existem. Não são contradições. A gente deve ver sempre o que está por detrás. Qual é a preocupação que tinha Mateus ou que tinha Lucas ao escrever o evangelho. E aí é importante um pouquinho de estudo para aquelas pessoas que se interessam mais. Outras não fazem esse estudo. Também não é necessário para todo mundo chegar a entender tudo isso. Quando você está na mesa, você faz estudo do sal na hora de comer? Não faz! Você pega o saleiro e coloca o sal na comida. A Palavra de Deus é como o sal que tem que entrar na comida da vida. Deve temperar a vida. Tem gente que estuda o sal, mas esquece de colocá-lo na comida. É importante estudar, mas o que importa mesmo é que seja colocado na comida. As duas coisas são importantes. Não sei se está ficando claro.

Patrick. Está sim... Vamos falar sobre Jesus. Hoje, existem estudos muito científicos sobre Jesus e algumas descobertas não estão de acordo  com a própria Bíblia, e já percebemos que a Bíblia não é um livro somente histórico. Mas, então, por que há essa procura tão grande hoje por Jesus e por que Ele é um personagem que conseguiu sobreviver esse tempo todo? O que Ele tem de diferente?

Carlos Mesters.  Hoje há muitos estudos sobre Jesus. O mais impor­tante é que ele nos trouxe uma nova experiência, uma nova imagem de Deus como Pai. Em Jesus, ficamos sabendo que Deus é Pai, Ele é o Filho. Isso é o mais importante. Os primeiros cristãos viviam isso. Foi só na medida em que vinham as dificuldades, é que eles começaram a refletir sobre isso e a defender sua fé. Esta experiência de Deus como Pai faz de todos nós irmãos e irmãs. Isso é o básico: amor a Deus é igual a amor ao próximo. Jesus nos revelou esta imagem de Deus. Deus é um Pai que nos ama e acolhe, e não um juiz que nos condena. Por isso, o povo andava atrás de Jesus porque a mensagem dele correspondia ao mais profundo desejo do coração humano. Era uma Boa Notícia, um Evagelho! Quando, nos anos oitenta, Mateus vai escrever para as comunidades de judeus convertidos, ele pensa nos problemas das comunidades e vai lembrando aquelas palavras de Jesus que possam ajudar aquelas comunidades. O mesmo vale para Marcos, Lucas e João. Cada um deles escreve para outro tipo de comunidade. Cada um deles lembra as mesmas palavras de Jesus, mas as relata de um jeito diferente, de acordo com as necessidades das suas comunidades. Assim surgiram as divergências que existem entre os quatro evangelhos. Além isso, no fim do primeiro século, houve grupos dissidentes chamados gnósticos, e outros. Eles também conservavam e transmitiam algumas palavras de Jesus, que agora se encontram nos assim chamados Evangelhos apócrifos. Nem todas palavras de Jesus foram escritos nos quatro Evangelhos. São João diz: “se eu fôssemos escrever tudo que Jesus falou, não bastava livro no mundo para escrever tudo”. Não é que Jesus tenha falado tanto, mas a experiência que eles tinham de Jesus era algo muito extraordinário. É como a gente diz quando escuta uma pessoa amiga: “Posso escutar uma eternidade porque ele não cansa!”. É nesse sentido que não havia livro que bastava para escrever tudo o que Jesus falou. Será que ficou claro?

 

Patrick. Ficou sim. Leonardo Boff disse certa vez que tão humano quanto Jesus só mesmo Deus. Afinal, o que pensar: é Deus que se torna homem ou o homem que se torna Deus?

 

Carlos Mesters.  O Papa Leão Magno, falecido lá pelo ano 400, tem uma frase que diz assim: “Jesus foi tão humano, mas tão humano, como só Deus pode ser humano”. Frase muito bonita! Às vezes, nós colocamos Jesus lá em cima e esquecemos que Ele é um ser humano igual a nós. É exatamente por ele ser Filho de Deus, que pôde ser tão humano. O mais importante que Deus quer de nós é que a gente seja humano. Ele não te fez ser humano? A primeira tarefa nossa é ser humano e humanizar a vida. E quando a gente humaniza, a gente se diviniza, porque nós nos tornamos como Deus nos quer. Jesus foi tão humano como só Deus pode ser humano. É o grande exemplo para nós. Eu acho isso muito bonito, porque é o centro da nossa Fé: acreditamos que Jesus é Deus e homem ao mesmo tempo.

 

Patrick. Quando se fala em Ressurreição, e o senhor mesmo escreve isso, a gente a pensa logo como aquele evento que aconteceu lá atrás, ou então projeta-se a Ressurreição para uma coisa futura, mas parece que a Ressurreição mesmo não tem muito sentido. O que realmente é a Ressurreição? Jesus ressuscitou mesmo? Como é que aconteceu isso? O que afinal aconteceu naquele domingo de Páscoa, há dois mil anos, que mudou radicalmente a vida daqueles discípulos e discípulas?

 

Carlos Mesters. A Fé na Ressurreição não é só crer em algo que aconteceu no passado, e que vai acontecer de novo no futuro, e nós hoje sem nada. A Ressurreição acontece agora: Quando pessoas, a partir da Palavra de Deus, começam a atuar. Quando pessoas, que estão na maior fossa da vida, levantam a cabeça. Quando se diz: “a esperança venceu o medo”, aquela frase que Lula falou. Ressurreição é crer que a vida é mais forte que a morte. E esta Ressurreição continua acontecendo de muitas maneiras. A Ressurreição de Jesus é a prova concreta de que isto é possível: Ele ressuscitou. Como a ressurreição de Jesus aconteceu concretamente? Se você for ler os Evangelhos e for comparando um com outro, nenhum concorda com o outro. Sabe por quê? Vou usar uma comparação: Quando você vai tomar banho na praia num domingo de sol, você tem que provar que o sol existe? Estou perguntando.

 

Patrick. Não.

 

Carlos Mesters. Porque você mesmo é uma prova de que o sol existe. Sua pele bronzeada mostra que o sol existe. Assim, os primeiros cristãos viviam dentro da experiência da Ressurreição e não se preocupavam em prová-la ou descrevê-la. Eles mesmos eram a prova. A própria comunidade deles de gente sem condição humana, quase todos escravos, sem medo de enfrentar o poder romano, sem medo das perseguições, dos leões na arena. Eles eram e continuam sendo a prova de que a Ressurreição é uma realidade. Ela está acontecendo hoje na vida de milhares e milhares de pessoas. Vocês aqui, vocês também são uma prova da Ressurreição. Vocês podiam estar tomando banho na praia, e se preocupam com outras coisas. Querem promover a vida. Ressurreição é como o rio Amazonas. Ele nasce aonde? No Peru, no alto dos Andes, onde você umas gotas de água caindo das grotas, formando um pequeno córrego. Se eu digo: “Patrick, este é o rio Amazonas!”, você nem acredita. E quando você vai na embocadura, o que você vê? Um rio de 400 km entrando no mar, provocando uma pororoca que vence até o mar, ou não? A Ressurreição é esta nossa humanidade toda, que sempre de novo levanta a cabeça, enfrenta o mal, busca saídas, condena a guerra, enfrenta o poder que mata, luta pela paz. Jesus é a prova de que isso é verdade. É o poder de Deus. A Fé na Ressurreição é a versão neo-testamentária de que Deus é o criador que consegue tirar vida da própria morte, que tira do nada coisas que ninguém acreditaria ser possíveis. Deu para entender o que é a Ressurreição? É o que está aí no mundo. Temos que tirar o véu e revelar essa Ressurreição palpitante que existe na vida das pessoas hoje, acontecendo no Brasil, na América, Latina, no mundo. Mas este grande rio da vida pode descambar e tomar uma direção errada, como aconteceu depois do cativeiro, em que houve uma Ressurreição muito grande, mas o povo voltou atrás e tudo desandou. Sempre tem que fazer revisão, conversão, e confrontar com a ressurreição de Jesus. Sempre será necessária uma atitude profética para poder corrigir e manter o rumo em direção à Ressurreição final.

 

Patrick. Os discípulos de Jesus, ao longo do tempo em que andaram com ele pela Palestina, custaram a entender os seus ensinamentos. Às vezes, não entendiam nada. Nós, hoje, também custamos a compreender suas palavras.

 

Carlos Mesters. Quando a gente lê os Evangelhos, percebe que os discípulos nem sempre entendiam o que Jesus falava. E se você for comparar entre si os quatro evangelhos, perceberá que quem mais insiste nesta incompreensão dos discípulos é Marcos. Sabe por quê? Porque quando ele, no ano setenta, escrevia era este o problema que a comunidade estava enfrentando. Durante a perseguição de Nero do ano 64, várias pessoas tinham abandonado da comunidade com medo de perseguição. Depois que terminaram as perseguições, eles se perguntavam: será que podemos voltar? Na comunidade havia gente que dizia: “Não pode mais voltar não. Rompeu, quebrou o fio, não tem mais conserto”. Outros diziam: “Pode voltar sim!” Marcos escreve para ajudar a comunidade a enfrentar este problema. Por isso, ele conta como os discípulos foram acompanhando Jesus e não entendiam nada, mas Jesus sempre os acolhe. E, no finzinho do Evangelho de Marcos, depois que Pedro negou e Judas traiu, Jesus chega a dizer: “Vão bater no pastor, e as ovelhas fugirão todas! Vocês todos vão fugir, mas depois da Ressurreição, eu vou chamar vocês de novo!” Com outras palavras, através das palavras de Jesus, Marcos está dizendo às comunidades: “Nós, que somos fracos e ignorantes como os discípulos, podemos até romper com Jesus. Jesus, porém, nunca vai romper conosco. Portanto, é possível voltar!”

 

Patrick: Afinal, é possível, para cada um de nós, principalmente os jovens, hoje, viver a utopia de Jesus?

 

É possível sim. A gente o vê na vida de tantos! Tanto jovem que hoje dá tudo de si. Aqui é bom lembrar uma coisa muito importante. Há muito jovem que não fala em Jesus, mas vive a justiça, ou não vive? Tem jovem que dá tudo de si pelos outros. Em Porto Alegre aconteceu o Fórum Social Mundial. Havia em torno de cem mil pessoas do mundo inteiro. Alguns deles eram cristãos, muitos jovens, a grande maioria talvez nem fosse cristão, mas todos eles estavam alí porque lutam pela justiça, procuram a paz, querem construir um mundo novo. E Jesus disse: “Felizes os que constroem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”. Jesus não diz: “Felizes os cristãos que constroem a paz”. Diz apenas: “Felizes os que constroem a paz”. Depois diz: “Felizes os que são perseguidos pela justiça”. Não diz: “Felizes os perseguidos que crêem em Jesus”, mas simplesmente “Felizes os que são perseguidos”. E no fim ele diz: “Vinde, benditos do meu Pai, porque vou dar o Reino para vocês”. Tem ainda aquela outra passagem do Juízo final, em que Jesus diz: “Tive fome e você me deu de beber. Tive sede e você me deu de beber” A pessoa respondeu: “Quando foi que vi o Senhor com fome e com sede?”Não estou lembrado!” E jesus responde: Foi aquela vez que você deu de comer e de beber àquele pobre! Era eu!”. Jesus não pergunta se a pessoa teve ou não teve fé. Mas pergunta pela prática do amor ao próximo, da justiça, do engajamento pelo bem do outro. Esta utopia está sendo vivida por muita gente. Vou contar um fato: Um rapaz chamado Jeová, na época da repressão política, foi preso e torturado, e ficou na cela junto com o bispo Marcelo Carvalhera, que agora é arcebispo de João Pessoa, que também foi preso. Ainda não era bispo. Jeová, na prisão, enquanto estava sendo torturado no pau de arara, dizia para os soldados: “É só isso que vocês sabem fazer para descobrir a verdade? Vocês são muito fracos”. Os torturadores, de tanta raiva quebraram os dois braços e uma perna dele. De volta na cela, Marcelo disse para ele assim: “Jeová, por que você fez isso? Eles podiam ter matado você!” Jeová que se dizia marxista ateu, disse: “Marcelo, mas eu acredito nisso. Minha vida teria tido um sentido”. Num domingo, Marcelo teve licençá para celebrar a missa para os presos. Jeová, com a perna e os braços engessados, ficou junto do Marcelo, perto do altar no corredor. Os presos, através das grades, foram fazendo o comentário das leituras da Bíblia. Quando foi na hora da comunhão, Jeová disse assim: “Eu também quero!”. Aí o Marcelo pensou: “Ele se diz ateu. Será que posso dar a comunhão para ele?” Ele fez um raciocínio teológico rápido e lembrou a frase de Jesus: “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão”, e deu a comunhão. Jeová entrou num silêncio muito profundo. Voltaram para a cela e, depois de muito tempo, ele disse assim para Marcelo: “Isso foi muito bom! Precisa repetir isso!” Significa que a Eucaristia o ajudou a descobrir uma motivação mais profunda para aquilo que ele já estava fazendo e vivendo: doar a vida pelos outros. Tem muita gente que vive esta utopia e o Evangelho de Jesus pode ser uma força a mais para continuar nesta luta por um mundo mais humano.

 

Patrick. Uma pergunta mais científica: existe diferença entre o Jesus histórico e o Jesus da fé?

 

Carlos Mesters. A gente diz Jesus Cristo. Este é o nome completo. Jesus é o Jesus histórico, e Cristo é o Cristo da Fé. É a mesma pessoa, o mesmo Jesus, que agora está vivo no meio de nós. Na Missa dizemos: “O Senhor esteja convosco”. e o povo responde: “Ele está no meio de nós!”. O Cristo da nossa Fé, no qual acreditamos, está vivo no meio de nós por meio do Espírito Santo que Jesus conquistou para nós através da sua morte e ressurreição. Ele nos ajuda, para que possamos fazer hoje a mesma coisa que Jesus faria se estivesse vivo. Uma comparação. Veja, se eu estou lendo o Evangelho, e estou aqui (senta-se de maneira como se estivesse com o evangelho nas mãos sob os olhos), eu pergunto a você: Jesus está aonde? Está ali ou aqui? (aponta para o Evangelho e em seguida para si mesmo).

 

Patrick. Está nos dois.

 

Carlos Mesters. Correto. Agora, imagine um casal, casado há 50 anos. Eles abrem o álbum de fotografia de 50 anos atrás e vão ver fotografias deles mesmos quando eram bem mais jovens. Aí, diante de uma daquelas fotografias, a mulher diz para o marido: “Está vendo? Você se lembra do que eu falei para você naquela vez? Mantenho a mesma palavra até hoje!” Quando nós abrimos os evangelhos, é como abrir o álbum de fotografia da família de Deus de muitos anos atrás. Jesus está do nosso lado olhando conosco para as fotografias dele quando ainda vivia no meio de nós. É como se dissesse: “Aquilo que eu disse naquela ocaisião eu o mantenho até hoje para você!” Ele não é alguém do passado. É alguém do qual os Evangelhos nos trazem as palavras que Ele hoje diz para nós. Estas palavras se atualizam na comunidade, quando a gente se reúne, discutindo juntos, ligando as palavras de Jesus com a realidade que nós vivemos.

 

Patrick. Quais são os valores que devem guiar a vida do jovem, em geral, nos dias de hoje?

 

Carlos Mesters. Acho que tem que ter ideal na vida. Ter um ideal. Procurar ser gente. Preocupar-se com os outros. Poder ser ele mesmo. Ter um ideal que o faça ultrapassar-se a si mesmo. Porque o ou a jovem é capaz de viver grande sacrifício. E se você dá um ideal pequeno, ele diz: “Não vale a pena!” Então coloque um ideal grande para ele. A juventude é capaz de tudo. Os jovens estão buscando valores. Não estão mais gostando desta sociedade que está aí. Querem algo que os encha de sentido, que dê sentido à vida. Acho que é por isso que muitos entram nas drogas, porque, no fundo, não conseguem encontrar um sentido para a vida que estão vivendo. Acho que vocês, os jovens, devem ser portadores de um testemunho para os outros. O que mais anima as pessoas é uma comunidade viva, aonde você entra e sente: “A é bom!”. É não se fechar sobre si mesmo e sobre seu próprio pequeno mundo e sobre seus próprios problemas, mas ter sempre presente a vida e os problemas dos outros. Como Lula que foi a Davos na Europa, e onde todo mundo falava em dinheiro. Ele chegou lá e disse: “Estou pensando é no estômago das pessoas, na fome de milhões de seres humanos, irmãos e irmãs nossas”. Esta preocupação com os problemas humanos, pequenos e grandes, é muito importante. Mas acho que vocês sabem responder melhor do que eu a essa pergunta.

 

Patrick. Aquela menina que matou os pais no ano passado (em 2002), ela diz que fez aquilo por amor. Inclusive, a capa da revista Época, eu acho, dizia ‘Matei por amor’. E Jesus prega, basicamente, o tempo todo, o amor. Qual o sentido exato dessa palavra amor?

 

Carlos Mesters. (cantando) “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão”. Este é o ideal do amor, mas levou muito tempo para o povo de Deus chegar à descoberta deste ideal. Eles passaram por três fases. Durante a primeira fase, lá no Antigo Testamento, já diziam: “Você deve amar o próximo como a si mesmo”. Muito entendiam a palavra “próximo”, como sendo aquelas pessoas que já fazem parte da própria família, do povo ou da raça. O amor ainda estava fechado dentro do pequeno mundo da família, da raça. Na segunda fase, entrando já no Novo Testamento, começaram a discutir: “Quem é o próximo?”, pois alguns diziam: “Só devo amar o próximo, os outros não!” Perguntaram a Jesus: “O que o senhor acha: quem é o próximo?” Na resposta, Jesus inverte tudo. Ele conta a parábola do Bom Samaritano: Um homem saiu de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de ladrões etc. Aí passou um sacerdote, passou um levita, os dois viram o homem caído à beira da estrada, mas não fizeram nada. Muito provavelmente devem ter pensa­do: Este fulano não está na categoria de “próximo”. Estou perdendo tempo se eu ajudar. Aí passa um samaritano, quer dizer, a pessoa mais odiada pelos judeus praticantes. Ele vê o assaltado, pára, desce do animal, cuida das feridas, leva o homem para a hospedaria, ele passa a noite com ele, paga, e ainda diz ao dono da hospedaria: “Cuida dele, e se gastar mais, na volta eu te pago”. Aí Jesus pergunta: “Quem foi o próximo desse fulano?” Conclusão: não devo perguntar: “Quem é o meu próximo?”, mas devo fazer-me próximo do outro. O próximo pode ser qualquer um, não só a pessoa da raça. Qualquer ser humano que cruza o meu caminho é próximo. Nesta segunda frase alargaram o conceito de próximo até incluir todo ser humano. Mas tem a terceira fase, em que Jesus diz: “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado!” Ou como diz o cântico nosso: “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão”. O critério do amor é chegar a amar os outros como Jesus nos amou, esquecendo-se de si mesmo, doando-se totalmente para fazer crescer o outro. Este é o ideal o significado que Jesus dá ao amor. Acho que este é também o desejo mais profundo do coração humano. Muitas vezes, porém, a propaganda da televisão, as novelas, comunicam um sentido distorcido do amor: amar aquilo que é bom e gostoso para mim. Não digo que isto não seja importante, mas o objetivo do amor é aquele de a pessoa chegar a uma doação total de si em benefício do irmão ou da irmã. Quando a gente inverte as coisas, aí pode perverter o significado da palavra amor. E aí chegam a chamar um ato de amor aquilo que, às vezes, na realidade, não passa de puro egoísmo. Não tenho coragem de julgar a menina, não tenho coragem não. Mas todos levamos susto quando soubemos da notícia e dentro de todos nós acordou uma suspeita: deve haver algo de errado na nossa sociedade. Como aquele rapaz do interior de São Paulo que pegou o revólver e foi atirando nas pessoas. O mesmo já aconteceu várias vezes na América do Norte. E na Dinamarca, o país mais desenvolvido, o suicídio entre jovens é o mais freqüente. É porque perderam o sentido da vida e do amor!

 

Patrick.  Você acha que é essa a causa da violência entre os jovens?

 

Carlos Mesters. Não é só isso não. Tem muitas outras causas: doenças, drogas, falta de perspectiva, falta de emprego, dificuldade de convivência, pobreza, transporte coletivo. Por exemplo, o pai de família sai de casa às cinco da manhã, não vê os filhos, chega em casa à noite, às oito horas, os filhos já estão dormindo. A semana toda. No fim de semana, tem que fazer um bico para completar o orçamento da casa. No fim, o fulano estoura. Tudo isso é uma fonte de violência. Esse conjunto todo da sociedade. Acho que nós cristãos temos uma tarefa muito importante para humanizar a vida. Humanizar. Não divinizar. Porque na medida em que a vida se humaniza, ela se diviniza, chega mais perto de Deus.

 

Patrick.  A humanidade é pré-requisito para a divindade?

 

Carlos Mesters. Sim, porque nós fomos feitos para sermos humanos. Uma árvore tem que ser uma árvore. Se uma árvore inventa de ser bicho, não seria o que deve ser. Árvore é árvore, e gente é gente. Às vezes, pergunto: “O que vocês mais desejam na vida?” Muitas vezes recebi como resposta: “Ah, eu quero ser tratado como gente!”. Ser tratado como gente. Foi o que Jesus mais fez com os pobres. Ele acolhia todo mundo, sobretudo os pobres que eram desprezados e marginalizados. Ele dava lugar aos que não tinham lugar. No tempo de Jesus, muita gente era excluída da comunidade por motivos religiosos. A pessoa que tivesse uma mancha no corpo, os estrangeiros, os leprosos, as pecadores, os doentes, muitas mulheres e criançás, não podiam participar das reuniões da comunidade. Eram excluídas em nome de Deus. Tinham de purificar-se primeiro. E Jesus, o que faz? Acolhe a prostituta, o leproso, o endemoniado, as crianças, as mulheres, os impuros. Esse povo todo se sente acolhido por Ele. Dá para entender porque Jesus foi morto, porque incomodou profundamente os poderosos da época que queriam manter o regime da excclusão social e religiosa.

 

Patrick.  Quando Jesus acolhe, Ele liberta?

 

Carlos Mesters. Sim! Por exemplo, os apóstolos vão com Jesus. Fazem comunidade com ele. Jesus era uma pessoa livre, liberta e libertadora. Diz o evangelho que, certa vez, eles andavam pelos campos, estavam com fome e começám a arrancar as espigas para matar a fome. Se não fosse por Jesus, não teriam tido coragem. Quanto às leis contrárias à vida, Jesus disse assim: “O ser humano não foi feito para o sábado, mas o sábado foi feito para o ser humano”. Este é o critério de Jesus. E o povo vibrava. Jesus deve ter sido uma simpatia ambulante.

O QUE EU OUVI DE DOM GABRIEL.

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Publicado em 28 abril 2026
  • Província Carmelitana de Santo Elias,
  • Província Carmelitana Fluminense,
  • Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo,
  • Dom Gabriel Couto
  • Servo de Deus Gabriel Paulino Bueno Couto
  • Gabriel Paulino Bueno Couto

 

Frei Felisberto Caldeira, O. Carm

Desde o Seminário Menor, em Itu, sempre ouvi falar da pessoa respeitosa de  Dom Gabriel Couto. De natureza introspectiva e de uma seriedade natural. Ele  se impunha pela maneira como levada a vida espiritual.  Ouvi que esteve no sanatório das Irmãs  em São José dos Campos. Lá permaneceu em tratamento de saúde e, para usar melhor seu tempo, aprendeu a pintar quadros, quase todos são sobre o rosto de Cristo ou do Crucificado em tonalidade secura ou penumbra.  Era  onde refletia na tela  seu estado de alma e sua identificação com Jesus.  Ele ensinava em sua palestras para os seminaristas e religisosos. Jesus é tudo para o padre.

Recuperado, tornou-se o primeiro bispo da recém criada diocese de Jundiaí. Seu estado físico era impressionante,  tanto pela magreza , como pela sua grandeza de espírito.

Sei que muito confrades iam até ele para direção espiritual ou aconselhamento e todos diziam : sempre me sinto bem conversar com este bom velhinho. Frei Nuno certa vez me disse: Ele transmite uma bondade para a gente, pois tudo que a gente fala com  ele, ele acredita e isto aumenta a auto-confiança  da gente. Ele não tem maldade. Vendo a bondade dele a gente se sente bom também.

 

O DOM GRABRIEL QUE VI

Foi em Brasília , no auge dos Cursílhos de Cristandade, que vi, pela segunda vez, Dom Gabriel Couto. Sua veste episcopal era marron  e bege como as cores do Carmelo. Sempre de pouca conversa , parece que vivia em oração. Na ultreya em que falou em Brasília, ele mostrou as dimensões filosóficas e espirituais do ser humano. Ouvindo-o me interessei em ler seu livro sobre sua visão do ser humano. O ser humano nasce para ser divino e não é só humano, pois sua realização está em descobrir e buscar seu Fim Último que  é ser Deus com Deus.

Um frade carmelita, antes de sua ordenação, foi fazer-lhe uma visita  e voltou dizendo , Ele falou muito bonito de Deus e me disse que eu nunca perdesse a intimidade com Deus, pois esta é a alma sacerdotal carmelitana. Fora destes encontros. Dom Gabriel sempre viveu oculto em sua diocese, como Jesus na sua vida escondida em Nazaré.

Como uma árvore  enfraquecida pela enfermidade, mas fortalecida pelo espírito de fortaleza, Dom Gabriel realizou em si uma profecia . Quando estudante em Roma , o padre carmelita muito santo de nome, Padre Gramático, ficou tuberculoso e foi Dom Gabriel quem cuidou dele. Isto agradou tanto ao Padre enfermo que lhe teria dito. Deus te recompensará tudo que fizeres para mim.  Mas saiba, tu nunca, Frei Gabriel, morrerás de tuberculose. De fato, apesar de na sua obra de caridade ficar tuberculoso,  foi mais forte que a doença que até o fez mais santo e produtivo. A grandeza de Deus se manifesta nos fracos e pobres em espírito.

Ao celebrar os 80 anos da consagração religiosa de Dom Gabriel Couto celebramos a grandeza  de Deus nos pequenos e simples. Fraco na saúde, pois morreu pesando 40 quilos, mas forte e corajoso no espírito, pois sua fama de santo lhe valeu o título de servo de Deus e de um dos Bem aventurados do Evangelho.

Dom Gabriel, bispo e mártir do dever cumprido com zelo e alegria, interceda por nós e pelas vocações carmelitas. Amém. Eu, Frei Felisberto e o Conselho provincial, nos unimos a todos que reconhecem em Dom Gabriel Couto  um exemplo de vida cristã e agradecemos a Deus por ter dado ao Carmelo Brasileiro tão belo exemplo de vida e santidade.

Recordação do Olhar: Frei Bento Casper, O. Carm., In Memoriam

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Publicado em 28 abril 2026
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  • Memória Carmelita
  • Frei Bento Casper,
  • Recordação dos Carmelitas,

QUEM QUER MORRER COMO FREI BENTO?  EU QUERO.  

Frei Felisberto, O. Carm

 

É o que quase todos que conviveram com Frei Bento e acompanharam seus últimos passos  dizem e pedem a Deus.

Frei Bento é um dos poucos que podem se vangloriar da vida que viveu. Alcançou os 95 anos, passando da contagem de vida do salmista que chegou somente aos oitenta. A vida dos justos está nas mãos de Deus. E a de Frei Bento, enquanto posso, eu garanto que está.  

Nascido em Zwammerdam no dia 21 de maio de 1914, três anos mais velho que seu irmão frei Ricardo, carmelita, professou  em 17/01/1935,  foi  ordenado sacerdote  08/  12/1935.   

Vivendo em plena consciência até seus 95 anos bem vividos, venceu todas as dificuldades da vida, inclusive um câncer de mama o que o levou a extirpar um músculo do peito. Como um astro que se levanta, chega ao seu périplo e declina, assim foi frei Bento. Viveu bem, morreu melhor ainda. Deixando inveja.   

Bem cedo sentiu-se chamado para o sacerdócio, dada a formação religiosa familiar e o clima de Igreja em que vivia na Holanda  de sua infânciaolanda Holanda . Iniciou sua caminhada no seminário diocesano de sua terra.  Como seu irmão Frei Ricardo entrou para o seminário de Zenderen, carmelita, ele decidiu ser carmelita também. Como havia oportunidade de vir para o Brasil, ele se candidatou e veio. Posteriormente foi seu irmão frei Ricardo  que o imitou, vindo igualmente para o Brasil. São Irmãos de sangue e de fé , de vocação e  missão.  

 

SUA VIDA  

Frei Bento teve vida de simplicidade e trabalho diuturno na simplicidade de  sua vida. Trabalhou em Angra dos Reis, Vicente de Carvalho, São Paulo, Rio de Janeiro no convento da Lapa, onde terminou seus dias de vida com uma memória e lucidez que causa inveja até para Matusalém, que viveu novecentos e sessenta e nove anos e depois morreu ,como diz o livro do Gênesis.  

 

CARACTERÍSTICAS DA VIDA DE FREI BENTO CASPERS  

Personalidade sensível e receptiva, caráter piedoso e com muitas aptidões para as potências amatórias do espírito humano. Amante da oração aspirativa e da simplicidade... Religiosamente seguia os horários de oração, refeição e compromissos. Mesmo idoso e enfraquecido não dispensava a missa diária e quando ajoelhava diante do altar fazia questão de tocar com o joelho o chão. A fraqueza dos joelhos não o comprometia diante do respeito ao altar. 

Seu quarto era cheio de plantas e pássaros. Perguntado por que carregava consigo estas plantas ele dizia as plantas nos levam a Deus. A música o atraia também. Quando Frei Nuno morreu ele veio com humildade pedir as fitas cassetes para ouvir. Assim aumentou sua reserva musical. Certa vez alguém entrou em seu quarto durante o dia. Ele estava deitado em posição de relaxamento ouvindo música e rezando já em outra dimensão. 

Frei Bento foi uma pessoa sempre satisfeita e descontraída. Sua alegria consistia em se relacionar bem com todos,  em rezar a liturgia das Horas, a Imitação de Cristo, ler o Jornal, mesmo por meio de uma lupa, e sabia as notícias do dia tanto da religião como da política. Seu hobby era transformar o pão em pedaços pequenos para as pombinhas que vinham de manhã e à tarde ao seu quarto para  se alimentar.  O canário, que sempre o acompanhava, tinha uma relação de amizade com ele que o alegrava com seu canto contínuo.  

 

FATOS IMPORTANTES DA VIDA DE FREI BENTO  

Quando frei Clementino ficou pároco em Angra tirou dele a catequese. Frei Bento pediu ao Provincial da época que queria ter a pastoral que sempre gostou: a catequese.  Que eu fique pelo menos com uma turma de crianças de Primeira Eucaristia, suplicou.  

Como sempre trabalhou com os morros de Angra, ali manteve uma relação de amizade. Como frei Alonso intensificou a construção de capelas nos morros, ele gostava que o convidasse para a missa de inauguração. E o povo aplaudia a sua presença. Exclamando: Frei Bento veio nos visitar!  Que surpresa agradável! Frei Bento aqui conosco!

Desde criança aprendeu com seu pai a cuidar dos selos. Sua coleção é uma vida. São uns trinta álbuns que tem um valor razoável. Tudo será encaminhado para o arquivo provincial em S. Paulo, o acervo  carmelitano. Todos seus grandes amigos lhe enviavam selos novos ou usados. A coleção mundial de selos marianos causa admiração e espanto pela beleza e grandiosidade.

   

SUA MORTE SERENA.   

A natureza avisa quando já está chegando a hora de passar o bastão para os mais novos. Frei Bento, ultimamente, pressentiu que seu fim poderia estar próximo, embora ele nunca falasse sobre a morte. Esta viria, como de fato veio, na hora certa, do jeito certo, para a pessoa certa. Nos últimos meses  frei Bento sentiu muita necessidade de ir mais vezes a Angra  para visitar  a família Afonso, onde ele passava seus dias de descanso da  barulhenta Lapa do Rio. Hospedava-se com eles que o tratavam como filho e ele chamava a esposa do Sr. Afonso de mãe.  Aconteceu de ir e voltar até mesmo no mesmo dia. Sempre para visitar amigos. Assim aconteceu no dia de sua morte. Foi visitar uma amiga em V. de Carvalho.  

Foi visitando amigos que ele morreu. 

Ao voltar para casa sentiu uma dor nas costas e mal-estar. Frei Evaldo se oferece para celebrar em seu lugar, ele aceitou. Isto não aconteceria antes se a saúde o permitisse.   Na hora exata, seis da tarde, do dia de sexta feira, véspera da Assunção,  assentado em seu lugar onde sempre agradecia a Deus com sua impecável  oração ``Nos cum prole pia, benedicat Virgo Maria,`` ele sentindo-se  mal, teria dito : a dor não  é  importante, o importante é que seja feita a vontade de Deus. Desfalecendo-se, foi levado ao Hospital Espanhol,  perto do convento, onde foi  a óbito.  

Morreu na véspera da Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem, Assunção da Virgem Maria. Fez a Boa Viagem para o Céu com Maria sua mãezinha, como ele a tratava.

Seu sepultamente foi realizado no domingo pela manhã devido a profissão solene dos 3 frades em Belo Horizonte , no sábado à noite. Na missa de exéquias estiveram presentes os confrades, Dom Vital, acompanhado da Sra. Isa, leiga consagrada, que vive no eremitério, Frei Martinho Cortez, Frei Valter de Vicente  de Carvalho, Frei Evaldo, Frei Alonso, Frei Reinaldo, Frei Carlos Mester  e Frei  Felisberto. Foram enumerados os passos de luz que Frei Bento deixou após si: simplicidade, humildade, amabilidade, amor e misericórdia para com os necessitados com quem repartia sua aposentadoria, espírito de oração, alma de criança, gentileza e  preocupação pela  província.  

O dia do seu sepultamento teve uma manhã linda com sol ameno e o povo correu para as praias para comemorar a vida. Parecia o dia feliz da criação ou um pedaço do Céu na terra.. ``E Deus viu tudo era bom``  O cemitério São João Batista, onde a  nossa  província  tem um túmulo com várias campas, também estava alegre. Pessoas amigas de Angra dos Reis trouxeram  muitas rosas colombianas em seus botões  enormes, brancos, trazidos da festa de Nossa Senhora da Lapa, acontecida em Angra no dia anterior. No momento foi o único sepultamento.  Nada de tristeza, nada de pesar, pois todos sabiam que um dia iriam morrer, mas somente esperavam que a morte de cada um fosse como a do Frei Bento. Quase como a de um passarinho, um inclinar da cabeça e já se está em outro domicílio e revestido com um corpo espiritual que não nos será tirado.  Como o túmulo dos Carmelitas já tem 5 confrades, agora em caminho para virem para  o convento de São Paulo, todos tiveram que sair do lugar onde estavam para deixar Frei Bento entrar. Parecia que a antiga comunidade da Lapa, reunida por tantos anos,  acolhia o irmão numa Procissão do Encontro.  

Feitas as orações finais o corpo de frei Bento desceu ao túmulo. Entoado o cântico oficial da esperança cristã: Com minha mãe estarei, ``os presentes se retiraram lançando rosas dentro do túmulo e logo se deparando com um frase em latim, bem no portal de saída.  ´´in hoc loco habitamus´´ È aqui que nós  habitamos agora..  

Frei Bento soube viver, soube ser homem de oração, soube obedecer, soube descobrir o seu modo de ser carmelita, soube até escolher o dia de sua morte: o dia de Nossa Senhora da Boa Viagem. Que estes seus passos refletidos nas pessoas que viveram com ele, mostrem bem claramente o que Santa Teresinha experimentou: ``O Carmelo é lindo para se viver, o Carmelo é ótimo para se morrer.``  

``A vida para quem acredita não é passageira ilusão e a morte se torna bendita, pois é nossa libertação.``  Música da Missa da Esperança.  

´´Em verdade, em verdade, eu vos digo, vem a hora, e já chegou, em que  os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e os que a ouvirem viverão.  Jo. 5 ,25   

Quem quer morrer como Frei Bento? Nós queremos. Então preparemos-nos.  

A frase que Frei Bento mais repetia ao celebrar seu último aniversário foi sempre a mesma :

``Quero cantar eternamente a misericórdia do Senhor. Deus foi muito bom para comigo, por isso, convido você para erguer comigo o cálice da salvação e agradecer a Deus.”  

Não foi difícil escolher a foto para sua missa de Sétimo Dia. Deveria ser  aquela que o mostrasse em  meio às lindas  orquídeas. Ele tinha que ser uma delas. A foto o mostra assim. E a frase tinha que ser a dele mesmo: Deus foi muito bom para comigo. Só me resta agradecer levantando o cálice da Salvação e invocando o nome do Senhor (Frei Bento Caspers.)   

QUE NOSSO IRMÃO FREI BENTO CASPER DESCANSE EM PAZ. AMÉM. 

A MISSÃO CARMELITA EM CORUMBÁ. (1908-1914)

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Publicado em 27 abril 2026
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  • Missões Carmelitas em Corumbá
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  • Frei Wilmar Santin
  • missionário dos carmelitas holandeses em Corumbá
  • missionário carmelitas em Corumbá
  • História da Ordem do Carmo na primeira metade do século XX

 

Frei Wilmar Santin, O.Carm. e Frei Carmelo Cox, O.Carm.

 

Introdução

100 anos atrás os carmelitas holandeses iniciaram um trabalho missionário no Mato Grosso, que durou quase 8 anos. Desta página da História do Carmelo Brasileiro havia apenas algumas informações esparsas na revista Mensageiro do Carmelo e um parágrafo no livro The Carmelites de Joachim Smet[1].

Dentro da História da Ordem do Carmo na primeira metade do século XX a Província Holandesa foi a que teve o maior ardor missionário. Restaurou a Província Fluminis Ianuarii[2] a partir de 1904. Ainda no início do século, enviou missionários para a Inglaterra e Estados Unidos. Abriu missões na Indonésia (1923) e Filipinas (1958). Hoje na Indonésia há a província com maior número de carmelitas e nas Filipinas um Comissariado Geral. Em 1924 iniciou a restauração da Província Germaniae Inferioris e forneceu a maioria dos missionários para a Prelazia e depois Diocese de Paracatu, MG, a partir de 1929. Foi justamente da Província Holandesa de onde saíram os missionários para Corumbá.

Como e por que os carmelitas holandeses foram trabalhar no Mato Grosso? Quem foi ser missionário em Corumbá? Qual era o tamanho da Missão? Quais cidades e paróquias foram atendidas pelos carmelitas? Quais eram as motivações e o estado de ânimo daqueles missionários? Que dificuldades encontraram? Os superiores apoiaram a missão? Tinham algum sonho? A criação da diocese de Corumbá criou problemas para os carmelitas? Como foi o relacionamento com o bispo? Por que saíram de Corumbá? Dar uma resposta a estas perguntas é o objetivo do presente trabalho.

A metodologia usada foi a de ir beber diretamente nas fontes e ali encontrar as respostas. Frei Carmelo Cox pesquisou nos arquivos da Província Fluminis Januarii em Belo Horizonte o no arquivo da Província Holandesa em Boxmeer. Transcreveu todos os documentos e os traduziu para o Português. Por isso, para facilitar a compreensão, as citações das cartas e documentos serão sempre em Português e não no original em Holandês ou Latim. Por sua vez, Frei Wilmar Santin consultou o Arquivo Secreto Vaticano, o Arquivo Geral da Ordem em Roma e o Arquivo da Arquidiocese de Cuiabá. Os documentos encontrados nos arquivos Vaticano e da Ordem em geral estão em Inglês, Latim, Alemão, Italiano e também em Português. Normalmente se citará uma tradução e não o original, a não ser que devido a importância se decidiu manter a língua original. Neste caso sempre se dará uma tradução. Quanto às informações históricas e geográficas da região, foram pesquisadas sobretudo em sites oficiais de prefeituras e dioceses.

  

Antecedentes

O trabalho missionário dos carmelitas holandeses em Corumbá começou por iniciativa de Dom Carlos Luiz d’Amour[3], então bispo de Cuiabá. Como ele estava pouco satisfeito com os salesianos[4], começou a procurar outros religiosos para substituí-los. Em 1906, por indicação do Cardeal Arcoverde[5] e do Núncio Giulio Tonti[6], procurou Frei Cirilo Thewes[7] e sondou a possibilidade dos carmelitas assumirem a região missionária de Corumbá. Frei Cirilo, que se entusiasmou com a idéia, deu esperança ao bispo e o aconselhou procurar o Prior Geral da Ordem Frei Pio Mayer[8] em Roma e conversar com o provincial carmelita na Holanda. Frei Cirilo escreveu uma carta em dezembro de 1906 ao provincial holandês Frei Lamberto Smeets advertindo-o para aguardar o bispo de Cuiabá no verão do ano seguinte. Na mesma carta afirma que pretendia fazer uma viagem até Corumbá: “A viagem levará um mês, é cansativa mas acho que é um dever meu fazê-la”[9]. Porém, esta viagem ficou só no desejo.

O Capítulo da Província Holandesa, realizado em 1906, aprovou que se aceitasse a missão. Parece que não houve uma votação explícita, visto que não consta em ata, mas o assunto foi matéria capitular e se acertou que “na primavera de 1907 cinco Padres deviam ir para o Mato Grosso”[10].

Dom Carlos Luiz em sua visita a Roma em 1907, encontrou-se com o Prior Geral Frei Pio Mayer. Este diante da aprovação do Capítulo Provincial da Holanda e do entusiasmo de Frei Cirilo no Brasil, aceitou a missão. Portanto não foi um acerto entre o bispo e uma província, como normalmente acontece, e sim entre o bispo e o superior máximo dos carmelitas. Isto resultou em muitas dificuldades, porque depois nem a Província Holandesa nem a do Rio de Janeiro sentiram-se responsáveis pela missão. Com exceção dos missionários, a missão de Corumbá nunca foi assumida pra valer tanto pela província holandesa como pela Fluminis Ianuarii. Criou-se também uma espécie de problema “jurídico”. Para o provincial holandês, os missionários enviados “não ficavam mais sob a jurisdição da Província. A opinião geral [na Holanda] era: A Missão do Mato Grosso pertence a nós”[11]. Esse “nós” é o Conselho Geral da Ordem, do qual fazia parte Frei Humberto Driessen[12], como Procurador. A não ida do bispo de Cuiabá para a Holanda para conversar com o provincial carmelita, como estava previsto, deve ter ajudado para que a Província Holandesa não se sentisse responsável pela missão em Corumbá. Dom Carlos não foi por problemas de saúde e porque o provincial havia escrito que ele não precisava ir, visto que os missionários enviados “não ficavam mais sob a jurisdição da Província”.

Para resolver a questão o Prior Geral Frei Pio Mayer determinou que a responsabilidade da Missão no Mato Grosso seria da Província do Rio de Janeiro e enviou uma “obediência” para os Freis Paulo Hurkmans, Canísio Mulderman e Carmelo Lambooy “para ir com o bispo para Mato Grosso afim de lá abrir uma Missão”[13].

No livro de contabilidade da Cúria Generalícia consta a despesa de Lit. 4,55 como pagamento de um telegrama enviado ao bispo do Mato Grosso no dia 30 de junho de 1907[14]. Apesar de não se ter o texto do telegrama, pode-se supor que foi a comunicação de que se aceitava a missão de Corumbá por parte do Prior Geral da Ordem Carmelita.

Como a Província do Rio de Janeiro estava ainda no início de sua restauração, ela própria necessitava ter mais frades. Não tinha possibilidade de assumir a missão em Corumbá sem ajuda da Província Holandesa, encarregada da restauração, desde 1904. Tão logo os missionários designados para Corumbá chegaram no Brasil, foram imediatamente enviados para suprir deficiências da Província em conventos e nomeados para cargos. Frei Paulo Hurkmans foi enviado para o convento de Santos, Frei Canísio Mulderman foi nomeado mestre de noviços e Frei Carmelo Lambooy foi designado para ser professor dos estudantes em São Paulo. Por isso para substituí-los Frei Cirilo pede ao provincial da Holanda o envio de mais dois padres. Na resposta do provincial holandês pode-se constatar o seu descontentamento: “O que V. Revma. me anuncia agora, que os Padres Paulo Hurkmans, Carmelo Lambooy e Canísio Mulderman receberam uma "obediência" para Mato Grosso, me abate e entristece muito. Com todo prazer fazemos o que podemos para prover os Conventos e as Casas da Província do Rio de Religiosos mas se o Padre Geral age deste jeito, ficará impossível a gente continuar”[15]. A animosidade da Província Holandesa em relação à missão no Mato Grosso só diminuirá quando Frei Humberto Driessen foi eleito provincial em 1909. Além dos 4 primeiros missionários, só enviou depois o Frei Maurício Lans para Corumbá. O próprio Frei Cirilo Thewes, Vigário Provincial da Província do Rio de Janeiro, que no início estava a favor da missão – tanto é que aconselhou o bispo Dom Carlos conversar com o Prior Geral e com o provincial holandês, e inclusive estava disposto a fazer uma visita a Corumbá - mudou de lado devido as dificuldades da falta de frades. Parece que ele esperava um maior apoio da província holandesa. “Não preciso dizer que vossa última carta me deixou bastante preocupado. Ter que ceder três Padres e sabendo que a Holanda deixará de nos apoiar, é realmente de desanimar. Espero que esta situação não demore e breve mude para melhor ... Por isso apelo para V. Revma. e peço, pelo zelo e amor que V. Revma. tem pela nossa Ordem, de mandar o mais breve possível, Padres e Irmãos para o Brasil. Reconheço e estou convencido de que o Pe. Geral não usou a cabeça naquele momento, e seria muito triste nós sermos a vítima, nós que junto com V. Revma. nos esforçamos até o último momento, para mostrar a ele que seria irracional.”[16].

Para complicar mais ainda, não foi feito um contrato por escrito e se prometeu que no futuro a “Missão” passaria em definitivo para os carmelitas, e caso fosse criada uma prelazia ou diocese, o bispo seria carmelita[17].

 

O TERRITÓRIO DA MISSÃO

O território missionário onde os carmelitas holandeses trabalharam abrangia quase todos os 358.158 km2 do atual Estado do Mato Grosso do Sul. Compendia Corumbá, Ladário[18], Aquidauana[19], Miranda[20], Coxim[21], Nioaque[22], Bela Vista, Porto Murtinho[23], Ponta Porã[24], Campo Grande, ... Consequentemente toda a parte do Pantanal pertencente ao atual Estado do Mato Grosso do Sul estava dentro da região missionária confiada aos carmelitas. Parece que Três Lagoas estava fora do território atendido.

Corumbá vivia um momento de grande desenvolvimento econômico. Era o terceiro maior porto da América Latina até 1930. Em 1910 foi fundada a Associação Comercial de Corumbá e em 1914, a 14º agência brasileira do Banco do Brasil. Havia muitos estrangeiros. Naquele tempo estava se construindo a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (São Paulo-Corumbá). Quando a ferrovia ficou pronta, o transporte fluvial perdeu a grande importância que tinha e o eixo econômico foi deslocado para Campo Grande, que se tornou então o ponto central de comunicação e transporte do sul de Mato Grosso a partir da década de 1920[25].

Como estrutura eclesial a missão pertencia à diocese de Cuiabá e compreendia somente 4 enormes paróquias: Santa Cruz de Corumbá, São José de Herculanea (Coxim), Nossa Senhora do Carmo de Miranda e Santa Rita de Nioac. Na época Campo Grande ainda não era paróquia e quando em 1912 (conferir a data da criação e o padroeiro/a) foi criada, seu território não ficou sob a responsabilidade dos carmelitas[26].

Frei Paulo Hurkmans, escrevendo ao Prior Geral, dá alguns detalhes interessantes:

  • a paróquia de Corumbá tinha 2 igrejas: uma na cidade e outra em Ladário. “A igreja de Corumbá é muito bem construída, bela e limpa, com seis altares e bem mobiliada, mas com paramentos insuficientes e não tem capas (exceto a preta) e roquete para bênçãos, e os outros paramentos são suficientes só para rezar missa”;
  • a população era em torno de 6.000;
  • a igreja do Ladário era muito bem mobiliada e havia um quarto anexo;
  • Miranda tinha uma igreja em condições desoladoras e não tinham paramentos. Partindo de Corumbá, levava-se 3 dias de barco para se chegar ali;
  • Nioaque tinha uma igreja, dois quartos e só os paramentos necessários. Para se chegar ali devia-se viajar 2 ou 3 dias a partir de Miranda;
  • Herculandia (Coxim) tinha uma pequena igreja, um quarto e não tinha paramentos;
  • Corumbá era o local de maior progresso do Mato Grosso[27].

 

Os missionários

Os primeiros carmelitas holandeses destinados à missão de Corumbá foram os padres Frei Paulo Hurkmans, Frei Canísio Mulderman, Frei Carmelo Lambooy e o irmão Frei Pancrácio Helmich.

 

Frei Paulo Hurkmans.

Nasceu aos 02 de outubro de 1863 em Deest (Holanda). Professou na Ordem do Carmo aos 15 de outubro de 1883. Foi ordenado sacerdote no dia 15 de agosto de 1888. Durante seus primeiros anos de sacerdócio trabalhou como professor no seminário em Zenderen. Em 1901 foi nomeado vigário de Pudsey, diocese de Leeds na Inglaterra. Chegou ao Brasil em julho de 1907. Como já estava com 44 anos, teve muita dificuldade para apreender a língua portuguesa e acostumar-se no novo país. Foi nomeado como primeiro superior da missão em Corumbá. Dois anos após, por motivo de doença, retornou para o Rio. Deixou a missão no dia 25 de fevereiro de 1910. Faleceu em Mogi das Cruzes aos 4 de novembro de 1930.

 

Frei Canísio Mulderman 

Nasceu em Mechelen (Holanda) aos 6 de setembro de 1874. Na pia batismal recebeu o nome de Henrique (Hendricus). Ao terminar a escola primária teve que ajudar o seu irmão no trabalho agrícola, ainda que gostasse mais dos livros do que do arado. Foi alguém abençoado por Deus com uma cabeça boa para os estudos e com músculos fortes para o trabalho manual. Ao atingir a idade prescrita pela lei foi chamado para servir como soldado no exército. Foi a primeira vez que ele ficou fora de sua terra natal por um longo período. É verdade que encontrou um mundo novo, mas um mundo pior do que tinha imaginado. Por isso foi com muita satisfação que ele deixou o mundo militar e voltou para a sua querida Mechelen.

A experiência de defensor da Pátria no exército suscitou-lhe o desejo de tornar-se defensor dos direitos divinos, de ser soldado de Cristo e sacerdote do Altíssimo. A dificuldade era: como alcançar este sublime ideal? Considerava-se um pouco velho para entrar num seminário com meninos de calças curtas. Para fazer um bom discernimento, foi aconselhar-se com o seu vigário, que o recebeu fraternalmente. Henrique deixou a casa paroquial bem animado e com passos leves. O vigário havia prometido preparar o seu paroquiano para entrar no seminário maior. Tudo correu melhor do que o mestre e o discípulo tinham imaginado. Já em 1897 Henrique entrou no noviciado, recebendo o hábito carmelitano e o nome de Frei Canísio. No dia 06 de outubro de 1898 fez seus primeiros votos e foi ordenado sacerdote em 28 de maio de 1904.

Ao terminar o curso de Teologia na Holanda, os superiores mandaram-no para Roma afim de especializar-se em Teologia.

A Província Carmelitana Fluminense, estando em franco progresso, precisava mais de Religiosos e especialmente de sacerdotes. Frei Canísio foi indicado para ir ao Brasil, onde chegou dia 21 de agosto de 1907. Antes da sua chegada o definitório, no dia 25 de julho de 1907, havia decidido que o noviciado seria instalado no Convento da Lapa do Rio de Janeiro e que o Mestre de Noviços seria Frei Canísio Mulderman. Pouco após sua chegada no Rio, recebeu uma carta obediência do Prior Geral dos Carmelitas Frei Pio Mayer para ir Corumbá. Quando Frei Paulo Hurkmans deixou a missão do Mato Grosso, ele tornou-se o superior. Ao retornar de Corumbá, já no ano seguinte foi encarregado de iniciar uma nova missão em Paranaguá, PR[28]. Foi Prior em Angra dos Reis, Rio de Janeiro e São Paulo. Por 4 vezes consecutiva foi eleito provincial (1932-44). Nesta função deu grande impulso à Província, aceitando diversas novas fundações. Foi uma das maiores figuras da Província. Faleceu no Rio de Janeiro aos 6 de janeiro de 1950.

 

Frei Carmelo Lambooy

Nasceu em Leeuwarden (Holanda) aos 9 de novembro de 1879. Foi o primogênito duma família abençoada por Deus com 10 filhos. Recebeu o nome de Francisco, no batismo. Ao terminar a escola primária, manifestou o desejo de ser sacerdote. Seu pai o encaminhou para o seminário carmelita de Zenderen.

O pequeno Francisco fez exames, foi admitido e iniciou os seus estudos. O jovem estudante nunca desanimava diante dos problemas. Sempre estava de bom humor e vivia em boa harmonia com os seus companheiros. Em 1899 entrou no noviciado e recebeu o nome de Carmelo.

Professou no dia 2 de outubro de 1900. Começou o Curso de Filosofia sob o magistério de Frei Humberto Driessen. Foi ordenado sacerdote aos 9 de junho de 1906.

O então superior dos carmelitas holandeses no Brasil Frei Cirilo Thewes (estando na Holanda) escreveu ao provincial holandês: “Acabo de receber uma carta de Frei Carmelo na qual diz que o único problema para ele viajar é que ainda não terminou os seus estudos. Este problema acho que se pode resolver facilmente, porque dois professores me acompanharão para o Brasil. Sou de opinião que a ida de Frei Carmelo está por isso resolvida, é o que direi a ele”[29]. Assim ele foi destinado para as missões no Brasil, onde chegou ao Brasil dia 7 de junho de 1907. Ficou um mês na Lapa e foi transferido para São Paulo, mas a carta-obediência do Prior Geral o encaminhou para a missão em Corumbá.

Na missão de Corumbá, Frei Carmelo se sentia totalmente à vontade. Todos os dias saía a cavalo para visitar os diversos povoados e lugarejos. Conseguiu visitar todas as paróquias e comunidades para administrar os Santos Sacramentos e pregar o Evangelho. Ele era infatigável e sempre às ordens de cada fiel. Nas horas vagas trabalhava como carpinteiro, ferreiro, sapateiro, etc. ou ajudava a Frei Pancrácio no serviço da casa, nunca recusava qualquer trabalho manual. Tinha saúde fantástica. Possuía todas as qualidades para ser um ótimo missionário que trabalhava desde de manhã cedo até altas horas de noite.

Foi missionário durante quase todo o tempo que permaneceu no Brasil, em Corumbá, Paranaguá e na prelazia de Paracatu. Faleceu  dia 27 de maio de 1948, quando estava de férias na Holanda.

 

Frei Pancrácio Helmich 

Nasceu em Enschede (Holanda) aos 12 de março de 1867. Após terminar a escola primária, aprendeu a profissão de sapateiro. Esteve poucos meses como postulante na Congregação dos Padres Brancos. Sentia-se mais atraído para a vida do Carmelo, onde estava Frei Donato, seu irmão mais velho.

Alberto Helmich entrou no noviciado de Boxmeer, recebendo o nome de Pancrácio. Professou na festa de N. Sra. do Carmo, 16 de julho de 1898. Em novembro de 1902 acompanhou um padre para América do Norte. Estabeleceram-se na Vila New Atheus, Diocese de Beleville, Estado de Illinois. O Prior Geral Pio Mayer nomeou o Provincial Americano para que fizesse uma visita canônica e examinasse as perspectivas de futuro. Após examinar tudo, chegou à conclusão que a missão devia ser fechada. Por isso notificou o bispo diocesano, dizendo que no fim do ano os Carmelitas desistiriam definitivamente da Paróquia. Os daquela fundação holandeses podiam voltar para Holanda ou incorpora-se à Província Americana. Frei Pancrácio ficou ainda um ano e meio nos Estado Unidos, mas no começo do ano de 1907 retornou para sua pátria.

Depois foi designado para o Brasil, onde chegou aos 7 de Junho de 1907. Uma vez em terras brasileiras foi enviado para Corumbá no primeiro grupo de carmelitas. Frei Pancrácio Helmich era o "fac-totum": cozinheiro, sacristão, organista, cantor, coroinha, mecânico, tocador de sinos, etc. Deixou a missão do Mato Grosso em 1910. Foi também um dos fundadores da missão carmelita em Paranaguá em 1915. Trabalhou nos conventos da Mogi das Cruzes e Angra dos Reis, onde faleceu dia 7 de julho de 1946.

 

Frei Maurício Lans

Nasceu na cidade de Haarlem (Holanda) no dia 18 de outubro de 1881, numa numerosa família que deu à Igreja quatro sacerdotes. Dois filhos se tornaram Trapistas, que nas suas respectivas abadias subiram à dignidade de abade. Outro filho entrou na Congregação dos Padres Brancos e afinal o nosso Maurício. Quatro irmãos, um longe do outro. Um Trapista na Bélgica, outro na América do Norte, o Padre Branco na África e o Frei Maurício no Brasil. Começou os estudos no Seminário Diocesano, porém, dois anos depois era aluno do ginásio carmelita em Zenderen. Em 30 de setembro de 1902 professou na Ordem do Carmo e em 25 de maio de 1907 foi coroado com o sacerdócio. Após terminar o curso teológico foi transferido para o novo convento, que a pedido do Arcebispo de Utrecht, os carmelitas construíram em Hoogeveen, um lugar de 14.000 habitantes, dos quais apenas uns 25 católicos. Naquela época Hoogeveen era o único convento nas três Províncias do Norte. Em poucos anos os Padres Carmelitas eram conhecidos e estimados como pregadores nas várias paróquias daquela vasta região. As homilias do jovem sacerdote Frei Maurício eram apreciadas pelo povo. A crescente Província Fluminense, porém, precisava de mais sacerdotes e o então Provincial da Holanda, Frei Humberto Driessen, destinou Frei Maurício para a missão de Corumbá. Chegou no Brasil em novembro de 1910. Em seguida passou a estudar português, porque queria ir para a missão e logo começar a trabalhar. Ao provincial holandês escreveu: “estou contente por ter sido nomeado para o Mato Grosso”[30].

Em 21 de fevereiro de 1911 embarcou em Santos no vapor "Zeelandia" do Loyd Real Holandês para ir, via Montevidéu, Buenos Aires e Assunção, trabalhar nas Missões Carmelitanas de Corumbá. Sua viagem durou mais de 2 meses por causa de uma revolução em terras paraguaias.

Com o fim da missão no Mato Grosso, trabalhou em vários conventos. Restaurou os conventos de Itu e Santos. Foi vigário de Guarujá e Guararama. Teve grandes méritos na reorganização do arquivo de Santos. Faleceu quando era prior do convento do Rio de Janeiro aos 20 de abril de 1944.

 

INÍCIO DA MISSÃO

Aos 11 de janeiro de 1908 embarcaram em Santos rumo à missão em Corumbá os padres Frei Paulo Hurkmans, Frei Canísio Mulderman, Frei Carmelo Lambooy e o irmão Frei Pancrácio Helmich. O Bispo de Cuiabá, Dom Carlos Luís L'Amour, viajou junto para pessoalmente entregar a missão aos carmelitas. O navio seguiu a rota Montevidéu, Buenos Aires, subiu o rio Paraná, entrou no rio Paraguai, passou por Assunção e chegou em Corumbá aos 8 de fevereiro do mesmo ano[31]. O superior do grupo missionário era Frei Paulo. Os 4 passaram a morar numa casa, junto à igreja, com 3 quartos.

É estranho, mas os missionários em suas cartas aos superiores não mencionam normalmente nada sobre o trabalho em si. Por exemplo: não comunicam quantos batizados ou casamento fizeram numa viagem de desobriga, para onde iam ou se divulgavam o escapulário e a devoção a Nossa Senhora do Carmo, ou se criaram alguma confraria. Provavelmente isto aconteceu porque para eles o normal da vida não era necessário contar. Eles não lamentam, mas várias vezes contam que o trabalho era duro, pesado e que as viagens eram longas. O mais duro e pesado era viajar pelo Pantanal durante um ou dois meses. Normalmente um deles estava fazendo visitas pelo interior.

Frei Paulo escreveu ao Padre Geral contando que Frei Canísio, pelo fato de falar também italiano, deva assistência aos imigrantes italianos daquela região[32]. No entanto, não informou que tipo de assistência dava.

Quanto à presença em Coxim, o site da diocese informa: “De 1908 à 1910 encontramos em Coxim dois Pe. da Ordem Carmelita: Pe. Canisio Mulderman e Pe. Carmelo Lambooj. Depois o salesiano Pe. Bernardo Chicco passou a dar o atendimento à freguesia” [33].

 

Estado de ânimo

Os missionários foram para Corumbá com grande entusiasmo e alegria. Acreditavam muito no futuro da missão. Escrevendo ao Prior Geral, Frei Paulo afirmava: “The longer I am here the more I am convinced, that this mission of Matto Grosso has a great future for our Order”[34] (Quanto mais tempo estou aqui, mais eu estou convencido de que esta missão do Mato Grosso tem grande futuro para nossa Ordem). Afirmações semelhantes estão também em outras cartas dos missionários.

Mas desde o início sentiram que necessitavam ajuda e insistentemente pediram mais padres. Quase em cada carta aos provinciais imploravam: “É necessário enviar mais 2 ou 3 sacerdotes”. Diante desta situação frei Canísio, escrevendo ao Procurador Geral da Ordem, tranqüilizava-o: “Entrementes o senhor pode ficar tranqüilo. Perder o ânimo é perder tudo e desistir é a última coisa que se faz”[35]. em 1909 Frei Humberto Driessen foi eleito provincial na Holanda. Logo escreveu comunicando que mandaria reforço para o Mato Grosso, se achasse quem quisesse ir. Em fevereiro de 1910 escreve manifestando sua esperança em relação a esta promessa: “me lembro com alegria de sua última carta na qual o senhor promete mandar para cá mais gente se o senhor achar quem queira vir. Graças a Deus, acho que haverá candidatos dispostos a enfrentar o trabalho e o cansaço por amor a Deus e pela revivescência da religião tão lastimavelmente decadente nesta região”. Mas com realismo adverte: “Ninguém espere encontrar aqui uma vida fácil e sob todos os pontos de vista agradável; mas também não serão devorados pelas onças. Quem dera que tivéssemos em breve mais dois ou três Religiosos”[36]. Frei Maurício Lans se dispôs ir para Corumbá e foi enviado ao Brasil no mesmo.

O sentimento de abandono em relação aos superiores foi constante. Não foi só o problema de não enviar mais missionários, mas também de comunicação: “Nos últimos seis meses telegrafei cinco vezes para o Rio e mandei duas cartas, tratando do Frei Maurício Lans e de outros assuntos sem receber nenhuma resposta, portanto agora chega. Isto não nos atinge pessoalmente, só achamos desumano o modo como somos tratados. Se Nosso Senhor nos deixar com saúde, a gente vai se virando mas para a Missão é uma tristeza. É totalmente impossível nós dois aqui fazermos mesmo os serviços mais necessários”[37].

Quando finalmente Frei Maurício Lans chegou em Corumbá, Frei Canísio escreveu ao provincial holandês: “Demorou muito, já devia estar aqui há muito tempo; nós estávamos numa situação muito ruim, pior do que se pode imaginar é que nós fomos durante tanto tempo abandonados fez um grande estrago ao nosso trabalho”[38].

Em relação ao governo geral da Ordem houve comunicação direta tanto com o Prior Geral Frei Pio Mayer como com o Procurador Geral Frei Humberto Driessen. Em nenhuma das cartas, que estão no Arquivo Geral da Ordem, há reclamação. Inclusive foram atendidos quando pediram missais e rituais. Frei Paulo agradeceu ao Prior Geral pelo envio de 8 missais[39], e Frei Canísio pelos 3 novos “Rituale Ordinis”[40].

 

Dificuldades

Desde o início os carmelitas encontraram grandes dificuldades, a começar pela casa onde moravam, que era pequena. Tinha três quartos para quatro frades. Os dois, que deviam dormir no mesmo quarto, deviam se sentir incômodos, visto que o normal é de cada frade ter a sua própria cela, conforme está na Regra do Carmo[41].

O número reduzido de padres para uma região tão vasta, implicava numa sobrecarga de trabalhos, mesmo que fosse só de “desobriga”. Viajar e se locomover pelo Pantanal era uma verdadeira aventura. Hoje ainda quando se fala em Pantanal se pensa em onça, sucuri, piranhas e jacarés. Também não havia pontes e estradas, como a rodovia Campo Grande-Corumbá ou a Transpantaneira, que liga Poconé ao Porto Jofre.

O trabalho era muito fatigoso não só por causa das longas distâncias mas também devido às condições em que se viajava. Devia-se andar a cavalo, de bote ou a pé. Quando o missionário saía para o interior só voltava após mais de um mês. Para se ter uma idéia de como foi difícil o trabalho desses pioneiros basta mencionar que Frei Canísio Mulderman, querendo conhecer pessoalmente a enorme extensão do território, viajou ininterruptamente durante 11 meses. Em virtude desta longa ausência, os seus confrades chegaram a pensar que talvez ele tivesse morrido e conversaram seriamente sobre a conveniência de celebrar solenes exéquias em sufrágio de sua alma. Folcloricamente, segundo Frei Carlos Mesters, entre os carmelitas do Brasil correu a história de que quando Frei Canísio voltou, estava sendo celebrada uma missa por um defunto. Ele perguntou: “quem morreu?” A resposta: “Um tal de frei Canísio que sumiu no meio do Pantanal”. Nesta ocasião, Frei Canísio saiu de Corumbá dia 6 de junho de 1908 e no dia 6 de dezembro estava em Aquidauana. Tinha visitado mais da metade da Missão e iria viajar até Nioac e aos limites do Paraguai. As viagens eram longas, de 5 a 10 dias a cavalo. Ele queria que o povo tivesse o primeiro contato com os carmelitas. Sobre esta aventura Frei Canísio conta: “Desde o início gostei e não gostaria de trocar esta vida por outra, mesmo assim na minha última viagem a Coxim não agüentei. Foi uma viagem difícil. Montanhas escarpadas que só podíamos descer a pé, rios bastante grandes que atravessamos em canoas e os cavalos nadando, etc. e tudo isto debaixo de chuva e muito calor. Agora até o fim de fevereiro é a época do calor mais forte e de chuvas pesadas. O meu cavalo estava exausto e andava mancando. Me deu uma dor nas costas tão grande que não agüentava mais sentado no cavalo. Desci e fui andando a pé até não suportar mais. Aí pernoitamos lá mesmo. No dia seguinte trocamos de cavalo e tudo corria bem” [42]. Quase dois anos após sua chegada em Corumbá, ele expressava como os missionários se sentiam ao retornar de uma desobriga: “Chegamos do interior meio atordoados, exaustos espiritual e fisicamente” [43]. Para se reabastecerem espiritualmente, os missionários faziam a meditação diariamente pela manhã[44], além das orações normais do breviário.

Frei Canísio em sua carta menciona o calor. De fato a temperatura média em Corumbá é de 32 graus no verão. Somando-se ao calor, o fato de que os missionários eram da Holanda, uma terra muito fria, e que usavam um hábito escuro de cor marrom e de lã, dá para se ter uma idéia daquilo que eles sofreram. A própria estrutura física nem sempre era a ideal pra enfrentar aquelas condições. Frei Canísio, que tinha uma saúde invejável, manifestou dúvidas se o último confrade, que chegou, iria agüentar o tranco: “se Frei Maurício é capaz de fazer aquelas viagens difíceis pelo interior, eu duvido. Mas isto não faz mal, sempre se acha um jeito; de ninguém exige-se demais, porém, é verdade, o trabalho aqui é duro e árduo, é uma vida de sacrifício” [45].

Evidentemente que a prática religiosa do povo não era das melhores. Um dos padres, talvez com certo exagero, escreveu: “A religião aqui é quase ignorada, o povo não leva nada a sério, a metade da população compõe-se de matadores revolucionários e todos praticam o amor livre; nunca faltarão dificuldades e problemas”[46]. Havia também maçons na cidade, mas não parece que havia briga aberta entre eles e a Igreja, mas como conta Frei Canísio: “Aqui tudo é feito pelos chefes da Maçonaria, mas isto não quer dizer nada”[47].

Outro grave problema era a presença de padres amancebados, mercenários e/ou doidos. Quando chegaram na missão, havia em Miranda um velho padre espanhol, que deu dor de cabeça. Conta Frei Canísio: “Ele é do tipo antigo, que como todos os antigos, não liga a mínima para Deus ou mandamentos. Se esta gente recebe uma suspensão, excomunhão ou um interdito, fica rindo de tudo isto e continua fazendo o que quer; bem, afinal de que vão viver as mulheres e os filhos?

Deu na cabeça do velho espanhol, há algum tempo, de abandonar Miranda e de ir para a paróquia de Nioac, que é nossa. Ainda deve estar lá e se ele pretende ficar lá mesmo, é de tirar o chapéu para quem conseguir fazê-lo sair.

Naturalmente o Bispo ficou sabendo disto e este nos escreveu então que um de nós fosse à Miranda para ver a situação”[48]. Frei Paulo Hurkmans, como superior, foi lá tentar resolver, mas sua viagem foi um fracasso, porque ele, além dele não entender bem o idioma, não era uma pessoa indicada para lidar com este tipo de situação.

Sete meses mais tarde, escrevendo ao Procurador da Ordem, Frei Canísio conta que em Sant'Ana do Paranaíba o vigário era um italiano caduco. Este deu dor de cabeça, porque foi para a região de Miranda e Aquidauana e ali começou a fazer casamentos e batizados sem licença. O próprio Frei Canísio foi encarregado, pelo bispo, de entregar-lhe a suspensão, mas ele também não deu nem bola. Na mesma missiva afirma: “Um outro problema são os Padres Italianos que vivem tirando dinheiro do bolso das pessoas, fazendo batizados, casamentos etc. sem terem jurisdição, sem nada”. Dá o exemplo concreto: “Enquanto eu estava em Campo Grande, que pertence à paróquia de Miranda, distante umas cinco horas a cavalo daqui, situada no alto das montanhas, veio fixar residência aqui um padre italiano, trazendo consigo mulher e filhos. O povo não liga para isto, quanto mais almas, mais alegria; que os sacerdotes devem ser solteiros para o povo isto é besteira, e direito e autoridade simplesmente não existem. O sacerdote é um trabalhador manual e onde se estabelece, pode exercer a sua profissão. E aquele italiano se aproveita disto; já está começando a enganar o povo e no primeiro ato religioso que fizer estará suspenso, mas isto não quer dizer nada. Dirigiu também ao Bispo um requerimento com muitas assinaturas, solicitando o cargo de vigário daquela paróquia. O Bispo não deverá atender ... No momento tenho um certo medo de voltar para lá porque um cara deste, vendo que nós o atrapalhamos é capaz de tudo, consciência ele não tem e justiça humana lá não existe” [49].

Frei Paulo aponta o caso de um padre que morava em Corumbá e que tinha 3 filhas. Devido ao amancebamento e à simonia praticadas por este “maus” padres o resultado era que, quando os carmelitas visitavam uma casa em que havia mulher, deviam tomar muito cuidado porque a desconfiança era grande. Frei Paulo tinha esperança de que a situação mudaria pouco a pouco, visto que o povo estava vendo que os carmelitas não estavam atrás de dinheiro e de mulher[50].

Além das dificuldades externas, havia as dificuldades internas e pessoais. Frei Paulo Hurkmans não sabia bem o português e por isso não saía para o interior. Isto causava certo descontentamento entre os outros confrades. Tinha um pouco de problema em relação à bebida e sua saúde não era muito boa. Estava só com 44 anos, mas para Frei Canísio ele já era “velho” para trabalhar na missão. Poucos meses depois da chegada em Corumbá, Frei Canísio, referindo-se a frei Paulo, desabafava: “E quanto ao trabalho dele, ele pode muito bem voltar para Santos, não fará nenhuma falta, antes pelo contrário”[51]. Frei Carmelo, que tinha o estupim um pouco curto, não tinha paciência com Frei Paulo e muitas vezes explodia. O próprio Frei Canísio, que era muito controlado e tinha uma força de vontade incrível, às vezes perdia a paciência. Ele mesmo conta: “recentemente recebi uma advertência do Rio para não perder a calma e estou nervoso de novo”[52]. Frei Carmelo Lambooy chegou a enviar uma carta ao Prior Geral Frei Pio Mayer pedindo demissão da missão no Mato Grosso “por causa de diversas e veementes rixas” com Frei Paulo[53]. A demissão nunca foi aceita.

A própria situação geográfica e a variação do clima trazia como conseqüência o isolamento do resto do mundo. No final do período de seca em 1909, um dos missionário conta: “Durante muito tempo ficamos aqui separado do mundo civilizado por falta de água nos rios, sem receber nenhum sinal de vida ou notícia, até que por estes dias veio correspondência com novidades”[54].

Ele se sentiam abandonados pelos superiores e não sem razão. Pediam constantemente ajuda, mas nem o superior do Rio nem o da Holanda se dignaram enviar mais padres para ajudá-los. Parece que a dor maior não era causada por não receber reforço numérico e sim a indiferença, manifestada mesmo no envio de notícias. Numa carta ao provincial holandês, Frei Canísio se lamentava: “Parece que finalmente o pessoal do Rio reconhece que nos trataram mal. Pelo menos agora recebemos regularmente notícias de lá, escrevendo até que o Provincial viria aqui. Agora parece que a gente pode tirar o cavalo da chuva” [55].

As doenças também acompanharam os frades carmelitas no Mato Grosso. Frei Paulo devido à doença teve que deixar a missão o dia 25 de fevereiro de 1910. Conta Frei Canísio: “Frei Maurício esteve um mês doente, para nós foi muito desagradável”[56].

A insegurança em relação ao futuro foi algo que corroeu os missionários durante todo o tempo. Como não havia uma certeza de que permaneceriam sempre ali, não se empenharam em fazer construções de convento, etc.

 

Visitas de superiores

No início da missão os superiores provinciais carmelitas, tanto da Holanda como do Brasil, não eram favoráveis à missão em Corumbá e não deram o apoio necessário. Pode-se dizer que ficaram indiferentes diante do compromisso assumido pelo Prior Geral Frei Pio Mayer. A situação começou mudar quando em 1909 foram eleitos provinciais Frei Gregório Meijer[57] no Rio de Janeiro e Frei Humberto Driessen na Holanda. Os dois tiveram um interesse maior e apoiaram a missão naquilo que era possível, inclusive visitando. Em 1910, Frei Humberto, sensibilizado por tantos e tantos pedidos dos missionários, enviou Frei Maurício Lans para a missão do Mato Grosso. Foi o único frade carmelita enviado a Corumbá após os 4 pioneiros.

Frei Gregório Meijer foi primeiro superior carmelita a visitar Corumbá. A visita aconteceu em março-abril de 1912, portanto 4 anos após a ida dos missionários para o Mato Grosso. Infelizmente não há, nos arquivos consultados, um relatório desta visita. Há no Arquivo Geral da Ordem em Roma uma carta de Frei Gregório ao Prior Geral informando que visitou a missão. Além disso conta resultado das negociações com o bispo. Junto com a carta há um mapa da diocese, desenhado a mão por Frei Gregório, com a área reservada aos carmelitas. Durante a visita encontrou-se com o novo bispo Dom Cyrillo de Paula Freitas e tentou acertar definitivamente a presença dos missionários carmelitas na diocese. Não conseguiu nem o que queria nem evitou que o bispo tirasse dos carmelitas a maior parte do território, mesmo prometendo enviar mais missionários. De fato naquela ocasião o bispo tirou em torno de ¾ do território e os carmelitas ficaram só com uma faixa ao longo do Rio Paraguai, compreendendo Corumbá, Ladário, Forte Coimbra, Porto Esperança e Porto Murtinho, além de algumas fazendas[58] (ver o mapa no anexo 2). Sobre esta vista comentou Frei Canísio: “O senhor já deve saber que o Provincial do Rio esteve aqui. Nada mal, pelo contrário, teria sido muito melhor se tivesse já vindo para cá antes” [59].

Em maio de 1913 o Padre Visitador Frei Humberto Driessen esteve em Corumbá. Tão logo chegou a notícia de que a ilustre visita iria para Corumbá, Frei Canísio escreveu ao Padre Geral demonstrando a sua satisfação e diz que era “absolutamente necessário, que o próprio visitador visse a situação e escutasse os missionários”[60].

Ele visitou a missão do Mato Grosso em companhia de Frei Serapião de Lange, que pouco depois foi eleito provincial. Ainda em Corumbá, Frei Humberto enviou uma carta ao bispo diocesano Dom Cirilo de Paula Freitas para tentar resolver a situação jurídica dos carmelitas na diocese, visto que “nunca se firmou um pacto de entregar a administração destas paróquias à nossa Ordem”[61]. Também não conseguiu.

 

Curiosidades sobre o roteiro da viagem Rio-Corumbá

A viagem do Rio de Janeiro até Corumbá levava em torno de um mês. O navio parava em alguns portos para carga e descarga, como é normal acontecer. Os passageiros tinham tempo livre para passear ou fazer visitas. Os missionários carmelitas iam para casas de religiosos. Em Buenos Aires dirigiam-se aos Padres de Steyl, que falavam holandês, cujo endereço era: Padres del Verbo Divino, Calle Mansila 1555 (Palermo). O aviso da chegada podia ser feito através do telégrafo com o endereço: Imprensa Guadalupe, Buenos Aires. Em Assunção hospedavam-se no Oratório Franciscano, Bermejo 135. Este era dirigido por franciscanos espanhóis, que eram “boa gente”, segundo Frei Canísio. Quando o navio fazia escala em Montevidéu em vez de Buenos Aires, dirigiam-se ao "Colégio de la Sagrada Família", Calle Agraciada, 217[62].

 

PRELAZIA CARMELITANA: um sonho?

Desde o início foi prometido pelo Cardeal Arcoverde e pelo Núncio Giulio Tonti que no futuro a “Missão” seria concedida em definitivo para os carmelitas, e caso fosse criada uma diocese ou prelazia o bispo seria carmelita[63]. Este sonho foi alimentado tanto pelos superiores como pelos missionários. Parecia tudo líquido e certo. Mas os carmelitas se esqueceram de algo fundamental: para a Santa Sé vale o que está escrito e não o que se falou. O próprio Núncio vai confirmar este princípio diplomático do Vaticano. É estranho que Frei Humberto Driessen – como canonista e Procurador Geral – não tenha dado importância para este determinante detalhe e não tenha orientado ao Prior Geral e aos provinciais para que documentassem a promessa.

Desde 1910 o vigário provincial Frei Gregório Meijer desconfiava que a promessa não seria mantida. Numa carta ao provincial holandês Frei Humberto Driessen, ele manifestou seus temores. Começou logo afirmando: “Quanto à nossa Missão, creio que perderemos Corumbá”. Ele já tinha alertado o Padre Geral e este lhe respondeu “para lembrar ao Cardeal e ao Núncio, mais uma vez, das promessas feitas por estes”. O Cardeal Arcoverde tirou o corpo fora  dizendo “que não podia se apressar em se envolver neste assunto, primeiro porque a sua palavra como Cardeal, como sendo o desejo de um Cardeal ia pesar demais na balança e depois, porque ele não era propriamente o representante da Santa Sé, mas sim o Núncio”. Frei Gregório compreendia a posição do Cardeal e tinha bons motivos para isto: “nós, por experiência, sabemos que ele sempre esteve a nosso favor e também o será no futuro mas que não acha conveniente envolver-se neste assunto já que em outros casos ultimamente, muitas vezes foi forçado a não dar o seu voto em negócios papais”. De outro lado o Cardeal não estava de acordo com a posição do Prior Geral Frei Pio Mayer, que queria chamar de volta os missionários, porque “achava uma medida muito severa, muito Européia”. Já sobre a possibilidade de que o primeiro bispo de Corumbá seria um salesiano, o Núncio Bavona afirmava que a notícia era prematura e que nunca tinha pensado nesta possibilidade. Era verdade, visto que ele já tinha consultado o bispo coadjutor de Cuiabá, Dom Cyrillo – que não era salesiano – para ser o primeiro bispo de Corumbá. Disse que sua preocupação era a de continuar trabalhando no projeto das 3 novas dioceses do Mato Grosso e aquilo que já estava decidido não seria voltado atrás, ou seja, a diocese de Corumbá tinha sido criada e não seria reduzida a Vicariato. Ele se comprometia em indenizar a Ordem se, baseada na promessa de dar definitivamente a missão de Corumbá, tivesse construído algo ali. Em relação à ameaça do Padre Geral tirar de lá os missionários, afirmou que se tal acontecesse, se voltaria contra os carmelitas ou ficaria indiferente em relação aos mesmos no futuro. “Ele prometeu conseguir que nos seja dado em outro lugar, um território próprio e, como eu sugeri a ele, também nos seriam confiadas algumas paróquias de Corumbá, como próprias dos Carmelitas”[64].

Quando em 13 de março de 1911 foi anunciado que o bispo nomeado para Corumbá era Dom Cyrillo de Paula Freitas, portanto um que não era carmelita, o vigário provincial Frei Gregório Meijer manifestou a sua mágoa ao novo Núncio Dom Giuseppe Aversa. Em carta ao provincial holandês desabafava: “Quando eu falei ao Núncio Apostólico da nossa decepção, disse-me que nunca soubera que os Carmelitas gostariam de ter como seu o território e que logo mudaria a situação contanto que o Geral ou o Provincial daqui possam provar que de fato existem promessas feitas pela Congregação ou pelo Núncio anterior, de fazer deste território um Vicariato.

Se o senhor puder arrumar alguns documentos ou mostrar alguma prova em relação a isto, devido ao seu conhecimento do andamento dos negócios naquela época em Roma, o senhor faria um bem a nós e à Missão de Mato Grosso.

Entrementes temo que não se tenha feito um contrato definitivo, o que, conforme as palavras do Núncio, teria sido tão fácil. Acho aconselhável aproveitar esta ocasião para transferir os Padres para um outro território e de imediato tentar por intermédio do Núncio, conseguir um território de Missão como Vicariato-Prelazia para os Carmelitas”[65].

A nomeação de Dom Cyrillo de Paula Freitas não matou o sonho dos carmelitas holandeses terem uma missão própria. O sonho continuou sendo acalentado e alimentado até que se conseguiu a Prelazia de Paracatu em 1929.

 

CRIAÇÃO DA DIOCESE

A Diocese de Corumbá foi erigida pelo Papa Pio X com a bula “Novas constituere dioceses” de 10 de março de 1910[66]. Mas o seu primeiro bispo, Dom Cyrillo de Paula Freitas[67], só foi nomeado em 13 de março de 1911[68]. A demora de mais de um ano entre a criação da diocese e a nomeação do primeiro bispo aconteceu porque quem era consultado não aceitava. Em carta ao Núncio Aversa[69], o próprio Dom Cyrillo de Paula afirma não aceitou na primeira consulta: “Conhecendo a situação da nova diocese, recusei a primeira proposta de nomeação que Monsenhor Bavona[70] me fez. E como elle insistisse por duas vezes, respondi que somente acceitaria, si a S. Sé me permittisse residencia fora de Corumbá, ate que eu conseguisse crear renda para a mitra e adquirisse fundos para o patrimonio da diocese – proposta que a S. Sé accedeu”[71]. Além da exigência de poder morar fora da sede diocesana pediu para “ficar por algum tempo como simples administrador da nova diocese” e que iria “tomar conta do governo da nova diocese no fim do anno de 1911”[72]. Dom Cyrillo de Paula Freitas nem mesmo não apareceu para tomar posse pessoalmente. Tomou posse por procuração através de Frei Canísio Mulderman no dia 3 de março de 1912[73]. A não aceitação imediata e as exigências de Dom Cyrillo retardaram a posse do primeiro bispo da diocese de Corumbá por dois anos.

 

RELACIONAMENTO COM O BISPO

O relacionamento de Dom Cyrillo e os missionários carmelitas normalmente foi bom. Ele encarregou Frei Canísio, como seu procurador, para tomar posse da diocese. Ele poderia ter encarregado um dos salesianos, que morava em Corumbá, ou mesmo ter enviado um amigo seu de Cuiabá. Por mais de uma vez manifestou que estava satisfeito com os carmelitas e que queria que eles ficassem na diocese. Ao visitador provincial Frei Humberto Driessen escreveu: “Desejo muito que os seus Religiosos continuem na obra de apostolado, que já iniciaram nesta diocese. Elles tem sabido cumprir o seu dever; e das dioceses do Brasil a de Corumbá é talvez a que esteja precisando mais do concurso de bons religiosos”[74]. Mas se Dom Cyrillo apreciava os carmelitas que estavam em Corumbá, tinha consciência de que os superiores carmelitas não enviariam mais padres missionários para o Pantanal. Por isso tirou inicialmente uma grande parte do território onde os carmelitas trabalhavam. Frei Canísio sobre a atitude do bispo escreveu ao provincial holandês: “Ele (o bispo) sabia que com os Carmelitas não arrumava nada mesmo, ou como ele mesmo disse: tinha certeza de que os Carmelitas não tinham mesmo pessoal suficiente e por isso nos tirou ¾ da Missão, região para a qual pediu Padres Seculares. Temos agora ainda Corumbá e toda a região pertencente a mesma. Poderemos com todo o prazer, receber de volta as outras paróquias se um ou outro Secular convidado não quiser vir. Como esta história vai acabar não sei dizer. Por escrito o Bispo declara que gostaria de confiar a nós toda a sua diocese (que aliás já estava nas nossas mãos), mas o que ele devia pensar? Só podia mesmo pensar que nós não tínhamos o pessoal necessário” [75].

Houve pequeno contra-tempo quando o bispo autorizou um padre salesiano para fazer batizados e casamentos em Porto Murtinho sem avisar os carmelitas. O próprio bispo se justifica para o Núncio: “à pedido do diretor Salesiano de Corumbá, lhe concedi a este diretor a faculdade de ministrar os sacramentos numa fazenda da parochia de Porto Murtinho onde fora elle passar ferias em casa de um alumno do collegio. Estando em Porto Murtinho à uma distancia de noventa leguas de Corumbá, e sem occasião de nenhum recurso espiritual, por isto que os Carmelitas so apparecem alli uma vez no anno, quando isto succede, - concedendo tal faculdade julguei apenas cumprir um dever de consciencia!” [76]

Numa carta ao Núncio, Dom Cyrillo reclama que os carmelitas não fizeram nada para constituir um patrimônio para a diocese. O que é verdade. Mas eles nunca foram encarregados de tal tarefa. Os encarregados foram outros. Já em 1908 falava-se que “Corumbá em breve vai virar diocese. Já há muito tempo foram nomeadas comissões e distribuídas circulares para arrecadar dinheiro para a residência do Bispo e o patrimônio da diocese. Naturalmente, como tudo aqui, feito pelos chefes da Maçonaria, mas isto não quer dizer nada”[77]. O próprio Dom Cyrillo estava encarregado, tanto é que Frei Canísio informa ao seu superior: “Há mais de um mês que o Bispo auxiliar de Cuiabá está no Sul de Mato Grosso para administrar a crisma e arrecadar fundos para a futura diocese de Corumbá”[78]

Durante o período em que os carmelitas estiveram em Corumbá, o bispo não teve grande interesse pela sede da sua diocese. Logo após a primeira e pequena visita, foi para Três Lagoas e não deixou acertado quando voltaria. Os próprios carmelitas não sabiam: “Nos primeiros oito ou dez meses o Bispo não deverá voltar aqui” [79].

Dom Cyrillo, pouco depois de assumir a diocese, passou a maior parte do território atendido pelos carmelitas a padres diocesanos. Mas como o vigário provincial Frei Gregório Meijer pediu e prometeu enviar mais sacerdotes carmelitas para trabalhar no Pantanal matogrossense, ele voltou atrás e devolveu uma parte do território aos carmelitas. Comunicou sua decisão, desde Coxim, ao Frei Canísio:

“Cordiais Saudações. A propósito da última reunião que tivemos em Corumbá, telegrafei depois da minha chegada aqui e consegui mais alguma coisa em favor das Missões Carmelitas. Para atender à sua solicitação, poderão os Carmelitas nesta diocese, continuar encarregados não somente da paróquia de Corumbá como também de Miranda, Aquidauana e de Bela Vista; enquanto outros sacerdotes tomarão conta das paróquias de Campo Grande, Coxim e Sant'Ana do Paranaíba que não posso mais deixar para os Carmelitas porque assumi compromissos de prover estes lugares de sacerdotes e não posso faltar a estes compromissos.

Desejando tudo de bem para V. Revma. assino

Atenciosamente seu amigo em Cristo,

  1. Cirilo Bispo de Corumbá”[80].

 

Motivos que levaram os carmelitas a abandonar Corumbá

Parecia no início que tudo iria dar certo para o trabalho missionário dos carmelitas em Corumbá. O bispo Dom Carlos Luiz D’Amour, aconselhado pelo Cardeal Arcoverde, tinha entrado em contato com Frei Cirilo Thewes, superior dos carmelitas no Rio de Janeiro. Este por sua vez deu esperanças ao bispo e pediu para que ele se dirigisse ao Prior Geral Frei Pio Mayer e ao provincial carmelita da Holanda. O capítulo provincial da Holanda informalmente tinha aceitado, mas quando o Prior Geral aceitou oficialmente a missão, o provincial holandês interpretou que a missão era de responsabilidade do Conselho Geral e não da Província Holandesa.

A Província Holandesa só enviou os três primeiros missionários e depois não se comprometeu mais. A Província Fluminis Januarii não tinha frades suficientes nem para ocupar todos os conventos carmelitas dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, ou seja, os conventos da Lapa (Rio de Janeiro), Angra dos Reis, São Paulo, Mogi das Cruzes, Itu e Santos. Por isso, quando o Vigário Provincial Frei Cirilo Thewes percebeu que da Holanda não chegariam missionários, mudou de posição e passou a ser contra a missão. Logo após a chegada dos missionários indicados para Corumbá, os destinou para tarefas dentro da província. Frei Canísio Mulderman foi nomeado mestre de noviços, Frei Carmelo Lambooy foi destinado para o trabalhar como professor em São Paulo e Frei Paulo Hurkmans foi enviado para o convento de Santos. Foi necessário que o Prior Geral Frei Pio Mayer enviasse uma carta-obediência obrigando os três irem para o Mato Grosso. Isto ajudou azedar o ambiente e a criar reação contra a missão. Frei Cirilo só acatou a ordem por obediência: “Embora a questão já esteja decidida, ele [Frei Cirilo] em consciência continua contra, como aliás sempre foi, e já não estava muito contente durante a visita do Bispo aqui; como estava convencido tratar-se de um caso decidido, aceitou a contra gosto”[81]. Portanto antes da partida dos missionários já havia animosidade contra a missão no Mato Grosso.

Outro fator importante para manter uma posição de não assumir a missão foi que o acordo entre o bispo e a Ordem não foi colocado por escrito. Que o contrato foi só verbal, é evidente na frase de Frei Cirilo: “Não há sequer contrato de modo que o Bispo quando quiser, poderá mandá-los embora. É possível, ou melhor, é certo que farão trabalhos missionários, mas não se trata de uma Missão entregue à Ordem, como sempre se afirmava em Roma. Enfim, a culpa é da Ordem, aceitar algo sem conhecimento e sem fazer condições. A questão Mato Grosso ainda não está no fim. Agora começar-se-á a perceber em Roma o que se fez”[82]. A insegurança de que o bispo poderia mandá-los embora a qualquer momento e o descontentamento com o Governo Geral da Ordem por não ter feito um contrato por escrito acompanharam os carmelitas durante todo o tempo em que estiveram trabalhando no Pantanal matogrossense. Inclusive os impediu de fazer investimentos em construções.

Aliado a este problema havia a promessa de que se fosse criada em Corumbá uma prelazia ou diocese, esta seria confiada aos carmelitas. Quando a diocese foi erigida e o bispo nomeado não era um carmelita, criou-se um mal-estar muito grande entre os carmelitas, tanto em Corumbá como no Rio de Janeiro. Neste sentido as palavras do Frei Gregório Meijer não deixam dúvidas:

“Quanto a nossa missão em Mato Grosso, a situação não é boa. ... todo o território de Corumbá onde até agora trabalhamos, tornou-se agora uma só diocese onde o Bispo auxiliar de Cuiabá foi nomeado Bispo. Quando eu falei ao Núncio Apostólico da nossa decepção, disse-me que nunca soubera que os Carmelitas gostariam de ter como seu o território e que logo mudaria a situação contanto que o Geral ou o Provincial daqui possam provar que de fato existem promessas feitas pela Congregação ou pelo Núncio anterior, de fazer deste território um Vicariato.

Se o senhor puder arrumar alguns documentos ou mostrar alguma prova em relação a isto, devido ao seu conhecimento do andamento dos negócios naquela época em Roma, o senhor faria um bem a nós e à Missão de Mato Grosso.

Entrementes temo que não se tenha feito um contrato definitivo, o que, conforme as palavras do Núncio, teria sido tão fácil. Acho aconselhável aproveitar esta ocasião para transferir os Padres para um outro território e de imediato tentar por intermédio do Núncio, conseguir um território de Missão como Vicariato-Prelazia para os Carmelitas”[83].

A reação de Frei Canísio em Corumbá: “Não dá para dizer com certeza o que será do futuro. Como se afirma, o Bispo auxiliar de Cuiabá aceitou a nomeação como Bispo de Corumbá. Pelo resto há muitos boatos por aqui sobre os quais nem vou escrever porque não tem sentido. Certo, porém, é que Corumbá agora é Diocese. Por enquanto nada foi organizado. Logo que o Bispo se instalar o negócio ficará mais claro e será possível para nós agir conforme as circunstâncias. Por enquanto continuaremos as nossas atividades normais e insistiremos num território separado quando o momento for oportuno; e apesar de todas as fofocas não vejo porque não poder conseguir isto”[84].

Aquilo que os carmelitas temiam, aconteceu: o novo bispo tirou-lhes a maior parte do território da missão tão logo colocou o pé na diocese. É certo que depois devolveu uma parte, mas ficou a ferida e aumentou a desconfiança.

Em 1913, Frei Humberto Driessen foi enviado pelo Prior Geral Frei Pio Mayer como visitador ao Brasil.

Sabedor de que o bispo tinha tirado uma parte do território e que juridicamente a situação era confusa, tentou resolver definitivamente o problema escrevendo ao bispo Dom Cyrillo. Sua carta é muito clara e direta:

“Corumbá, 5 de maio de 1913.

Exmo. e Revmo. Senhor,

Enviado pelo Revmo. Pe. Geral para visitar a nossa Província Fluminense, também terei que me encontrar com os confrades que residem na vossa diocese, exercendo o cargo de vigário. Nesta visitação que, como é claro, não se incluem as paróquias como tais, encontrei nossos confrades que ainda não têm, como administradores das paróquias, residência fixa e juridicamente confirmada. De fato a diocese entregou a eles as paróquias a serem administradas mas nunca se firmou um pacto de entregar a administração destas paróquias à nossa Ordem para sempre e com todos os direitos e privilégios que, conforme o Direito, possuem as outras paróquias. Daí que, para no futuro não surjam contendas ou dúvidas a respeito, peço humildemente à V. Revma. manifestar a sua intenção e sua vontade quanto as paróquias que atualmente administramos, se de fato nos serão cedidas, as suas circunscrições atuais e assim para todo o futuro pertencerão à nossa Ordem Carmelitana, naturalmente salvo o direito do Bispo. E de tal modo que não será permitido, sem consultar os Superiores da Ordem, remover ou substituir os confrades, por outros sacerdotes, sejam seculares ou regulares. Solicito a V. Revma. enviar uma resposta a esta pergunta, ao abaixo assinado, Visitador da Província Fluminense. Desejando tudo de bem e as bênçãos divinas para V. Revma. no governo de sua diocese e osculando o seu sagrado anel, subscrevo-me.

Mui respeitosamente Pe. Driessen - Visitador da Província Fluminense”

O bispo enviou, desde Três Lagoas, uma resposta já no dia 24 de junho. Após afirmar “cumpre-me significar-lhe que a minha intenção com respeito aos Revds. Pes. Carmelitas nesta diocese, é que elles fiquem e continuem aqui nas mesmas condições, em que estão as outras Ordens Religiosas, que como elles estão exercendo o cargo de vigarios nas parochias de muitas dioceses do Brasil” e fazer várias considerações, deu uma resposta negativas às pretensões do visitador:  “Pelo que si a conservação dos seus Religiosos nesta diocese está dependendo da satisfação desta, com o mais profundo pezar de minha parte, sou compellido a deixar a V. P. a liberdade de agir em sentido contrario aos meus desejos”[85].

Diante da resposta negativa de Dom Cyrillo, a primeira reação de Frei Humberto Driessen foi a de querer retirar os missionários carmelitas do Mato Grosso. Mas antes conversou com o Núncio Aversa e este prometeu-lhe agir no sentido de resolver a questão de modo que os carmelitas pudessem permanecer para sempre em Corumbá[86].

O Núncio Giuseppe Aversa, desde Petrópolis no dia 3 de abril de 1914,  escreveu ao bispo Dom Cyrillo:

“Dico confidenzialmente a V. R. che l’impressione, che ho riportata dai colloqui tanto col Visitatore come col Vece Provinciale di Rio, è che se ai Religiosi non viene data una garanzia sicura di stabilità avvenire, i loro Superiori sembrano disposti a ritirarli tutti della Diocesi di Corumbà.

Ora, io lascio da parte la lettera del P. Visitatore, qualche periodo della quale avrà potuto apparire un po’ duro a V. E. Desiderando il bene e la prosperità così della Diocesi di Corumbà come dell’Ordine Carmelitano, vengo a domandarle con la presente, se sarebbe Ella disposta a dichiarare per iscritto con una lettera, per esempio, al Superiore dei Carmelitani essere Suo intento di affidare in perpetuo ai Carmelitani, in nome Suo e dei Suoi legittimi Successori, le Parrocchie che crederà determinare, aggiungendo alla dichiarazione la clausola, che salvaguarda i diritti vescovile anche: “servatis praescriptionibus circa regulares parochias Constitutionum Firmandis Benedicti XIV et Romanus Pontifices Leonis XIII.

Se ho questa proposta per dirimere la questione in maniera, che mi parrebbe soddisfacente e accettabile per le due parti. Debbo dire del resto che io non ho ancora fatto conoscere questa mia proposta ai Carmelitani, volendo essere prima sicuro che V. E. l’accetti. Appena Ella mi significarà tale accetazione, io ne parlerò ai Carmelitani mostrando loro la convenienza de accettarla anche essi”[87].

Dom Cyrillo respondeu ao Núncio com uma longa carta[88], escrita em Três Lagoas no dia 26 de abril de 1914. Fez uma pequena retrospectiva da situação, criticou o trabalho e o zelo dos carmelitas, afirmou que estes não eram amigos dos salesianos, que os carmelitas “Para a criação da diocese não deram um passo” e a receberam com grande desagrado e que “Fora de Corumbá, um delles viaja a maior parte do anno pelos sertões. Se limitando, porem, nessa viagem a fazer senão baptizados e casamentos”. Recordou que tinha recusado ser bispo de Corumbá por duas vezes, que o Arcebispo de Cuiabá tinha se precipitado na criação da diocese, que a mesma não tinha patrimônio nem clero. Fez um desabafo pessoal, reclamou que o Núncio não reconhecia seu trabalho e dificuldades. Mas por fim escreveu:

“Depois desta exposição, resta-me, finalmente responder ao objetivo da carta de V. Ex.

Com satisfação communico-lhe que accedendo aos seus desejos, estou propondo a ceder; in perpetuum e por escripto, aos Carmelitas as parochias de Bella Vista, Ponta Porana e Porto Murtinho, regiões vastissimas onde o zelo encontra um campo immenso onde se expandir.

Quanto, porem, as de Corumbá, Miranda e Aquidauana, juntas e ligadas entre si – a não ser que V. Ex possa attender ao pedido de transferencia, ja manifestado em cartas anteriores – estas não posso”[89].

Claramente Dom Cyrillo tentou utilizar a situação para conseguir a sua transferência para outra diocese. Por isso ofereceu “in perpetuum” somente as paróquias de Bela Vista, Ponta Porã e Porto Murtinho, mas abria possibilidade de entregar também Corumbá, Miranda e Aquidauana, se o Núncio o transferisse.

Evidentemente os carmelitas não aceitaram e decidiram sair de Corumbá. A decisão oficial foi comunicada ao Núncio, primeiro verbalmente e depois por escrito, pelo provincial Frei Serapião de Lange. O texto integral da decisão:

 

“Rio de Janeiro, 16 de Maio de 1914.

Exmo e Revmo Snr.

Dignou-se V.Ex. de me comunicar em sua carta de 8 de maio de 1914 o pensamento de S.Ex. o Snr. Bispo de Corumbá de nos entregar in perpetuum as Parochias de Bella Vista, Ponta Porana e Porto Murtinho, em substituição d’aquellas em que nos achamos actualmente e onde estamos desde Dezembro de 1907, isto é, antes mesmo da creação do Bispado actual de Corumbá, por instantes solicitações do Exmo Metropolita D. Carlos Luiz d’Amour ao nosso Geral da Ordem em Roma.

Em resposta devo dizer com o devido acatamento e respeito, a V. Ex. que essas Freguezias não offerecem, por sua população muito escassa, campo sufficiente para exercer a actividade de uma missão completa, provida de pessoal e recursos bastantes, como era pensamento do Revmo P. Provincial da Provincia Germano-Hollandeza, que no intuito de bem conhecer e avalias as necessidades daquellas remotas e inhospitas paragens veio pessoalmente visital-as.

Venho pois com grande pezar de nossa parte apresentar, em obediencia ás ordens de nosso P. Visitador Fr. Huberto Driessen, como já tive a honra de fazer pessoalmente, a resolução em que estamos de retirar-nos dessa missão em que a insufficiencia de sacerdotes e a largueza das distancias poem em grande perigo aquelles que isoladamente se arriscam a viver longe de todo o soccorro material e espiritual.

Agradeço de todo o coração o interesse que V.Ex. se dignou de tomar por nós e pela estabilidade de nossa missão em Mato Grosso.

Aproveito a occasião para renovar a V.Ex. os protestos de minha distincta estima, profunda consideração e respeito.

Servo em J. Chrº

Fr. Serapião de Lange

 

Exmo e Revmo Snr. D. José Aversa

D.D. Nuncio Apost. Do Brazil”[90].

 

Mas antes da saída, houve reação em Corumbá. Um grupo de católicos protestou publicando um artigo (ver onde foi publicado):

“Exmo. Sr. Redator,

Surpreendidos como fomos com a triste notícia da remoção dos Revmos. Carmelitas desta localidade para fora e contristados, pois que tem os mesmos muito cooperado para o grande desenvolvimento da religião católica, levando assim aos lares o sossego e a paz por meio de suas santas palavras e obras e também sabedores que lhe foi suspenso o crisma pelo Revmo. Sr. D. Cirilo e entregue aos Salesianos, viemos portanto, por intermédio vosso, pedir vos, protesteis pelas colunas do vosso conceituado órgão contra semelhante ato, que só poderá trazer-nos descontentamento e aos Carmelitas grande injustiça e ingratidão, porque nunca pouparam esforços para o engrandecimento moral de nosso Corumbá e da Santa Igreja Católica.

Agradecendo vosso valioso auxílio, esperamos também providências. Somos vossos assíduos leitores e devotos fervorosos.

Corumbá, 12 de maio de 1914.

Os Católicos de Corumbá”.

Frei Canísio Mulderman apressou-se em fazer um esclarecimento oficial (ver o texto completo e onde foi publicado):

“Agradecemos as honrosas referências. O fato, porém de nossa retirada de Corumbá, só por causa da ordem de nosso Superior, que nos chamou para o Rio de Janeiro.

Corumbá, 23 de maio de 1914.

Pelos Padres Carmelitas

Frei Canísio, Vigário”.

 

Atendendo ao chamado dos superiores, os missionários carmelitas deixaram Corumbá, terminando assim a presença missionária carmelitana no Mato Grosso.

 

 

CONCLUINDO

         O fim da presença missionária dos carmelitas holandeses em Corumbá não matou o sonho de terem uma própria missão, onde pudessem se empenhar com todas as forças e entusiasmo. Por isso “logo após o regresso dos missionários de Corumbá, os Carmelitas quiseram fundar uma nova missão. O Bispo de Curitiba, Dom João Braga, ofereceu-lhes a paróquia de Paranaguá, no Paraná, e porto principal de exportação desse Estado. Em 1915, Frei Canísio Mulderman, Superior, Frei Rafael Wilens - mais tarde substituído por Frei Carmelo Lambooy - e o Irmão leigo Frei Pancrácio Helmich tomaram posse da nova missão. Durante 4 anos trabalharam aí ativamente, abrindo também uma escola primária com grande frequência. Por falta, porém: de novas forças, das poucas vocações religiosas e da necessidade urgente dos conventos de Itu e Mogi das Cruzes, que estavam sendo ocupados naquela época, também esta missão foi abandonada, em 1919, voltando os Padres aos seus conventos”[91].

O fim da missão em Paranaguá não marcou o fim do sonho. Os contatos com o Núncio continuaram. Foi oferecido a possibilidade de escolha entre Alto Juruá no Acre e a Ilha de Bananal no Estado de Goiás. A Província Fluminis Ianuarii escolheu a missão no Alto Juruá. Mas quando se discutia em Roma a demarcação dos limites da nova Prelazia, os missionários do Divino Espírito Santo, que missionavam no Amazonas e por diversas vezes haviam visitado as regiões do Alto Juruá, pediram esta Prelazia. A Santa Sé acabou concedendo aos Padres Espiritanos a região do Alto Juruá. Após novos contatos, foi oferecida a missão da Ilha Marajó, porém, os carmelitas não a aceitaram. Finalmente chegou-se a um consenso e os carmelitas aceitaram a Prelazia de Paracatu.

“A Prelazia de Paracatu, no Estado de Minas Gerais, foi criada em 1 de março de 1929 pela Bula “Pro Munere Sibi Divinitus” do Papa Pio XI. Esta Prelazia foi desmembrada das Dioceses de Uberaba e Montes Claros, ocupando uma superfície de 70.000 quilômetros quadrados. Os limites coincidem com os municípios de Paracatu, João Pinheiro, São Romão e Unaí e a população é aproximadamente 80.000 almas”[92]. A Sagrada Congregação Consistorial confiou à Ordem do Carmo a Prelazia Nullius de Paracatu no dia 27 de abril de 1929.

Na Prelazia, e depois Diocese, de Paracatu puderam realizar tudo aquilo que não foi possível realizar em Corumbá. O primeiro prelado e depois bispo de Paracatu foi o carmelita Dom Eliseu van de Weijer[93].

 

 

ABREVIAÇÕES:

AAS = Acta Apostolicae Sedis

AGOC = Arquivo Geral da Ordem do Carmo (Roma)

ASV = Arquivo Secreto Vaticano

 

[1] SMET Joachim, The Carmelites, vol. IV, Carmelite Spiritual Center, Darien 1985, 191.

[2] A Província Carmelita Fluminis Ianuarii (do Rio de Janeiro) foi erigida em 1720. No século XIX, como toda a Vida Religiosa no Brasil, entrou em decadência e quase desapareceu. Em 1894 os carmelitas espanhóis foram encarregados da restauração do Carmelo Brasileiro. Como tinham dificuldades, o Prior Geral Frei Pio Mayer passou para a Província Holandesa a restauração da Província Fluminis Ianuarii em 1904. As províncias da Bahia e Pernambuco continuaram sendo restauradas pelos espanhóis.

[3] Dom Carlos Luiz D’Amour nasceu dia 3 de junho de 1836 em São Luís, MA. Foi ordenado dia 30 de novembro de 1860. Nomeado bispo de Cuiabá em 21 de setembro de 1877 e ordenado dia 28 de abril de 1878 por Dom Joaquim Gonçalves de Azevedo, Arcebispo de São Salvador da Bahia. Com a criação da Arquidiocese de Cuiabá em 10 de março de 1910, Dom Carlos Luiz D’Amour tornou-se se primeiro Arcebispo. Morreu dia 9 de julho de 1921.

[4] Cf. Carta do bispo Dom Cyrillo ao Núncio Aversa – Três Lagoas, 26 de abril de 1914 (ASV, Arch. Nunz. Brasile, Fasc. 713, 134).

[5] Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti nasceu em Pesqueira, PE, dia 17 de janeiro de 1850. Foi bispo em São Paulo, Arcebispo do Rio de Janeiro e o primeiro Cardeal da América Latina. Estudou em Roma e Paris. Foi ordenado sacerdote a 4 de abril de 1874 na Basílica de São João do Latrão em Roma. Ao regressar ao Brasil foi professor e reitor do seminário de Olinda e também pároco em Recife. Foi ordenado bispo em Roma no dia 26 de outubro de 1890, indicado para a diocese de Goiás. Depois foi bispo auxiliar e titular em São Paulo. Em 1897 foi transferido para o Rio de Janeiro como Arcebispo e no dia 11 de dezembro de 1905 foi elevado à condição de cardeal pelo Papa Pio X. Morreu aos 80 anos no Rio de Janeiro dia 18 de abril de 1930.

[6] Dom Giulio Tonti nasceu dia 9 de dezembro de 1844 em Roma. Foi ordenado sacerdote dia 21 de dezembro de 1867. Foi bispo titular de Samos, Delegado Apostólico na Venezuela e bispo titular de Sardes. Em 1º de outubro de 1894 foi nomeado Arcebispo de Porto Príncipe, Haiti. Em 23 de agosto de 1902 foi nomeado Núncio Apostólico no Brasil e em outubro de 1906 foi transferido para Portugal. Em 1910 renunciou ao cargo de Núncio de Portugal. Em 6 de dezembro de 1915 foi elevado à condição de Cardeal e titular da Igreja São Silvestre e São Martinho de Roma, que pertence aos carmelitas. Morreu dia 11 de dezembro de 1918.

[7] Frei Cirilo Thewes foi por duas vezes Vigário Provincial da Província Carmelita do Rio de Janeiro: 1906-1909 e 1916-1922. Foi provincial da 1922 até 1932.

[8] Frei Pio Mayer nasceu em Riedlingen, Alemanha, no ano 1848. Imigrou para os EUA. Entrou no seminário diocesano de Milwaukee e foi ordenado em 1871. Depois ingressou na Ordem do Carmo e tornou-se em 1890 o primeiro provincial da Província Americana. Em 1902 foi eleito Prior Geral da Ordem do Carmo. Em 1906 tornou-se o primeiro Padre Geral carmelita a visitar o Brasil. Devido a uma queda na escada do convento de Nápoles, viu-se obrigado a renunciar ao cargo em 1912. Morreu dia 28 de abril de 1918 em Englewood, New Jersey.

[9] Carta de Frei Cirilo Thewes ao provincial holandês Frei Lamberto Smeets – dezembro de 1906.

[10] Cf. Carta do Procurador Geral Carmelita Frei Humberto Driessen ao provincial holandês Frei Telésforo Kroonen – 23/04/1907.

[11] Carta do Procurador Geral Carmelita Frei Humberto Driessen ao provincial holandês Frei Telésforo Kroonen – 23/04/1907.

[12] Frei Humberto Driessen, nascido em Werth (Holanda) em 1871, entrou na Ordem do Carmo em 1888 e foi ordenado sacerdote no ano 1894. Após o doutorado na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, estudou Direito Canônico. Após um breve tempo de ensino em Nocera Umbra  (Itália), foi prior do Colégio Internacional Santo Alberto de Roma e secretário do Prior Geral Simão Bernardini. Depois foi professor na Holanda. De 26 de novembro de 1903 a 1908 exerceu a função de Procurador Geral da Ordem. Retornando à Holanda, foi entre os anos 1909 e 1919 por três vezes provincial da Província Holandesa e depois regente dos estudos. Nomeado uma segunda vez Procurador Geral da Ordem em 1919, estando no cargo até 1925. Ao mesmo tempo era também regente do estudo geral do Colégio Internacional Santo Alberto. Retornando definitivamente para a Holanda, foi regente dos estudos da Província Holandesa de 1926 a 1942. Foi amigo pessoal do Beato Tito Brandsma. Morreu dia 29 de outubro de 1946.

[13] Carta de Frei Cirilo Thewes ao provincial holandês Frei Telésforo Kroonen – 23/08/1907.

[14] AGOC, II CO, Introiti et esiti Curia.

[15] Resposta do provincial holandês Frei Telésforo Kroonen à carta de Frei Cirilo Thewes, datada 23 de agosto de 1907 (uma cópia está no arquivo de Boxmeer).

[16] Carta de Frei Cirilo Thewes ao Provincial holandês Frei Telésforo Kroonen – 12/01/1908.

[17] Cf. Carta de Frei Gregório Meijer ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Rio, 13 de abril de 1910; Carta do Frei Humberto Driessen ao bispo dom Cyrillo – Corumbá, 5 de maio de 1913.

[18] Os primeiros moradores chegaram em Ladário no ano de 1778. O Arsenal de Marinha de Ladário começou a ser construído em março de 1873. A presença da força naval foi importante para a manutenção da ordem, a preservação da fronteira e povoamento local. Emancipado desde 1953, o município de Ladário possui 1.240 km² e está situado à margem direita do rio Paraguai e seis quilômetros abaixo da cidade de Corumbá.

[19] Aquidauana foi fundada em 15 de agosto de 1892, às margens do rio Moboteteu atual rio Aquidauana. Foi elevada a distrito a 18 de dezembro de 1906 e em 16 de julho de 1918 foi criado o município, desmembrado do de Miranda.

[20] Miranda foi fundada no dia 16 de julho 1778 pelo Capitão João Leme do Prado, quando este lançou os alicerces do Presídio de Nossa Senhora do Carmo do Rio Mondego, atual Rio Miranda. O povoado cresceu vagarosamente. Em 1797 tinha 40 casas de pau a pique e de adobo, todas cobertas de telhas e já estava delineado o traçado da rua principal denominada de Nossa Senhora do Carmo, atualmente rua do Carmo. Dentre as edificações, destacava-se a Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Foi elevada à condição de vila em 30 de maio de 1857, recebendo o nome de Miranda. Para a proteção da vila, o Governo Imperial criou a Colônia Militar de Miranda, provocando assim na vila uma fase de rápido crescimento. Em 31 de dezembro de 1912, foram inaugurados o telégrafo e a estação ferroviária da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, fato que muito concorreu para o seu progresso. A Paróquia Nossa Senhora do Carmo foi erigida em 1835 e atualmente pertence à diocese de Jardim.

[21] Coxim começou por volta do ano de 1729 com a fundação do Arraial de Biliago ou de Coxim. Em 06 de novembro de 1872, o Arraial foi elevado à categoria de Distrito Judicial com o nome de São José de Herculânia, subordinado ao Município de Corumbá. Em 26 de outubro de 1892, pela Lei nº 13, passou a se chamar Coxim. O município foi criado em 1898.

[22] Nioaque (até 1938 a grafia era Nioac) foi fundada em 1848 por Joaquim Francisco Lopes. Tornou-se município em 18 de julho de 1890. A palavra Nioaque tem sua origem na língua Guarani: NHU + AQUE =  “Campo de dormir”.

[23] A origem de Porto Murtinho está ligada à exploração da erva-mate. Em 1874, ervateiros gaúchos iniciaram a exploração dos ervais. Em 1892 a erva-mate, que era levada para a Argentina e Uruguai, passou a ser embarcada num porto, junto ao qual surgiu a povoação de Porto Murtinho. O município foi criado em 1911.

[24] Ponta Porã começou como ponto de parada do transporte de erva mate. Em 1892 recebeu a guarnição militar de Dourados para proteger os carreteiros, que constantemente eram atacados pelos "Guatreros" (paraguaios). O município foi criado em 1912. Ponta Porã, em língua Guarani, significa "Largo Bonito".

[25] Dados colhidos no site: < http://www.corumba.com.br/corumba/cb_historia.htm > (18/05/2007).

[26] Cf. Carta de Dom Cyrillo de Paula Freitas ao Visitador Carmelita Frei Humberto Driessen - Três Lagoas, 24/06/1913 (ASV, Arch. Nunz. Brasile, Fasc. 713, 115 )

[27] AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1908-1912.

[28] “Logo após o regresso dos missionários de Corumbá, os Carmelitas quiseram fundar uma nova missão. O Bispo de Curitiba, Dom João Braga, ofereceu-lhes a paróquia de Paranaguá, no Paraná, e porto principal de exportação desse Estado. Em 1915, Frei Canísio Mulderman, Superior, Frei Rafael Wilens - mais tarde substituído por Frei Carmelo Lambooy - e o Irmão leigo Frei Pancrácio Helmich tomaram posse da nova missão. Durante 4 anos trabalharam aí ativamente, abrindo também uma escola primária com grande frequência. Por falta, porém: de novas forças, das poucas vocações religiosas e da necessidade urgente dos conventos de Itu e Mogi das Cruzes, que estavam sendo ocupados naquela época, também esta missão foi abandonada, em 1919, voltando os Padres aos seus conventos” (Revista Mensageiro do Carmelo, Ano 42, Nov.-Dez. 1954, pág. 256).

[29] Datada março de 1907.

[30] Carta de Frei Maurício Lans ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Rio de Janeiro, 25 de abril de 1910.

[31] Cf. Mensageiro do Carmelo, Ano 42, Novembro - Dezembro 1954, pág. 256.

[32] Cara de Frei Paulo Hurkmans o P. Geral, Corumbá, 20/01/09 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1909).

[33] Site da Diocese de Coxim < http://www.diocesedecoxim.com.br/historico.php > (26/05/2007).

[34] Corumbá, 6 de agosto de 1908 - AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1908.

[35] Carta de Frei Canísio ao Procurador Geral Frei Humberto Driessen – Aquidauana, 6/12/1908.

[36] Carta de Frei Canísio ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 25/02/1910.

[37] Carta de Frei Canísio ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 20/09/1910.

[38] Carta de Frei Canísio ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 21/05/1911.

[39] Cartão postal ao Padre Geral Frei Pio Mayer – Corumbá, 22/09/1908 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1908).

[40] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Prior Geral Frei Pio Mayer – Corumbá, 09/01/1912 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1912).

[41] O nº 6 determina: “...cada um de vós tenha sua própria cela separada ...”.

[42] Cf. Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral da Ordem Frei Humberto Driessen – Aquidauana, 6/12/1908.

[43] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 27/10/1909.

[44] Cf. Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral da Ordem Frei Humberto Driessen – Corumbá, 13/05/1908.

[45] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 28/12/1911.

[46] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 25/02/1910.

[47] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral da Ordem Frei Humberto Driessen – Aquidauana, 6/12/1908.

[48] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral da Ordem Frei Humberto Driessen – Corumbá, 13/05/1908.

[49] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral da Ordem Frei Humberto Driessen – Aquidauana, 6/12/1908.

[50] Cf. Carta de Frei Paulo Hurkmans ao Prior Geral Frei Pio Mayer - Corumbá, 6 de agosto de 1908 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1908).

[51] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral Frei Humberto Driessen – Corumbá, 13/05/1908.

[52] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 28/12/1911.

[53] “Causa motiva principali est diversas et vehementes rixas inter P. Paulus et me” – Carta de Frei Carmelo Lambooy ao Prior Geral Frei Pio Mayer – Corumbá, 15 de junho de 1908 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1908)

[54] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 27/10/1909.

[55] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 28/12/1911.

[56] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 28/12/1911.

[57] Frei Gregório Meijer nasceu em Hertme (Holanda), aos 26 de abril de 1876. Professou na Ordem do Carmo aos 8 de setembro de 1895. Foi ordenado sacerdote aos 9 de junho de 1900. Exerceu o cargo de Vigário Provincial (1909-1913) e de prior do Convento de Santos. Homem de grande cultura e poliglota. Foi exímio orador sacro. Faleceu em São Paulo, aos 23 de março de 1917.

[58] Carta de Frei Gregório Meijer ao Prior Geral Frei Pio Mayer – Montevidéu, 17 de abril de 1912  (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1912).

[59] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 15/04/1912.

[60]  Carta de Frei Canísio Mulderman ao Prior Geral Frei Pio Mayer – Corumbá, 06 de março de 1912 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1912).

[61] Carta do Visitador Frei Humberto Driessen a Dom Cirilo de Paula Freitas –  Corumbá, 5 de maio de 1913.

[62] Cf. Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 21/05/1911.

[63] Cf. Carta de Frei Gregório Meijer ao Provincial Holandês P. Driessen – Rio, 13 de abril de 1910; Carta do Frei Humberto Driessen ao bispo dom Cyrillo – Corumbá, 5 de maio de 1913.

[64] Carta de Frei Gregório Meijer ao Provincial Holandês P. Driessen – Rio, 13 de abril de 1910.

[65] Carta de Frei Gregório Meijer ao provincial holandês Frei Humberto Driessen - Rio, 13/04/1911. (conferir a data desta carta. eio com a data de 1910, mas não pode ser)

[66] O texto da ASS 2, 290: “10 martii 1910 – In metropolitam evexit sedem episcopalem Cuiabensem (Cuyabá) eique suffraganeas constituit duas novas sedes episcopales S. Aloisii de Cáceres et Corumbensem (Corumbá) in statu Matto Grosso reipublicae Brasilianae”.

[67] Dom Cyrillo de Paula Freitas nasceu em Capelinha da Graça, MG, dia 15 de março de 1860. Foi ordenado sacerdote em 30 de maio de 1885. Sua nomeação como bispo titular de Antipátrida (Antipatris) e coadjutor de Cuiabá, MT, aconteceu dia 27 de março de 1905, mas sua ordenação episcopal só foi realizada no ano seguinte, dia 7 de janeiro de 1906. Em 13 de março de 1911 foi nomeado como 1º bispo de Corumbá, MS. Mas só tomou posse um ano depois, dia 3 de março de 1912. Nos primeiros anos morou em Três Lagoas. Sua resignação foi aceita em 8 de fevereiro de 1918. Faleceu dia 9 de março de 1947.

[68] ASS 3, 134.

[69] Dom Giuseppe Aversa nasceu dia 21 de janeiro de 1862 em Nápoles, Itália. Foi ordenado sacerdote em 1885 com 22 anos e 9 meses de idade. Dia 25 de maio de 1906 foi nomeado bispo de Sardes (Lídia) e Delegado Apostólico de Cuba. Dia 2 de março de 1911 foi nomeado Núncio Apostólico do Brasil, onde permaneceu até ser transferido para a Alemanha em 4 de dezembro de 1916. Morreu dia 12 de abril de 1917 na Alemanha.

[70] Dom Alessando Bavona nasceu dia 11 de maio de 1856 em Rocca di Cambio (Itália). Foi nomeado bispo titular de Farsalo (Grécia) em 14 de julho de 1901. Recebeu a missão de ser Núncio Apostólico do Brasil dia 10 de abril de 1908. Em 1911 foi transferido para a Áustria, onde morreu dia 19 de janeiro de 1912.

[71] Carta do bispo Dom Cyrillo ao Núncio Aversa – Três Lagoas, 26 de abril de 1914 (ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 139).

[72] Carta de dom Cyrillo ao Núncio Bavona - Cuiabá, 13 de dezembro de 1910 (ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 610, 48-49).

[73] “Am vergangenen Sonntag, 3 März, habe ich, wie Procurator des Bischofs, in seinem Namen und Auftrag Besitz genommen vom neuen Bistum Corumbá” (No domingo passado, 3 de março, eu, como procurador do bispo, em seu nome e pedido tomei posse do novo bispado de Corumbá) - Carta de Frei Canísio Mulderman ao Prior Geral Frei Pio Mayer, Corumbá, 06/03/1912 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1912.)

[74] Carta de Dom Cyrillo ao Visitador Frei Humberto Driessen – Três Lagoas, 24 de junho de 1913 (ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 610, 113-117).

[75] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 15/04/1912.

[76] Carta do bispo Dom Cyrillo ao Núncio Aversa – 26 de abril de 1914 (ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 140).

[77] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral Frei Humberto Driessen – Aquidauana, 6/12/1908.

[78] Carta de Frei Canísio Mulderman ao provincial holandês Frei Humberto Driessen - Corumbá, 25 de fevereiro de 1910.

[79] Carta de Frei Canísio Mulderman ao provincial holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 15/04/1912.

[80] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 05/05/1912.

[81] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial holandês Frei Telésforo Kroonen – 08/09/1907.

[82] Carta de Frei Cirilo Thewes ao provincial holandês Frei Telésforo Kroonen - Rio de Janeiro, 12/01/1908.

[83] Carta de Frei Gregório Meijer ao provincial holandês Frei Humberto Driessen - Rio de Janeiro, 13/04/1911.

[84] Carta de Frei Canísio Mulderman ao provincial holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 21/05/1911.

[85] ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 117.

[86] Cf. Carta do Frei Humberto Driessen ao Núncio G. Aversa – Oss, 21 de outubro de 1913 (ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 119-120).

[87] ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 125.

[88] ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 134-141.

[89] ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 140.

[90] ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 126.

[91] Revista Mensageiro do Carmelo, Ano 42, Nov.-Dez. 1954, pág. 256.

[92] Revista Mensageiro do Carmelo, Ano 42, Nov.-Dez. 1954, pág. 257.

[93] Dom Frei Eliseu van de Weijer nasceu em Harderwijk (Holanda) aos 29/12/1880. Fez sua profissão religiosa na Ordem do Carmo dia 02/10/1900. Recebeu a ordenação sacerdotal em 17/07/1905. Chegou no Brasil dezembro de 1907. Foi mestre de noviços, professor, formador e ecônomo da Província. O Papa Pio XI o nomeou Administrador Apostólico da Prelazia de Paracatu. No dia 28 de maio de 1940 foi nomeado Bispo titular da Gor e prelado de Paracatu. Sua ordenação episcopal foi realizada na igreja do Convento de Lapa no Rio de Janeiro, aos 27 de outubro de 1940. Trabalhou durante 33 anos em Paracatu, onde faleceu a 25 de janeiro de 1966.

OLHAR CARMELITANO... O Silêncio.

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Publicado em 09 abril 2026
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Não gosta do silêncio?! Então fuja do Carmelo igual o diabo foge da cruz”. Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita e Jornalista, Mogi das Cruzes, São Paulo. www.instagram.com/freipetronio

Semana Santa. Tera-feira, 31 de março 2026. EVANGELHO DO DIA. Reflexões de Frei Carlos Mesters, O.Carm.

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Publicado em 31 março 2026
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1) Oração

Deus eterno e todo-poderoso, dai-nos celebrar de tal modo os mistérios da paixão do Senhor, que possamos alcançar vosso perdão. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

2) Leitura do Evangelho (João 13, 21-33.36-38)

21Depois de dizer isso, Jesus ficou interiormente perturbado e testemunhou: “Em verdade, em verdade, vos digo: um de vós me entregará”. 22Desconcertados, os discípulos olhavam uns para os outros, pois não sabiam de quem estava falando. 23Bem ao lado de Jesus estava reclinado um dos seus discípulos, aquele que Jesus mais amava. 24Simão Pedro acenou para que perguntasse de quem ele estava falando. 25O discípulo, então, recostando- se sobre o peito de Jesus, perguntou: “Senhor, quem é?” 26Jesus respondeu: “É aquele a quem eu der um bocado passado no molho”. Então, Jesus molhou um bocado e deu a Judas, filho de Simão Iscariotes. 27Depois do bocado, Satanás entrou em Judas. Jesus, então, lhe disse: “O que tens a fazer, faze logo”. 28Mas nenhum dos presentes entendeu por que ele falou isso. 29Como Judas guardava a bolsa, alguns pensavam que Jesus estava dizendo: “Compra o que precisamos para a festa”, ou que desse alguma coisa para os pobres. 30Então, depois de receber o bocado, Judas saiu imediatamente. Era noite. 31Depois que Judas saiu, Jesus disse: “Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele. 32Se Deus foi glorificado nele, Deus também o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo. 33Filhinhos, por pouco tempo eu ainda estou convosco. Vós me procurareis, e agora vos digo, como eu disse também aos judeus: ‘Para onde eu vou, vós não podeis ir’. 36Simão Pedro perguntou: “Senhor, para onde vais?” Jesus respondeu-lhe: “Para onde eu vou, não podes seguir-me agora; mais tarde me seguirás”. 37Pedro disse: “Senhor, por que não posso seguir-te agora? Eu darei minha vida por ti!” 38Jesus respondeu: “Darás tua vida por mim? Em verdade, em verdade, te digo: não cantará o galo antes que me tenhas negado três vezes. Palavra da salvação

 

3) Reflexão

Estamos na terça feira da Semana Santa. Os textos do evangelho destes dias nos confrontam com os fatos terríveis que levaram à prisão e à condenação de Jesus. Os textos não trazem só as decisões das autoridades religiosas e civis contra Jesus, mas também relatam as traições e negações dos próprios discípulos que possibilitaram a prisão de Jesus pelas autoridades e contribuíram enormemente para aumentar o sofrimento de Jesus. 

João 13,21: O anúncio da traição.  Depois de ter lavado os pés dos discípulos (Jo 13,2-11) e de ter falado da obrigação que temos de lavar os pés uns dos outros (Jo 13,12-16), Jesus se comoveu profundamente. E não era para menos. Enquanto ele estava fazendo aquele gesto de serviço e de total entrega de si mesmo, ao lado dele um discípulo estava tramando a maneira de como traí-lo naquela mesma noite. Jesus expressa a sua comoção e diz: “Em verdade lhes digo: um de vocês vai me trair!” Não diz: “Judas vai me trair”, mas “um de vocês”. É alguém do círculo da amizade dele que vai ser o traidor”.

João 13,22-25: A reação dos discípulos.  Os discípulos levam susto. Não esperavam por esta declaração tão séria de que um deles seria o traidor. Pedro faz um sinal a João para ele perguntar a Jesus qual dos doze iria cometer a traição. Sinal de que eles nem sequer desconfiavam quem pudesse ser o traidor. Ou seja, sinal de que a amizade entre eles ainda não tinha chegado à mesma transparência de Jesus para com eles (cf. Jo 15,15). João se inclinou para perto de Jesus e perguntou: “Quem é?”

João 13,26-30: Jesus indica Judas.  Jesus disse: é aquele a quem vou dar um pedaço de pão umedecido no molho. Ele pegou um pedaço de pão, molhou e deu a Judas. Era um gesto comum e normal que os participantes de uma ceia costumavam fazer entre si. E Jesus disse a Judas: “O que você tem que fazer, faça logo!” Judas tinha a bolsa comum. Era o encarregado de comprar as coisas e de dar esmolas para os pobres. Por isso, ninguém percebeu nada de especial no gesto e na palavra de Jesus. Nesta descrição do anúncio da traição está uma evocação do salmo em que o salmista se queixa do amigo que o traiu: “Até o meu amigo, em quem eu confiava e que comia do meu pão, é o primeiro a me trair” (Sl 41,10; cf. Sl 55,13-15). Judas percebeu que Jesus estava sabendo de tudo (Cf. Jo 13,18). Mesmo assim, não voltou atrás, e manteve a decisão de trair Jesus. É neste momento que se opera a separação entre Judas e Jesus. João diz que o satanás entrou nele. Judas levantou e saiu. Ele entrou para o lado do adversário (satanás). João comenta: “Era noite”. Era a escuridão.

João 13,31-33: Começa a glorificação de Jesus.   É como se a história tivesse esperado por este momento da separação entre a luz e as trevas. Satanás (o adversário) e as trevas entraram em Judas quando ele decidiu de executar o que estava tramando. Neste mesmo momento se fez luz em Jesus que declara: “Agora o Filho do Homem foi glorificado, e também Deus foi glorificado nele. Deus o glorificará em si mesmo e o glorificará logo!”  O que vai acontecer daqui para frente é contagem regressiva. As grandes decisões foram tomadas, tanto da parte de Jesus (Jo 12,27-28) e agora também da parte de Judas. Os fatos se precipitam. E Jesus já dá o aviso: “Filhinhos, é só mais um pouco que vou ficar com vocês”. Falta pouco para que se realize a passagem, a Páscoa.

João 13,34-35: O novo mandamento.  O evangelho de hoje omite estes dois versículos sobre o novo mandamento do amor e passa a falar do anúncio da negação de Pedro.

João 13,36-38: Anúncio da negação de Pedro. Junto com a traição de Judas, o evangelho traz também a negação de Pedro. São os dos dois fatos que mais contribuíram para o sofrimento de Jesus. Pedro diz que está disposto a dar a vida por Jesus. Jesus o chama à realidade: “Você dar a vida por mim? O galo não cantará sem que me renegues três vezes”. Marcos tinha escrito: “O galo não cantará duas vezes e você já me terá negado três vezes” (Mc 14,30). Todo mundo sabe que o canto do galo é rápido. Quando de manhã cedo o primeiro galo começa a cantar, quase ao mesmo tempo todos os galos estão cantando. Pedro é mais rápido na negação do que o galo no canto.

 

4) Para um confronto pessoal

1) Judas, amigo, torna-se traidor. Pedro, amigo, torna-se negador. E eu?

2) Colocando-me na situação de Jesus: como enfrenta negação e traição, o desprezo e a exclusão?

 

5) Oração final

És tu, Senhor, a minha esperança, és minha confiança, SENHOR, desde a minha juventude. Sobre ti me apoiei desde o seio materno, desde o colo de minha mãe és minha proteção; em ti está sempre o meu louvor. (Sl 70, 5-6)

Dia 10 de fevereiro-2026: Nota de Falecimento

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Publicado em 10 fevereiro 2026
  • Ordem Terceira do Carmo,
  • Unaí,
  • OTC
  • Nota Falecimento

Carmelita não morre, muda de endereço... Nesta terça-feira, 10 de fevereiro-2026, as nossas orações pela alma da nossa irmã da Ordem Terceira do Carmo- Sodalício de Unaí/MG, Alzira Maria da Silva Marques- Alzirinha. 

Província Carmelitana Pernambucana- Eleito o Governo Provincial

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Publicado em 22 janeiro 2026
  • Província Carmelitana Pernambucana,
  • Capítulo Provincial da Província Carmelitana Pernambucana
  • Frei Roberval Mendes Pereira,

 

Foi eleito hoje o novo governo da Província Carmelitana Pernambucana:

Prior Provincial, Frei Roberval Mendes Pereira, O.Carm. (reeleito);

1° Conselheiro, Frei Luiz Nunes, O.Carm.;

2° Conselheiro, Frei Rogério Severino, O.Carm.;

3° Conselheiro, Frei José Adriano Gomes da Silva, O.Carm.

4° Conselheiro, Frei Robson José da Silva, O.Carm.

Confiamos à sempre Virgem Maria este novo governo. Que por sua intercessão, vivamos cada vez mais em obséquio de Jesus Cristo com o coração puro e reta consciência. Fonte: Facebook- Província Carmelitana Pernambucana

Ordem da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo- Agenda do Prior General para janeiro de 2026

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Publicado em 09 janeiro 2026
  • Província Carmelitana Fluminense,
  • Ordem da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo,
  • padre Desiderio García Martínez,
  • Capítulo dos Carmelitas 2025
  • Capítulo da Província Carmelitana Fluminense

 

Pe. Desiderio García Martínez, O. Carm., Prior Geral, tem a seguinte agenda prevista para janeiro de 2026:

 

8 de janeiro de 2026 : Visita ao Mosteiro Carmelita de Carpineto Romano (RM). Encontro com a Irmã M. Valentina Rita Rossin, Presidente da Federação das Irmãs Magdalena de' Pazzi dos mosteiros italianos da Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Maria do Monte Carmelo.


12 e 13 de janeiro de 2026 : Encontro com os Priores Provinciais, Comissários Gerais e Delegados Gerais da Europa.


18 a 23 de janeiro de 2026:  Capítulo Provincial da Província de Pernambuco (Brasil).
25 a 30 de janeiro de 2026 : Capítulo Provincial da Província do Rio de Janeiro (Brasil). Fonte: https://ocarm.org

Segunda-feira dia 8 de dezembro- 2025. Solenidade da Imaculada Conceição

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Publicado em 08 dezembro 2025
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  • Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora
  • Solenidade do Imaculada Conceição de Nossa Senhora
  • Homilia da Solenidade do Imaculada Conceição de Nossa Senhora
  • Homilia da Festa da Imaculada Conceição

Frei Carlos Mesters, O. Carm

 

1) Oração

Ó Deus, que preparastes uma digna habitação para o vosso Filho pela Imaculada Conceição da Virgem Maria, preservando-a de todo pecado em previsão dos méritos de Cristo, concedei-nos chegar até vós, purificados também de toda culpa. por sua materna intercessão. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

2) Leitura do Evangelho  (Lucas 1,26-38)

Naquele tempo, 26o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré,27a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria.28Entrando, o anjo disse-lhe: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo.29Perturbou-se ela com estas palavras e pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação.30O anjo disse-lhe: Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus.31Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus.32Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó,33e o seu reino não terá fim.34Maria perguntou ao anjo: Como se fará isso, pois não conheço homem?35Respondeu-lhe o anjo: O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus.36Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por estéril,37porque a Deus nenhuma coisa é impossível.38Então disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo afastou-se dela.

 

3) Reflexão

Hoje é a Solenidade da Imaculada Conceição. O texto que meditamos no evangelho descreve a visita do anjo a Maria (Lc 1,26-38). A Palavra de Deus chega a Maria não através de um texto bíblico, mas através de uma experiência profunda de Deus, manifestada na visita do anjo. No AT, muitas vezes, o Anjo de Deus é o próprio Deus. Foi graças à ruminação da Palavra escrita de Deus na Bíblia, que Maria foi capaz de perceber a Palavra viva de Deus na visita do Anjo. Assim também acontece com a visita de Deus em nossas vidas. As visitas de Deus são frequentes. Mas por falta de ruminação da Palavra escrita de Deus na Bíblia, não percebemos a visita de Deus em nossas vidas. A visita de Deus é tão presente e tão contínua que, muitas vezes, já nem a percebemos e, por isso, perdemos uma grande oportunidade de viver na paz e na alegria.

 

Lucas 1,26-27: A Palavra faz a sua entrada na vida.

Lucas apresenta as pessoas e os lugares: uma virgem chamada Maria, prometida em casamento a um homem, chamado José, da casa de Davi. Nazaré, uma cidadezinha na Galiléia. Galiléia era periferia. O centro era Judéia e Jerusalém. O anjo Gabriel é o enviado de Deus para esta moça virgem que morava na periferia. O nome Gabriel significa Deus é forte. O nome Maria significa amada de Javé ou Javé é o meu Senhor. A história da visita de Deus a Maria começa com a expressão “No sexto mês”. Trata-se do "sexto mês" da gravidez de Isabel, parenta de Maria, uma senhora já de idade, precisando de ajuda. A necessidade concreta de Isabel é o pano de fundo de todo este episódio. Encontra-se no começo (Lc 1,26) e no fim (Lc 1,36.39).

 

Lucas 1,28-29: A reação de Maria.

Foi no Templo que o anjo apareceu a Zacarias. A Maria ele aparece na casa dela. A Palavra de Deus atinge Maria no ambiente da vida de cada dia. O anjo diz: “Alegra-te! Cheia de graça! O Senhor está contigo!” Palavras semelhantes já tinham sido ditas a Moisés (Ex 3,12), a Jeremias (Jr 1,8), a Gedeão (Jz 6,12), a Rute (Rt 2,4) e a muitos outros. Elas abrem o horizonte para a missão que estas pessoas do Antigo Testamento deviam realizar a serviço do povo de Deus. Intrigada com a saudação, Maria procura saber o significado. Ela é realista, usa a cabeça. Quer entender. Não aceita qualquer aparição ou inspiração.

 

Lucas 1,30-33: A explicação do anjo.

“Não tenha medo, Maria!” Esta é sempre a primeira saudação de Deus ao ser humano: não ter medo! Em seguida, o anjo recorda as grandes promessas do passado que vão ser realizadas através do filho que vai nascer de Maria. Este filho deve receber o nome de Jesus. Ele será chamado Filho do Altíssimo e nele se realizará, finalmente, o Reino de Deus prometido a Davi, que todos estavam esperando ansiosamente. Esta é a explicação que o anjo dá a Maria para ela não ficar assustada.

 

Lucas 1,34: Nova pergunta de Maria

Maria tem consciência da missão importante que está recebendo, mas ela permanece realista. Não se deixa embalar pela grandeza da oferta e olha a sua condição: “Como é que vai ser isto, se eu não conheço homem algum?” Ela analisa a oferta a partir dos critérios que nós, seres humanos, temos à nossa disposição. Pois, humanamente falando, não era possível que aquela oferta da Palavra de Deus se realizasse naquele momento.

 

Lucas 1,35-37: Nova explicação do anjo

"O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra. Por isso, o Santo que vai nascer de você será chamado Filho de Deus”. O Espírito Santo, presente na Palavra de Deus desde o dia da Criação (Gênesis 1,2), consegue realizar coisas que parecem impossíveis. Por isso, o Santo que vai nascer de Maria será chamado Filho de Deus. Quando hoje a Palavra de Deus é acolhida pelos pobres sem estudo, algo novo acontece pela força do Espírito Santo! Algo tão novo e tão surpreendente como um filho nascer de uma virgem ou como um filho nascer de Isabel, uma senhora já de idade, da qual todo mundo dizia que ela não podia ter nenêm! E o anjo acrescenta: “E olhe, Maria! Isabel, tua prima, já está no sexto mês!”

 

Lucas 1,38:  A entrega de Maria.

A resposta do anjo clareou tudo para Maria. Ela se entrega ao que Deus estava pedindo: “Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua Palavra”. Maria usa para si o título de Serva, empregada do Senhor. O título vem de Isaías, que apresenta a missão do povo não como um privilégio, mas sim como um serviço aos outros povos (Is 42,1-9; 49,3-6). Mais tarde, Jesus, o filho que estava sendo gerado naquele momento, definirá sua missão:  “Não vim para ser servido, mas para servir!” (Mt 20,28). Aprendeu da Mãe!

 

Lucas 1,39:  A forma que Maria encontra para servir

A Palavra de Deus chegou e fez com que Maria saísse de si para servir aos outros.  Ela deixa o lugar onde estava e vai para a Judéia, a mais de quatro dias de viagem, para ajudar sua prima Isabel. Maria começa a servir e cumprir sua missão a favor do povo de Deus.

 

4) Para um confronto pessoal

  1. Como você percebe a visita de Deus em sua vida? Você já foi visitada ou visitado? Você já foi uma visita de Deus na vida dos outros, sobretudo dos pobres? Como este texto nos ajuda a descobrir as visitas de Deus em nossa vida?
  2. A Palavra de Deus se encarnou em Maria. Como a Palavra de Deus está tomando carne na minha vida pessoal e na vida da comunidade?

 

5) Oração final

Cantai ao Senhor um cântico novo, porque ele operou maravilhas. Sua mão e seu santo braço lhe deram a vitória. (Sl 97)

Quarta-feira, 26 de novembro-2023. 34ª Semana do Tempo Comum. Evangelho do dia- Lectio Divina- com Frei Carlos Mesters, Carmelita.

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Publicado em 26 novembro 2025
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1) Oração

Levantai, ó Deus, o ânimo dos vossos filhos e filhas, para que, aproveitando melhor as vossas graças, obtenham de vossa paternal bondade mais poderosos auxílios. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

2) Leitura do Evangelho (Lucas 21, 12-19)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 12Mas, antes de tudo isso, vos lançarão as mãos e vos perseguirão, entregando-vos às sinagogas e aos cárceres, levando-vos à presença dos reis e dos governadores, por causa de mim. 13Isto vos acontecerá para que vos sirva de testemunho. 14Gravai bem no vosso espírito de não preparar vossa defesa, 15porque eu vos darei uma palavra cheia de sabedoria, à qual não poderão resistir nem contradizer os vossos adversários. 16Sereis entregues até por vossos pais, vossos irmãos, vossos parentes e vossos amigos, e matarão muitos de vós. 17Sereis odiados por todos por causa do meu nome. 18Entretanto, não se perderá um só cabelo da vossa cabeça. 19É pela vossa constância que alcançareis a vossa salvação. - Palavra da salvação.

 

3) Reflexão  Lucas 21,12-19

*  No evangelho de hoje, que é a continuação do discurso iniciado ontem, Jesus enumera mais um sinal para ajudar as comunidades a se situar dentro dos fatos e não perder a fé em Deus nem a coragem de resistir contra as investidas do império romano. Repetimos os primeiros cinco sinais do evangelho de ontem:

1º sinal: os falsos messias (Lc 21,8);

2º sinal: guerra e revoluções (Lc 21,9);

3º sinal: nação lutará contra outra nação, um reino contra outro reino (Lc 21,10);

4º sinal: terremotos em vários lugares (Lc 21,11);

5º sinal: fome, peste e sinais no céu (Lc 21,11). 

Até aqui foi o evangelho de ontem. Agora, no evangelho de hoje, mais um sinal:

6º sinal: a perseguição dos cristãos (Lc 21,12-19)

 

Lucas 21,12. O sexto sinal da perseguição.

Várias vezes, durante os poucos anos que passou entre nós, Jesus tinha avisado aos discípulos que eles iam ser perseguidos. Aqui, no último discurso, ele repete o mesmo aviso e faz saber que a perseguição deve ser levado em conta no discernimento dos sinais dos tempos: "Antes que essas coisas aconteçam, vocês serão presos e perseguidos; entregarão vocês às sinagogas, e serão lançados na prisão; serão levados diante de reis e governadores, por causa do meu nome”. E destes acontecimentos, aparentemente tão negativos Jesus tinha dito: “Não fiquem apavorados. Primeiro essas coisas devem acontecer, mas não será logo o fim." (Lc 21,9). E o evangelho de Marcos acrescenta que todos estes sinais são "apenas o começo das dores de parto!" (Mc 13,8) Ora, dores de parto, mesmo sendo muito dolorosas para a mãe, não são sinal de morte, mas sim de vida! Não são motivo de medo, mas sim de esperança! Esta maneira de ler os fatos trazia tranqüilidade para as comunidades perseguidas. Assim, lendo ou ouvindo estes sinais, profetizados por Jesus no ano 33, os leitores de Lucas dos anos oitenta podiam concluir: "Todas estas coisas já estão acontecendo conforme o plano previsto e anunciado por Jesus! Por tanto, a história não escapou da mão de Deus! Deus está conosco!"

 

Lucas 21,13-15: A missão dos cristãos em época de perseguição

A perseguição não é uma fatalidade, nem pode ser motivo de desânimo ou de desespero, mas deve ser vista como uma oportunidade, oferecida por Deus, para as comunidades realizarem a missão de testemunhar com coragem a Boa Nova de Deus. Jesus diz: “Isso acontecerá para que vocês dêem testemunho. Portanto, tirem da cabeça a idéia de que vocês devem planejar com antecedência a própria defesa; porque eu lhes darei palavras de sabedoria, de tal modo que nenhum dos inimigos poderá resistir ou rebater vocês”. Por meio desta afirmação Jesus anima os cristãos perseguidos que viviam angustiados. Ele faz saber que, mesmo perseguidos, eles tinham uma missão a cumprir, a saber: testemunhar a Boa Nova de Deus e, assim, ser um sinal do Reino (At 1,8). O testemunho corajoso levaria o povo a repetir o que diziam os magos do Egito diante dos sinais e da coragem de Moisés e Aarão: “Aqui há o dedo de Deus!” (Ex 8,15). Conclusão: se as comunidades não devem preocupar-se, se tudo está nas mãos de Deus, se tudo já era previsto por Deus, se tudo não passa de dor de parto, então não há motivo para ficarmos preocupados.

 

Lucas 21,16-17: Perseguição até dentro da própria família

“E vocês serão entregues até mesmo pelos próprios pais, irmãos, parentes e amigos. E eles matarão alguns de vocês. Vocês serão odiados por todos, por causa do meu nome”. A perseguição não vinha só de fora, da parte do império, mas também de dentro, da parte da própria família. Numa mesma família, uns aceitavam a Boa Nova, outros não. O anúncio da Boa Nova provocava divisões no interior das famílias. Havia até pessoas que, baseando-se na Lei de Deus, chegavam a denunciar e matar seus próprios familiares que se declaravam seguidores de Jesus (Dt 13,7-12).

 

Lucas 21,18-19: A fonte da esperança e da resistência

“Mas não perderão um só fio de cabelo.  É permanecendo firmes que vocês irão ganhar a vida!"  Esta observação final de Jesus lembra a outra palavra que Jesus tinha dito: “nenhum cabelo vai cair da cabeça de vocês!” (Lc 21,18). Esta comparação era um apelo forte a não perder a fé e a continuar firme na comunidade. E confirma o que Jesus já tinha dito em outra ocasião: “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (Lc 9,24).

 

4) Para um confronto pessoal

 1) Como você costuma ler as etapas da história da sua vida e do seu país?

2) Olhando a história da humanidade dos últimos 50 anos, a esperança aumentou em você, ou diminuiu?

 

5) Oração final

O Senhor manifestou sua salvação, aos olhos dos povos revelou sua justiça. Lembrou-se do seu amor e da sua fidelidade à casa de Israel. (Sl 97, 2-3)

LA ORACIÓN DEL SILENCIO

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Publicado em 23 novembro 2025
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  • la contemplación
  • Tercera Orden del Carmelo
  • el Carmelo
  • la oración mental
  • espiritualidad
  • El corazón de la espiritualidad Carmelita

 

Frei Joseph Chalmers O. Carm.

En el Carmelo hay muchas estrella, pero las más grandes, las más brillantes son Santa Teresa de Jesús  y san Juan de la Cruz. Su experiencia y sus escritos son tan importantes para la historia de la espiritualidad. Pero son tan grandes que a veces,  no se puede ver otra cosa. La espiritualidad Carmelita no empieza con Teresa y Juan. Ellos recibieron la tradición y con genio reelaboraron esta tradición y pasó esta tradición a nosotros.

El corazón de la espiritualidad Carmelita es desde el inicio de nuestra historia, la contemplación. Santa Teresa y San Juan  vivían en el tiempo de la “Devoción Moderna” en que la oración mental era muy importante. Teresa encontró un método de oración mental que le ayudó mucho. Teresa y Juan escriben de la vida espiritual en términos de oración. Por supuesto, la puerta a la contemplación es la oración, pero la contemplación incluye toda la vida.

Claro que vivimos en un mundo de ruido. Hay siempre ruido, radio, Tv., palabras, palabras , palabras. No somos islas aisladas. Todo el ruido entra en nuestras almas. Llevamos con nosotros un gran ruido interior. Cuando vamos a la oración individual, es muy difícil para nosotros estar en silencio. Tal vez nuestra oración es simplemente más ruido. El silencio es difícil para nosotros y tal vez tenemos miedo; entonces llenamos todo el tiempo de la oración con palabras. Es bueno leer, es bueno meditar en el sentido de pensar sobre la Palabra; es bueno hablar a Dios con palabras santas como el Padre Nuestro y Ave María; es bueno hablar a Dios con nuestras propias palabras. Pero hay tiempo para hablar y tiempo para silencio. Ahora quisiera hablar un poquito sobre la oración del silencio y proponer un método de oración del silencio.

Hemos hablado el miércoles sobre el camino de una relación interpersonal. Es siempre importante hablar para continuar la comunicación entre dos personas, pero en una relación buena, el silencio puede ser lleno de significado. Es muy normal en una relación que está madurando que la comunicación se hace más simple con menos palabras. Al inicio, se tiene que hablar mucho, pero después un movimiento de los ojos puede ser suficiente para comunicar mucho.

Tenemos que crecer en la amistad con Dios y no debemos presumir una relación que no existe. Por supuesto que Dios nos ama igualmente, pero nosotros no estamos en el mismo lugar. Cuando hablo de la oración del silencio, no estoy diciendo que el silencio sea todo el contenido de nuestra oración, no necesitamos rezar de varias maneras. Cuando una persona siente la necesidad de más silencio en la oración, necesita un poquito de ayuda.

Hay varios métodos de rezar en silencio. Quisiera hablar solamente de una de esas; es un método que es moderno, pero tiene sus raíces en la riquísimo tradición contemplativa del cristianismo. El método no es complicado; es muy sencillo y al mismo tiempo bastante sutil. Hay cuatro puntos en este método.

 

 1.- posición del cuerpo.

Se puede rezar en cualquier ocasión o en cualquier posición. Pero en la larga tradición contemplativa podemos encontrar varias sugerencias. Es importante encontrar una manera para que el cuerpo no sea una distracción durante la oración. Yo tengo dificultad para arrodillarme.

Después de unos minutos no puedo pensar en algo más que el dolor en las rodillas. Entonces para mí, rezar de rodillas no es una buena idea. Para cualquier método de oración de silencio, veinte  minuto  es un mínimo porque necesitamos tiempo para entrar en esta oración.

Para la mayoría de personas es mejor estar sentadas; es más confortable y se puede continuar sentado por todo el tiempo. Los brazos y las piernas en una posición de relax. Rezando con los brazos o piernas cruzadas no ayuda el cuerpo entrar en la oración y así el cuerpo puede ser una gran distracción durante la oración. Todo esto es para iniciar bien

 

2.- introducir la palabra sacra.

 En este método de oración usamos una Palabra  Sacra. Esta Palabra no tiene que ser sacra en sí misma, pero tiene que ser muy significativa para la persona. La oración consiste en estar en la presencia de Dios y consentir  su acción en nosotros. Es una oración de intención y no de atención; es decir, no es necesario concentrarse en algo sino desear la presencia y la acción de Dios en nuestras vidas. En el silencio introducimos la palabra sacra muy suavemente en el propio corazón. Esta palabra viene de la relación que   tienes con Dios; es una palabra que tú entiendes y que Dios entiende, pero no se necesita que otras personas la entienden.

Según la tradición contemplativa, la palabra sacra debía ser breve. Algunos ejemplos de palabras posibles son: Dios, Señor, Amor, Jesús, Espíritu, Padre, María, Sí. Pero si una palabra es sacra para ti; es decir, significativa puedes usarla en esta oración.

Cuando digo introducir la palabra sacra en tu propio corazón, no estoy diciendo profundizar la palabra, sino aceptar esta palabra dentro de sí sin pensar sobre el significado. No es necesario forzar la palabra; tiene que ser muy suave. No se pronuncia la palabra con la boca ni con la cabeza. No es un mantra. La palabra sacra focaliza nuestro deseo. Se necesita usar la palabra siempre de la misma manera para ayudar al corazón a volver al Señor cuando somos conscientes de que estamos distraídos. Esta es una oración de intención y no de abstención. Nuestra intención es simplemente estar en la presencia de Dios y consentir  su acción en nuestras vidas. Nuestra palabra sacra exprime esta intención y cuando estamos consientes que estamos pensando en otras cosas podemos decidir continuar pensando en esta palabra  o volver a la intención de estar en la presencia de Dios y consentir su acción. Durante esta oración no es necesario hablar con Dios con palabras bellas o tener pensamientos santos; podemos hacer estas cosas en otro momento. Nuestro silencio y deseo valen mucho más que muchas palabras bonitas.

Por medio de esta palabra sacra que hemos escogido, exprimimos nuestro deseo profundo y nuestra intención de permanece en la presencia de Dios y consentir su acción en nuestra vida, una acción de purificación y transformación. Se usa la palabra sacra que es símbolo de nuestra intención y de nuestro deseo; sólo cuando somos conscientes de que estamos pensando en otra cosa. La oración misma consiste en estar en la presencia de Dios sin pensar en algo particular. Es una oración de relación con Dios, Padre, Hijo y Espíritu Santo.

María, la Madre de Jesús estaba frente a la cruz en silencio, en silencio recibió la vocación de ser Madre de la iglesia. En el silencio pronuncio su “sí” al Padre, uniéndose de esta manera al sacrificio de su Hijo, por la salvación del mundo. María es el modelo para nuestras vidas. Como ella  escuchamos la Palabra de Dios y abrimos el corazón para que Dios nos transforme. Somos creados para Dios; tenemos cavernas infinitas dentro de nosotros. Intentamos llenar estas cavernas con muchas cosas, pero sólo Dios basta.

 

DIRECTRICES PARA LA ORACIÓN EN SILENCIO

1.- Escoger una palabra sacra, como símbolo de la propia intención de consentir la presencia y la acción de Dios dentro de sí.

2.- Encontrar una postura física, cerrar los ojos e introducir en silencio la palabra sacra como símbolo de la intención de consentir la presencia de la acción de Dios dentro de sí.

3.-Cuando se es consciente de pensar en algo; volvemos suavemente a la palabra sacra.

4.- Al fin del periodo de oración, permanecer en silencio por algunos minutos con los ojos cerrados.

LA NOCHE OSCURA Y EL FALSO EGO.

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Publicado em 23 novembro 2025
  • SAN JUAN DE LA CRUZ,
  • LA NOCHE OSCURA
  • la purificación del corazón
  • la contemplación
  • Contemplación y oración
  • Espiritualidad Carmelita
  • Tercera Orden del Carmelo
  • Visión periodística

Frei Joseph Chalmers O .Carm.

San Juan de la Cruz dice que la contemplación inicia cuando Dios empieza a llevar a las personas a una noche oscura (Noche Oscura 1,1) Indudablemente es una realidad muy compleja. La noche oscura es exactamente preparada para la persona que está experimentando esta realidad porque es una manera de purificación para aquel individuo. La noche oscura no es un castigo; al contrario, es un momento de gracia. Es un efecto de la proximidad de Dios. Al inicio, la madera que se pone en el fuego, da humo negro antes de hacerse una unidad con el fuego (Llama de Amor Viva,1,15-21).

 Santa Teresa y San Juan están de acuerdo que el centro del alma es Dios y el viaje espiritual de cada cristiano es volver a ese centro. Dios es completamente libre y puede dar sus favores a quien y cuando Él piensa. Pero el proceso normal es entrar gradualmente en una relación personal con Dios y crecer en esa. Hemos hablado del ejemplo del desarrollo de relaciones humanas – inicialmente hay el primer conocimiento, la afabilidad, la amistad y finalmente la intimidad. Hay momentos altos y bajos en cualquier relación humana y muchas relaciones no llegan a desarrollarse por muchos motivos. Y así sucede en la relación con Dios.

Pero en la relación con Dios hay una diferencia crucial. Siempre Dios tendrá la iniciativa. Él no quiere simplemente ser nuestro amigo íntimo, sino que desea sanarnos de todo lo que nos impide llegar a ser lo que podemos ser. Por ese motivo, Dios nos sigue y toca lo que necesita ser sanado. Tenemos que estar listos para escuchar y aceptar lo que Dios nos revela sobre nosotros mismos. Este remedio que implica el proceso de purificación es la noche oscura. No hay dos relaciones personales que sean exactamente iguales y no hay una fórmula exacta que seguir en la relación con Dios.

El riesgo de la vida humana es un proceso de crecimiento en el amor, pero una parte indispensable de este proceso es la purificación del corazón. Sin aguardar la dolorosa purificación del corazón, no podemos amar en verdad. Muchas veces, lo que parece amor es simplemente egoísmo. La purificación es dolorosa porque en este proceso, todas nuestras pretensiones e ilusiones tienen que caer. Necesitamos entender en lo más profundo de nuestro ser que solamente la pura gracia de Dios es la que nos sostiene. Es muy fácil decir, pero otra cosa es entender esa realidad profundamente. Antes de entender necesitamos pasar por la noche oscura.

La contemplación es la última y más importante parte del proceso de purificación del corazón humano. Por medio de la contemplación llegamos al punto de ver todo como Dios ve y amar como Dios ama. Pero para llegar a la purificación total de nuestro ser tenemos que viajar bastante.

La noche oscura nos da el conocimiento de quiénes somos y de cómo estamos apegados a nuestras propias ideas para llegar a la felicidad. La noche oscura es una parte muy importante del proceso de transformación porque nos hace entender cómo nuestros planes e ideas en vez de dirigirnos hacia la felicidad; están dirigiéndonos hacia la miseria. Hay tinieblas porque no hemos dejado nuestras propias ideas para llegar a la felicidad y no hemos recibido aún la plenitud y la verdadera alegría del Señor. Este es un inicio para esperar en la oscuridad a Dios que es siempre fiel a su promesa. La tiniebla se hace más intensa cuando el amor de Dios llega a la parte más íntima de nuestra alma, pero cuanto más oscura es la noche más cerca está el alba. La noche oscura no es un castigo, sino una señal del amor de Dios y una garantía que el Señor nos está haciendo libres para vivir una vida llena. la noche oscura es un pasaje esencial en nuestro viaje hacia la libertad. Es importante colaborar con Dios por medio de la fe y un amor silencioso.

Podemos hacer algo para preparar el suelo del corazón para recibir a Dios cuando y como quiera venir. La primera cosa es la ascesis. Esta palabra tiene una larga historia y quizá esta palabra no suene bien en nuestros oídos por causa de algunas experiencias en el pasado. El tipo de ascesis que estoy sugiriendo es muy duro, pero no tiene que ver con vigilias de oración o penitencias insólitas. Santa Teresita decía que no responder a la palabra dura con palabras duras es mejor que penitencias largas.

Una verdadera ascesis  cristiana nos ayuda a crecer en el amor y a perder las ilusiones sobre nuestra propia bondad. La tentativa de amar en cada situación y de ser humildes que significa simplemente aceptar la verdad sobre nosotros mismos; producirá mucho fruto. El ayuno de la palabra dura es mucho más útil que el ayuno del alimento.

 

 

EL EGO FALSO

 En este proceso de la noche, el ego falso, empieza a desmantelarse si la persona consiente. De esta manera entramos en contacto con nuestro verdadero centro que es Dios . El ego falso es un concepto moderno para explicar lo que escribió San Pablo sobre el hombre viejo o el hombre carnal. El ego falso es la cáscara que construimos alrededor de nosotros para protegernos de peligros verdaderos o que solamente están en nuestra cabeza ya sean físicos o emocionales. Nacemos con necesidades instintivas de amar, de buscar seguridad y de dominar la propia vida. Estas son buenas y naturales, pero muy fácilmente perdemos el control y construimos un ego falso que nos asegura que solamente en la satisfacción de todas nuestras necesidades hay la felicidad.

Cuando una persona en su niñez no recibió un mínimo de amor y no sintió un mínimo de seguridad o dominio de su propia vida, el ego falso será muy fuerte y muy difícil de desmantelar. Somos creados con la capacidad para Dios y sólo Dios puede satisfacer la sed de nuestros necesidades infinitas; el ego falso busca una satisfacción ilusoria.

Entramos en la Familia Carmelitana con nuestra cáscara bien construida. Cuando Jesús habla de la necesidad de perder la vida para encontrarla; está hablando de esa vida falsa que necesitamos dejar para recibir la vida en abundancia de Dios. Hay muchos motivos para entrar en la Familia Carmelitana y el discernimiento es importante, pero nadie al inicio tiene motivos completamente puros; con los años y la madurez, las intenciones iniciales salen gradualmente purificadas. Lo que es verdaderamente importante no es la motivación inicial sino la motivación siempre renovada que nos da la fuerza de permanecer fieles a nuestro compromiso.

La Regla habla del desierto que es el lugar de batalla. O entramos en este proceso de purificación y luchamos contra el ego falso o buscamos refugio en un mundo ilusorio. El Ego falso puede acomodarse a cualquier estilo de vida y encuentra gusto en las cosas externas de la religión. Hay muchas maneras de escapar de este proceso de purificación. Kevin habló de la persona que puede aparecer muy humilde, muy santo, pero con motivaciones deformadas.

 

Una gran parte del proceso de purificación y transformación está en medio de los eventos normales de la vida. Se puede tener una oración que parece muy alta, pero si la persona no está creciendo en las virtudes normales de la vida cristiana, la oración no es tan alta. Sólo el amor es la prueba verdadera de la vida espiritual. Y el amor necesita purificación constante para que sea puro y no una máscara para el egoísmo.

Tenemos que responder al acercamiento de Dios, consintiendo  su presencia y su acción en nosotros; nuestra oración, cualquiera que sea el método, tiene que ser una apertura a Dios y un deseo ardiente que su voluntad sea cumplida en nosotros y por medio de nosotros. Las experiencias durante la oración no son las cosas más importantes y es posible que no tengamos memoria de ninguna de esas experiencias. Lo que hacemos y cómo reaccionamos en los hechos concretos de cada día, nos dirá mucho más sobre nuestra relación con Dios; que los sentimientos particulares que nos broten durante la oración.

 

LA LUCHA

 Si no comprendemos la necesidad de luchar contra el ego falso, pienso que no será posible el crecimiento porque no hemos aceptado la necesidad de una conversión de todo nuestro ser. El ego falso no tiene ningún problema para actuar llevando incluso un habito religioso o un escapulario, etc. Porque estas cosas no nos tocan en lo profundo necesariamente. Se puede vivir una vida egoísta a pesar de las apariencias o palabras bonitas que se usa.

¿Cómo se puede luchar contra el ego falso? El punto más importante es reconocer cuándo este ego falso está fuerte. Por ese motivo, Santa Teresa de Jesús dice que las primeras moradas son del autoconocimiento. Dice que el autoconocimiento tiene que acompañarnos durante todo el viaje espiritual. Sin el conocimiento propio no existe una humildad y sin la humildad, el Señor no construye muy alto. No tenemos que pensar demasiado pronto que ya nos conocemos; no es fácil conocer a sí mismo y nuestro ego falso lucha ferozmente contra el auto conocimiento, porque el ego falso prospera en un ambiente ilusorio.

Podemos hacer fácilmente un examen de conciencia y reconocer algunas pequeñas faltas, pero habitualmente no nos preguntamos por qué hacemos estas cosas, es decir no reconocemos nuestros motivos. Es fácil ocultar nuestros motivos en un atmósfera de  activismo.

Me parece que el primer paso para conocerse mejor es preguntarse “¿por qué?” ¿por qué estoy siempre duro con esa persona? ¿por qué no veo aquella persona con simpatía? Pienso que la computadora nos puede enseñar mucho. En una computadora hay diversos programas con los que se pueden escribir cartas y charlas; jugar a la baraja o contactar por medio del Internet con personas que están muy lejos. Cuando se quiere hacer estas cosas se pide a la computadora que inicie un programa; y, se hace esto apretando un icono  de la computadora. Apretar una letra inicia diversos mensajes dentro de la computadora y pronto el programa que queremos empieza. Dentro de nosotros hay diversos programas: El enojo, la ironía, la auto defensa, las lágrimas, etc. No necesito explicar cómo  se forman estos programas dentro de nosotros, pero algunos son más usados que otros y esto depende de la personalidad individual.

Normalmente algo o alguien aprieta el punto que empieza  un programa dentro de mi. Muchas veces decimos: “ella me hace enojar,”  etc. Nada y nadie puede hacerme enojar u obligarme a tener una reacción. Una persona puede hacer algo o una situación puede tener para mi un significado particular y como reacción empiezan en mí emociones fuertes, pero el problema está en mí y no en la otra persona o situación, yo no puedo cambiar a la otra persona; es bastante difícil cambiar mi propio corazón.

Si quiero crecer como persona humana y responder a la gracia de Dios que está siempre presente tengo que preguntarme ¿por qué me enojo en esta situación o con cualquier persona y por qué no puedo aceptar  a esta persona como es? El objetivo es hacernos conscientes de lo que está pasando en nuestra vidas. Cuando estoy consiente de lo que hago; hay menor posibilidad de pisar los derechos  o sentimientos de los demás. Es importante vivir en el presente y si estamos verdaderamente en el presente; estaremos conscientes de lo que estamos haciendo.

El próximo paso es buscar vivir siempre en la presencia de Dios. Si estamos conscientes de lo que estamos haciendo este paso es más fácil. Si no nos avergonzamos de hacer algo o decir algo en la presencia de Dios; o si somos encarcelados de un gran engaño o si nuestras acciones son según la voluntad de Dios. Tenemos que recordar que el ego falso llevará muchos motivos para asegurarnos que tenemos razón y no necesitamos mudar nada en nuestras vidas. Para el viaje espiritual, la honradez es indispensable.

Por supuesto la oración es otra arma en la lucha contra el ego falso para que el ego verdadero pueda nacer. El ego verdadero está creado a imagen de Cristo. Hay diversos métodos de oración y antes hemos hablado de alguno, pero cada verdadera oración es una apertura a Dios. Santa Teresa descubrió la oración mental como una conversación íntima con El que sabemos que nos ama. Pero a veces lo que hacemos es tener un método para defendernos de Dios, no escuchar su voz y para continuar sintiéndonos bien. Por ejemplo, la oración del fariseo en el templo, “Gracias, Señor, porque no soy como los demás.” Es posible decir lo que queremos a Dios y basta; no queremos verdaderamente escuchar.

Es bueno hablar con Dios, es bueno tener pensamientos santos, pero estas palabras y estos pensamientos son nuestros. Es posible que sea ilusión; es decir, podemos convencernos que somos espirituales porque las palabras  o meditaciones son santas. Santa Teresa escribió, “Cuando veo a las almas todas concentradas en qué tipo de oración tienen y así concentradas cuando están en esta oración que no quieren hacer el más pequeño movimiento por miedo de perder aquel poquito de gusto y devoción  que sienten, me persuado que no conocen el camino de la unión ” (Las Moradas 5,3,11). ¿Qué significa? Hay una manera sola para juzgar la oración. Sólo si la oración está cambiando nuestra vida es una verdadera apertura a Dios. ¿Nuestra oración está ayudándonos o tratar mejor a nuestros vecinos?

SILÊNCIO NA REGRA DO CARMO

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Publicado em 23 novembro 2025
  • Ordem do Carmo,
  • ESPIRITUALIDADE CARMELITANA,
  • História da Ordem do Carmo,
  • REGRA DO CARMO,
  • Silêncio,
  • O Silêncio,
  • Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo,
  • O SOM DO SILÊNCIO,
  • O Silêncio no Carmelo,
  • Frei Carlos Mesters, O. Carm
  • Permanência nas Celas e da Oração continua na regra do Carmo
  • Silenciar é rezar,

Frei Carlos Mesters, O. Carm

  1. Na solidão do Monte Carmelo, onde viviam os primeiros carmelitas, reinava um grande silêncio. Não havia barulho, a não ser os ruídos da própria natureza que convidam ao silêncio. Mesmo assim, a Regra recomenda com muita insistência o silêncio. Numa cidade barulhenta tem sentido insistir que se faça silêncio. Mas pedir que se faça silêncio naquela serra imensa do Carmelo, cheia de solidão, qual o sentido? Parece o mesmo que carregar água para o mar! Qual o silêncio que a Regra pede daqueles primeiros carmelitas do Monte Carmelo e, através deles, de todos nós da Família Carmelitana?
  2. Há muitos tipos de silêncio: o silêncio de uma sala de estudo ou de uma biblioteca; o silêncio que se pede num hospital; o silêncio da noite ou da madrugada; o silêncio da natureza, o silêncio da morte; o silêncio que precede à tempesta­de; o silêncio do medo; o silêncio do censurado e do povo silenciado e amordaçado; o silêncio do aluno que não sabe a resposta; o silêncio do fulano frustrado ou do jovem abafado; o silêncio do lutador derrubado; o silêncio de Deus que nunca aparece; o silêncio do místico; o silêncio da quebra interior: tudo que a pessoa tinha imaginado e planejado até àquele momento cai no vazio e se desintegra. Parece que não valeu nada. Tantos silêncios! .... Qual o silêncio que a Regra pede e recomenda? Vejamos:

 

  1. O texto da Regra sobre o Silêncio

      O apóstolo recomenda o silêncio, quando manda que se trabalhe em silêncio. Do mesmo modo, o profeta afirma: "A justi­ça é cultivada pelo silên­cio". E em outro lugar diz: “É no silêncio e na es­perança, que se encontrará a vossa força”.

      Por isso, determinamos que, após a recitação do com­pletório, guardem silêncio até depois da oração da manhã do dia seguinte. Quanto às demais horas, embora não tenha de ser observado um silêncio tão rigoroso, abstenham-se cuidadosa­mente do muito falar, porque conforme está escrito e não menos a experiência o ensina: “No muito falar não faltará o pecado; e quem fala sem refletir sentirá um mal-estar, e ainda quem fala muito prejudica sua alma. E o o Senhor no Evangelho: de toda palavra inutil que a gente disser, dela terá que dar conta no dia do juizo.

      Portanto, cada um ponha  moderação nas suas palavras e coloque um freio na sua boca, para não escorregar e tropeçar na língua, numa queda sem cura que con­duz à morte. Como diz o profeta, cada um vigie sua conduta para não pecar com a língua e procure diligentemente observar o silêncio, pelo qual se cultiva a justiça.

 

  1. Um pouco de história: Os motivos do silêncio invocados pela Regra
  2. Na Regra o silêncio é uma arma a mais a ser usada na luta espiritual. E é uma das armas mais importantes. Pois, dentro do conjunto da Regra, o capítulo sobre o silêncio (Rc 21) é como que o ponto de chega­da, após as longas recomendações sobre a luta (Rc 18-19) e o trabalho (Rc 20). É o topo do Monte Carmelo, onde se chega após longa e dolorosa subida. É através do silêncio que todos os valores da vida carmelitana, aos poucos, vão sendo assimilados e encarnados na vida.
  3. Todas as religiões, de uma ou de outra forma, recomendam a prática do silêncio como condição neces­sária para o encontro com Deus. O silêncio é importante, não só para o nosso relacionamento com Deus, mas também para o relacionamento com o próximo, conosco mesmos, com a natureza e com as coisas. É importante, inclusive, para a saúde mental e corporal das pessoas.
  4. Silêncio é muito mais do que ausência de barulho. É o espaço onde se refaz a síntese final, onde a pessoa se possui a si mesma, onde ela conversa com Deus, onde ela se prepara para poder falar e conversar. Sem silêncio não há conversa, nem com o irmão e a irmã, nem com Deus. Pois a condição para a conversa verdadeira é saber escutar o outro. Palavras verdadeiras nascem é do silêncio.
  5. Silêncio é saber escutar e fazer à outra pessoa sentir que, no momento da conversa, ela, e só ela, é o absoluto diante do qual todo o resto é relativo. Isto exige uma ascese muito grande. Sobretudo, saber escutar as pessoas que sempre foram silenciadas, os pobres, tanto na sociedade como na igreja.
  6. Resumindo:
  7. O silêncio favorece a comunicação: fazer silêncio para aprender a escutar. É ascese dura: fazer silenciar tudo para dar atenção ao outro, ao pobre, ao povo, a Deus.
  8. O silêncio é o caminho para a maturidade. Evita a superficialidade, pois exige o recolhimento e concentração das forças da gente.
  9. O domínio da língua é condição para o domínio da mente e para a consciência crítica que nos revela as situações de morte que ameaçam a vida.
  10. O silêncio deve ter uma expressão concreta e comunitária, para que lembre a todos que o objetivo da vida fraterna é a busca de Deus e do irmão.
  11. O silêncio é como a solidão e a cela: não vale em primeiro lugar pelo não falar, mas pelo silêncio interior que por ele deve ser gerado.

 

  1. O ponto de partida: o controle da língua que conduz ao silêncio profético

      O número 21 da Regra sobre o silêncio tem três partes: 1) Descreve o valor do silêncio; 2) Organiza o silêncio; 3) Recomenda a prática do silêncio.

 

(1) O Valor do silêncio:

      Na primeira parte, usando frases da Bíblia, a Regra recomenda o silêncio. Ela começa lembrando a recomen­dação do apóstolo Paulo a respeito do trabalho em silêncio (Rc 20). Em seguida, para des­crever o valor do silêncio, ela cita por inteiro duas frases do profeta Isaías: "A justiça é cultiva­da pelo silêncio", e “É no silêncio e na esperança, que se encontrará a vossa força. Isto significa que o silêncio recomendado pela Regra tem a ver com a Bíblia: a sua origem está nos profetas. É um silêncio profético! Trata-se de um silêncio que é muito mais do que só ausência de barulho ou de falatório. Conforme as duas fraes do profeta, o silêncio tem a ver com a prática da justiça, com a esperança e a resistência (for­ça). Para nós, carmelitas, o silêncio profético evoca imediatamente o profeta Elias.

      Este silêncio profético tem dois aspectos, expressos nas duas frases de Isaías. A primeira frase diz que o cultivo do silêncio gera justiça. Isaías compara a prática do silêncio com o trabalho do agricultor que cultiva sua roça para ter boa colheita. Esta primeira frase indica o esforço ativo nosso que visa atingir um determinado resultado. A segunda frase do profeta sugere o contrário. Em vez de esforço ativo em busca de um resultado, aqui a prática do silêncio é vista como a atitude de espera de algo que deve acontecer, mas que não depende do nosso esforço. Depende de Deus.

(2) A Institucionalização do silêncio

      A segunda parte do número 21 da Regra descreve a organização do silêncio. Se o silêncio é um valor tão importante, ele deve ter a sua expressão na vida do Carmelo. Na Regra, a organi­zação ou institucionalização do silêncio é adaptada ao ritmo diferente do dia e da noite. A noite, ela por si mesma, é silenciosa. O silêncio da noite nos envolve e nos faz silenciar. Produz uma certa passividade. Acalma as pessoas. Acontece, independente de nós. O dia já é mais barulhento. Em vez de silêncio, produz distração. Agita as pessoas. Exige um esforço interior maior para fazer silêncio. Por isso, a Regra pede um tipo de silêncio mais estrito para a noite e um silêncio menos estrito para durante o dia. Insistindo para que o silêncio seja institucionalizado conforme o ritmo diferente do dia e da noite, a Regra, por assim dizer, cria canais concretos através dos quais o silêncio possa atingir as pessoas para gerar nelas a justiça, a esperança e a resistência (força) de que fala o profeta Isaías. Através da observância do ritmo do silêncio de dia e de noite, a pessoa vai assimilando dentro de si os valores do silêncio profético.

 

(3) A recomendação do silêncio

      A terceira parte consta de dois momentos. Num primeiro momento, a Regra descreve como  a pessoa deve fazer para cultivar o silêncio que gera a justiça. Este cultivo consiste sobretudo no controle da língua. Citando frases da Bíblia, Alberto aponta os perigos do muito falatório. Ele diz: No muito falar não faltará o pecado; e quem fala sem refletir sentirá um mal-estar, e ainda quem fala muito prejudica sua alma. E o Senhor no Evangelho: de toda palavra inútil que as pessoas dis­serem, dela terão que prestar conta no dia do juízo.

      Em seguida, num segundo momento, citando novamente frases da Bíblia, a Regra passa a recomendar o cultivo do silêncio ou o contro­le da língua, como sendo o caminho para se chegar ao silêncio mais profundo que é o silêncio profético. A Regra diz: Portanto, cada um faça uma balança para as suas palavras e rédeas curtas para a sua boca, para que, de repente, não tropece e caia por causa da sua língua, numa queda sem cura que conduz à morte. Que, com o profeta, cada um vigie sua conduta para não pecar com a língua, e se empenhe, com diligência e prudência, em observar o silêncio pelo qual se cultiva a justiça. De um lado, o pecado, a morte. Do outro lado, a justiça, a vida. O muito falatório conduz ao pecado e à morte. O controle da língua conduz à justiça e à vida.

      No fim, a Regra retoma a frase inicial sobre a justiça que é fruto do silêncio e diz: Cada um procure diligentemente observar o silêncio, pelo qual se cultiva a justiça. No começo e no fim, a insistência na prática do silêncio como caminho para a justiça. É o silêncio profético!

 

  1. Ponto de chegada: o silêncio profético que enfrenta a morte e conduz à vida
  2. Hoje em dia, o fluxo de palavras, de imagens e de falatório que nos envolvem é tanto, que impede as pessoas de perceberem o que está acontecendo de fato. Envolve-nos de tal maneira, que acaba­mos achando normal aquilo que, na realidade, é uma situação de morte. Por exemplo, anos atrás, o povo se revoltava diante de assassinatos e diante da violência. Hoje em dia, a violência tornou-se uma coisa tão freqüente e tão presente, que já nos acostumamos. A miséria crescente do povo, a injustiça impune, o sofrimento dos que nunca cometeram algum mal, o abandono, o desemprego, a exclusão, a doença, a solidão, o desamor...! Vivemos numa situação de morte, e já não nos da­mos conta. Além disso, muitas vezes, o consumismo mata qualquer esforço de consciência crítica
  3. O primeiro passo do silêncio profético está expresso na primeira citação de Isaías que diz: A justiça é cultivada pelo silêncio. Este cultivo consiste num trabalho ativo nosso que faz silenciar tudo dentro de nós, para que a realidade possa aparecer do jeito que ela é em si mesma e não como aparece desfigurada através do muito falatório, do barulho da moda, do diz-que-diz, ou através dos meios de comunicação, da ideologia dominante. Este trabalho ativo da prática do silêncio produz, aos poucos, o desmantelo das falsas idéias, da ideologia dominante ou dos pre­conceitos que tínhamos na cabeça. Faz nascer a visão justa das coisas. Gera em nós a justiça.
  4. Na hora em que se desmantela dentro da cabeça da gente o arcabouço ideológico que nos dava uma visão falsa e artificial da realidade, nesse momento é como se levássemos uma pancada forte. Como que de repente, despertamos do sono e somos confrontados com a situação de morte sem saída em que estamos vivendo e que grita por mudança e conversão. Nesse momento, tudo silencia dentro da gente. O falatório acabou, emudecemos. Perdemos os argumentos que nos sustentavam. É o momento da crise. Este momento do confronto com a situação de morte que faz silenciar, é o primeiro passo do silêncio profético, de que fala a Regra. É fruto do esforço ativo nosso de fazer silenciar o muito falatório da propaganda, da ingenuidade sem consciência crítica.
  5. O silêncio profético coloca o dedo na ferida escondida. Ele denuncia os caminhos sem saída em que estávamos caminhando e dos quais achávamos que fossem caminhos de vida, quando, na realidade, nos conduziam para a morte. O profeta aponta a morte, não porque gosta da morte, mas sim para que a vida possa manifestar-se. Agindo assim, ele dá pancada, faz silenciar. Faz silêncio para que possamos escutar e experimentar a morte e, passando pela morte, reencontrar a vida. É a cami­nhada da Noite Escura, de que fala São João da Cruz. É uma exigência da vida que sejam apontados os falsos e ilusórios caminhos da morte, para que possam provocar mudança e conversão, tanto na vida pessoal como na convivência social, e, assim, gerar justiça.
  6. O segundo passo do silêncio profético está expresso na segunda citação do profeta Isaías: No silêncio e na esperança está a força de vocês. O silêncio produzido em nós pelo confronto com a situação de morte, apesar de doloroso, é fonte de esperança e produz a força da resistência. Dá força para a gente agüentar a situação de morte, porque acreditamos que da morte do trigo caído na terra vai brotar vida nova. Faz cantar. Como diz o poeta: Faz escuro mas eu canto. Canta a Noite Escura do povo, porque dentro dela já se articula a madrugada da ressurreição.
  7. Este segundo passo, fruto da ação de Deus, aparece em muitos lugares na Bíblia e de várias maneiras. Trata-se da experiência mística. Por exemplo:

*  Salmo 37,7 diz: Descansa em Javé e nele espera. Literalmente se diz: Esvazia-te diante de Ja­vé e agüenta firme. A palavra esperar (agüentar), sugere a atitude da mulher em dores de parto. Ela agüenta firme, porque sabe que vai nascer vida nova, apesar das muitas dores.

*  Lamentação 3,26 diz: É bom esperar em silêncio a salvação de Javé. É a mesma experiência da certeza que vem de Deus. Não sai de frente de Deus, porque sabe que vai ser atendido.

*  Este mesmo silêncio foi acontecendo na vida do profeta Elias na caminhada para o Monte Horeb (1Rs 19). Disto falaremos no subsídio do Círculo 18.

*  O mesmo silêncio aconteceu na vida de Maria e na vida dos Santos e Santas Carmelitas. Sobre isto meditaremos no subsídio do Círculo 19.

  1. Resumindo. O silêncio profético recomendado pela Regra tem dois aspectos, expressos pelas duas frases de Isaías. O primeiro aspecto é fruto do esforço nosso, do cultivo, do trabalho. Exige disciplina e controle, estudo e reflexão, para que a gente possa perceber os mecanismos da opres­são e da ideologia, dos preconceitos e das propagandas. É fruto da partilha, da troca de expe­riências, do trabalho comunitário. O segundo aspecto do silêncio profético é fruto da ação do Espírito de Deus em nós. Desobstruído o acesso à fonte pelo esforço ativo nosso, a água brota de dentro de nós e inunda o nosso ser.

 

  1. O silêncio profético na vida do profeta Elias
  2. Elias parecia forte e invencível no confronto com os profetas de Baal (1Rs 18,20-40). Mas diante da ameaça de Jezabel, ele aparece como é na realidade: fraco e vulnerável, "igual a nós" (Tg 5,17). Com medo de ser morto, foge do país, vai para o deserto (1Rs 19,1-3). Cego, sem enxergar, não percebe o anjo de Deus que lhe traz comida. Ele só quer comer, beber, dormir e ficar longe de tudo (1Rs 19,5). Está desanimado. Quer morrer: Não sou melhor que meus pais! Mas Deus não desiste. O anjo volta uma segunda vez (1Rs 19,7). Finalmente, Elias desperta e, alimentado por Deus, recupera sua força e, no silêncio do deserto, caminha quarenta dias e quarenta noites até o Horeb (Sinai), a Montanha de Deus (1Rs 19,8). Ele busca reen­contrar Deus no mesmo deserto onde, séculos antes, na época do êxodo, havia nascido o povo.
  3. Mas a busca parece não estar bem orientada. Alguma coisa não está dando certo. Ele diz ter muito zelo, mas, na realidade, está fugindo com medo de morrer (1Rs 19,10.14). Diz que ficou sozinho, mas havia sete mil que não tinham dobrado o joelho diante de Baal (1Rs 19,18). Elias tem a visão limitada. Ele acha que é o único a defender a causa de Deus! (1Rs 19,14) Deus o manda sair da gruta e ficar na entrada, pois "Deus vai passar" (1Rs 19,11). Elias sai da gruta, mas a gruta não sai dele. Ele continua com a mesma visão limitada, achando que é ele quem defende a Deus! (1Rs 19,14)
  4. Deus vai passar! A nova experiência de Deus desintegra o mundo de Elias. Primeiro, um furacão! Depois, um terremoto! Depois, um fogo! No passado, ao concluir a Aliança com o povo naquela mesma Montanha Horeb ou Sinai, Deus tinha se manifestado no furacão, no tremor da montanha e nos raios de fogo (Ex 19,16). Eram os sinais tradicionais da presença atuante de Deus no meio do povo. Eram estes os critérios que orientavam a Elias na sua busca de Deus. Ele mesmo tinha experimen­tado a presença de Deus no fogo quando, no Monte Carmelo, enfrentou os profetas de Baal (1Rs 18,36-38).
  5. Elias estava fazendo uma coisa certa. Ele buscava Deus voltando às origens do povo. Ele voltou à experiência de Deus no êxodo. Mas os critérios da sua busca estavam desatualizados. Ele vivia no passado. Encerrou Deus dentro dos critérios! Queria obrigar Deus a ser como ele, Elias, o imaginava e desejava. Por isso acontece o inesperado, a surpresa total: Deus não estava mais no furacão, nem no terremoto, nem mesmo no fogo que tinha sido sinal da presença de Deus, pouco antes, no Monte Carmelo! Parece até um refrão que volta três vezes: Javé não estava no furacão! Javé não estava no terremoto! Javé não estava no fogo!
  6. É a desintegração do mundo de Elias. A crise mais violenta e mais dolorosa que se possa imaginar! Cai tudo! Pois se Deus não está aqui nestes sinais de sempre, então Ele não está em canto nenhum! É o silêncio de todas as vozes! É a escuridão da noite! E é neste momento, que se abre para Elias um novo horizonte. É no silêncio de todas as vozes que a voz de Deus se manifesta a Elias.
  7. Este silêncio total, a língua hebraica expressa-o dizendo: “voz de calmaria suave”, (qôl demamáh daqqáh). As traduções costumam dizer: “Murmúrio de uma brisa suave” A palavra hebraica, demamáh, usada para indicar a calmaria, vem da raiz DMH que significa parar, ficar imóvel, emudecer. A brisa suave indica algo, uma experiência, que, de repente, faz emudecer, faz a pessoa ficar calada, cria nela um vazio e, assim, a dispõe para escutar. Esvazia a pessoa, para que Deus possa entrar e ocupar o lugar. Ou melhor, Deus entrando provoca o vazio e o silêncio. Silêncio sonoro, solidão povoada! Vacare Deo diziam os antigos carmelitas, isto é, esvaziar-se para Deus!
  8. Elias cobriu o rosto com o manto (1Rs 19,13). Sinal de que tinha experimentado a presença de Deus exatamente naquilo que parecia ser a ausência total de Deus! A escuridão se iluminou por dentro e a noite ficou mais clara que o dia. É a libertação de Elias. Reencon­trando-se com Deus, ele se reencontra consigo mesmo. Não é ele, Elias, que defende a Deus, mas é Deus quem defende a Elias. Libertado por Deus, ele é livre para libertar os outros!
  9. A experiência de Deus reconstroi a pessoa e lhe revela a sua missão (1Rs 19,15-18). Refeito pelo encontro com Deus, Elias redescobre sua missão (1Rs 19,15-18) e se preocupa em dar-lhe continuidade, indicando Eliseu como sucessor (Rs 19,19-21). Antes, ele queria morrer. Já não via mais sentido no que fazia. Agora, a nova experiência de Deus mudou tudo. Ele volta para o lugar onde queriam matá-lo. Já não tem mais medo. Em vez de querer morrer, quer que sobreviva a sua missão. Sinal de que novamente crê no que faz e deve fazer.

 

  1. Maria, a Virgem do silêncio
  2. De Maria se fala pouco na Bíblia, e ela mesma fala menos ainda. Os textos da Bíblia sobre Maria são todos dos evangelhos, menos três (Gl 4,4; At 1,13; Ap 12,1-17). Segue aqui uma chave de leitura para os textos dos três evangelhos que falam sobre Maria: Mateus, Lucas e João.
  3. Chave de leitura para os textos do evangelho de Mateus sobre Maria:
  4. Nos textos do evangelho de Mateus em que Maria é mencionada, tudo é centrado em torno da pessoa de José. Maria aparece como a esposa de José. Ela mesma não fala.
  5. Na genealogia de Jesus, Maria aparece silenciosa em companhia de quatro outras mulheres. Esta Companhia de Maria merece uma atenção especial. São Tamar, Raab, Betsabea e Rute.
  6. Tamar, uma cananéia, viúva, se vestiu de prostituta para obrigar Judá a ser fiel à lei e dar-lhe um filho (Gn 38,1-30).
  7. Raab, uma cananéia, prostituta de Jericó, fez aliança com os israelitas. Ajudou-os a entrar na Terra Prometida e professou a fé no Deus libertador do Exodo (Js 2,1-21).
  8. Betsabea, uma hitita, mulher de Urias, foi seduzida, violentada e engravidada pelo rei Davi, que, além disso, mandou matar o marido dela (2 Sm 11,1-27).
  9. Rute, uma moabita, viuva pobre, optou para ficar do lado de Noemi e aderiu ao Povo de Deus (Rt 1,16-18).
  10. As quatro mulheres são estrangeiras e irregulares. Não agem nem vivem dentro dos padrões da lei. Mesmo assim, suas iniciativas pouco convencionais deram continuidade à linhagem de Je­sus e trouxeram a salvação de Deus para todo o povo. Foi através delas que Deus realizou seu plano e enviou o Messias prometido.
  11. Uma irregularidade semelhante existe em Maria. A sua gravidez acontece antes de ela conviver com José. Se José tivesse agido conforme as exigências das leis da época, deveria ter denunciado Maria, e ela poderia ser apedrejada. Mas José, por ser justo, não obedeceu às exigências das leis de pureza. A justiça de José era maior e o levou a defender a vida tanto de Maria como de Jesus. Mais tarde, Jesus irá dizer: "Se a justiça de vocês não for maior que a dos escribas e fariseus, não poderão entrar no Reino do céu" (Mt 5,20).

 

  1. Chave de leitura para os textos do evangelho de Lucas sobre Maria:

É no evangelho de Lucas que Maria aparece mais. Mesmo assim, ela fala pouco: com o anjo Gabriel, com Isabel e com Jesus no Templo de Jerusalém. Ela canta, usando os salmos. Lucas, quando fala de Maria, pensa nas Comunidades. Ele apresenta Maria como modelo para a vida das comunidades. É na maneira de Maria relacionar-se com a Palavra de Deus que Lucas vê a maneira mais correta para a comunidade relacionar-se com a Palavra de Deus: acolhê-la, encarná-la, vivê-la, aprofundá-la, ruminá-la, fazê-la nascer e crescer, deixar-se moldar por ela, mesmo quando não a entendemos ou quando ela nos faz sofrer. Maria nos orienta na escuta e no uso da palavra.

 

  1. Chave de leitura para os textos do evangelho de João sobre Maria:

A Mãe de Jesus aparece duas vezes no evangelho de João: no começo, nas bodas de Caná (Jo 2,1-5), e no fim, ao pé da Cruz (Jo 19,25-27), e pronuncia apenas duas frases: "Eles não têm mais vinho!" (Jo 2,3) e: "Fazei tudo o que ele vos disser!" (Jo 2,5). Nos dois casos, em Caná e ao pé da Cruz, Maria representa o Antigo Testamento que aguarda a chegada do Novo e, nos dois casos, ela contribui para que o Novo chegue. Maria é o elo entre o que havia antes e o que virá depois. Em Caná, é ela, a mãe de Jesus, símbolo do Antigo Testamento, que percebe os limites do Antigo: "Eles não têm mais vinho!" E é ela que dá os passos para que o Novo possa chegar, dando o grande conselho: "Fazei tudo que ele vos disser!" Na hora da morte, é novamente Maria, a Mãe de Jesus, que acolhe o "Discípulo Amado". O Discípulo Amado é a Comunidade do Novo Testamento que cresceu ao redor de Jesus. Ele é o filho que nasceu do Antigo Testamento. A pedido de Jesus, o Novo Testamento, recebe o Antigo Testamento, em sua casa. Os dois devem caminhar juntos. Pois o Novo não se entende sem o Antigo. Mãe não se entende sem filho, e filho não se entende sem mãe. Seria um prédio sem fundamento. E o Antigo sem o Novo ficaria incompleto. Seria uma árvore sem fruto.

NOTA DE FALECIMENTO. (Segunda-feira, 3 de novembro-2025)

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Publicado em 04 novembro 2025
  • Ordem Terceira do Carmo,
  • NOTA DE FALECIMENTO,
  • cidade de Limeira,

 

NOTA DE FALECIMENTO. Faleceu nesta segunda-feira 3 de novembro-2025 na cidade de Limeira, São Paulo, o Sr. Moreira (fotos), um dos fundadores da Ordem Terceira do Carmo naquela cidade. Em nome da Província Carmelitana Fluminense e da Comissão Provincial para a Ordem Terceira do Carmo, o nosso muito obrigado pelo carinho e amor ao Carmelo. Descanse nos braços da Senhora do Carmo. Com saudades, Frei Petrônio de Miranda, O. Carm. Delegado Provincial.

Com um pé na Bíblia e outro no chão

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Publicado em 20 outubro 2025
  • Ordem do Carmo,
  • Frei Carlos Mesters,

Os 41 Sodalícios da Província Carmelitana Fluminense- E a Família Carmelitana do Brasil e do mundo- agradece ao Frei Carlos Mesters, O. Carm., pelo carinho e apoio. Parabéns pelos 94 Anos!

Primeira entrevista dada pelo novo Prior Geral, Fr. Desidério Garcia

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Publicado em 11 outubro 2025
  • Ordem do Carmo,
  • Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo,
  • Prior Geral da Ordem do Carmo,
  • Ordem do Carmo, Order of the Brothers of the Blessed Virgin Mary of Mount Carmel,
  • Eleito novo Prior Geral da Ordem do Carmo,
  • Frei Desiderio Garcia,

Primeira entrevista dada pelo novo Prior Geral, Fr. Desidério Garcia

 

Transcrevemos integralmente, com a devida vénia, a primeira entrevista dada pelo novo Prior Geral da Ordem do Carmo, Fr. Desidério Garcia, a Francisco Otamendi, publicada pelo sítio Omnes, no passado dia 8 de outubro de 2025, e por nós traduzida para o público de língua portuguesa.

 

Desidério Garcia, novo Prior Geral dos Carmelitas: “A nossa origem é asiática”

 

A Ordem do Carmo tem um novo Prior Geral, eleito na Indonésia. É o P. Desidério Garcia (França, 1970), até agora prior e pároco dos Carmelitas de Ayala (Madrid). “Nascemos na Terra Santa. A nossa origem é asiática”, assevera a Omnes. “A contemplação, com mãos compassivas, é o melhor presente que podemos oferecer ao mundo e à Igreja”, acrescenta.

A Província Carmelita de Aragão, Castela e Valência foi a mais rápida a dar a notícia. A 19 de setembro. “P. Desidério García, novo Prior Geral. Capítulo Geral, Malang 2025”, dizia a notícia. De fato, no Capítulo Geral de Malang (Indonésia), o P. Desidério foi eleito Prior Geral da Ordem dos Irmãos da Virgem Maria do Monte Carmelo para os próximos seis anos (2025-2031).

Nascido em Orange (França), na Provença francesa, em 1970, filho de pais espanhóis, “sou filho de emigrantes”, conta ele a Omnes. O P. Desidério, O. Carm., tem três licenciaturas: em Estudos Eclesiásticos, Teologia Bíblica e Filologia Hebraica. E foi membro de diferentes Comissões Internacionais da Ordem do Carmo.

Durante seis anos foi Prior Provincial das Carmelitas da Província de Aragão, Castela e Valência, de São João da Cruz, vinte e um anos Conselheiro de Formação na sua Província e dezoito anos Mestre de Noviços. Fez parte de projetos de formação em Salamanca (Espanha), Aylesford (Reino Unido), Roma (Itália) e Santo Domingo (República Dominicana).

Atualmente, o P. Desi, como é coloquialmente conhecido, era Conselheiro para a Vida Religiosa e, desde há dois anos, prior e pároco da comunidade carmelita da Rua Ayala (Madrid). Recém-chegado da ilha de Java e depois de ter pregado um retiro Effetá naquela paróquia a numerosos jovens, conversámos com ele.

 

Em primeiro lugar, parabéns. Estava à esperava disto? Quais foram os seus primeiros pensamentos?

– Nunca se espera uma coisa destas. Eu estava feliz, servindo, juntamente com os meus irmãos carmelitas, na nossa paróquia de Santa Maria do Monte Carmelo, conhecida em Madrid como os “Carmelitas de Ayala”. Soube da minha eleição ali mesmo, na sala capitular, uma vez lido o escrutínio da primeira votação deliberativa, onde me disseram que tinha conseguido a maioria absoluta. No meu caso, senti gratidão pela confiança dos meus irmãos e, ao mesmo tempo, tremor e temor perante a responsabilidade que tinha assumido.

Estes dons que Deus dá têm a forma de cruz. A nossa autoridade não é a do poder, do brilho ou de uma medalha de mérito, mas sim a da caridade, da humildade, do serviço generoso a todos, como Jesus fez no lava-pés. Foi o que expressei aos Irmãos capitulares e a toda a Ordem, comunicando-lhes, depois o ter rezado, que aceitava esta responsabilidade como um serviço de amor a Deus, à Igreja e à Ordem do Carmo, em cada um dos Irmãos, para que, juntos, possamos levar à plenitude a vocação à qual fomos chamados.

 

O novo Prior Geral dos Carmelitas, P. Desidério Garcia, com o novo Núncio da Santa Sé em Espanha, Dom Piero Pioppo, até agora Núncio na Indonésia. A reunião teve lugar em Jacarta há alguns dias.

 

Nasceu em França, mas desde então vive em Espanha.

– Nasci em Orange (França) em 1970. Os meus pais são espanhóis, sou filho de imigrantes. Orange situa-se na Provença francesa, é uma cidade romana que possui um património impressionante: o antigo teatro e o arco do triunfo, ambos declarados Património da Humanidade. Também é conhecida por ser um importante centro de vinificação da França. Os vinhos das Côtes du Rhône, bem como os vinhedos de Châteauneuf du Pape, onde o meu pai trabalhava, são reconhecidos desde o século XIV.

Orange é uma espécie de Mérida francesa. Ainda lá tenho amigos e familiares. A família, quando os avós envelheceram e foi necessário dar prioridade a quem se tinha que atender primeiro, voltou para Espanha. Instalaram-se em Onda (Castellón), onde tive o meu primeiro contacto com os carmelitas.

 

O Capítulo Geral celebrou-se na Indonésia. Ontem comentou que o crescimento da Ordem na Ásia é grande, mais do que noutras latitudes.

– Com grande alegria, a Ordem do Carmo está a difundir-se na Ásia, a par do anúncio do Evangelho. Não é demais lembrar que se trata apenas de uma viagem de ida e volta, já que a nossa origem é asiática. De fato, nascemos na Terra Santa, no Monte Carmelo, no Médio Oriente. Viemos de lá e agora o Espírito Santo está a levar-nos de novo para lá.

O Carmelo chegou à Indonésia em 1923, há 102 anos, graças à generosidade e ao zelo missionário da Província Carmelita da Holanda. Hoje, no maior país muçulmano do mundo, onde a população católica perfaz apenas 3%, existem mais de 400 frades e cerca de 200 jovens em diversas estapas de formação. O importante, obviamente, não são os números, nem as estratégias, nem os cálculos. Mas comprovar como o dom do carisma carmelita, os seus valores, a sua espiritualidade, continuam a dar fruto, sob ação do Espírito Santo.

 

Já teve a oportunidade de informar o Papa Leão XIV da sua eleição? Pode destacar alguma mensagem do Papa nestes primeiros meses?

– O Procurador-Geral, que é o representante a nível institucional da nossa Ordem junto à Santa Sé, é quem comunica oficialmente isso ao Secretário de Estado do Vaticano. Esse é o canal institucional. A nomeação é então notificada a todos os Dicastérios da Santa Sé, com os quais a Ordem, por uma razão ou outra, tem de estar em contacto.

Não tive a oportunidade de cumprimentar pessoalmente o Santo Padre porque ainda não estou a residir em Roma. Da ilha de Java, onde se realizou o Capítulo Geral em Malang, regressei diretamente a Madrid. Temos um tempo de transição para tratar dos vistos, permissões de residência e de questões administrativas a nível civil e canónico dos membros do Conselho Geral. Uma vez lá, é o Procurador-Geral que se encarrega de pedir uma audiência com o Santo Padre para apresentar oficialmente o Prior Geral e o seu Conselho.

Gostaria de destacar a mensagem inicial do Papa Leão XIV, a sua bela mensagem de paz. Ele pediu, no primeiro dia, logo após a sua eleição, que a “paz de Cristo ressuscitado” tocasse “todos os povos”, “toda a terra” e que fosse “uma paz desarmada e uma paz desarmante”.

 

Desidério  García,  ao  centro,  com  os  dois  ex-Priores  Gerais (P. Fernando Millán, 2007-2019, à esquerda, e P. Míċeál O'Neill, 2019-2025, ndT)

Para os que ainda não conhecem bem a Ordem Carmelita, aponte-nos algum traço central do carisma carmelita. 

– A contemplação não é apenas o coração do carisma carmelita, mas é, em si mesma, o melhor dom que podemos oferecer ao mundo e à Igreja. Como mendicantes, estamos abertos a todo o tipo de ministérios e apostolados. Pois bem, uma vez que nós, carmelitas, levamos a cabo a nossa missão no meio do povo, antes de mais com a riqueza da nossa vida contemplativa, façamos nós o que fizermos, prestamos especial atenção ao caminho espiritual das pessoas.

Creio que um dos grandes desafios proféticos do Carmelo é ajudar o mundo de hoje a cultivar a vida interior. Uma vida interior que não nos afasta da vida ordinária dos homens, mas que, pelo contrário, nos mergulha mais profundamente nos sofrimentos da humanidade. Uma pessoa com um olhar contemplativo é uma pessoa com mãos compassivas.

O contemplativo “alarga a sua tenda”, como diz o profeta Isaías, para que nela caiba Deus e todos os que vêm com Ele: a humanidade. Se um dia, à nossa volta, já não houvesse mais doentes e famintos, abandonados e desprezados – os minores de que fala a nossa tradição mendicante – não é porque os não haja, mas, simplesmente, porque não os vemos. A contemplação autêntica leva-nos à ternura e à compaixão, a tocar as chagas do Corpo de Cristo e a curar as feridas. Insisto, a qualidade da nossa compaixão brota das raízes da contemplação.

Embora possa ser prematuro, poderia comentar alguma prioridade do seu mandato? Os outros membros do governo também foram eleitos.

– O Prior Geral é encarregado pelos irmão de zelar com docilidade pelo bem comum de toda a Ordem. Para isso, deve dedicar o máximo esforço para que esta cresça na fidelidade à sua identidade (o que chamamos, na nossa linguagem, o carisma), bem como discernir, de modo criativo, olhando para o nosso mundo, os novos caminhos por onde Deus nos conduz.

Isso implica acompanhar toda a Família Carmelita para que cultive a nossa atitude contemplativa na vida de oração, fraternidade e serviço no anúncio do Evangelho. Esta animação, como pode imaginar, não se faz por controle remoto. Implica, acima de tudo, viajar, olhar cara a cara para os irmãos, conhecer a realidade, dialogar com cada cultura. E, sobretudo, exercitar o “apostolado da escuta”. Viver com fidelidade o dom recebido da nossa espiritualidade carmelita, voltando às nossas origens de forma criativa, implica diversas coisas: por um lado, a renovação da vida comunitária, como lugar de acompanhamento e acolhimento incondicional; e, por outro, o cultivo da nossa missão, abrindo janelas de esperança para a humanidade vulnerável, pobre e esquecida.

Sim, de fato, o Prior Geral não está sozinho. Seria impossível. Um bom grupo de irmãos carmelitas, chamados Conselho Geral, de diferentes nacionalidades, também eles eleitos no Capítulo Geral, ajudam e apoiam esta missão de governo e animação espiritual: o Vice-Geral (Fr. Hariawan Adji, Indonésia), o Ecónomo Geral (Fr. Christian Körner, Alemanha), o Conselheiro para a Europa (Fr. Richard Byrne, Irlanda), o Conselheiro para as Américas (Fr. Nepomuk Willemsen, Estados Unidos), o Conselheiro para a Ásia, Austrália e Oceânia  (Fr. Robert Thomas Puthussery, Índia), o Conselheiro para a África (Burkina Faso, Fr. Erik Chrisostome) e o Procurador-Geral (Fr. Michael Farrugia, Malta).

 

Se quiser acrescentar mais alguma coisa...

– Gostaria de dar graças a Deus pelo seu trabalho e pôr a vida dos leitores debaixo do manto de Nossa Senhora do Monte Carmelo, nossa Mãe e Irmã. Para isso, despeço-me com umas palavras do Frei Paulo Maria da Cruz, O. Carm., um jovem carmelita, doente de cancro, que fez sua profissão carmelita in articulo mortis (em perigo de morte).

Antes de morrer, aos 21 anos, ele escreveu uma carta póstuma ao Papa Francisco durante a JMJ de Lisboa 2023, dizendo-lhe: “No Carmelo, o Jardim de Deus, antecâmara do Céu, cresce Maria, o Girassol de Deus, a quem gosto de chamar e imaginar como a Virgem da Primavera. Peço-lhe a ela que transforme os desertos da dor em jardins de consolação, e nas suas mãos confio a evangelização dos jovens”.

Autor: Francisco Otamendi

Sítio: Omnes
Data do artigo original, em castelhano: 8 de outubro de 2025

URL: https://www.omnesmag.com/foco/p-desiderio-garcia-nuevo-prior-general-de-los-carmelitas/

Fonte: https://www.ordem-do-carmo.pt 

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