Frei Wilmar Santin, O.Carm. e Frei Carmelo Cox, O.Carm.

 

Introdução

100 anos atrás os carmelitas holandeses iniciaram um trabalho missionário no Mato Grosso, que durou quase 8 anos. Desta página da História do Carmelo Brasileiro havia apenas algumas informações esparsas na revista Mensageiro do Carmelo e um parágrafo no livro The Carmelites de Joachim Smet[1].

Dentro da História da Ordem do Carmo na primeira metade do século XX a Província Holandesa foi a que teve o maior ardor missionário. Restaurou a Província Fluminis Ianuarii[2] a partir de 1904. Ainda no início do século, enviou missionários para a Inglaterra e Estados Unidos. Abriu missões na Indonésia (1923) e Filipinas (1958). Hoje na Indonésia há a província com maior número de carmelitas e nas Filipinas um Comissariado Geral. Em 1924 iniciou a restauração da Província Germaniae Inferioris e forneceu a maioria dos missionários para a Prelazia e depois Diocese de Paracatu, MG, a partir de 1929. Foi justamente da Província Holandesa de onde saíram os missionários para Corumbá.

Como e por que os carmelitas holandeses foram trabalhar no Mato Grosso? Quem foi ser missionário em Corumbá? Qual era o tamanho da Missão? Quais cidades e paróquias foram atendidas pelos carmelitas? Quais eram as motivações e o estado de ânimo daqueles missionários? Que dificuldades encontraram? Os superiores apoiaram a missão? Tinham algum sonho? A criação da diocese de Corumbá criou problemas para os carmelitas? Como foi o relacionamento com o bispo? Por que saíram de Corumbá? Dar uma resposta a estas perguntas é o objetivo do presente trabalho.

A metodologia usada foi a de ir beber diretamente nas fontes e ali encontrar as respostas. Frei Carmelo Cox pesquisou nos arquivos da Província Fluminis Januarii em Belo Horizonte o no arquivo da Província Holandesa em Boxmeer. Transcreveu todos os documentos e os traduziu para o Português. Por isso, para facilitar a compreensão, as citações das cartas e documentos serão sempre em Português e não no original em Holandês ou Latim. Por sua vez, Frei Wilmar Santin consultou o Arquivo Secreto Vaticano, o Arquivo Geral da Ordem em Roma e o Arquivo da Arquidiocese de Cuiabá. Os documentos encontrados nos arquivos Vaticano e da Ordem em geral estão em Inglês, Latim, Alemão, Italiano e também em Português. Normalmente se citará uma tradução e não o original, a não ser que devido a importância se decidiu manter a língua original. Neste caso sempre se dará uma tradução. Quanto às informações históricas e geográficas da região, foram pesquisadas sobretudo em sites oficiais de prefeituras e dioceses.

  

Antecedentes

O trabalho missionário dos carmelitas holandeses em Corumbá começou por iniciativa de Dom Carlos Luiz d’Amour[3], então bispo de Cuiabá. Como ele estava pouco satisfeito com os salesianos[4], começou a procurar outros religiosos para substituí-los. Em 1906, por indicação do Cardeal Arcoverde[5] e do Núncio Giulio Tonti[6], procurou Frei Cirilo Thewes[7] e sondou a possibilidade dos carmelitas assumirem a região missionária de Corumbá. Frei Cirilo, que se entusiasmou com a idéia, deu esperança ao bispo e o aconselhou procurar o Prior Geral da Ordem Frei Pio Mayer[8] em Roma e conversar com o provincial carmelita na Holanda. Frei Cirilo escreveu uma carta em dezembro de 1906 ao provincial holandês Frei Lamberto Smeets advertindo-o para aguardar o bispo de Cuiabá no verão do ano seguinte. Na mesma carta afirma que pretendia fazer uma viagem até Corumbá: “A viagem levará um mês, é cansativa mas acho que é um dever meu fazê-la[9]. Porém, esta viagem ficou só no desejo.

O Capítulo da Província Holandesa, realizado em 1906, aprovou que se aceitasse a missão. Parece que não houve uma votação explícita, visto que não consta em ata, mas o assunto foi matéria capitular e se acertou que “na primavera de 1907 cinco Padres deviam ir para o Mato Grosso[10].

Dom Carlos Luiz em sua visita a Roma em 1907, encontrou-se com o Prior Geral Frei Pio Mayer. Este diante da aprovação do Capítulo Provincial da Holanda e do entusiasmo de Frei Cirilo no Brasil, aceitou a missão. Portanto não foi um acerto entre o bispo e uma província, como normalmente acontece, e sim entre o bispo e o superior máximo dos carmelitas. Isto resultou em muitas dificuldades, porque depois nem a Província Holandesa nem a do Rio de Janeiro sentiram-se responsáveis pela missão. Com exceção dos missionários, a missão de Corumbá nunca foi assumida pra valer tanto pela província holandesa como pela Fluminis Ianuarii. Criou-se também uma espécie de problema “jurídico”. Para o provincial holandês, os missionários enviados “não ficavam mais sob a jurisdição da Província. A opinião geral [na Holanda] era: A Missão do Mato Grosso pertence a nós[11]. Esse “nós” é o Conselho Geral da Ordem, do qual fazia parte Frei Humberto Driessen[12], como Procurador. A não ida do bispo de Cuiabá para a Holanda para conversar com o provincial carmelita, como estava previsto, deve ter ajudado para que a Província Holandesa não se sentisse responsável pela missão em Corumbá. Dom Carlos não foi por problemas de saúde e porque o provincial havia escrito que ele não precisava ir, visto que os missionários enviados “não ficavam mais sob a jurisdição da Província”.

Para resolver a questão o Prior Geral Frei Pio Mayer determinou que a responsabilidade da Missão no Mato Grosso seria da Província do Rio de Janeiro e enviou uma “obediência” para os Freis Paulo Hurkmans, Canísio Mulderman e Carmelo Lambooy “para ir com o bispo para Mato Grosso afim de lá abrir uma Missão[13].

No livro de contabilidade da Cúria Generalícia consta a despesa de Lit. 4,55 como pagamento de um telegrama enviado ao bispo do Mato Grosso no dia 30 de junho de 1907[14]. Apesar de não se ter o texto do telegrama, pode-se supor que foi a comunicação de que se aceitava a missão de Corumbá por parte do Prior Geral da Ordem Carmelita.

Como a Província do Rio de Janeiro estava ainda no início de sua restauração, ela própria necessitava ter mais frades. Não tinha possibilidade de assumir a missão em Corumbá sem ajuda da Província Holandesa, encarregada da restauração, desde 1904. Tão logo os missionários designados para Corumbá chegaram no Brasil, foram imediatamente enviados para suprir deficiências da Província em conventos e nomeados para cargos. Frei Paulo Hurkmans foi enviado para o convento de Santos, Frei Canísio Mulderman foi nomeado mestre de noviços e Frei Carmelo Lambooy foi designado para ser professor dos estudantes em São Paulo. Por isso para substituí-los Frei Cirilo pede ao provincial da Holanda o envio de mais dois padres. Na resposta do provincial holandês pode-se constatar o seu descontentamento: “O que V. Revma. me anuncia agora, que os Padres Paulo Hurkmans, Carmelo Lambooy e Canísio Mulderman receberam uma "obediência" para Mato Grosso, me abate e entristece muito. Com todo prazer fazemos o que podemos para prover os Conventos e as Casas da Província do Rio de Religiosos mas se o Padre Geral age deste jeito, ficará impossível a gente continuar[15]. A animosidade da Província Holandesa em relação à missão no Mato Grosso só diminuirá quando Frei Humberto Driessen foi eleito provincial em 1909. Além dos 4 primeiros missionários, só enviou depois o Frei Maurício Lans para Corumbá. O próprio Frei Cirilo Thewes, Vigário Provincial da Província do Rio de Janeiro, que no início estava a favor da missão – tanto é que aconselhou o bispo Dom Carlos conversar com o Prior Geral e com o provincial holandês, e inclusive estava disposto a fazer uma visita a Corumbá - mudou de lado devido as dificuldades da falta de frades. Parece que ele esperava um maior apoio da província holandesa. “Não preciso dizer que vossa última carta me deixou bastante preocupado. Ter que ceder três Padres e sabendo que a Holanda deixará de nos apoiar, é realmente de desanimar. Espero que esta situação não demore e breve mude para melhor ... Por isso apelo para V. Revma. e peço, pelo zelo e amor que V. Revma. tem pela nossa Ordem, de mandar o mais breve possível, Padres e Irmãos para o Brasil. Reconheço e estou convencido de que o Pe. Geral não usou a cabeça naquele momento, e seria muito triste nós sermos a vítima, nós que junto com V. Revma. nos esforçamos até o último momento, para mostrar a ele que seria irracional.[16].

Para complicar mais ainda, não foi feito um contrato por escrito e se prometeu que no futuro a “Missão” passaria em definitivo para os carmelitas, e caso fosse criada uma prelazia ou diocese, o bispo seria carmelita[17].

 

O TERRITÓRIO DA MISSÃO

O território missionário onde os carmelitas holandeses trabalharam abrangia quase todos os 358.158 km2 do atual Estado do Mato Grosso do Sul. Compendia Corumbá, Ladário[18], Aquidauana[19], Miranda[20], Coxim[21], Nioaque[22], Bela Vista, Porto Murtinho[23], Ponta Porã[24], Campo Grande, ... Consequentemente toda a parte do Pantanal pertencente ao atual Estado do Mato Grosso do Sul estava dentro da região missionária confiada aos carmelitas. Parece que Três Lagoas estava fora do território atendido.

Corumbá vivia um momento de grande desenvolvimento econômico. Era o terceiro maior porto da América Latina até 1930. Em 1910 foi fundada a Associação Comercial de Corumbá e em 1914, a 14º agência brasileira do Banco do Brasil. Havia muitos estrangeiros. Naquele tempo estava se construindo a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (São Paulo-Corumbá). Quando a ferrovia ficou pronta, o transporte fluvial perdeu a grande importância que tinha e o eixo econômico foi deslocado para Campo Grande, que se tornou então o ponto central de comunicação e transporte do sul de Mato Grosso a partir da década de 1920[25].

Como estrutura eclesial a missão pertencia à diocese de Cuiabá e compreendia somente 4 enormes paróquias: Santa Cruz de Corumbá, São José de Herculanea (Coxim), Nossa Senhora do Carmo de Miranda e Santa Rita de Nioac. Na época Campo Grande ainda não era paróquia e quando em 1912 (conferir a data da criação e o padroeiro/a) foi criada, seu território não ficou sob a responsabilidade dos carmelitas[26].

Frei Paulo Hurkmans, escrevendo ao Prior Geral, dá alguns detalhes interessantes:

  • a paróquia de Corumbá tinha 2 igrejas: uma na cidade e outra em Ladário. “A igreja de Corumbá é muito bem construída, bela e limpa, com seis altares e bem mobiliada, mas com paramentos insuficientes e não tem capas (exceto a preta) e roquete para bênçãos, e os outros paramentos são suficientes só para rezar missa”;
  • a população era em torno de 6.000;
  • a igreja do Ladário era muito bem mobiliada e havia um quarto anexo;
  • Miranda tinha uma igreja em condições desoladoras e não tinham paramentos. Partindo de Corumbá, levava-se 3 dias de barco para se chegar ali;
  • Nioaque tinha uma igreja, dois quartos e só os paramentos necessários. Para se chegar ali devia-se viajar 2 ou 3 dias a partir de Miranda;
  • Herculandia (Coxim) tinha uma pequena igreja, um quarto e não tinha paramentos;
  • Corumbá era o local de maior progresso do Mato Grosso[27].

 

Os missionários

Os primeiros carmelitas holandeses destinados à missão de Corumbá foram os padres Frei Paulo Hurkmans, Frei Canísio Mulderman, Frei Carmelo Lambooy e o irmão Frei Pancrácio Helmich.

 

Frei Paulo Hurkmans.

Nasceu aos 02 de outubro de 1863 em Deest (Holanda). Professou na Ordem do Carmo aos 15 de outubro de 1883. Foi ordenado sacerdote no dia 15 de agosto de 1888. Durante seus primeiros anos de sacerdócio trabalhou como professor no seminário em Zenderen. Em 1901 foi nomeado vigário de Pudsey, diocese de Leeds na Inglaterra. Chegou ao Brasil em julho de 1907. Como já estava com 44 anos, teve muita dificuldade para apreender a língua portuguesa e acostumar-se no novo país. Foi nomeado como primeiro superior da missão em Corumbá. Dois anos após, por motivo de doença, retornou para o Rio. Deixou a missão no dia 25 de fevereiro de 1910. Faleceu em Mogi das Cruzes aos 4 de novembro de 1930.

 

Frei Canísio Mulderman 

Nasceu em Mechelen (Holanda) aos 6 de setembro de 1874. Na pia batismal recebeu o nome de Henrique (Hendricus). Ao terminar a escola primária teve que ajudar o seu irmão no trabalho agrícola, ainda que gostasse mais dos livros do que do arado. Foi alguém abençoado por Deus com uma cabeça boa para os estudos e com músculos fortes para o trabalho manual. Ao atingir a idade prescrita pela lei foi chamado para servir como soldado no exército. Foi a primeira vez que ele ficou fora de sua terra natal por um longo período. É verdade que encontrou um mundo novo, mas um mundo pior do que tinha imaginado. Por isso foi com muita satisfação que ele deixou o mundo militar e voltou para a sua querida Mechelen.

A experiência de defensor da Pátria no exército suscitou-lhe o desejo de tornar-se defensor dos direitos divinos, de ser soldado de Cristo e sacerdote do Altíssimo. A dificuldade era: como alcançar este sublime ideal? Considerava-se um pouco velho para entrar num seminário com meninos de calças curtas. Para fazer um bom discernimento, foi aconselhar-se com o seu vigário, que o recebeu fraternalmente. Henrique deixou a casa paroquial bem animado e com passos leves. O vigário havia prometido preparar o seu paroquiano para entrar no seminário maior. Tudo correu melhor do que o mestre e o discípulo tinham imaginado. Já em 1897 Henrique entrou no noviciado, recebendo o hábito carmelitano e o nome de Frei Canísio. No dia 06 de outubro de 1898 fez seus primeiros votos e foi ordenado sacerdote em 28 de maio de 1904.

Ao terminar o curso de Teologia na Holanda, os superiores mandaram-no para Roma afim de especializar-se em Teologia.

A Província Carmelitana Fluminense, estando em franco progresso, precisava mais de Religiosos e especialmente de sacerdotes. Frei Canísio foi indicado para ir ao Brasil, onde chegou dia 21 de agosto de 1907. Antes da sua chegada o definitório, no dia 25 de julho de 1907, havia decidido que o noviciado seria instalado no Convento da Lapa do Rio de Janeiro e que o Mestre de Noviços seria Frei Canísio Mulderman. Pouco após sua chegada no Rio, recebeu uma carta obediência do Prior Geral dos Carmelitas Frei Pio Mayer para ir Corumbá. Quando Frei Paulo Hurkmans deixou a missão do Mato Grosso, ele tornou-se o superior. Ao retornar de Corumbá, já no ano seguinte foi encarregado de iniciar uma nova missão em Paranaguá, PR[28]. Foi Prior em Angra dos Reis, Rio de Janeiro e São Paulo. Por 4 vezes consecutiva foi eleito provincial (1932-44). Nesta função deu grande impulso à Província, aceitando diversas novas fundações. Foi uma das maiores figuras da Província. Faleceu no Rio de Janeiro aos 6 de janeiro de 1950.

 

Frei Carmelo Lambooy

Nasceu em Leeuwarden (Holanda) aos 9 de novembro de 1879. Foi o primogênito duma família abençoada por Deus com 10 filhos. Recebeu o nome de Francisco, no batismo. Ao terminar a escola primária, manifestou o desejo de ser sacerdote. Seu pai o encaminhou para o seminário carmelita de Zenderen.

O pequeno Francisco fez exames, foi admitido e iniciou os seus estudos. O jovem estudante nunca desanimava diante dos problemas. Sempre estava de bom humor e vivia em boa harmonia com os seus companheiros. Em 1899 entrou no noviciado e recebeu o nome de Carmelo.

Professou no dia 2 de outubro de 1900. Começou o Curso de Filosofia sob o magistério de Frei Humberto Driessen. Foi ordenado sacerdote aos 9 de junho de 1906.

O então superior dos carmelitas holandeses no Brasil Frei Cirilo Thewes (estando na Holanda) escreveu ao provincial holandês: “Acabo de receber uma carta de Frei Carmelo na qual diz que o único problema para ele viajar é que ainda não terminou os seus estudos. Este problema acho que se pode resolver facilmente, porque dois professores me acompanharão para o Brasil. Sou de opinião que a ida de Frei Carmelo está por isso resolvida, é o que direi a ele[29]. Assim ele foi destinado para as missões no Brasil, onde chegou ao Brasil dia 7 de junho de 1907. Ficou um mês na Lapa e foi transferido para São Paulo, mas a carta-obediência do Prior Geral o encaminhou para a missão em Corumbá.

Na missão de Corumbá, Frei Carmelo se sentia totalmente à vontade. Todos os dias saía a cavalo para visitar os diversos povoados e lugarejos. Conseguiu visitar todas as paróquias e comunidades para administrar os Santos Sacramentos e pregar o Evangelho. Ele era infatigável e sempre às ordens de cada fiel. Nas horas vagas trabalhava como carpinteiro, ferreiro, sapateiro, etc. ou ajudava a Frei Pancrácio no serviço da casa, nunca recusava qualquer trabalho manual. Tinha saúde fantástica. Possuía todas as qualidades para ser um ótimo missionário que trabalhava desde de manhã cedo até altas horas de noite.

Foi missionário durante quase todo o tempo que permaneceu no Brasil, em Corumbá, Paranaguá e na prelazia de Paracatu. Faleceu  dia 27 de maio de 1948, quando estava de férias na Holanda.

 

Frei Pancrácio Helmich 

Nasceu em Enschede (Holanda) aos 12 de março de 1867. Após terminar a escola primária, aprendeu a profissão de sapateiro. Esteve poucos meses como postulante na Congregação dos Padres Brancos. Sentia-se mais atraído para a vida do Carmelo, onde estava Frei Donato, seu irmão mais velho.

Alberto Helmich entrou no noviciado de Boxmeer, recebendo o nome de Pancrácio. Professou na festa de N. Sra. do Carmo, 16 de julho de 1898. Em novembro de 1902 acompanhou um padre para América do Norte. Estabeleceram-se na Vila New Atheus, Diocese de Beleville, Estado de Illinois. O Prior Geral Pio Mayer nomeou o Provincial Americano para que fizesse uma visita canônica e examinasse as perspectivas de futuro. Após examinar tudo, chegou à conclusão que a missão devia ser fechada. Por isso notificou o bispo diocesano, dizendo que no fim do ano os Carmelitas desistiriam definitivamente da Paróquia. Os daquela fundação holandeses podiam voltar para Holanda ou incorpora-se à Província Americana. Frei Pancrácio ficou ainda um ano e meio nos Estado Unidos, mas no começo do ano de 1907 retornou para sua pátria.

Depois foi designado para o Brasil, onde chegou aos 7 de Junho de 1907. Uma vez em terras brasileiras foi enviado para Corumbá no primeiro grupo de carmelitas. Frei Pancrácio Helmich era o "fac-totum": cozinheiro, sacristão, organista, cantor, coroinha, mecânico, tocador de sinos, etc. Deixou a missão do Mato Grosso em 1910. Foi também um dos fundadores da missão carmelita em Paranaguá em 1915. Trabalhou nos conventos da Mogi das Cruzes e Angra dos Reis, onde faleceu dia 7 de julho de 1946.

 

Frei Maurício Lans

Nasceu na cidade de Haarlem (Holanda) no dia 18 de outubro de 1881, numa numerosa família que deu à Igreja quatro sacerdotes. Dois filhos se tornaram Trapistas, que nas suas respectivas abadias subiram à dignidade de abade. Outro filho entrou na Congregação dos Padres Brancos e afinal o nosso Maurício. Quatro irmãos, um longe do outro. Um Trapista na Bélgica, outro na América do Norte, o Padre Branco na África e o Frei Maurício no Brasil. Começou os estudos no Seminário Diocesano, porém, dois anos depois era aluno do ginásio carmelita em Zenderen. Em 30 de setembro de 1902 professou na Ordem do Carmo e em 25 de maio de 1907 foi coroado com o sacerdócio. Após terminar o curso teológico foi transferido para o novo convento, que a pedido do Arcebispo de Utrecht, os carmelitas construíram em Hoogeveen, um lugar de 14.000 habitantes, dos quais apenas uns 25 católicos. Naquela época Hoogeveen era o único convento nas três Províncias do Norte. Em poucos anos os Padres Carmelitas eram conhecidos e estimados como pregadores nas várias paróquias daquela vasta região. As homilias do jovem sacerdote Frei Maurício eram apreciadas pelo povo. A crescente Província Fluminense, porém, precisava de mais sacerdotes e o então Provincial da Holanda, Frei Humberto Driessen, destinou Frei Maurício para a missão de Corumbá. Chegou no Brasil em novembro de 1910. Em seguida passou a estudar português, porque queria ir para a missão e logo começar a trabalhar. Ao provincial holandês escreveu: “estou contente por ter sido nomeado para o Mato Grosso[30].

Em 21 de fevereiro de 1911 embarcou em Santos no vapor "Zeelandia" do Loyd Real Holandês para ir, via Montevidéu, Buenos Aires e Assunção, trabalhar nas Missões Carmelitanas de Corumbá. Sua viagem durou mais de 2 meses por causa de uma revolução em terras paraguaias.

Com o fim da missão no Mato Grosso, trabalhou em vários conventos. Restaurou os conventos de Itu e Santos. Foi vigário de Guarujá e Guararama. Teve grandes méritos na reorganização do arquivo de Santos. Faleceu quando era prior do convento do Rio de Janeiro aos 20 de abril de 1944.

 

INÍCIO DA MISSÃO

Aos 11 de janeiro de 1908 embarcaram em Santos rumo à missão em Corumbá os padres Frei Paulo Hurkmans, Frei Canísio Mulderman, Frei Carmelo Lambooy e o irmão Frei Pancrácio Helmich. O Bispo de Cuiabá, Dom Carlos Luís L'Amour, viajou junto para pessoalmente entregar a missão aos carmelitas. O navio seguiu a rota Montevidéu, Buenos Aires, subiu o rio Paraná, entrou no rio Paraguai, passou por Assunção e chegou em Corumbá aos 8 de fevereiro do mesmo ano[31]. O superior do grupo missionário era Frei Paulo. Os 4 passaram a morar numa casa, junto à igreja, com 3 quartos.

É estranho, mas os missionários em suas cartas aos superiores não mencionam normalmente nada sobre o trabalho em si. Por exemplo: não comunicam quantos batizados ou casamento fizeram numa viagem de desobriga, para onde iam ou se divulgavam o escapulário e a devoção a Nossa Senhora do Carmo, ou se criaram alguma confraria. Provavelmente isto aconteceu porque para eles o normal da vida não era necessário contar. Eles não lamentam, mas várias vezes contam que o trabalho era duro, pesado e que as viagens eram longas. O mais duro e pesado era viajar pelo Pantanal durante um ou dois meses. Normalmente um deles estava fazendo visitas pelo interior.

Frei Paulo escreveu ao Padre Geral contando que Frei Canísio, pelo fato de falar também italiano, deva assistência aos imigrantes italianos daquela região[32]. No entanto, não informou que tipo de assistência dava.

Quanto à presença em Coxim, o site da diocese informa: “De 1908 à 1910 encontramos em Coxim dois Pe. da Ordem Carmelita: Pe. Canisio Mulderman e Pe. Carmelo Lambooj. Depois o salesiano Pe. Bernardo Chicco passou a dar o atendimento à freguesia[33].

 

Estado de ânimo

Os missionários foram para Corumbá com grande entusiasmo e alegria. Acreditavam muito no futuro da missão. Escrevendo ao Prior Geral, Frei Paulo afirmava: “The longer I am here the more I am convinced, that this mission of Matto Grosso has a great future for our Order[34] (Quanto mais tempo estou aqui, mais eu estou convencido de que esta missão do Mato Grosso tem grande futuro para nossa Ordem). Afirmações semelhantes estão também em outras cartas dos missionários.

Mas desde o início sentiram que necessitavam ajuda e insistentemente pediram mais padres. Quase em cada carta aos provinciais imploravam: “É necessário enviar mais 2 ou 3 sacerdotes”. Diante desta situação frei Canísio, escrevendo ao Procurador Geral da Ordem, tranqüilizava-o: “Entrementes o senhor pode ficar tranqüilo. Perder o ânimo é perder tudo e desistir é a última coisa que se faz[35]. em 1909 Frei Humberto Driessen foi eleito provincial na Holanda. Logo escreveu comunicando que mandaria reforço para o Mato Grosso, se achasse quem quisesse ir. Em fevereiro de 1910 escreve manifestando sua esperança em relação a esta promessa: “me lembro com alegria de sua última carta na qual o senhor promete mandar para cá mais gente se o senhor achar quem queira vir. Graças a Deus, acho que haverá candidatos dispostos a enfrentar o trabalho e o cansaço por amor a Deus e pela revivescência da religião tão lastimavelmente decadente nesta região”. Mas com realismo adverte: “Ninguém espere encontrar aqui uma vida fácil e sob todos os pontos de vista agradável; mas também não serão devorados pelas onças. Quem dera que tivéssemos em breve mais dois ou três Religiosos[36]. Frei Maurício Lans se dispôs ir para Corumbá e foi enviado ao Brasil no mesmo.

O sentimento de abandono em relação aos superiores foi constante. Não foi só o problema de não enviar mais missionários, mas também de comunicação: “Nos últimos seis meses telegrafei cinco vezes para o Rio e mandei duas cartas, tratando do Frei Maurício Lans e de outros assuntos sem receber nenhuma resposta, portanto agora chega. Isto não nos atinge pessoalmente, só achamos desumano o modo como somos tratados. Se Nosso Senhor nos deixar com saúde, a gente vai se virando mas para a Missão é uma tristeza. É totalmente impossível nós dois aqui fazermos mesmo os serviços mais necessários[37].

Quando finalmente Frei Maurício Lans chegou em Corumbá, Frei Canísio escreveu ao provincial holandês: “Demorou muito, já devia estar aqui há muito tempo; nós estávamos numa situação muito ruim, pior do que se pode imaginar é que nós fomos durante tanto tempo abandonados fez um grande estrago ao nosso trabalho[38].

Em relação ao governo geral da Ordem houve comunicação direta tanto com o Prior Geral Frei Pio Mayer como com o Procurador Geral Frei Humberto Driessen. Em nenhuma das cartas, que estão no Arquivo Geral da Ordem, há reclamação. Inclusive foram atendidos quando pediram missais e rituais. Frei Paulo agradeceu ao Prior Geral pelo envio de 8 missais[39], e Frei Canísio pelos 3 novos “Rituale Ordinis”[40].

 

Dificuldades

Desde o início os carmelitas encontraram grandes dificuldades, a começar pela casa onde moravam, que era pequena. Tinha três quartos para quatro frades. Os dois, que deviam dormir no mesmo quarto, deviam se sentir incômodos, visto que o normal é de cada frade ter a sua própria cela, conforme está na Regra do Carmo[41].

O número reduzido de padres para uma região tão vasta, implicava numa sobrecarga de trabalhos, mesmo que fosse só de “desobriga”. Viajar e se locomover pelo Pantanal era uma verdadeira aventura. Hoje ainda quando se fala em Pantanal se pensa em onça, sucuri, piranhas e jacarés. Também não havia pontes e estradas, como a rodovia Campo Grande-Corumbá ou a Transpantaneira, que liga Poconé ao Porto Jofre.

O trabalho era muito fatigoso não só por causa das longas distâncias mas também devido às condições em que se viajava. Devia-se andar a cavalo, de bote ou a pé. Quando o missionário saía para o interior só voltava após mais de um mês. Para se ter uma idéia de como foi difícil o trabalho desses pioneiros basta mencionar que Frei Canísio Mulderman, querendo conhecer pessoalmente a enorme extensão do território, viajou ininterruptamente durante 11 meses. Em virtude desta longa ausência, os seus confrades chegaram a pensar que talvez ele tivesse morrido e conversaram seriamente sobre a conveniência de celebrar solenes exéquias em sufrágio de sua alma. Folcloricamente, segundo Frei Carlos Mesters, entre os carmelitas do Brasil correu a história de que quando Frei Canísio voltou, estava sendo celebrada uma missa por um defunto. Ele perguntou: “quem morreu?” A resposta: “Um tal de frei Canísio que sumiu no meio do Pantanal”. Nesta ocasião, Frei Canísio saiu de Corumbá dia 6 de junho de 1908 e no dia 6 de dezembro estava em Aquidauana. Tinha visitado mais da metade da Missão e iria viajar até Nioac e aos limites do Paraguai. As viagens eram longas, de 5 a 10 dias a cavalo. Ele queria que o povo tivesse o primeiro contato com os carmelitas. Sobre esta aventura Frei Canísio conta: “Desde o início gostei e não gostaria de trocar esta vida por outra, mesmo assim na minha última viagem a Coxim não agüentei. Foi uma viagem difícil. Montanhas escarpadas que só podíamos descer a pé, rios bastante grandes que atravessamos em canoas e os cavalos nadando, etc. e tudo isto debaixo de chuva e muito calor. Agora até o fim de fevereiro é a época do calor mais forte e de chuvas pesadas. O meu cavalo estava exausto e andava mancando. Me deu uma dor nas costas tão grande que não agüentava mais sentado no cavalo. Desci e fui andando a pé até não suportar mais. Aí pernoitamos lá mesmo. No dia seguinte trocamos de cavalo e tudo corria bem[42]. Quase dois anos após sua chegada em Corumbá, ele expressava como os missionários se sentiam ao retornar de uma desobriga: “Chegamos do interior meio atordoados, exaustos espiritual e fisicamente[43]. Para se reabastecerem espiritualmente, os missionários faziam a meditação diariamente pela manhã[44], além das orações normais do breviário.

Frei Canísio em sua carta menciona o calor. De fato a temperatura média em Corumbá é de 32 graus no verão. Somando-se ao calor, o fato de que os missionários eram da Holanda, uma terra muito fria, e que usavam um hábito escuro de cor marrom e de lã, dá para se ter uma idéia daquilo que eles sofreram. A própria estrutura física nem sempre era a ideal pra enfrentar aquelas condições. Frei Canísio, que tinha uma saúde invejável, manifestou dúvidas se o último confrade, que chegou, iria agüentar o tranco: “se Frei Maurício é capaz de fazer aquelas viagens difíceis pelo interior, eu duvido. Mas isto não faz mal, sempre se acha um jeito; de ninguém exige-se demais, porém, é verdade, o trabalho aqui é duro e árduo, é uma vida de sacrifício[45].

Evidentemente que a prática religiosa do povo não era das melhores. Um dos padres, talvez com certo exagero, escreveu: “A religião aqui é quase ignorada, o povo não leva nada a sério, a metade da população compõe-se de matadores revolucionários e todos praticam o amor livre; nunca faltarão dificuldades e problemas[46]. Havia também maçons na cidade, mas não parece que havia briga aberta entre eles e a Igreja, mas como conta Frei Canísio: “Aqui tudo é feito pelos chefes da Maçonaria, mas isto não quer dizer nada[47].

Outro grave problema era a presença de padres amancebados, mercenários e/ou doidos. Quando chegaram na missão, havia em Miranda um velho padre espanhol, que deu dor de cabeça. Conta Frei Canísio: “Ele é do tipo antigo, que como todos os antigos, não liga a mínima para Deus ou mandamentos. Se esta gente recebe uma suspensão, excomunhão ou um interdito, fica rindo de tudo isto e continua fazendo o que quer; bem, afinal de que vão viver as mulheres e os filhos?

Deu na cabeça do velho espanhol, há algum tempo, de abandonar Miranda e de ir para a paróquia de Nioac, que é nossa. Ainda deve estar lá e se ele pretende ficar lá mesmo, é de tirar o chapéu para quem conseguir fazê-lo sair.

Naturalmente o Bispo ficou sabendo disto e este nos escreveu então que um de nós fosse à Miranda para ver a situação[48]. Frei Paulo Hurkmans, como superior, foi lá tentar resolver, mas sua viagem foi um fracasso, porque ele, além dele não entender bem o idioma, não era uma pessoa indicada para lidar com este tipo de situação.

Sete meses mais tarde, escrevendo ao Procurador da Ordem, Frei Canísio conta que em Sant'Ana do Paranaíba o vigário era um italiano caduco. Este deu dor de cabeça, porque foi para a região de Miranda e Aquidauana e ali começou a fazer casamentos e batizados sem licença. O próprio Frei Canísio foi encarregado, pelo bispo, de entregar-lhe a suspensão, mas ele também não deu nem bola. Na mesma missiva afirma: “Um outro problema são os Padres Italianos que vivem tirando dinheiro do bolso das pessoas, fazendo batizados, casamentos etc. sem terem jurisdição, sem nada”. Dá o exemplo concreto: “Enquanto eu estava em Campo Grande, que pertence à paróquia de Miranda, distante umas cinco horas a cavalo daqui, situada no alto das montanhas, veio fixar residência aqui um padre italiano, trazendo consigo mulher e filhos. O povo não liga para isto, quanto mais almas, mais alegria; que os sacerdotes devem ser solteiros para o povo isto é besteira, e direito e autoridade simplesmente não existem. O sacerdote é um trabalhador manual e onde se estabelece, pode exercer a sua profissão. E aquele italiano se aproveita disto; já está começando a enganar o povo e no primeiro ato religioso que fizer estará suspenso, mas isto não quer dizer nada. Dirigiu também ao Bispo um requerimento com muitas assinaturas, solicitando o cargo de vigário daquela paróquia. O Bispo não deverá atender ... No momento tenho um certo medo de voltar para lá porque um cara deste, vendo que nós o atrapalhamos é capaz de tudo, consciência ele não tem e justiça humana lá não existe[49].

Frei Paulo aponta o caso de um padre que morava em Corumbá e que tinha 3 filhas. Devido ao amancebamento e à simonia praticadas por este “maus” padres o resultado era que, quando os carmelitas visitavam uma casa em que havia mulher, deviam tomar muito cuidado porque a desconfiança era grande. Frei Paulo tinha esperança de que a situação mudaria pouco a pouco, visto que o povo estava vendo que os carmelitas não estavam atrás de dinheiro e de mulher[50].

Além das dificuldades externas, havia as dificuldades internas e pessoais. Frei Paulo Hurkmans não sabia bem o português e por isso não saía para o interior. Isto causava certo descontentamento entre os outros confrades. Tinha um pouco de problema em relação à bebida e sua saúde não era muito boa. Estava só com 44 anos, mas para Frei Canísio ele já era “velho” para trabalhar na missão. Poucos meses depois da chegada em Corumbá, Frei Canísio, referindo-se a frei Paulo, desabafava: “E quanto ao trabalho dele, ele pode muito bem voltar para Santos, não fará nenhuma falta, antes pelo contrário[51]. Frei Carmelo, que tinha o estupim um pouco curto, não tinha paciência com Frei Paulo e muitas vezes explodia. O próprio Frei Canísio, que era muito controlado e tinha uma força de vontade incrível, às vezes perdia a paciência. Ele mesmo conta: “recentemente recebi uma advertência do Rio para não perder a calma e estou nervoso de novo[52]. Frei Carmelo Lambooy chegou a enviar uma carta ao Prior Geral Frei Pio Mayer pedindo demissão da missão no Mato Grosso “por causa de diversas e veementes rixas” com Frei Paulo[53]. A demissão nunca foi aceita.

A própria situação geográfica e a variação do clima trazia como conseqüência o isolamento do resto do mundo. No final do período de seca em 1909, um dos missionário conta: “Durante muito tempo ficamos aqui separado do mundo civilizado por falta de água nos rios, sem receber nenhum sinal de vida ou notícia, até que por estes dias veio correspondência com novidades[54].

Ele se sentiam abandonados pelos superiores e não sem razão. Pediam constantemente ajuda, mas nem o superior do Rio nem o da Holanda se dignaram enviar mais padres para ajudá-los. Parece que a dor maior não era causada por não receber reforço numérico e sim a indiferença, manifestada mesmo no envio de notícias. Numa carta ao provincial holandês, Frei Canísio se lamentava: “Parece que finalmente o pessoal do Rio reconhece que nos trataram mal. Pelo menos agora recebemos regularmente notícias de lá, escrevendo até que o Provincial viria aqui. Agora parece que a gente pode tirar o cavalo da chuva[55].

As doenças também acompanharam os frades carmelitas no Mato Grosso. Frei Paulo devido à doença teve que deixar a missão o dia 25 de fevereiro de 1910. Conta Frei Canísio: “Frei Maurício esteve um mês doente, para nós foi muito desagradável[56].

A insegurança em relação ao futuro foi algo que corroeu os missionários durante todo o tempo. Como não havia uma certeza de que permaneceriam sempre ali, não se empenharam em fazer construções de convento, etc.

 

Visitas de superiores

No início da missão os superiores provinciais carmelitas, tanto da Holanda como do Brasil, não eram favoráveis à missão em Corumbá e não deram o apoio necessário. Pode-se dizer que ficaram indiferentes diante do compromisso assumido pelo Prior Geral Frei Pio Mayer. A situação começou mudar quando em 1909 foram eleitos provinciais Frei Gregório Meijer[57] no Rio de Janeiro e Frei Humberto Driessen na Holanda. Os dois tiveram um interesse maior e apoiaram a missão naquilo que era possível, inclusive visitando. Em 1910, Frei Humberto, sensibilizado por tantos e tantos pedidos dos missionários, enviou Frei Maurício Lans para a missão do Mato Grosso. Foi o único frade carmelita enviado a Corumbá após os 4 pioneiros.

Frei Gregório Meijer foi primeiro superior carmelita a visitar Corumbá. A visita aconteceu em março-abril de 1912, portanto 4 anos após a ida dos missionários para o Mato Grosso. Infelizmente não há, nos arquivos consultados, um relatório desta visita. Há no Arquivo Geral da Ordem em Roma uma carta de Frei Gregório ao Prior Geral informando que visitou a missão. Além disso conta resultado das negociações com o bispo. Junto com a carta há um mapa da diocese, desenhado a mão por Frei Gregório, com a área reservada aos carmelitas. Durante a visita encontrou-se com o novo bispo Dom Cyrillo de Paula Freitas e tentou acertar definitivamente a presença dos missionários carmelitas na diocese. Não conseguiu nem o que queria nem evitou que o bispo tirasse dos carmelitas a maior parte do território, mesmo prometendo enviar mais missionários. De fato naquela ocasião o bispo tirou em torno de ¾ do território e os carmelitas ficaram só com uma faixa ao longo do Rio Paraguai, compreendendo Corumbá, Ladário, Forte Coimbra, Porto Esperança e Porto Murtinho, além de algumas fazendas[58] (ver o mapa no anexo 2). Sobre esta vista comentou Frei Canísio: “O senhor já deve saber que o Provincial do Rio esteve aqui. Nada mal, pelo contrário, teria sido muito melhor se tivesse já vindo para cá antes[59].

Em maio de 1913 o Padre Visitador Frei Humberto Driessen esteve em Corumbá. Tão logo chegou a notícia de que a ilustre visita iria para Corumbá, Frei Canísio escreveu ao Padre Geral demonstrando a sua satisfação e diz que era “absolutamente necessário, que o próprio visitador visse a situação e escutasse os missionários[60].

Ele visitou a missão do Mato Grosso em companhia de Frei Serapião de Lange, que pouco depois foi eleito provincial. Ainda em Corumbá, Frei Humberto enviou uma carta ao bispo diocesano Dom Cirilo de Paula Freitas para tentar resolver a situação jurídica dos carmelitas na diocese, visto que “nunca se firmou um pacto de entregar a administração destas paróquias à nossa Ordem[61]. Também não conseguiu.

 

Curiosidades sobre o roteiro da viagem Rio-Corumbá

A viagem do Rio de Janeiro até Corumbá levava em torno de um mês. O navio parava em alguns portos para carga e descarga, como é normal acontecer. Os passageiros tinham tempo livre para passear ou fazer visitas. Os missionários carmelitas iam para casas de religiosos. Em Buenos Aires dirigiam-se aos Padres de Steyl, que falavam holandês, cujo endereço era: Padres del Verbo Divino, Calle Mansila 1555 (Palermo). O aviso da chegada podia ser feito através do telégrafo com o endereço: Imprensa Guadalupe, Buenos Aires. Em Assunção hospedavam-se no Oratório Franciscano, Bermejo 135. Este era dirigido por franciscanos espanhóis, que eram “boa gente”, segundo Frei Canísio. Quando o navio fazia escala em Montevidéu em vez de Buenos Aires, dirigiam-se ao "Colégio de la Sagrada Família", Calle Agraciada, 217[62].

 

PRELAZIA CARMELITANA: um sonho?

Desde o início foi prometido pelo Cardeal Arcoverde e pelo Núncio Giulio Tonti que no futuro a “Missão” seria concedida em definitivo para os carmelitas, e caso fosse criada uma diocese ou prelazia o bispo seria carmelita[63]. Este sonho foi alimentado tanto pelos superiores como pelos missionários. Parecia tudo líquido e certo. Mas os carmelitas se esqueceram de algo fundamental: para a Santa Sé vale o que está escrito e não o que se falou. O próprio Núncio vai confirmar este princípio diplomático do Vaticano. É estranho que Frei Humberto Driessen – como canonista e Procurador Geral – não tenha dado importância para este determinante detalhe e não tenha orientado ao Prior Geral e aos provinciais para que documentassem a promessa.

Desde 1910 o vigário provincial Frei Gregório Meijer desconfiava que a promessa não seria mantida. Numa carta ao provincial holandês Frei Humberto Driessen, ele manifestou seus temores. Começou logo afirmando: “Quanto à nossa Missão, creio que perderemos Corumbá”. Ele já tinha alertado o Padre Geral e este lhe respondeu “para lembrar ao Cardeal e ao Núncio, mais uma vez, das promessas feitas por estes”. O Cardeal Arcoverde tirou o corpo fora  dizendo “que não podia se apressar em se envolver neste assunto, primeiro porque a sua palavra como Cardeal, como sendo o desejo de um Cardeal ia pesar demais na balança e depois, porque ele não era propriamente o representante da Santa Sé, mas sim o Núncio”. Frei Gregório compreendia a posição do Cardeal e tinha bons motivos para isto: “nós, por experiência, sabemos que ele sempre esteve a nosso favor e também o será no futuro mas que não acha conveniente envolver-se neste assunto já que em outros casos ultimamente, muitas vezes foi forçado a não dar o seu voto em negócios papais”. De outro lado o Cardeal não estava de acordo com a posição do Prior Geral Frei Pio Mayer, que queria chamar de volta os missionários, porque “achava uma medida muito severa, muito Européia”. Já sobre a possibilidade de que o primeiro bispo de Corumbá seria um salesiano, o Núncio Bavona afirmava que a notícia era prematura e que nunca tinha pensado nesta possibilidade. Era verdade, visto que ele já tinha consultado o bispo coadjutor de Cuiabá, Dom Cyrillo – que não era salesiano – para ser o primeiro bispo de Corumbá. Disse que sua preocupação era a de continuar trabalhando no projeto das 3 novas dioceses do Mato Grosso e aquilo que já estava decidido não seria voltado atrás, ou seja, a diocese de Corumbá tinha sido criada e não seria reduzida a Vicariato. Ele se comprometia em indenizar a Ordem se, baseada na promessa de dar definitivamente a missão de Corumbá, tivesse construído algo ali. Em relação à ameaça do Padre Geral tirar de lá os missionários, afirmou que se tal acontecesse, se voltaria contra os carmelitas ou ficaria indiferente em relação aos mesmos no futuro. “Ele prometeu conseguir que nos seja dado em outro lugar, um território próprio e, como eu sugeri a ele, também nos seriam confiadas algumas paróquias de Corumbá, como próprias dos Carmelitas[64].

Quando em 13 de março de 1911 foi anunciado que o bispo nomeado para Corumbá era Dom Cyrillo de Paula Freitas, portanto um que não era carmelita, o vigário provincial Frei Gregório Meijer manifestou a sua mágoa ao novo Núncio Dom Giuseppe Aversa. Em carta ao provincial holandês desabafava: “Quando eu falei ao Núncio Apostólico da nossa decepção, disse-me que nunca soubera que os Carmelitas gostariam de ter como seu o território e que logo mudaria a situação contanto que o Geral ou o Provincial daqui possam provar que de fato existem promessas feitas pela Congregação ou pelo Núncio anterior, de fazer deste território um Vicariato.

Se o senhor puder arrumar alguns documentos ou mostrar alguma prova em relação a isto, devido ao seu conhecimento do andamento dos negócios naquela época em Roma, o senhor faria um bem a nós e à Missão de Mato Grosso.

Entrementes temo que não se tenha feito um contrato definitivo, o que, conforme as palavras do Núncio, teria sido tão fácil. Acho aconselhável aproveitar esta ocasião para transferir os Padres para um outro território e de imediato tentar por intermédio do Núncio, conseguir um território de Missão como Vicariato-Prelazia para os Carmelitas[65].

A nomeação de Dom Cyrillo de Paula Freitas não matou o sonho dos carmelitas holandeses terem uma missão própria. O sonho continuou sendo acalentado e alimentado até que se conseguiu a Prelazia de Paracatu em 1929.

 

CRIAÇÃO DA DIOCESE

A Diocese de Corumbá foi erigida pelo Papa Pio X com a bula “Novas constituere dioceses” de 10 de março de 1910[66]. Mas o seu primeiro bispo, Dom Cyrillo de Paula Freitas[67], só foi nomeado em 13 de março de 1911[68]. A demora de mais de um ano entre a criação da diocese e a nomeação do primeiro bispo aconteceu porque quem era consultado não aceitava. Em carta ao Núncio Aversa[69], o próprio Dom Cyrillo de Paula afirma não aceitou na primeira consulta: “Conhecendo a situação da nova diocese, recusei a primeira proposta de nomeação que Monsenhor Bavona[70] me fez. E como elle insistisse por duas vezes, respondi que somente acceitaria, si a S. Sé me permittisse residencia fora de Corumbá, ate que eu conseguisse crear renda para a mitra e adquirisse fundos para o patrimonio da diocese – proposta que a S. Sé accedeu[71]. Além da exigência de poder morar fora da sede diocesana pediu para “ficar por algum tempo como simples administrador da nova diocese” e que iria “tomar conta do governo da nova diocese no fim do anno de 1911[72]. Dom Cyrillo de Paula Freitas nem mesmo não apareceu para tomar posse pessoalmente. Tomou posse por procuração através de Frei Canísio Mulderman no dia 3 de março de 1912[73]. A não aceitação imediata e as exigências de Dom Cyrillo retardaram a posse do primeiro bispo da diocese de Corumbá por dois anos.

 

RELACIONAMENTO COM O BISPO

O relacionamento de Dom Cyrillo e os missionários carmelitas normalmente foi bom. Ele encarregou Frei Canísio, como seu procurador, para tomar posse da diocese. Ele poderia ter encarregado um dos salesianos, que morava em Corumbá, ou mesmo ter enviado um amigo seu de Cuiabá. Por mais de uma vez manifestou que estava satisfeito com os carmelitas e que queria que eles ficassem na diocese. Ao visitador provincial Frei Humberto Driessen escreveu: “Desejo muito que os seus Religiosos continuem na obra de apostolado, que já iniciaram nesta diocese. Elles tem sabido cumprir o seu dever; e das dioceses do Brasil a de Corumbá é talvez a que esteja precisando mais do concurso de bons religiosos[74]. Mas se Dom Cyrillo apreciava os carmelitas que estavam em Corumbá, tinha consciência de que os superiores carmelitas não enviariam mais padres missionários para o Pantanal. Por isso tirou inicialmente uma grande parte do território onde os carmelitas trabalhavam. Frei Canísio sobre a atitude do bispo escreveu ao provincial holandês: “Ele (o bispo) sabia que com os Carmelitas não arrumava nada mesmo, ou como ele mesmo disse: tinha certeza de que os Carmelitas não tinham mesmo pessoal suficiente e por isso nos tirou ¾ da Missão, região para a qual pediu Padres Seculares. Temos agora ainda Corumbá e toda a região pertencente a mesma. Poderemos com todo o prazer, receber de volta as outras paróquias se um ou outro Secular convidado não quiser vir. Como esta história vai acabar não sei dizer. Por escrito o Bispo declara que gostaria de confiar a nós toda a sua diocese (que aliás já estava nas nossas mãos), mas o que ele devia pensar? Só podia mesmo pensar que nós não tínhamos o pessoal necessário[75].

Houve pequeno contra-tempo quando o bispo autorizou um padre salesiano para fazer batizados e casamentos em Porto Murtinho sem avisar os carmelitas. O próprio bispo se justifica para o Núncio: “à pedido do diretor Salesiano de Corumbá, lhe concedi a este diretor a faculdade de ministrar os sacramentos numa fazenda da parochia de Porto Murtinho onde fora elle passar ferias em casa de um alumno do collegio. Estando em Porto Murtinho à uma distancia de noventa leguas de Corumbá, e sem occasião de nenhum recurso espiritual, por isto que os Carmelitas so apparecem alli uma vez no anno, quando isto succede, - concedendo tal faculdade julguei apenas cumprir um dever de consciencia![76]

Numa carta ao Núncio, Dom Cyrillo reclama que os carmelitas não fizeram nada para constituir um patrimônio para a diocese. O que é verdade. Mas eles nunca foram encarregados de tal tarefa. Os encarregados foram outros. Já em 1908 falava-se que “Corumbá em breve vai virar diocese. Já há muito tempo foram nomeadas comissões e distribuídas circulares para arrecadar dinheiro para a residência do Bispo e o patrimônio da diocese. Naturalmente, como tudo aqui, feito pelos chefes da Maçonaria, mas isto não quer dizer nada[77]. O próprio Dom Cyrillo estava encarregado, tanto é que Frei Canísio informa ao seu superior: “Há mais de um mês que o Bispo auxiliar de Cuiabá está no Sul de Mato Grosso para administrar a crisma e arrecadar fundos para a futura diocese de Corumbá[78]

Durante o período em que os carmelitas estiveram em Corumbá, o bispo não teve grande interesse pela sede da sua diocese. Logo após a primeira e pequena visita, foi para Três Lagoas e não deixou acertado quando voltaria. Os próprios carmelitas não sabiam: “Nos primeiros oito ou dez meses o Bispo não deverá voltar aqui[79].

Dom Cyrillo, pouco depois de assumir a diocese, passou a maior parte do território atendido pelos carmelitas a padres diocesanos. Mas como o vigário provincial Frei Gregório Meijer pediu e prometeu enviar mais sacerdotes carmelitas para trabalhar no Pantanal matogrossense, ele voltou atrás e devolveu uma parte do território aos carmelitas. Comunicou sua decisão, desde Coxim, ao Frei Canísio:

Cordiais Saudações. A propósito da última reunião que tivemos em Corumbá, telegrafei depois da minha chegada aqui e consegui mais alguma coisa em favor das Missões Carmelitas. Para atender à sua solicitação, poderão os Carmelitas nesta diocese, continuar encarregados não somente da paróquia de Corumbá como também de Miranda, Aquidauana e de Bela Vista; enquanto outros sacerdotes tomarão conta das paróquias de Campo Grande, Coxim e Sant'Ana do Paranaíba que não posso mais deixar para os Carmelitas porque assumi compromissos de prover estes lugares de sacerdotes e não posso faltar a estes compromissos.

Desejando tudo de bem para V. Revma. assino

Atenciosamente seu amigo em Cristo,

  1. Cirilo Bispo de Corumbá[80].

 

Motivos que levaram os carmelitas a abandonar Corumbá

Parecia no início que tudo iria dar certo para o trabalho missionário dos carmelitas em Corumbá. O bispo Dom Carlos Luiz D’Amour, aconselhado pelo Cardeal Arcoverde, tinha entrado em contato com Frei Cirilo Thewes, superior dos carmelitas no Rio de Janeiro. Este por sua vez deu esperanças ao bispo e pediu para que ele se dirigisse ao Prior Geral Frei Pio Mayer e ao provincial carmelita da Holanda. O capítulo provincial da Holanda informalmente tinha aceitado, mas quando o Prior Geral aceitou oficialmente a missão, o provincial holandês interpretou que a missão era de responsabilidade do Conselho Geral e não da Província Holandesa.

A Província Holandesa só enviou os três primeiros missionários e depois não se comprometeu mais. A Província Fluminis Januarii não tinha frades suficientes nem para ocupar todos os conventos carmelitas dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, ou seja, os conventos da Lapa (Rio de Janeiro), Angra dos Reis, São Paulo, Mogi das Cruzes, Itu e Santos. Por isso, quando o Vigário Provincial Frei Cirilo Thewes percebeu que da Holanda não chegariam missionários, mudou de posição e passou a ser contra a missão. Logo após a chegada dos missionários indicados para Corumbá, os destinou para tarefas dentro da província. Frei Canísio Mulderman foi nomeado mestre de noviços, Frei Carmelo Lambooy foi destinado para o trabalhar como professor em São Paulo e Frei Paulo Hurkmans foi enviado para o convento de Santos. Foi necessário que o Prior Geral Frei Pio Mayer enviasse uma carta-obediência obrigando os três irem para o Mato Grosso. Isto ajudou azedar o ambiente e a criar reação contra a missão. Frei Cirilo só acatou a ordem por obediência: “Embora a questão já esteja decidida, ele [Frei Cirilo] em consciência continua contra, como aliás sempre foi, e já não estava muito contente durante a visita do Bispo aqui; como estava convencido tratar-se de um caso decidido, aceitou a contra gosto[81]. Portanto antes da partida dos missionários já havia animosidade contra a missão no Mato Grosso.

Outro fator importante para manter uma posição de não assumir a missão foi que o acordo entre o bispo e a Ordem não foi colocado por escrito. Que o contrato foi só verbal, é evidente na frase de Frei Cirilo: “Não há sequer contrato de modo que o Bispo quando quiser, poderá mandá-los embora. É possível, ou melhor, é certo que farão trabalhos missionários, mas não se trata de uma Missão entregue à Ordem, como sempre se afirmava em Roma. Enfim, a culpa é da Ordem, aceitar algo sem conhecimento e sem fazer condições. A questão Mato Grosso ainda não está no fim. Agora começar-se-á a perceber em Roma o que se fez[82]. A insegurança de que o bispo poderia mandá-los embora a qualquer momento e o descontentamento com o Governo Geral da Ordem por não ter feito um contrato por escrito acompanharam os carmelitas durante todo o tempo em que estiveram trabalhando no Pantanal matogrossense. Inclusive os impediu de fazer investimentos em construções.

Aliado a este problema havia a promessa de que se fosse criada em Corumbá uma prelazia ou diocese, esta seria confiada aos carmelitas. Quando a diocese foi erigida e o bispo nomeado não era um carmelita, criou-se um mal-estar muito grande entre os carmelitas, tanto em Corumbá como no Rio de Janeiro. Neste sentido as palavras do Frei Gregório Meijer não deixam dúvidas:

Quanto a nossa missão em Mato Grosso, a situação não é boa. ... todo o território de Corumbá onde até agora trabalhamos, tornou-se agora uma só diocese onde o Bispo auxiliar de Cuiabá foi nomeado Bispo. Quando eu falei ao Núncio Apostólico da nossa decepção, disse-me que nunca soubera que os Carmelitas gostariam de ter como seu o território e que logo mudaria a situação contanto que o Geral ou o Provincial daqui possam provar que de fato existem promessas feitas pela Congregação ou pelo Núncio anterior, de fazer deste território um Vicariato.

Se o senhor puder arrumar alguns documentos ou mostrar alguma prova em relação a isto, devido ao seu conhecimento do andamento dos negócios naquela época em Roma, o senhor faria um bem a nós e à Missão de Mato Grosso.

Entrementes temo que não se tenha feito um contrato definitivo, o que, conforme as palavras do Núncio, teria sido tão fácil. Acho aconselhável aproveitar esta ocasião para transferir os Padres para um outro território e de imediato tentar por intermédio do Núncio, conseguir um território de Missão como Vicariato-Prelazia para os Carmelitas[83].

A reação de Frei Canísio em Corumbá: “Não dá para dizer com certeza o que será do futuro. Como se afirma, o Bispo auxiliar de Cuiabá aceitou a nomeação como Bispo de Corumbá. Pelo resto há muitos boatos por aqui sobre os quais nem vou escrever porque não tem sentido. Certo, porém, é que Corumbá agora é Diocese. Por enquanto nada foi organizado. Logo que o Bispo se instalar o negócio ficará mais claro e será possível para nós agir conforme as circunstâncias. Por enquanto continuaremos as nossas atividades normais e insistiremos num território separado quando o momento for oportuno; e apesar de todas as fofocas não vejo porque não poder conseguir isto[84].

Aquilo que os carmelitas temiam, aconteceu: o novo bispo tirou-lhes a maior parte do território da missão tão logo colocou o pé na diocese. É certo que depois devolveu uma parte, mas ficou a ferida e aumentou a desconfiança.

Em 1913, Frei Humberto Driessen foi enviado pelo Prior Geral Frei Pio Mayer como visitador ao Brasil.

Sabedor de que o bispo tinha tirado uma parte do território e que juridicamente a situação era confusa, tentou resolver definitivamente o problema escrevendo ao bispo Dom Cyrillo. Sua carta é muito clara e direta:

Corumbá, 5 de maio de 1913.

Exmo. e Revmo. Senhor,

Enviado pelo Revmo. Pe. Geral para visitar a nossa Província Fluminense, também terei que me encontrar com os confrades que residem na vossa diocese, exercendo o cargo de vigário. Nesta visitação que, como é claro, não se incluem as paróquias como tais, encontrei nossos confrades que ainda não têm, como administradores das paróquias, residência fixa e juridicamente confirmada. De fato a diocese entregou a eles as paróquias a serem administradas mas nunca se firmou um pacto de entregar a administração destas paróquias à nossa Ordem para sempre e com todos os direitos e privilégios que, conforme o Direito, possuem as outras paróquias. Daí que, para no futuro não surjam contendas ou dúvidas a respeito, peço humildemente à V. Revma. manifestar a sua intenção e sua vontade quanto as paróquias que atualmente administramos, se de fato nos serão cedidas, as suas circunscrições atuais e assim para todo o futuro pertencerão à nossa Ordem Carmelitana, naturalmente salvo o direito do Bispo. E de tal modo que não será permitido, sem consultar os Superiores da Ordem, remover ou substituir os confrades, por outros sacerdotes, sejam seculares ou regulares. Solicito a V. Revma. enviar uma resposta a esta pergunta, ao abaixo assinado, Visitador da Província Fluminense. Desejando tudo de bem e as bênçãos divinas para V. Revma. no governo de sua diocese e osculando o seu sagrado anel, subscrevo-me.

Mui respeitosamente Pe. Driessen - Visitador da Província Fluminense

O bispo enviou, desde Três Lagoas, uma resposta já no dia 24 de junho. Após afirmar “cumpre-me significar-lhe que a minha intenção com respeito aos Revds. Pes. Carmelitas nesta diocese, é que elles fiquem e continuem aqui nas mesmas condições, em que estão as outras Ordens Religiosas, que como elles estão exercendo o cargo de vigarios nas parochias de muitas dioceses do Brasil” e fazer várias considerações, deu uma resposta negativas às pretensões do visitador:  “Pelo que si a conservação dos seus Religiosos nesta diocese está dependendo da satisfação desta, com o mais profundo pezar de minha parte, sou compellido a deixar a V. P. a liberdade de agir em sentido contrario aos meus desejos[85].

Diante da resposta negativa de Dom Cyrillo, a primeira reação de Frei Humberto Driessen foi a de querer retirar os missionários carmelitas do Mato Grosso. Mas antes conversou com o Núncio Aversa e este prometeu-lhe agir no sentido de resolver a questão de modo que os carmelitas pudessem permanecer para sempre em Corumbá[86].

O Núncio Giuseppe Aversa, desde Petrópolis no dia 3 de abril de 1914,  escreveu ao bispo Dom Cyrillo:

Dico confidenzialmente a V. R. che l’impressione, che ho riportata dai colloqui tanto col Visitatore come col Vece Provinciale di Rio, è che se ai Religiosi non viene data una garanzia sicura di stabilità avvenire, i loro Superiori sembrano disposti a ritirarli tutti della Diocesi di Corumbà.

Ora, io lascio da parte la lettera del P. Visitatore, qualche periodo della quale avrà potuto apparire un po’ duro a V. E. Desiderando il bene e la prosperità così della Diocesi di Corumbà come dell’Ordine Carmelitano, vengo a domandarle con la presente, se sarebbe Ella disposta a dichiarare per iscritto con una lettera, per esempio, al Superiore dei Carmelitani essere Suo intento di affidare in perpetuo ai Carmelitani, in nome Suo e dei Suoi legittimi Successori, le Parrocchie che crederà determinare, aggiungendo alla dichiarazione la clausola, che salvaguarda i diritti vescovile anche: “servatis praescriptionibus circa regulares parochias Constitutionum Firmandis Benedicti XIV et Romanus Pontifices Leonis XIII.

Se ho questa proposta per dirimere la questione in maniera, che mi parrebbe soddisfacente e accettabile per le due parti. Debbo dire del resto che io non ho ancora fatto conoscere questa mia proposta ai Carmelitani, volendo essere prima sicuro che V. E. l’accetti. Appena Ella mi significarà tale accetazione, io ne parlerò ai Carmelitani mostrando loro la convenienza de accettarla anche essi[87].

Dom Cyrillo respondeu ao Núncio com uma longa carta[88], escrita em Três Lagoas no dia 26 de abril de 1914. Fez uma pequena retrospectiva da situação, criticou o trabalho e o zelo dos carmelitas, afirmou que estes não eram amigos dos salesianos, que os carmelitas “Para a criação da diocese não deram um passo” e a receberam com grande desagrado e que “Fora de Corumbá, um delles viaja a maior parte do anno pelos sertões. Se limitando, porem, nessa viagem a fazer senão baptizados e casamentos”. Recordou que tinha recusado ser bispo de Corumbá por duas vezes, que o Arcebispo de Cuiabá tinha se precipitado na criação da diocese, que a mesma não tinha patrimônio nem clero. Fez um desabafo pessoal, reclamou que o Núncio não reconhecia seu trabalho e dificuldades. Mas por fim escreveu:

Depois desta exposição, resta-me, finalmente responder ao objetivo da carta de V. Ex.

Com satisfação communico-lhe que accedendo aos seus desejos, estou propondo a ceder; in perpetuum e por escripto, aos Carmelitas as parochias de Bella Vista, Ponta Porana e Porto Murtinho, regiões vastissimas onde o zelo encontra um campo immenso onde se expandir.

Quanto, porem, as de Corumbá, Miranda e Aquidauana, juntas e ligadas entre si – a não ser que V. Ex possa attender ao pedido de transferencia, ja manifestado em cartas anteriores – estas não posso[89].

Claramente Dom Cyrillo tentou utilizar a situação para conseguir a sua transferência para outra diocese. Por isso ofereceu “in perpetuum” somente as paróquias de Bela Vista, Ponta Porã e Porto Murtinho, mas abria possibilidade de entregar também Corumbá, Miranda e Aquidauana, se o Núncio o transferisse.

Evidentemente os carmelitas não aceitaram e decidiram sair de Corumbá. A decisão oficial foi comunicada ao Núncio, primeiro verbalmente e depois por escrito, pelo provincial Frei Serapião de Lange. O texto integral da decisão:

 

Rio de Janeiro, 16 de Maio de 1914.

Exmo e Revmo Snr.

Dignou-se V.Ex. de me comunicar em sua carta de 8 de maio de 1914 o pensamento de S.Ex. o Snr. Bispo de Corumbá de nos entregar in perpetuum as Parochias de Bella Vista, Ponta Porana e Porto Murtinho, em substituição d’aquellas em que nos achamos actualmente e onde estamos desde Dezembro de 1907, isto é, antes mesmo da creação do Bispado actual de Corumbá, por instantes solicitações do Exmo Metropolita D. Carlos Luiz d’Amour ao nosso Geral da Ordem em Roma.

Em resposta devo dizer com o devido acatamento e respeito, a V. Ex. que essas Freguezias não offerecem, por sua população muito escassa, campo sufficiente para exercer a actividade de uma missão completa, provida de pessoal e recursos bastantes, como era pensamento do Revmo P. Provincial da Provincia Germano-Hollandeza, que no intuito de bem conhecer e avalias as necessidades daquellas remotas e inhospitas paragens veio pessoalmente visital-as.

Venho pois com grande pezar de nossa parte apresentar, em obediencia ás ordens de nosso P. Visitador Fr. Huberto Driessen, como já tive a honra de fazer pessoalmente, a resolução em que estamos de retirar-nos dessa missão em que a insufficiencia de sacerdotes e a largueza das distancias poem em grande perigo aquelles que isoladamente se arriscam a viver longe de todo o soccorro material e espiritual.

Agradeço de todo o coração o interesse que V.Ex. se dignou de tomar por nós e pela estabilidade de nossa missão em Mato Grosso.

Aproveito a occasião para renovar a V.Ex. os protestos de minha distincta estima, profunda consideração e respeito.

Servo em J. Chrº

Fr. Serapião de Lange

 

Exmo e Revmo Snr. D. José Aversa

D.D. Nuncio Apost. Do Brazil[90].

 

Mas antes da saída, houve reação em Corumbá. Um grupo de católicos protestou publicando um artigo (ver onde foi publicado):

Exmo. Sr. Redator,

Surpreendidos como fomos com a triste notícia da remoção dos Revmos. Carmelitas desta localidade para fora e contristados, pois que tem os mesmos muito cooperado para o grande desenvolvimento da religião católica, levando assim aos lares o sossego e a paz por meio de suas santas palavras e obras e também sabedores que lhe foi suspenso o crisma pelo Revmo. Sr. D. Cirilo e entregue aos Salesianos, viemos portanto, por intermédio vosso, pedir vos, protesteis pelas colunas do vosso conceituado órgão contra semelhante ato, que só poderá trazer-nos descontentamento e aos Carmelitas grande injustiça e ingratidão, porque nunca pouparam esforços para o engrandecimento moral de nosso Corumbá e da Santa Igreja Católica.

Agradecendo vosso valioso auxílio, esperamos também providências. Somos vossos assíduos leitores e devotos fervorosos.

Corumbá, 12 de maio de 1914.

Os Católicos de Corumbá”.

Frei Canísio Mulderman apressou-se em fazer um esclarecimento oficial (ver o texto completo e onde foi publicado):

Agradecemos as honrosas referências. O fato, porém de nossa retirada de Corumbá, só por causa da ordem de nosso Superior, que nos chamou para o Rio de Janeiro.

Corumbá, 23 de maio de 1914.

Pelos Padres Carmelitas

Frei Canísio, Vigário”.

 

Atendendo ao chamado dos superiores, os missionários carmelitas deixaram Corumbá, terminando assim a presença missionária carmelitana no Mato Grosso.

 

 

CONCLUINDO

         O fim da presença missionária dos carmelitas holandeses em Corumbá não matou o sonho de terem uma própria missão, onde pudessem se empenhar com todas as forças e entusiasmo. Por isso “logo após o regresso dos missionários de Corumbá, os Carmelitas quiseram fundar uma nova missão. O Bispo de Curitiba, Dom João Braga, ofereceu-lhes a paróquia de Paranaguá, no Paraná, e porto principal de exportação desse Estado. Em 1915, Frei Canísio Mulderman, Superior, Frei Rafael Wilens - mais tarde substituído por Frei Carmelo Lambooy - e o Irmão leigo Frei Pancrácio Helmich tomaram posse da nova missão. Durante 4 anos trabalharam aí ativamente, abrindo também uma escola primária com grande frequência. Por falta, porém: de novas forças, das poucas vocações religiosas e da necessidade urgente dos conventos de Itu e Mogi das Cruzes, que estavam sendo ocupados naquela época, também esta missão foi abandonada, em 1919, voltando os Padres aos seus conventos”[91].

O fim da missão em Paranaguá não marcou o fim do sonho. Os contatos com o Núncio continuaram. Foi oferecido a possibilidade de escolha entre Alto Juruá no Acre e a Ilha de Bananal no Estado de Goiás. A Província Fluminis Ianuarii escolheu a missão no Alto Juruá. Mas quando se discutia em Roma a demarcação dos limites da nova Prelazia, os missionários do Divino Espírito Santo, que missionavam no Amazonas e por diversas vezes haviam visitado as regiões do Alto Juruá, pediram esta Prelazia. A Santa Sé acabou concedendo aos Padres Espiritanos a região do Alto Juruá. Após novos contatos, foi oferecida a missão da Ilha Marajó, porém, os carmelitas não a aceitaram. Finalmente chegou-se a um consenso e os carmelitas aceitaram a Prelazia de Paracatu.

A Prelazia de Paracatu, no Estado de Minas Gerais, foi criada em 1 de março de 1929 pela Bula “Pro Munere Sibi Divinitus” do Papa Pio XI. Esta Prelazia foi desmembrada das Dioceses de Uberaba e Montes Claros, ocupando uma superfície de 70.000 quilômetros quadrados. Os limites coincidem com os municípios de Paracatu, João Pinheiro, São Romão e Unaí e a população é aproximadamente 80.000 almas[92]. A Sagrada Congregação Consistorial confiou à Ordem do Carmo a Prelazia Nullius de Paracatu no dia 27 de abril de 1929.

Na Prelazia, e depois Diocese, de Paracatu puderam realizar tudo aquilo que não foi possível realizar em Corumbá. O primeiro prelado e depois bispo de Paracatu foi o carmelita Dom Eliseu van de Weijer[93].

 

 

ABREVIAÇÕES:

AAS = Acta Apostolicae Sedis

AGOC = Arquivo Geral da Ordem do Carmo (Roma)

ASV = Arquivo Secreto Vaticano

 

[1] SMET Joachim, The Carmelites, vol. IV, Carmelite Spiritual Center, Darien 1985, 191.

[2] A Província Carmelita Fluminis Ianuarii (do Rio de Janeiro) foi erigida em 1720. No século XIX, como toda a Vida Religiosa no Brasil, entrou em decadência e quase desapareceu. Em 1894 os carmelitas espanhóis foram encarregados da restauração do Carmelo Brasileiro. Como tinham dificuldades, o Prior Geral Frei Pio Mayer passou para a Província Holandesa a restauração da Província Fluminis Ianuarii em 1904. As províncias da Bahia e Pernambuco continuaram sendo restauradas pelos espanhóis.

[3] Dom Carlos Luiz D’Amour nasceu dia 3 de junho de 1836 em São Luís, MA. Foi ordenado dia 30 de novembro de 1860. Nomeado bispo de Cuiabá em 21 de setembro de 1877 e ordenado dia 28 de abril de 1878 por Dom Joaquim Gonçalves de Azevedo, Arcebispo de São Salvador da Bahia. Com a criação da Arquidiocese de Cuiabá em 10 de março de 1910, Dom Carlos Luiz D’Amour tornou-se se primeiro Arcebispo. Morreu dia 9 de julho de 1921.

[4] Cf. Carta do bispo Dom Cyrillo ao Núncio Aversa – Três Lagoas, 26 de abril de 1914 (ASV, Arch. Nunz. Brasile, Fasc. 713, 134).

[5] Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti nasceu em Pesqueira, PE, dia 17 de janeiro de 1850. Foi bispo em São Paulo, Arcebispo do Rio de Janeiro e o primeiro Cardeal da América Latina. Estudou em Roma e Paris. Foi ordenado sacerdote a 4 de abril de 1874 na Basílica de São João do Latrão em Roma. Ao regressar ao Brasil foi professor e reitor do seminário de Olinda e também pároco em Recife. Foi ordenado bispo em Roma no dia 26 de outubro de 1890, indicado para a diocese de Goiás. Depois foi bispo auxiliar e titular em São Paulo. Em 1897 foi transferido para o Rio de Janeiro como Arcebispo e no dia 11 de dezembro de 1905 foi elevado à condição de cardeal pelo Papa Pio X. Morreu aos 80 anos no Rio de Janeiro dia 18 de abril de 1930.

[6] Dom Giulio Tonti nasceu dia 9 de dezembro de 1844 em Roma. Foi ordenado sacerdote dia 21 de dezembro de 1867. Foi bispo titular de Samos, Delegado Apostólico na Venezuela e bispo titular de Sardes. Em 1º de outubro de 1894 foi nomeado Arcebispo de Porto Príncipe, Haiti. Em 23 de agosto de 1902 foi nomeado Núncio Apostólico no Brasil e em outubro de 1906 foi transferido para Portugal. Em 1910 renunciou ao cargo de Núncio de Portugal. Em 6 de dezembro de 1915 foi elevado à condição de Cardeal e titular da Igreja São Silvestre e São Martinho de Roma, que pertence aos carmelitas. Morreu dia 11 de dezembro de 1918.

[7] Frei Cirilo Thewes foi por duas vezes Vigário Provincial da Província Carmelita do Rio de Janeiro: 1906-1909 e 1916-1922. Foi provincial da 1922 até 1932.

[8] Frei Pio Mayer nasceu em Riedlingen, Alemanha, no ano 1848. Imigrou para os EUA. Entrou no seminário diocesano de Milwaukee e foi ordenado em 1871. Depois ingressou na Ordem do Carmo e tornou-se em 1890 o primeiro provincial da Província Americana. Em 1902 foi eleito Prior Geral da Ordem do Carmo. Em 1906 tornou-se o primeiro Padre Geral carmelita a visitar o Brasil. Devido a uma queda na escada do convento de Nápoles, viu-se obrigado a renunciar ao cargo em 1912. Morreu dia 28 de abril de 1918 em Englewood, New Jersey.

[9] Carta de Frei Cirilo Thewes ao provincial holandês Frei Lamberto Smeets – dezembro de 1906.

[10] Cf. Carta do Procurador Geral Carmelita Frei Humberto Driessen ao provincial holandês Frei Telésforo Kroonen – 23/04/1907.

[11] Carta do Procurador Geral Carmelita Frei Humberto Driessen ao provincial holandês Frei Telésforo Kroonen – 23/04/1907.

[12] Frei Humberto Driessen, nascido em Werth (Holanda) em 1871, entrou na Ordem do Carmo em 1888 e foi ordenado sacerdote no ano 1894. Após o doutorado na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, estudou Direito Canônico. Após um breve tempo de ensino em Nocera Umbra  (Itália), foi prior do Colégio Internacional Santo Alberto de Roma e secretário do Prior Geral Simão Bernardini. Depois foi professor na Holanda. De 26 de novembro de 1903 a 1908 exerceu a função de Procurador Geral da Ordem. Retornando à Holanda, foi entre os anos 1909 e 1919 por três vezes provincial da Província Holandesa e depois regente dos estudos. Nomeado uma segunda vez Procurador Geral da Ordem em 1919, estando no cargo até 1925. Ao mesmo tempo era também regente do estudo geral do Colégio Internacional Santo Alberto. Retornando definitivamente para a Holanda, foi regente dos estudos da Província Holandesa de 1926 a 1942. Foi amigo pessoal do Beato Tito Brandsma. Morreu dia 29 de outubro de 1946.

[13] Carta de Frei Cirilo Thewes ao provincial holandês Frei Telésforo Kroonen – 23/08/1907.

[14] AGOC, II CO, Introiti et esiti Curia.

[15] Resposta do provincial holandês Frei Telésforo Kroonen à carta de Frei Cirilo Thewes, datada 23 de agosto de 1907 (uma cópia está no arquivo de Boxmeer).

[16] Carta de Frei Cirilo Thewes ao Provincial holandês Frei Telésforo Kroonen – 12/01/1908.

[17] Cf. Carta de Frei Gregório Meijer ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Rio, 13 de abril de 1910; Carta do Frei Humberto Driessen ao bispo dom Cyrillo – Corumbá, 5 de maio de 1913.

[18] Os primeiros moradores chegaram em Ladário no ano de 1778. O Arsenal de Marinha de Ladário começou a ser construído em março de 1873. A presença da força naval foi importante para a manutenção da ordem, a preservação da fronteira e povoamento local. Emancipado desde 1953, o município de Ladário possui 1.240 km² e está situado à margem direita do rio Paraguai e seis quilômetros abaixo da cidade de Corumbá.

[19] Aquidauana foi fundada em 15 de agosto de 1892, às margens do rio Moboteteu atual rio Aquidauana. Foi elevada a distrito a 18 de dezembro de 1906 e em 16 de julho de 1918 foi criado o município, desmembrado do de Miranda.

[20] Miranda foi fundada no dia 16 de julho 1778 pelo Capitão João Leme do Prado, quando este lançou os alicerces do Presídio de Nossa Senhora do Carmo do Rio Mondego, atual Rio Miranda. O povoado cresceu vagarosamente. Em 1797 tinha 40 casas de pau a pique e de adobo, todas cobertas de telhas e já estava delineado o traçado da rua principal denominada de Nossa Senhora do Carmo, atualmente rua do Carmo. Dentre as edificações, destacava-se a Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Foi elevada à condição de vila em 30 de maio de 1857, recebendo o nome de Miranda. Para a proteção da vila, o Governo Imperial criou a Colônia Militar de Miranda, provocando assim na vila uma fase de rápido crescimento. Em 31 de dezembro de 1912, foram inaugurados o telégrafo e a estação ferroviária da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, fato que muito concorreu para o seu progresso. A Paróquia Nossa Senhora do Carmo foi erigida em 1835 e atualmente pertence à diocese de Jardim.

[21] Coxim começou por volta do ano de 1729 com a fundação do Arraial de Biliago ou de Coxim. Em 06 de novembro de 1872, o Arraial foi elevado à categoria de Distrito Judicial com o nome de São José de Herculânia, subordinado ao Município de Corumbá. Em 26 de outubro de 1892, pela Lei nº 13, passou a se chamar Coxim. O município foi criado em 1898.

[22] Nioaque (até 1938 a grafia era Nioac) foi fundada em 1848 por Joaquim Francisco Lopes. Tornou-se município em 18 de julho de 1890. A palavra Nioaque tem sua origem na língua Guarani: NHU + AQUE =  “Campo de dormir”.

[23] A origem de Porto Murtinho está ligada à exploração da erva-mate. Em 1874, ervateiros gaúchos iniciaram a exploração dos ervais. Em 1892 a erva-mate, que era levada para a Argentina e Uruguai, passou a ser embarcada num porto, junto ao qual surgiu a povoação de Porto Murtinho. O município foi criado em 1911.

[24] Ponta Porã começou como ponto de parada do transporte de erva mate. Em 1892 recebeu a guarnição militar de Dourados para proteger os carreteiros, que constantemente eram atacados pelos "Guatreros" (paraguaios). O município foi criado em 1912. Ponta Porã, em língua Guarani, significa "Largo Bonito".

[25] Dados colhidos no site: < http://www.corumba.com.br/corumba/cb_historia.htm > (18/05/2007).

[26] Cf. Carta de Dom Cyrillo de Paula Freitas ao Visitador Carmelita Frei Humberto Driessen - Três Lagoas, 24/06/1913 (ASV, Arch. Nunz. Brasile, Fasc. 713, 115 )

[27] AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1908-1912.

[28]Logo após o regresso dos missionários de Corumbá, os Carmelitas quiseram fundar uma nova missão. O Bispo de Curitiba, Dom João Braga, ofereceu-lhes a paróquia de Paranaguá, no Paraná, e porto principal de exportação desse Estado. Em 1915, Frei Canísio Mulderman, Superior, Frei Rafael Wilens - mais tarde substituído por Frei Carmelo Lambooy - e o Irmão leigo Frei Pancrácio Helmich tomaram posse da nova missão. Durante 4 anos trabalharam aí ativamente, abrindo também uma escola primária com grande frequência. Por falta, porém: de novas forças, das poucas vocações religiosas e da necessidade urgente dos conventos de Itu e Mogi das Cruzes, que estavam sendo ocupados naquela época, também esta missão foi abandonada, em 1919, voltando os Padres aos seus conventos” (Revista Mensageiro do Carmelo, Ano 42, Nov.-Dez. 1954, pág. 256).

[29] Datada março de 1907.

[30] Carta de Frei Maurício Lans ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Rio de Janeiro, 25 de abril de 1910.

[31] Cf. Mensageiro do Carmelo, Ano 42, Novembro - Dezembro 1954, pág. 256.

[32] Cara de Frei Paulo Hurkmans o P. Geral, Corumbá, 20/01/09 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1909).

[33] Site da Diocese de Coxim < http://www.diocesedecoxim.com.br/historico.php > (26/05/2007).

[34] Corumbá, 6 de agosto de 1908 - AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1908.

[35] Carta de Frei Canísio ao Procurador Geral Frei Humberto Driessen – Aquidauana, 6/12/1908.

[36] Carta de Frei Canísio ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 25/02/1910.

[37] Carta de Frei Canísio ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 20/09/1910.

[38] Carta de Frei Canísio ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 21/05/1911.

[39] Cartão postal ao Padre Geral Frei Pio Mayer – Corumbá, 22/09/1908 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1908).

[40] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Prior Geral Frei Pio Mayer – Corumbá, 09/01/1912 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1912).

[41] O nº 6 determina: “...cada um de vós tenha sua própria cela separada ...”.

[42] Cf. Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral da Ordem Frei Humberto Driessen – Aquidauana, 6/12/1908.

[43] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 27/10/1909.

[44] Cf. Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral da Ordem Frei Humberto Driessen – Corumbá, 13/05/1908.

[45] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 28/12/1911.

[46] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 25/02/1910.

[47] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral da Ordem Frei Humberto Driessen – Aquidauana, 6/12/1908.

[48] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral da Ordem Frei Humberto Driessen – Corumbá, 13/05/1908.

[49] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral da Ordem Frei Humberto Driessen – Aquidauana, 6/12/1908.

[50] Cf. Carta de Frei Paulo Hurkmans ao Prior Geral Frei Pio Mayer - Corumbá, 6 de agosto de 1908 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1908).

[51] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral Frei Humberto Driessen – Corumbá, 13/05/1908.

[52] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 28/12/1911.

[53]Causa motiva principali est diversas et vehementes rixas inter P. Paulus et me” – Carta de Frei Carmelo Lambooy ao Prior Geral Frei Pio Mayer – Corumbá, 15 de junho de 1908 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1908)

[54] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 27/10/1909.

[55] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 28/12/1911.

[56] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 28/12/1911.

[57] Frei Gregório Meijer nasceu em Hertme (Holanda), aos 26 de abril de 1876. Professou na Ordem do Carmo aos 8 de setembro de 1895. Foi ordenado sacerdote aos 9 de junho de 1900. Exerceu o cargo de Vigário Provincial (1909-1913) e de prior do Convento de Santos. Homem de grande cultura e poliglota. Foi exímio orador sacro. Faleceu em São Paulo, aos 23 de março de 1917.

[58] Carta de Frei Gregório Meijer ao Prior Geral Frei Pio Mayer – Montevidéu, 17 de abril de 1912  (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1912).

[59] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 15/04/1912.

[60]  Carta de Frei Canísio Mulderman ao Prior Geral Frei Pio Mayer – Corumbá, 06 de março de 1912 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1912).

[61] Carta do Visitador Frei Humberto Driessen a Dom Cirilo de Paula Freitas –  Corumbá, 5 de maio de 1913.

[62] Cf. Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 21/05/1911.

[63] Cf. Carta de Frei Gregório Meijer ao Provincial Holandês P. Driessen – Rio, 13 de abril de 1910; Carta do Frei Humberto Driessen ao bispo dom Cyrillo – Corumbá, 5 de maio de 1913.

[64] Carta de Frei Gregório Meijer ao Provincial Holandês P. Driessen – Rio, 13 de abril de 1910.

[65] Carta de Frei Gregório Meijer ao provincial holandês Frei Humberto Driessen - Rio, 13/04/1911. (conferir a data desta carta. eio com a data de 1910, mas não pode ser)

[66] O texto da ASS 2, 290: “10 martii 1910 – In metropolitam evexit sedem episcopalem Cuiabensem (Cuyabá) eique suffraganeas constituit duas novas sedes episcopales S. Aloisii de Cáceres et Corumbensem (Corumbá) in statu Matto Grosso reipublicae Brasilianae”.

[67] Dom Cyrillo de Paula Freitas nasceu em Capelinha da Graça, MG, dia 15 de março de 1860. Foi ordenado sacerdote em 30 de maio de 1885. Sua nomeação como bispo titular de Antipátrida (Antipatris) e coadjutor de Cuiabá, MT, aconteceu dia 27 de março de 1905, mas sua ordenação episcopal só foi realizada no ano seguinte, dia 7 de janeiro de 1906. Em 13 de março de 1911 foi nomeado como 1º bispo de Corumbá, MS. Mas só tomou posse um ano depois, dia 3 de março de 1912. Nos primeiros anos morou em Três Lagoas. Sua resignação foi aceita em 8 de fevereiro de 1918. Faleceu dia 9 de março de 1947.

[68] ASS 3, 134.

[69] Dom Giuseppe Aversa nasceu dia 21 de janeiro de 1862 em Nápoles, Itália. Foi ordenado sacerdote em 1885 com 22 anos e 9 meses de idade. Dia 25 de maio de 1906 foi nomeado bispo de Sardes (Lídia) e Delegado Apostólico de Cuba. Dia 2 de março de 1911 foi nomeado Núncio Apostólico do Brasil, onde permaneceu até ser transferido para a Alemanha em 4 de dezembro de 1916. Morreu dia 12 de abril de 1917 na Alemanha.

[70] Dom Alessando Bavona nasceu dia 11 de maio de 1856 em Rocca di Cambio (Itália). Foi nomeado bispo titular de Farsalo (Grécia) em 14 de julho de 1901. Recebeu a missão de ser Núncio Apostólico do Brasil dia 10 de abril de 1908. Em 1911 foi transferido para a Áustria, onde morreu dia 19 de janeiro de 1912.

[71] Carta do bispo Dom Cyrillo ao Núncio Aversa – Três Lagoas, 26 de abril de 1914 (ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 139).

[72] Carta de dom Cyrillo ao Núncio Bavona - Cuiabá, 13 de dezembro de 1910 (ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 610, 48-49).

[73]Am vergangenen Sonntag, 3 März, habe ich, wie Procurator des Bischofs, in seinem Namen und Auftrag Besitz genommen vom neuen Bistum Corumbá” (No domingo passado, 3 de março, eu, como procurador do bispo, em seu nome e pedido tomei posse do novo bispado de Corumbá) - Carta de Frei Canísio Mulderman ao Prior Geral Frei Pio Mayer, Corumbá, 06/03/1912 (AGOC, II Fluminis Ianuarii, corrispondenza 1912.)

[74] Carta de Dom Cyrillo ao Visitador Frei Humberto Driessen – Três Lagoas, 24 de junho de 1913 (ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 610, 113-117).

[75] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 15/04/1912.

[76] Carta do bispo Dom Cyrillo ao Núncio Aversa – 26 de abril de 1914 (ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 140).

[77] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Procurador Geral Frei Humberto Driessen – Aquidauana, 6/12/1908.

[78] Carta de Frei Canísio Mulderman ao provincial holandês Frei Humberto Driessen - Corumbá, 25 de fevereiro de 1910.

[79] Carta de Frei Canísio Mulderman ao provincial holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 15/04/1912.

[80] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial Holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 05/05/1912.

[81] Carta de Frei Canísio Mulderman ao Provincial holandês Frei Telésforo Kroonen – 08/09/1907.

[82] Carta de Frei Cirilo Thewes ao provincial holandês Frei Telésforo Kroonen - Rio de Janeiro, 12/01/1908.

[83] Carta de Frei Gregório Meijer ao provincial holandês Frei Humberto Driessen - Rio de Janeiro, 13/04/1911.

[84] Carta de Frei Canísio Mulderman ao provincial holandês Frei Humberto Driessen – Corumbá, 21/05/1911.

[85] ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 117.

[86] Cf. Carta do Frei Humberto Driessen ao Núncio G. Aversa – Oss, 21 de outubro de 1913 (ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 119-120).

[87] ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 125.

[88] ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 134-141.

[89] ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 140.

[90] ASV, Arch. Nunz. Brasile Fasc. 713, 126.

[91] Revista Mensageiro do Carmelo, Ano 42, Nov.-Dez. 1954, pág. 256.

[92] Revista Mensageiro do Carmelo, Ano 42, Nov.-Dez. 1954, pág. 257.

[93] Dom Frei Eliseu van de Weijer nasceu em Harderwijk (Holanda) aos 29/12/1880. Fez sua profissão religiosa na Ordem do Carmo dia 02/10/1900. Recebeu a ordenação sacerdotal em 17/07/1905. Chegou no Brasil dezembro de 1907. Foi mestre de noviços, professor, formador e ecônomo da Província. O Papa Pio XI o nomeou Administrador Apostólico da Prelazia de Paracatu. No dia 28 de maio de 1940 foi nomeado Bispo titular da Gor e prelado de Paracatu. Sua ordenação episcopal foi realizada na igreja do Convento de Lapa no Rio de Janeiro, aos 27 de outubro de 1940. Trabalhou durante 33 anos em Paracatu, onde faleceu a 25 de janeiro de 1966.