Carlos Mesters chegou ao Brasil em 1949 como seminarista. Estudou em Roma e em Jerusalém, de 1954 a 1963 e desde então permanece entre nós. Considerado um dos maiores especialistas em Bíblia, um dos grandes biblicistas dos dias de hoje, esse frei holandês, que já publicou inúmeros livros, concedeu esta entrevista ao jovem Patrick, da Pastoral Jovem, para O Precursor.
Patrick. As pessoas normalmente abrem a Bíblia e procuram respostas prontas para o que elas querem provavelmente porque não sabem como ler a Bíblia. O que afinal é a Bíblia e como lê-la?
Carlos Mesters. Numa conversa, duas coisas são importantes: a pessoa com quem você fala e as coisas que ela diz. Para a Bíblia vale a mesma coisa: aquilo que está escrito e a pessoa, Deus, com quem você conversa. Para muitos basta o fato de a Bíblia ser Palavra de Deus. Não olham muito o assunto. Acho que tem que olhar os dois. É Deus quem fala, mas Ele fala de maneira humana. É a Palavra de Deus, mas na nossa linguagem humana. Por exemplo, se eu disser para você: “Patrick, vá tomar banho!”, você não vai tomar banho, porque você entende a nossa linguagem. Mas, se eu disser o mesmo para um alguém que não é brasileiro, ele vai responder: “Não vou não, porque tomei banho agora mesmo”. É que ele não entende a nossa linguagem. Assim também a bíblia tem uma linguagem que necessita você se acostumar um pouco. Tem expressões na Bíblia que podem criar dificuldades para quem não está acostumado com a linguagem dela. Daí a utilidade de algum cursinho de Bíblia, de um pouquinho de estudo, para se poder apreciar e entender melhor aquilo que a Bíblia fala.
Patrick. Na Bíblia, especialmente os Evangelhos, em diversas partes, entram em contradições históricas, vamos dizer assim. E isso confunde um pouco. Qual é a idéia do Evangelho em si? Como o senhor diz em um dos seus livros: ‘as pessoas lêem os Evangelhos como lêem um livro de história’...
Carlos Mesters. Sim. Por exemplo, você não pode tomar ao pé da letra tudo o que as pessoas dizem. Se o namorado diz: “Minha namorada é a moça mais bonita do mundo!”, ele afirma algo que é uma verdade para ele, mas não é verdade de fato. Você não pode tomar ao pé da letra, mas tem uma verdade por detrás disso. Se você tem quatro irmãos e pede para os quatro pintarem o rosto da mãe, vão ser quatro retratos iguais? As diferenças são contradições? Não! Cada um retrata o que vê na pessoa, um é de um jeito, o outro é de outro jeito. Se você compara o Pai Nosso de Lucas com o Pai Nosso de Mateus, você vê que não são iguais. É que uma comunidade o preservou de um jeito, e outra, de outro jeito. Veja as piadas de hoje. Você escuta uma e depois conta para os outros. Você conta igual? Não!, mas conta de acordo com a pessoa com quem você fala. Assim é também a transmissão oral, através da qual surgiram os quatro evangelhos. Por detrás dos Evangelhos, tem uma dupla fidelidade: uma, ser fiel ao que Jesus falou; outra, ser fiel à pessoa para qual eu falo. Se falo para uma criança, eu falo de um jeito, se falo para o prefeito da cidade, falo de outro jeito, mas transmito a mesma coisa. Essas diferenças existem. Não são contradições. A gente deve ver sempre o que está por detrás. Qual é a preocupação que tinha Mateus ou que tinha Lucas ao escrever o evangelho. E aí é importante um pouquinho de estudo para aquelas pessoas que se interessam mais. Outras não fazem esse estudo. Também não é necessário para todo mundo chegar a entender tudo isso. Quando você está na mesa, você faz estudo do sal na hora de comer? Não faz! Você pega o saleiro e coloca o sal na comida. A Palavra de Deus é como o sal que tem que entrar na comida da vida. Deve temperar a vida. Tem gente que estuda o sal, mas esquece de colocá-lo na comida. É importante estudar, mas o que importa mesmo é que seja colocado na comida. As duas coisas são importantes. Não sei se está ficando claro.
Patrick. Está sim... Vamos falar sobre Jesus. Hoje, existem estudos muito científicos sobre Jesus e algumas descobertas não estão de acordo com a própria Bíblia, e já percebemos que a Bíblia não é um livro somente histórico. Mas, então, por que há essa procura tão grande hoje por Jesus e por que Ele é um personagem que conseguiu sobreviver esse tempo todo? O que Ele tem de diferente?
Carlos Mesters. Hoje há muitos estudos sobre Jesus. O mais importante é que ele nos trouxe uma nova experiência, uma nova imagem de Deus como Pai. Em Jesus, ficamos sabendo que Deus é Pai, Ele é o Filho. Isso é o mais importante. Os primeiros cristãos viviam isso. Foi só na medida em que vinham as dificuldades, é que eles começaram a refletir sobre isso e a defender sua fé. Esta experiência de Deus como Pai faz de todos nós irmãos e irmãs. Isso é o básico: amor a Deus é igual a amor ao próximo. Jesus nos revelou esta imagem de Deus. Deus é um Pai que nos ama e acolhe, e não um juiz que nos condena. Por isso, o povo andava atrás de Jesus porque a mensagem dele correspondia ao mais profundo desejo do coração humano. Era uma Boa Notícia, um Evagelho! Quando, nos anos oitenta, Mateus vai escrever para as comunidades de judeus convertidos, ele pensa nos problemas das comunidades e vai lembrando aquelas palavras de Jesus que possam ajudar aquelas comunidades. O mesmo vale para Marcos, Lucas e João. Cada um deles escreve para outro tipo de comunidade. Cada um deles lembra as mesmas palavras de Jesus, mas as relata de um jeito diferente, de acordo com as necessidades das suas comunidades. Assim surgiram as divergências que existem entre os quatro evangelhos. Além isso, no fim do primeiro século, houve grupos dissidentes chamados gnósticos, e outros. Eles também conservavam e transmitiam algumas palavras de Jesus, que agora se encontram nos assim chamados Evangelhos apócrifos. Nem todas palavras de Jesus foram escritos nos quatro Evangelhos. São João diz: “se eu fôssemos escrever tudo que Jesus falou, não bastava livro no mundo para escrever tudo”. Não é que Jesus tenha falado tanto, mas a experiência que eles tinham de Jesus era algo muito extraordinário. É como a gente diz quando escuta uma pessoa amiga: “Posso escutar uma eternidade porque ele não cansa!”. É nesse sentido que não havia livro que bastava para escrever tudo o que Jesus falou. Será que ficou claro?
Patrick. Ficou sim. Leonardo Boff disse certa vez que tão humano quanto Jesus só mesmo Deus. Afinal, o que pensar: é Deus que se torna homem ou o homem que se torna Deus?
Carlos Mesters. O Papa Leão Magno, falecido lá pelo ano 400, tem uma frase que diz assim: “Jesus foi tão humano, mas tão humano, como só Deus pode ser humano”. Frase muito bonita! Às vezes, nós colocamos Jesus lá em cima e esquecemos que Ele é um ser humano igual a nós. É exatamente por ele ser Filho de Deus, que pôde ser tão humano. O mais importante que Deus quer de nós é que a gente seja humano. Ele não te fez ser humano? A primeira tarefa nossa é ser humano e humanizar a vida. E quando a gente humaniza, a gente se diviniza, porque nós nos tornamos como Deus nos quer. Jesus foi tão humano como só Deus pode ser humano. É o grande exemplo para nós. Eu acho isso muito bonito, porque é o centro da nossa Fé: acreditamos que Jesus é Deus e homem ao mesmo tempo.
Patrick. Quando se fala em Ressurreição, e o senhor mesmo escreve isso, a gente a pensa logo como aquele evento que aconteceu lá atrás, ou então projeta-se a Ressurreição para uma coisa futura, mas parece que a Ressurreição mesmo não tem muito sentido. O que realmente é a Ressurreição? Jesus ressuscitou mesmo? Como é que aconteceu isso? O que afinal aconteceu naquele domingo de Páscoa, há dois mil anos, que mudou radicalmente a vida daqueles discípulos e discípulas?
Carlos Mesters. A Fé na Ressurreição não é só crer em algo que aconteceu no passado, e que vai acontecer de novo no futuro, e nós hoje sem nada. A Ressurreição acontece agora: Quando pessoas, a partir da Palavra de Deus, começam a atuar. Quando pessoas, que estão na maior fossa da vida, levantam a cabeça. Quando se diz: “a esperança venceu o medo”, aquela frase que Lula falou. Ressurreição é crer que a vida é mais forte que a morte. E esta Ressurreição continua acontecendo de muitas maneiras. A Ressurreição de Jesus é a prova concreta de que isto é possível: Ele ressuscitou. Como a ressurreição de Jesus aconteceu concretamente? Se você for ler os Evangelhos e for comparando um com outro, nenhum concorda com o outro. Sabe por quê? Vou usar uma comparação: Quando você vai tomar banho na praia num domingo de sol, você tem que provar que o sol existe? Estou perguntando.
Patrick. Não.
Carlos Mesters. Porque você mesmo é uma prova de que o sol existe. Sua pele bronzeada mostra que o sol existe. Assim, os primeiros cristãos viviam dentro da experiência da Ressurreição e não se preocupavam em prová-la ou descrevê-la. Eles mesmos eram a prova. A própria comunidade deles de gente sem condição humana, quase todos escravos, sem medo de enfrentar o poder romano, sem medo das perseguições, dos leões na arena. Eles eram e continuam sendo a prova de que a Ressurreição é uma realidade. Ela está acontecendo hoje na vida de milhares e milhares de pessoas. Vocês aqui, vocês também são uma prova da Ressurreição. Vocês podiam estar tomando banho na praia, e se preocupam com outras coisas. Querem promover a vida. Ressurreição é como o rio Amazonas. Ele nasce aonde? No Peru, no alto dos Andes, onde você umas gotas de água caindo das grotas, formando um pequeno córrego. Se eu digo: “Patrick, este é o rio Amazonas!”, você nem acredita. E quando você vai na embocadura, o que você vê? Um rio de 400 km entrando no mar, provocando uma pororoca que vence até o mar, ou não? A Ressurreição é esta nossa humanidade toda, que sempre de novo levanta a cabeça, enfrenta o mal, busca saídas, condena a guerra, enfrenta o poder que mata, luta pela paz. Jesus é a prova de que isso é verdade. É o poder de Deus. A Fé na Ressurreição é a versão neo-testamentária de que Deus é o criador que consegue tirar vida da própria morte, que tira do nada coisas que ninguém acreditaria ser possíveis. Deu para entender o que é a Ressurreição? É o que está aí no mundo. Temos que tirar o véu e revelar essa Ressurreição palpitante que existe na vida das pessoas hoje, acontecendo no Brasil, na América, Latina, no mundo. Mas este grande rio da vida pode descambar e tomar uma direção errada, como aconteceu depois do cativeiro, em que houve uma Ressurreição muito grande, mas o povo voltou atrás e tudo desandou. Sempre tem que fazer revisão, conversão, e confrontar com a ressurreição de Jesus. Sempre será necessária uma atitude profética para poder corrigir e manter o rumo em direção à Ressurreição final.
Patrick. Os discípulos de Jesus, ao longo do tempo em que andaram com ele pela Palestina, custaram a entender os seus ensinamentos. Às vezes, não entendiam nada. Nós, hoje, também custamos a compreender suas palavras.
Carlos Mesters. Quando a gente lê os Evangelhos, percebe que os discípulos nem sempre entendiam o que Jesus falava. E se você for comparar entre si os quatro evangelhos, perceberá que quem mais insiste nesta incompreensão dos discípulos é Marcos. Sabe por quê? Porque quando ele, no ano setenta, escrevia era este o problema que a comunidade estava enfrentando. Durante a perseguição de Nero do ano 64, várias pessoas tinham abandonado da comunidade com medo de perseguição. Depois que terminaram as perseguições, eles se perguntavam: será que podemos voltar? Na comunidade havia gente que dizia: “Não pode mais voltar não. Rompeu, quebrou o fio, não tem mais conserto”. Outros diziam: “Pode voltar sim!” Marcos escreve para ajudar a comunidade a enfrentar este problema. Por isso, ele conta como os discípulos foram acompanhando Jesus e não entendiam nada, mas Jesus sempre os acolhe. E, no finzinho do Evangelho de Marcos, depois que Pedro negou e Judas traiu, Jesus chega a dizer: “Vão bater no pastor, e as ovelhas fugirão todas! Vocês todos vão fugir, mas depois da Ressurreição, eu vou chamar vocês de novo!” Com outras palavras, através das palavras de Jesus, Marcos está dizendo às comunidades: “Nós, que somos fracos e ignorantes como os discípulos, podemos até romper com Jesus. Jesus, porém, nunca vai romper conosco. Portanto, é possível voltar!”
Patrick: Afinal, é possível, para cada um de nós, principalmente os jovens, hoje, viver a utopia de Jesus?
É possível sim. A gente o vê na vida de tantos! Tanto jovem que hoje dá tudo de si. Aqui é bom lembrar uma coisa muito importante. Há muito jovem que não fala em Jesus, mas vive a justiça, ou não vive? Tem jovem que dá tudo de si pelos outros. Em Porto Alegre aconteceu o Fórum Social Mundial. Havia em torno de cem mil pessoas do mundo inteiro. Alguns deles eram cristãos, muitos jovens, a grande maioria talvez nem fosse cristão, mas todos eles estavam alí porque lutam pela justiça, procuram a paz, querem construir um mundo novo. E Jesus disse: “Felizes os que constroem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”. Jesus não diz: “Felizes os cristãos que constroem a paz”. Diz apenas: “Felizes os que constroem a paz”. Depois diz: “Felizes os que são perseguidos pela justiça”. Não diz: “Felizes os perseguidos que crêem em Jesus”, mas simplesmente “Felizes os que são perseguidos”. E no fim ele diz: “Vinde, benditos do meu Pai, porque vou dar o Reino para vocês”. Tem ainda aquela outra passagem do Juízo final, em que Jesus diz: “Tive fome e você me deu de beber. Tive sede e você me deu de beber” A pessoa respondeu: “Quando foi que vi o Senhor com fome e com sede?”Não estou lembrado!” E jesus responde: Foi aquela vez que você deu de comer e de beber àquele pobre! Era eu!”. Jesus não pergunta se a pessoa teve ou não teve fé. Mas pergunta pela prática do amor ao próximo, da justiça, do engajamento pelo bem do outro. Esta utopia está sendo vivida por muita gente. Vou contar um fato: Um rapaz chamado Jeová, na época da repressão política, foi preso e torturado, e ficou na cela junto com o bispo Marcelo Carvalhera, que agora é arcebispo de João Pessoa, que também foi preso. Ainda não era bispo. Jeová, na prisão, enquanto estava sendo torturado no pau de arara, dizia para os soldados: “É só isso que vocês sabem fazer para descobrir a verdade? Vocês são muito fracos”. Os torturadores, de tanta raiva quebraram os dois braços e uma perna dele. De volta na cela, Marcelo disse para ele assim: “Jeová, por que você fez isso? Eles podiam ter matado você!” Jeová que se dizia marxista ateu, disse: “Marcelo, mas eu acredito nisso. Minha vida teria tido um sentido”. Num domingo, Marcelo teve licençá para celebrar a missa para os presos. Jeová, com a perna e os braços engessados, ficou junto do Marcelo, perto do altar no corredor. Os presos, através das grades, foram fazendo o comentário das leituras da Bíblia. Quando foi na hora da comunhão, Jeová disse assim: “Eu também quero!”. Aí o Marcelo pensou: “Ele se diz ateu. Será que posso dar a comunhão para ele?” Ele fez um raciocínio teológico rápido e lembrou a frase de Jesus: “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão”, e deu a comunhão. Jeová entrou num silêncio muito profundo. Voltaram para a cela e, depois de muito tempo, ele disse assim para Marcelo: “Isso foi muito bom! Precisa repetir isso!” Significa que a Eucaristia o ajudou a descobrir uma motivação mais profunda para aquilo que ele já estava fazendo e vivendo: doar a vida pelos outros. Tem muita gente que vive esta utopia e o Evangelho de Jesus pode ser uma força a mais para continuar nesta luta por um mundo mais humano.
Patrick. Uma pergunta mais científica: existe diferença entre o Jesus histórico e o Jesus da fé?
Carlos Mesters. A gente diz Jesus Cristo. Este é o nome completo. Jesus é o Jesus histórico, e Cristo é o Cristo da Fé. É a mesma pessoa, o mesmo Jesus, que agora está vivo no meio de nós. Na Missa dizemos: “O Senhor esteja convosco”. e o povo responde: “Ele está no meio de nós!”. O Cristo da nossa Fé, no qual acreditamos, está vivo no meio de nós por meio do Espírito Santo que Jesus conquistou para nós através da sua morte e ressurreição. Ele nos ajuda, para que possamos fazer hoje a mesma coisa que Jesus faria se estivesse vivo. Uma comparação. Veja, se eu estou lendo o Evangelho, e estou aqui (senta-se de maneira como se estivesse com o evangelho nas mãos sob os olhos), eu pergunto a você: Jesus está aonde? Está ali ou aqui? (aponta para o Evangelho e em seguida para si mesmo).
Patrick. Está nos dois.
Carlos Mesters. Correto. Agora, imagine um casal, casado há 50 anos. Eles abrem o álbum de fotografia de 50 anos atrás e vão ver fotografias deles mesmos quando eram bem mais jovens. Aí, diante de uma daquelas fotografias, a mulher diz para o marido: “Está vendo? Você se lembra do que eu falei para você naquela vez? Mantenho a mesma palavra até hoje!” Quando nós abrimos os evangelhos, é como abrir o álbum de fotografia da família de Deus de muitos anos atrás. Jesus está do nosso lado olhando conosco para as fotografias dele quando ainda vivia no meio de nós. É como se dissesse: “Aquilo que eu disse naquela ocaisião eu o mantenho até hoje para você!” Ele não é alguém do passado. É alguém do qual os Evangelhos nos trazem as palavras que Ele hoje diz para nós. Estas palavras se atualizam na comunidade, quando a gente se reúne, discutindo juntos, ligando as palavras de Jesus com a realidade que nós vivemos.
Patrick. Quais são os valores que devem guiar a vida do jovem, em geral, nos dias de hoje?
Carlos Mesters. Acho que tem que ter ideal na vida. Ter um ideal. Procurar ser gente. Preocupar-se com os outros. Poder ser ele mesmo. Ter um ideal que o faça ultrapassar-se a si mesmo. Porque o ou a jovem é capaz de viver grande sacrifício. E se você dá um ideal pequeno, ele diz: “Não vale a pena!” Então coloque um ideal grande para ele. A juventude é capaz de tudo. Os jovens estão buscando valores. Não estão mais gostando desta sociedade que está aí. Querem algo que os encha de sentido, que dê sentido à vida. Acho que é por isso que muitos entram nas drogas, porque, no fundo, não conseguem encontrar um sentido para a vida que estão vivendo. Acho que vocês, os jovens, devem ser portadores de um testemunho para os outros. O que mais anima as pessoas é uma comunidade viva, aonde você entra e sente: “A é bom!”. É não se fechar sobre si mesmo e sobre seu próprio pequeno mundo e sobre seus próprios problemas, mas ter sempre presente a vida e os problemas dos outros. Como Lula que foi a Davos na Europa, e onde todo mundo falava em dinheiro. Ele chegou lá e disse: “Estou pensando é no estômago das pessoas, na fome de milhões de seres humanos, irmãos e irmãs nossas”. Esta preocupação com os problemas humanos, pequenos e grandes, é muito importante. Mas acho que vocês sabem responder melhor do que eu a essa pergunta.
Patrick. Aquela menina que matou os pais no ano passado (em 2002), ela diz que fez aquilo por amor. Inclusive, a capa da revista Época, eu acho, dizia ‘Matei por amor’. E Jesus prega, basicamente, o tempo todo, o amor. Qual o sentido exato dessa palavra amor?
Carlos Mesters. (cantando) “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão”. Este é o ideal do amor, mas levou muito tempo para o povo de Deus chegar à descoberta deste ideal. Eles passaram por três fases. Durante a primeira fase, lá no Antigo Testamento, já diziam: “Você deve amar o próximo como a si mesmo”. Muito entendiam a palavra “próximo”, como sendo aquelas pessoas que já fazem parte da própria família, do povo ou da raça. O amor ainda estava fechado dentro do pequeno mundo da família, da raça. Na segunda fase, entrando já no Novo Testamento, começaram a discutir: “Quem é o próximo?”, pois alguns diziam: “Só devo amar o próximo, os outros não!” Perguntaram a Jesus: “O que o senhor acha: quem é o próximo?” Na resposta, Jesus inverte tudo. Ele conta a parábola do Bom Samaritano: Um homem saiu de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de ladrões etc. Aí passou um sacerdote, passou um levita, os dois viram o homem caído à beira da estrada, mas não fizeram nada. Muito provavelmente devem ter pensado: Este fulano não está na categoria de “próximo”. Estou perdendo tempo se eu ajudar. Aí passa um samaritano, quer dizer, a pessoa mais odiada pelos judeus praticantes. Ele vê o assaltado, pára, desce do animal, cuida das feridas, leva o homem para a hospedaria, ele passa a noite com ele, paga, e ainda diz ao dono da hospedaria: “Cuida dele, e se gastar mais, na volta eu te pago”. Aí Jesus pergunta: “Quem foi o próximo desse fulano?” Conclusão: não devo perguntar: “Quem é o meu próximo?”, mas devo fazer-me próximo do outro. O próximo pode ser qualquer um, não só a pessoa da raça. Qualquer ser humano que cruza o meu caminho é próximo. Nesta segunda frase alargaram o conceito de próximo até incluir todo ser humano. Mas tem a terceira fase, em que Jesus diz: “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado!” Ou como diz o cântico nosso: “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão”. O critério do amor é chegar a amar os outros como Jesus nos amou, esquecendo-se de si mesmo, doando-se totalmente para fazer crescer o outro. Este é o ideal o significado que Jesus dá ao amor. Acho que este é também o desejo mais profundo do coração humano. Muitas vezes, porém, a propaganda da televisão, as novelas, comunicam um sentido distorcido do amor: amar aquilo que é bom e gostoso para mim. Não digo que isto não seja importante, mas o objetivo do amor é aquele de a pessoa chegar a uma doação total de si em benefício do irmão ou da irmã. Quando a gente inverte as coisas, aí pode perverter o significado da palavra amor. E aí chegam a chamar um ato de amor aquilo que, às vezes, na realidade, não passa de puro egoísmo. Não tenho coragem de julgar a menina, não tenho coragem não. Mas todos levamos susto quando soubemos da notícia e dentro de todos nós acordou uma suspeita: deve haver algo de errado na nossa sociedade. Como aquele rapaz do interior de São Paulo que pegou o revólver e foi atirando nas pessoas. O mesmo já aconteceu várias vezes na América do Norte. E na Dinamarca, o país mais desenvolvido, o suicídio entre jovens é o mais freqüente. É porque perderam o sentido da vida e do amor!
Patrick. Você acha que é essa a causa da violência entre os jovens?
Carlos Mesters. Não é só isso não. Tem muitas outras causas: doenças, drogas, falta de perspectiva, falta de emprego, dificuldade de convivência, pobreza, transporte coletivo. Por exemplo, o pai de família sai de casa às cinco da manhã, não vê os filhos, chega em casa à noite, às oito horas, os filhos já estão dormindo. A semana toda. No fim de semana, tem que fazer um bico para completar o orçamento da casa. No fim, o fulano estoura. Tudo isso é uma fonte de violência. Esse conjunto todo da sociedade. Acho que nós cristãos temos uma tarefa muito importante para humanizar a vida. Humanizar. Não divinizar. Porque na medida em que a vida se humaniza, ela se diviniza, chega mais perto de Deus.
Patrick. A humanidade é pré-requisito para a divindade?
Carlos Mesters. Sim, porque nós fomos feitos para sermos humanos. Uma árvore tem que ser uma árvore. Se uma árvore inventa de ser bicho, não seria o que deve ser. Árvore é árvore, e gente é gente. Às vezes, pergunto: “O que vocês mais desejam na vida?” Muitas vezes recebi como resposta: “Ah, eu quero ser tratado como gente!”. Ser tratado como gente. Foi o que Jesus mais fez com os pobres. Ele acolhia todo mundo, sobretudo os pobres que eram desprezados e marginalizados. Ele dava lugar aos que não tinham lugar. No tempo de Jesus, muita gente era excluída da comunidade por motivos religiosos. A pessoa que tivesse uma mancha no corpo, os estrangeiros, os leprosos, as pecadores, os doentes, muitas mulheres e criançás, não podiam participar das reuniões da comunidade. Eram excluídas em nome de Deus. Tinham de purificar-se primeiro. E Jesus, o que faz? Acolhe a prostituta, o leproso, o endemoniado, as crianças, as mulheres, os impuros. Esse povo todo se sente acolhido por Ele. Dá para entender porque Jesus foi morto, porque incomodou profundamente os poderosos da época que queriam manter o regime da excclusão social e religiosa.
Patrick. Quando Jesus acolhe, Ele liberta?
Carlos Mesters. Sim! Por exemplo, os apóstolos vão com Jesus. Fazem comunidade com ele. Jesus era uma pessoa livre, liberta e libertadora. Diz o evangelho que, certa vez, eles andavam pelos campos, estavam com fome e começám a arrancar as espigas para matar a fome. Se não fosse por Jesus, não teriam tido coragem. Quanto às leis contrárias à vida, Jesus disse assim: “O ser humano não foi feito para o sábado, mas o sábado foi feito para o ser humano”. Este é o critério de Jesus. E o povo vibrava. Jesus deve ter sido uma simpatia ambulante.





