QUEM QUER MORRER COMO FREI BENTO?  EU QUERO.  

Frei Felisberto, O. Carm

 

É o que quase todos que conviveram com Frei Bento e acompanharam seus últimos passos  dizem e pedem a Deus.

Frei Bento é um dos poucos que podem se vangloriar da vida que viveu. Alcançou os 95 anos, passando da contagem de vida do salmista que chegou somente aos oitenta. A vida dos justos está nas mãos de Deus. E a de Frei Bento, enquanto posso, eu garanto que está.  

Nascido em Zwammerdam no dia 21 de maio de 1914, três anos mais velho que seu irmão frei Ricardo, carmelita, professou  em 17/01/1935,  foi  ordenado sacerdote  08/  12/1935.   

Vivendo em plena consciência até seus 95 anos bem vividos, venceu todas as dificuldades da vida, inclusive um câncer de mama o que o levou a extirpar um músculo do peito. Como um astro que se levanta, chega ao seu périplo e declina, assim foi frei Bento. Viveu bem, morreu melhor ainda. Deixando inveja.   

Bem cedo sentiu-se chamado para o sacerdócio, dada a formação religiosa familiar e o clima de Igreja em que vivia na Holanda  de sua infânciaolanda Holanda . Iniciou sua caminhada no seminário diocesano de sua terra.  Como seu irmão Frei Ricardo entrou para o seminário de Zenderen, carmelita, ele decidiu ser carmelita também. Como havia oportunidade de vir para o Brasil, ele se candidatou e veio. Posteriormente foi seu irmão frei Ricardo  que o imitou, vindo igualmente para o Brasil. São Irmãos de sangue e de fé , de vocação e  missão.  

 

SUA VIDA  

Frei Bento teve vida de simplicidade e trabalho diuturno na simplicidade de  sua vida. Trabalhou em Angra dos Reis, Vicente de Carvalho, São Paulo, Rio de Janeiro no convento da Lapa, onde terminou seus dias de vida com uma memória e lucidez que causa inveja até para Matusalém, que viveu novecentos e sessenta e nove anos e depois morreu ,como diz o livro do Gênesis.  

 

CARACTERÍSTICAS DA VIDA DE FREI BENTO CASPERS  

Personalidade sensível e receptiva, caráter piedoso e com muitas aptidões para as potências amatórias do espírito humano. Amante da oração aspirativa e da simplicidade... Religiosamente seguia os horários de oração, refeição e compromissos. Mesmo idoso e enfraquecido não dispensava a missa diária e quando ajoelhava diante do altar fazia questão de tocar com o joelho o chão. A fraqueza dos joelhos não o comprometia diante do respeito ao altar. 

Seu quarto era cheio de plantas e pássaros. Perguntado por que carregava consigo estas plantas ele dizia as plantas nos levam a Deus. A música o atraia também. Quando Frei Nuno morreu ele veio com humildade pedir as fitas cassetes para ouvir. Assim aumentou sua reserva musical. Certa vez alguém entrou em seu quarto durante o dia. Ele estava deitado em posição de relaxamento ouvindo música e rezando já em outra dimensão. 

Frei Bento foi uma pessoa sempre satisfeita e descontraída. Sua alegria consistia em se relacionar bem com todos,  em rezar a liturgia das Horas, a Imitação de Cristo, ler o Jornal, mesmo por meio de uma lupa, e sabia as notícias do dia tanto da religião como da política. Seu hobby era transformar o pão em pedaços pequenos para as pombinhas que vinham de manhã e à tarde ao seu quarto para  se alimentar.  O canário, que sempre o acompanhava, tinha uma relação de amizade com ele que o alegrava com seu canto contínuo.  

 

FATOS IMPORTANTES DA VIDA DE FREI BENTO  

Quando frei Clementino ficou pároco em Angra tirou dele a catequese. Frei Bento pediu ao Provincial da época que queria ter a pastoral que sempre gostou: a catequese.  Que eu fique pelo menos com uma turma de crianças de Primeira Eucaristia, suplicou.  

Como sempre trabalhou com os morros de Angra, ali manteve uma relação de amizade. Como frei Alonso intensificou a construção de capelas nos morros, ele gostava que o convidasse para a missa de inauguração. E o povo aplaudia a sua presença. Exclamando: Frei Bento veio nos visitar!  Que surpresa agradável! Frei Bento aqui conosco!

Desde criança aprendeu com seu pai a cuidar dos selos. Sua coleção é uma vida. São uns trinta álbuns que tem um valor razoável. Tudo será encaminhado para o arquivo provincial em S. Paulo, o acervo  carmelitano. Todos seus grandes amigos lhe enviavam selos novos ou usados. A coleção mundial de selos marianos causa admiração e espanto pela beleza e grandiosidade.

   

SUA MORTE SERENA.   

A natureza avisa quando já está chegando a hora de passar o bastão para os mais novos. Frei Bento, ultimamente, pressentiu que seu fim poderia estar próximo, embora ele nunca falasse sobre a morte. Esta viria, como de fato veio, na hora certa, do jeito certo, para a pessoa certa. Nos últimos meses  frei Bento sentiu muita necessidade de ir mais vezes a Angra  para visitar  a família Afonso, onde ele passava seus dias de descanso da  barulhenta Lapa do Rio. Hospedava-se com eles que o tratavam como filho e ele chamava a esposa do Sr. Afonso de mãe.  Aconteceu de ir e voltar até mesmo no mesmo dia. Sempre para visitar amigos. Assim aconteceu no dia de sua morte. Foi visitar uma amiga em V. de Carvalho.  

Foi visitando amigos que ele morreu. 

Ao voltar para casa sentiu uma dor nas costas e mal-estar. Frei Evaldo se oferece para celebrar em seu lugar, ele aceitou. Isto não aconteceria antes se a saúde o permitisse.   Na hora exata, seis da tarde, do dia de sexta feira, véspera da Assunção,  assentado em seu lugar onde sempre agradecia a Deus com sua impecável  oração ``Nos cum prole pia, benedicat Virgo Maria,`` ele sentindo-se  mal, teria dito : a dor não  é  importante, o importante é que seja feita a vontade de Deus. Desfalecendo-se, foi levado ao Hospital Espanhol,  perto do convento, onde foi  a óbito.  

Morreu na véspera da Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem, Assunção da Virgem Maria. Fez a Boa Viagem para o Céu com Maria sua mãezinha, como ele a tratava.

Seu sepultamente foi realizado no domingo pela manhã devido a profissão solene dos 3 frades em Belo Horizonte , no sábado à noite. Na missa de exéquias estiveram presentes os confrades, Dom Vital, acompanhado da Sra. Isa, leiga consagrada, que vive no eremitério, Frei Martinho Cortez, Frei Valter de Vicente  de Carvalho, Frei Evaldo, Frei Alonso, Frei Reinaldo, Frei Carlos Mester  e Frei  Felisberto. Foram enumerados os passos de luz que Frei Bento deixou após si: simplicidade, humildade, amabilidade, amor e misericórdia para com os necessitados com quem repartia sua aposentadoria, espírito de oração, alma de criança, gentileza e  preocupação pela  província.  

O dia do seu sepultamento teve uma manhã linda com sol ameno e o povo correu para as praias para comemorar a vida. Parecia o dia feliz da criação ou um pedaço do Céu na terra.. ``E Deus viu tudo era bom``  O cemitério São João Batista, onde a  nossa  província  tem um túmulo com várias campas, também estava alegre. Pessoas amigas de Angra dos Reis trouxeram  muitas rosas colombianas em seus botões  enormes, brancos, trazidos da festa de Nossa Senhora da Lapa, acontecida em Angra no dia anterior. No momento foi o único sepultamento.  Nada de tristeza, nada de pesar, pois todos sabiam que um dia iriam morrer, mas somente esperavam que a morte de cada um fosse como a do Frei Bento. Quase como a de um passarinho, um inclinar da cabeça e já se está em outro domicílio e revestido com um corpo espiritual que não nos será tirado.  Como o túmulo dos Carmelitas já tem 5 confrades, agora em caminho para virem para  o convento de São Paulo, todos tiveram que sair do lugar onde estavam para deixar Frei Bento entrar. Parecia que a antiga comunidade da Lapa, reunida por tantos anos,  acolhia o irmão numa Procissão do Encontro.  

Feitas as orações finais o corpo de frei Bento desceu ao túmulo. Entoado o cântico oficial da esperança cristã: Com minha mãe estarei, ``os presentes se retiraram lançando rosas dentro do túmulo e logo se deparando com um frase em latim, bem no portal de saída.  ´´in hoc loco habitamus´´ È aqui que nós  habitamos agora..  

Frei Bento soube viver, soube ser homem de oração, soube obedecer, soube descobrir o seu modo de ser carmelita, soube até escolher o dia de sua morte: o dia de Nossa Senhora da Boa Viagem. Que estes seus passos refletidos nas pessoas que viveram com ele, mostrem bem claramente o que Santa Teresinha experimentou: ``O Carmelo é lindo para se viver, o Carmelo é ótimo para se morrer.``  

``A vida para quem acredita não é passageira ilusão e a morte se torna bendita, pois é nossa libertação.``  Música da Missa da Esperança.  

´´Em verdade, em verdade, eu vos digo, vem a hora, e já chegou, em que  os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e os que a ouvirem viverão.  Jo. 5 ,25   

Quem quer morrer como Frei Bento? Nós queremos. Então preparemos-nos.  

A frase que Frei Bento mais repetia ao celebrar seu último aniversário foi sempre a mesma :

``Quero cantar eternamente a misericórdia do Senhor. Deus foi muito bom para comigo, por isso, convido você para erguer comigo o cálice da salvação e agradecer a Deus.”  

Não foi difícil escolher a foto para sua missa de Sétimo Dia. Deveria ser  aquela que o mostrasse em  meio às lindas  orquídeas. Ele tinha que ser uma delas. A foto o mostra assim. E a frase tinha que ser a dele mesmo: Deus foi muito bom para comigo. Só me resta agradecer levantando o cálice da Salvação e invocando o nome do Senhor (Frei Bento Caspers.)   

QUE NOSSO IRMÃO FREI BENTO CASPER DESCANSE EM PAZ. AMÉM.