Provocações de São João Batista

 

Dom Alberto Taveira Corrêa 

Arcebispo de Belém do Pará (PA)

Durante o Tempo do Advento a Igreja nos oferece três companhias preciosas. É um período em que se lê muito o Profeta Isaías, por sinal um livro que pode ser conhecido integralmente com muito proveito, nesta quadra do ano litúrgico. Depois, a grande figura de São João Batista, a quem foi dado preparar os caminhos mais próximos da manifestação do Messias. João abriu estradas para o Jesus adulto, no início de seu ministério público. Depois, diante da Luz verdadeira que vem a este mundo, foi desaparecendo, até perder a cabeça, sendo imolado por causa da verdade! Mais ainda, irrompe a figura da Virgem Maria, que vai ocupar o espaço litúrgico e de nossa oração, de modo especial na última semana antes do Natal. Como gostamos de insistir, Jesus virá nos últimos tempos que nos fazem clamar “Vinde, Senhor Jesus” em todas as Missas, ele vem em nosso dia a dia nas múltiplas manifestações com que nos brinda, e ele veio, nascido em Belém de Judá, cujo memorial celebramos no Tempo do Natal!  

Para iluminar nossa vivência do Advento, é oportuno notar que quando irrompe diante de nossos olhos uma novidade, surgem com ela as interrogações e provocações a uma reação. Pensemos nas guerras de nossos dias, as convulsões políticas que acompanhamos recentemente e nossa violência ou as escandalosas desigualdades sociais que assistimos. Também os fatos mais corriqueiros, positivos ou negativos, podem ser compreendidos como sinais que pedem nossa resposta, tanto que um mínimo de consciência pessoal e social causa indignação quando se espalha a indiferença e a insensibilidade. Passar pela rua e ver um acidente de trânsito suscita curiosidade, dela se vai à pergunta sobre as causas, verifica-se a ocorrência de ajuda às pessoas envolvidas, provoca-se a coragem de parar e perguntar se se pode fazer algo. É um processo que pode durar segundos ou horas, mas faz parte de nossa humanidade desejar envolver-nos e participar, responder com gestos concretos aos fatos que nos cercam. 

Diante do fato mais significativo de toda a história, o mistério do Verbo de Deus encarnado, em torno do qual gira o tempo, não é possível ficar indiferentes. Ao preparar a estrada do mundo e dos corações para a manifestação de Jesus Cristo, seu precursor João Batista (cf. Lc 3,10-18) suscitou na multidão a pergunta que muda a vida: “Que devemos fazer?” Nos tempos que correm, quando a humanidade deve, de novo, dar as boas-vindas ao Menino de Belém de Judá, nosso Senhor Jesus Cristo, Redentor da humanidade, repete-se a mesma interrogação. Das respostas dadas por João Batista, colhemos indicações precisas e atuais. 

Prepara-se a vinda de Jesus e se estabelece o clima para com ele conviver, quando quem “tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!” Existem no mundo recursos para uma vida digna de todos os seus habitantes. A natureza pode oferecer o necessário para alimentar sua população. São conceitos de uma “demografia” diferente, que parte da partilha e da comunhão, semelhante à coleta feita por São Paulo: “De fato, quando existe a boa vontade, ela é bem aceita com aquilo que se tem; não se exige o que não se tem. Não se trata de vos pôr em aperto para aliviar os outros. O que se deseja é que haja igualdade: que, nas atuais circunstâncias, a vossa fartura supra a penúria deles e, por outro lado, o que eles têm em abundância complete o que acaso vos falte. Assim, haverá igualdade, como está escrito: Quem recolheu muito não teve de sobra, e quem recolheu pouco não teve falta” (2 Cor 8,12-15). Fala-se tanto de uma crise mundial, e não poucos alertam para sua possível chegada às nossas plagas, e chegará mesmo, porque a era do individualismo, da ganância e do consumo descontrolado veio na frente. Independente das eventuais crises, realiza-se como pessoa humana quem se lança na aventura da partilha e da comunhão! Não fique sem reação o apelo constante do Papa Francisco por uma mudança de mentalidade e de prática na administração dos bens das pessoas, dos governos e dos povos! 

E a palavra de João Batista se torna atual também em outras circunstâncias: 

“Produzi frutos que mostrem vossa conversão, e não comeceis a dizer a vós mesmos: ‘Nosso pai é Abraão!’, pois eu vos digo: Deus pode das pedras suscitar filhos para Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores. Toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo.” Conversão significa mudar de rota, escolher caminhos novos! Como acontece com organizações da sociedade que no final do ano avaliam suas atividades, mais motivos temos nós, pela ação do Espírito Santo, para fazer um corajoso exame de consciência e projetar os nossos passos de crescimento na vida cristã, contando também com as graças do Jubileu da Esperança, que se aproxima. 

Como “até alguns publicanos foram para o batismo e perguntaram: ‘Mestre, que devemos fazer?’, João respondeu: ‘Não cobreis nada mais do que foi estabelecido.’” Se existe um mal a ser corrigido em nosso tempo, como em quase toda a história da humanidade, é a corrupção e o uso indevido das verbas públicas! Não é segredo para ninguém saber da quantidade de dinheiro que escapa pelo ralo em nosso tempo, e como até figuras de proa por este país afora encontram formas para receber propinas! E, por falar em dinheiro, podemos voltar ao assunto da partilha do pão, para observar o que se publica frequentemente sobre o desperdício de alimentos, dando conta que já seria suficiente para resolver o problema da fome a reversão de tal tendência!  

Extremamente atual a recomendação de João, quando “alguns soldados também lhe perguntaram: ‘E nós, que devemos fazer?’ João respondeu: ‘Não maltrateis a ninguém; não façais denúncias falsas e contentai-vos com o vosso soldo’”. Parece um trecho de noticiário de nossos dias! Conversão é coisa para todos e para todas as profissões e os diversos estados de vida! 

Renovamos a proposta já apresentada neste Advento de uma arrumação geral da casa de nossa vida, nossas Comunidades, nossas Paróquias e de toda a Igreja, para clamarmos com autenticidade: “Vinde, Senhor Jesus!” Fonte: https://www.cnbb.org.br

Como e onde encontrar a alegria?

 

Dom Severino Clasen

Arcebispo de Maringá (PR)

Já ouvimos comentários sobre a sociedade do cansaço. Somos construtores de uma sociedade desvirtuada da essência da vida e partimos para a produção na ilusão de que o quanto mais se tem mais se realiza na vida. Cansamos e não vivemos. O modo do trabalho de hoje está mal conduzido, pois, trabalhamos muito e pouco sobra. Nos estressamos e perdemos a alegria de viver. O trabalho, quando se torna fonte de justiça, equilibramos as relações e descobrimos a beleza do trabalho como dom, criatividade, alegria, sustentação, harmonia na vida.

O povo hebreu ao sair do exílio, exulta de alegria e canta as maravilhas da presença do Senhor que os libertou da escravidão: “Naquele dia, se dirá a Jerusalém: Não temas, Sião, não te deixes levar pelo desânimo! O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, o valente guerreiro que te salva; ele exultará de alegria por ti, movido por amor; exultará por ti, entre louvores, como nos dias de festa” (Sf 3,16-18). O caminho para encontrar a alegria é o amor e a justiça. A presença do Senhor sustenta e confirma o amor entre nós humanos. O Apóstolo Paulo exorta: “Alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos” (Fl 4,4). Destacamos que a presença de Deus na vida é o caminho que equilibra as relações, justifica o acesso ao s bens necessários para educar em harmonia, fomentar a fraternidade e a solidariedade.

Estamos no Domingo da Alegria. A Palavra de Deus nos prepara para a vinda do Senhor. A preparação deve ser concreta e fiel. Voltar ao Senhor, escutar o que o Espírito nos diz e agir conforme a sua inspiração. É preciso dar tempo para que não caiamos no estresse da vida material, sobrepondo a dignidade humana. O que lucramos excessivamente perdemos no resgate da saúde mental, física e espiritual. Tempo de preparação para o Natal deve ser tempo de crescimento espiritual e resolver as relações humanas machucadas, sofridas, desgastadas.

O que devemos fazer? João Batista respondeu: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!… Não cobreis mais do que foi estabelecido.” Havia soldados que também perguntaram o que devemos fazer; ele lhes respondeu: “Não tomeis à força dinheiro de ninguém, nem façais falsas acusações; ficai satisfeitos com o vosso salário!” (Lc 3,10-18). A voz de João Batista deve ser ouvida neste Tempo do Advento, porque manda preparar os caminhos do Senhor. Eis o tempo da justiça, da verdade, da fraternidade, da mística do encontro. É lamentável que trocamos o tempo bonito do encontro da oração, da reflexão natalina e ficamos trancados, sufocados nas horas extras impedindo a pa rticipação da mística do encontro nos grupos de reflexão, da oração, da meditação para aliviar os sufocos das contas acumuladas. Nos estraçalhamos na sociedade do cansaço porque não temos mais tempo para a vida, para o Senhor que nos conforta, nos alivia e nos conduz para a dignidade humana.

Que saibamos nos organizar neste Tempo do Advento quando nos preparamos para receber o Menino Jesus em nossas famílias, em nossa vida e na comunidade com mais espiritualidade, liberdade, leveza e encanto. Que não desviemos o verdadeiro sentido do Natal nas trocas estressantes das coisas e perdemos a oportunidade de crescer na fé e na justiça.

Que as portas do Ano Jubilar, Peregrinos de Esperança se abram e nos faça caminhar ao encontro do Senhor que nos liberta de todo o cansaço e escassez na vida e busquemos o Senhor que se deixa encontrar. É isso que devemos fazer. Eis a verdadeira alegria. Fonte: https://www.cnbb.org.br

 

1) Oração

Ó Deus, que manifestastes o vosso Salvador até os confins da terra, dai-nos esperar com alegria a glória do seu natal. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

 

2) Leitura do Evangelho (Mateus 18,12-14)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:12Que vos parece? Um homem possui cem ovelhas: uma delas se desgarra. Não deixa ele as noventa e nove na montanha, para ir buscar aquela que se desgarrou? 13E se a encontra, sente mais júbilo do que pelas noventa e nove que não se desgarraram. 14Assim é a vontade de vosso Pai celeste, que não se perca um só destes pequeninos. - Palavra da salvação.

 

3) Reflexão

 Uma parábola não é um ensinamento a ser recebido passivamente e a ser decorado de memória, mas é um convite para participar na descoberta da verdade. Jesus começa perguntando: “O que vocês acham?” Uma parábola é uma pergunta com resposta não definida. A resposta vai depender da nossa reação e participação como ouvintes. Então, vamos buscar a resposta desta parábola da ovelha perdida.

Jesus conta uma história muito breve e muito simples: um pastor tem 100 ovelhas, perde uma, deixa as 99 nas montanhas e vai em busca da ovelha perdida. E Jesus pergunta: “O que vocês acham?” Ou seja: “Vocês fariam o mesmo?” Qual terá sido a resposta dos pastores e das outras pessoas que ouviram Jesus contar esta história? Fariam a mesma coisa? Qual a minha resposta à pergunta de Jesus? Pense bem antes de responder.

Se você tivesse 100 ovelhas e perdesse uma, o que faria? Não esqueça de que as montanhas são lugares de difícil acesso, cheios precipícios, onde rondam animais perigosos e onde ladrões e assaltantes se escondem. E lembre-se que você perdeu apenas uma única ovelha. Você continua na posse de 99 ovelhas. Perdeu pouco! Você iria abandonar as 99 naquelas montanhas? Será que uma pessoa com um pouco de bom senso faria o que fez o pastor da parábola de Jesus? Pense bem!

Os pastores que escutaram a história de Jesus, devem ter pensado e comentado: “Só um pastor sem juízo age desse jeito!” Eles devem ter perguntado a Jesus: “Jesus, desculpe, mas quem é esse pastor de que o senhor está falando? Fazer o que ele fez é uma loucura total!”

Jesus responde: “Esse pastor é Deus, nosso Pai, e a ovelha perdida é você!” Com outras palavras, esta loucura, quem a comete é Deus por causa do seu grande amor para com os pequenos, os pobres, os excluídos! Só mesmo um amor muito grande é capaz de cometer uma loucura assim. O amor com que Deus nos ama é maior que a prudência e o bom senso humano. O amor de Deus comete loucuras. Graças a Deus! Senão fosse assim, estaríamos perdidos!

 

4) Para um confronto pessoal

 1) Coloque-se na pele da ovelha perdida e anime a sua fé e sua esperança. Você é essa ovelha!

2) Coloque-se na pele do pastor e verifique se o seu amor para com os pequenos é verdadeiro.

 

5) Oração final

Cantai ao Senhor um cântico novo, cantai ao Senhor, terra inteira. Cantai ao Senhor, bendizei o seu nome, anunciai dia após dia a sua salvação. (Sl 95, 1-2)

O que as disputas sucessórias na Lagoinha e na Bola de Neve nos ensinam sobre a fé como negócio?

 

Culto na Igreja Batista da Lagoinha, em São Paulo, logo após a pandemia de Covid-19 - Zanone Fraissat - 18.abr.21/Folhapress

 

Juliano Spyer

Antropólogo, autor de "Povo de Deus" (Geração 2020), criador do Observatório Evangélico e sócio da consultoria Nosotros

 

Duas igrejas evangélicas famosas enfrentam escândalos públicos. Na Batista da Lagoinha, do clã Valadão, a disputa entre irmãos levou ao vazamento de áudios e trocas de indiretas no púlpito. Na Bola de Neve, durante o velório do fundador, pastores tentaram enganar a ex-esposa e herdeira para que abdicasse da presidência.

Além do ti-ti-ti sobre o mau exemplo dessas lideranças gospel, as disputas sucessórias nos convidam a examinar o fenômeno das "igrejas com dono". Como elas surgem? Como se diferenciam de outras comunidades de fé? E por que isso importa até para quem não é evangélico?

Mesmo entre cristãos, a ideia de igreja como negócio é vista com desconfiança e evoca imediatamente a Universal, do bispo Macedo. Mas o tema é mais interessante e complexo e não se limita às organizações que pregam a teologia da prosperidade ou operam como multinacionais.

Esse fenômeno tem se tornado mais comum até em igrejas tradicionais. Ele ocorre, por exemplo, em Assembleias de Deus, quando líderes como o pastor José Wellington ou o bispo Manoel Ferreira transferem a liderança de seus respectivos ministérios para os filhos. O mesmo se observa em igrejas históricas, como a Primeira Igreja Batista de Curitiba, comandada pela família Piragine.

A transição de uma entidade civil para uma organização de caráter proprietário é, em muitos casos, um processo orgânico.

O caso da Batista da Lagoinha é exemplar. O pastor Márcio Valadão não fundou a igreja, que durante décadas funcionou como uma congregação histórica ligada à Convenção Batista Brasileira, muito diferente da versão atual, com estética de "parede preta".

Como líder carismático, o pastor Márcio fez a igreja crescer por várias décadas. Esse longo envolvimento gera apego entre o líder e a comunidade de fé, que prefere a segurança de manter aquela família no comando a substituí-la por alguém novo. Ao mesmo tempo, o sucesso da igreja reflete-se no aumento de seu patrimônio, especialmente em infraestrutura.

O crescimento acelerado do número de evangélicos no Brasil não teria ocorrido sem a existência das igrejas com dono. Se o protestantismo chegou ao país por meio de missionários, hoje exportamos igrejas, inclusive inovações como a Cidade de Refúgio, fundada pelo casal de pastoras Lanna Holder e Rosania Rocha, voltada para a comunidade LGBT.

Esses experimentos atiçam a curiosidade. Qual a consequência de o fiel ser tratado como consumidor? E o que acontece quando a igreja se torna uma espécie de "academia de ginástica espiritual", um local para atingir objetivos como desenvolver resiliência ou ser mais produtivo? Isso importa para religiosos e pesquisadores.

Mas há um ponto que interessa à sociedade como um todo. É preciso separar igrejas que funcionam como condomínios ou sindicatos, geridas de forma transparente, e igrejas com dono, que geram lucro. Esse lucro é a raiz das disputas pela marca da Lagoinha e pela sucessão na Bola de Neve.

Tudo bem ganhar dinheiro, mas —como qualquer empresário— pague imposto. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br

Sacerdote afirma que afastamento foi a seu pedido para cuidar da saúde e após tratamento continuará seu ofício de padre da Igreja Católica Apostólica Romana

 

Por  Aldair dos Santos

A Diocese de Uberlândia divulgou no final da manhã desta sexta-feira (8) em seu site oficial e perfis nas redes sociais uma nota oficial informando a destituição de Padre Fábio Marinho Borges do ofício de Vigário Paroquial da Paróquia Catedral Santa Teresinha do Menino Jesus. A nota, datada em 5 de novembro, é assinada pelo Bispo Diocesano, D. Paulo Francisco Machado, e pelo Chanceler do Bispado, Padre Douglas da Costa Nunes.

A nota completa divulgada no portal da diocese diz: “Visando sempre o bem do Povo de Deus, em nome da missão que recebemos do Senhor, considerando que o clérigo, ao ser ordenado, promete, entre as mãos do bispo, obediência ao seu bispo diocesano, em decorrência da contumácia na desobediência, após receber várias advertências, em conformidade com o cânon 1371 1 do Código de Direito Canônico, dou conhecimento público que por meio do Decreto 56/2024, Prot. O-029, datado do dia O5 de novembro de 2024, foi Destituído do Ofício de Vigário Paroquial da Paróquia Catedral Santa Teresinha do Menino Jesus, Padre Fábio Marinho Borges.”

Padre Fábio Marinho é teólogo, filósofo, psicanalista clínico e professor. Nas redes sociais possui 267 mil seguidores e é amplamente conhecido pelo amplo alcance dos vídeos que divulga em suas redes sociais. Nos vídeos ele aborda não só assuntos de religião, mas também sobre psicanálise e outros temas.

Em setembro deste ano Padre Fábio Marinho se envolveu em uma discussão com o vice-prefeito de Uberlândia, Paulo Sérgio, na ocasião, candidato à prefeito. Paulo Sérgio foi repreendido pelo padre por querer se aproveitar do ato da lavagem do Largo do Rosário, na abertura da Festa da Congada, para promoção política. “Não adianta vir tirar foto na minha igreja em dia de festa. Queremos nos quatro anos que os senhores trabalham, que mostre suas verdadeiras faces”, disse.

Paulo Sérgio, que no dia estava acompanhado da deputada federal Ana Paula, esposa do atual prefeito, Odelmo Leão, rebateu o padre dizendo que estava na cidade a mais tempo que o sacerdote. “Eu estou aqui há muitos anos, você chegou agora”, disse na época.

A discussão foi gravada por diversas pessoas e vários vídeos circularam em redes sociais. Após este fato, pessoas apontaram que Padre Fábio Marinho estava filiado a um partido político. A Diocese de Uberlândia não informou na nota divulgada nesta sexta-feira se a destituição do padre seria em decorrência destes fatos que envolvem o padre e Paulo Sérgio, agora eleito prefeito da cidade, ou se seria uma decisão tomada por outros motivos.

Já Padre Fábio Marinho, em conversa exclusiva com o site Imprensa & Mídia, lamentou a forma como foi divulgada a nota e esclareceu que o afastamento do ofício de vigário era um pedido seu para que pudesse realizar os tratamentos médicos que necessita. O padre, diagnosticado com espondilite anquilosante, doença inflamatória autoimune que afeta as articulações da coluna vertebral e outras partes do corpo, está em tratamento em Brasília. “Neste momento preciso manter o meu emocional equilibrado. Por se tratar de uma doença autoimune, preciso agora ter cuidados redobrados”, disse. Fonte: https://imprensaemidia.com.br

Imaculada e Imaculados

 

Dom Alberto Taveira Corrêa

Arcebispo de Belém do Pará (PA)

A Solenidade da Imaculada Conceição, neste ano celebrada no Segundo Domingo do Advento, remete-nos com alegria às palavras sábias e precisas de São Paulo VI, na Exortação Apostólica “Marialis Cultus” (cf. Números 3 e 4): “No tempo do Advento a Liturgia, não apenas na Solenidade de 8 de dezembro, celebração, a um tempo, da Imaculada Conceição de Maria, da preparação radical (cf. Is 11,1.10) para a vinda do Salvador e para o feliz exórdio da Igreja sem mancha e sem ruga, recorda com frequência a bem-aventurada Virgem Maria, sobretudo nos dias 17 a 24 de dezembro; e, mais particularmente, no domingo que precede o Natal, quando faz ecoar antigas palavras proféticas acerca da Virgem Mãe e acerca do Messias e lê episódios evangélicos relativos ao iminente nascimento de Cristo e do seu Precursor. Desta maneira, os fiéis que procuram viver com a Liturgia o espírito do Advento, ao considerarem o amor inefável com que a Virgem Mãe esperou o Filho, serão levados a tomá-la como modelo e a prepararem-se, também eles, para irem ao encontro do Salvador que vem, bem vigilantes na oração e celebrando os seus divinos louvores. A Liturgia do Advento, conjugando a expectativa messiânica e a outra expectativa da segunda vinda gloriosa de Cristo, com a admirável memória da Mãe, apresenta um equilíbrio cultual muito acertado, que bem pode ser tomado como norma a fim de impedir quaisquer tendências para separar, como algumas vezes sucedeu em certas formas de piedade popular, o culto da Virgem Maria do seu necessário ponto de referência: Cristo. Além disso, faz com que este período, como têm vindo a observar os cultores da Liturgia, deva ser considerado como um tempo particularmente adequado para o culto da Mãe do Senhor: orientação essa, que nós confirmamos e auspiciamos ver aceita e seguida por toda a parte”.  

Assim predispostos, tomamos de nosso cancioneiro religioso, uma preciosidade: “Imaculada, Maria de Deus, coração pobre acolhendo Jesus. Imaculada, Maria do povo, mãe dos aflitos que estão junto à cruz. Um coração que era sim para a vida, um coração que era sim para o irmão, um coração que era sim para Deus, Reino de Deus renovando este chão. Olhos abertos para a sede do povo, passo bem firme que o medo desterra, mãos estendidas que os tronos renegam, Reino de Deus que renova esta terra. Faça-se, ó Pai, vossa plena vontade, que os nossos passos se tornem memória do amor fiel que Maria gerou, Reino de Deus atuando na história!” (Letra e Música: Frei Fabreti). 

O plano de Deus: Imaculada! Desde toda a eternidade, o amor de Deus preparou a participação humana na Encarnação do Verbo, preservando a Virgem Maria de toda a mancha do pecado original, justamente em previsão dos méritos de Cristo. Escolha livre na eternidade dos desígnios da Trindade Santíssima, para acolher o mistério da liberdade humana de uma apenas adolescente na realização da Salvação. Tudo começa no alto, nos planos de Deus. E aquela que foi feita Imaculada, acolhe Jesus, com seu coração pobre e simples, tão sem pretensões que se declarou escrava! 

Maria Imaculada! Se Jesus Cristo é o Verbo de Deus encarnado, podemos olhar para Maria como a toda revestida da Palavra de Deus, aquela que escolheu radicalmente fazer a vontade de Deus, tornando-se Mãe antes em sua alma e depois no corpo, um coração que era sim para a vida, um coração que era sim para o irmão, um coração que era sim para Deus, Reino de Deus renovando este chão! O fato de ser Mãe Imaculada acompanhou toda a sua existência nesta terra. Por onde passou, fez o bem, visitando e servindo sua prima Isabel, enfrentando com serenidade todos os eventuais infortúnios e perdas que experimentou com valentia e convivendo com Jesus e José na Casa de Nazaré! Uma casa e uma oficina de trabalho, um espaço certamente harmônico e belo, iluminado pelo gênio feminino de Nossa Senhora! 

Mãe, serva, Nossa Senhora! Olhos abertos para a sede do povo, passo bem firme que o medo desterra, mãos estendidas que os tronos renegam, Reino de Deus que renova esta terra. Aquela que foi Mãe se fez discípula e modelo para os discípulos de todos os tempos. Caná é o sinal de seu zelo, com o qual continua, pelos séculos afora, a levar a Jesus tudo o que significa aquele “Eles não têm mais vinho”! Testemunham esta verdade a quantidade de títulos, correspondentes a todas as necessidades humanas, a ela atribuídos em todas as partes do mundo. Lá do Céu, assim acompanha a peregrinação da fé de todos os filhos acolhidos aos pés da Cruz.  

Imaculada! Ela passa na frente, mas todos nós somos chamados à imaculatização! “Em Cristo, Deus nos escolheu, antes da fundação do mundo, para sermos santos e imaculados diante dele, no amor. Conforme o desígnio benevolente de sua vontade, ele nos predestinou à adoção como filhos, por obra de Jesus Cristo, para o louvor de sua graça gloriosa, com que nos agraciou no seu bem-amado” (cf. Ef 1,4-6). Se podemos considerar a Virgem Maria como a “humanidade passada a limpo”, ela antecipa o que todos nós somos chamados a viver, sem nivelar nossa vida pelo rodapé do pecado e da maldade. Com ela e contemplando-a com alegria, todos somos convidados a olhar para o alto e para frente. Quando recebeu a visita do Anjo, os padres da Igreja dizem que Maria só poderia caminhar para as alturas, simbolizadas pelas montanhas em que moravam Isabel e Zacarias! Podemos pedir confiantes, a esta altura do Advento: Faça-se, ó Pai, vossa plena vontade, que os nossos passos se tornem memória do amor fiel que Maria gerou, Reino de Deus atuando na história! 

Para colocar em prática o que meditamos, seja nosso propósito de Advento arrumar e limpar a casa de nosso coração, para que seja parecido com Maria, e o Natal aconteça de verdade no meio de nós! Fonte: https://www.cnbb.org.br

Maria vai com as outras?! 

 

Dom Itacir Brassiani

Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)

  

No próximo domingo as comunidades católicas celebram a solenidade da Imaculada Concepção da Bem-Aventurada Virgem Maria. Houve tempo em que a simples invocação do nome de Maria soava como insulto ou blasfêmia aos ouvidos de um protestante. Hoje não é mais bem assim, mas a pergunta é pertinente: é possível refletir sobre Maria, a Mãe de Jesus, numa perspectiva ecumênica e com base numa visão moderna da mulher? 

Martin Lutero, o fundador do movimento protestante, escreveu um belo e profundo tratado sobre o cântico de Maria (cf. Lc 1,46-55).  Na sua interpretação do Magnificat, Lutero não hesita em chamar Maria de “a doce mãe de Cristo”, “Virgem Maria” e “mãe de Deus”. Para ele, o que há de mais belo e precioso na “Bendita Mãe de Deus” é a humildade, a disponibilidade e a confiança com que Ela se põe à disposição da Vontade de Deus.  

Para Lutero, deixar-se inspirar por Maria significa permitir que Deus atue em nós, colaborar para que sua vontade seja plenamente realizada. Por isso, não é justo afirmar que ela não se alegra por sua virgindade, mas por sua humildade. Ela se alegra pela “graciosa observação divina”. Assim, o que deve ser destacado não é sua humildade, mas a atenção com que Deus a trata, a mesma com que trata todos os humildes e humilhados. 

Para celebrar esta solenidade, as comunidades cristãs católicas buscam luzes no texto de Lucas (1,26-38). Ali encontramos a inusitada manifestação de Deus a uma mulher da Galileia. É inusitada porque Deus não se dirige a um homem destacado por seu saber ou por sua piedade, nem acontece no espaço do templo ou da Sinagoga. Não é uma pessoa cumpridora meticulosa das leis e prescrições a escolhida e declarada “cheia de graça”… 

A quem gosta de ver em Maria a imagem de uma mulher “recatada e do lar”, sempre pronta a obedecer às ordens daqueles que se consideram o gênero superior, convido a observar como Maria ousa questionar o próprio Mensageiro de Deus. Ela é uma mulher livre e empoderada, que não se cala nem diante de quem fala em nome de Deus. Seu jeito de fazer a vontade de Deus passa pelo questionamento e pela reflexão (cf. Lc 2,19.51). 

Nesta perspectiva, podemos dizer que Maria de Nazaré não está sozinha. Ela “vai com as outras”: ela está junto e se soma às outras mulheres corajosas do povo hebreu, como as parteiras do Egito, que ousam desobedecer às ordens do Faraó (cf, Ex 1,12-21), a viúva Judite, que enfrenta Holofernes (cf. Jd 8-9) e a mãe dos jovens Macabeus, que os encoraja a desobedecer ao rei Antíoco (cf. 2Mc 7). E como Ana, Isabel, Madalena, Marta, Maria, Lídia e tantas outras mulheres da aurora do cristianismo. 

Maria também está com outras mulheres do nosso tempo, como Maria Quitéria, Rosa de Luxemburgo, Jane Addams, Edith Stein, Nísia Floresta, Teresa de Calcutá, Corazón Aquino, Indyra Gandhi, Dorothy Stang, Zilda Arns. Não quero dizer que ela não passa de uma mulher extraordinária, mas desejo sublinhar que vejo em Maria de Nazaré, traços humanos que outras mulheres, de alguma forma, também expressaram. Ela vai com as outras porque compartilha com elas se não a santidade, ao menos a humanidade.  Fonte: https://www.cnbb.org.br 

 

1) Oração

Despertai, ó Deus, o vosso poder e socorrei-nos com a vossa força, para que vossa misericórdia apresse a salvação que nossos pecados retardam. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

 

2) Leitura do Evangelho  (Mateus 7, 21.24-27)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 21Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. 24Aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou sua casa sobre a rocha. 25Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada na rocha. 26Mas aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insensato, que construiu sua casa na areia. 27Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela caiu e grande foi a sua ruína. - Palavra da salvação.

 

3) Reflexão

O evangelho de hoje traz a parte final do Sermão da Montanha. O Sermão da Montanha é uma nova leitura da Lei de Deus. Começa com as bem-aventuranças (Mt 5,1-12) e termina aqui com a casa na rocha.

Trata-se de adquirir a verdadeira sabedoria. A fonte da sabedoria é a Palavra de Deus expressa na Lei de Deus. A verdadeira sabedoria consiste em ouvir e praticar a Palavra de Deus (Lc 11,28). Não basta dizer “Senhor, Senhor!” O importante não é falar bonito sobre Deus, mas sim fazer a vontade do Pai e, desse modo, ser uma revelação do seu amor e da sua presença no mundo.

Quem ouve e pratica a palavra constrói a casa sobre a rocha. A firmeza da casa não vem da casa em si, mas vem do terreno, da rocha. O que significa a rocha? É a experiência do amor de Deus que se revelou em Jesus (Rom 8,31-39). Tem gente que pratica a palavra para poder merecer o amor de Deus. Mas amor não se compra nem se merece (Cnt 8,7). O amor de Deus se recebe de graça. Praticamos a Palavra não para merecer, mas para agradecer o amor recebido. Este é o terreno bom, a rocha, que dá segurança à casa. A segurança verdadeira vem da certeza do amor de Deus! É a rocha que nos sustenta na hora das dificuldades e das tempestades.

O evangelista encerra o Sermão da Montanha (Mt 7,27-28) dizendo que a multidão ficou admirada com o ensinamento de Jesus, pois "ele ensinava com autoridade, e não como os escribas". O resultado do ensino de Jesus é a consciência crítica do povo com relação às autoridades religiosas da época. Admirado e agradecido, o povo aprovava os ensinamentos tão bonitos e tão diferentes de Jesus.

 

4) Para um confronto pessoal 

 

  1. Sou dos que dizem “Senhor, Senhor”, ou dos que praticam a palavra?
  2. Observo a lei para merecer o amor e a salvação ou para agradecer o amor e a salvação de Deus?

 

5) Oração final

Dá, Senhor, tua salvação! Dá, Senhor, tua vitória Bendito o que vem em nome do Senhor! (Sl 117, 25-26a)

 

1) Oração

Sede propício, ó Deus, às nossas súplicas, e auxiliai-nos em nossa tribulação. Consolados pela vinda do vosso Filho, sejamos purificados da antiga culpa.Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

 

2) Leitura do Evangelho (Lucas 10, 21-24)

Naquele tempo, 21Naquela mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-te porque assim foi do teu agrado. 22Todas as coisas me foram entregues por meu Pai. Ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 23E voltou-se para os seus discípulos, e disse: Ditosos os olhos que vêem o que vós vedes, 24pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que vós ouvis, e não o ouviram. - Palavra da salvação.

 

3) Reflexão

O texto de hoje revela o fundo do coração de Jesus, o motivo da sua alegria. Os discípulos tinham ido em missão e, na volta, partilham com Jesus a alegria da sua experiência missionária (Lc 10,17-21).

O motivo da alegria de Jesus é a alegria dos amigos. Ao ouvir a experiência deles e ao perceber a sua alegria, Jesus também sente uma profunda alegria. A causa da alegria de Jesus é o bem-estar dos outros.

Não é uma alegria superficial. Ela vem do Espírito Santo. O motivo da alegria é que os discípulos e as discípulas experimentaram algo de Deus durante a sua experiência missionária.

Jesus os chama “pequenos”. Quem são os “pequenos”? São os setenta e dois discípulos (Lc 10,1) que voltaram da missão: pais e mães de família, rapazes e moças, casados e solteiros, velhos e jovens. Eles não são doutores. São pessoas simples, sem muito estudo, mas que entendem as coisas de Deus melhor do que os doutores .

“Sim, Pai, assim é do teu agrado!”  Frase muito séria. É do agrado do Pai que os doutores e os sábios não entendam as coisas do Reino e que os pequenos as entendam. Portanto, se os grandes quiserem entender as coisas do Reino, devem fazer-se discípulos dos pequenos!

Jesus olha para eles e diz: “Felizes vocês!” E por que são felizes? Porque estão vendo coisas que os profetas quiseram ver, mas não conseguiram. O que ele viram? Eles perceberam a ação do Reino nas coisas comuns da vida: curar doentes, alegrar os aflitos, expulsar os males da vida.

 

4) Para um confronto pessoal

 

  1. Coloco-me na posição do povo: eu me considero dos pequenos ou dos doutores? Por que?
  2. Coloco-me na posição de Jesus: qual a raiz da minha alegria? Superficial ou profunda?

 

5) Oração final

“Eu vos louvo, ó Pai, porque escondestes os mistérios do reino aos sábios e os revelou aos pequeninos”. (cf. Lc 10, 21)

 

Dom Pedro Brito Guimarães  

Arcebispo de Palmas (TO)  

           Em contagem regressiva para o Natal, eu me pego a pensar como fui concebido, nasci, cresci e cheguei à idade, que tenho hoje. Passa por minha cabeça e por meu coração que aconteceu, pelo menos, uma série de cuidados para que, hoje, eu estivesse aqui. Senão não estaria aqui para contar esta história.  

         Deus é cuidadoso. Tudo o que Deus faz, faz com cuidado. E tudo o que ele cuida merece crédito. O Senhor Deus foi cuidadoso quando criou, em cinco dias, todas as condições favoráveis à vida (Gn 1,1ss). Ele também foi cuidadoso quando, no sexto dia, criou os seres humanos: homem e mulher os criou (Gn 1,27). E viu que tudo era muito bom (Gn 1,25).  

        Ele, enfim, foi cuidadoso quando criou as condições objetivas para o nascimento de Jesus, nascido da Virgem Maria: “gerado, não criado, consubstancial” a Ele próprio, como reza o Credo Niceno-Constantinopolitano. Tudo feito com muito amor e cuidado. Quando a gente ama, a gente cuida. A escolha do anjo, o tempo, o espaço, o modo, o anúncio a Maria, as palavras empregadas, as explicações dadas, tudo com muito amor, sensibilidade e cuidado. E ainda mais, fez José sonhar com o mesmo anúncio. Mesmo assim, deixou Maria assombrada (Lc 1,29). 

         O cuidado está na base do amor de Deus e também da nossa existência. A criança é o símbolo humano do cuidado. No reino animal somente nós, humanos, precisamos, para viver, de tantos cuidados. Os outros seres não precisam de tantos cuidados assim como o ser humano. E é exatamente por falta de cuidado que muitos morrem antes de nascer; ou se nascem, não sobrevivem por muito tempo. 

         O Natal é cuidado de Deus por nós e também o nosso cuidado de Deus. Jesus é o cuidado de Deus. Ele cuida do nascimento de Jesus para cuidar de nós. Por que será que Jesus nasceu em condições ínfimas: fora de casa, em uma estribaria, guardado apenas por animais? Foi somente por causa do decreto do recenseamento, ordenado pelo Imperador Augusto (Lc 2,1ss)? Deus não se deixa manipular por decisões políticas. Foi apenas por que não havia hospedagem em Belém? Onde estavam os descendentes de Davi, parentes de José, que não os acolheram em suas casas? Deus não se deixar condicionar pelas insensibilidades humanas. 

         Certamente não foram somente por estes motivos. Por que será então? Sabe por quê? O motivo maior é que Jesus nasceu assim para ser cuidado pelo Pai e por nós, como nossos pais e nossas mães cuidam de nós. Ele veio exatamente ao mundo para cuidar da nossa salvação. Não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mc 10,45). Sua vida é a vida de um verdadeiro cuidador: cuida dos pobres, dos doentes, dos endemoniados e dos pecadores e de todos aqueles e aquelas que não se bastam a si mesmos.  

O fato de Jesus ter nascido em uma gruta, deitado em uma manjedoura e envolvido em faixas não possui a sinalização de apelo ecológico? Existem cuidados melhores e maiores do que estes? Belém é o lugar do cuidado de Deus. Belém é o Hospital de Campanha de Deus Pai para Maria, José e Jesus, e para toda a humanidade. Belém é a casa do pão do cuidado e do cuidado do pão. Belém é a nossa casa, a nossa Igreja, a nossa missão. Belém somos todos nós. Belém é onde se cuida da vida. Belém é onde Jesus é cuidado e onde Deus cuida de nós. Belém hoje é aqui e agora. 

         Neste Natal precisamos adotar, como regra de vida, três tipos de cuidados: o cuidado uns dos outros, sobretudo dos que participam de uma forma ou de outra, das nossas estruturas eclesiais; o cuidado das pessoas que estão retornando, chegando ou se aproximando, mesmo que timidamente, das nossas realidades pastorais; e o cuidado com as pessoas que estão fora, distantes e divorciadas de nós.  

        Que ninguém deixe de cuidar de alguém e de ser cuidado, neste Natal, porque o Natal é realmente o tempo do cuidado de Deus. Que neste Natal, cuidemos uns dos outros, como Deus cuida de nós. Fonte: https://www.cnbb.org.br

Província Carmelitana Fluminense

Venerável Ordem Terceira do Carmo

Sodalício de Saquarema, Rio de Janeiro

Retiro.  30 de novembro-2024

Frei Petrônio de Miranda, O. Carm e Paulo Daher

COM MARIA EM ORAÇÃO E MISSÃO (MAGNIFICAT – Lc 1, 46-55)

Paulo Daher

 

A minha alma glorifica ao Senhor 
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. 
Porque pôs os olhos na humildade da sua serva: 
de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. 
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas: 
Santo é o seu nome. 
A sua misericórdia se estende de geração em geração 
sobre aqueles que O temem. 
Manifestou o poder do seu braço 
e dispersou os soberbos. 
Derrubou os poderosos de seus tronos 
e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens 
e aos ricos despediu de mãos vazias. 
Acolheu Israel seu servo, 
lembrado da sua misericórdia, 
como tinha prometido a nossos pais, 
a Abraão e à sua descendência 
para sempre.

 

O contexto do Magnificat é vocacional e missionário, nos inspira na ação libertadora, não podemos ficar somente na imagem poética deste belo hino de louvor a Deus, mas penetrarmos na mensagem que Maria nos proporciona. O Magnificat acontece, então, dentro da experiência missionária contemplando as maravilhas que Deus havia realizado também na vida de Isabel.

Inspirados pelas palavras de Maria, certamente observaremos o que a Regra nos pede: “viver em obséquio de Jesus Cristo”. Carmelo Missão, significa sair da comodidade, sair da zona de conforto, não ficar agarrado em si mesmo, seguir o Profeta Elias, caminhar sempre. É realizar algum serviço que resgate e promova a vida de muitos. O Cântico de Maria é referência bíblica também numa imagem que nos remete à dimensão missionária e é de muita importância no contexto atual. Maria nos ajuda e ensina que devemos buscar a libertação. A história da “visitação”, conforme Lc 1, 39-45, é um episódio mariano de missão e serviço, despojamento e solidariedade, sem perder de vista a realidade.

O Magnificat nasce da capacidade de Maria ser fraterna e solidária e essa disponibilidade chega ao ápice quando da sua tomada de decisão de ir ao encontro de Isabel. É o encontro de Deus com a comunidade na pessoa de maria que consigo carrega Jesus. “Minha alma louva o Senhor, exulta meu espírito em Deus, meu salvador”! No cântico, ela se revela como alguém que tem consciência da situação social e política em que se encontra seu povo.

Magnificat é um canto de louvor, de agradecimento, mas também mostra com clareza de que lado está Deus. O cântico de louvor a Deus é pela obra realizada, não só em Maria, mas para com a humanidade. Nos faz perceber a importância que os pobres e oprimidos têm na esperança em Deus. O Magnificat é profundamente otimista, transmite alegria. “Está em sintonia com a sincera oração dos pobres, daqueles que depositam sua esperança só em Deus, que conservam em seu coração a expectativa de ver o Messias como fez o velho Simeão” (cf. Don Antônio de Assis – Bispos Auxilias de Belém-PA – Artigo: A Oração de Maria -Magnificat  -  Lc 2, 25-29). 

Lembramos da Libertatis Connscientia, nº 97, se refere a Maria: “imagem mais perfeita da liberdade e libertação da humanidade e do cosmo” e prossegue afirmando que Ela é “Mãe e Modelo” da Igreja no que diz respeito à “sua missão”. Maria conjuga fé e compromisso e assim se faz missionária e discípula de seu próprio Filho. É a mãe das missões, pois seu SIM nos ensina a ser seguidores e se somos seguidores de Jesus, devemos ser missionários da justiça e da paz, levando a Boa Nova a todos. São João Paulo II, em seu pronunciamento no Brasil, em 1980, disse: “Maria é fonte de vida cristã”, nos remete à tarefa missionária da prática evangélica libertadora.

A Regra da OTC, nº 34, nos ensina como exercer a dimensão do carmelo missão. “Acolher a Palavra com disponibilidade e adesão plena...inspira-lhes a fidelidade à missão, à ação animada pela caridade e pelo espírito de serviço e à efetiva cooperação na realização da obra de salvação”. Juntos a Maria caminham pelas estradas da história, atentos às autênticas necessidades humanas”.

Sendo assim, não poderíamos deixar de vislumbrar no Magnificat a face missionária-sócio-libertadora que Maria nos apresenta e que nos identifica com a disponibilidade e fidelidade à missão. É um misto de hino e cântico de ação de graças e que manifesta a ação voltada para a libertação ao mesmo tempo que louva a Deus pela vida. “O cântico de Maria proclama de forma profética, a ação transformadora de Deus nas relações sociais” (cf MURAD, 2012, p.78).

É importante contextualizar socialmente o magnificat, na medida em que o encontro de Maria com Isabel, representa o encontro de Maria com a comunidade; Deus vem ao encontro de seu povo e o liberta (trazJesus). É um cântico de libertação “numa situação de pobreza sócio-econôica, dominação sociopolítica, opressão ideológica” ( Mariologia Social, Clorovis Boof, p. 324). Como está nossa sociedade hoje?, conforme Lucas 1, 39-45. Este episódio mariano é missão e serviço, despojamento e solidariedade, mas também é acolhimento, é olhar contemplativo para a realidade. Maria conjuga fé e compromisso e assim se faz missionária de seu Filho.

“O Cãntico proclama de forma profética, a ação transformadora de Deus nas relações sociais” ( Murad, Maria toda de Deus e tão humana, p. 78). Então, representa a face missionária-sócio-transformadora que Maria nos apresenta, e se somos realmente devotos de Maria façamos o que Ela pede: “Fazei tudo o que meu Filho disser” (Jo 2, 1-10), isto representa a busca do próximo que precisa de nós, é o que chamo de “devoção comprometida”.

Numa perspectiva de divisão do texto, podemos vislumbrar três estruturas que são maneiras de Deus agir: a) derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; b) dispersa os soberbos de coração; c) enche os famintos de bens e despede os ricos de mãos vazias.

Lc 1, 51 – dispersa os soberbos de coração – trata-se da maneira de se portar na vida, são pessoas orgulhosas e prepotente. Maria viveu numa sociedade de opressão e sabe que este tipo de vida não traz benefício para os pobres. Em Lc 13, 30; 14,9, por exemplo, Jesus realiza a profecia do Magnicat ao proclamar que os últimos serão os primeiros.

Lc 1, 52 – derruba do trono os poderosos -  na Bíblia trono significa poder político ( 2Sm 3,10). A apelação dos menos favorecidos para defender seus direitos encontramos em Is 1,10: “Ai daqueles que fazem decretos iníquos e daqueles que escrevem apressadamente sentenças de opressão, para negar a justiça ao fraco e fraudar o direito dos pobres do meu povo, para fazer das viúvas a sua presa e despojar os órfãos”.

O que podemos perceber sobre o que Maria quer dizer com seu espírito profético? Afirmar que Deus tira o poder dos que o utilizam para o mal e restabelecer os despojados. Deus restitui a dignidade dos menos favorecidos com sua misericórdia e por isso |Maria canta que “Deus fez em mim maravilhas”, pois dela nasceu Jesus, aquele que veio para que todos tenham vida e vida plena, então o “anúncio profético de Maria se realiza na pregação e prática libertadora de Jesus...ressurreição é o supremo sinal de Deus que derruba do trono os poderosos e eleva os humildes”. (MURAD, Maria, toda de Deus e tão humana, 2012, p.80).

Lc 1,53 – enche de bens os famintos, despede os ricos de mãos vazias –  diz respeito à conjuntura econômica da época, aqueles que não têm como se alimentar de forma satisfatória certamente não sobreviverá e terá problemas de saúde. Deus promete que todos terão como viver e Lucas nos mostra isso  com alegria quando lemos em Atos 2,46, que os cristãos “partem o pão nas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração”.

Podemos, com o auxílio e exemplo de Maria, manifestar o pensamento e atitudes, numa prática de conversão, em ações que gerem vida; ações pessoais e coletivas que possam gerar frutos de compromisso com o cuidado com o nosso planeta, nas questões ambientais, políticas, sociais e econômicas.

O cântico de Maria mostra que ela é Mãe atenta e amorosa, mas ao mesmo tempo mulher forte e capaz de se comprometer com a realidade e, ainda hoje, continua sendo protagonista de nossa história nos estimulando no caminho da profecia e da missão evangelizadora de construir o Reino de Deus, “vivendo em obséquio de Jesus Cristo”, como nos mostra a espiritualidade carmelita.

Conforme Papa Francisco, “ Maria é a mulher orante e trabalhadora em Nazaré, mas também Nossa Senhora da Prontidão, a que sai “a pressa” (Lc1,39) da sua povoação para ir ajudar os outros. Esta dinâmica de justiça e ternura, de contemplação e de caminho para os outros faz dela um modelo eclesial de evangelização” ( Evangeli Gaudium, 2013, nº 288).

 

PARA REFLETIR

1 – Qual o perfil de Maria presente no Magnificat?

2 – Em que o Magnificat pode ajudar nossa experiência de oração?

3 – Em que o Magnificat pode nos ajudar, como carmelitas, em nossa missão?

4 – Quais aspectos da espiritualidade carmelita encontramos no Magnificat?

A defesa que o pastor Silas faz do ex-presidente expõe a degradação religiosa que marca nossos tempos

 

A devoção a Jair Bolsonaro (esq.) parece ter feito Silas Malafaia esquecer o sexto mandamento: 'Não matarás' - Bruno Santos - 7.set.24/Folhapress

 

Valdinei Ferreira

É sociólogo, pastor e professor da Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana Independente (Fatipi) e pesquisador na área de espiritualidade e saúde mental

O desentendimento entre Silas Malafaia e Bolsonaro parece ter ficado no passado. No dia 20, o pastor gravou um vídeo defendendo o ex-presidente após a revelação de planos para assassinar Alexandre de Moraes, Lula e Alckmin.

Curiosamente, Malafaia não recorre à Bíblia para justificar sua defesa de Bolsonaro e dos demais indiciados, mas ao Código Penal. Em tom de jurista, afirmou: "Não é infração penal imaginar, pensar ou combinar alguma coisa, mesmo que constitua crime, se não houver o início da execução de um delito." Não cabe aqui discutir se monitorar alvos e portar armas não configuram início de execução; essa tarefa caberá aos juristas.

A paixão política cegou Malafaia e o fez desprezar aquilo que ele frequentemente diz defender: a tradição judaico-cristã. Foi em nome dessa herança que ele já condenou a união civil entre pessoas do mesmo sexo. No entanto, sua devoção a Bolsonaro parece tê-lo feito esquecer o sexto mandamento: "Não matarás."

Mais espantoso é ouvir um pastor ignorar completamente as palavras de Jesus no Sermão da Montanha para minimizar a gravidade dos assassinatos planejados. Ao ecoar o senador Flávio Bolsonaro e afirmar que "pensar em matar alguém não é crime", Malafaia contradiz uma das contribuições mais valiosas do cristianismo à civilização: a ênfase na moralidade interna. Jesus ensinou: "Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios..." (Marcos 7:21).

Espera-se que pastores falem sobre o que é pecado, não sobre tecnicalidades legais. No entanto, Malafaia, sempre vocal sobre pecados como homossexualidade, aborto e feminismo, silencia sobre o pecado da cogitação de assassinato. Isso é especialmente grave, considerando o papel central do cristianismo em promover a paz, alicerçada na transformação da subjetividade humana.

Jesus ensinou: "Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. Eu, porém, vos digo que todo aquele que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento..." (Mateus 5:21-22). João Calvino, reformador do século 16, observou que, embora seja a mão que comete o assassinato, é o coração que o concebe. Segundo ele, o sexto mandamento é uma regra tanto para o coração quanto para a mão. Antes de se consumar num ato, o assassinato nasce como pensamento. Pastores deveriam ensinar que cogitar um crime é um pecado grave, não perder tempo justificando tecnicalidades.

Ao normalizar pensamentos de assassinato contra inimigos políticos, renuncia-se ao ideal ético estabelecido por Jesus de Nazaré. Essa banalização não apenas alimenta uma cultura de violência, mas também contraria o evangelho.

O Messias seguido pelos cristãos foi vítima de prisão arbitrária, tortura, julgamento político parcial e morte violenta. Jair Messias Bolsonaro construiu sua carreira política exaltando torturadores e ridicularizando vítimas da ditadura. A defesa que Malafaia faz do "Messias Bolsonaro" expõe a degradação política e religiosa que marca nossos tempos. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br

O que muitos evangélicos ficaram sabendo sobre a trama golpista é, em geral, muito diferente do divulgado pelos jornais

 

Juliano Spyer

Antropólogo, autor de "Povo de Deus" (Geração 2020), criador do Observatório Evangélico e sócio da consultoria Nosotros

 

A esquerda brasileira tem a aprender com Dana White. O chefão do UFC fez uma declaração na coletiva de imprensa após o UFC 309, em Nova York, evento em que o presidente eleito Donald Trump e Elon Musk foram os convidados de honra. Ele afirmou: "Eu venho tendo esta filosofia pelos últimos cinco anos: a mídia tradicional morreu. Não tem mais a influência que tinha antes".

E prossegue: "As duas coisas mais odiadas no mundo hoje são a mídia e os políticos. Ninguém confia neles e ninguém acredita neles. A verdadeira influência está com os jovens na internet, os chamados influenciadores. Então, venho construindo relações com essas pessoas nos últimos quatro ou cinco anos. E esta eleição foi vencida na internet".

Essa fala é central para analisarmos como os brasileiros vêm se informando sobre o que acontece no país.

Um exemplo recente é o anúncio feito pela Polícia Federal de que um grupo de militares, supostamente com a aprovação do ex-presidente Jair Bolsonaroplanejou o assassinato do presidente e vice-presidente eleitos em 2022, além do então presidente do TSE, ministro Alexandre de Moraes.

O campo democrático, especialmente à esquerda, parece celebrar o anúncio do plano e as prisões dos envolvidos, sob a ilusão de que o restante do país acompanha as notícias pelas mesmas fontes de informação. Esse é um erro. E é um erro ainda maior quando se trata dos evangélicos, que formaram a principal base de apoio eleitoral do bolsonarismo em 2018 e 2022.

Embora a análise de White sobre influenciadores da internet seja relevante, ela não explica completamente a realidade brasileira. Isso porque desconsidera o ecossistema comunicacional que se desenvolveu em torno de grandes denominações evangélicas.

Igrejas atuam como algoritmos. O convívio e as relações sociais filtram de maneira implícita ou explícita as informações que circulam em ambientes compartilhados, como os próprios templos e também os grupos de WhatsApp.

E o que chegou aos grupos de WhatsApp das igrejas e de pastores sobre a denúncia de planos para anular os resultados da última eleição? Com alguma frequência, a mesma mensagem dita por Dana White: mídia e políticos estão articulados para mentir sobre o que acontece no país.

Todo o conteúdo que eu recebi de interlocutores é atual e associado às notícias sobre o G20. Inclui material em vídeo sobre a repercussão internacional da fala deselegante da primeira-dama Janja sobre Elon Musk, críticas à "hipocrisia" do presidente Lula pela alta de preços no país, denúncias de casos de "terrorismo de esquerda" desconsiderados pela mídia, imagens de protestos com o rosto dos presos do 8 de Janeiro e a versão da família Bolsonaro sobre o que chamam de perseguição ao ex-capitão.

Dana White tem um lado nesse debate, mas sua análise é —pode-se dizer— profética. Veio da internet o empurrão final que levou Trump à Casa Branca. O que foi testado e funcionou lá está sendo aplicado e será aperfeiçoado para a eleição brasileira de 2026. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br

 

O Dia Nacional dos Cristãos Leigos e Leigas será celebrado no próximo domingo, 24 de novembro, Solenidade de Cristo Rei. O bispo de Araguaína (TO) e presidente da Comissão Episcopal para o Laicato da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Giovane Pereira de Melo, gravou uma mensagem com a motivação para que a data seja celebrada numa perspectiva sinodal.

“Participe da sua comunidade, celebre esse dia bonito, Solenidade de Cristo Rei, celebrando os cristãos leigos e leigas numa caminhada sinodal!”, disse dom Giovane.

 

Neste ano, a celebração proposta pelo Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB) traz a motivação bíblica “Façam tudo com amor!” (1Cor 16,14) e está relacionada com a celebração do Jubileu da Esperança, que terá início no próximo mês, e com a celebração dos 50 anos do organismo que reúne os cristãos leigos e leigas do Brasil.

 

“A celebração do Dia Nacional dos Cristãos Leigos e Leigas deste ano nos coloca no caminho do Jubileu da Esperança, proclamado pelo Papa Francisco para 2025. Somos peregrinos de esperança, e este tema é central na vida cristã. Sem a esperança, com certeza muitos cristãos leigos e leigas não teriam forças para enfrentar os desafios pessoais, sociais, políticos e eclesiais que encontramos pelo caminho e, muitas vezes, nos desmotivam e desanimam”, motivou a presidente do CNLB, Sônia Gomes de Oliveira.

 

Para auxiliar nas celebrações, foi oferecido material especial para reflexão e celebração, além de materiais visuais prontos para impressão e download. O conteúdo convida os leigos a refletirem sobre o Jubileu da Esperança, convocado pelo Papa Francisco para 2025.

“A cartilha reforça nossa missão: como cristãos leigos, somos sinais vivos do Reino de Deus nas diferentes realidades do mundo. O material convida os leigos a dar testemunho dessa Boa Notícia que é Cristo e a participar ativamente da sinodalidade da Igreja, vivendo o carisma e a missão cristã de forma corresponsável”, explicou Sônia. Fonte: https://www.cnbb.org.br

José Eduardo de Oliveira usava as redes sociais por gravar vídeos no Youtube discutindo guerra cultural, aborto e a influência ruim das músicas e divas pop na vida de crianças e adolescentes

 

O padre José Eduardo de Oliveira e Silva, da Diocese de Osasco, na Grande São Paulo. — Foto: Reprodução/Redes Sociais

 

Por Rodrigo RodriguesIsabela Leite, g1 SP e GloboNews — São Paulo

Entre os 37 indiciados nesta quinta-feira (21) pela Polícia Federal no inquérito sobre a tentativa de golpe de Estado no país está o padre católico José Eduardo de Oliveira e Silva, da Diocese de Osasco, na Grande São Paulo.

Em fevereiro, ele foi alvo da operação Tempus Veritatis, da Polícia Federal. A operação cumpriu 33 mandados de busca e apreensão e quatro mandados de prisão preventiva contra pessoas acusadas de participação na elaboração da tentativa de golpe de estado no Brasil, em janeiro do ano passado.

O religioso é conhecido nas redes sociais por gravar vídeos no Youtube discutindo guerra cultural, aborto e a influência ruim das músicas e divas pop na vida de crianças e adolescentes (leia mais abaixo)

O relatório final do inquérito, que tem mais de 800 páginas, foi concluído no início da tarde desta quinta e vai ser entregue ao Supremo Tribunal Federal (STF).

O padre José Eduardo é citado como integrante do núcleo jurídico do esquema. Segundo o ministro Alexandre de Moraes, o núcleo assessorava os membros do suposto plano de golpe de estado na elaboração de minutas de decretos com fundamentação jurídica e doutrinária que atendessem aos interesses golpistas.

De acordo com a Polícia Federal, o padre supostamente participou de uma reunião no dia 19 de novembro de 2022, com Filipe Martins e Amauri Feres Saad – outros dois indiciados- como indicam os controles de entrada e saída do Palácio do Planalto.

O encontro, segundo o inquérito da PF, fazia parte de uma série de discussões convocadas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para "tratativas com militares de alta patente sobre a instalação de um regime de exceção constitucional."

Filipe Martins era ex-assessor especial de Bolsonaro e foi preso pela PF em fevereiro.

Durante a operação em fevereiro, o padre José Eduardo de Oliveira e Silva foi informado pela PF que terá que cumprir medidas cautelares para não ser preso.

Entre elas, a proibição de manter contato com os demais investigados da operação, o compromisso de não se ausentar do país e entrega de todos os passaportes (nacionais e estrangeiros) no prazo de 24 horas.

Em nota, o advogado Miguel Vidigal afirmou que não recebeu nenhum relatório disponível. "Temos uma nota da Polícia Federal com alguns nomes indiciados."

"Menos de 7 dias depois de dar depoimento à Polícia Federal, meu cliente vê seu nome estampado pela Polícia Federal como um dos indiciados pelos investigadores. Os mesmos investigadores não se furtaram em romper a lei e tratado internacional ao vasculhar conversas e direções espirituais que possuem garantia de sigilo e foram realizadas pelo padre.

Quem deu autorização à Polícia Federal de romper o sigilo das investigações? Até onde se sabe, o ministro Alexandre de Moraes decretou sigilo absoluto. Não há qualquer decisão do magistrado até o momento rompendo tal determinação.

A nota da Polícia Federal com a lista de indiciados é mais um abuso realizado pelos responsáveis da investigação e, tendo publicado no site oficial do órgão policial, contamina toda instituição e a torna responsável pela quebra da determinação do ministro."

 

O que disse o padre José Eduardo

Por meio de nota em fevereiro, o padre negou que tenha participado de qualquer conspiração contra a Constituição Brasileira. Segundo o padre, como sacerdote católico "é chamado para auxílio espiritual não apenas dos frequentadores da minha paróquia, mas também de todos aqueles de alhures que espontaneamente me procuram com assuntos dos mais variados temas".

"Como é meu dever, preservo a privacidade de todos eles, visto que os dilemas que me apresentam são sempre de foro interno. Em relação ao referido 'inquérito dos atos antidemocráticos', minha posição sobre o assunto é clara e inequívoca: a República é laica e regida pelos preceitos constitucionais, que devem ser respeitados. Romper com a ordem estabelecida seria profundamente contrário aos meus princípios", disse José Eduardo.

"Abaixo de Deus, em nosso país, está a Constituição Federal. Portanto, não cooperei nem endossei qualquer ato disruptivo da Constituição. Como professor de teologia moral, sempre ensinei que a lei positiva deve ser obedecida pelos fiéis, dentre os quais humildemente me incluo. Estou inteiramente à disposição da justiça brasileira para qualquer eventual esclarecimento, recordando o dever de toda a sociedade de combater qualquer tipo de intolerância religiosa", completou.

"A única missão na minha vida é o meu trabalho sacerdotal. Por isso, preciso de um “tradutor” que me faça compreender os passos jurídicos decorrentes desta inusitada e inesperada situação e que me ajude a atender com precisão os pedidos do Poder Judiciário. Por isso, constituo meu “tradutor” o Dr. Miguel da Costa Carvalho Vidigal, advogado, que saberá dar respostas jurídicas pertinentes ao assunto. Ainda não obtivemos acesso aos autos, o qual esperamos obter nos próximos dias", declarou.

 

Quem é o padre José Eduardo

Integrante da ala conservadora da Igreja Católica, o padre José Eduardo comemora 18 anos de sacerdócio em 2024. Ele é o vigário oficial da 'Paróquia São Domingos – o Pregador-, no bairro de Umuarama, em Osasco.

Doutor em Teologia Moral pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz (Roma, Itália), o religioso grava vídeos no Youtube com críticas às cantoras Madonna e Luiza Sonza, por exemplo, e analisa a letra das músicas e o simbolismo de clipes de canções como “Campo de Morango”.

“É de uma baixaria que a gente fica realmente constrangido”, diz ele.

“Não é apenas a letra [das músicas] que diz coisas. Mas é a harmonia, o ritmo e a melodia. Uma música de amor que tem uma batida sensual, ela está falando de amor em termos libidinosos. Na melodia está embutida uma mensagem sexual que não está embutida na letra. [...]Se uma melodia não tem uma inspiração divina, ela tem uma inspiração humana ou demoníaca?”, argumentou o padre em vídeo gravado em 7 de agosto do ano passado.

Entre as pautas que o padre mais gosta de comentar é o aborto: “Você tem pessoas tão loucas que elas são abortistas e veganas. São a favor de que se matem os bebês no ventre de suas mães, mas são totalmente contra o extermínio de animais para o consumo”, declarou ele em outro vídeo.

 

"Chatólicos"

O padre também frequenta canais e podcast de grande repercussão na extrema direita, como os produtos da produtora Brasil Paralelo e o canal do economista bolsonarista Rodrigo Constantino.

Nos textos em que mantém no seu site pessoal, o padre também alerta os fiéis católicos contra os colegas de igreja que ele chama de “chatólicos”.

Entre as características desse tipo de cristão, segundo o religioso, estão as seguintes:

“O fulano que se converteu ontem, mas já se considera o próprio martelo dos hereges; justificam toda agressividade, desde que ungida com uma pretensa defesa da fé, em nome da qual cometem calúnias e difamações, além de muita desonestidade intelectual; Participam da liturgia como censores, mais preocupados com os eventuais erros cometidos pelo celebrante que com a edificação de sua alma; vivem de sensacionalismo escatológico, assustando “os outros com revelações particulares e especulações irresponsáveis sobre o capiroto”, escreveu. Fonte: https://g1.globo.com

 

Padre Giorgio Maria Faré, o carmelita descalço que não reconhece o Papa Francisco, é excomungado

 

Por Zita Dazzi

A disposição segue a recusa pública e obstinada do frade em reconhecer o Papa Francisco como um Pontífice Romano legitimamente eleito.

Padre Giorgio Maria Faré, frade carmelita da província da Lombardia que não reconhece Bergoglio como pontífice, foi excomungado e renunciou à ordem carmelita. A informação foi comunicada pelo superior geral dos Carmelitas Descalços, Padre Miguel Marquez Calle.

“Esta disposição – explica o Padre Márquez – surge na sequência da recusa pública e obstinada por parte do Padre Faré – de reconhecer o Papa Francisco como Pontífice Romano legitimamente eleito e de permanecer em comunhão com ele”. Fonte: https://milano.repubblica.it

 

Padre italiano enfrenta excomunhão após declarar que Francisco não é o Papa legítimo

 

Giorgio Maria Fare

por redacioninfovaticana 

LifeSiteNews relata que o padre carmelita italiano Padre Giorgio Maria Faré poderia ser excomungado e expulso da Ordem Carmelita se não se retratasse da sua declaração de que o Papa Francisco não é o “Papa legítimo”, alegando que a renúncia de Bento XVI era inválida. Este ultimato foi estabelecido pelo seu superior e expirou em 30 de outubro.

Numa carta datada de 17 de outubro, divulgada pelo meio de comunicação italiano Silere non possum, o comissário da província lombarda da OCD, padre Renato Dell'acqua, informou a comunidade carmelita sobre a situação em Faré. Segundo Dell'acqua, o Padre Miguel Márquez, superior geral da ordem, assinou uma admoestação canónica no dia 15 de outubro instando Faré a renunciar ao seu cargo antes de 30 de outubro para evitar a sua excomunhão da Igreja Católica e a sua expulsão da ordem.

As declarações de Faré, transmitidas no YouTube em 13 de outubro, sustentam que Bento XVI, ao renunciar, não abandonou adequadamente o ofício papal, o que, segundo ele, invalidaria o pontificado de Francisco. Durante esta homilia, Faré expressou a sua impossibilidade de celebrar a missa “em comunhão com o Papa Francisco”, o que causou séria preocupação entre os seus superiores.

Dell'acqua expressou sua preocupação na carta enviada a Faré: “O Padre Faré tem 15 dias para retratar suas teses e não incorrer em excomunhão e expulsão da ordem. Deixando de lado toda vã curiosidade, rezemos pelo arrependimento do irmão”, escreveu o comissário.

Faré também investigou, na sua homilia de 13 de Outubro, o que considera uma conspiração da “máfia de St. Gallen” para instalar um Papa de orientação liberal após a morte de Bento XVI. Segundo sua teoria, Bento XVI, ciente dessa conspiração, teria renunciado de forma intencionalmente inválida, optando por manter o título de “Papa Emérito”, continuar usando a batina branca e manter seu brasão como mensagens para os cardeais agirem. . Faré destacou que se tivessem detectado e relatado estas “anomalias” após a renúncia de Bento XVI, um “conclave inválido” teria sido evitado.

O sacerdote utilizou como prova da invalidade da renúncia de Bento XVI a expressão latina utilizada na sua carta, na qual indicava “declaro que renuncio” em vez de um simples “renuncio”, o que, segundo ele, não cumpre com os requisitos estabelecidos no cânon 332 §2 do Código de Direito Canônico de 1983, que exige a renúncia completa ao “munus” ou “ofício” do papado, e não apenas ao seu ministério.

LifeSiteNews contatou o Padre Faré, que se recusou a comentar mais sobre o assunto. Fonte: https://infovaticana.com

 

 

Quem é o Padre Giorgio Maria Faré?

 

FREI GIORGIO MARIA FARÉ (Melzo 1972) é Frade Carmelita Descalço da Inspetoria da Lombardia e Sacerdote desde 2001. 

Obteve a Licenciatura em Teologia Fundamental em Milão, na Faculdade Teológica do Norte de Itália e o Doutoramento em Teologia com especialização em Teologia Fundamental em Roma, na Pontifícia Universidade Gregoriana, com uma tese intitulada: “Fé e comunidade eclesial em perspectiva liminar - Verificação da utilidade heurística de uma categoria antropológica para uma reflexão sobre a chegada à fé e sobre a experiência eclesial”.

Antes de sua ordenação sacerdotal, serviu durante seis anos na prisão de San Vittore, em Milão, como assistente voluntário. 

Foi membro do Conselho Presbiteral da Arquidiocese de Milão de 2009 a 2020 e foi Secretário do CISM Diocesano da Arquidiocese de Milão e Conselheiro do Conselho da Presidência do CISM da Lombardia de 2011 a 2019.

Em 2013 publicou o livro “A Santa Missa nas duas Formas do Rito Romano. Celebrar, servir, compreender” com prefácio do Cardeal Antonio Cañizares Llovera e introdução de Dom Nicola Bux.

 

Em 2016 publicou o livro “Il Sacrificio Perfetto”.

Em 2024 publicou o livro “O homem e a Igreja diante do limiar. Ensaio teológico fundamental sobre a chegada à fé e a experiência eclesial segundo a categoria da liminaridade", Dissertação de doutorado em Teologia com especialização em Teologia Fundamental... Fonte: www.veritatemincaritate.com

 

Novo estudo do Pe. Giorgio Faré sobre a invalidez de Jorge Bergoglio

 

“Afirmo que Bergoglio não é o papa.” 

 Estas palavras foram proferidas em uma homilia proferida em 13 de outubro pelo Padre Giorgio Maria Faré, um importante sacerdote italiano. *  

 Padre Faré, frade carmelita descalço e doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, fez a afirmação após um estudo canônico e histórico intensivo dos eventos que cercaram a renúncia do Papa Bento XVI e o subsequente conclave papal — e na esteira de sua profunda angústia pelos terríveis danos que Jorge Bergoglio causou nos últimos onze anos.  

 Essa angústia é evidente no que o Padre Faré descreve como um “ponto de virada” em seu discernimento sobre essas questões, ocorrido em 16 de junho, quando ele refletiu sobre as leituras da missa daquele dia. 

A proclamação desta Palavra de Deus me desafiou: naquele momento percebi que estava sendo chamado a fazer uma escolha fundamental. Eu tinha que decidir se permaneceria fiel à Sagrada Escritura e a Jesus Cristo ou se sucumbiria à tentação de me adaptar a um ensinamento construído sobre compromissos e meias-verdades... Chegamos a um ponto crítico: um padre deve escolher se prega o que a Sagrada Escritura e a Igreja sempre ensinaram ou se adere ao que o chamado “Papa Francisco” ensina em seu magistério ordinário. 

 Chegando a uma conclusão tão importante e ponderando seu próprio futuro à luz disso, o Padre Faré diz perto do fim de sua homilia: “Sou um padre católico e continuarei a sê-lo e a fazer o que um padre faz. Claramente, não celebrarei mais a Santa Missa 'com Francisco, nosso Papa.'” 

Como já dissemos muitas vezes, a Igreja está passando por uma crise sem precedentes. Pode ser útil ver como outros clérigos e leigos fiéis estão respondendo a ela, e como às vezes abordagens muito diferentes estão levando à mesma conclusão fundamental sobre a crise e Bergoglio. A homilia do Padre Faré, essencialmente o artigo produzido por seu estudo mencionado acima, é um tanto longa, mas vale a pena ler para uma perspectiva útil sobre a crise na Igreja hoje. Fonte: https://missionofdivinemercy.org

 

Na mensagem lida pelo cardeal Pietro Parolin, o Papa aborda a necessidade de solidariedade internacional e o redirecionamento de fundos militares para o combate à desigualdade. O Pontífice destaca o compromisso da Santa Sé e pede aos líderes reunidos no G20 ações concretas na redistribuição justa de recursos e decisões ousadas que garantam dignidade e alimento a todos.

 

Thulio Fonseca - Vatican News

O Papa Francisco enviou uma mensagem aos líderes do G20, reunidos no Rio de Janeiro, para tratar de temas como a urgência de ações concretas no combate à fome e à pobreza no mundo. A mensagem foi lida nesta segunda-feira, 18 de novembro, pelo Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, durante o lançamento da Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza.

No texto, endereçado ao presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, o Papa Francisco faz um apelo por solidariedade global e coordenação entre as nações para enfrentar injustiças sociais e econômicas, e sublinha que ações imediatas e conjuntas são indispensáveis para erradicar a fome e a pobreza, com foco na dignidade humana, no acesso aos bens essenciais e na redistribuição justa de recursos:

"É evidente que devem ser tomadas ações imediatas e decisivas para erradicar o flagelo da fome e da pobreza. Tais ações devem ser realizadas de forma conjunta e colaborativa, com o envolvimento de toda a comunidade internacional. A implementação de medidas eficazes requer um compromisso concreto dos governos, das organizações internacionais e da sociedade como um todo. A centralidade da dignidade humana, dada por Deus, de cada indivíduo, o acesso aos bens essenciais e a justa distribuição de recursos devem ser priorizados em todas as agendas políticas e sociais."

 

Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza: a proposta da Santa Sé

Um dos pilares da mensagem é a abordagem de Francisco sobre a proposta de criação da Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza. O Papa também alertou contra programas que ignoram as reais necessidades dos mais pobres e enfatizou que a fome resulta de desigualdades estruturais na distribuição de recursos, não da escassez de alimentos:

"A Aliança poderia começar implementando a proposta de longa data da Santa Sé, que propõe redirecionar fundos atualmente alocados para armas e outros gastos militares para um fundo global destinado a combater a fome e promover o desenvolvimento nos países mais empobrecidos. Essa abordagem ajudaria a evitar que os cidadãos desses países tivessem que recorrer a soluções violentas ou ilusórias, ou a deixar seus países em busca de uma vida mais digna."

 

Solidariedade internacional como base para o futuro

Ao destacar a importância de uma solidariedade internacional baseada na fraternidade e no cuidado com a casa comum, o Santo Padre pediu ao G20 que mantenha a luta contra a fome como prioridade permanente, não apenas em momentos de crise. Ao encerrar, Francisco instou os líderes a tomarem decisões ousadas e concretas:

"A Santa Sé continuará promovendo a dignidade humana e fazendo sua contribuição específica para o bem comum, oferecendo a experiência e o engajamento das instituições católicas ao redor do mundo, para que em nosso mundo nenhum ser humano, como pessoa amada por Deus, seja privado de seu pão diário. Que o Deus Todo-Poderoso abençoe abundantemente seus trabalhos e esforços para o verdadeiro progresso de toda a família humana."

 

G20 no Rio de Janeiro

O G20, que reúne as 20 maiores economias do planeta, realiza sua cúpula nos dias 18 e 19 de novembro de 2024, no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro. O lema do evento, "Construindo um mundo justo e um planeta sustentável", reflete o compromisso do Brasil em promover acordos globais que combinem prosperidade econômica com inclusão social e desenvolvimento ambiental.

O encontro ocorre em um momento crítico, com o aumento de conflitos internacionais, desigualdade econômica e crises climáticas. A programação inclui debates sobre segurança alimentar, mudanças climáticas, saúde global e reforma do sistema financeiro internacional.

Além disso, o evento busca representar um compromisso com uma governança global mais equitativa e com uma transição ecológica justa e inclusiva. Entre os líderes presentes estão representantes dos Estados Unidos, China, Índia, Itália, Alemanha, França, Japão e outros países.

 

Comissão da Santa Sé para o G20

A comissão da Santa Sé para o G20 é composta pelo cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano; dom Giambattista Diquattro, núncio apostólico no Brasil; cardeal Orani João Tempesta, arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro; monsenhor Joseph Grech, secretário do cardeal Parolin; e por monsenhor André Sampaio, vigário episcopal do Rio de Janeiro. Fonte: https://www.vaticannews.va 

No almoço com Francisco na Sala Paulo VI neste domingo (17/11) também estará Giuseppe, um sem-teto de Roma, que há poucos dias recebeu de presente, do Dicastério para o Serviço da Caridade, um par de sapatos que o Pontífice havia disponibilizado para os mais necessitados. A história foi compartilhada com a mídia do Vaticano pelo cardeal Krajewski, o esmoleiro do Papa: o significado do evento que está sendo celebrado neste dia é de restaurar a dignidade das pessoas.

 

Pe. Paweł Rytel-Andrianik e Pe. Marek Weresa - Vatican News

No oitavo Dia Mundial dos Pobres, neste domingo (17/11), o Papa convidou os pobres e os sem-teto para a missa e uma refeição comunitária a ser realizada na Sala Paulo VI com 1.300 pessoas. Também fará parte desse grupo Giuseppe, um sem-teto de Roma, que há poucos dias recebeu um par de sapatos como presente do Pontífice. Celebrar o Dia Mundial dos Pobres significa seguir Jesus e simplesmente pensar da mesma forma como indicado no Evangelho, porque é isso que Cristo teria feito e, portanto, é isso que também faremos. É assim que o cardeal Konrad Krajewski, esmoleiro do Papa, explica à mídia do Vaticano sobre o significado do evento do dia em que o Papa Francisco preside missa na Basílica do Vaticano e depois almoça com 1.300 pessoas necessitadas na Sala Paulo VI.

 

Os sapatos do Papa para um sem-teto

O cardeal, falando sobre as atividades do Dicastério para o Serviço da Caridade e os muitos exemplos de bondade e ajuda, contou sobre Giuseppe, um “sem-teto local” que vive nas ruas há anos. Esta semana, o Papa recebeu um par de sapatos tamanho 42. Francisco imediatamente entregou esse presente ao departamento da Esmolaria Apostólica. Poucas horas depois, Giuseppe chegou precisando de sapatos; ele disse que não conseguia mais andar com os velhos que estava usando.  O número 42 foi providencialmente seu. “Ele recebeu imediatamente os sapatos do Santo Padre, calçou-os e também estará na refeição com o Papa no domingo.”

 

“A oração do pobre eleva-se até Deus”

O cardeal, referindo-se ao tema do Dia Mundial dos Pobres deste ano “A oração do pobre eleva-se até Deus”, enfatizou que o modelo em oração para nós é Jesus que, no Evangelho, nos deixou muitas imagens e exemplos que mostram a virtude da perseverança. “Nós vencemos quando rezamos a Deus”, observa Krajewski. Ao mesmo tempo, ele ressalta que como e quando Deus ouve as orações dos “pobres” é um mistério. Pode ser necessária uma atitude prolongada de oração, como na história de Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho; ou há situações em que as invocações são ouvidas muito rapidamente; mas também há casos em que as orações não são atendidas. Isso acontece por uma razão simples, diz o cardeal: o que acontece pode não ser para o meu bem. “É por isso que Deus ouve as orações que nos tornam belos, para agradar a Deus e às pessoas. Elas são para o nosso próprio bem e isso é provavelmente a coisa mais importante”, diz o esmoleiro.

 

Restaurar a dignidade ouvindo

Krajewski lembrou que os eventos deste domingo (17/11) são precedidos por inúmeras iniciativas para cuidar dos pobres, como o ambulatório sob a Colunata de Bernini, que fica aberto todos os dias e recebe cerca de 150 pessoas sem-teto. Todos os necessitados, mesmo as pessoas sem documentos ou que não sabem italiano, podem contar com atendimento médico abrangente. Antes de tudo, porém, é preciso ouvir o próximo, sua história e suas necessidades, porque “restaurar a dignidade também acontece ouvindo”. Essas pessoas com fragilidades são visitadas por médicos e recebem medicamentos gratuitos do Santo Padre na farmácia do Vaticano. A refeição após a Eucaristia com os pobres, organizada pelo Dicastério para o Serviço da Caridade, é oferecida pela Cruz Vermelha Italiana. No final, todos receberão dos padres da Congregação dos Sacerdotes Missionários uma mochila contendo alimentos e produtos de necessidades básicas para a vida cotidiana. Fonte: https://www.vaticannews.va

XXXIII Domingo do Tempo Comum


17 de novembro de 2024

 

A oração do pobre eleva-se até Deus (cf. Sir 21, 5)

Caros irmãos e irmãs!

 

  1. A oração do pobre eleva-se até Deus (cf. Sir21, 5). No ano dedicado à oração, em vista do Jubileu Ordinário de 2025, esta expressão da sabedoria bíblica é ainda mais oportuna a fim de nos preparar para o VIII Dia Mundial dos Pobres, que acontecerá no próximo 17 de novembro. A esperança cristã inclui também a certeza de que a nossa oração chega à presença de Deus; não uma oração qualquer, mas a oração do pobre. Reflitamos sobre esta Palavra e “leiamo-la” nos rostos e nas histórias dos pobres que encontramos no nosso dia-a-dia, para que a oração se torne um modo de comunhão com eles e de partilha do seu sofrimento.

 

  1. livro de Ben-Sirá, ao qual nos referimos, não é muito conhecido e merece ser descoberto pela riqueza dos temas que aborda, sobretudo quando se refere à relação do homem com Deus e com o mundo. O seu autor, Ben-Sirá, é um mestre, um escriba de Jerusalém que, provavelmente, escreve no século II a.C. Radicado na tradição de Israel, é um homem sábio, que ensina sobre vários domínios da vida humana: desde o trabalho à família, desde a vida em sociedade à educação dos jovens; presta atenção às questões relacionadas com a fé em Deus e a observância da Lei. Aborda os problemas nada fáceis da liberdade, do mal e da justiça divina, que hoje são de grande atualidade também para nós. Inspirado pelo Espírito Santo, Ben-Sirá pretende transmitir a todos o caminho a seguir para uma vida sábia e digna de ser vivida diante de Deus e dos irmãos.

 

  1. Um dos temas a que este autor sagrado dedica mais espaço é a oração, e fá-lo com grande ardor, porque dá voz à sua própria experiência pessoal. Efetivamente, nenhum texto sobre a oração poderia ser eficaz e fecundo se não partisse de quem se encontra diariamente na presença de Deus e escuta a sua Palavra. Ben-Sirá declara que, desde a sua juventude, procurou a sabedoria: «Quando eu era ainda jovem, antes de ter viajado, busquei abertamente a sabedoria na oração» (Sir51, 13).

 

  1. No seu caminho, descobre uma das realidades fundamentais da revelação, ou seja, o facto de os pobres terem um lugar privilegiado no coração de Deus, a tal ponto que, perante o seu sofrimento, Deus se “impacienta” enquanto não lhes faz justiça: «A oração do humilde penetrará as nuvens, e não se consolará, enquanto ela não chegar até Deus. Ele não se afastará, enquanto o Altíssimo não olhar, não fizer justiça aos justos e restabelecer a equidade. O Senhor não tardará nem terá paciência com os opressores» (Sir35, 17-19). Deus, porque é um Pai atento e carinhoso para com todos, conhece os sofrimentos dos seus filhos. Como Pai, preocupa-se com aqueles que mais precisam dele: os pobres, os marginalizados, os que sofrem, os esquecidos... Ninguém está excluído do seu coração, uma vez que, diante d’Ele, todos somos pobres e necessitados. Somos todos mendigos, pois sem Deus não seríamos nada. Nem sequer teríamos vida se Deus não no-la tivesse dado. E, no entanto, quantas vezes vivemos como se fôssemos os donos da vida ou como se tivéssemos de a conquistar! A mentalidade mundana pede que sejamos alguém, que nos tornemos famosos independentemente de tudo e de todos, quebrando as regras sociais para alcançar a riqueza. Que triste ilusão! A felicidade não se adquire espezinhando os direitos e a dignidade dos outros.

A violência causada pelas guerras mostra claramente quanta arrogância move aqueles que se consideram poderosos aos olhos dos homens, enquanto aos olhos de Deus são miseráveis. Quantos novos pobres produz esta má política das armas, quantas vítimas inocentes! Contudo, não podemos recuar. Os discípulos do Senhor sabem que cada um destes “pequeninos” traz gravado em si o rosto do Filho de Deus, e que a nossa solidariedade e o sinal da caridade cristã devem chegar até eles. «Cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade; isto supõe estar docilmente atentos, para ouvir o clamor do pobre e socorrê-lo» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 187).

 

  1. Neste ano dedicado à oração, precisamos de fazer nossa a oração dos pobres e rezar com eles. É um desafio que temos de aceitar e uma ação pastoral que precisa de ser alimentada. Com efeito, «a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. A imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura à fé; tem necessidade de Deus e não podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé. A opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude religiosa privilegiada e prioritária» (ibid., 200).

Tudo isto requer um coração humilde, que tenha a coragem de se tornar mendigo. Um coração pronto a reconhecer-se pobre e necessitado. Existe, efetivamente, uma correspondência entre pobreza, humildade e confiança. O verdadeiro pobre é o humilde, como afirmava o santo bispo Agostinho: «O pobre não tem de que se orgulhar, o rico tem o orgulho para combater. Portanto, escuta-me: sê um verdadeiro pobre, sê virtuoso, sê humilde» (Discursos, 14, 4). O homem humilde não tem nada de que se vangloriar nem nada a reclamar, sabe que não pode contar consigo próprio, mas acredita firmemente que pode recorrer ao amor misericordioso de Deus, diante do qual se encontra como o filho pródigo que regressa a casa arrependido para receber o abraço do pai (cf. Lc 15, 11-24). O pobre, sem nada em que se apoiar, recebe a força de Deus e coloca n’Ele toda a sua confiança. Com efeito, a humildade gera a confiança de que Deus nunca nos abandonará e não nos deixará sem resposta.

 

  1. Aos pobres que habitam as nossas cidades e fazem parte das nossas comunidades, recomendo que não percam esta certeza: Deus está atento a cada um de vós e está perto de vós. Ele não se esquece de vós, nem nunca o poderia fazer. Todos nós fazemos orações que parecem não ter resposta. Por vezes, pedimos para sermos libertados de uma miséria que nos faz sofrer e nos humilha, e Deus parece não ouvir a nossa invocação. Mas o silêncio de Deus não significa distração face ao nosso sofrimento; pelo contrário, contém uma palavra que pede para ser acolhida com confiança, abandonando-nos a Ele e à sua vontade. É ainda Ben-Sirá que o testemunha: “O juízo de Deus será em favor dos pobres” (cf. 21, 5). Da pobreza, portanto, pode brotar o canto da mais genuína esperança. Lembremo-nos de que «quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. […] Esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 2).

 

  1. Dia Mundial dos Pobres tornou-se um compromisso na agenda de cada comunidade eclesial. É uma oportunidade pastoral que não deve ser subestimada, porque desafia cada fiel a escutar a oração dos pobres, tomando consciência da sua presença e das suas necessidades. É uma ocasião propícia para realizar iniciativas que ajudem concretamente os pobres, e também para reconhecer e apoiar os numerosos voluntários que se dedicam com paixão aos mais necessitados. Devemos agradecer ao Senhor pelas pessoas que se disponibilizam para escutar e apoiar os mais pobres: sacerdotes, pessoas consagradas e leigos que, com o seu testemunho, são a voz da resposta de Deus às orações daqueles que a Ele recorrem. Portanto, o silêncio quebra-se sempre que se acolhe e abraça um irmão necessitado. Os pobres têm ainda muito para ensinar, porque numa cultura que colocou a riqueza em primeiro lugar e que sacrifica muitas vezes a dignidade das pessoas no altar dos bens materiais, eles remam contra a corrente, tornando claro que o essencial da vida é outra coisa.

 

A oração, por conseguinte, encontra o certificado da sua autenticidade na caridade que se transforma em encontro e proximidade. Se a oração não se traduz em ações concretas, é vã; efetivamente, «a fé sem obras está morta» (Tg 2, 26). Contudo, a caridade sem oração corre o risco de se tornar uma filantropia que rapidamente se esgota. «Sem a oração quotidiana, vivida com fidelidade, o nosso fazer esvazia-se, perde a alma profunda, reduz-se a um simples ativismo» (BENTO XVI, Catequese, 25 de abril de 2012). Devemos evitar esta tentação e estar sempre vigilantes com a força e a perseverança que nos vem do Espírito Santo, que é dador de vida.

 

  1. Neste contexto, é bom recordar o testemunho que nos deixou Madre Teresa de Calcutá, uma mulher que deu a vida pelos pobres. Esta santa repetia continuamente que a oração era o lugar dondetirava força e fépara a sua missão de serviço aos últimos. Quando falou na Assembleia Geral da ONU, a 26 de outubro de 1985, mostrando a todos as contas do terço que trazia sempre na mão, disse: «Sou apenas uma pobre freira que reza. Ao rezar, Jesus põe o seu amor no meu coração e eu vou dá-lo a todos os pobres que encontro no meu caminho. Rezai vós também! Rezai, e sereis capazes de ver os pobres que tendes ao vosso lado. Talvez no mesmo andar da vossa casa. Talvez até nas vossas próprias casas há quem espera pelo vosso amor. Rezai, e abrir-se-ão os vossos olhos e encher-se-á de amor o vosso coração».

E como não recordar aqui, na cidade de Roma, São Bento José Labre (1748-1783), cujo corpo jaz e é venerado na igreja paroquial de Santa Maria ai Monti. Peregrino desde França até Roma, rejeitado em muitos mosteiros, viveu os seus últimos anos pobre entre os pobres, passando horas e horas em oração diante do Santíssimo Sacramento, com o terço, recitando o breviário, lendo o Novo Testamento e a Imitação de Cristo. Não tendo sequer um pequeno quarto para se alojar, dormia habitualmente num canto das ruínas do Coliseu, como “vagabundo de Deus”, fazendo da sua existência uma oração incessante que subia até Ele.

 

  1. No caminho para o Ano Santo, exorto todos a fazerem-se peregrinos da esperança, dando sinais concretos de um futuro melhor. Não nos esqueçamos de guardar «os pequenos detalhes do amor» (Exort. ap.Gaudete et Exsultate, 145): parar, aproximar-se, dar um pouco de atenção, um sorriso, uma carícia, uma palavra de conforto... Estes gestos não podem ser improvisados; antes, exigem uma fidelidade quotidiana, muitas vezes escondida e silenciosa, mas fortalecida pela oração. Neste momento, em que o canto da esperança parece dar lugar ao ruído das armas, ao grito de tantos inocentes feridos e ao silêncio das inúmeras vítimas das guerras, dirijamos a Deus a nossa invocação de paz. Somos pobres de paz e, para a acolher como um dom precioso, estendemos as mãos, ao mesmo tempo que nos esforçamos por costurá-la no dia-a-dia.
  2. Em todas as circunstâncias, somos chamados a ser amigos dos pobres, seguindo os passos de Jesus, que foi o primeiro a solidarizar-se com os últimos. Que a Santa Mãe de Deus, Maria Santíssima, nos sustente neste caminho; ela que, aparecendo em Banneux, nos deixou uma mensagem a não esquecer: «Eu sou a Virgem dos pobres». A ela, a quem Deus olhou pela sua humilde pobreza e em quem realizou grandes coisas com a sua obediência, confiemos a nossa oração, convictos de que subirá até ao céu e será ouvida.

Roma – São João de Latrão, na Memória de Santo António, Patrono dos pobres, 13 de junho de 2024. Fonte: https://www.vatican.va

FRANCISCO

 

Tema

A liturgia do 33º Domingo do Tempo Comum convida-nos a ler a história dos homens numa perspectiva de esperança. Garante-nos que o egoísmo, a violência, a injustiça, o pecado, não têm a “última palavra” na história do mundo e dos homens; a “última palavra” será sempre de Deus, que vai, a seu tempo, mudar a noite do mundo numa aurora de vida sem fim. É com essa certeza que devemos enfrentar a vida e o caminho que temos à nossa frente.

 

EVANGELHO – Marcos 13,24-32

O “discurso escatológico” de Jesus é um texto difícil, uma vez que emprega imagens e linguagens marcadas por alusões enigmáticas, bem ao jeito do género literário “apocalipse”. Nele confluem elementos de caráter histórico – a anunciada destruição de Jerusalém e do templo ocorrerá quarenta anos depois, no ano 70, quando as tropas romanas de Tito tomarem a cidade e a incendiarem – com reflexões de caráter profético sobre o sentido da história humana no seu conjunto. O objetivo do discurso seria dar aos discípulos indicações acerca da atitude a tomar frente às vicissitudes que marcarão a caminhada histórica da comunidade, até ao momento em que Jesus vier para instaurar, em definitivo, o novo céu e a nova terra.

 

INTERPELAÇÕES

Ver os telejornais ou escutar os noticiários é, com frequência, uma experiência que nos desassossega e que nos deprime. Os dramas da “aldeia global” que é o mundo entram em nossa casa, sentam-se à nossa mesa, perturbam a nossa tranquilidade, escurecem os nossos horizontes. A guerra, a opressão, a injustiça, a miséria, a escravidão, o egoísmo, o desprezo pela dignidade dos seres humanos, atingem-nos, mesmo quando acontecem a milhares de quilómetros do pequeno mundo onde nos movemos todos os dias. As sombras que marcam a história atual da humanidade tornam-se realidades próximas, tangíveis, que nos inquietam e nos desanimam. Sentimo-nos impotentes, incapazes de mudar o rumo das coisas. O futuro parece-nos sombrio e sem saída. A Palavra de Deus que hoje nos é servida abre, contudo, a porta à esperança. Reafirma, uma vez mais, que Deus não abandona os seus filhos que caminham na história e está determinado a transformar o mundo velho do egoísmo e do pecado num mundo novo de vida e de felicidade para todos os homens. A humanidade não caminha para o caos, para a destruição, para o sem sentido, para o nada; mas caminha ao encontro desse mundo novo em que o homem, com a ajuda de Deus, alcançará a plenitude das suas possibilidades. Como é que vemos e avaliamos a história dos homens? Acreditamos que o mal não triunfará e que a última palavra será sempre de Deus? Acreditamos que Deus fará surgir, das ruínas do mundo velho, um mundo novo, de alegria e de felicidade plenas?

Os cristãos não leem a história atual da humanidade como um caminho sem saída; mas veem os momentos de tensão e de luta que hoje marcam a vida dos homens e das sociedades como sinais de que o mundo velho está a ser transformado e renovado, e que em seu lugar vai surgir um mundo novo e melhor. Isso faz dos discípulos de Jesus arautos e testemunhas da esperança. Certos de que Deus conduz a história de acordo com o seu projeto, os seguidores de Jesus não vivem dominados pelo medo, pelo pessimismo, pelo desespero, por discursos negativos, por angústias a propósito do fim do mundo… Os nossos contemporâneos têm de ver em nós pessoas a quem a fé dá uma visão otimista da vida e da história; pessoas que caminham, alegres e confiantes, ao encontro desse mundo novo que Deus nos prometeu. Sustentados pela fé, somos testemunhas da esperança? Os homens e mulheres com quem nos cruzamos são contaminados pelo nosso testemunho de confiança em Deus, pela nossa alegria serena, pela coragem com que enfrentamos as vicissitudes e as crises da vida?

Deus é o Senhor da história, Deus é o arquiteto do mundo novo que irá surgir. No entanto, Ele associa-nos à sua obra e convoca-nos para trabalharmos ao lado d’Ele na concretização desse projeto. Os filhos e filhas de Deus não podem ficar de braços cruzados à espera que o mundo novo caia do céu; mas, enquanto caminham pela vida e pela história, são chamados a anunciar e a construir, com a sua vida, com as suas palavras, com os seus gestos, esse mundo que está nos projetos de Deus. Isso implica, antes de mais, um processo de conversão que nos leve a suprimir aquilo que em nós é egoísmo, orgulho, prepotência, exploração, injustiça (mundo velho); implica, também, testemunharmos objetivamente em gestos concretos, os valores do mundo novo: a partilha, o serviço, o perdão, o amor, a fraternidade, a solidariedade, a paz; implica, ainda, lutarmos sem desfalecer contra tudo aquilo que desfeia o mundo, que causa sofrimento e morte, que põe em causa a vida, a liberdade e a felicidade dos filhos e filhas de Deus. Aceitamos ser protagonistas, ao lado de Deus, na construção de um mundo mais justo, mais fraterno, mais humano, ou deixamo-nos arrastar passivamente, acomodados e instalados, aceitando que o mundo avance sem a nossa intervenção e sem o nosso testemunho de discípulos de Jesus?

Esse Deus que não abandona os homens na sua caminhada histórica vem continuamente ao nosso encontro para nos deixar os seus desafios, para nos fazer entender os seus projetos, para nos indicar os caminhos que Ele nos chama a percorrer. Da nossa parte, precisamos de estar atentos à sua proximidade e reconhecê-l’O nos sinais da história, no rosto dos irmãos, nos apelos dos que sofrem e que buscam a libertação. O cristão não vive de olhos postos no céu, à espera de uma comunicação especial de Deus; mas vive de olhos postos no mundo, para “ler” o que está a acontecer a cada instante e para escutar os apelos que Deus lhe deixa a cada momento nos acontecimentos da história e nos factos corriqueiros de que é feita a nossa vida de todos os dias. Procuramos detectar os apelos e sinais que Deus nos envia e através dos quais Ele nos indica o que espera de nós? Procuramos manter-nos íntimos de Deus, dialogar frequentemente com Ele, escutar a sua Palavra, a fim de percebermos o plano que Ele tem para o mundo e para nós?

Há uma realidade incontornável, que nunca podemos olvidar: apesar da ação de Deus e dos nossos próprios esforços para que o nosso mundo seja, a cada instante, transformado e humanizado, o mundo novo com que sonhamos e que está no projeto de Deus nunca será uma realidade plena nesta terra: a nossa caminhada neste mundo será sempre marcada pela nossa finitude, pelos nossos limites, pela nossa imperfeição, pelo nosso egoísmo, pelas nossas opções discutíveis. O mundo novo sonhado por Deus é uma realidade escatológica, cuja plenitude só acontecerá depois de Cristo, o Senhor, ter destruído definitivamente o mal que nos torna escravos. Estamos conscientes disso? Temos consciência de que caminhamos rodeados de debilidade e de finitude, mas que isso não pode enfraquecer o nosso compromisso, os nossos esforços, a nossa alegria, a nossa confiança em Deus?...

*Leia na integra. Clique no link ao lado- EVANGELHO DO DIA.