Chuvas deixam ao menos 30 mortos e mais de 3.000 desabrigados na zona da mata de MG
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Juiz de Fora contabiliza 24 óbitos em meio à maior chuva para o mês de fevereiro
Três cidades decretam calamidade pública; temporais continuam na quarta
Bombeiros trabalham em área de desabamento na região de Parque Burnier em Juiz de Fora (MG) - Reprodução/TV Globo
São Paulo
Ao menos 30 pessoas morreram e 39 estão desaparecidas na zona da mata de Minas Gerais em razão das chuvas que atingem a região desde a noite de segunda-feira (23). Cenas de moradores tentando socorrer vizinhos ilhados, casas desmoronando, ruas completamente alagadas, além de carros e até caixões de funerária sendo levados pela enxurrada, se repetiam ao longo do dia.
Juiz de Fora, uma das cidades mais afetadas, registrava na noite desta terça 24 óbitos e 37 desaparecidos, de acordo com o Corpo de Bombeiros. Outras seis mortes aconteceram na cidade de Ubá, a 111 quilômetros, que também buscava dois desaparecidos, segundo a corporação.
Os estragos em Juiz de Fora levaram a prefeita Margarida Salomão (PT) a decretar estado de calamidade pública na cidade mineira ainda durante a madrugada desta terça, o que foi reconhecido pelo governo federal. Ubá e a cidade de Matias Barbosa também decretaram a medida, o que facilita para receber ajuda tanto federal quanto estadual.
Mais de 3.000 pessoas estão desabrigadas em Juiz de Fora, segundo a prefeitura. Elas receberam acolhimento e acomodação provisória em 15 escolas. As aulas no município foram suspensas, assim como foi determinado trabalho remoto para os servidores que atuam na sede da prefeitura, no centro.
Segundo a prefeita, o temporal provocou ao menos 20 soterramentos de imóveis no município, principalmente na região sudeste. Somente no bairro Parque Jardim Burnier, o mais afetado, uma encosta deslizou e 12 imóveis foram soterrados.
Até as 18h desta terça-feira, o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) havia registrado 605,6 mm de chuva no município de Juiz de Fora, o que torna este o fevereiro mais chuvoso da história da cidade. Esse volume é cerca de três vezes e meia o volume médio histórico do município, de 170 mm, que é definido baseado nos registros dos últimos 30 anos.
O maior volume ocorreu entre as 18h e a meia-noite de segunda-feira, período em que o acumulado alcançou quase 150 mm, na região de Nossa Senhora de Lourdes, pela medição do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais). Isso significa que, em seis horas, choveu quase a média histórica do mês.
A intensidade da chuva provocou o transbordamento do rio Paraibuna e a interdição da ponte Vermelha e do túnel Mergulhão.
"Juiz de Fora é um município que tem um conjunto de morros que ultrapassam 100 metros de altura, do topo à base. Ao mesmo tempo, tem uma rede de drenagem muito volumosa. Por isso há dois problemas simultâneos. O de movimento de massa, com deslocamento de encostas, e o transbordamento de rios", explica Miguel Felippe, professor do departamento de geociências da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora).
Em Ubá, foram cerca de 170 mm de precipitação em cerca de três horas e meia, segundo a gestão do prefeito José Damato Neto (PSD). De acordo com medições realizadas na área central, o rio Ubá atingiu 7,82 metros e gerou inundações em área urbana, com impacto em diversos bairros, ruas e estabelecimentos comerciais. A prefeitura diz ter atendido a 18 ocorrências, sendo que três pontes estão totalmente danificadas.
O governador Romeu Zema (Novo) decretou luto oficial de três dias. "Minas está presente e fará tudo o que estiver ao seu alcance para amenizar esse sofrimento", afirmou.
Os ministros do governo Lula (PT) Waldez Góes (Desenvolvimento Regional) e Adriano Massuda, interino do Ministério da Saúde, foram enviados à região e se reuniram com Zema e prefeitos. O presidente, em viagem pela Índia e Coreia do Sul, se manifestou sobre o episódio via redes sociais e afirmou ter telefonado diretamente para a prefeita de Juiz de Fora para prestar solidariedade e apoio federal.
Nesta quarta, o avanço de uma nova frente fria poderá provocar mais chuvas intensas, inicialmente na zona da mata e no sul e sudoeste de Minas, afirma a Defesa Civil estadual. "É uma situação extrema, que permite medidas extremas", disse a prefeita.
De acordo com o boletim do Cemaden para esta quarta, a zona da mata mineira tem risco muito alto tanto para alagamentos quanto para deslizamentos de terra. Assim, a população precisa estar preparada para enfrentar novos deslizamentos esparsos e generalizados em encostas, quedas de barreira à margem de estradas e rodovias, além de ocorrências de enxurradas, alagamentos em áreas de drenagem deficiente e inundações.
Segundo ela, a cidade precisa de um período de recuperação. "Estamos nos desdobrando para socorrer as pessoas e salvar vidas", disse.
Outras regiões mineiras que merecem atenção especial, segundo o Cemaden, é a região metropolitana de Belo Horizonte e de Ipatinga, no Vale do Aço. Nesses locais, o risco é alto de alagamentos e movimentação de massa.
O vice-governador Mateus Simões (PSD) afirmou que a população que recebeu alerta de risco de deslizamento deve deixar os imóveis. "Temos que começar a tratar da ocupação irregular no Brasil. É previsível que aconteceria uma coisa como essa, e é absolutamente devastador pensar que nós temos idosos e crianças soterradas aqui", afirmou. Fonte: www1.folha.uol.com.br
Psicólogo e estudante da Ufba morre na Bahia
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Manoel Rocha Reis Neto faleceu em Santo Antônio de Jesus, no recôncavo baiano. Corpo foi sepultado em Amargosa, cidade natal dele.
Psicólogo mestrando da Ufba é encontrado morto na Bahia — Foto: Reprodução/Redes Sociais
Por g1 BA
O psicólogo e mestrando da Universidade Federal da Bahia, Manoel Rocha Reis Neto, de 32 anos, morreu em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo da Bahia, na terça-feira (17).
Ele chegou a ser atendido pelo Samu, mas não resistiu. A Polícia Civil registrou a morte como suicídio.
O corpo foi sepultado em Amargosa, cidade natal dele, na mesma região. A cerimônia aconteceu na quarta-feira (18).
O psicólogo e mestrando da Universidade Federal da Bahia, Manoel Rocha Reis Neto, de 32 anos, morreu em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo da Bahia, na terça-feira (17). Ele chegou a ser atendido pelo Samu, mas não resistiu.
O corpo foi sepultado em Amargosa, cidade natal dele, na mesma região. A cerimônia aconteceu na quarta-feira (18). A Polícia Civil registrou a morte como suicídio.
Nesta quinta (19), a Ufba emitiu uma nota de pesar e se solidarizou com amigos e familiares do estudante, que tinha sido aprovado para o programa de mestrado da instituição no dia 29 de janeiro deste ano.
Manoel chegou a comemorar o fato nas redes sociais, com um longo texto sobre as dificuldades enfrentadas até a conquista. "Um velho-novo caminho começa", escreveu.
A Ufba também destacou ainda que o baiano cursou psicologia no Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); pós-graduação em Saúde da Família pelo programa de residência multiprofissional da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf); e foi aluno do Programa de Mobilidade Internacional da UFRB, no curso de Educação Social do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), em Portugal.
"O psicólogo era reconhecido pela atuação profissional comprometida e pelo vínculo próximo com a comunidade", disse a instituição na nota.
O Conselho Regional de Psicologia da Bahia (CRP-03) também se posicionou sobre o caso. Em nota, a entidade manifestou pesar e se solidarizou com todas as pessoas que conviveram com o psicólogo, incluindo colegas de profissão.
O CRP ainda destacou o trabalho de Manoel, pela "prática profissional comprometida com a escuta ética, o cuidado e a promoção da saúde mental".
"Sua atuação também foi marcada pelo engajamento na luta por uma sociedade antirracista, contribuindo ativamente para o fortalecimento de debates e práticas alinhadas à justiça social e à equidade racial".
Denúncia de racismo
Horas antes de morrer, Manoel Neto usou as redes sociais para fazer um relato de racismo, sofrido no Camarote Ondina, no circuito Dodô (Barra-Ondina), durante o carnaval de Salvador. Na ocasião, segundo o desabafo feito pelo psicólogo, um homem teria impedido sua passagem em um ponto da estrutura, gerando confusão.
Não há registro de briga física, mas a situação gerou desconforto em Manoel, que fez uma reflexão sobre o caso com os seguidores.
"Caros amigos pretos, não se enganem. Dinheiro, títulos, sucesso… isso não nos torna legitimados pelos olhos das belas almas brancas. Vocês serão humilhados sempre que uma pessoa branca cruzar o seu caminho", escreveu.
Em nota, o Camarote Ondina manifestou pesar pela morte do cliente e se solidarizou com familiares, amigos e pacientes dele.
"Reafirmamos nosso compromisso inegociável com o respeito, a diversidade e o combate a qualquer forma de racismo e discriminação. O carnaval da Bahia é expressão da cultura negra, da pluralidade e da convivência, valores que norteiam a atuação do nosso espaço. Seguimos comprometidos em promover um ambiente de acolhimento, inclusão e celebração para todas as pessoas", diz o posicionamento. Fonte: https://g1.globo.com
Passada a euforia do Carnaval, como lidar com o medo de ficar só?
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Sentimento que surge nesse 'primeiro dia do ano' talvez não seja apenas ressaca emocional
É delicioso viver encontros catárticos na festa, mas esse não é o único caminho para começar um bom samba a dois
Como lidar com o medo de ficar só que chega com tudo após o Carnaval? - Fizkes - 23.mai.24/Adobe Stock
"Ah, Mrs. Dalloway, sempre dando festas para evitar o silêncio", provoca Peter, amigo íntimo da protagonista de Virginia Woolf. A frase me vem à cabeça quando penso em nossa relação ambígua com a celebração e a evitação.
Quando alguém que nos conhece bem sugere que nossas festas talvez evitem o silêncio, não está condenando o encontro, está interrogando sua função. Porque há uma diferença sutil, e profundamente psíquica, entre gregarismo e escapismo. O primeiro é movimento em direção ao outro; o segundo, movimento para longe de si.
Nós, brasileiros carnavalescos, sabemos bem o que é rebolar nesta corda-bamba que é a tal linha fina entre o lançar-se ao mundo e o fugir de si. Sabemos fazer da rua um palco de êxtase e conexão. E é lindo que saibamos. A catarse coletiva, o delírio compartilhado, a fantasia que veste o corpo e suspende por alguns dias as hierarquias da vida ordinária não são mero adorno.
A psicanálise sustenta que não existe desejo sem fantasia. Não amamos o real cru; amamos através das cenas e narrativas que montamos pra dar contorno ao que nos falta. Fantasiar, assim, não é fugir da vida, é condição do vínculo.
O problema surge quando nos tornamos reféns do excesso. Quando a euforia funciona menos como celebração e mais como tampão contra a angústia que retorna, inevitável, nas cinzas da quarta. E, pior, quando passamos a acreditar que só somos desejáveis e amáveis enquanto estamos fantasiados com um excesso de amor próprio e autoestima: leves, bem-resolvidos, propositivos, brilhantes como a purpurina que ilumina a pele e encobre as sombras. É delicioso viver encontros intensos e catárticos na festa? Claro. Mas é esse o único caminho para começar um bom samba a dois? Jamais.
O medo da solidão que chega nesse "primeiro dia do ano" talvez não seja apenas ressaca emocional. E sim o retorno do que vinha sendo estancado não apenas nos dias de folia, mas no modus operandi de nossos tempos: multitarefas, produtivos, acelerados, viciados em emoções intensas e recompensas rápidas —essa nação dopamina que, ao maximizar ganhos, contatos e prazer, começa a patologizar o medo, a angústia, o tédio, o desinvestimento.
Traços profundamente humanos que são suprimidos pelo ideal de eu contemporâneo. Lacan já dizia que o superego moderno não proíbe o gozo; ele ordena que gozemos, que sejamos intensos, performáticos, emocionalmente resolvidos e sexualmente livres. Aprisionamos assim nossos retraimentos, dúvidas e dívidas emocionais temendo que elas sejam lidas como falhas morais e como indícios de que somos produtos afetivos com baixo valor simbólico.
Quando patologizamos o medo da solidão, nos sentimos duplamente condenados: por estarmos sós e por sermos "fracos". Como se o medo evidenciasse nossa falha em viver a solitude idealizada —autossuficiente e instagramável— e não a solidão real, que dói e revela nossa dependência estrutural do outro.
Somos seres de vínculo. Ao invés de perseguir a autossuficiência como ideal, desapegue dela. Você tem medo de ficar sozinho? Não fique. Peça e ofereça companhia. Busque colos de amigos, familiares, colegas de trabalho ou ioga. Conte sobre seus medos e nomeie seus desejos. E pergunte os do outro também. Falar sobre o que nos falta e ouvir as faltas alheias nos lembra que faltas não são falhas.
Ao invés de querer matar o medo, mate sua hiperexigência e se permita estar em boas companhias, mesmo quando não estiver bem. Esse movimento acalma o fantasma da solidão eterna e a fantasia de que se você estiver "pesado emocionalmente" ninguém vai te aguentar. Teste os vínculos, se jogue em quem se interessa por você e veja que eles sustentam.
Que possamos tirar as máscaras não para nos expor indiscriminadamente, mas para escolher melhor nossos laços. Que o medo não nos empurre para qualquer braço romântico apenas para silenciar o vazio. Que ele também não nos faça revisitar antigos fantasmas só para não atravessar o deserto do novo.
Ainda assim, permita-se querer um amor romântico. Diga que quer. Peça para ser apresentado. Circule por espaços que te interessam. Converse no estado em que estiver. Não espere a alma purpurinada. Faça contato visual. Divida uma referência, um pensamento, um desabafo honesto de quem está angustiado ou de mau humor.
Talvez o gesto mais subversivo depois do Carnaval não seja seguir beijando a três, mas pedir companhia sem performance. E, se pudermos levar algo do Carnaval para a vida que começa agora, que seja a abertura aos encontros e aos acasos —mas sem a exigência de estarmos prontos para o bloco. Que possamos sustentar o desejo de vínculos que nutram, apoiem, curem. E possamos honrar o medo de não encontrá-los. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
Um perigo real em ano eleitoral
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Intolerância religiosa no Brasil não é um fenômeno isolado, tampouco restrito a um único grupo ou tradição
Por Carolline Mello e Edilmar Alcantara
O final de 2025 foi marcado por intensa agitação na cidade do Rio de Janeiro. Não apenas pelo movimento típico de dezembro, mas sobretudo por um debate que se deslocou para os campos político e religioso – duas esferas que, há algum tempo, vêm se misturando de forma preocupante no cenário social brasileiro.
O imbróglio teve início quando o prefeito da cidade e pré-candidato ao governo do Estado, Eduardo Paes (PSD-RJ), respondeu em suas redes sociais a um trecho de entrevista concedida pelo professor e babalawô Ivanir dos Santos (UFRJ). O docente questionou a laicidade do Estado ao tomar conhecimento de que a prefeitura promoveria, no réveillon de 2026, um palco dedicado exclusivamente ao segmento gospel na Praia do Leme, e lamentou que tradições como saudações a Iemanjá perderiam espaço na orla.
Ao responder às críticas, o prefeito argumentou que Copacabana comporta diferentes manifestações culturais e religiosas e que a música gospel também poderia ocupar esse espaço. A controvérsia se agravou, no entanto, quando ele afirmou: “É impressionante o nível de preconceito dessa gente”. A expressão, ainda que possivelmente não intencional, mobiliza uma lógica recorrente quando o assunto é intolerância: a produção de um “outro” genérico, indistinto e potencialmente ameaçador.
O Rio de Janeiro tem sido palco de ataques sistemáticos a templos, sacerdotes e adeptos de religiões de matriz africana. Grupos autodeclarados cristãos, por vezes associados a organizações criminosas que controlam diferentes territórios da cidade, atuam de forma violenta contra praticantes do candomblé e da umbanda. Esses grupos, conhecidos como “soldados de Cristo” ou “traficantes evangelizados”, espalham terror e medo, impõem regras religiosas, ameaçam lideranças e obrigam líderes religiosos a vilipendiar seus objetos litúrgicos e seus templos. Promovem, ainda, o apagamento simbólico de tradições, como a proibição do uso de roupas brancas às sextas-feiras.
Esse ambiente de intolerância não se restringe às religiões afro-brasileiras. Ele também favorece a circulação de discursos antijudaicos e antissemitas, especialmente em contextos de radicalização política e moral. O antissemitismo, historicamente estruturado a partir da construção do judeu como inimigo simbólico – acusado de conspiração, poder oculto ou corrupção moral –, encontra terreno fértil em cenários em que a religião é instrumentalizada como ferramenta política.
Não é coincidência que, nesses mesmos espaços, proliferem apropriações distorcidas de elementos do judaísmo, leituras fundamentalistas da Bíblia e estereótipos antijudaicos que esvaziam a complexidade histórica, cultural e religiosa do povo judeu. Assim como ocorre com os povos de terreiro, o judaísmo é frequentemente reduzido a caricaturas que servem a projetos de poder e exclusão.
É legítimo que agentes políticos dialoguem com diferentes públicos, sobretudo em período pré-eleitoral. O que não se pode admitir é a naturalização de discursos que reforçam categorias genéricas como “essa gente”, pois elas alimentam processos históricos de desumanização. O Brasil já criminalizou práticas religiosas de origem africana e perseguiu expressões culturais negras; do mesmo modo, o antissemitismo, ainda que nem sempre se manifeste por meio da violência física, opera de forma estrutural na linguagem, nas narrativas e na suspeição permanente sobre a presença judaica no espaço público. Essa mesma estrutura do antissemitismo é frequentemente mobilizada para sustentar outras formas de opressão e intolerância, mudando os alvos, mas preservando a estrutura da exclusão.
No contexto do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado em 21 de janeiro por força da Lei n.º 11.635/2007 em homenagem à ialorixá Mãe Gilda de Ogum, o debate torna-se ainda mais urgente. Questionar o uso de recursos públicos para beneficiar um segmento religioso específico não constitui, em si, preconceito. Ao contrário: é exercício democrático e deve abrir espaço para reflexões mais amplas sobre o diálogo inter-religioso e a defesa das liberdades individuais e coletivas.
A recorrência de episódios como esses evidencia que a intolerância religiosa no Brasil não é um fenômeno isolado, tampouco restrito a um único grupo ou tradição. Trata-se de uma lógica estrutural que se intensifica em contextos de disputa política, nos quais a religião é mobilizada para produzir inimigos simbólicos, hierarquizar pertencimentos e legitimar exclusões. Enfrentar esse cenário exige mais do que reações pontuais: requer posicionamentos públicos claros, produção de conhecimento crítico e o fortalecimento de iniciativas comprometidas com a defesa do Estado laico, da democracia e do pluralismo religioso.
Diante desse cenário, o laboratório de estudos sobre Judeidade e Negritude, iniciativa do Instituto Brasil-Israel, por meio do projeto IBI no Campus, elaborou um manifesto contra todas as formas de intolerância, em defesa da liberdade, da democracia e do convívio plural. O manifesto é um chamado público à ação e à responsabilidade coletiva e está aberto à assinatura de todas as pessoas e instituições que se recusam a naturalizar o ódio religioso. Axé, shalom!
Opinião por Carolline Mello
Historiadora, mestre em Sociologia, é gerente de Educação do Instituto Brasil-Israel
Edilmar Alcantara
Cientista social, mestre em Biblioteconomia, é colaborador do Instituto Brasil-Israel
Fonte: https://www.estadao.com.br
Quem, em nosso país, não está em crise?
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Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora de "A Invenção de uma Bela Velhice"
Como disse Betinho, a indignação é a minha forma de me manter vivo
Rubem Alves escreveu "As duas caixas" (27 de abril de 2010) dias antes da minha primeira coluna ser publicada na Folha (1º de junho de 2010). Ele contou que Fernando Pessoa escrevia, lia o que escrevera e se assombrava. "Por que escrevi isto? Onde fui buscar isto? Isto é melhor do que eu..."
"Coisa parecida acontece comigo. Alguém me mostra um texto e diz que fui eu quem o escreveu. Leio-o, mas não o reconheço. É como se tivesse sido escrito por uma outra pessoa. Mas, à medida em que vou lendo, vou ficando alegre. É um texto bom, melhor do que eu!... Sinto, então, vontade de publicar aquele texto de novo. Se ele surpreendeu a mim, é de se esperar que o mesmo aconteça com os leitores. E por que não?"
Quando reli a coluna "Medíocres ou guerreiros" que escrevi sobre o governo de Fernando Collor de Mello, no Jornal do Brasil de 18 de novembro de 1990, me assombrei com a minha coragem e indignação. E me deu vontade de publicar aquele texto de novo. Por que não?
Medíocres ou guerreiros
Vivemos uma época de crises. Dizer isso já virou lugar comum. Crise de valores, crise social, crise econômica, crise política, crise da família, crise individual... Quem, em nosso país, não está em crise?
Pesquisas recentes demonstram que aumentou, vertiginosamente, o número de casos de doenças mentais... Muitos sonham em sair do Brasil, buscando um lugar sem violência ou desemprego. Outros desfazem casamentos para preservar a própria "individualidade". Amor e sexo transformaram-se em artigos de consumo, descartáveis. A palavra "compromisso" é "out". O país está doente. Filhos matam pais. Pais matam filhos. Maridos matam esposas. A mídia manipula facilmente a opinião pública. A desesperança impera soberana.
Decisões e atitudes do governo Collor são aceitas por todos, acriticamente, passivamente. Desde os episódios grotescos e vergonhosos da campanha eleitoral até atos recentes de corrupção descarada. Um governo medíocre, manipulador, corrupto, incompetente e sem nenhuma ética. Com um único mérito: usar e abusar dos veículos de comunicação em massa. Um governo maquiado de moderno e inovador, mas que, na verdade, é vazio de propostas e ideais sociais. E a fachada está ruindo apodrecida precocemente.
E nós, onde ficamos? Qual é a nossa responsabilidade frente a esta situação? "O que fazer?" Somos, sem dúvida, muito mais covardes, medíocres e infelizes do que éramos na época que sabíamos lutar. Quando ser "de esquerda" não era um problema existencial... Hoje vivemos uma profunda crise de identidade. Nossos valores, ideais, estão escondidos, envergonhados, em busca de uma nova definição. Somos pressionados pelo "consenso".
Os guerreiros, os revolucionários de tantos anos, que sabiam gritar, lutar e chorar, não sabem como enfrentar os vermes de caras bonitas e corpos atléticos. Tornamo-nos medrosos, desaprendemos como ousar, criar, acreditar. Como disse Betinho, Herbert de Souza, há algum tempo: "a indignação é a minha forma de me manter vivo". A coragem e a integridade também. O medo, a mediocridade e a resignação são formas de morrer.
Vivemos um momento em que o governo só quer destruir, acabar, aniquilar a cultura, a economia, as universidades, a saúde e, principalmente, a esperança. Nossa única saída é "fugir para a frente", enfrentando essa destruição construindo, reconstruindo, reaprendendo, buscando parceiros nesta enorme tarefa.
Medíocres ou guerreiros... Está em nossas mãos. Quem topa? Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
Jovem morre atropelada após subir em caminhão de limpeza no Carnaval de Salvador.
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Vítima se pendurou no veículo sem autorização, escorregou e caiu sob as rodas, afirma empresa
Limpurb prestou solidariedade e reforçou que prática é proibida
Salvador
Uma estudante de 24 anos morreu atropelada por um caminhão de limpeza na madrugada desta segunda-feira (16) na Carnaval de Salvador. O acidente aconteceu no circuito Barra Ondina após a passagem dos últimos trios elétricos, quando equipes realizavam a limpeza da via com um caminhão-pipa.
A Limpurb (Empresa de Limpeza Urbana de Salvador) informou que a mulher subiu no caminhão sem autorização, escorregou e caiu sobre uma das rodas do veículo. O socorro foi acionado, mas ela não resistiu aos ferimentos e morreu.
A empresa municipal de limpeza prestou solidariedade aos amigos e familiares da vítima. Também alertou que a prática de subir nos caminhões de limpeza é terminantemente proibida e orienta que as pessoas não subam ou se pendurem nos veículos.
A Limpurb destacou que ainda que seus caminhões operam seguindo protocolos de segurança e que o acesso é restrito a profissionais autorizados. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
Mulher é presa em flagrante ao matar o marido a facadas em Lagoa da Canoa
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Mulher mata marido a facadas em Lagoa da Canoa - Foto: Josival Meneses/Já É Notícia
Por Redação
Uma mulher matou o próprio marido com golpes de arma branca, neste sábado, 14, dentro de um quartinho, em uma localidade conhecida como Alto do Pixuta, nas proximidades da antiga estação e por trás de uma lagoa no município de Lagoa da Canoa, no Agreste do Estado. A vítima morreu no local antes de receber qualquer socorro médico.
De acordo com informações de populares, o casal vivia de favor em um quartinho, nos fundos de uma residência da região e costumava ingerir bebida alcoólica com frequência tanto na antiga estação quanto na casa onde dormiam. Na manhã do crime, os dois teriam iniciado mais uma discussão, que acabou evoluindo para agressão física.
Durante o desentendimento, a mulher teria esfaqueado o companheiro, conhecido como Gaguinho. Ele não resistiu aos ferimentos e morreu ainda dentro do quartinho.
Segundo relatos de moradores, o casal tinha um histórico de brigas constantes, com agressões mútuas. E após atingir o marido, a suspeita ainda foi até um posto de saúde da cidade pedindo ajuda para socorrê-lo. No entanto, quando as equipes chegaram ao local, o homem já estava em óbito.
A Polícia Militar foi acionada e realizou a prisão da mulher em flagrante, ainda no local do crime.
Também estiveram presentes equipes do Instituto de Criminalística (IC) e do Instituto Médico Legal (IML), responsáveis pela perícia e pelo recolhimento do corpo. Fonte: https://www.jaenoticia.com.br
Nova tragédia em Itumbiara: homem mata a ex-mulher e tira a própria vida
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Ex-marido agride a enteada de 15 anos e mata mulher a tiros antes de cometer suicídio, dias após o caso do secretário de Itumbiara

Novo caso em Itumbiara é tratado como feminicídio seguido de suicídio Foto: @vidocaofc/Instagram/ND Mais
A cidade de Itumbiara, em Goiás, foi palco de uma nova tragédia neste sábado (14). Um homem identificado como Pedro da Costa Queiroz assassinou a ex-esposa a tiros no bairro Jardim Europa, por volta das 16h, antes de tirar a própria vida.
A vítima, Elieser Teodoro da Silva, foi encontrada sem vida dentro de casa. O suspeito chegou a ser socorrido pelo Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), mas não resistiu.
A Polícia Militar de Goiás informou que a filha da vítima também foi agredida com uma coronhada na cabeça. A adolescente de 15 anos sofreu lesão na região craniana e precisou de atendimento médico. Até o momento, não há maiores detalhes sobre o estado de saúde.
A residência ficará isolada para preservação da cena até a conclusão dos trabalhos periciais. A polícia apreendeu a arma do crime, um revólver calibre .38, e outros pertences do autor.
Segundo o portal Mais Goiás, moradores tentaram prestar socorro ao ouvir os disparos, mas o suspeito armado ordenou que todos se afastassem.
O delegado Felipe Sala, do Grupo de Investigação de Homicídios de Itumbiara, afirmou ao jornal O HOJE que o caso é tratado como feminicídio seguido de suicídio.
“Tudo indica que seja mais um feminicídio seguido de suicídio. A filha da mulher, de 15 anos, foi atingida apenas com a coronhada e encaminhada ao hospital. A princípio, é isso. Mas ainda vamos apurar tudo corretamente”, disse o delegado ao O HOJE.
“A investigação acaba de começar. Estamos acompanhando a perícia aqui no local do crime e, assim que chegarmos à delegacia, vamos instaurar o inquérito e dar continuidade às investigações”, completou.
Itumbiara vive nova tragédia após pai matar os próprios filhos nesta semana
O feminicídio ocorre dias após o secretário municipal de Itumbiara, Thales Machado, disparar contra os dois filhos e cometer suicídio na quarta-feira (11). O caso provocou comoção e revolta na cidade de 107 mil habitantes.
Benício Araújo Machado, de 8 anos, foi sepultado neste sábado. Ele teve a morte cerebral confirmada após passar por cirurgia e ser internado em estado gravíssimo na UTI do Hospital Estadual de Itumbiara.
O enterro do irmão Miguel, de 12 anos, ocorreu na quinta-feira (12). Ele chegou a ser levado ao HMMC (Hospital Municipal Modesto de Carvalho) na noite do crime, mas não resistiu aos ferimentos.
Thales Machado, de 40 anos, era casado com a filha do prefeito Dione Araújo (União Brasil) e ocupava cargo de confiança na gestão do sogro. Antes de tirar a própria vida, ele teria publicado uma carta aberta acusando a esposa Sarah Araújo de traição.
“Partimos eu e meus meninos que agora são anjos que infelizmente vieram comigo… a todos digo que nunca pensei nisso, foi hoje… todos sabem como sou intenso e verdadeiro e não iria conseguir viver mais com essas lembranças…”, diz o texto.
“Dione meu eterno respeito e admiração e desculpe pelo que fiz… sei que não tem perdão mas foi o q sobrou nesse dia infeliz dos meus 40 anos”, teria escrito Thales.
A mãe das crianças, Sarah Araújo, tem sido alvo de ataques nas redes sociais pela suposta traição. Ela precisou ser escoltada no velório do próprio filho, em que foi hostilizada. A tragédia em Itumbiara acende alerta para violência vicária, quando o agressor usa os filhos para provocar sofrimento e culpabilizar a vítima. Fonte: https://ndmais.com.br
Pai é suspeito de matar filha de 15 anos com machado e depois tirar a própria vida na Bahia
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Adolescente é morta com golpes de machado em Irará e pai de 39 anos, suspeito do crime, teria tirado a própria vida Foto: Redes sociais/Reprodução/ND Mais
De acordo com a polícia, adolescente foi morta com golpes de machado na noite de quinta-feira (12) em Irará e pai, suspeito do crime, tirou a própria vida
A adolescente Beatriz Alves Moraes, de 15 anos, foi morta com golpes de machado na noite de quinta-feira (12), no município de Irará (BA). De acordo com informações da Polícia Civil, o corpo da vítima foi encontrado em um terreno baldio.
O pai da menina, Danilo Moraes da Silva, de 39 anos, suspeito de matar a filha, teria tirado a própria vida na sequência. Ele foi encontrado morto em um imóvel da família, em um loteamento residencial da cidade.
A Polícia Civil da Bahia investiga as circunstâncias e a motivação do caso, segundo o programa de televisão Bahia No Ar.
Na madrugada de quinta-feira, outro crime similar chocou o país. Em Itumbiara (GO), o secretário da Prefeitura Thales Machado teria cometido suicídio após atirar contra os dois filhos, que não resistiram.
Adolescente é morta com golpes de machado e Prefeitura presta solidariedade
Nas redes sociais, a Prefeitura de Irará lamentou a morte de Beatriz. “Uma pessoa querida por todos, que deixou uma marca de bondade e alegria por onde passou”, escreveu em nota. Fonte: https://ndmais.com.br
Homem empurra cadeirante de prédio e se joga em seguida, no Recife; ambos morreram em decorrência da queda
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Incidente aconteceu na noite da sexta-feira (13), em edifício que fica próximo ao Segundo
Jardim de Boa Viagem, na Zona Sul. Ambos morreram em decorrência da queda.
Por g1 Pernambuco, TV Globo
Um homem empurrou um cadeirante do quarto andar de um prédio em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, e se jogou em seguida. Ambos faleceram em decorrência da queda.
O incidente ocorreu no Edifício Pindorama, na noite da sexta-feira (13).
A Polícia Civil do Recife investiga as circunstâncias e a motivação do crime, que ainda são desconhecidas.
Um homem de 35 anos empurrou um cadeirante do quarto andar de um prédio em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, na noite desta sexta-feira (13). Em seguida, ele se jogou. Os dois morreram em decorrência da queda. Imagens feitas por vizinhos, logo após o crime, mostram a movimentação de policiais na área (veja vídeo acima).
De acordo com apuração da TV Globo, a polícia afirmou que o cadeirante foi arremessado e morreu na hora da queda. Já o homem que o empurrou e depois pulou do prédio chegou a ser encaminhado para o Hospital da Restauração, no bairro do Derby, no Centro do Recife, mas não resistiu aos ferimentos e chegou morto à unidade de saúde.
A tragédia aconteceu no Edifício Pindorama, que fica na Rua Phaelante da Câmara, próximo ao Segundo Jardim de Boa Viagem. A Polícia Militar foi acionada para a ocorrência e enviou equipe do 19º Batalhão para isolar a área para atuação do Instituto de Criminalística (IC) e do Instituto de Medicina Legal (IML).
De acordo com apuração feita pela TV Globo, os homens estavam juntos dentro do apartamento quando um deles, em surto, arremessou o cadeirante. Uma terceira pessoa tentou contê-lo e também quase foi jogada do quarto andar. Porém, antes disso, o homem em surto pulou do prédio. Fonte: https://g1.globo.com
Morre segundo filho baleado por secretário de Governo em Itumbiara (GO)
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Polícia Civil confirma morte de menino de 8 anos; irmão de 12 também não resistiu
Caso é investigado como duplo homicídio seguido de suicídio; prefeitura decreta luto de três dias
Thales Machado e seus filhos Benício, 8, e Miguel, 12; segundo a polícia, pai matou as duas crianças e cometeu suicídio - Thales Machado no Instagram
Rio de Janeiro
A Polícia Civil de Goiás confirmou nesta sexta-feira (13) a morte de Benício Araújo Machado, 8, segundo filho do secretário de Governo de Itumbiara, Thales Naves Alves Machado, 40. O menino estava internado em estado gravíssimo na UTI do Hospital Estadual da cidade desde a noite de quarta-feira (11), quando foi baleado pelo pai, e morreu no final da tarde.
O irmão mais velho, Miguel Araújo Machado, 12, morreu ainda na quinta-feira (12) após ser atingido pelos disparos.
Segundo a investigação, Thales atirou contra os dois filhos no condomínio onde a família morava, na madrugada de quinta, e se matou em seguida. Com a morte do caçula, o caso passou a ser tratado como duplo homicídio seguido de suicídio.
A Polícia Civil instaurou inquérito para apurar os fatos. A investigação é conduzida pelo Grupo de Investigação de Homicídios de Itumbiara. Até o momento, segundo a corporação, não há indícios de participação de terceiros.
Durante o enterro de Miguel, no fim da tarde de quinta-feira, a mãe do menino, Sarah Araújo, deixou o cemitério antes do encerramento da cerimônia após relatos de ameaças, segundo testemunhas que pediram para não ser identificadas. De acordo com o portal Mais Goiás, ela precisou de escolta para participar da despedida.
Ainda segundo o site, Sarah entrou no cemitério sob proteção, e o carro que a transportava parou em frente ao local do sepultamento. Amparada por familiares e amigos, acompanhou o cortejo, que teve início às 17h50.
O corpo de Benício será velado a partir das 7h deste sábado (14), na casa do prefeito de Itumbiara, Dione Araújo. O enterro está previsto para o Cemitério Avenida da Saudade, mas o horário ainda não havia sido definido até a última atualização desta reportagem.
Thales era genro do prefeito. Horas antes do crime, publicou nas redes sociais um vídeo ao lado dos filhos, declarando amor aos dois.
A Prefeitura de Itumbiara decretou luto oficial de três dias. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), manifestou pesar nas redes sociais e afirmou que irá à cidade para prestar solidariedade à família.
"A notícia de violência dentro de um lar, sobretudo quando crianças são vítimas, atinge em cheio a família e coloca todo o nosso Estado de luto", declarou. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
Por que o cristianismo não conseguiu, nem quis, abolir o Carnaval
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Excesso deixou de ser valor ritual e virou 'despedida da carne' sob vigilância moral da Igreja
Cristianismo herdou Saturnálias e Lupercálias, mas as reinterpretou como exceção vigiada antes da Quaresma
Foliões desfilam no tradicional bloco do Cordão do Boitatá, na rua Primeiro de Março, no centro do Rio de Janeiro - Fernando Maia - 8.fev.26/Divulgação Riotur
É doutor pela Univ. de Paris 1 e professor de história da USP
À primeira vista, Carnaval e cristianismo parecem opostos. De um lado, riso, máscaras, excesso, inversão. Do outro, disciplina, penitência, contenção dos desejos. Não é raro ouvir que o Carnaval seria um resíduo pagão tolerado a contragosto pela Igreja. Mas essa explicação é insuficiente.
A história mostra algo mais complexo: o Carnaval não sobreviveu apesar do cristianismo. Ele tomou forma dentro dele, quando o cristianismo precisou decidir como lidar com uma cultura festiva herdada do mundo romano antigo.
Nesse mundo, festas não eram desvios da ordem. Eram parte da própria ordem religiosa. O calendário estava repleto de celebrações nas quais a rotina era suspensa, relativizada ou publicamente ridicularizada. É o caso das Saturnálias, realizadas em dezembro.
Durante essas festas, escravos sentavam-se à mesa com seus senhores, a franqueza era autorizada, a zombaria ganhava estatuto ritual. Máscaras, jogos, bebida e riso não eram desvios tolerados a contragosto. Eram comportamentos esperados.
Outras festas, como as Lupercálias, combinavam purificação, fertilidade e provocação pública. Corridas rituais, nudez parcial, contato corporal e riso faziam parte de um repertório religioso legítimo. Essas práticas tinham data e duração definidas, mas isso não significa que fossem vistas como problemas morais. No politeísmo romano, não havia oposição estrutural entre festa e religião: a exceção fazia parte do funcionamento normal do mundo.
É aqui que ocorre a grande mudança com o cristianismo. Quando ele se torna dominante, a partir do século 4º, não herda apenas um calendário, mas também um problema novo: como conciliar uma moral religiosa baseada na disciplina contínua com práticas festivas que celebravam o corpo, o riso e a inversão das hierarquias?
Nada disso desapareceu de imediato. As populações continuaram a cantar, dançar, usar máscaras. Pregadores cristãos reagiram com veemência. Um exemplo eloquente é o de Cesário de Arles —que se tornaria santo—, no início do século 6º, que repreende fiéis por se fantasiarem com "formas monstruosas", cantarem obscenidades e se comportarem "não como cristãos, mas como pagãos". A força do ataque revela que essas práticas continuavam vivas dentro de comunidades cristãs.
A diferença decisiva não está no fato de que o cristianismo passou a permitir a indisciplina. Está no modo como ele a reinterpretou. No mundo romano, a festa era um valor positivo em si. No cristianismo, ela se torna um problema a ser administrado. A solução não foi multiplicar festas, mas concentrá-las; não foi celebrá-las, mas justificá-las.
O cristianismo reorganizou o tempo de forma radical. Criou longos períodos de disciplina, jejum e penitência, como a Quaresma, e passou a tolerar a exceção apenas como limiar. O Carnaval nasce exatamente aí: não como uma festa autônoma, mas como o último momento antes da renúncia. O excesso deixa de ser um bem ritual e passa a ser um "antes de".
A própria etimologia do termo —associada à "despedida da carne"— revela essa mudança profunda. O Carnaval não é definido pelo que afirma, mas pelo que antecede. Ele existe em função da abstinência, não da celebração. É uma exceção vigiada, moralmente ambígua, sempre à beira da condenação.
Isso não significa, porém, que o Carnaval tenha sido apenas uma válvula de escape controlada pela Igreja. Ao contrário. Justamente por ocupar esse espaço ambíguo, ele se tornou também um terreno fértil para a contestação. Máscaras, sátiras e inversões passaram a ser meios pelos quais a cultura popular tensionava valores e autoridades dominantes. O riso carnavalesco não apenas reforça a ordem: ele a comenta, a critica, às vezes a expõe ao ridículo.
O Carnaval cristão nasce, assim, de uma negociação permanente. De um lado, tentativas de controle, moralização e enquadramento. De outro, práticas populares que insistem em reinventar a festa, ampliando seus sentidos. O resultado não é uma continuidade simples do mundo romano, nem uma criação inteiramente nova, mas um arranjo histórico instável.
Quando olhamos para o Carnaval brasileiro hoje, com sua crítica política, sua criatividade e sua capacidade de expor desigualdades, vemos a persistência dessa tensão antiga. O Carnaval não é apenas um momento em que a ordem "se permite" ser suspensa. É também um espaço em que se diz, por meio do riso, o que a ordem prefere calar.
O cristianismo não acabou com o Carnaval porque percebeu que não podia eliminar a exceção. Mas o transformou profundamente: retirou-lhe a autonomia religiosa e o colocou sob o signo da penitência. Desde então, uma vez por ano, o mundo pode virar de cabeça para baixo, não porque isso seja bom em si, mas porque, mesmo sob vigilância, o riso nunca deixou de encontrar um caminho. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
‘Me senti traído’, afirma Paulo Vieira após vídeo feito com óculos inteligentes sem sua permissão
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Episódio aconteceu em um açougue; humorista descobriu que vídeo de sua conversa com atendente estava no Instagram
O humorista Paulo relatou pelo X que um vídeo seu feito sem que ele soubesse foi parar nas redes sociais Foto: Reprodução/X
Por Redação
O humorista Paulo Vieira utilizou as redes sociais para relatar um incômodo de privacidade. De acordo com Vieira, um vídeo filmado com óculos inteligentes em que ele aparece em um açougue foi parar no Instagram, sem que ele soubesse que estava sendo gravado.
Segundo ele, a pessoa que o atendeu estava utilizando um óculos com câmera - e que o aparelho não tinha nenhuma indicação de que estava ligado - em geral, dispositivos desse tipo indicam com uma luz na armação caso estejam filmando ou tirando fotos.
Depois da interação, Vieira afirmou que encontrou o vídeo com o conteúdo da conversa em um Reels, do Instagram.
“Eu achei que era só uma conversa entre dois seres humanos, mas, no fim, era a merda da produção de conteúdo”, afirmou Vieira em sua conta do X, neste sábado, 7.
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O humorista ainda respondeu um usuário que alertou sobre a luz que indica que os óculos estão ligados, mas afirmou que muitos usuários têm burlado o sistema de indicação.
“Já tão vendendo o adaptador que esconde a luzinha que mostra que tá filmando”, disse em uma resposta no X.
A falta de privacidade incomodou Vieira, que afirmou que se sentiu traído. Ele ainda reclamou que o açougueiro deveria ter perguntado a ele se tinha a permissão para filmá-lo no momento.
“Parece que postar qualquer coisa insignificante sobre a sua vida não é mais opcional: se você não fizer, vão fazer por você. O açougueiro com os óculos que filma vai contar pro mundo se você comprou acém ou maminha. Sim, eu tenho 180 anos”, publicou. Fonte: https://www.estadao.com.br
Acidente com ônibus de romeiros deixa ao menos 15 mortos em Alagoas.
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Segundo o governo do estado, entre os mortos estão cinco homens, sete mulheres e três crianças; veículo tinha aproximadamente 60 ocupantes
Gabriela Bento e Julia Farias, colaboração para a CNN Brasil03/02/26
Ao menos 15 pessoas morreram após um ônibus de romeiros capotar, nesta terça-feira (3), na rodovia AL-220, localizada no município de São José da Tapera, no Sertão alagoano.
Segundo o governo do estado, entre os mortos estão cinco homens, sete mulheres e três crianças.
De acordo com informações preliminares, o ônibus contava com aproximadamente 60 ocupantes. As vítimas sobreviventes foram socorridas e levada para hospitais da região, onde seguem recebendo atendimento médico.
Por conta do acidente, o governador do estado, Paulo Dantas, decretou luto oficial de três dias.
A ocorrência, classificada como um incidente com múltiplas vítimas de alta complexidade, conta com o apoio de aeronaves do Departamento Estadual de Aviação, do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, do Corpo de Bombeiros Militar de Alagoas e da Polícia Militar de Alagoas.
Após a ocorrência, o Instituto de Criminalística de Arapiraca foi acionado para periciar o local e a Polícia Civil instaurou inquérito para apurar as causas do acidente.
Em nota, a prefeitura de Juazeiro do Norte lamentou o acidente.
Leia na íntegra:
"A Prefeitura de Juazeiro do Norte manifesta profundo pesar pelo grave acidente ocorrido na manhã desta terça-feira, 3, na rodovia AL-220, envolvendo um ônibus com romeiros que retornavam ao estado de Alagoas após participarem da Romaria de Nossa Senhora das Candeias.
Juazeiro do Norte, cidade cuja história é marcada pela fé e pelo acolhimento aos romeiros, recebe essa notícia com imensa tristeza e solidariedade, sentimento que une a gestão municipal e toda a população neste momento de luto.
Diante dessa dolorosa circunstância, a administração municipal expressa suas mais sinceras condolências aos familiares e amigos das vítimas e deseja pronta recuperação às pessoas feridas, reafirmando seu respeito, cuidado e apoio a todos os atingidos por essa fatalidade." Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br
Autoritarismo antissionista e a universidade
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Quem defende censura hoje por conveniência política cria, sem perceber, o monstro que amanhã esmagará todos nós
Por Matheus Alexandre
Theodor Adorno, em Estudos sobre a Personalidade Autoritária (1950), mostrou que o autoritarismo não é um desvio individual, mas uma estrutura sociopsicológica produzida na vida cotidiana. Indivíduos com predisposições autoritárias tendem à intolerância, à ambiguidade, ao pensamento dicotômico, ao apego a normas absolutas e à dificuldade de lidar com nuances. O autoritarismo, assim, opera como um modelo cognitivo: organiza afetos e julgamentos, predispõe à busca de ordem rígida, à punição do desvio e à conversão de conflitos políticos em batalhas morais contra um “inimigo”.
Embora o autor tenha mirado, naquele momento histórico, o fenômeno da ultradireita autoritária, ainda tentando elaborar sobre o fenômeno do nazismo e do fascismo na Europa, sua obra nos permite perceber que, justamente por se tratar de predisposições sociopsicológicas, essas tendências podem ser mobilizadas por qualquer campo político, independentemente do conteúdo da causa.
Essa leitura aparece claramente nas cartas trocadas entre Adorno e Herbert Marcuse em 1969, quando Adorno identificava no movimento estudantil alemão impulsos que reproduziam, na forma, a mesma lógica autoritária que afirmavam combater. A intolerância ao dissenso, a moralização da política e a crença de que fins justos autorizam métodos coercitivos eram, para ele, sinais de um desvio que ultrapassava fronteiras ideológicas.
No Brasil, onde a memória histórica recente associa a direita à ditadura e a esquerda à resistência democrática, cristalizou-se a crença confortável de que o autoritarismo seria exclusivo da extrema direita. A tradição frankfurtiana, porém, demonstra o contrário: qualquer grupo pode reproduzir práticas de supressão do debate e cerceamento do dissenso quando transforma divergências em ameaças existenciais.
Essa dinâmica se expressa de modo crescente nas universidades brasileiras.
A censura praticada por estudantes da Faculdade de Direito da USP, em novembro de 2025, para impedir a participação de André Lajst num debate sobre o Oriente Médio, afirmando em nota que “sionistas não são bem-vindos nas Arcadas”, deve ser vista como uma ação da maior gravidade. Ela expressa precisamente aquilo que Adorno chamaria de “impulso autoritário”: a substituição do debate pela eliminação do dissenso, a crença de que a justiça da causa autoriza a supressão da fala alheia e a transformação da universidade num espaço de unanimidade obrigatória.
Essa é a lógica que tem orientado o movimento de Boicotes, Desinvestimentos e Sanções a Israel (BDS) em diversos ambientes acadêmicos. Sob o discurso de justiça, o movimento passa a operar segundo o modelo cognitivo autoritário descrito por Adorno: reduz complexidades a dicotomias morais entre “puros” e “culpados”, “legítimos” e “ilegítimos”. Com isso, o debate deixa de se concentrar criticamente nas políticas do Estado de Israel e passa a atingir a própria presença de indivíduos judeus, israelenses, sionistas ou simplesmente dissonantes no espaço universitário.
Quando isso acontece, a política deixa de operar no campo do argumento e passa a funcionar no regime da identidade: pessoas são reduzidas àquilo que se presume que elas representam, e não ao que efetivamente dizem ou fazem.
É nesse contexto que o adjetivo “sionista” se converte numa ferramenta conveniente: uma categoria totalizante que demoniza e distorce o significado do movimento nacional judaico, suspende a singularidade dos indivíduos e legitima agressões simbólicas e materiais. Torna-se um passe-livre moral: basta aplicar o rótulo para justificar alguém como alvo, neutralizar sua fala ou normalizar hostilidades que, em qualquer outro cenário, seriam inaceitáveis – um mecanismo que Eva Illouz (2024) denomina antissemitismo virtuoso. O debate, então, cede lugar a uma lógica de veto identitário, e a estrutura autoritária se impõe: não se discutem ideias; elimina-se quem as porta.
Episódios como esse têm se repetido cotidianamente nas universidades públicas brasileiras. Em 2024, um evento de Relações Internacionais da USP foi alvo de boicote pela simples presença da professora Karina Stange Calandrin. No mesmo ano, na Universidade Federal do Ceará, militantes impediram uma palestra de Michel Gherman ao rotulá-lo como “sionista da IDF”, como se a atribuição de uma identidade presumida bastasse para interditar sua fala.
Os exemplos são inúmeros. É a consolidação da “Escola Sem Partido” da esquerda antissionista.
A universidade, nesse cenário, deixa de ser um espaço para o livre pensamento e passa a ser um espaço para o adestramento. E esse é um caminho perigoso. Quem defende censura hoje por conveniência política cria, sem perceber, o monstro que amanhã esmagará todos nós. A História mostra que dispositivos de silenciamento nunca permanecem nas mãos de quem os criou. É preciso parar isso enquanto há tempo.
Opinião por Matheus Alexandre
Mestre e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará, ffellow do London Centre for the Study of Contemporary Antisemitism, alumni do ISGAP–Oxford, especialista em produção acadêmica da StandWithUs Brasil, integra o time de pesquisadores em projeto de combate ao antissemitismo da Confederação Israelita do Brasil (Conib) Fonte: https://www.estadao.com.br
O filme que o Oscar ignorou
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- Longa argentino 'Belén' mostra jovem que é condenada por aborto espontâneo, numa engrenagem de moralismo e incompetência
- O mais perverso é que, no Brasil, debate necessário nem existe, mesmo com um governo de esquerda

Longa narra o drama de Belén, jovem de 27 anos presa após sofrer um aborto espontâneo em um hospital público de Tucumán, na Argentina - Reprodução/Prime Video
Rio de Janeiro
Um vídeo gravado no início de janeiro dentro do Hospital Municipal Fernando Magalhães, no Rio, mostra mulheres numa situação de extrema vulnerabilidade. Algumas em macas, outras sentadas, choram de dor, têm as roupas encharcadas de sangue. Elas buscam atendimento para a interrupção legal da gestação ou para finalizar uma perda gestacional.
O que aparece ali —maus-tratos e negligência num serviço público dito "de referência"— expõe uma falha que vai além de gestão: é violência institucional. Vale dizer o óbvio, o SUS tem obrigação de atender os casos garantidos pela Constituição, perdas gestacionais e urgências decorrentes de abortos clandestinos. Não cabe dificultar, constranger, interrogar ou agir como polícia.
A realidade brasileira é igual em várias partes do mundo, como mostra um dos filmes mais incômodos do ano, que ficou fora da peneira final do Oscar. Exatamente aquele que deveria ser visto, falado, discutido, esmiuçado. A história retratada em "Belén" é baseada na prisão de uma jovem que sofreu aborto espontâneo. Condenada, tem a vida esmagada por uma engrenagem de moralismo e incompetência. O caso, abraçado por um grupo de mulheres, virou símbolo da luta que legalizou o aborto na Argentina em 2020.
Chorei muito. Não por identificação literal, mas por vergonha de constatar a facilidade com que instituições, respaldadas por leis anacrônicas e que burlam o que deveria ser feito na legalidade, tratam mulheres como criminosas. E isso segue acontecendo no Brasil em larga escala: não só no desfecho extremo de uma prisão, mas no varejo da humilhação, do atraso deliberado para impedir procedimentos, do julgamento; tudo isso como métodos de coerção e de controle.
O mais perverso é que, no Brasil, nem debate existe, mesmo com um governo de esquerda. Aborto foi empurrado para a gaveta do que Brasília chama, com eufemismo, de "pauta de costumes". Por covardia política, Lula e parlamentares progressistas evitam o tema para não comprar briga com bancadas conservadoras e não pagar o preço eleitoral. As mulheres que paguem. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
O dever de cuidado das plataformas digitais
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Se, como acusam alguns, o Supremo queria criar um mecanismo para silenciar ideias e opiniões incômodas, ele falhou feio
Por Nicolau da Rocha Cavalcanti
Advogado, mestre e doutorando em Direito Penal pela USP
Naquele que foi provavelmente o julgamento mais discutido no ano passado – sobre o art. 19 do Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) –, o Supremo Tribunal Federal (STF) estabeleceu a responsabilidade das plataformas digitais pela “indisponibilização imediata de conteúdos que configurem as práticas de crimes graves previstas no seguinte rol taxativo”. Considerada necessária por muitos, a decisão suscitou em outros forte apreensão pelos riscos à liberdade de expressão envolvidos. Especialmente por incluir, no rol taxativo, os crimes contra a democracia: “Condutas e atos antidemocráticos que se amoldem aos tipos previstos nos artigos 286, parágrafo único, 359-L, 359-M, 359-N, 359-P e 359-R do Código Penal”.
O dever de cuidado das plataformas digitais tem, no entanto, alcance bem mais restrito do que se imagina, seja em sua eficácia, seja em seus riscos. Aplicado nos termos da decisão do STF, ele não impediria a circulação da imensa maioria das publicações consideradas golpistas no âmbito dos processos do 8 de Janeiro, como também não restringe a liberdade de expressão. Se, como acusam alguns, o Supremo queria criar um mecanismo para silenciar ideias e opiniões incômodas, ele falhou feio. Três são as razões para essa conclusão.
Segundo a Lei de Defesa do Estado Democrático de Direito (Lei 14.197/2021), “não constitui crime (...) a manifestação crítica aos Poderes constitucionais nem a atividade jornalística ou a reivindicação de direitos e garantias constitucionais por meio de passeatas, de reuniões, de greves, de aglomerações ou de qualquer outra forma de manifestação política com propósitos sociais”.
Manifestação ácida, dura, virulenta ou deseducada não é crime contra a democracia. E o mesmo ocorre com a atividade jornalística, tanto investigativa como opinativa. Também não é crime contra a democracia “a reivindicação de direitos e garantias constitucionais”. Ou seja, nada disso pode ser barrado pelas plataformas, uma vez que a sistemática criada pelo Supremo se baseia na tipificação penal da Lei 14.197/2021.
Segunda razão. O STF não incluiu, no rol que é taxativo, o crime de incitação aos tipos penais contra a democracia (art. 286, caput do Código Penal), mas tão somente aquele previsto no parágrafo único: “Incorre na mesma pena quem incita, publicamente, animosidade entre as Forças Armadas, ou delas contra os Poderes constitucionais, as instituições civis ou a sociedade”.
Por força da própria decisão do STF, não está no dever de cuidado das plataformas impedir a publicação de conteúdo que configure, por exemplo, incitação a golpe de Estado, se não envolver as Forças Armadas. Incitar um crime não é o mesmo que praticá-lo. O provedor de aplicações de internet deve impedir apenas as publicações que configurem, em si mesmas, “condutas e atos antidemocráticos que se amoldem aos tipos previstos” na Lei 14.197/2021.
Excluindo os crimes de incitação de animosidade envolvendo as Forças Armadas e de violência política psicológica, é muito difícil que conteúdos na internet configurem, por si sós, a prática dos outros crimes contra a democracia previstos no rol taxativo. Os crimes de golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito exigem violência ou grave ameaça. O de sabotagem envolve destruição ou inutilização de “meios de comunicação ao público, estabelecimentos, instalações ou serviços destinados à defesa nacional”. É implausível que uma publicação na internet possa, por si mesma, preencher tais molduras proibitivas.
Talvez alguém pondere: mas as publicações na internet podem contribuir para a prática de crimes contra a democracia, inserindo-se em contexto de participação criminosa. De fato, o Código Penal prevê: “Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade” (art. 29). Segundo o STF, as publicações questionando as urnas eletrônicas integraram a estratégia da tentativa de golpe do 8 de Janeiro.
No entanto, ações de participação criminosa – por exemplo, dirigir o carro num assalto a banco ou enviar mensagens que disseminam desconfiança nas instituições – dependem de análise contextual caso a caso, o que ultrapassa o dever de cuidado das plataformas digitais. O fato de posts contra as urnas eletrônicas terem sido usados em uma tentativa de golpe não faz com que todos os futuros posts sobre o tema devam ser enquadrados como condutas criminosas. Eis a terceira razão: a sistemática criada pelo STF não abarca condutas a priori atípicas, cuja ilicitude, para ser identificada, demanda investigação.
Se essa restrita aplicabilidade suscita tranquilidade em muitos, cabe também advertir: a proteção da democracia por meio do dever de cuidado das plataformas é um tanto fictícia. Aqui, a questão não é apenas sobre os termos da decisão do STF. Por mais ativo que seja o Judiciário, preenchendo o que enxerga ser omissão do Legislativo, não existe defesa efetiva da democracia sem participação da sociedade. Temos, portanto, muito a trilhar no campo da educação cívica. Fonte: https://www.estadao.com.br
As militâncias ideológicas são da mesma ordem do fanatismo religioso
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O componente irracional é o que move a adesão ideológica
Não é o desejo de melhorar o mundo, mas o gosto por sangue

Ilustração de Ricardo Cammarota para coluna de Luiz Felipe Pondé - 18 de janeiro de 2026 - Ricardo Cammarota/Folhapress
Quem ainda crê que os movimentos políticos modernos e as ideologias nascem do cérebro racional da espécie é ignorante ou mentiroso. Tais movimentos e suas militâncias são da mesma ordem do fanatismo religioso. Por isso, pouco adianta tentar argumentar com tais agentes. Esse ato seria semelhante a argumentar com um enxame.
Este fato explica, pelo menos em parte, a estupidez que circula pelas redes sociais entre os "haters" engajados na polarização. O nível mais alto de inteligência que atravessa essa cultura de bactérias, que são as redes, é aquele que caracteriza os movimentos répteis.
O filósofo britânico John Gray lançou em 2007 "Black Mass, Apocalyptic Religion and the Death of Utopia", que agora está sendo relançado no Brasil como "Missa Negra, Religião Apocalíptica e a Morte da Utopia".
Quem conhece sua obra sabe que o filósofo britânico é um duro crítico do mito do progresso. Concordo com Gray que o progresso é um mito, afora os avanços tecnológicos desde a descoberta de como fazer o fogo. Mas, no que se refere ao comportamento humano, à moral e à política, a ideia de progresso desde o Iluminismo é idiota. Entretanto, o número de iludidos que nele creem nunca para de crescer.
Outro traço do pensamento de Gray é sua suspeita de que os animais, no seu "silêncio", são mais sábios do que nós. Aliás, seu livro "Silêncio dos Animais" é um dos mais belos que já li.
A tese da sua "Missa Negra" é que todas as crenças políticas revolucionárias modernas são derivadas de crenças apocalípticas judaicas e cristãs. Mesmo passando pela secularização, a tara com o fim do mundo tal como conhecemos e o surgimento do "novo mundo perfeito" permanece. E não só esse aspecto foi mantido.
Todos sabemos que as narrativas apocalípticas são marcadas pela violência, mortes do que são maus, sobrevida dos eleitos. Como não pensar na Revolução Francesa ou na Russa? Ou na Revolução Islâmica Iraniana?
Gray deixa claro que mesmo nas crenças ideológicas liberais, marcadas pela ideia de aperfeiçoamento incremental do mundo, permanece a ideia de que o "mercado" salvará o mundo e os homens. O otimismo liberal de mercado é, também, um filhote da tara apocalíptica. Daí, a aceitação que os incapazes de lidar bem com a lógica da eficiência e da competição do mercado não têm méritos para viver no novo mundo da riqueza material.
O que sustenta as posições ideológicas do mundo contemporâneo são taras irracionais religiosas secularizadas. Lendo essa coisa chamada "comentários", na sua imensa maioria, vemos a pequena miséria humana na sua forma explícita.
Sabemos que a justificativa dessa prática na mídia não tem nada a ver com "princípios democráticos", mas, apenas, sim, trata-se de princípios de marketing. Há que dar voz aos consumidores, mesmo que a maior parte do que circula por esse "ecossistema" seja puro lixo. Do ponto de vista do conteúdo, não faria nenhuma falta. Os "comentários" são um parquinho para crianças raivosas, com raras exceções.
O componente irracional humano é o que move a adesão ideológica. Não é o desejo de melhorar o mundo, mas, sim, o gosto de sangue. Se não fosse isso, por que tantos revolucionários sempre gozaram com a palavra "terror"? A paixão pelo terror é a paixão política essencial em questão.
Como diz Gray, com os movimentos políticos modernos, a tara apocalíptica, que na Antiguidade, era essencialmente um traço de indivíduos periféricos e esquisitos da miserável sociedade israelita do período do Segundo Tempo sob domínio romano, em si periférica, hoje se fez "mainstream".
Discute-se em aulas na universidade, escreve-se em livros de autores com PhD, encena-se em peças de teatro com aprovação da crítica regadas a vinho caro em restaurantes descolados, apresenta-se em programas de debates da televisão e podcasts, enfim, as taras com o fim do mundo tal como conhecemos e a criação de um mundo novo e perfeito são tratadas como ciência social, histórica e política.
Profetas do terror como Marx, Lênin, Foucault, entre outros, recebem o tratamento de "especialistas" nas sociedades dos homens, quando, na realidade, não entendem patavina acerca de quem vai à feira comprar ovos e tomates para comer em suas casas de pobres.
A ideia de que existe um componente moral significativo na espécie humana pode ser inconsistente. Veja, por exemplo, a indiferença de grande parte da imprensa e dos países para com os mortos iranianos. Um blábláblá aqui, outro ali. Cadê toda aquela indignação? E as bandeiras? A verdade é que os aiatolás podem matar à vontade. O mundo é um circo de horrores e continuará sendo. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
Funcionário de ONG é torturado e morto por milicianos em Rio das Pedras
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Segundo a polícia, vítima teve o corpo exibido pelas ruas da comunidade. O crime ocorreu em meio ao aumento da violência e do controle imposto pela milícia na região.

o corpo de Jonathan Batista foi exibido pelas ruas da comunidade, em um crime que chocou moradores e reforçou o clima de medo na região. — Foto: Reprodução TV Globo
Por Adriana Cruz, Gabriela Moreira, RJ2
Jonathan Batista, de 33 anos, foi torturado e morto por milicianos em Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio.
O corpo de Jonathan foi exibido pelas ruas da comunidade, em um crime que chocou moradores e reforçou o clima de medo na região.
Uma das linhas de investigação aponta que Jonathan foi morto porque milicianos desconfiaram que ele seria usuário de drogas e mantinha contato com o tráfico.
Um funcionário de uma ONG que presta serviços para o Governo do Estado do Rio de Janeiro foi torturado e morto por milicianos em Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio. De acordo com a polícia, após o assassinato, o corpo de Jonathan Batista foi exibido pelas ruas da comunidade, em um crime que chocou moradores e reforçou o clima de medo na região.
Jonathan trabalhava havia três anos em um projeto do governo do estado voltado para idosos, o programa 60+ Reabilita, e era conhecido e querido por moradores de Rio das Pedras. No Instituto Médico-Legal (IML), a irmã de Jonathan descreveu a personalidade do irmão.
“O Jonathan era um menino, um rapaz, um homem de boa índole. O Jonathan era uma pessoa alegre, bondoso, prestativo. Era o melhor tio que duas crianças poderiam ter”, disse ela.
Investigação
Segundo a Delegacia de Homicídios, uma das linhas de investigação aponta que Jonathan foi morto porque milicianos desconfiaram que ele seria usuário de drogas e mantinha contato com o tráfico.
A irmã da vítima afirmou que o corpo apresentava sinais de tortura. “Meu irmão sofreu muito, meu irmão estava amarrado”.
Uma segunda linha de investigação indica que o assassinato pode ter sido cometido para atingir a Associação de Moradores de Rio das Pedras, onde Jonathan também prestaria serviços.
“O Jonathan trabalhava tanto internamente na associação, na parte de reabilitação, que tem a parte de fisioterapia, fazendo os planejamentos, como também externamente na comunidade, tirando fotos dos locais que estão prejudicados para poder fazer obras”, explicou a irmã.
Segundo testemunhas ouvidas pela polícia, quatro homens participaram da morte de Jonathan. Entre eles estaria um dos chefes da milícia local, Kauã de Oliveira Teles.
Ele assumiu parte do controle da organização criminosa depois que o irmão, Gerlan Anacleto de Oliveira, foi preso em 2023. Ainda de acordo com a polícia, a região também é controlada por Taillon Barbosa, que está preso.
A Delegacia de Homicídios esteve em Rio das Pedras nesta quarta-feira (14) colhendo informações para avançar nas investigações.
Milícia aumentou o controle
Na semana passada, uma operação da Delegacia de Descoberta de Paradeiros encontrou em Rio das Pedras um cemitério clandestino onde teriam sido enterrados pelo menos 14 corpos de vítimas da milícia.
Pessoas estavam enterradas em covas rasas, sem identificação. Duas ossadas foram localizadas e encaminhadas para perícia.
Moradores relataram à reportagem que, desde a descoberta do cemitério clandestino, a vigilância da milícia sobre a população se intensificou. Segundo os relatos, os criminosos aumentaram as rondas diárias e passaram a exigir a senha dos celulares de moradores para fiscalizar conversas e ligações.
O governo do estado informou que pretende ocupar Rio das Pedras nos próximos meses. A ação atende a uma exigência do Supremo Tribunal Federal na ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, que determinou a elaboração de um plano de reocupação de territórios dominados pelo crime organizado.
Abalada, a irmã de Jonathan lamentou a violência no local onde ele morava.
“O Jonathan era uma pessoa que você não via a maldade que tá acontecendo no mundo. Mas, infelizmente, o lugar aonde ele se encontrava morando é um lugar onde a maldade está em tudo”. Fonte: https://g1.globo.com
Master, jornalismo e a nudez das redes sociais
- Detalhes
Receber dinheiro, de maneira sigilosa, para emitir uma opinião não é crime. Mas qual valor deve ter essa opinião?
Por Nicolau da Rocha Cavalcanti
Com pena de reclusão de dois a seis anos e multa, a Lei dos Crimes Financeiros (Lei 7.492/1986) tipifica o crime de desinformação financeira: “Divulgar informação falsa ou prejudicialmente incompleta sobre instituição financeira” (art. 3º). Faz sentido, portanto, que as autoridades policiais investiguem eventual ocorrência de crime nas publicações de influenciadores digitais sobre o Banco Master e o Banco Central (BC).
De toda forma, a simples conduta de publicar, mediante pagamento, mensagens favoráveis ao Banco Master, questionando a ação do BC, não se enquadra no crime do art. 3º da Lei 7.492/1986, especialmente por força dos elementos subjetivos previstos no tipo penal. Entre os requisitos, o influenciador teria de saber que está divulgando uma informação falsa ou prejudicialmente incompleta. Situação diversa é a de quem, caso se comprove a existência de uma coordenação de publicações, orquestrou e executou a campanha de desinformação. Também não se pode descartar a ocorrência de crimes contra a honra das autoridades atacadas.
No entanto, mais do que uma questão penal, o episódio dos influenciadores do Banco Master joga luz sobre a fragilidade informativa do mundo digital. Receber dinheiro, de maneira sigilosa, para emitir uma opinião não é crime. Mas qual valor deve ter essa opinião? Qual é a atenção que essa pessoa merece receber de nossa parte? Quanto tempo deveríamos dedicar a escutar quem recebe dinheiro para falar de uma empresa, com o pacto de nunca revelar o recebimento desses valores?
Certamente, podemos questionar esses influenciadores. Estão sendo leais ao seu público? São transparentes com seus seguidores? Todavia, em vez de apontar o dedo acusando-os por seu comportamento nas redes sociais, penso que é mais produtivo aproveitar esse episódio para avaliar nossos próprios hábitos de consumo de informação. E para ajudar a que muitas pessoas no nosso entorno repensem suas práticas.
Contra todos os perigos relativos à ação de influenciadores influenciados por pagamento oculto, temos à disposição o jornalismo. Sua dinâmica de produção de informação é completamente diferente, com critérios éticos consolidados e procedimentos de checagem e revisão, propiciando condições objetivas de imparcialidade. Há erros nos jornais? Sem dúvida. Mas não há conluio com o erro. De forma institucional, com método e a participação de várias pessoas, checa-se, apura-se, corrige-se.
Acostumamo-nos a ter duas medidas de avaliação. Com certeza, ignoraríamos uma matéria jornalística se soubéssemos que o jornalista foi pago, com dinheiro ou presentes, para falar bem de um produto, serviço ou empresa. Essa matéria não seria jornalismo e uma conduta assim geraria a imediata demissão do seu autor. No entanto, não temos habitualmente nenhum problema em consumir – em dedicar tempo a, em ser influenciado por – publicações nas redes sociais cuja única razão de existir foi o pagamento que o influenciador recebeu da empresa mencionada.
O jornalismo vende, sim, publicidade. Mas a publicidade nos jornais tem regras estritas, públicas e consolidadas, regras estas cujo sentido é assegurar que o leitor possa diferenciar, com facilidade, desde o primeiro contato, o que é jornalismo e o que é publicidade. Há um cenário normativo – separando opinião, informação e publicidade – criado precisamente para prever, identificar e evitar situações de conflito de interesse. A dinâmica das redes sociais é outra, diametralmente oposta.
Tudo está pensado para eliminar as distinções entre opinião, informação e publicidade, para tornar invisíveis os conflitos de interesse.
Não quero romantizar ou idealizar o jornalismo. Valho-me aqui da perspectiva da Justiça criminal, mas certamente outras áreas terão seus próprios exemplos, suas respectivas dores. Ao atuar na defesa dos direitos de pessoas investigadas e acusadas, a advocacia criminal vê e sente diariamente várias deficiências e contradições do jornalismo: vazamentos seletivos, dados descontextualizados, confusões entre lei e moral, fragilidade epistêmica de alguns escândalos – às vezes, baseados em recortes de delações feitos por uma das partes interessadas! Tudo isso tensiona os princípios da presunção de inocência e da imparcialidade dos julgamentos. Como adverte Vittorio Manes, numa Justiça midiática, o réu é um “culpado aguardando julgamento”. No entanto, nada disso desqualifica a atividade jornalística e suas regras. A resolução dos problemas citados – o compromisso constante de combatê-los e reduzir seus danos – passa por viver com mais rigor, e não menos, os critérios de apuração do jornalismo, por resgatar, num eterno retorno, o que é a notícia, sua umbilical conexão com o interesse público.
Não há democracia sem transparência, sem liberdade de expressão. Como também não há democracia com ingenuidades. As redes sociais não são o pináculo da autenticidade, da livre e genuína expressão de ideias. Há muito dinheiro envolvido. São muitos os interesses em ação. Como o jornalismo bravamente tem mostrado.
Opinião por Nicolau da Rocha Cavalcanti
Advogado, mestre e doutorando em Direito Penal pela USP
Fonte: https://www.estadao.com.br
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