Jovem é morta após se recusar a sair com traficante em baile funk na Zona Oeste do Rio
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Jovem é morta após se recusar a sair com traficante em baile funk na Zona Oeste do Rio
Segundo a família, Sther Barroso dos Santos, de 22 anos, não tinha ligação com o crime; ela foi brutalmente espancada e deixada, já sem vida, na porta de casa, na Vila Aliança
Sther dos Santos tinha 22 anos; ela chegou ao hospital já sem vida — Foto: Reprodução
Por Redação Extra
— Rio de Janeiro
Uma jovem de 22 anos foi assassinada na madrugada deste domingo, após ser brutalmente agredida durante um baile funk na comunidade da Coreia, em Senador Camará, na Zona Oeste do Rio. Segundo familiares, Sther Barroso dos Santos foi espancada brutalmente depois de se recusar a ter relações com um traficante que estava no evento. Segundo a família, Sther foi torturada e deixada morta na porta da casa em que morava, na Vila Aliança, por dois homens a mando de Bruno da Silva Loureiro, conhecido como Coronel, apontado como chefe da comunidade. O crime teria sido motivado pela recusa de Sther em deixar o baile com o criminoso. Parentes relatam ainda que a jovem estava realizando sonhos pessoais, como tirar carteira de habilitação e se mudar para um novo apartamento.
De acordo com relatos, após as agressões, Sther foi deixada na porta de casa, na Vila Aliança. Ela chegou a ser levada ao Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo, mas, segundo a direção da unidade, já deu entrada sem vida.
A Polícia Civil informou que investiga se Bruno da Silva Loureiro, o Coronel, teria sido o mandante do crime. De acordo com os investigadores, o traficante acumula uma série de anotações criminais por tráfico de drogas, roubo, homicídio cometido com arma de fogo, formação de quadrilha, porte ilegal de arma de uso restrito, receptação, roubo de veículo e lesão corporal.
Ainda segundo as apurações, Bruno integra o Terceiro Comando Puro (TCP) e costumava se esconder no Complexo da Maré. Nos últimos meses, porém, voltou a circular em outras áreas dominadas pela facção. De acordo com a polícia, ele tem o hábito de frequentar baile funk em comunidades como Vila Aliança e Coreia, na Zona Oeste, território sob o comando de Rafael Alves, o Peixe.
Momento de conquistas pessoais
A jovem, relatam os parentes, estava em um momento de conquistas pessoais: havia iniciado o processo para tirar a carteira de habilitação e se preparava para se mudar para um novo apartamento. Nas redes sociais, pessoas próximas lamentaram a brutalidade do assassinato.
"Entregaram minha irmã desfigurada e sem vida. Ele acabou com a vida da minha irmã no local em que estávamos refazendo a nossa vida. Tirou a vida da minha irmã. Só Deus tinha esse direito", escreveu a irmã de S
De acordo com os familiares, Sther e a família haviam deixado o Muquiço, comunidade onde moravam e chefiada por Coronel, para tentar um recomeço após terem sido roubados. A mudança, de acordo com parentes, simbolizava um novo capítulo de esperança para a jovem.
" Estávamos em paz e felizes. Você (traficante) acabou com a nossa família. Já entregou minha irmã sem vida. Não tivemos tempo de ajudar. Desgraçou a minha família. Inaceitável. Minha irmã tinha sonho de ser mãe de menino, tinha sonho de casar. E agora o que faço da minha vida sem você?" escreveu a irmã em outro desabafo.
Ela contou ainda que havia ajudado Sther a se arrumar para o baile no sábado, onde a jovem iria assistir ao show de um dos artistas que mais admirava.
"Ontem eu estava ajudando ela se arrumar para curtir o show de um dos ídolos dela. Agora tenho que ver a roupa que vou enterrar minha irmã. Inaceitável. Nunca imaginei que isso poderia acontecer ali, onde estávamos refazendo a vida e sendo felizes. Conquistando nossas coisas depois de termos sido roubados onde éramos cria. Conquistamos tudo. Eu não tenho forças para imaginar a dor que minha irmã sentiu, o que passou na mão desse cara. Estou desacreditada completamente. Ela era diferente, especial".
A família relatou também que, um dia antes do crime, Sther havia visitado o irmão preso. Naquela noite, contou à irmã que sonhou estar sendo perseguida e encurralada por homens.
"Ela disse que no sonho eles estavam encurralados. Tentavam fugir, mas não conseguiam sair da mão de uns homens. Estou sem acreditar que isso está realmente acontecendo — lembrou a irmã, mencionando ainda que o despertador do celular da jovem havia tocado no horário em que costumava fazer oração".
Em meio ao luto, os parentes cobram punição para os responsáveis.
"Não tenho sono, eu não tenho sede. Eu quero justiça. Vou lutar por justiça até o fim. Familiares que não tiverem coragem, eu entendo. A única coisa que eu tinha medo aconteceu: algum verme tentar algo contra a minha família", declarou a irmã.
Metas para 2025
Nos cadernos pessoais, Sther havia deixado escritos com as metas para 2025. Entre os planos estavam concluir a autoescola, fazer três cursos, adotar um cachorro, focar nos treinos de academia e agradecer a Deus todos os dias. Ela também registrou o desejo de ver o irmão em liberdade e de ser usada “para o bem”.
“Vai ser o melhor ano da minha vida, eu profetizo!”, escreveu a jovem, em anotações que ficaram como último testemunho de seus sonhos interrompidos.
A Polícia Militar informou que equipes do 14º BPM (Bangu) foram acionadas pela unidade hospitalar para verificar a ocorrência. O caso foi inicialmente registrado na 34ª DP (Bangu) e encaminhado para a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), que abriu investigação para identificar os responsáveis e esclarecer as circunstâncias do crime.
Nas redes sociais, conhecidos da vítima lamentaram o ocorrido. Parentes afirmaram à polícia que Sther não tinha qualquer envolvimento com o tráfico e descreveram a jovem como alguém tranquila e dedicada à família.
Sther Barroso dos Santos foi espancada até a morte após ser recusar a ficar com traficante em baile funk — Foto: Reprodução redes sociais
Até o momento, não há informações sobre a prisão de suspeitos. A polícia informou que o caso foi registrado inicialmente na 34ª DP (Bangu) e encaminhado para a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), que dará continuidade às investigações. Diligências estão em andamento para identificar a autoria e apurar as circunstâncias do crime. Fonte: https://extra.globo.com
Morador de rua é condenado à prisão por furtar duas escovas de dentes no interior de SP
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Em promoção, objetos custavam R$ 14,99; país vive embate entre corrente 'tolerância zero' e a
Estátua 'A Justiça', localizada em frente ao prédio do STF (Supremo Tribunal Federal) - Evaristo Sá - 19.mai.25/AFP
São Paulo
O morador de rua Daniel Carlos Lauria, de 36 anos, é um sujeito perigoso, segundo a Justiça paulista, que o condenou a uma pena de um ano e seis meses de prisão. O crime? Ele furtou duas escovas de dentes em uma drogaria.
O caso ocorreu em abril do ano passado em Cosmópolis, uma cidade de cerca de 60 mil habitantes na região de Campinas, no interior paulista.
De acordo com o relato feito à Justiça pelo representante da farmácia onde houve o furto, a Drogal Farmacêutica, Daniel estava no interior da loja e pediu que um cliente lhe comprasse uma escova.
Diante da negativa, pegou a embalagem na prateleira e saiu correndo. Minutos depois, foi detido por um guarda civil na praça do coreto e levado para a delegacia. Acabou sendo solto no dia seguinte, sem falar nada em seu interrogatório.
O julgamento de Daniel ocorreu à revelia. Uma intimação havia sido levada ao endereço que ele apresentara à polícia, mas uma prima disse ao oficial de Justiça que não sabia do seu paradeiro, pois ele era "morador de rua".
A defesa foi feita pela advogada Elen Bortoloti, indicada pela Defensoria Pública. À Folha ela afirmou que nunca falou com Daniel, assim como não teve contato com nenhum familiar.
Na defesa apresentada à Justiça, a advogada citou "o princípio da insignificância", ressaltando o valor irrisório da embalagem furtada: as escovas, uma azul e outra verde, custavam R$ 16,95, mas, em promoção, estavam sendo vendidas por R$ 14,99.
A advogada declarou na ação que "a intervenção do direito penal deve se reservar às lesões mais graves, a bens jurídicos relevantes, não sendo razoável a movimentação de todo o aparato judicial para apurar fatos de tamanha irrelevância".
A discussão sobre a necessidade de se encarcerar pessoas por pequenos crimes é antiga. No livro clássico "Os Miseráveis", de 1862, Victor Hugo conta que o protagonista Jean Valjean foi preso após roubar um pedaço de pão. Foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados.
No Brasil, a corrente que defende uma política de "tolerância zero" contra qualquer infração entende que as punições severas, além de gerarem uma sensação maior de segurança e ordem na população, inibem a prática de crimes ao enviar sinais claros à sociedade de que a lei será aplicada de modo implacável, desencorajando o comportamento criminoso.
Já os defensores de um direito menos punitivista costumam citar, além da desproporcionalidade das medidas, o alto custo de um preso para o Estado, bem como o fato de que, em uma prisão, o responsável pelos chamados casos de bagatela acabam tendo contato com pessoas envolvidas em crimes graves ou mesmo de facções criminosas, o que pode torná-los efetivamente perigosos.
A jurisprudência brasileira prevê a aplicação do princípio da insignificância com base em critérios como a "mínima ofensividade da conduta", a "ausência de periculosidade social da ação" e o "reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento".
O professor Juarez Cirino dos Santos, da UFPR (Universidade Federal do Paraná), em um artigo publicado, em novembro de 2024, no boletim do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, diz que a subjetividade desses critérios torna as decisões "dependentes das emoções pessoais" e dos "componentes ideológicos do julgador".
Ele defende que se estabeleça critérios mais objetivos para a definição do que é um delito irrelevante, citando casos não violentos que envolvem o patrimônio. Para isso, sugere que se estabeleça como base um percentual do salário mínimo.
No artigo, argumenta que "juízes identificados com as classes hegemônicas são refratários ao princípio da insignificância na criminalidade de bagatela". Esses juízes, diz, sempre examinam os casos na "perspectiva de repressão".
A sentença que condenou Daniel a um ano e seis meses de prisão afirma que a aplicação do princípio da insignificância, no seu caso, seria "conceder salvo-conduto à reiteração de pequenos delitos".
A decisão cita que o morador de rua "é multi reincidente em crimes patrimoniais, o que denota que faz da prática de crimes seu meio de vida e revela acentuada reprovabilidade em seu comportamento e periculosidade social". Ele, de fato, já foi condenado no passado por furto de um notebook e furto e receptação de bicicletas.
A pena terá de ser cumprida em regime fechado.
Para efeito de comparação, o advogado Laércio Benko, que foi vereador em São Paulo e secretário de Turismo no governo paulista, foi condenado em maio, sob acusação de se apropriar de uma indenização de R$ 279 mil de um cliente. A Justiça disse, na sentença, que ele agiu de forma dolosa (com intenção).
Benko negou o crime e acusou uma sócia (disse à Justiça que, à época dos fatos, estava ausente do comando das atividades do escritório por exercer cargo público). Acabou recebendo a mesma punição que o morador de rua: um ano e seis meses de prisão, mas em regime aberto.
Houve ainda uma segunda diferença: a punição foi substituída pela prestação de serviços à comunidade e o pagamento de dois salários mínimos. Benko já recorreu da decisão. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
'Dor da fome é mais forte que medo dos bombardeios': relatos de palestinos expõem colapso humanitário em Gaza
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Desnutrição já matou mais de 100 pessoas no enclave desde o início da guerra, sendo 80 delas crianças, e número não para de subir
Por O GLOBO, com agências internacionais — Cidade de Gaza
Com vozes fracas, corpos exaustos e estômagos vazios, palestinos relatam um colapso humanitário sem precedentes na Faixa de Gaza. A fome já matou mais de 100 pessoas desde o início da guerra, em outubro de 2023 — sendo 80 delas crianças —, e o número não para de subir. Nos últimos dois dias, ao menos 33 palestinos, incluindo 12 menores, morreram por desnutrição, segundo o Ministério da Saúde do território, controlado pelo grupo terrorista Hamas.
A escassez de alimentos, água potável e medicamentos afeta todos os setores da sociedade. Médicos, enfermeiros, jornalistas e trabalhadores humanitários enfrentam a mesma fome de quem tentam socorrer. Nesta terça-feira, o chefe da Agência das Nações Unidas para Refugiados Palestinos (UNRWA), Philippe Lazzarini, denunciou que membros da agência da ONU estão desmaiando em serviço devido à exaustão e à desnutrição.
— Não nos restam forças por causa da fome — resume o fotógrafo Omar al-Qattaa, de 35 anos, indicado ao Prêmio Pulitzer.
Entre os que ainda tentam manter a cobertura da guerra, há quem precise interromper o trabalho para buscar comida ou aliviar dores com analgésicos improvisados, já que os remédios sumiram das farmácias.
— Já não conseguimos chegar aos locais sobre os quais devemos reportar — confessa Qattaa, que trabalha para a agência de notícias AFP.
A jornalista da AFP Ahlam Afana, de 30 anos, destaca outra dificuldade: uma exaustiva "crise de dinheiro vivo", causada pelas exorbitantes comissões bancárias e pela inflação. Comissões bancárias que superam os 40% tornam quase impossível utilizar transferências de parentes no exterior.
— O que sobra não dá nem para comprar um quilo de farinha, que agora custa US$ 80 [cerca de R$ 445] — diz Mohammad Mahmoud, pai de quatro filhos. — Não comemos nada, exceto um pouco de lentilhas, há dois dias. Misturamos um pouco de sal de cozinha em um copo d'água e bebemos, só para obter alguns eletrólitos.
'Fome mata mais rápido que doença'
Saba Nahed Alnajjar, de 19 anos, sonhava estudar Medicina na Argélia, mas perdeu a bolsa quando a guerra estourou. Vivendo em uma tenda com a família na região costeira de al-Mawasi, ela agora teme morrer sem realizar seus sonhos.
— Estamos vivos, mas não há o que comer — disse ela, que pesa hoje apenas 35 quilos, à BBC. — Não há comida nem remédios. Nos tornamos esqueletos. Não há proteção. Gaza se tornou inabitável. Eu quero sair deste inferno. Não consigo suportar isso.
A dor dos profissionais de saúde é ainda mais aguda. Randa, enfermeira oncológica de 38 anos que trabalha no Hospital Nasser, em Khan Younis, resume o colapso:
“A fome está nos matando mais rápido que a doença”, disse ela por mensagem de texto à BBC.
Sem medicamentos nem alimentos, os pacientes recebem quimioterapia com corpos já debilitados pela desnutrição, relata Randa.
— O que mais ouço dos pacientes não é "estou com dor", mas "estou com fome" — afirma. — Tentamos tudo o que podemos, mas temos muito pouco a oferecer. Nós os vemos desaparecer... e carregamos esse desgosto conosco todos os dias.
Ela própria deixa seus quatro filhos chorando em uma tenda quando sai para trabalhar.
— Nós, as equipes médicas, estamos tendo colapsos de exaustão e fome. Ficamos de pé por horas intermináveis sem sequer uma refeição. Muitos de nós desmaiam, mas nosso dever não nos permite ir embora. Não podemos dar as costas aos pacientes, mesmo quando nosso próprio corpo está em colapso — diz Randa. — Esta é a minha vida cotidiana. Uma mãe com filhos famintos. Uma enfermeira cercada por mulheres que estão morrendo. Um ser humano preso em um lugar que o mundo parece ter esquecido.
No Hospital al-Shifa, o maior da Faixa de Gaza, Osama Tawfiq, um funcionário veterano do setor de suprimentos, diz nunca ter presenciado algo semelhante em 20 anos de serviço.
— Crianças estão morrendo de fome dentro do hospital. Não há comida para os pacientes. Eu vou trabalhar com fome e deixo meus seis filhos também com fome — afirmou.
A crise se estende às novas gerações. Na Cidade de Gaza, a jovem mãe Noura Hijazi viu sua filha de 20 meses, Aisha, perder dois quilos em apenas quatro dias.
— Ela parou de falar, de se mover. Pede comida, mas não tenho o que dar — relatou a um jornalista freelancer da BBC no local.
Hijazi perdeu o companheiro na guerra e vive em uma tenda com os dois filhos.
— Você espera o dia inteiro na esperança de conseguir algo para comer, mas não consegue nada. Você bebe um copo de água com sal para poder passar o dia — ela diz, e faz um apelo: — Pedimos a eles que parem a guerra, que considerem essas crianças que não fizeram nada de errado.
'Grito de sobrevivência'
O som de crianças chorando de fome ecoa pelas tendas.
— Ontem, não consegui dormir por causa do som de uma criança chorando na barraca vizinha. Chorava de fome. Seus pais não conseguiam encontrar nada para alimentá-lo ou acalmá-lo — disse à BBC a farmacêutica Suha Shaath, que perdeu 10 quilos desde o início da guerra. — A fome tortura os pais com a impotência e as crianças com o choque de ver que os adultos não podem salvá-las.
A distribuição de ajuda humanitária tem sido ineficaz, frequentemente interrompida ou alvo de ataques. Desde 27 de maio, após um bloqueio humanitário total de mais de dois meses imposto por Israel, a pouca ajuda que entra na Faixa de Gaza é distribuída pela controversa Fundação Humanitária de Gaza (GHF, na sigla em inglês), uma organização apoiada por Estados Unidos e Israel, mas criticada por organizações internacionais de ajuda e pelas Nações Unidas.
— As pessoas sabem que os pontos de distribuição são armadilhas mortais, mas vão mesmo assim, porque não têm nada para dar aos filhos — diz Ghada Al-Haddad, funcionária do escritório de comunicações da Oxfam, uma confederação de organizações humanitárias, em Deir al-Balah, à BBC.
Segundo a ONU, mais de mil palestinos foram mortos por tiros enquanto tentavam obter alimentos desde o fim de maio. Israel mantém o território sitiado e permite a entrada de ajuda apenas em quantidades limitadas, alegando que o Hamas desvia os suprimentos. Mas denúncias de civis e de agências internacionais apontam para bombardeios e ataques diretos a filas de distribuição. Em junho, a ONU declarou que o uso da fome como arma de guerra configura crime de guerra.
Há vários meses, a ONU também vem advertindo sobre os riscos de fome no território palestino, onde mais de 2 milhões de pessoas enfrentam condições humanitárias críticas. De acordo com o Programa Mundial de Alimentos (PMA), quase um terço da população de Gaza, está passando vários dias sem comida, e 470 mil pessoas devem enfrentar os níveis mais severos de fome até setembro deste ano.
Na segunda-feira, um grupo de 28 países — incluindo Reino Unido, Canadá, França e Japão — pediu em comunicado conjunto o fim da guerra e disse que “o sofrimento dos civis em Gaza atingiu novos níveis”. Nesta terça, o secretário do Exterior britânico, David Lammy, se disse “horrorizado e enojado” com as imagens de Gaza. Já a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que as imagens de palestinos morrendo enquanto tentam buscar comida são “insuportáveis”.
Para muitos, a fome superou o medo das bombas.
— Prefiro a morte a esta vida — diz Zuheir Abu Atileh, de 60 anos, ex-colaborador do escritório da AFP em Gaza. — Não nos restam forças, estamos esgotados, estamos desmoronando. Basta.
Em Deir al-Balah, no centro do território, onde o Exército israelense lançou nesta semana uma ofensiva terrestre, o fotojornalista Eyad Baba, de 47 anos, deixou um campo de refugiados superlotado e insalubre para alugar um abrigo a um preço exorbitante, a fim de proteger sua família.
— A dor da fome é mais forte que o medo dos bombardeios — explica Baba. — A fome impede de pensar. Fonte: https://oglobo.globo.com
Adolescente de 14 anos incendeia apartamento e mata a irmã de 11 meses em Guarujá, SP.
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Garota foi apreendida pela Polícia Militar no bairro Cantagalo, nesta segunda-feira (14).
Adolescente de 14 anos incendeia apartamento e mata a irmã de 11 meses em Guarujá, SP — Foto: Netto santos
Por g1 Santos
Adolescente de 14 anos incendeia apartamento e mata a irmã de 11 meses
Uma adolescente de 14 anos foi apreendida após incendiar um apartamento com os dois irmãos dentro, em um conjunto habitacional de Guarujá, no litoral de São Paulo. A bebê de 11 meses morreu no local, enquanto o irmão, de 2 anos, foi socorrido e levado em estado grave ao Hospital Santo Amaro.
O caso ocorreu na tarde desta segunda-feira (14), por volta das 14h10, em um apartamento localizado na Rua 109, no bairro Cantagalo. A Polícia Militar (PM) informou que foi acionada, mas, ao chegar ao local, o fogo já havia sido controlado por moradores.
Ainda segundo a corporação, um homem entrou no apartamento em chamas pela janela e conseguiu retirar as duas crianças. Apesar do resgate, a bebê morreu por inalação de fumaça.
A criança de 2 anos deu entrada em estado grave no Hospital Santo Amaro, que informou, em nota, que ela está internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pediátrica.
Conforme apurado pela TV Tribuna, afiliada da Globo, a adolescente ateou fogo no carpete do apartamento, acionou o registro de gás e trancou a porta em seguida.
A adolescente foi apreendida e encaminhada ao DP Sede de Guarujá. Ela responderá por ato infracional análogo à tentativa e ao homicídio consumado. O g1 solicitou mais informações à Secretaria de Segurança Pública (SSP), mas não obteve retorno até a publicação.
Prefeitura
Em nota, a Prefeitura de Guarujá lamentou o ocorrido e se solidarizou com os familiares das vítimas.
"Por determinação do prefeito Farid Madi, as secretarias de Saúde (Sesau), Desenvolvimento e Assistência Social (Sedeas) e Fundo Social de Solidariedade estão monitorando o caso, colocando-se à disposição do que for necessário", acrescentou a administração municipal.
Por fim, a prefeitura disse que casos dessa natureza reforçam o compromisso da atual gestão na "expansão do programa de saúde mental para as famílias e para as crianças". Fonte: https://g1.globo.com
O Estado contra o cidadão
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O Estado contra o cidadão
Assassinato do marceneiro Guilherme Ferreira escancara não só o despreparo da PM paulista, como a falência de um modelo de segurança que adota a barbárie como padrão de atuação policial
Numa democracia liberal, como é a brasileira, presume-se que as leis e as instituições sirvam para proteger os cidadãos do arbítrio do Estado. No entanto, a julgar pelo ultrajante caso de um rapaz negro assassinado em São Paulo por um policial militar que o confundiu com um assaltante só porque a vítima corria para pegar um ônibus depois do trabalho, alguns cidadãos, a depender da cor da pele e da condição financeira, estão totalmente à mercê de um Estado que não os reconhece como titulares de direitos. Para o marceneiro Guilherme Dias Santos Ferreira, de 26 anos, a democracia liberal não existe.
Tudo nesse caso prova a seletividade do aparato estatal na aplicação das leis e dos princípios constitucionais. Primeiro, o policial militar que atirou contra Guilherme, o cabo Fabio de Almeida, que estava de folga, aparentemente contrariou todos os manuais de conduta policial numa sociedade que se presume civilizada. Conforme se vê nas abundantes e claras imagens disponíveis, o agente não pretendia prender ninguém, e sim executar aquele que julgava ter tentado roubar sua moto momentos antes. Mesmo que tivesse sido o caso, isto é, mesmo que o marceneiro tivesse realmente tentado roubar sua moto, o cabo da PM não poderia ter atirado num suspeito desarmado. Num Estado em que prevalece a presunção de inocência, o braço armado desse mesmo Estado deve prender o suspeito, e não o executar com um tiro na cabeça no meio da rua.
Mas a violência estatal contra o cidadão Guilherme Ferreira não parou aí. Conduzido a uma delegacia, o cabo Fabio de Almeida contou com a gentileza do delegado Kauê Danillo Granatta, do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa da Polícia Civil, que resolveu tipificar o crime, pasme o leitor, como “homicídio culposo”, cuja pena é de detenção de um a três anos. Por essa razão, o policial militar foi solto após pagar fiança no valor de R$ 6,5 mil. Não se pode condenar quem veja nessa esdrúxula tipificação – afinal, o erro sobre a pessoa não exclui o dolo – uma manobra de acobertamento. Um Estado em que criminosos que vestem farda são protegidos não é um Estado nem liberal nem democrático. É um Estado falido, em que prevalecem as relações pessoais e o poder do mais forte.
Embora tenha sido um caso de flagrante abuso policial, coroado por uma inaceitável tipificação do crime, nem o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, nem seu secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite, se pronunciaram, passados dias do acontecido – seja para confortar a família da vítima, seja para cobrar punição exemplar, seja para prometer alguma providência para que isso não se repita. Silêncio absoluto.
Essa talvez seja a pior forma de violência do Estado contra seus cidadãos: tratá-los como se fossem indignos até mesmo de algumas palavras de pesar quando morrem pelas mãos de seus agentes, enquanto estes gozam de impunidade escandalosa. Tal comportamento espelha uma visão absolutamente distorcida do que vem a ser segurança pública.
De uns anos para cá, aos olhos de alguns policiais de São Paulo, se um homem negro, como era Guilherme Ferreira, correr na rua, automaticamente passa a ser suspeito de algum crime, fazendo letra morta do princípio constitucional da presunção de inocência. O homicídio de mais um inocente praticado por um policial lança luz, é claro, sobre o despreparo técnico e emocional de alguns integrantes da PM paulista, outrora conhecida como a mais bem equipada e treinada do País. Longe de representar um lamentável erro episódico, a morte do trabalhador é o corolário trágico de uma construção institucional, e não só fruto do livre-arbítrio do guarda na esquina.
Se a PM de São Paulo passou a agir de modo truculento e fatalmente inconsequente, sob o signo de um espírito de valorização da violência e desprezo pela vida humana, é porque muitos policiais passaram a se sentir autorizados a agir assim por seus superiores – a começar pelo secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite.
Do irremediável sr. Derrite não há mais o que dizer, e é incrível que ainda esteja no cargo. Já do sr. governador, que se apresenta como um democrata, esperava-se mais. Fonte: https://www.estadao.com.br
O PCC e suas ‘filiais’ em 28 países
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Com mais de 2 mil integrantes espalhados pelo exterior, facção criminosa expande atuação e presença em prisões mundo afora e evidencia necessidade de atuação internacional para enfrentá-la
Por Notas & Informações
O Primeiro Comando da Capital (PCC) já está presente em ao menos 28 países, segundo um recente mapeamento do Ministério Público de São Paulo (MP-SP). São mais de 2 mil integrantes da maior facção criminosa brasileira espalhados pelo mundo. Esses bandidos atuam dentro e fora dos presídios em nações das Américas, da Europa e da Ásia. Quase metade deles está nas ruas, e o restante, detido no sistema carcerário.
A novidade, agora, é que o PCC tem realizado “batizados”, uma espécie de ritual de iniciação, também no exterior. Segundo o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, esses processos de adesão já foram registrados em prisões de países como Argentina, Chile, Paraguai e Bolívia. E em países onde já tem forte atuação, como Portugal, Espanha, Holanda e Estados Unidos, a organização já estaria “batizando”, inclusive, cidadãos locais, e não só brasileiros residentes.
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MP-SP, descobriu ainda que a presença internacional da organização repete o modelo brasileiro. Isso inclui a “sintonia”, composta por integrantes do alto escalão; o “progresso”, responsável pelo tráfico; e o “disciplina”, um árbitro de disputas do mundo do crime e fiscal do cumprimento das ordens dos líderes. Para o constrangimento do Brasil, é esse modelo criminoso que está em exportação.
É por meio de ordens emitidas de dentro das prisões a seus batizados que os líderes do PCC estabelecem uma rígida cadeia de comando, dominam territórios, diversificam seus negócios ilícitos e levam terror às ruas. Agora, a facção poderá reproduzir lá fora esse ciclo de violência. E, quanto mais forte o PCC estiver, seja lá onde for, pior para o Brasil.
Desvendado por meio do monitoramento de integrantes do PCC pelo Gaeco, o processo de expansão territorial mostra a ousadia da facção, que agora finca suas raízes mundo afora – e o Brasil sabe muito bem como elas crescem. Basta lembrar que esse bando nasceu nos anos 1990 num presídio de Taubaté, no interior de São Paulo, com meia dúzia de faccionados, e hoje reúne cerca de 40 mil bandidos em todas as regiões do País e agora também pelo mundo.
Para crescer dessa forma exponencial, o PCC contou com a ineficácia do Estado brasileiro em combatê-lo desde os primórdios, quando era um organismo insignificante. Diante da inépcia e não raro omissão do poder público, o bando encontrou condições ideais para se alastrar pelo sistema carcerário, de onde seus líderes impõem a fidelidade ao grupo como um elemento central da sua estruturação de poder, nas celas e nas ruas.
Não é de hoje que o tráfico internacional de drogas, sobretudo o de cocaína, impulsiona o PCC. O objetivo da facção sempre foi encontrar rotas e parceiros, como a máfia italiana ‘Ndrangheta, para enviar a cocaína produzida nos vizinhos Bolívia, Peru e Colômbia aos lucrativos mercados de países europeus e asiáticos. É por isso que há integrantes da organização também na França, na Irlanda, na Suíça, na Turquia e até no Japão.
O impressionante faturamento anual de US$ 1 bilhão, ou mais de R$ 5 bilhões, conforme estimado pelo MP-SP, ajuda a entender a ambição dos criminosos brasileiros na busca por mais territórios. Não só o tráfico, com a venda final da cocaína, interessa ao PCC, mas também a prática do crime de lavagem de dinheiro, pelo qual tenta, e consegue, movimentar quantias vultosas, driblando as autoridades.
Esse poderio geográfico e financeiro do PCC exige do poder público brasileiro, e agora também do estrangeiro, a capacidade de se antecipar aos movimentos da facção e o uso de inteligência para combater o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro. Torna-se cada vez mais necessária a cooperação internacional para a troca de informações e a atuação conjunta para asfixiar esse bando.
Os achados sobre o PCC já começaram a ser compartilhados pelo MP-SP com embaixadas e consulados. Que os países alertados não repitam os erros cometidos no passado pelo Brasil, e que o Brasil firme parcerias com esses países para lutar contra o crime transnacional e corrigir o equívoco de ter subestimado o PCC desde o início. Fonte: https://www.estadao.com.br
“Meu filho jamais faria isso”: morte de menino de 12 anos alerta para os perigos de desafios virais
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“Meu filho jamais faria isso”: morte de menino de 12 anos alerta para os perigos de desafios virais
Sebastian, 12 anos, perdeu a vida ao tentar cumprir um desafio de rede social em casa; família faz apelo para que pais conversem mais com os filhos sobre o que eles veem online

Sebastian (foto), 12, estava em casa celebrando a Primeira Comunhão de seu irmão mais novo, antes de ser encontrado inconsciente — Foto: Reprodução Daily Mail
Por Crescer
O que era para ser um dia de festa em família se transformou em tragédia na casa de Sebastian, um menino de apenas 12 anos, morador de Castleford, West Yorkshire (Reino Unido). Durante a comemoração da Primeira Comunhão do irmão mais novo, Sebastian foi encontrado inconsciente em seu quarto.
Equipes de emergência, ambulâncias e até um helicóptero de resgate foram acionados às pressas na noite do dia 27 de junho. O menino chegou a ser levado para o hospital escoltado por viaturas da polícia, mas não resistiu. O pai, Marcin, acredita que o filho tenha perdido a vida enquanto tentava cumprir um desafio viral usando um cachecol — prática perigosa que já fez vítimas em outros países.
Em nota, a Polícia de West Yorkshire confirmou que as investigações estão em andamento e reforçou que o caso não é tratado como suspeito de crime, mas como uma tragédia que expõe riscos reais da influência de conteúdos perigosos na internet.
Um alerta que se repete
A morte de Sebastian reacende o debate sobre a responsabilidade de plataformas digitais e a necessidade de vigilância familiar. De acordo com o tabloide britânico Daily Mail, em fevereiro deste ano, pais de quatro adolescentes britânicos já haviam processado o TikTok, alegando que seus filhos morreram ao tentar o mesmo tipo de desafio.
No caso de Sebastian, amigos e vizinhos descreveram o menino como uma criança amorosa, talentosa e cheia de sonhos. Segundo uma campanha de arrecadação de fundos criada para ajudar nos custos do funeral, Sebastian aprendeu sozinho a tocar violão e teclado, gostava de desenhar e vivia sorrindo. “Ele tinha pais amorosos, que fariam qualquer coisa para garantir uma infância feliz e segura. Mas um breve momento mudou tudo”, diz o texto da campanha no GoFundMe.
“Conversem com seus filhos”
A família agora faz um apelo emocionado para que nenhum outro pai ou mãe passe pela dor que eles enfrentam: que os responsáveis se aproximem, perguntem, conversem e fiquem atentos ao que as crianças assistem ou tentam reproduzir.
Pergunte o que eles assistem, com quem conversam, o que os inspira. Esteja presente. Não presuma: "Meu filho jamais faria isso". O mundo online pode ser tão perigoso quanto o mundo real — às vezes até mais.
"Que a morte de Sebastian não seja em vão. Que seja um chamado silencioso à conscientização — um lembrete para permanecermos próximos, conversarmos mais, protegermos aqueles que amamos. Para que outras crianças possam viver. Para que nenhum outro pai ou mãe tenha que passar por essa dor inimaginável. Agradecemos do fundo do coração por qualquer tipo de apoio — doações, compartilhamentos ou simplesmente algumas palavras de conforto. Sebastian permanecerá em nossos corações para sempre", diz o texto da campanha no GoFundMe. Fonte: https://revistacrescer.globo.com
Narcisismo tem sido distorcido e usado de forma simplista nas redes sociais, diz psicóloga americana
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Autora do livro 'O Problema Não É Você' escreve sobre o abuso narcisista e como se recuperar desse tipo de relacionamento

O livro 'O Problema Não É Você', publicado pela editora Sextante e escrito pela psicóloga americana Ramani Durvasula -
São Paulo
Por anos se falou em narcisistas como pessoas que esbanjam amor próprio e são obcecados pela própria imagem. O termo usado no senso comum é muito baseado no mito de Narciso —aquele em que um belo jovem se apaixonou pelo próprio reflexo e morreu de tanto contemplá-lo. Mas, na atualidade, o transtorno de personalidade narcisista é um diagnóstico psiquiátrico que traz muito sofrimento a todos os envolvidos.
Pensando na pessoa que é vítima de um abuso narcisista, a psicóloga Ramani Durvasula, professora da Universidade Estadual da Califórnia, escreveu o livro "O Problema Não É Você", lançado no Brasil pela editora Sextante. As pessoas que cruzam o caminho de narcisistas podem ser tão diminuídas pelas manipulações e invalidações que sentem que há algo de errado com elas. É para esse público que ela escreve.
Hoje se fala muito mais sobre o transtorno em si do que o termo usado no senso comum, mas não é tão fácil assim encontrar de fato um narcisista. É um diagnóstico demorado e complexo.
"O perigo é quando as pessoas usam esse termo para focar um único evento problemático em um relacionamento", pontua Durvasula. "Quando fazemos isso, não é só depreciativo, mas pega uma palavra poderosa e profunda e minimiza, desvaloriza e banaliza a experiência das pessoas que realmente estão em relacionamentos narcisistas."
Para a psicóloga, para ser um narcisista de fato, a pessoa tem que apresentar todos os sinais que compreendem o diagnóstico. Narcisistas são pessoas manipuladoras, desdenhosas, que tendem a desvalorizar e invalidar o outro, praticam gaslighting e revertem toda a culpa em cima da pessoa com quem se relacionam. Além disso, a autora destaca a falta de responsabilidade e responsabilização por seus atos.
"Tem um processo, tem consistência. Para determinar o diagnóstico, estamos olhando para um padrão de comportamento", explica. "Em muitos casos, as pessoas estão nesses relacionamentos por anos. Elas têm evidências de diários, cartas, emails, mensagens e testemunho de outras pessoas."
Esse é um comportamento que pode estar presente em relacionamentos amorosos, amizades e até dentro da família. Quando em relacionamentos amorosos, ela menciona que a sociedade pode reforçar alguns padrões que deveriam ser observados com cautela, como a obsessão intensiva no início do namoro.
O que para muitos parece normal, pode afastar a pessoa das amizades, dos seus hobbies e interesses, fazendo com que fiquem totalmente com o parceiro romântico. A psicóloga diz acreditar que tendemos, enquanto sociedade, a romantizar as histórias que são intensas e rápidas, como as de almas gêmeas.
"Isso coloca a pessoa narcisista em vantagem para criar um começo de relacionamento dos sonhos. O que deixa o outro ainda mais preso na relação depois, porque ficam querendo voltar para o início."
Durvasula diz que relacionamentos saudáveis são estáveis, previsíveis e fazem com que ambas as partes se sintam psicologicamente seguras. Relacionamentos dramáticos, com altos e baixos, criam ciclos tóxicos.
Ela afirma que uma forma de transformar esse padrão enquanto sociedade é contar diferentes tipos de histórias de amor. Ensinar jovens, principalmente na pré-adolescência, não só educação sexual, que é importante, mas sobre manipulação, coerção e o que é ou não ser aceitável em um relacionamento.
Mas, mesmo se não trabalhado enquanto criança, não é tarde demais. Se você perceber que alguém próximo pode estar envolvido em um relacionamento narcisista, é preciso ter cautela ao oferecer apoio. A psicóloga aconselha ouvir atentamente, sem julgamentos ou tentativas de solucionar o problema.
"Escute o que seu amigo tem a dizer e valide a experiência dele, porque ele não está sendo validado em seu relacionamento", fala. "Perceber que outras pessoas notam a mudança de comportamento é muitas vezes o primeiro passo para falar abertamente sobre isso."
Tentar solucionar a questão, dizendo que a pessoa deve terminar o relacionamento, por exemplo, pode fazer com que ela divida ainda menos sobre o que está passando, porque muitas pessoas não podem —ou não conseguem— abandonar a relação naquele momento, explica.
No processo de recuperação de um relacionamento narcisista, a autora menciona o conceito de aceitação radical. Ela afirma que não é, de forma alguma, parecido com se submeter ao relacionamento apenas concordando com a forma como ele é. A aceitação radical é, de fato, tomar consciência de que a realidade é essa e não irá mudar, e não é responsabilidade da vítima fazer com que mude.
"Isso é importante tanto se você resolve deixar o relacionamento ou ficar", diz. Para quem decide ficar, seja qual for o motivo, a aceitação radical é abandonar as expectativas de um relacionamento mais saudável, entendendo as limitações e se protegendo emocionalmente, se envolvendo de forma diferente, e desenvolvendo outras redes de apoio fora daquela relação.
Perceber essa realidade pode ser difícil e doloroso, acrescenta a psicóloga, e pode trazer o luto de algo que gostaria de ter tido, mas não se teve. Mas, atravessando o momento de tristeza, ela postula a aceitação radical como a forma de se recuperar dos abusos narcisistas, mesmo permanecendo no relacionamento. Negar o sofrimento seria negar a realidade, impedindo a recuperação.
"Eu acredito que a cura pode às vezes ser um pouco mais fácil para quem sai da relação, por não ter a constante exposição à invalidação. Mas eu sei que a cura também é possível para quem fica."
Durvasula diz que é importante atentar que isso não funciona para relacionamentos de abuso severo ou violência, em que a segurança deve vir em primeiro lugar.
Para quem decide deixar a relação, a aceitação radical também tem o lugar de perceber que a pessoa não será diferente, mesmo com outras pessoas. Essa realização importa para se manter forte porque, ao sair de um relacionamento narcisista, a pessoa fica sujeita a enfrentar difamação e perseguição.
Pelo sofrimento e também pela dificuldade de deixar esse tipo de relacionamento, muitas pessoas podem ter medo de entrar em novos relacionamentos, o que ela diz ser um medo real e razoável.
"Muitas pessoas temem se relacionar com uma pessoa narcisista de novo. E eu digo, você ficará bem de novo. Verá mais rapidamente, e será mais fácil de sair. Quem passou por um relacionamento narcisista se relaciona de forma diferente, mais devagar, com menos vulnerabilidade no início. Mas será um novo relacionamento para se confiar." Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
Construir pontes, não muros
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O apelo de Francisco aplica-se aos países e aos sistemas políticos e econômicos que internamente criam barreiras entre os vários segmentos sociais
Por Antonio Cláudio Mariz de Oliveira
O Papa Francisco foi um frasista como poucos que o mundo produziu. Não frases de efeito, de impacto midiático. Os seus dizeres eram sempre recheados de conteúdo, de mensagens para reflexão sobre a realidade que nos cerca. Devem ser considerados como lição de vida, como ensinamento para o comportamento do homem, da sociedade e das nações. Podem ser acolhidos ou não, mas, com certeza, sempre conduzem a uma análise que, em regra, abala convicções já sedimentadas e desperta consciências.
Um exemplo de sua sensibilidade, acuidade e completa ausência de preconceito foi a declaração que fez em visita a um presídio. Ao reunir-se com os presos, afirmou “eu poderia ser um de vocês”. Mostrou ter plena ciência de que o crime é um fato humano e social, que pode envolver qualquer um de nós.
Uma frase que denota o seu pleno entendimento das conturbadas e belicosas relações internacionais, especialmente no que tange ao dramático problema dos refugiados e dos imigrantes, foi dita como veemente contestação à postura desumana e cruel dos governantes que não querem acolhê-los em seus países: “Vamos construir pontes, não muros”.
Essa alusão às duas obras não poderia ser mais adequada e atual. O muro divide e isola, a ponte aproxima e congrega. O muro simboliza o egoísmo e a ponte, a união.
Esses símbolos e os seus significados não se aplicam apenas às questões dos que imploram por abrigo e acolhimento em nações que não são as deles.
O muro, no curso da humanidade, foi erguido com base na falsa ideia da superioridade de uns em relação a outros.
A alegoria utilizada pelo papa possui um eloquente significado, como se fora uma sentença declaratória de uma cruel realidade secular e ainda presente. Declara o estado de injustiça imperante no mundo.
Mas a sua declaração contém também uma condenação: condena o egoísmo, a insensibilidade, a falta de humanidade de significativa parcela da sociedade mundial.
Os muros são construídos pelo material da cobiça, do apego cego e sem concessões ao que é meu em detrimento daquilo que poderia ser do outro.
O consumismo, como espinha dorsal de um capitalismo excludente de outros valores, a competição pelo ter, com desprezo absoluto pelo que é, afasta pessoas e grupos, sendo fator de desagregação e de ruptura dos laços de solidariedade.
Ao lado da cultura argentária temos a ânsia pelo poder, pela supremacia de uns sobre outros e pela submissão desses, como fatores de guerras que chegam ao ponto de extermínios de povos e de nações, tal como se assiste nos dias de hoje.
Assim está o mundo, não diferente do que sempre foi. Na contramão de setores que evoluem, da tecnologia que alcança patamares inéditos, a mostrar a estagnação, e mesmo o retrocesso do homem, que continua a sua marcha destruidora com desprezo pelo amor ao próximo. Nós, humanos, não estamos tratando, na expressão de alguém, da “patologia da alma” que atinge quase a todos e quase a tudo.
Nesse panorama, as pontes que com esforço foram construídas estão sendo destruídas facilmente.
O candente apelo do papa Francisco, para que muros que separam e expulsam sejam substituídos por pontes que agregam e unem, não se refere apenas às nações que não acolhem imigrantes e refugiados. Aplica-se aos países e aos sistemas políticos e econômicos que internamente criam barreiras entre os vários segmentos sociais.
Não é de recente data, aliás é histórica, a separação discriminatória existente em nosso país. Há segmentos das elites que não só ficam inertes diante das carências e misérias sociais, como não querem sequer presenciá-las. Há pouco tempo alguém me disse que não se deveria fornecer comida aos moradores de rua, pois do contrário eles permaneceriam em certa região da cidade para serem alimentados... Suprema insensibilidade de um cidadão “bem-posto”, tido como “homem de bem”.
Em outra ocasião, um porteiro de edifício me disse: “São poucos os que nos cumprimentam, nos dão bom dia ou conversam conosco, como o senhor”. Exemplo eloquente da abominável separação, ou muros, de classes. Resquício da escravidão, prova do regime de castas ainda vigente. Intriga-me saber em que se baseiam aqueles que se consideram superiores. Não tenho resposta.
Os que lutam pela diminuição das carências, pelo término desse apartheid caboclo, pela justiça social, enfim, sempre cobraram que o Estado saísse de sua inércia e agisse. Pois bem, quando ocorre alguma ação positiva as camadas privilegiadas protestam.
Um amigo, morador de pequena cidade interiorana, estava indignado, pois a prefeitura local passou a fornecer uma série de benefícios aos menos aquinhoados. Com isso, a cidade estava com falta de mão de obra, pois segundo ele, não queriam mais trabalhar. O município fornecia escola em tempo integral, transporte escolar, ambulância para remoção dos doentes, ambulatório médico e tantos outros favorecimentos básicos. E o que muito o revoltava era um pequeno auxílio mensal em dinheiro.
Pontes entre nações não estão ao nosso alcance, mas derrubar os muros internos e construir canais de solidariedade é mais do que possível para nós. É um dever de humanidade. Fonte: https://www.estadao.com.br
Batida entre carro e carreta mata quatro pessoas em Seabra; vítimas voltavam de festa junina.
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Segundo socorristas, veículo invadiu a contramão, na altura de Seabra, na Chapada Diamantina. Grupo morreu na hora.
Cleiton, Cleitiana, Caique e Bianca morreram em batida entre carro e carreta — Foto: Reprodução/Redes Sociais
Por g1 BA e TV Bahia
Quatro pessoas morreram depois que o carro onde viajavam bateu de frente com uma carreta, nesta terça-feira (17), em um trecho da BR-242, em Seabra, cidade na Chapada Diamantina.
Segundo a Prefeitura, as vítimas tinham saído de Iraquara, onde participaram de uma festa junina, e seguiam para a área urbana de Seabra, onde moravam, quando aconteceu o acidente.
Conforme apurou a TV Bahia com os socorristas do Anjos da Chapada, passava das 4h30, quando o carro invadiu a contramão e atingiu a carreta. Os quatro ocupantes do veículo morreram na hora. Eles foram identificadas como:
Os corpos foram removidos do local com a ajuda de bombeiros militares e foram levados para o Departamento de Polícia Técnica (DPT) da região, para necropsia. Não há detalhes sobre o sepultamento.
O caso é apurado pela Polícia Civil (PC). Uma perícia foi feita para definir as circunstâncias do acidente.
A Prefeitura de Seabra emitiu uma nota de pesar, se solidarizando com os familiares e amigos das vítimas. Nas redes sociais, a administração municipal afirmou que a notícia abalou "toda a cidade e deixou quatro famílias mergulhadas no luto". Fonte: https://g1.globo.com
Criança abusada sexualmente pelo padrasto pede ajuda a pastor em igreja e homem é preso em Vitória
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Menina de 11 anos relatou que foi estuprada pelo padrasto mais de uma vez. Ela contou que a mãe sabia dos abusos, mas não chamou a polícia.

Criança abusada sexualmente pelo padrasto pede ajuda a pastor em igreja de Vitória e homem é preso. Espírito Santo. — Foto: TV Gazeta
Por Priciele Venturini, TV Gazeta
Criança abusada sexualmente pelo padrasto pede ajuda a pastor em igreja de Vitória
Uma menina de 11 anos pediu ajuda a um pastor e contou que era abusada pelo padrasto, em Vitória. Foi o líder religioso quem acionou a Polícia Militar e o suspeito acabou preso enquanto estava em um bar bebendo com a esposa, na noite desta quarta-feira (11).
Os nomes dos envolvidos e o bairro de residência não estão sendo divulgados para preservar a identidade da criança, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente (Ecriad).
A menina chegou à igreja por volta das 19h, parecia desnorteada e estava sozinha, segundo o Boletim de Ocorrência. De acordo com o pastor, a menina revelou os abusos e disse que eram recorrentes.
"Ela estava chorando e veio em minha direção. Eu fui conversar e perguntei o que tinha acontecido. Aí ela me relatou que havia sido abusada pelo padrasto e disse que já havia algum tempo, só que desta vez o padrasto tinha sido mais violento", contou o pastor.
A criança contou que chegou a falar para a mãe o que estava acontecendo em casa, mas a mulher apenas agrediu o marido, não acionou nenhuma autoridade e a situação continuou acontecendo.
A menina contou ainda que era ameaçada e que temia que a situação começasse a acontecer também com a irmã mais nova.
A criança frequentava a igreja há quatro anos, sempre sozinha, o que chamava a atenção dos outros participantes.
"Ela sempre frequentou sozinha, eu até já conversei algumas vezes querendo entender alguma situação da vida dela, o porquê de não ser acompanhada pelos pais. Mas ela sempre dizia que a mãe só queria saber de beber e nem dava muita atenção para ela. Até alimentação a menina dizia que faltava em casa", disse o pastor.
Família localizada no bar
O Conselho Tutelar foi chamado e a PM foi atrás da mãe. Ela foi localizada em um bar junto com o marido, bebendo. A outra filha da mulher, de seis anos, também estava no local.
Aos militares, a mulher confirmou que, ao chegar do trabalho, se deparou com a filha chorando e que a criança relatou o abuso. A mãe disse que acreditava na menina, mas alegou que não chamou a polícia porque estava sem celular.
Mandado de prisão em aberto
A mãe e o padrasto foram levados para a Delegacia Regional de Vitória. No local, os policiais descobriram que o suspeito tinha um mandado de prisão em aberto expedido pela Justiça em Belo Horizonte, Minas Gerais. Não foi informado qual crime ele já tinha cometido.
As crianças foram encaminhadas pelo Conselho Tutelar para uma casa de acolhimento.
A Polícia Civil informou que o suspeito foi autuado em flagrante por estupro de vulnerável com o agravante por ele ser padrasto da vítima. Após os procedimentos, ele foi encaminhado ao sistema prisional.
A mulher também foi conduzida à delegacia, foi ouvida e liberada, já que a autoridade policial não identificou elementos suficientes para realizar a prisão em flagrante naquele momento.
O caso seguirá sob investigação da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA). Fonte: https://g1.globo.com
Poze do Rodo, Bandeira e Ben Jor na encruzilhada
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Poze do Rodo, Bandeira e Ben Jor na encruzilhada
Criminalizar o funkeiro que canta na comunidade é, em verdade, criminalizar a própria comunidade
Por Alcir Moreno da Cruz
“Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? O que vejo é o beco” (Manuel Bandeira, 1933)
Quando o beco geográfico encontra o beco simbólico, a arte é acossada e cantar torna-se um ato de desobediência. Não há céu nesse beco, há sirenes. Não há horizonte, há muro. Quando um cantor é algemado por aquilo que canta, não se prende um homem: acorrenta-se uma coletividade.
A notícia de mais uma prisão – de um artista, de um funkeiro – repete o roteiro conhecido. Não há flagrante de delito, não há resistência, não há sequer perigo. Mas há o espetáculo da contenção, o teatro da vergonha, o cortejo da humilhação pública. É quando o Estado, em nome da ordem, arma o palco da submissão. Algemam-no não porque precise ser contido, mas porque precisa ser exposto. Reduzem-no a uma caricatura perigosa, quando o que ele representa é apenas a liberdade – incômoda, insuportável para alguns – de cantar sobre o mundo que o cerca.
Criminalizar o funkeiro que canta na comunidade é, em verdade, criminalizar a própria comunidade – e, com ela, toda a forma de celebração que ali se realiza. Porque não há festa na favela que não seja permeada por sua realidade: seus personagens, suas contradições, sua música, sua topografia, suas mazelas. A arte, nesse espaço de abandono, é sobrevida. É denúncia, é alegria. “O morro que era um céu, sem o nosso Charles, um inferno virou”, disse Ben Jor em Charles, Anjo 45. O problema nunca foi a letra ou o ritmo. O problema é quem segura o microfone e ousa erguer a própria voz.
Há algo de profundamente simbólico em conduzir, sob o brilho frio das algemas, um cantor sem resistência, sem receio fundado de fuga ou de perigo à integridade física. Um gesto teatral mais destinado às câmeras do que à Justiça, em flagrante ofensa à Súmula Vinculante 11 do Supremo Tribunal Federal (STF). E que ignora o que já foi reconhecido há muito tempo: a força das algemas não reside na sua utilidade física, mas na violência simbólica que carregam, pois quando não há risco há apenas humilhação. Os grilhões, nesse contexto, não seguram um braço, tentam aprisionar um imaginário: você não pertence, você ousou. “Você fez o jogo virar.” “Você saiu do lugar, está em outro patamar.” Para eles, o palco; para você, o banco dos réus. Para eles, o sucesso; para você, a suspeita. Para eles, a licença poética, o eu lírico; para você, o enquadro. Para eles, os atos heroicos e lendários; para você, o lugar reservado a um fora da lei.
A censura à arte que nasce das periferias sempre foi seletiva. Porque não se trata apenas de conteúdo: trata-se de classe. Trata-se de raça. A música de elite pode erotizar, provocar, insultar – e será chamada de vanguarda. A música da favela faz o mesmo – e é classificada como apologia. Não se perdoa a voz que emerge de onde só se esperava silêncio.
Liberdade artística não é favor do Estado – é direito constitucional. Direito que protege inclusive aquilo que incomoda, que provoca, que fere sensibilidades acomodadas, que apresenta a realidade cinicamente encoberta. Quando ceifada, impede o florescimento da democracia. Não há liberdade de expressão apenas para o belo e para o aceito. A verdadeira liberdade protege o incômodo. A licença poética. O personagem. O som que desafia. A letra que fere porque aponta feridas, pois o artista tem mais liberdade que o cidadão comum, não menos. Porque sua função é expandir, e não se limitar. Como advertiu Foucault em Vigiar e Punir: “O controle social é mantido pela criminalização de atos e pensamentos não conformistas”. A tentativa de reduzir esse artista a um criminoso comum, jogado no porão de uma viatura da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) direto à “colônia penal” – enquanto nada mais fez senão cantar –, é um gesto que beira a repetição histórica da senzala. Não é retórica. É diagnóstico.
Querem transportá-lo de volta ao lugar da servidão. Desumanizá-lo, hostilizá-lo em seu próprio lar sob os olhos vivos, espichados e atemorizados dos que o cercam. Há um desconforto com o sucesso de quem, para muitos, deveria fracassar. Um inconformismo com o riso, com a ostentação e com o júbilo. Um incômodo diante da imagem de um jovem negro, milionário, de cabelo abacaxi, egresso do sistema prisional, ouvido e seguido por multidões – e, acima de tudo, altivo.
Censura é sempre política. E, quando atinge a arte popular, a arte periférica, a arte negra, ela revela seu rosto mais cruel: o de um país que ainda não se perdoou por ser mestiço, por ser pobre, por ser plural.
Mas o que vejo é apenas o beco. O beco que canta, que dança, que desafia. O beco onde a arte não morre porque é feita de sobreviventes. E quem sobrevive canta. Mesmo que algemem. Mesmo que tentem silenciar. Mesmo que o queiram de volta ao lugar de onde desejariam que jamais tivesse saído: do beco. “Mas Deus é justo, e verdadeiro. E antes de acabar as férias, nosso Charles vai voltar. Paz, alegria geral. Todo morro vai sambar antecipando o carnaval...”.
Obrigado, Ben Jor; obrigado, Manuel Bandeira; e obrigado, MC Poze! Fonte: https://www.estadao.com.br
Influenciadora chora em frente à sede do TikTok após ser banida da plataforma
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Natalie Reynolds é criticada por publicar vídeo em que convence mulher em situação de rua a pular em lago; caso gerou revolta nas redes
Rio de Janeiro
A influenciadora americana Natalie Reynolds foi flagrada chorando em frente a uma das sedes do TikTok após ter seu perfil banido da plataforma. A cena viralizou nas redes sociais nesta segunda-feira (9). Nas imagens, ela aparece aos prantos enquanto fala ao telefone.
A conta da criadora de conteúdo foi derrubada após a divulgação de um vídeo polêmico, no qual ela convence uma mulher em situação de rua a pular no Lago Lady Bird, em Austin, Texas, com a promessa de pagar US$ 20 (cerca de R$ 111). As imagens mostram a mulher se atirando na água — mesmo sem saber nadar — enquanto Natalie vai embora. A moradora de rua foi resgatada por outras pessoas que estavam próximas ao local.
Desde que foi publicado, o vídeo tem gerado forte repercussão negativa. Além disso, Natalie vem sendo e criticada por supostamente plagiar vídeos da também influenciadora americana Brooke Monk. Fonte: https://f5.folha.uol.com.br
A juventude que grita por presença
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O vício digital, somado à ausência paterna e à invisibilidade da autoridade moral dentro de casa, tem consequências visíveis
A adolescência brasileira, como aponta a contundente pesquisa do Instituto Papo de Homem com apoio do Pacto Global da ONU, está à deriva. Vítima da ausência de referências, mergulhada em solidão afetiva e contaminada por conteúdos tóxicos, nossa juventude vive uma silenciosa tragédia moral. Um em cada cinco meninos entre 13 anos e 17 anos se declara viciado em pornografia. Outros tantos admitem dependência de games. E mais de 14% têm em influenciadores digitais suas principais referências masculinas. Esses dados, mais do que números, são clamores. Clamores por afeto, por autoridade moral e, sobretudo, por presença. Tudo isso fica muito claro em excelente reportagem da jornalista Renata Cafardo.
Vivemos uma profunda crise de identidade masculina. A figura do pai – não no sentido biológico, mas simbólico – está ausente ou fragilizada. Mais de 60% dos jovens entrevistados dizem conviver com poucos ou nenhum homem que considerem um bom exemplo de masculinidade. E talvez o dado mais alarmante: metade dos adolescentes não sabe dizer se é amada por seu pai. O que poderia ser um alicerce tornou-se uma ausência. O que deveria formar corrige mal. O que foi feito para proteger já não está.
Não é difícil de entender a causa. A desestruturação familiar, somada à omissão educacional e ao avanço das tecnologias digitais como substitutos da convivência, criou uma geração hipersensível e hiperconectada, porém emocionalmente órfã. E uma criança ou adolescente emocionalmente órfão – ainda que viva com seus pais – está muito mais vulnerável às distorções do mundo adulto travestidas de entretenimento.
A série Adolescência, da Netflix, que narra a história de um garoto de 13 anos que comete um crime bárbaro na escola, escancarou a urgência de um debate que há muito precisa ser feito: o que estamos formando? Que tipo de homem emerge dessa juventude desprovida de bússolas morais?
A pornografia, nesse contexto, ocupa um papel central. Em artigo anterior, denunciei o poder destrutivo desse vício – que não é apenas um consumo inofensivo, como muitos insistem em afirmar, mas uma escola de desumanização. A pornografia ensina a brutalização das relações, distorce o olhar sobre o outro, mata a ternura e anestesia a capacidade de amar. Um adolescente viciado em pornografia não apenas consome imagens, mas vai sendo, pouco a pouco, deformado por elas.
O vício digital, somado à ausência paterna e à invisibilidade da autoridade moral dentro de casa, tem consequências visíveis: aumento da violência, apatia escolar, impulsividade e uma crescente sensação de vazio. E o que é mais grave: muitos desses meninos não veem saída. O futuro lhes parece um lugar sem sentido. Daí o fascínio por figuras artificiais, como os influenciadores digitais, que oferecem respostas fáceis a perguntas difíceis.
A cultura digital, por sua vez, não tem compromisso com a formação. O algoritmo se alimenta de vício, e o vício é lucrativo. Quanto mais tempo esses meninos passam diante das telas, mais se distanciam da realidade concreta. E quanto mais distantes da realidade, mais frágeis se tornam. E quanto mais frágeis, mais suscetíveis ao consumo de conteúdos destrutivos. Um ciclo perverso que a ausência familiar não apenas permite, mas muitas vezes legitima.
Não é preciso ser um especialista para perceber que há algo profundamente errado na forma como a sociedade contemporânea tem educado os meninos. As escolas hesitam, os pais se omitem e os meios de comunicação se calam. O resultado? Uma geração órfã, ainda que cercada de tecnologia, conforto e acesso à informação.
Mas há caminho. A reconstrução passa, necessariamente, pela família. Em artigos anteriores, defendi com convicção que é na família – e apenas nela – que se estabelece a verdadeira formação do caráter. É na convivência familiar que se molda o coração. O problema é que muitas famílias terceirizaram essa missão. Pais exaustos, mães sobrecarregadas, lares sem tempo. A rotina esmaga o diálogo, e o diálogo é substituído por telas.
Reaprender a conviver, reaprender a estar junto. Esse é o desafio. Os adolescentes não precisam de perfeição, mas de presença. Precisam de pais que digam “eu te amo”, de homens que mostrem, pelo exemplo, o que significa ser forte sem ser violento, decidido sem ser opressor, sensível sem ser frágil.
Precisamos resgatar o valor da autoridade. Autoridade não como autoritarismo, mas como referencial. Toda criança precisa saber que existe um limite. E que esse limite não é uma punição, mas um ato de amor. Num mundo onde tudo é permitido, o jovem se perde. É a ordem que forma. É o “não” que protege.
O futuro dos meninos – e, por extensão, da sociedade – dependerá da nossa coragem de resgatar os valores perenes. Isso significa dizer não ao relativismo moral, enfrentar a normalização da pornografia, romper com a cultura do “deixa estar”. Isso significa, sobretudo, voltar para casa. Reconstruir o lar. Reconstruir a autoridade do pai, o afeto da mãe, o diálogo com os filhos.
A juventude grita por presença. Que não sejamos surdos. Fonte: https://www.estadao.com.br
Homem mata a ex e expulsa enteada para ficar com o namorado dela em Santa Cruz, diz polícia
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Vendedor foi preso pelo assassinato da ex, a facadas, e por queimar o corpo dela.
Por Rafael Nascimento, g1 Rio
A Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA) da Polícia Civil do RJ prendeu um homem na Zona Oeste do Rio pelo assassinato da ex-companheira. Segundo as investigações, após o crime, ele expulsou a enteada de casa. A motivação seria um interesse amoroso pelo namorado da jovem.
Ronald Mendes, de 32 anos, foi preso pela morte de Daniele Sanches, de 36, sua ex-companheira. A execução, segundo a polícia, era o caminho para que Ronald pudesse ficar com o namorado da enteada, menor de idade. Hoje, o menor tem 17 anos, e na época em que conheceu Ronald, 16.
O assassinato aconteceu no dia 29 de março deste ano, em Santa Veridiana, sub-bairro de Santa Cruz, e foi descoberto após o adolescente contar para a mãe o que tinha acontecido.
Como tudo começou
Ronald e Daniele iniciaram um romance em 2019. Ela já tinha filhos de outro relacionamento e os levou para morar com o padrasto. O casal teve um filho, hoje com 3 anos.
A relação foi marcada por muitas brigas e relatos de agressão contra os enteados.
"A partir da oitiva de todas as testemunhas da investigação, ficou destacado que o Ronald é um homem extremamente manipulador. Se aproximou da Daniele com o objetivo único de ter um filho e, ao longo dessa relação, mantinha relação com outras pessoas e inseriu um menor de idade na relação do casal, formando esse triângulo amoroso", afirmou a delegada Ellen Souto.
Esse menor de idade um garoto que a filha adolescente de Daniele conheceu no carnaval de 2024. Os jovens passaram a namorar, e Ronald, ao ser apresentado ao rapaz, teria desenvolvido sentimentos por ele. Ronald convidou, então, o adolescente para morar com eles.
O g1 não conseguiu localizar a defesa de Ronald.
Ameaças
Testemunhas contaram à polícia que, a partir daí, as brigas entre Daniele e Ronald se intensificaram. À polícia, parentes contaram que Daniele frequentemente recebia ameaças de Ronald – caso ela fosse embora com o filho do casal.
A investigação apontou que, um mês antes de ser morta, Daniele saiu de casa com os filhos mais velhos e foi para a casa da mãe, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Entretanto, teria dito para Ronald que entraria na Justiça para ter a guarda do caçula.
Foi aí, que, de acordo com a polícia, para "viver em família" com o namorado da enteada e com o filho que teve com Daniele, Ronald planejou o assassinato da ex-mulher.
Sexo antes de matar
A DDPA descobriu que Ronald mandou mensagens para Daniele e a convidou para uma noite de sexo. No entanto, segundo a polícia, o vendedor já teria tramado a morte da vítima e usado a história como pretexto para atraí-la.
Na noite do crime, Daniele comprou salgadinhos e levou uma garrafa de vinho para o encontro íntimo. Em seguida, o casal seguiu para uma área de mata em Santa Cruz.
Segundo a investigação, quando a vítima já estava nua, Ronald a algemou e degolou. No entanto, como a faca estava cega, de acordo com depoimento do próprio vendedor, ele a esfaqueou diversas vezes.
O homem contou aos policiais que ele foi em casa, sujo de sangue, e pediu para que o namorado da enteada e um outro adolescente comprassem gasolina para queimar o corpo da mulher.
Em seguida, Ronald disse que voltou ao local do crime e ateou fogo ao corpo de Daniele. Aos policiais, ele admitiu que voltou no matagal outras 3 vezes para incinerar os restos mortais da ex-companheira.
O próprio Ronald levou os agentes da DPPA até onde estariam os restos mortais de Daniele. No local, a polícia encontrou uma ossada que foi encaminhada para a perícia.
Semana passada a Justiça expediu um mandado de prisão temporária contra Ronald, que vai responder por feminicídio.
Família estranhou mensagens
Após o crime, o adolescente contou que Ronald passou a mandar mensagens para parentes e amigos de Daniele se passando por ela e pedindo para que eles não a procurassem.
O irmão da mulher estranhou o teor das mensagens, já que ela só mandava áudio. Depois de 40 dias a família da vítima procurou a delegacia para registrar um boletim de ocorrência por desaparecimento.
Com medo, adolescente procurou a mãe
O vendedor teria mostrado as imagens do crime para o adolescente que, com medo, deixou a residência onde morava com o homem e foi para a casa da mãe.
Lá, a mulher estranhou as constantes mensagens enviadas por Ronald e questionou o jovem, que contou o que tinha acontecido.
Segundo a polícia, para se eximir da autoria do crime, Ronald alegou que o menor teria planejado a morte de Daniele, e que ambos executaram a vítima. Fonte: https://g1.globo.com
Em julgamento, a liberdade de expressão
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Mais do que julgar a suposta inconstitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet, o Supremo irá redefinir a partir de hoje os limites de um direito fundamental dos brasileiros
O Supremo Tribunal Federal (STF) retoma hoje o julgamento de dois recursos extraordinários que tratam da suposta inconstitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet. Esse é o dispositivo legal que fixa critérios para que as empresas de tecnologia possam ser civilmente responsabilizadas por conteúdos publicados por terceiros em suas plataformas, notadamente as redes sociais. O reinício do julgamento é ocasião para este jornal reafirmar seu entendimento de que o artigo 19 é plenamente constitucional. Não há uma vírgula em sua redação que não esteja coadunada com a Constituição – nem tampouco com o Código Penal.
Mas, a título de argumentação, digamos que o referido dispositivo fosse, de fato, inconstitucional. Ora, bastaria ao STF dizê-lo e deixar a cargo do Congresso a análise sobre a pertinência de reescrevê-lo, se o Legislativo achar que é o caso. Porém, não é isso o que parece estar em vias de acontecer, a julgar pelas palavras do ministro decano da Corte. Em Paris, Gilmar Mendes afirmou que a decisão que o STF vier a tomar pode ser “um esboço de regulação da mídia social” no Brasil. A ser assim, o STF usurpará uma competência do Congresso, redefinindo, na prática, os limites da liberdade de expressão no País.
O espírito que anima a Corte nesse julgamento não é nada bom, muito ao contrário: há uma nítida inclinação para a censura, ainda que o mal venha disfarçado sob o manto iluminista da purgação do debate público online por meio do combate ao que alguns ministros entendem por “fake news” e “discursos de ódio”.
Em grande medida, a despeito de jamais ter sido um direito absoluto, a liberdade de expressão está sob risco de ser cerceada no País porque o STF está debruçado sobre esse julgamento com base em duas falsas premissas. A primeira e mais gritante delas é a suposta “omissão” do Congresso para “atualizar” o Marco Civil da Internet, restando à Corte, uma vez provocada, preencher esse vácuo institucional. Não é assim que funciona uma república baseada na tripartição dos Poderes. O Congresso não se omitiu. Pouco tempo atrás, o Projeto de Lei (PL) da regulamentação das chamadas big techs, incorretamente designado como “PL das Fake News”, estava prestes a ser votado, mas foi retirado de pauta por decisão da maioria dos líderes partidários em razão da falta de consenso para votar a matéria em plenário – uma decisão, diga-se, rigorosamente legítima.
A segunda falácia é a suposta transformação da internet numa “terra sem lei”, um espaço no qual os cidadãos estariam livres para cometer toda sorte de crimes sob o beneplácito das big techs, interessadas que são em disseminar conteúdos que geram tráfego, não necessariamente lícitos, em busca de visualizações, engajamento, publicidade e dinheiro – muito dinheiro. Ora, é evidente que o ânimo dessas empresas é o lucro, e não o desejo de se firmarem como vestais do debate público na ágora moderna.
Também é fato que o Marco Civil da Internet pode ser revisitado, até para obrigar as empresas de tecnologia a serem transparentes no que diz respeito à arquitetura de seus algoritmos e de seus modelos de remuneração. Mas é simplesmente mentiroso afirmar que, a não ser por meio dessa intervenção antirrepublicana do STF, os usuários e as empresas permanecerão isentos de quaisquer responsabilidades – inclusive penal, no caso dos cidadãos – por conteúdos criminosos que circulam nas redes sociais.
Por seu equilíbrio, fruto de um longo e profícuo debate no Congresso, o modelo brasileiro de responsabilização civil das big techs, mas não só, é tido como um paradigma internacional. Para Tim Berners-Lee, ninguém menos do que o criador da internet como a conhecemos, o Marco Civil brasileiro foi aprovado como o prenúncio de “uma nova era” ao respeitar o espírito de liberdade que o inspirou e, ao mesmo tempo, garantir que o ambiente digital não se tornasse uma área livre para a prática de crimes.
Ao pretender substituir o Legislativo na definição do que pode ou não circular pelas redes sociais, o STF não apenas abastarda seu papel institucional, como ameaça criar um perigoso precedente: o de que direitos fundamentais, como a liberdade de expressão, podem ser relativizados por interpretações e interesses circunstanciais de uma maioria de togados. Fonte: https://www.estadao.com.br
Sobre a barulheira e a verdade dos fatos
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As plataformas descartaram os fatos e a razão para ficar com a gritaria e a barulheira. O jornalismo segue a trilha oposta
Por Eugênio Bucci
A crise que se abateu sobre a imprensa veio como um armagedon que atingiu o coração do chamado “modelo de negócio” dos jornais e das revistas. As receitas de publicidade debandaram e foram se aboletar nas tais plataformas sociais (ou antissociais, como já disse Marcia Tiburi). As redações ficaram falando sozinhas. É verdade que algumas conseguiram aumentar o faturamento com a venda de assinaturas (o New York Times, por exemplo, tem hoje uma carteira de 11,6 milhões de assinantes, quase todos assinantes digitais; apenas 600 mil recebem o jornal impresso na porta de casa). A grande maioria dos diários, porém, ficou à míngua, assim como a grande maioria das revistas. Tempos de penúria.
A crise não trouxe nada de bom. Nada, a não ser a necessidade de pensar um pouco. Os melhores profissionais da imprensa perceberam, finalmente, que é preciso refletir. Sobreviventes, aprenderam que precisam elaborar novas ideias sobre sua razão de ser e sobre o que faz de seu ofício um bem social indispensável para a democracia. Um debate de alto nível está em andamento, e esse debate só nos fará bem.
Antes que alguém se lembre do dito popular, “de pensar, morreu um burro”, é bom lembrar que muitos mais morreram por não pensar, e não só os burros. Quanto a isso, podemos afirmar que a crise do jornalismo – que também se traduz em obsolescência do padrão tecnológico – é sobretudo uma crise de pensamento, quer dizer, uma crise de falta de pensamento. Eis por que é bom que a pauta reflexiva se instale.
Para que serve a imprensa, afinal? É hora de pensar. Por que o cidadão não deveria simplesmente substituir os jornais pelos WhatsApps da vida? Quem trabalha no ramo e tem alguma consciência sabe a resposta: a imprensa é o único método social capaz de ajudar o público a examinar, com base nos fatos, o exercício do poder. Não há, em qualquer modelo de democracia conhecido, outra instituição que entregue esse serviço para a sociedade. O famigerado X não faz isso. O Facebook não faz isso. Um e outro geram ruído, mas não apuram os fatos e não fornecem relatos confiáveis para abastecer o debate político mais consequente. X e Facebook não são imprensa. São a anti-imprensa.
A imprensa nos entrega ainda outro benefício. Com seu método social (insisto no adjetivo “social”, pois se trata de um método que só adquire corpo nas relações entre os atores sociais), ela expande na prática a liberdade de expressão e o direito à informação. Com isso, dá mais vigor à política democrática.
Portanto, se trocassem as redações profissionais por plataformas, os cidadãos renunciariam a tudo aquilo que faz deles cidadãos e se reduziriam a meros espectadores do entretenimento generalizado. Estariam trocando uma assembleia por um programa de auditório. Em outras palavras, estariam deixando de lado o diálogo amparado em balizas racionais e abraçando um reality show delirante, estariam abandonando o debate entre argumentos para embarcar no fanatismo. O barulho das plataformas, em lugar de contribuir para identificar os fatos, só faz soterrá-los e condená-los ao esquecimento.
Isso significa que o alarido das plataformas não serve de modelo para a imprensa. Seria um equívoco acreditar que o simples embate de enunciados contrários, só porque são contrários, poderia nos ajudar a ver os fatos como eles realmente são.
Talvez, há 250 anos, essa fantasia tenha tido legitimidade. No século 18, o iluminista Honoré Gabriel Riqueti, o conde de Mirabeau, acreditava que o calor do bate-boca nos conduziria à epifania: “Deixemos que se batam (as doutrinas contrárias) e veremos de que lado estará a vitória. Por acaso a verdade alguma vez foi derrotada quando atacada abertamente e quando teve a liberdade para defender-se?”. Essa visão, que foi justa naquele tempo, seria desastrosa se transplantada mecanicamente para os jornais dos nossos dias.
No Século das Luzes, os folhetos devezenquandários da França revolucionária não tinham como procedimento ouvir o outro lado, corrigir os erros ou apurar os fatos. Só o que faziam era propaganda e proselitismo. Foi somente no século 19 que a imprensa se profissionalizou e se dedicou ao que seria seu maior valor na democracia: a busca pela verdade factual e a crítica pública e racional ao poder. Desde então, ao menos nas boas redações, o critério factual, ao lado dos requisitos da razão, comparece à edição diária das notícias.
À luz dessa história, os jornais incorreriam em grave anacronismo se, em nome de assegurar o princípio do contraditório, publicassem em profusão artigos dos negacionistas do aquecimento global. O contraditório é, sim, uma exigência da lógica, mas ele não se estabelece entre alguém que insiste na mentira notória e alguém que procura dizer a verdade.
As plataformas descartaram os fatos e a razão para ficar com a gritaria e a barulheira. O jornalismo segue a trilha oposta. A verdade não é a média aritmética entre duas distorções. Que as redações sigam com esse bom debate – e que não deem guarida ao discurso comprovadamente mentiroso e impostor. Fonte: https://www.estadao.com.br
Polícia prende homem por plano de ataque a bomba em show de Lady Gaga.
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Operação investigou grupo que disseminava discurso de ódio nas redes sociais e planejava ataque
Salvador
Uma operação conjunta da Polícia Civil do Rio de Janeiro e do Ministério da Justiça e Segurança Pública identificou um plano de ataque à bomba no show da Lady Gaga, que aconteceu na noite deste sábado (3) na praia de Copacabana.
A operação "Fake Monster" investigou grupo que disseminava discurso de ódio nas redes sociais e preparava um plano de ataque contra crianças, adolescentes e público LGBTQIA+.
Um homem apontado líder do grupo foi preso em flagrante por porte ilegal de arma de fogo no Rio Grande do Sul e um adolescente foi apreendido por armazenamento de pornografia infantil no Rio.
A investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro identificou que os envolvidos estavam promovendo um "desafio coletivo" em redes sociais e recrutando adolescentes para promover ataques com explosivos improvisados em mochilas e coquetéis molotov durante o show de Lady Gaga no Rio.
Os desafios são encarados como uma forma de pertencimento entre os jovens destes grupos e também visam obter notoriedade nas redes sociais.
Os alvos da operação atuavam em plataformas digitais, onde promoviam ações de radicalização de adolescentes, incluindo a disseminação de crimes de ódio, automutilação, pedofilia e a publicação conteúdos violentos.
Ao todo, foram cumpridos 15 mandados de busca e apreensão contra nove pessoas nos municípios do Rio de Janeiro, Niterói, Duque de Caxias e Macaé, no Rio; Cotia, São Vicente e Vargem Grande Paulista, em São Paulo; São Sebastião do Caí, no Rio Grande do Sul; e Campo Novo do Parecis, em Mato Grosso.
Foram apreendidos pela polícia dispositivos eletrônicos e outros materiais que serão analisados para robustecer as investigações.
O objetivo da operação foi neutralizar as condutas digitais que tinham potencial risco ao público do evento. Conforme a Polícia Civil, o trabalho foi executado com discrição e precisão, evitando pânico ou distorção das informações junto à população.
A Folha teve acesso a um documento da investigação que aponta que os ataques seriam coordenados por um grupo que atua no Discord. A plataforma foi procurada pela reportagem, que aguarda um posicionamento sobre o caso.
A operação foi fundamentada em um relatório técnico produzido pelo Ciberlab (Laboratório de Operações Cibernéticas) do Ministério da Justiça, após um alerta da subsecretaria de Inteligência da Polícia Civil do Rio de Janeiro, que identificou células digitais que induziam jovens a condutas violentas por meio de linguagens cifradas e desafios com simbologia extremista.
O alerta para ataque foi feito por meio do Disque Denúncia, entidade não governamental que recebe informações de forma anônima no número (21) 2253-1177.
O trabalho de inteligência também envolveu o CIVITAS (Central de Inteligência, Vigilância e Tecnologia em Apoio à Segurança Pública) da Prefeitura do Rio, que recebeu a informações sobre o ataque e enviou um relatório de inteligência à rede de segurança do Governo Federal.
Como desdobramento da operação, os agentes da Polícia Civil também cumpriram neste sábado um mandado de busca e apreensão em Macaé contra uma pessoa que também planejava ataques. Ele ameaçava matar uma criança ao vivo, e responde por terrorismo e por induzir crimes. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
Jovem é morto com um tiro na cabeça após amigo buzinar para pedir passagem no ABC Paulista
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Vítima estava no banco do carona de carro que teve a passagem fechada no trânsito; autor desceu do veículo à frente e atirou
Jovem é morto com um tiro na cabeça após buzinar para pedir passagem no ABC Paulista — Foto: Reprodução/Redes Sociais e Reprodução/CNN Brasil
Por O Globo — Rio de Janeiro
Um jovem de 22 anos, identificado como Patrik Silva, foi morto com um tiro na cabeça após se envolver em uma suposta discussão no trânsito em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, no último domingo. Patrik estava no banco do carona do veículo dirigido por um amigo, que contou à polícia que, quando os dois passavam pelo Corredor ABD, foram fechados por um outro carro. Ao buzinar para pedir passagem, um homem saiu do veículo armado e disparou contra eles.
Ainda de acordo com a testemunha, ele tentou acelerar para fugir, mas logo percebeu que Patrik havia sido atingido. No momento do ocorrido, o suspeito parecia discutir com uma mulher. O motorista, que estava em Citroën Cactus branco, dirigiu pela mesma avenida até Diadema e solicitou ajuda a Guarda Municipal da cidade para conseguir atendimento médico, mas o jovem não resistiu ao ferimento e chegou à unidade de saúde já em óbito.
Em nota ao GLOBO, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) afirmou que o local do crime passou por perícia, e que o amigo que acompanhava o jovem forneceu informações sobre as características do suspeito. O caso foi registrado como homicídio no 3° DP de Diadema e está sendo investigado pelo Setor de Homicídios e Proteção à Pessoa (SHPP).
Patrik foi sepultado na manhã dessa segunda-feira, no Cemitério Municipal de Diadema, no bairro Conceição. Nas redes sociais, publicações descrevem o jovem como uma pessoa "alegre, de sorriso fácil e que espalhava felicidade por onde passava", e pedem justiça pelo ocorrido. Até o momento da publicação desta reportagem, o suspeito ainda não havia sido preso, conforme informou a SSP-SP. Fonte: https://oglobo.globo.com
Brasil precisa de um estadista
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O País vive uma estagnação política e moral. Não por falta de recursos, inteligência ou potencial. Mas porque falta direção
Tenho insistido reiteradamente num ponto que me parece essencial para compreender o impasse histórico em que o Brasil se encontra: faltam-nos estadistas. Sobram políticos. Mas falta-nos aquele tipo humano raro, que pensa o país para além do próprio reflexo no espelho. O Brasil, em sua complexidade e grandeza, não pode ser reduzido à lógica do marketing político, da sobrevivência eleitoral ou do imediatismo oportunista.
Precisamos de alguém capaz de sonhar alto, agir com responsabilidade e cultivar o senso do dever.
O estadista é, antes de tudo, um servidor da nação. Não é movido por vaidades pessoais, mas por um propósito de transformação social e institucional. A história nos mostra que os estadistas são raros – e por isso preciosos. São homens que se projetam não por gritar mais alto ou colecionar curtidas nas redes sociais, mas por oferecerem ao seu tempo uma bússola moral e uma visão de futuro. São figuras que, mesmo envolvidas nas urgências do presente, não se perdem em sua neblina. Sabem onde estão, por que estão e para onde pretendem conduzir o País.
O Brasil vive uma estagnação política e moral. Não por falta de recursos, inteligência ou potencial. Mas porque falta direção. Os ciclos políticos se sucedem sem que um projeto nacional consistente consiga firmar raízes. Oscilamos entre o populismo e o tecnocratismo, entre promessas vazias e reformas apressadas. Há uma ausência inquietante de lideranças que pensem o Brasil para além de quatro anos.
O estadista, ao contrário do político tradicional, não se limita ao calendário eleitoral. Ele planta árvores cujos frutos talvez não venha a colher. Planeja com os olhos postos em décadas. Sabe que governar não é apenas administrar crises, mas construir futuro. O estadista é um artífice da esperança, não um operador da rotina.
É preciso resgatar, com urgência, a ética da responsabilidade. Não se trata de moralismo barato, mas de um compromisso profundo com o bem comum. O estadista não manipula a verdade, não negocia princípios. Pode até perder eleições – e muitas vezes perde –, mas jamais trai sua consciência. Ele sabe que a política, para ser legítima, precisa ser ética. Sem ética, a política degenera em oportunismo, fisiologismo, corrupção.
O Brasil não pode prescindir da esperança. Mas não pode também continuar refém de salvadores da pátria, de mitos forjados em redes sociais ou de líderes cuja única ideologia é o culto à própria personalidade. A saída está no reencontro com a política em seu sentido mais nobre: a arte de servir ao povo com honestidade, competência e visão.
O estadista precisa ser desenvolvimentista – mas um desenvolvimentismo inteligente, moderno, responsável. Que compreenda as potencialidades do País, respeite o meio ambiente, invista em educação, ciência e tecnologia, valorize a indústria nacional e enfrente as desigualdades sociais com coragem. O Brasil não pode continuar sendo um país rico com um povo pobre.
E aqui, a Amazônia assume um papel estratégico e simbólico. Não há projeto de nação sem um olhar lúcido e soberano sobre a maior floresta tropical do planeta. A Amazônia não pode ser reduzida a slogans ou a objeto de disputa de interesses internacionais. Ela é parte vital da nossa identidade, da nossa biodiversidade e do nosso potencial de desenvolvimento sustentável. Como afirma Aldo Rebelo, “além da maior floresta tropical do mundo, a Amazônia também é detentora da maior fronteira mineral e da maior fronteira energética do mundo”. Um estadista entende que proteger a Amazônia é proteger o Brasil, mas compreende também que a presença do Estado, a infraestrutura, a educação e a geração de emprego são essenciais para que os brasileiros que vivem na região deixem de ser invisíveis.
O estadista não teme o enfrentamento. Mas não o procura por vaidade ou beligerância.
Seu combate é por princípios, não por holofotes. Sua autoridade vem do exemplo, não da imposição. Sua força vem da coerência, não do cálculo político.
O Brasil precisa de alguém que compreenda a complexidade do seu tempo, que una competência técnica à sensibilidade social, que alie firmeza a generosidade. Alguém que não precise gritar para ser ouvido. Que não trate o povo como massa de manobra, mas como sujeito de sua própria história.
O estadista não nasce do improviso. É alguém que conhece a alma do seu povo, respeita sua cultura, valoriza sua história. Sim, a história. Porque quem não conhece o passado está condenado a perder o futuro. A ignorância histórica é uma das raízes da superficialidade política e do desprezo pelas instituições. O estadista, ao contrário, sabe que cada passo adiante exige consciência do caminho já trilhado.
O estadista é, enfim, um construtor. Constrói consensos sem abrir mão de convicções.
Constrói políticas públicas que sobrevivem a governos. Constrói instituições sólidas. Constrói pontes entre o presente e o futuro. E, sobretudo, constrói confiança. Porque sabe que sem confiança não há coesão social e sem coesão social não há desenvolvimento sustentável.
A hora exige coragem, grandeza e espírito público. A hora exige um estadista. Fonte: https://www.estadao.com.br
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