Irmã Maria Elizabeth da Trindade (Elizabeth Fátima Daniel) Carmelo São José, Passos (MG), BRASIL.

(Este trabalho contou com a preciosa colaboração  de Irmã Maria Madalena da Cruz, do Carmelo de Brasília, e Irmã Maristella do Espírito Santo, do Carmelo de Montes Claros, ambos Carmelos da Associação São José, no Brasil)

A VOCAÇÃO: UMA EXPERIÊNCIA DO DEUS VIVO

“A vocação das Carmelitas Descalças é um dom do Espírito, que as convida a uma ‘misteriosa união com Deus’, vivendo em amizade com Cristo e intimidade com a Bem Aventurada Virgem Maria; a oração e a imolação fundem-se vivamente com um grande amor à Igreja.”[1]  Esta definição da vocação da carmelita traz  uma síntese de toda a nossa vida. Oração e amor à Igreja fazem as bases de nossa caminhada, tendo Maria a nos ensinar em seu Magnificat e em sua vida o verdadeiro profetismo que é a escuta da Palavra de Deus, a acolhida do irmão necessitado e a denúncia das injustiças que desfiguram a imagem de Deus na pessoa humana.

Toda a obra fundacional teresiana é fruto da experiência que Teresa teve do Deus vivo que irrompeu em sua vida, conduzindo-a pelos caminhos da intimidade com Ele pela oração. Portanto desde as raízes nossa vocação está intimamente ligada à experiência do Deus vivo, uma experiência que, segundo nosso Pai João da Cruz, fica sempre aquém de quem Ele é. Na verdade tocamos apenas nos “rastros deixados pelo Amado”, contudo podemos dizer que “experimentamos” algo de Deus nestes rastros. Em Aparecida encontramos a síntese do que deve ser nossa vida: “De maneira especial, a América Latina e o Caribe necessitam da vida contemplativa, testemunha de que somente Deus basta para preencher a vida de sentido e de alegria. ‘Em um mundo que continua perdendo o sentido do divino, diante da supervalorização do material, vocês queridas religiosas, comprometidas desde seus claustros a serem testemunhas dos valores pelos quais vivem, sejam testemunhas do Senhor para o mundo de hoje, infundam com sua oração um novo sopro de vida na Igreja e no homem atual’.”[2]

E onde se realiza esta experiência do Deus vivo?

Os lugares do encontro com o Senhor em nossa vivência de Monjas Carmelitas Descalças a meu ver são três:

  • A Oração: No silêncio e na solidão de nossa comunhão com o Senhor experimentamos o Deus de amor que nos acolhe, nos conhece, nos perdoa, nos cura, nos liberta, enfim, que nos ama com entranhas de “Pai-Mãe”. Experimentamos sua brisa suave nos falando na paz como também sua tempestade violenta nos falando nos turbilhões dos acontecimentos história. Nós nos encontramos com o Deus vivo, o Deus que tem o mundo em suas mãos mas que respeita a liberdade do ser humano que vai construindo ou destruindo, semeando ou colhendo, que faz acontecer o projeto de Deus ou simplesmente coloca barreiras a este projeto. Nossa oração é simples, despojada de artificialismos, objetiva, indo direto ao coração de Deus para beber nesta fonte a água viva que nos revela a face do Deus vivo.
  • A Comunidade: Experimentamos o Senhor na vida comum do mosteiro, no dia a dia tão igual na aparência e tão diferente na sua essência que transcende nosso entendimento. No relacionamento fraterno de nossas Comunidades experimentamos Jesus que cuida, que olha com ternura, que sofre e que se alegra. Com olhos abertos à realidade de cada Irmã pode-se sentir o pulsar do coração misericordioso do Senhor. Mas também corremos o risco de fechar os olhos a esta presença escondida do Senhor, vendo apenas a Irmã com suas qualidades, seus defeitos e limites, sem olhar o mistério que ela encerra em si como pessoa, como consagrada, como carmelita.
  • O Ardor Apostólico: Não existe oração verdadeira sem um olhar mais aberto à realidade do mundo. O “amor à Igreja” significa o amor a toda pessoa que está sobre a terra e a busca de fazer chegar até esta pessoa a revelação do rosto de Deus, vivo e atuante na história, o Deus que é amor e vive “buscando a quem amar”, segundo São João da Cruz. O ardor apostólico da Carmelita se manifesta na entrega de toda a sua vida, de cada ato de seu dia, dos “pequenos nadas” que tem a oferecer com a intenção de fazer jorrar a verdadeira vida no coração das pessoas. A experiência do Deus vivo faz com que a carmelita torne-se presente às necessidades do seu povo que está a caminho, a impele a contemplar o Deus encarnado, o Cristo, em tantos rostos abatidos e perdidos, como “ovelhas sem pastor”. Esta é a força matriz que a faz submergir em Cristo e “com Ele, por Ele e Nele” oferecer-se ao Pai em prol da Humanidade. A experiência do Deus vivo é sempre geradora de esperança e vida plena.

            Em conclusão podemos dizer que a vocação do Carmelo é a vocação da comunhão, pois a experiência de Deus vivo perpassa toda a nossa vida e não nos deixa isoladas, mas nos lança ao encontro do outro para realizar com ele a experiência da vida em plenitude.

*II-Congresso ALACAR. Tema:  Mística e Profecia no Carmelo. BOGOTÁ, COLOMBIA. OUTUBRO 2009- Na experiência e na vivência das monjas, por Irmã Maria Elizabeth da Trindade (Elizabeth Fátima Daniel) Carmelo São José, Passos (MG), BRASIL

[1] Constituições das Carmelitas Descalças, 10

[2] Documento de Aparecida, 221

*Frei Patrício Sciadini, ocd.

Sempre o Carmelo teve uma forte acolhida dentro e fora da Igreja, pela sua espiritualidade e pela universalidade da doutrina dos seus místicos mais conhecidos. Embora por caminhos diferentes, todos almejam o encontro com o Absoluto. Todos os  que sentem sede do infinito sentem-se também à vontade com os místicos do Carmelo. Uma Santa Teresa de Ávila ou um São João da Cruz são amados por todos. A poesia mística encontra, especialmente nestes dois grandes santos, a sua mais alta expressão. O caminho do “Nada para chegar a possuir o Tudo” seduz e dá coragem para  percorrer os caminhos da noite, subir a montanha e desejar chegar ao cimo, onde não  há outra coisa que a liberdade plena. Deus, com seu amor e plenitude, habita dentro de nós, onde está a verdadeira nascente de todo o bem. Somente quem encontra a Deus e por Ele se deixa encontrar, chega ao  conhecimento de si mesmo. Fora de Deus não conseguimos nos conhecer e descobrir a nossa verdadeira e autêntica identidade. O  fenômeno místico e a experiência oracional pertencem ao ser humano que busca, com sinceridade a verdade. É a mesma Edith Stein, que percorreu o caminho do rígido judaísmo,  fez-se atéia por opção e entrou na Igreja católica por convicção e fé, quem chega a dizer: “por muitos anos a minha única oração foi a busca da verdade. Muitas pessoas se perguntam:  por que os místicos do Carmelo são sempre atuais, e depois de séculos de história conservam a própria vitalidade e fascínio?

Eu encontro uma única resposta, que me parece válida: porque eles não  se detém na reflexão do passageiro ou do relativo, mas fixam a sua atenção no que é essencial para todas as épocas e períodos históricos, isto é:  a busca e o encontro com Deus.

                        “Onde é que te escondeste,

                                  Amado, e me deixaste com gemido?

                          Como o cervo fugiste,

                          Havendo-me ferido;

                          Saí, por ti clamando, e eras já ido.” (Cântico 1)

                       

                        “Em uma noite escura,

                        De amor em vivas ânsias inflamada,

                        Oh, ditosa ventura!

                        Saí sem ser notada,

                        Já minha casa estando sossegada.” (Noite 1)

 

                        “Oh, chama de amor viva

                        que ternamente feres

                        de minha alma no mais profundo centro!

                        Pois não  és mais esquiva,

                        Acaba já, se queres,

                        Ah! Rompe a tela deste doce encontro.” (Chama 1)

               Estas três estrofes de João da Cruz são uma amostra do que o  ser humano vai buscando sempre,  e sente-se inquieto até que não  o encontra. Mas nunca podemos esquecer que o encontro com Deus nunca é pleno, sempre será parcial. No mesmo instante que o encontramos, nós  o buscamos de novo. Mas onde buscá-lo? É  Teresa quem nos diz que nós somos um castelo luminoso.

            “...Falo de considerar a nossa alma como um castelo todo de diamante ou de cristal muito claro onde há muitos aposentos, tal como no céu há muitas moradas. A bem da verdade, irmãs, não é outra coisa a alma do justo senão um paraíso onde Ele disse ter Suas delícias. Pois não achais que assim será o aposento onde um Rei tão poderoso, tão sábio, tão puro, tão pleno de todos os bens se deleita?

            Não encontro outra coisa com que comparar a grande formosura de uma alma e a sua grande capacidade. De fato, a nossa inteligência – por aguda que seja – mal chega a compreendê-la, assim como ano pode chegar a compreender a Deus; pois Ele mesmo disse que nos criou à Sua imagem e semelhança. Se assim é – e não há dúvida disso -, não há razão para nos cansar buscando compreender a formosura deste  castelo. Pois, ainda que entre ele e Deus exista a diferença que há entre Criador e criatura – já que esse castelo é criatura -, basta que Sua Majestade diga que o fez à Sua imagem para que possamos entender a grande dignidade e formosura da alma.” (1Moradas 1,1)  Ao ser humano, vazio e disperso, rompido nos seus mais íntimos desejos, não lhe resta outro caminho  a não ser o caminho do interior. É  dentro dele que está escondido o Deus que tanto procura.

            “Grande consolação traz à alma o entender que jamais lhe falta Deus, mesmo quando se achasse(ela) em pecado mortal; quanto mais estará presente naquela que se acha em estado de graça! Que mais queres, ó alma, e que mais buscas fora de ti, se tens dentro de ti tuas riquezas, teus deleites, tua satisfação, tua fartura e teu reino, que é teu Amado a quem procuras e desejas? Goza-te e alegra-te em teu interior recolhimento com ele, pois o tens tão próximo. Aí o deseja, aí o adora, e não vás buscá-lo fora de ti, porque te distrairás e cansarás; não o acharás nem gozarás com maior segurança, nem mais depressa, nem mais de perto, do que dentro de ti. Há somente uma coisa: embora esteja dentro de ti, está escondido. Mas, já é grande coisa saber o lugar onde ele se esconde, para o buscar ali com certeza. É isto o que pedes também aqui, ó alma, quando com afeto de amor, exclamas: onde é que te escondeste?” (Cântico 1,8)

 A proposta que o Carmelo pode oferecer aos cristãos do III milênio é o da mística, entendida como busca do essencial, e como vivência dos valores evangélicos que geram os profetas,  capazes de endurecer o próprio rosto diante as injustiça, como o servo sofredor de Javé. Quem encontra o Senhor desde o seu lugar, seja no cárcere de Toledo como João da Cruz, ou um Francisco de Assis  ou um São João Bosco, terá sempre uma única finalidade:  lutar contra o egoísmo humano que escraviza, e libertar o ser humano do pecado para  comprometer-se com a verdadeira liberdade. Livre de todas as escravidões e noites: do espírito, dos bens materiais, da pobreza, da descrença...Somente será livre e capaz de libertar aos outros os que encontram o Senhor.

            Os carmelitas  descalços seculares  são os novos evangelizadores do III milênio que, com a oração e a ação, proclamam a força transformadora das bem-aventuranças. E  entendem, numa maneira nova, o que diz Teresinha do Menino Jesus: “quero amar a Deus e torná-lo amado”.

*ESPIRITUALIDADE DO CARMELO PARA OS LEIGOS. VIII Encontro da Comissão Mista OCD – OC. Recife: 16-23 de junho de 2002.

C O M U N I C A D O Disse Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá”. (João 11,25) A Arquidiocese de Montes Claros, solidária à Comunidade do Carmelo Maria Mãe da Igreja e Paulo VI, comunica com pesar o falecimento de MADRE ANGÉLICA DA EUCARISTIA, vitimada em acidente automobilístico e se une em orações pela recuperação das Irmãs Maristela e Elizabete, e das Leigas Juliana Marília Coli e Irene Viana Parreira, todas feridas no acidente.

O velório de Madre Angélica será na Capela do Carmelo, no domingo, 3 de junho, das 7h às 20h, com celebrações de missas às 8h30, 10h30, 15h e 17h. Na segunda-feira, dia 4 de junho, Dom José Alberto Moura, Arcebispo Metropolitano, presidirá a missa de exéquias às 9h. Em seguida se fará o sepultamento no cemitério do Carmelo. Pede-se que nas missas em todas as Paróquias, no domingo dia 3 de junho, se coloque a intenção do descanso eterno da Madre Angélica, fundadora do Carmelo de Montes Claros e pela recuperação das Irmãs e das Leigas acidentadas.

Montes Claros, 2 de junho de 2018

+ José Alberto Moura, css Arcebispo Metropolitano

+ João Justino de Medeiros Silva

Arcebispo Coadjutor

Fonte: http://arquimoc.com

NOTA DA ARQUIDIOCESE DE MONTES CLAROS/MG: Acidente de carro faz Ir. Maria Angélica, vítima fatal.

Informamos com pesar o falecimento repentino da Irmã Maria Angélica da Eucaristia do Carmelo Maria Mãe da Igreja e Paulo VI ocorrida no final dessa manhã em um acidente de carro. Conhecida por todos como Madre Angélica, a religiosa estava no Carmelo de Montes Claros há mais de 40 anos. Outras religiosas que estavam no carro com ela se feriram mas estão bem na Santa Casa. Ainda não temos informações sobre velório, assim que soubermos atualizaremos.

Irmã Maria Angélica da Eucaristia  aos 87 anos morreu, vítima de um acidente na BR-135, em Montes Claros, na manhã deste sábado (2). Com ela, mais duas religiosas estavam no carro. Irmã Elizabete que sofreu ferimentos leves e Irmã Maristela que fraturou o fêmur e passará por uma cirurgia. Ambas foram encaminhadas para Santa Casa. Estavam no carro também mais duas leigas, amigas do Carmelo. O motorista da carreta que bateu no carro em que estavam as irmãs carmelitas nada sofreu. A pista ficou interditada nos dois sentidos durante o trabalho de resgate das vítimas. A perícia esteve no local e as causas do acidente serão investigadas.

O Carmelo Maria Mãe da Igreja e Paulo VI fica localizado à avenida Atlântica no Monte Carmelo. Fonte: http://arquimoc.com

Vítimas estavam em um carro que foi atingido na lateral por uma carreta; Arquidiocese confirmou que as freiras fazem parte do convento das carmelitas.

Uma freira de 87 anos morreu e quatro ficaram feridas em um acidente na BR-135, em Montes Claros, na manhã deste sábado (2). As vítimas estavam em um carro, que foi atingido por uma carreta. Testemunhas disseram aos bombeiros que o veículo de carga foi desviar de outro automóvel e bateu na lateral do carro. A idosa estava no banco do passageiro e morreu no local.

A motorista ficou presa às ferragens e foi retirada pelo Corpo de Bombeiros. As quatro religiosas foram encaminhadas ao hospital pelo Samu e Bombeiros. Elas têm 38, 44, 45 e 50 anos. O motorista da carreta não sofreu ferimentos.

A rodovia ficou interditada nos dois sentidos durante o trabalho de resgate das vítimas. A perícia esteve no local e as causas do acidente serão investigadas.

A Arquidiocese de Montes Claros confirmou que a irmã Maria Angélica, conhecida como Madre Angélica, pertencia ao convento Carmelo Maria Mãe da Igreja e Paulo VI, assim como as quatro pessoas que ficaram feridas no acidente.

Velório

De acordo com a Arquidiocese, o corpo de Madre Angélica será velado na Capela do Carmelo, no domingo (3), das 7h às 20h, com celebrações de missas às 8h30, 10h30, 15h e 17h. Na segunda-feira (4), Dom José Alberto Moura, Arcebispo Metropolitano, presidirá a missa de exéquias às 9h. Em seguida se fará o sepultamento no cemitério do Carmelo. Fonte: https://g1.globo.com

Dom Frei Francisco de Sales, O. Carm.

A vocação: a experiência do Deus Vivo.

Toda experiência vocacional tem sua origem e princípio em um movimento amoroso plantado por Deus no coração humano que se transforma numa inquietação gerada pela consciência da presença daquele que vive e age na vida e na história das pessoas, impelindo-as a uma resposta generosa que envolve a construção de um ideal. Os primeiros Carmelitas viveram esta experiência quando, mergulhados num contexto um tanto ‘medíocre’ de vivência da fé, buscaram dar vazão a um desejo incontido de radicalidade, e se fizeram peregrinos do absoluto, tentando dar sentido à vida através da incessante busca da face do Deus vivo. Movidos por este desejo de fidelidade radical ao evangelho, eles peregrinaram para a Terra Santa, com o intuito de lá encontrarem o Senhor da terra, descobrirem os seus caminhos, trilharem suas veredas (Sl.24,4), construindo assim o sentido de plenitude para suas vidas dispersas.

O movimento que eles integraram, chamado Peregrinatio Ierosolimitana, tinha como foco principal a busca de um contato quase físico com as fontes mais genuínas da fé, simbolizadas nos lugares marcados pelos feitos e acontecimentos narrados nas Escrituras Sagradas, especialmente aqueles da vida de Jesus. Nestes espaços, eles descobrem a face do Deus vivo e encontram a razão para a inquietação que os movia num processo de êxodo e transformação, cuja meta era a conformação com Cristo na sua vida, paixão, morte e ressurreição. “A terra de Jesus é o espaço que acolhe a epifania do único Deus, o Pai, revelado e manifestado no Filho Salvador, pela potência do Espírito Santo” (Carlo Cicconetti, in Simboli Carmelitani, p. 73).  

O Monte Carmelo foi o espaço referencial para o qual os primeiros carmelitas se sentiram convocados a fazer a experiência de encontro com o Deus vivo.  É uma realidade carregada de simbolismo e significados, com o poder de revelar a natureza da dinâmica do propósito de vida por eles abraçado e de conferir ao grupo uma identidade: O Monte é um jardim onde a vida é exuberante, memorial do jardim primaveril, no qual o ser humano, moldado à imagem e semelhança do Criador, goza de sua familiaridade;

É o lugar no qual, a beleza, com seus matizes e cores, revela-se como via para a redenção do ser humano, feito íntegro para a experiência do belo; É solo profético, marcado pela presença e ação do Profeta Elias, ícone do homem apaixonado por Deus, que vive em sua presença e se deixa consumir de zelo pela causa do Senhor e que se transforma em modelo e guia para a vida de santidade que eles buscavam viver; É um memorial do caminho de ascensão para Deus, símbolo da longa jornada empreendida pelo peregrino até à íntima união com o Senhor.

*Congresso da ALACAR

 Frei Chalmers Joseph, O. Carm. Ex- Prior Geral da Ordem do Carmo.

A Ratio nos diz que a oração é essencialmente um relacionamento pessoal, um diálogo entre Deus e o ser humano. Somos convidados a cultivá-la e a encontrar tempo e espaço para estarmos com o Senhor. A amizade só pode crescer através “da freqüente compatibilidade com Aquele que nos ama” (Santa Teresa d’Ávila – Livro da Vida 8,5) (Ratio 31). A Ratio continua dizendo que além de todas as questões da forma da oração, o importante é cultivar um relacionamento profundo com Cristo. Ela cita Santa Teresa mais uma vez dizendo que a oração perfeita “não consiste em muito pensar, e sim em muito amar” (Fundações 5,2; Castelo Interior 4, 1, 7) (Ratio). As Constituições nos lembram que: “A oração em silêncio é de grande ajuda no desenvolvimento de um espírito de contemplação. Portanto, devemos praticá-la diariamente por um período de tempo apropriado” (Art. 80).

Então o que é a oração em silêncio e o que é um período de tempo apropriado? Nossas vidas são muito agitadas, mas precisamos estabelecer prioridades. A oração é absolutamente essencial. O período de tempo depende do relacionamento da pessoa com Deus e, até certo ponto, depende da criatividade em encontrar espaço e tempo.

Todo relacionamento tem seu próprio ritmo. Geralmente, após um período de tempo, um relacionamento tende a ser menos complicado quando as duas pessoas se acostumam com o jeito uma da outra. Quando você não conhece bem uma pessoa, é difícil sentar em silêncio com ela. Temos a tendência de conversar. Ao conhecermos melhor a pessoa, o relacionamento torna-se mais fácil e sentar-se no silêncio amistoso torna-se normal e agradável. Quando entramos em harmonia com o outro podemos começar a ler seu silêncio. Trata-se de um relacionamento íntimo. O silêncio pode ser mais eloqüente do que muitas palavras.

É muito normal que no decorrer do tempo nossa oração se torne mais e mais simples. Pode ser que já tenhamos uma palavra que resuma tudo que queremos dizer a Deus. Dizer essa palavra significa milhares de coisas. Jesus abriu seu coração a seus discípulos e partilhou conosco o nome especial que tinha para Deus. Esse nome é “Abba”. Essa palavra contém todo relacionamento de Jesus com o Pai. É muito útil trabalhar nossa própria estenografia com Deus para que possamos lembrar durante o dia da presença constante de Deus conosco ao repetirmos uma simples palavra ou frase.

Cada relacionamento com o Senhor é diferente. Se você aproveita o máximo em sentar-se e conversar com o Senhor, ou de meditar sobre um tema, ou de ler e pensar sobre uma passagem da Escritura, ou de refletir sobre um livro espiritual, isso é bom. Por favor, continue a fazer isso. No entanto, podem existir momentos numa jornada de oração quando a pessoa se torna um pouco confusa e procura para onde ir. Também é comum ser levado ao silêncio durante a oração e, a princípio, isso pode parecer estranho e assustador. Não sabemos o que fazer e temos a sensação de estarmos perdendo tempo. A grande tentação é deixar de lado a oração porque não podemos mais encontrar o consolo que tivemos e ceder à sensação de perda de tempo. Como Santa Teresa d’Ávila, insisto que você não ceda a essa tentação e tenha uma “determinação muito determinada” de agarrar-se à oração especialmente quando ela não está de acordo com os seus planos.

É uma experiência muito comum passar por períodos prolongados de aridez na oração. Mais uma vez sentimos como se estivéssemos desistindo ou chateados. Sentimos que Deus foi embora não deixando endereço. Se, de alguma forma, mesmo no meio da confusão e da aridez, estamos convencidos do valor da oração, devemos apenas nos sentar na poeira e esperar por Deus. Em ocasiões muito estranhas em que um pensamento santo flutua sobre o rio de nossa consciência, temos a tendência de nos precipitarmos sobre ele e sufocá-lo, exaurindo-o por estarmos ressecados. No entanto, existe outra forma de lidar com esses pensamentos santos ocasionais. Não importa o quanto possam parecer santos, eles são nossos pensamentos, por isso subtende-se que deixamos que eles venham ou não. Se esses pensamentos forem verdadeiramente de Deus, retornarão em outro momento.

Existem muitos métodos de esperar por Deus no silêncio. Gostaria de propor um método de oração que pode fazer com que o silêncio seja muito produtivo e que pode nos ajudar a esperar por Deus no silêncio. Trata-se de um método de oração cristão baseado na rica tradição contemplativa e, especialmente, num livro clássico dessa tradição, “A Nuvem do Não-Saber”, um escrito anônimo do século XIV. Não estou sugerindo que devemos deixar de lado outras formas pessoais de oração, mas esse método pode aprofundar esses outros métodos e torná-los mais produtivos. O mais importante para esse tipo de oração é estar convencido de que Deus não está longe, mas muito perto. Deus faz sua morada em nós (cf. Jo 14,23).

Esse método de oração pode ser chamado de oração do silêncio ou de oração do desejo porque, no silêncio, nos voltamos para Deus com nosso desejo. Ele também foi chamado de oração em segredo, seguindo o conselho de Jesus para entramos em nosso quarto e rezarmos ao Pai ocultamente (M 6,6). A primeira fase dessa oração é encontrar um local adequado onde as interrupções sejam reduzidas ao mínimo. Depois se coloque numa posição confortável que você possa manter durante todo tempo da oração. Recomenda-se um mínimo de 20 minutos. Pode-se começar essa oração com uma pequena leitura da Bíblia. Não é hora de pensar no significado das palavras. Esse tipo de meditação fica para outra hora. Agora é hora de simplesmente estar na presença de Deus e de consentir na ação divina com nossa intenção. Então, com os olhos fechados, introduza gentilmente uma palavra sagrada em seu coração. Uma palavra sagrada é aquela que tem um grande significado para você em seu relacionamento contínuo com Deus. A palavra sagrada deve ser sagrada para você. De acordo com o ensinamento de “A Nuvem do Não Saber”, é melhor que essa palavra seja breve, de uma sílaba se possível. Sugiro algumas palavras: “Deus, Senhor, Amor, Jesus, Espírito, Pai, Maria, Sim”. Escolha uma palavra significativa para você. Talvez você pense em uma, se pedir a ajuda de Deus.

Quando peço que você introduza uma palavra sagrada no seu coração, não estou sugerindo que você a pronuncie com seus lábios, ou mesmo mentalmente, mas acolha-a dentro de você sem pensar em seu significado. Não é necessário forçar a palavra sagrada. Ela deve ser muito gentil. A palavra sagrada não é um mantra a ser repetido constantemente. A palavra concentra nosso desejo e sempre a usamos do mesmo modo simplesmente voltando nosso coração para o Senhor assim que percebemos que estamos distraídos. Essa é uma oração de intenção e não de atenção. Nossa intenção é estar na presença de Deus e consentir na ação divina em nossas vidas. A palavra sagrada expressa essa intenção e, assim, quanto tomamos consciência de que estamos pensando em algo diferente, podemos decidir se continuamos com a distração por ser mais interessante, ou se voltamos nossa intenção para a presença de Deus e consentimos com aquilo que Deus quer realizar em nós. Voltamos nosso coração para Deus pelo uso da palavra sagrada. Ela é um símbolo de nossa intenção. Não é necessário repeti-la freqüentemente, apenas quando desejamos voltar nosso coração para Deus.

Durante essa oração, não é hora de conversar com Deus usando belas palavras ou mesmo de ter pensamentos santos, mesmo se pensamos que são inspirações de Deus. É melhor deixar essas coisas para outro momento. Nosso silêncio e nosso desejo valem mais do que palavras.

Através da palavra que escolhemos, expressamos nosso desejo e nossa intenção de permanecer na presença de Deus e de consentir com a ação divina purificante e transformadora. Voltamos para a palavra sagrada, que é o símbolo de nossa intenção e de nosso desejo, apenas quando tomamos consciência de estarmos envolvidos em algo diferente.

A oração consiste simplesmente em estar na presença de Deus sem pensar em nada em especial. Se você compreende como estar em silêncio com outra pessoa sem pensar ou fazer algo em especial, então você será capaz de compreender do que trata a oração. Nem todas as pessoas se adaptam a esse método de oração. Se você sentir um chamado interior para um silêncio maior, ele pode ajudá-lo.

No final do período que você decidiu dedicar à oração, talvez você possa dizer um Pai Nosso ou outra oração lentamente. É bom permanecer em silêncio por alguns momentos para se preparar para levar o fruto de sua oração para sua vida pessoal.

(Convido você a rezar agora e usar brevemente esse método de oração em segredo. Fique à vontade e entre na sala secreta de seu coração onde Deus mora. Para marcar o final do tempo de oração recitarei lentamente uma oração comum. Esse é o momento de reajustar-se ao momento presente).

Pauta prática para a Oração em Segredo:

1- Escolha uma palavra sagrada como símbolo de sua intenção em consentir na presença e na ação de Deus dentro de você.

2- Sente-se confortavelmente e, com os olhos fechados, fixe brevemente e introduza a palavra sagrada silenciosamente como símbolo de seu consentimento da presença da ação de Deus dentro de você.

3- Quando estiver envolvido com seus pensamentos, volte sempre gentilmente à palavra sagrada.

4- No final do período de oração, permaneça em silêncio com os olhos fechados por alguns minutos.

Perguntas para reflexão

1-Você é fiel ao ritmo da oração pública e pessoal?

1- Como a nossa vida de oração pode ser melhorada?

Mariano Cera

Falando das várias formas de oração, podemos distinguir a oração pública ou litúrgica e a oração particular. Considerada na sua ‘expressão’, a oração pode ser mental ou vocal.

A oração litúrgica

Esta foi sempre reconhecida como a oração por excelência, a ação sagrada da Igreja unida à História Sagrada. É na ação litúrgica que a Palavra de Deus está presente em todo o seu mistério de força criadora, redentora, santificadora. Esta é a fé.

Na ação litúrgica se anuncia constantemente o retorno de Cristo e a realização de todas as promessas. Esta é a esperança.

Finalmente, na liturgia o mistério do amor de Jesus está presente no Sacrifício eucarístico. Eis a caridade.[1]

A colaboração da Igreja em Cristo se dá nas três grandes ações litúrgicas: a Santa Missa, a administração dos Sacramentos, a recitação da Liturgia das Horas.

Todo cristão é chamado a participar destas distintas ações litúrgicas para dar à sua oração não apenas um caráter privado, mas também uma dimensão social, comunitária, eclesial, que dará frutos na medida do empenho pessoal.[2]

A oração individual

Para que a participação na ação litúrgica da Igreja dê frutos, é necessário uma intervenção "pessoal", uma verdadeira atividade humana que nos permita descobrir o sentido das ações litúrgicas e que nos faça tirar delas o melhor fruto possível.

A Igreja insiste na importância das práticas pessoais ‘de piedade’, como a oração da manhã e da tarde, a oração do Terço, etc.[3]

A oração verbal e mental

“Não é necessário entender essa distinção como se existisse diferença absoluta e essencial entre as duas..., mas no sentido de que o ser humano pode se dedicar a Deus e às verdades divinas somente com a mente, em perfeito silêncio..., mas pode também expressar seus conceitos e sentimentos com palavras. Para que sua vida espiritual seja perfeita, o ser humano necessita das duas formas de oração”.[4]

Santa Teresa explica melhor quando diz que a oração não é verbal ou mental pelo fato da boca estar aberta ou fechada, pois a oração mental também pode terminar em um diálogo. Por isso seria melhor dizer que a oração vocal é aquela que se faz usando uma fórmula pré-estabelecida, enquanto que a mental é aquela que se faz espontaneamente, expressando sentimentos que brotam do coração.[5]

A mais bela de todas as orações verbais é o Pai Nosso, que brotou da ternura do coração do Senhor. “Algumas vezes, quando meu espírito se encontra numa aridez tão grande que é impossível fazer um pensamento para unir-me ao bom Deus, rezo lentamente um Pai Nosso e depois a saudação do Angelus. Estas orações me arrebatam, nutrem a minha alma bem mais que se as tivesse recitado precipitadamente uma centena de vezes”.[6]

Brenninger nos diz que o valor e a eficácia da oração verbal depende, antes de tudo, da devoção interior. Mas se pode aumentar:

- da origem da oração: o Pai Nosso que nos foi ensinado por Jesus supera em eficiência e em dignidade todas as outras;

- da santidade daquele que reza: quanto mais santidade possui a alma, tanto mais seu louvor e sua súplica são preciosos aos olhos de Deus;

- da companhia dos outros: o Senhor disse: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou no meio deles” (Mt 18,20).[7]

Oração mental é aquela que se faz espontaneamente, que não se prende a fórmulas pré-estabelecidas. É uma oração mais pessoal, na qual transparecem mais as características, as tendências, as necessidades da pessoa. Santa Teresa insiste no caráter afetivo desta oração. Ela afirma que o que deve guiar a razão é que a alma perceba o amor de Deus e responda a este amor falando intimamente com Ele.[8]

Podemos praticar mais a oração mental durante as ocupações cotidianas, o que coincide mais ou menos, com o exercício da “presença de Deus” (veja na pg.         ).

Este exercício da "presença de Deus" é fundamental, porque é ele que mantém a alma conscientemente unida a Deus. Este exercício é, ao mesmo tempo, recolhimento interior e ruptura com as coisas do mundo que nos distraem. A presença de Deus constitui na essência de toda verdadeira oração: é a própria oração difundida por toda vida e virtualmente operante em toda ela.[9]

A oração contemplativa

Os místicos nos ensinam que nesta etapa da vida de oração, o cristão é inteiramente transformado no amor de Deus que habita nele. Os sentidos, a mente, todas as aptidões foram purificadas pelo fogo do amor.

Todas as coisas revelam, na sua transparência, a presença divina.

O preço da contemplação é a noite escura dos sentidos e do espírito. Somos transformados em Deus. Agora não oramos mais, mas toda a nossa vida é um ato de oração, é sacramento da ação de Deus na história humana.

A luz da sua palavra penetra em nós sem encontrar resistência. Mesmo empenhados na complexidade dos nossos serviços pastorais, não conseguimos viver se não para amar, por amor e no amor. Tudo é dom de Deus.[10]

A oração como vida[11]

Todo movimento em direção a Deus – aspiração, murmúrio, desejo, alegria, hesitação – é sempre uma oração. A oração é antes de tudo tarefa do coração: consiste no querer sempre, e acima de tudo, a vontade de Deus. O verdadeiro caminho da oração é a vida. Uma oração contínua é uma vida inteiramente voltada ao serviço de Deus.

É o amor que dá consistência e unidade à vida. Ação e contemplação não são mais que dois momentos de um mesmo e único amor.

“Jesus, que minha vida seja uma oração contínua; que nada possa distrair-me de ti: nem minhas ocupações, nem minhas alegrias, nem meus sofrimentos... que Isabel desapareça e permaneça apenas Jesus”.[12]

A oração é contínua quando o amor é contínuo. O amor é contínuo quando é único e total. Entendida desta maneira, a oração é sempre possível em qualquer circunstância e em meio a qualquer ocupação. Para um cristão que ama verdadeiramente o Senhor, seria impossível interrompê-la, como seria impossível interromper a respiração. E assim, se compreende como todos, também aqueles que vivem entre os afazeres do mundo, podem cumprir a palavra do Evangelho: “Precisamos rezar sempre”.

O cristão não reza somente quando se dirige a Deus direta e imediatamente com suas práticas devocionais. Mas toda vez que pratica o bem por amor a Deus, não importando suas obrigações, em qualquer obra de apostolado, de caridade, de penitência, de humildade e de serviço oculto.

Vista assim, a oração não se apresenta mais como uma fórmula exterior, uma ação à margem da vida, nem sobreposta a ela, nem como um ato intermitente, mas se revela como o hábito mais necessário da pessoa. Quando o Senhor convidava os apóstolos a orar incessantemente, já dava uma clara indicação a respeito da natureza da oração, cuja essência, para um cristão, se identifica com a própria essência da vida.

Quando a vida é um canto de amor, nossa oração nunca termina.[13]

“A vida do Carmelo é uma união perene com Deus, desde a manhã até a noite e da noite até a manhã. Se não fosse Ele a encher nossas celas e nossos claustros, como tudo seria vazio!”[14]

[1] CALATI B., Il metodo monastico della preghiera, in ANCILLI E. op.cit., V. 1°, pg. 245-249.

[2] AA.VV., La preghiera liturgica, Teresianum Roma 1964.

[3] ANCILLI E., op. cit. 1°v., pg. 31-32.

[4] BRENNINGER G., Dottrina spirituale del Carmelo, Roma 1952, pg. 646.

[5] S. Teresa de Jesus., Opere, C. 22,24,25; M. I, 1,7.

[6] S. Teresa do Menino Jesus, Gli Scritti, n.318.

[7] BRENNINGER E. op.cit., v.1°, pg. 34.

[8] ANCILLI E. op.cit., v.1°, pg. 33-34.

[9] ANCILLI E., op. cit., v.1°, pg. 34.

[10] FREI BETTO, La preghiera nell’azione, EDB 1977, pg. 66-68.

[11] ANCILLI E. op.cit., v.1°, pg. 34-35. Também VALABEK R. M. Sarete raggianti, Roma 1993, pg. 31-33: FREI BETTO, op.cit., pg. 20-29.

[12] Sr. ELISABETTA DELLA TRINITÁ, Scritti, L.45.

[13] ANCILLI E., op.cit. v.1°, pg. 35.

[14] Sr. ELISABETTA DELLA TRINITÁ, Scritti, L. 179.

Frei Carlos Mesters, frade carmelita

Ontem, 3ª feira, 29 de maio 2018, em torno de meio dia, fiquei sabendo da morte do nosso confrade frei Domingos Fragoso. À noite, do mesmo dia, às 18:30 horas, celebrei a Missa por ele aqui na Igreja do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro, onde frei Domingos morou vários anos. Das pessoas presentes na missa, muitas se lembravam dele. Rezamos por ele.

Frei Domingos era muito meu amigo. Devo muito a ele e agradeço a Deus a longa convivência amiga que tivemos. Conheci os pais dele, tanto o pai como a mãe. Foi graças ao frei Domingos que cheguei a conhecer o irmão dele, dom Antônio Fragoso, bispo de Crateús, Ceará, e que pude trabalhar na diocese dele durante os meses de novembro e dezembro durante mais de dez anos em seguida.  

Frei Domingos era da Província Pernambucana, mas conviveu muitos anos conosco na Província Fluminense como confrade, como vigário, como professor e como conselheiro. Graças ao estímulo e às propostas dele, muitas iniciativas foram tomadas em vista do aprofundamento da espiritualidade carmelitana. Ele era incansável em propor novos horizontes para o trabalho da gente. Ele era meio cabeçudo, mas foi graças a esta sua teimosia que se conseguiu realizar os projetos de tantas coisas boas.

Quando ele foi eleito Conselheiro Geral para o Carmelo latino americano e caribeño, ele se propôs três pistas de trabalho:

1-Realizar encontros periódicos intercarmelitanos em nível de América Latina e Caribe

2-Incentivar os programas de formação sobretudo da história e da espiritualidade carmelitanas e

3-Criar uma revista carmelitana. As duas primeiras propostas foram realizadas durante muitos anos e muito contribuíram para unificar e orientar os vários grupos carmelitas da América Latina A revista Carmelitana em nível de América Latina ainda está para ser criada.

Que a memória do nosso confrade frei Domingos Fragoso nos anime a retomar o espírito que o animou e a continuar os trabalhos que ele estimulou, para que a semente plantada cresça e faça com que o Carmelo gere muitos frutos a serviço do nosso povo, sobretudo dos pobres. Nascido e crescido no sertão nordestino, frei Domingos nunca perdeu o contato com a sua origem e as suas raízes nordestinas.

Frei Bruno Castro Schröder, O.Carm Convento do Carmo da Bela Vista, São Paulo.

1- INTRODUÇÃO

Quando  somos  tomados  pelo  senso  comum  corremos  o  risco  de  nos depararmos com situações em que ficaremos sem palavras diante do outro. E, nesse  sentido,  agarramos  com  unhas  e  dentes  discursos  exíguos  ou  nos deparamos com a árdua vereda que chamamos de pesquisa. Este   presente   ensaio   nasce   de   uma   necessidade   subjetiva   de compreender melhor como se dá a relação do ser irmão na Ordem do Carmo tendo como eixo o texto da Regra dada por Alberto, o Patriarca de Jerusalém, norteadora dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem do Carmo. Em um primeiro momento se apresentará a dimensão Antropológica do estudo  ao  ser  colocado  como  se  dá  a  clericalização  da  Ordem  através  das épocas; posteriormente o enfoque se dará pelo estudo da influência paulina na espiritualidade  carmelitana,  a  dimensão  bíblica-espiritual;  alfim  duas  grandes rupturas ilustram a o aspecto histórico e lançam luzes para o futuro, consistem na  difusão  para  a Europa  em  1238  e  na  Congregação  Geral  de 1974.  Estes dois   momentos   históricos   servem   a   nós   de   objeto   de   estudo   para   se compreender o ser irmão na Ordem do Carmo, mas, também ilustram o futuro de todos quantos desejem ser frades sacerdotes ou não. A confluência  destes  três  pontos  leva-nos  a  refletir  de  modo  sólido questões pertinentes a todos os membros da Ordem. Leva-nos a olhar para o outro  como  se  estivéssemos  olhando  para  nós  mesmos.  A  perceber  o  quão complexo  é  esse  organismo  vivo  chamado  Ordem  dos  Irmãos  da  Bem- Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo.

2- PROCESSO DE CLERICALIZAÇÃO DA ORDEM

Após a terceira cruzada, por volta do ano de 1192, um grupo de eremitas latinos se estabeleceu junto ao Monte Carmelo na Palestina e alí constituíram

1 Texto  apresentado  à  comunidade  conventual  do  Carmo  da  Bela  Vista  de  São  Paulo  em novembro de 2017. As sugestões e indicações propostas por frei Tadeu Passos de Camargo passam  pela  leitura  da  obra  Quæ  Focas  vidit?  de  frei  Benigno  Dissel  (1945)    ainda  não localizada. Um  ermo  nas  antigas  instalações  de  um  mosteiro  bizantino  de  Wadi  ain  esSiah.

Muito   pouco   se   sabe   das   condições   de   vida   daqueles   primeiros eremitas. Não sabemos se eram cruzados ou peregrinos, nobres ou plebeus. Sabe-se  participavam  nas  cruzadas  para  visitarem  a  Terra  Santa  e  estavam submersos na espiritualidade pellegrinaggio, ou seja, apresentavam uma forte característica metanoica, eram um grupo de leigos  viventi in santa penitenza. Tendo  como  experiência  de  vida  a  solidão,  a  leitura  da  Sagrada  Escritura, oração, contemplação, trabalho manual, jejum, vigílias e obras de misericórdia.

A este grupo, entre os anos de 1206 e 1214, o patriarca de Jerusalém, Alberto, lhes escreve uma Regra de Vida. “Questa Regola non fa distinzione tra sacerdoti e non sacerdoti: chiama tutti semplicemente „fratres‟” (BOAGA, 1982, p. 1). As principais decisões, as preocupações da vida conjunta, o bem-estar espiritual dos frades (Regra do  Carmo  II, III e XI)  eram  divididas por todos e todos participavam dos trabalhos manuais (RC XV).

A única distinção que pode ser elencada na Regra diz respeitos àqueles que sabiam ler e os que não o sabiam. O texto em seu capítulo VIII, antes da correção  inocenciana,  estabelecia a recitação do “Salterio” aos  letrados  em contraponto  à  recitação  de  um  certo  números  de  Pater  por  aqueles  que  não sabiam ler. A introdução das horas canônicas só se dará em 1247. Segundo o historiador  Emmanuele  Boaga  (1934-2013)  é  neste  momento  histórico  que alguns teóricos dirão repousar a gênese da clericalização da Ordem. Entretanto este  momento,  para  o  historiador  carmelita,  nos  diz  apenas  duas  coisas.  A primeira é que o empenho em santificar as horas do dia não são um privilégio do clero, mas de todos. E isso se verifica desde as raízes judaicas. Outra coisa, o senso de atividade pastoral que era assumido naquele tempo, a celebração pública e coral das horas canônicas.

Faz-se salutar pontuar a clericalização da Ordem no século XIII. Após a migração  para a  Europa  e  sua  introdução no  meio urbano  (mendicanismo)  é manifesto   o   processo   de   transformação   institucional.   As   necessidades pastorais da urbe exigiram da Ordem à presença de cada vez mais sacerdotes entre os frades. A influência da legislação dominicana (mitigação da Regra) e, no ano de 1228, a introdução no Corpus Iuris Canonici a absoluta proibição da pregação  leiga  por  Gregório  IX  foram  elementos  para  a  clericalização  da Ordem.  Outros  fatores  como  a  abertura  ao  mundo  universitário  fizeram-se coadjutores para a separação entre os clérigos e os não-clérigos que por sua vez começam a se distanciar devido a alfabetização.

Entretanto   em   1281   nas   constituições   mais   antigas   que   se   tem conhecimento,  é  clara  a  nota  separatista  entre  clérigos  e  os  leigos  embora ainda haja pontos de contato. Nelas os frades leigos “vanno in coro com i chierici per mattutino, vespri e compieta […];  portando  il  vestito  come  i  chierici  ad  eccezione dell‟almuzia2     o   abito   corale;   prendono   parte   il   capitolo conventuale, settimanale com parità di diritti com i chierici; però non  prendono  parte  al  capitolo  quotidiano  dele  colpe  dopo Terza, se non in determinate accasioni; non prendono parte al capitolo provinciale e generale. Non possono i laici studiare, ne avere  libri  in  uso  proprio  nemmeno  portar  ela  tonsura  como  i chierici;  devono  però  essere  istruiti  ed  esercitati  in  qualque mestiere utile  all‟Ordine e ad essi è affidata la cucina. Quatro volte l‟anno è spiegata loro la Regola in língua volgare”

(BOAGA, 1982, p. 3)

Mas em 1291 no Capítulo Geral de Treviri abate-se o último resquício de paridade  entre  tais  frades.  Os frades  leigos  perdem  o  exercício  do  direito  de voz passiva e ativa. “La  disposizione  sanscise  così  la  completa  e  definitiva clericalizzazione dell‟Ordine” (BOAGA , 1982, p.3) .

Após  o  Concílio  de  Vienne  (1311-12)  os  frades  leigos  constituem  um terço do grupo religioso e começam a serem conhecidos como semifratres ou servifratres.

3- A TÔNICA PAULINA NA REGRA DO CARMO

Há  na  Ordem  do  Carmo  a  tônica  da  espiritualidade  paulina,  expressa inicialmente   na  Regra  de  Vida   dos  Irmãos   pela   tradição  oral  e  escrita.

2 Cappa  canonicale,  distintiva  dei  canonici  di  alcuni  catedrali  o  collegiate,  consistente  in  un piccolo  mantello  di  pelliccia  con  capuccio  grande,  che  copre  anche  le  spalle.  (ZINGARELLI,

1994, p. 72) Destacam-se  três  características  próprias  do  Apóstolo  Paulo  na  exortação albertina ao grupo de eremitas do Monte Carmelo, são elas:

 

  1. A Exortação;
  2. O Discernimento e
  3. A Militância3.

 3.1 - A EXORTAÇÃO

 É evidente pelo número de vezes que o Apóstolo das Gentes é citado, entretanto também o é por seu estilo literário. “Paulo recorre à figura literária da exortação4  para enfatizar a autenticidade da vida cristã como uma identidade coerente à verdade do Evangelho” (MATOS, 1998, p. 17).

Todo neo-batizado, para Paulo, é um „ser-novo-em-Cristo‟ e é impelido a viver  em  plenitude  essa  novidade.   A  estrutura  dos  textos  em  forma  de exortação  nos  textos  paulinos  nos  oferece  uma  reflexão  sobre  o  “sinergismo evangélico”, ou seja, a  dialética  de  proposta  e  que  nos  convida  a  dar  uma resposta.

Porém, não é o Patriarca que nos exorta, mas sim o próprio Deus que nos  convida  a  viver  a  Regra;  que  nos  fala  de  uma  vocação  comum  no pluralismo de suas manifestações, quer como sacerdotes ou não.

Assim como as exortações paulinas às comunidades, a Regra também nos impele a nos tornarmos “cristiformes”; tornar-se  como  Cristo  ou  um  alter christus,  parafraseando  (MATOS,  1998,  p.17)  não  se  trata  de  um  preceito alheio à natureza humana, mas de um modus vivendi que emerge da própria identidade de filhos de Deus.

Aquele que recebe a exortação e a abraça é impelido a uma existência que transforma o ouvinte, dando-lhe uma vida nova, que se constitui na “forma de vida praticada pessoalmente por Jesus e por Ele proposta aos discípulos”

(Vita Consecrata, 31).

3  Militia Christi, é a “„denúncia‟ de tudo o que impede a Boa-Nova de ser uma realidade viva, é

o anúncio alegre e amoroso do Reino, é a luta contra as „forças do mal‟”. (MATOS, 1998, p. 67).

4   O termo “exortação” está diretamente ligado à  palavra  grega  παρακαλεω,  que  quer  dizer

“chamar para algo”, “animar”, “convidar” implica uma ação e diz respeito a um chamado

paterno ou um convite fraterno.

3.2- DISCERNIMENTO 5

A segunda característica presente os escritos paulinos e concernentes à tessitura na Regra do Carmo é a capacidade de discernimento, decorrente de “uma vivência coerente da identidade cristã” (MATOS, 1998, p. 40) iniciada na exortação.  O  discernimento  possui  uma  tríplice  ação,  ele  impele  a  conhecer, perceber  e  apreciar,  fazendo  com  que  o  crente  oriente-se  interiormente  para tudo aquilo que seja “justo e santo”.

É  por  meio  de  um  sincero  discernimento  que  podemos  corresponder existencialmente   ao   convite   a   sermos   signum   fraternitatis   em   meio   à Comunidade  Eclesial.  Sendo  assim,  uma  “autêntica  consagração  inclui necessariamente   o   discernimento   como   atitude   evangélica   absolutamente central” (MATOS,   1998,   p.36).   Faz-se   mister   o   crescimento   individual   e comunitário da “lucidez espiritual” que deve se traduzir em escolhas cada vez mais realistas e amadurecidas. (VC, 73).

O  Apóstolo  das  Gentes  emprega  o  termo  δοκιμάζω (dokimázo)  para exprimir a ideia de “discernimento”, ademais, no mundo grego significa “separar o  verdadeiro  do  falso  e  ficar  com  aquilo  que  era  reconhecido  como  bom  e autêntico” (MATOS, 1998, p. 39). É por meio do exercício contínuo do discernimento que o cristão, homem novo em Cristo, unifica-se em inteligência e  coração,  em  teoria  e  prática  para  tornar-se  imagem  de  Cristo,  bondade, justiça e verdade.

3.3- MILITÂNCIA

A Militia Christi advém, por sua natureza, do discernimento e é intrínseca à consagração. Aquele que movido pelo chamado e discernindo aquilo que é justo  e  santo  está,  eminentemente,  em  uma  luta  constante,  torna-se  um militante. Viver em obséquio de Jesus Cristo não tem implicações tão somente subjetivas,  de  cunho  particular,  mas  faz  com  que  toda  a  existência  humana ocorra se transforme. “A laboriosidade no silêncio e na paz será o sinal de que os irmãos     terão     alcançado     a     maturidade     das     relações

5   Δοκιμάζω, 1. provar, experimentar; 2. distinguir o  que  é  melhor;  3.  Interpretar,  explicar, discernir. (RUSCONI, 2005, p. 135).

interpessoais, baseadas na justiça e no amor. […] Firmes na palavra e na lei do Senhor, constroem como irmãos o próprio ser  que  crescerá  até  a  maturidade  de  uma  vida  comunitária capaz   de   diálogo,   de   entendimento   e   de   generosidade”.

(THUIS, 1983, p. 25)

Encontra-se    uma    complementação    a    este    tema    na    Bullarium Carmelitanum, ao afirmar que “No Ocidente, com a aprovação definitiva da Regra e a sua adaptação, o obséquio ao Cristo se enriquece na modalidade da vida  apostólica  pelas  estradas  do  mundo  em  benefício  dos  irmãos” (apud THUIS, 1983, p. 25).

São  Paulo  estabelece  uma  íntima  relação  entre  a  consagração  ao Senhor e a missão apostólica. “A missão do consagrado não é primeiramente um   engajar-se   em   obras,   mas   sim   um   empenhar-se   numa   existência transfigurada, iluminada por dentro pela presença amorosa de Deus” (MATOS,

1998, p. 66). Presença essa que nos impele cada vez mais a nos pormos em busca da vontade do Senhor com atenção aos “sinais dos tempos”.

4- DUAS GRANDES RUPTURAS

Duas fontes de interpretação, dois marcos na história da Ordem podem ser  usadas  para  entender  o  fenômeno  do  ser  irmão  e  do  ser  clérigo  na instituição. Com o termo ruptura podemos entender uma “nova compreensão, uma maneira diferente de serem vividos os elementos constitutivos” (LIBANIO,

1981, p. 11). A análise a partir de rupturas é de natureza epistemológica, pois nos  leva  a  elevação  dos  atuais  paradigmas.  Considerar-se-á  os  seguintes momentos históricos:

  1. A difusão para a Europa em 1238 e
  2. A Congregação Geral de 1974.

4.1- A DIFUSÃO PARA A EUROPA

Poucas décadas após o estabelecimento dos eremitas latinos em Wadi ain es-Siah, em Accon e Tiro a estabilidade política na Palestina foi ameaçada pela crescente investida sarracena (muçulmana)6  contra os cristãos do Oriente Médio. Nos anos que se seguiram (1238), por força da instabilidade política na Palestina, se deu a difusão dos carmelitas em direção ao continente europeu, primeiro   nas   ilhas   de   Chipre   e   da   Sicília   e   depois   para   Grã-Bretanha, Alemanha,  França.  Aqueles  que  saíram  retornaram  para  os  seus  países  de origem na porção ocidental da Europa.

A  relação  dos  carmelitas  com  a  urbe  não  se  dá  desde  os  seus primórdios,  mas  tal  experiência  marcou  de  forma  tão  profunda  e  forte.  Ao menos três motivações podem ser elencadas para que se optasse pelo estilo urbano de vida:

  1. A) de ordem     econômica:     possibilidade     de     garantia     da sobrevivência por meio das “esmolas”, as novas fundações seguem os critérios demográficos e econômicos;
  2. B) de ordem pastoral: desde as origens no Monte Carmelo houve certa preocupação no âmbito pastoral ademais para a criação da estrutura típica dos Mendicantes;
  3. C) de ordem cultural:   as   exigências   pastorais   e   os   desafios culturais  do  tempo  levaram  os  carmelitas  ao  ingresso  no mundo universitário .

Observa-se  que  uma  mudança  abrupta   como  essa  tenha  rasgado grandes conflitos internos. Após o retorno à Europa alguns frades desejaram reproduzir as mesmas condições daquelas vividas na Palestina: “Às exigências profundas do deserto e da escuta contínua da Palavra de Deus” (BOAGA,

1989,  p.  41).  Dois  grupos  distintos  se  formaram  dentro  da  Ordem,  um  que desejava “assegurar a proeminência e a eficácia da vida contemplativa com abertura às diversas formas de apostolado” (idem),  e  outro  que  abraçava  o compromisso apostólico crescente.

6 Sarraceno é um termo histórico utilizado para se referir a um determinado grupo humano, e cujo  significado  alterou-se  com  o  passar  do  tempo.  Originalmente,  no  fim  da  antiguidade  e início da era cristã, tanto na língua grega quanto latina, a palavra se referia a um povo que vivia nos  desertos  da  província  romana  da  Arabia  Petraea  (atualmente  parte  de  Egito,  Arábia Saudita, Jordânia e Síria), e formava uma comunidade totalmente distinta dos árabes. Autores gregos  como  Ptolomeu  se  referem  a  algumas  das  comunidades  da  Síria  e  do  Iraque  como Sarakenoi. Já  na Europa  da Alta Idade Média, consideravam-se sarracenos as tribos árabes pré-islam.  Por  volta  do  século  XII,  "sarraceno"  passa  a  ser  sinônimo  de  "muçulmano".  In: https://www.infoescola.com/historia-oriente-medio/sarracenos/.

As  interrogações  que  daí  surgiram  sobre  o  modo  de  como  se  deveria viver o carisma carmelitano estão presentes até os nossos dias, embora este tenha sido o tema subjacente na promissora Congregação Geral de 1974.

4.2- A CONGREGAÇÃO GERAL DE 1974

Dos dias 23 a 28 de setembro de 1974 foi celebrado em Villa Cavaletti, em Roma a Congregação Geral convocada segundo os dispositivos números

333-336   das   Constituições   do   Capítulo   Geral   de   1971.   Grandes   nomes integraram  essa  comissão:  Carlos  Cicconetti,  Carlos  Mesters,  Paulo  Gollarte, Otger Steggink, Emanuele Boaga.

A   Congregação   Geral   traz   para   o   bojo   da   discussão   uma   forte consciência da busca de identidade – “Per molti carmelitani è stato ottenebrato, per  così  dire,  il  centro  dela  loro  vita”  afirma   Thuis   em   seu   primeiro pronunciamento  na  Congregação  Geral  (1974,  p.  167)  -  e  a  faz  a  partir  da recuperação do núcleo axiológico proposto pela Regra de Vida: a fraternidade e  a  oração.  Percebe-se  que  com  a  recuperação  deste  elemento  seremos capazes  de,  nas  situações  históricas  concretas,  uma  vivência  coerente  e autêntica do carisma carmelitano.

Sobre  a  fraternidade  somos  inspirados  ao  ler  o  texto  da  Congregação Geral que nos anima ao afirmar que temos necessidade uns dos outros, pelo motivo que juntos poderíamos encontrar inspirações comuns de acordo com o nosso tempo. Portanto fraternidade e oração devem ser um contato recíproco entre aqueles que guardam a Regra de Vida, não como um “passaporte”, um objeto   a   ser   conquistado,   mas   devemos   tê-la   como   um   itinerário   de crescimento e por ela “i nostri occhi e il nostro cuore possono vedere e intuire che cosa Dio ora ci chiede”.  (THUIS,  1974,  p.  168)  A  regra  nos  é  um instrumento de transcendência dos limites de nossa existência concreta. É no encontro  com  Deus  que  se  chega  a  verdadeira  força  libertadora  capaz  de vencer tudo aquilo que deturpa no homem a imagem de Deus.

As discussões relatadas no documento são de grande lucidez. Aborda- se de modo real a situação  da vida fraterna dentro de nossos conventos. As mudanças históricas consideráveis à vida conventual carmelita. São nove anos após o Concílio Ecumênico Vaticano II e somente três após o Capítulo Geral. Um acontecimento relativamente recente na história da Ordem.

5- CONSIDERAÇÕES

Em última instância a questão mais profunda não é a dialética existente entre  leigos  e  clérigos,  mas  a  do  referencial  da  própria  identidade  do  ser- carmelita. Algo que é muito evidente  nos primeiros capítulos  e congregações gerais pós conciliares, principalmente a de 1974.

A  Vida  Religiosa  Carmelita  não  pode  viver  sob  a  égide  do  imperativo categórico da “contraposição”, estabelecendo conceitos identitários a partir de seu oposto. A identidade do clérigo não se constitui na negação do ser-irmão e nem o leigo na negação daquilo que se compreende a partir do serviço eclesial ministerial. O elemento fundante, portanto fundamental, da Vida Religiosa é a experiência de Deus é ela que leva alguns cristãos a viverem em comum (fuga mundi) em vistas a um serviço eclesial. (LIBANIO, 1981, p. 23)

Dois são os momentos de grande mudança na Ordem, ou pelo menos dois grandes momentos para a reflexão sobre a identidade do ser-carmelita: o primeiro é a migração para a Europa (inicio de um modo de vida muito próprio e diverso do vivido até então. Citamos, por exemplo, a inserção na urbe e nos meios acadêmicos). Outro momento é a Congregação Geral convocada após o Concílio  Ecumênico  Vaticano  II  (1962-1965)  que  propôs  um  novo  modus pensandi (a perda da ótica ad extra do ser-carmelita, a sua diaconia no meio eclesial para adotar uma postura ad intra, refletindo e questionando-se sobre a sua própria identidade). Como nos recorda Falco Thuis em uma carta, dirigida aos irmãos e irmãs da Ordem, enviada após o Capítulo Geral de 1977.

“O  legislador    [Alberto]    exorta    os    nossos    eremitas    ao desenvolvimento  da  própria  personalidade  e  ao  harmônico crescimento   em  fraternal  comunhão   por  meio   também   da solidão e do silêncio, e indica a dependência vital do Cristo, o Senhor, e o caminho para alcança-la” (THUIS, p. 24, 1983)

Resta-nos,  após  esses  estudos,  tomarmos  a  postura  daqueles  que, maravilhados com o novo, se debruçam e buscam sempre mais. Debruçar-se para  a  pesquisa  e  o  estudo,  mas  também,  debruçar-se  diante  do  outro diferente. Acolhê-lo com  reverência e perceber nele parte daquilo que há em mim.   Parte   do   mesmo   carisma,   da   mesma   Regra   de   Vida,   da   mesma espiritualidade.

Após  esse  breve  ensaio  sobre  o  ser  irmão e  a  Regra  do  Carmo pude verificar  que  em  nossa  história  não  há  um  movimento  linear  de  superação, onde  o  momento  “frades  leigos”  tenha  sido  sobreposto  pelo  momento “clérigos”. Percebo a pluralidade de vocações que podem co-existir  sob  o manto de nossa Mãe e Irmã, Maria.

Encerro  essas  considerações  fazendo  minhas  as  palavras  de  Falco

Thuis ao abrir a Congregação Geral de 1974: “Spero con fermezza que insieme possiamo creare un‟atmosfera fraterna ai fini di un fruttuoso dialogo, in cui forse possiamo scorgere il, passaggio del Signore‟” (THUIS, 1974, p. 169).

6- REFERÊNCIAS

BOAGA,  Emanuele.  Como  pedras  vivas:  para  ler  a  história  e  a  vida  do

Carmelo. Roma, 1989

BOAGA, Emanuele. Il Religioso fratello carmelitano. In Il fratello religioso nella comunità ecclesiale oggi. CIPI: Roma, 1983, pp 141-150

LIBÂNIO,  João  Batista.  As  grandes  rupturas  sócio-culturais  e  eclesiais:  Sua incidência para a Vida Religiosa. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1981

MATOS, Henrique Cristiano José. A vida consagrada à luz da espiritualidade paulina: subsídios para a formação permanente. São Paulo: Paulinas, 1998

THUIS, Falco J. Fascinados pelo mistério de Deus. Roma, 1983

THUIS, Falco J. Prior Generalis allucutionem pronuntiat. In: ANALECTA. Roma, v. 31, n. 4, 1974.

ZINGARELLI, Nicola. Vocabolario dela língua italiana. 12 ed. Milano: Zanichelli, 1994.

*A Pedido do então formador, Frei Jerry, O. Carm, no ano de 2017 na Comunidade Carmelitana Edith Stein, em Belo Horizonte, os jovens estudantes carmelitas fizeram os seguintes trabalhos:

1- Basílica do Carmo, História e Espiritualidade - Frei Juliano Luiz, O. Carm.

2- A Poesia de Santa Teresa de Jesus como manifestação do Inefável - Frei André Lima, O. Carm

3- O ser Irmão e a Regra do Carmo - Frei Bruno Schröeder, O. Carm.

4- O Prior como exemplo para a Comunidade - Frei William Pereira, O. Carm.

(Aguarde a publicação aqui no Olhar)

Logo do Ano do Laicato Carmelitano- Província Carmelitana de Santo Elias- Carmelitas. (No mês de julho, lançamento do CD- Tempo do Carmelo, de Frei Petrônio de Miranda, com o Hino do Ano do Laicato Carmelitano. Aguarde! 

*Frei Christopher O’Donnell, O. Carm.

Os carmelitas hoje não deveriam ter dúvidas sobre o valor do Escapulário e deveriam ser diligentes em defendê-lo. Existe uma falta de coragem entre os carmelitas na propagação do Escapulário. Aqueles que acham que a evidência da historicidade da visão do Escapulário não é convincente, precisam encontrar outros fundamentos para esta devoção. Seu valor contínuo foi afirmado, nestes anos recentes, em duas alocuções de João Paulo II onde ele fala dos múltiplos frutos espirituais surgidos da devoção ao Escapulário.[i]  Mas, ao mesmo tempo, devemos estar conscientes do pluralismo da Ordem em cinco continentes. O modo como a devoção do Escapulário é proposta em um lugar, ou tempo, pode não se ajustar a outro.

Contudo, podemos propor cinco princípios teológicos espirituais e pastorais que são bases apropriadas para qualquer pregação do Escapulário. É claro que outros vão fazer outras propostas. O futuro desenvolvimento do Escapulário na Ordem não pode ser previsto, mas pode ser encorajado, dando-se ao Escapulário uma base sólida.

Em primeiro lugar, o Escapulário pertence às categorias de sinal e de símbolo. Ele aponta para algo além de pedaços de pano (ou medalha), para outras realidades. O primeiro simbolismo é o da roupa. O Escapulário representa o hábito carmelitano que é usado num instituto que é profundamente mariano. Nesta Ordem, Maria é vista como Padroeira, Mãe, Irmã e Virgem do Coração Puríssimo. A aceitação do Escapulário é, de certo modo, uma adoção destes valores e destes atributos marianos.

Em segundo lugar, ele é um sacramental da Igreja. O novo Catecismo da Igreja Católica descreve sacramentais da seguinte forma: “São sinais sagrados que denotam uma semelhança com os sacramentos. Eles geram efeitos de uma natureza espiritual, que são obtidos pela intercessão da Igreja”.[ii]  O que é novo nesta definição de sacramental quando comparado à teologia mais antiga exposta no Código Canônico[iii]  de 1917, é que um sacramental é mais do que um objeto. Como já vimos, ele é um sinal. Assim, ele é eclesial e não pertence unicamente à Ordem Carmelitana. Mas implica que, em nosso caso, é necessário mais do que o mero uso do Escapulário. Se seus efeitos devem ser obtidos através da intercessão da Igreja então, além de usá-lo, deveríamos nos abrir à oração da Igreja, especialmente através da oração particular e da reflexão pessoal. Seu uso deveria ser um convite à oração. Além disso, existe a obrigação pastoral de explicar seu significado como um sinal.

Em terceiro lugar, o Escapulário está associado à Ordem Carmelitana, assim como outros sacramentais são promovidos por outros institutos religiosos como, por exemplo, a Medalha Milagrosa. Aqueles que o usam deveriam ser instruídos na tradição carmelitana da Virgem Maria. A tradição mariana carmelitana, apesar de rica e notável, não é a única na Igreja. Mas ela ocupa seu lugar correto junto às outras. No entanto, algumas pessoas podem não se sentir atraídas por ele. As formas de espiritualidade e de devoção na Igreja são livres e, basicamente, trata-se de como a pessoa é guiada pelo Espírito.

Em quarto lugar, o Escapulário, como afirma Pio XII, é um sinal de consagração. Existe uma grande quantidade de sérios escritos teológicos sobre o significado da consagração, especialmente da consagração à Maria.[iv]  A consagração à Maria está firmemente estabelecida na tradição católica. Muitos santos e papas a defenderam. Numerosos institutos religiosos apresentam a consagração à Maria como o coração de sua espiritualidade. Mas em anos recentes houve um sentimento entre alguns teólogos importantes de que a idéia requer uma abordagem teológica maior do que ela freqüentemente recebe. A questão central é que, estritamente falando, existe apenas consagração a Deus e por Deus. Já que a consagração é nossa divinização pela graça, é apenas Deus que é o princípio e o fim da consagração. Neste sentido rigoroso, a consagração não é algo que fazemos, mas é um ato divino em nós. Se nos consagrarmos à Maria, estamos, de fato, apenas ratificando o que Deus já fez por nós através do santo batismo. Uma vez que isso seja compreendido, então não existe realmente um problema numa consagração à Maria. Essa consagração expressa um encontro pessoal íntimo com ela, que implica em confiar, pertencer, autodoar-se, assim como disponibilidade, acessibilidade e colaboração afetiva no serviço da missão de seu Filho.[v]

O papa João Paulo II se vale da rica tradição para usar outras expressões que indicam pertença e disponibilidade: confiança, consagração, dedicação, recomendação, serviço, colocar-se nas mãos de Maria, etc.[vi]

Pode ser que quando falamos sobre o Escapulário num certo lugar, a palavra “consagração” deva ser evitada e uma das alternativas deva ser escolhida. Mas escrúpulos teológicos sobre a palavra “consagração” podem ser respondidos eficazmente com os textos de Miguel de Santo Agostinho e de Maria Petyt citados anteriormente neste capítulo. Existe uma identidade entre o reino de Maria e o reino de Jesus.

Seja o que for sobre a linguagem que usamos, o Escapulário deve ser apresentado como um modo de relacionamento com Maria, de submissão à sua vontade, que é o plano salvífico de Deus. Isso também implica que, por sua vez, ela nos favorecerá com sua intercessão.

Em quinto lugar, deveríamos estar conscientes do papel do Escapulário na evangelização e na religiosidade popular. A religiosidade popular é uma realidade complexa, variando nas diferentes culturas e nos diversos períodos da história.[vii]  Ela é considerada positiva, resguardada pela aprovação de Paulo VI em sua exortação apostólica sobre a evangelização, Evangelii nuntiandi,[viii]  e fortemente recomendada pela Conferência do CELAM em Puebla (1979)[ix]  e por outros encontros Latino-americanos. Mas, mesmo quando não está totalmente purificada dos acréscimos indesejáveis, ou quando expressa parcialmente o mistério cristão, a religiosidade popular é sempre uma janela aberta para o transcendente. Ela invariavelmente proclama nossa insuficiência e a necessidade constante da ajuda divina. Aqueles que usam o Escapulário estão reconhecendo que não são autossuficientes e que precisam da ajuda divina que, neste caso, buscam através da intercessão de Maria.

*UMA PRESENÇA AMOROSA: MARIA E O CARMELO. Um Estudo da Herança Mariana na Ordem

[i]  Osservatore Romano, 24 e 31 de julho de 1988 = AOC 39 (1988) 4-7.

[ii]  N. 1667, cf. Vaticano II, Liturgia SC 60. Ver A. Donghi, “Sacramentali”, NDizLit 1253-1270.

[iii]  Cânon 1144.

[iv]  A. Boulet, “Peut-on se consacrer à Marie?” em Mater fidei et fidelium. FS T. Koehler. Marian Library Studies 17-23. (Ohio: University of Dayton, 1991) 540-544; A. B. Calkins, Totus Tuus. John Paul II’s Program of Marian Consecration and Entrustment (Libertyville OH: Academy of the Immaculate, 1992); S. De Fiores, “Consacrazione”, NDizMar 394-417; M. O’Carroll, Theotokos 107-109.

[v]  S. De Fiores (n. 85) 406.

[vi]  Ibid. 406; cf. Calkins (n. 85) passim.

[vii]  G. Mattai, “Religiosità popolare’, NDizSpir 1316-1331.

[viii]  N. 48 – AAS 68 (1976) 37-38.

[ix]  Puebla. Evangelização no Presente e no Futuro da América Latina. Conclusões. (Vozes Petrópolis: Conference of Catholic Bishops, 1979 – Slough UK: St Paul 1980) nn. 444-469, 910-915, 959-963.

Frei Christopher O’Donnell, O. Carm.

              No desenvolvimento posterior à Reforma, a devoção mariana carmelitana ao Escapulário teve um lugar muito importante e apareceu no Diretório Touraine (a partir de 1650 com versões mais tardias).[i]  Ele tinha um duplo significado a partir do simbolismo medieval: o patronato de Maria e o nosso serviço ou devoção. Ao mesmo tempo, houve um enorme crescimento das Fraternidades do Escapulário, compostas de homens e mulheres leigos.[ii]  Muito permanece por ser feito no estudo da história completa da propagação do Escapulário, apesar do excepcional trabalho de E. Esteve.[iii]

Pio XII

           Para nossos propósitos aqui, é suficiente levantar a questão no século XX e começar com a Carta de Pio XII aos Superiores Gerais dos dois ramos da Ordem, a Neminem profecto latet (11 de fevereiro de 1950). Como este texto não está tão disponível hoje como no passado, será útil reproduzi-lo em sua íntegra:

            Não existe ninguém que não esteja consciente de quão grandiosamente um amor pela Bem-aventurada Virgem Mãe de Deus contribui para a animação da fé católica e para a elevação do padrão moral. Estes efeitos são especialmente assegurados por meios daquelas devoções que, mais do que outras, são vistas como instruindo a mente com a doutrina celestial e estimulando as almas à prática da vida cristã. A devoção do Sagrado Escapulário carmelitano deve ser a mais favorecida entre essas devoções – uma devoção que, acessível à mente de todos por sua própria simplicidade, tornou-se tão universalmente difundida entre os fiéis e produziu muitos frutos salutares.

            Portanto, muito nos agradou sabermos da decisão de nossos irmãos carmelitanos, tanto da Ordem Calçada quanto da Descalça, de suportar todas as dores em honra da Bem-aventurada Virgem Maria, de maneira mais solene quanto possível, por ocasião do 7º Centenário da Instituição do Escapulário de Nossa Senhora do Monte Carmelo. Logo, levados por nosso amor constante pela terna Mãe de Deus e cientes também de nossa própria participação desde a meninice, na Fraternidade deste Escapulário, com muito boa vontade, recomendamos zelosamente, um compromisso e estamos certos de que a partir daí, cairá uma abundância de bênçãos divinas. Pois, não estamos interessados aqui numa questão leve ou passageira, mas em obter a própria vida eterna, que é a substância da Promessa da Sempre Bem-aventurada Virgem que nos foi transmitida. Estamos interessados, a saber, no que é de suma importância para todos e com o seguro modo de alcançá-lo. Pois, o Escapulário Sagrado, que pode ser chamado de Hábito ou Manto de Maria, é um sinal e uma garantia da proteção da Mãe de Deus. Contudo, não por esta razão, aqueles que usam o Escapulário podem pensar que ganham a salvação eterna enquanto permanecerem indolentes e negligentes de espírito, pois o Apóstolo nos adverte: “Continuem trabalhando com temor e tremor, para a salvação de vocês” (Fl 2,12).

            Portanto, todos os carmelitas, quer vivam nos claustros das Ordens 1ª e 2ª ou sejam membros da Ordem 3ª Regular ou Secular, ou das Fraternidades, pertencem à mesma família de nossa Muito Bem-aventurada Mãe e são ligados a ela por um elo especial de amor. Que todos possam ver nesta lembrança da própria Virgem um espelho de humildade e de pureza. Que possam ler na simplicidade do Manto uma lição concisa de modéstia e de simplicidade. Acima de tudo, que possam contemplar neste mesmo Manto, que usam dia e noite, o símbolo eloqüentemente expressivo de suas orações pela assistência divina. Finalmente, que isto possa ser para eles um Sinal de sua Consagração ao Sacratíssimo Coração da Virgem Imaculada, cuja (consagração) em tempos recentes exortamos fortemente.

            Certamente, esta Mãe gentil não tardará a abrir, o mais cedo possível, por sua intercessão a Deus, os portões do Céu para seus filhos que estão expiando suas faltas no Purgatório – uma verdade baseada naquela Promessa conhecida como o Privilégio Sabatino. Agora, portanto, como garantia da proteção e da ajuda divina e como uma certeza de nosso próprio apreço especial, conferimos mais amorosamente a ti, Filhos Amados, e à Toda Ordem Carmelitana, a Bênção Apostólica.[iv]

            É importante realçar o significado preciso desta famosa carta.[v]  O papa supõe a historicidade da visão do Escapulário e a concomitante promessa. Ele faz alusão ao Privilégio Sabatino, mas não que possa tirar dele qualquer coisa que esteja fora da tradição comum católica sobre a intercessão de Maria pelos mortos. Mais especificamente, ele ignora claramente qualquer ligação entre esta intercessão e uma dispensa do purgatório no sábado. Ele é cuidadoso ao advertir contra qualquer uso mágico do Escapulário, apesar de ser vigoroso ao afirmar que ele é “um sinal e uma garantia da proteção da Mãe de Deus”. Finalmente, ele une a devoção do Escapulário à noção da consagração ao Sagrado Coração da Virgem Imaculada. Independente da historicidade da visão do Escapulário, o ensinamento de Pio XII retém sua validade.

*UMA PRESENÇA AMOROSA: MARIA E O CARMELO. Um Estudo da Herança Mariana na Ordem

[i]  Hoppenbrouwers, Devotio 199-206.

[ii]  Ibid. 320-330.

[iii]  De valore spirituali devotionis S. Scapularis. Bibliotheca S. Scapularis 3. (Roma: Carmelite Institute, 1953).

[iv]  AOC 16 (1950) 96-97; Tradução inglesa em E. K. Lynch, Mary’s Gift to Carmel (Aylesford UK: The Friars, 1955) vii-ix.

[v]  Geagea, Maria 636-641.

Havendo investigado e descrito ligeiramente, no que precede, o culto e modo de vida interior que os fundadores e seus antigos monges viveram e nós devemos imitar, só resta que agora, muito brevemente, te exponha, amado Caprásio, o modo de vestir que usaram e nos deixaram como modelo. Pela veste exterior chegarás a possuir um claro conhecimento interior disposição do espírito daqueles padres a quem devemos imitar.

Segundo o Sábio: “a maneira de vestir diz o que é o homem” (Eclo 19, 27). E assim, quando os enviados do rei Ocozias descreveram ao rei o modo de vestir, adivinhou que era o primeiro fundador desta Ordem que se lhes apresentou. Perguntava o rei aos enviados: que figura tinha e como estava vestido o homem que lhes saiu ao encontro e lhes falou. Os enviados disseram: “um homem coberto de pelo de animal, cingido com um cinto de couro” (IV Rs 1, 81).

Por este traje logo o rei conheceu o Profeta e disse: “é Elias, o tesbita”. O sinal da correia e a figura do corpo coberto de pele de animal e desalinhado lhe representaram, sem dúvida nenhuma, o varão de Deus. Pois o cinto de couro era como um sinal especial que levava sempre cingido à cintura. Com a cintura cingida Elias correu diante da carruagem de Acab, pai de Ocozias, desde o Monte Carmelo até o campo de Jezrael.

Com este seu exemplo Elias ensinou que o monge desta religião deve andar com a cintura cingida. Pois São João Batista que “veio no espírito e poder de Elias”, o imitou, andando também com a cintura cingida. São Marcos nos diz: “andava João vestido com um saco de pele de camelo e trazia uma correia à cintura” (Mc 1, 6).

Não é pequeno o mistério que com esta veste se exige do monge.

O fato de andar com a cintura cingida e de levar a correia ao redor significa que o monge deve rodear-se da mortificação nas partes que são como a fonte da luxúria. (Os antigos, na análise das paixões, punham os rins como a origem e centro da sensualidade).

Que a cintura esteja externamente rodeada do cinto feito de uma pele morta, expressando que, no interior, devem estar totalmente extintos os movimentos sensuais, podendo cantar, em verdade, o que disse o Profeta: “fui feito como um odre na neve” (Sl 118, 83), como se com o gelo da continência se reprimisse e sujeitasse o ardor da concupiscência da carne como a neve seca e reprime o odre, fechando-o.

Por isto lemos na Sagrada Escritura que Elias foi o primeiro que cingiu sua cintura com cinto de couro porque, com este sinal, foi o primeiro homem que deu aos monges o exemplo de oprimir a carne e mortificar o estímulo de todo movimento sensual como disse o Apóstolo: “Fazei morrer os membros do homem terreno que há em vós a fornicação, a impureza, as paixões desonestas, a concupiscência desordenada” (Col 3, 5).

*Livro da Instituição dos Primeiros Monges Fundados no Antigo Testamento e que  perseveram no Novo por Juan Nepote Silvano, Bispo XLIV de Jerusalém. Traduzido do latim por Aymerico, Patriarca de Antioquia e do latim para o castelhano por um Carmelita Descalço e Carta de São Cirilo Constantinopolitano Traduzida para o castelhano. (Ávila Imprensa e Livraria Vida de Sigirano-1959. Censura da Ordem Imprima-se. Madrid, 6 - XII - 1958.

Amanhã, dia 18, estarei em reunião com a Venerável Ordem Terceira do Carmo de Santos, São Paulo (Foto). E no sábado e domingo, 19 e 20, na Festa do Divino Espírito Santo em Angra dos Reis/RJ Acompanhe tudo aqui no Olhar. 

Quando falamos aqui de ‘Terceira Ordem’ referimo-nos a pessoas que vivem o carisma carmelitano exatamente na sua condição de leigo ou leiga. Globalmente podemos distinguir três fases evolutivas. Antes de descrevê-las convém dizer que o assunto é um tanto complexo, pelo fato de serem as datas às vezes confusas, imprecisas e localmente situadas. Corremos, assim, o risco de introduzir generalizações que, na realidade, se referem a fatos de um determinado tempo ou área geográfica específica.

Já nos inícios da história carmelitana, encontramos os chamados oblatos, leigos que, de uma ou outra forma, fazem parte da família do Carmo. Em certos casos chegam a fazer uma verdadeira profissão religiosa, ‘doando-se’ — se et sua (a si mesmo com seus bens) — à Ordem, representada pelo seu legítimo superior. Em tese podem ser tanto homens quanto mulheres, mas, na realidade, predominam largamente as leigas.  Normalmente vivem em casas separadas e vestem um hábito semelhante a dos frades, daí a denominação manteladas. Outros nomes dizem respeito a casos mais ou menos idênticos: oblatas, conversas, beatas, pinzocheras, beguínas, terciárias. Todas dependiam de um determinado convento e não formam grupos homogêneas.

Em maio de 1452, reuniu-se, na cidade de Colônia, o Capítulo Provincial da Alemanha Inferior, sob a presidência do Geral da Ordem, Frei João Soreth (1451-1471). Poucos meses antes, o Legado do Papa para a Alemanha e regiões vizinhas, Nicolau Krebs ou Nicolau de Cusa (1401-1564), apaixonado defensor da unidade da Igreja, exatamente numa época de muitas divisões, decorrentes do Cisma Ocidental (1378-1417), decretara que comunidades de mulheres consagradas, não dotadas de uma Regra aprovada pela Santa Sé, deveriam obtê-la ou unir-se a alguma Ordem Religiosa já existente. Caso não obedecessem seriam extintas!

Nesse contexto devemos situar o pedido das beguínas de Geldre, na Diocese de Colônia, apresentado no mencionado Capítulo Provincial. Na realidade, essas mulheres piedosas já mantinham contatos com os Freis Carmelitas desde que chegaram à freguesia onde se localizava a sua casa, em princípios do século XIV. Certo é que estavam sob a direção dos Carmelitas a partir de 1360, sem que seguissem uma Regra específica.

A solicitação das beguínas foi acolhida favoravelmente pelo Prior geral (10-5-1452), que encarregou o superior do convento de Geldre para efetuar a incorporação do grupo com a profissão religiosa, a fim de que vivessem regulariter como verdadeiras Carmelitas.

Na realidade, o ato de Soreth precedeu a Bula Cum Nulla (7-10-1452), de Nicolau V, com cinco meses! Numa carta às ex-beguínas de Geldre (14-10-1453), agora ‘monjas carmelitas’, o Geral ratificou sua decisão de maio do ano anterior, apoiando-se na Bula mencionada, transcrevendo, inclusive, o próprio texto daquele documento pontifício.

Foi o mesmo Prior geral que, após ter aceito as beguínas de Geldre, providenciou a incorporação de outras comunidades de ‘mulheres devotas’, como as de Nieukerk (Holanda), Dinant (Bélgica) e, provavelmente, ainda outras.

Nessa mesma época houve na Itália também aproximações de  algumas comunidades de pinzocheras à Ordem do Carmo. O caso de Florença é típico e daria origem ao célebre mosteiro de Santa Maria dos Anjos, onde viveu Santa Madalena de Pazzi (1566-1607), dotada com extraordinárias experiências místicas.

Os estudiosos não estão concordes quanto à origem da Bula Cum Nulla. A final de contas quem é que a pediu ao Papa? Há os que defendem a tese que a iniciativa partiu das ‘agregadas’ italianas, particularmente as de Florença. Muitas delas viviam nas suas próprias residências ‘como se fossem carmelitas’! Por volta de 1450 surgiu em Florença a ideia de acolher essas mulheres piedosas numa casa ‘de vida em comum’. O projeto da construção desse convento ficou pronto em 1452. É nessas alturas que teriam enviado a Roma uma representação para ‘garantir’ seus direitos como religiosas, o que resultaria na Bula Cum Nulla.

A questão continua em aberto. Frei Vital Wilderink, na sua tese de doutorado, aborda essa temática e chega às conclusões que resumimos em seguida.

Deixando de lado aspetos mais diretamente jurídicas e organizativas, é indiscutível que os conventos femininos fundados por Soreth se distinguem notoriamente dos cenóbios encontrados na Itália e na Espanha. Efetivamente, as fundações localizadas na Alemanha, nos Países Baixos (Holanda e Bélgica de hoje) e na França, constituíam uma unidade, formando uma verdadeira Família com uma mesma orientação e idêntico programa de vida.

Sabemos que, desde que sua eleição como Geral, João Soreth se empenhara na obra de reforma da sua Ordem, toda ela centrada na ‘observância regular’. A criação de conventos femininos está nesta mesma linha de ação. É bem possível que o caso das beguínas de Geldre ofereceu a Soreth  a oportunidade para ampliar sua visão no sentido de dar início a um verdadeiro ‘ramo feminino’ da Ordem do Carmo. É fato comprovado que o Geral colocou essas iniciativas sob sua direta jurisdição ou as confiou a Carmelitas ‘já reformados’. Os mosteiros de ‘monjas carmelitas’ tornaram-se logo centros de irradiação espiritual e laboratórios da reforma desejada por Soreth. A vida em comum, o Ofício coral, a estrita observância com a clausura rígida dão prova disso. Podemos até dizer que as ‘carmelitas de Soreth’ anteciparam em um século as reformas introduzidas pelo Concílio de Trento (1545-1563) e suas aplicações concretas no pontificado de São Pio V (1566-1572).

Frei João Soreth — afirma Dom Vital Wilderink (23) — pode ser reconhecido como o ‘fundador’ das Carmelitas na medida em que tenha sido o ‘reformador’ da Ordem do Carmo. O fato de sua obra reformadora ter tido pouca penetração nas regiões ao sul dos Alpes d e dos Pireneus, fez com que se dedicasse inteiramente às fundações nórdicas. Graças a seu empenho e santa teimosia, o ramo feminino do Carmo — a ‘Segunda Ordem’ — pode nascer e consolidar-se, pois foi ele que o concebeu, inspirou e organizou, inclusive com o indispensável embasamento jurídico que, mais tarde, seria adotado também em outras regiões antes avessas à sua reforma.

O Prior-geral Soreth gostava de dizer que a primeira preocupação das monjas carmelitas é honrar fielmente a Mãe de Deus, considerando-se como verdadeiras ‘Filhas de Nossa Senhora’ a quem têm por Prioresa de seus mosteiros. Maria é vista como guia de perfeição mística e modelo de pureza. Na vida espiritual é ela que conduz a monja ao seu divino Filho e à própria Santíssima Trindade (ver os ensinamentos de Santa Maria Madalena de Pazzi).

Enquanto lentamente se vai afirmando o que constituirá a “Segunda Ordem” ou Sancti Moniales (monjas de estrita clausura), as pinzocheras ‘de profissão solene’ continuaram a ser bastante numerosas na Itália e na Espanha sem, no entanto, levarem uma vida comum. Ocupam, de fato, o terceiro lugar na hierarquia da Ordem, após os religiosos e as monjas. Por este motivo foram chamadas, em alguns lugares, de terciárias mas, na realidade, eram ‘verdadeiras religiosas’, agregadas — pelos seus ‘votos solenes’ — a um convento masculino ou mosteiro feminino da Ordem. Pio V, querendo clarificar certas confusões reinantes, declarou que a Igreja doravante negaria o ‘caráter solene’ aos votos de pinzocheras que não vivessem em clausura. Acontece que, segundo as leis em vigor naquele tempo, só as terciárias ‘continentes’, portanto com voto de virgindade — o que excluía expressamente os laços matrimoniais — possuíam plenamente os privilégios da Ordem terceira. As não-continentes (as casadas) foram relegadas a um plano inferior, semelhante a das coirmãs da Ordem, ou seja aquelas que não tinham feita profissão religiosa e, por isso, consideradas ‘seculares’, não obstante certos compromissos espirituais as ligassem à Ordem. Essas últimas tornaram-se a variante feminina dos confrades ‘de capa branca’ com regras próprias que, na Espanha, ao que tudo indica, eram conhecidos também por “terceiros’.

Em suma, “quanto à origem da Ordem Terceira, podemos aceitar como um fato histórico, que a Ordem Terceira do Carmo. No seu sentido geral como é conhecida hoje, não existia antes de 1476. Os Carmelitas, embora tivessem a direção espiritual de numerosos grupos de pessoas desejosas de uma vida mais perfeita, não possuíam o direto de agregar tais grupos à Ordem.

A Bula Cum Nulla, de 1452, conferiu apenas a licença de unir à Ordem mulheres que vivessem em castidade. Não se tratava, pois, de uma permissão de fundar Ordens Terceiras em geral, que incluíssem homens e mulheres casados. Essa faculdade só veio na Bula Dum Attenta (1476), quando a licença de agregação foi estendida a quaisquer grupos de pessoas, casadas ou não, homens ou mulheres. Esta Bula significa verdadeiramente o início da Ordem Terceira Carmelita, ao menos em teoria. Pois, há em tudo isto a considerar uma circunstância particular: as outras Ordens Terceiras foram confirmadas depois de já existirem. A Ordem Terceira do Carmo, porém, teve a sua licença jurídica antes de ser organizada! Na prática, ela continuou durante mais de cem anos restrita a mulheres com o voto expresso de castidade perfeita.” (24)

Em fins do século XVI, constatamos na Ordem a existência de quatro grupos distintos: os frades, as monjas, mulheres continentes com voto explícito de castidade (impropriamente chamadas de ‘terceiras’), coirmãs e confrades da Ordem, a quem pode ser conferida, com razão, a qualificação de ‘terceiros’. Além desses grupos havia, desde o século XIV, um outro tipo de agregação: as ‘Confrarias da Madonna’. Algumas se limitam a viver na sombra das igrejas dos Carmelitas, outras assumem o escapulário como distintivo da Ordem, particularmente após as supostas visões de São Simão Stock de que falaremos em seguida.

No decorrer do tempo esvaem-se características específicas entre os vários grupos, gerando não poucas confusões. O Prior-geral Teodoro Straccio (1632-1642) procurou resolver a questão com uma dupla intervenção: agregou, em 1637, à Ordem terceira todos os confrades e coirmãs com votos de obediência e de castidade ‘segundo o próprio estado’, colocando, em 1540, todos os outros na Confraria do Escapulário.

Finalmente, no decurso do século XVIII, surge uma nova modalidade de agregação: Irmãs Terceiras, reunidas em verdadeiras Congregações de Terceiras Regulares de vida apostólica e missionária. Estas famílias religiosas tiveram grande florescimento, unindo formas específicas de serviço eclesial ao carisma e à espiritualidade do Carmo.

O hábito carmelita- em geral podemos dizer que a veste religiosa (‘o hábito’) é sinal de consagração a Deus. Ao mesmo tempo, significa a pertença a uma determinada Família Religiosa na Igreja. Manifesta externamente uma realidade interior de alguém que em Deus encontrou sua riqueza principal e, por isso, deixou de lado a ostentação de um vestuário pessoal. Neste sentido o hábito é também expressão de pobreza e simplicidade evangélicas.

Nos textos constitucionais do século XIII aparecem os diversos elementos do hábito carmelitano: uma túnica de lã crua, isto é, não tingida; o escapulário que, originalmente, formava uma só peça com o capuz. Sobre a túnica — ajustada por um cinto de couro — e o escapulário, vestia-se a capa, também de lá crua (‘barrada’ ou listrada inicialmente, sendo inteiramente branca a partir do Capítulo de Montpellier, 1287), interpretada como sinal de ‘humildade, honestidade e pobreza’. Revestido com a veste branca do batismo, os religiosos do Carmo deveriam seguir o Cordeiro imaculado com reta consciência e coração puro. No século XIV, João Baconthorp (+1348) começa dar à capa branca um sentido mariano, sendo, na sua opinião,  um símbolo externo da pureza e virgindade da Mãe de Deus.

O escudo do Carmo — impresso, pela primeira vez, em 1499 — traz três estrelas cada uma com seis pontas. Tradicionalmente a estrela inferior representa a Virgem Maria, enquanto as duas superiores fazem referência ao profeta Elias e seu discípulo Eliseu. Nesta interpretação as estrelas indicariam a índole Mariana da Ordem e sua inspiração Eliana.

 Frei Pedro Caxito O.Carm. In Memoriam

             Queremos falar sobre Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face, a Teresinha carmelita, e os dons do Espírito Santo.

            Diz o Senhor: "Um ramo brotará do tronco de Jessé e um rebento surgirá das suas raízes. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de piedade, e o inundará o espírito do temor do Senhor"[1].

            O Espírito Santo é o Dom do Pai ao Filho e do Filho ao Pai, que a nós também O concedem generosamente, enquanto Ele, o próprio Espírito, a nós se dá com muito amor, e "torna-se a fonte de todo o nosso agir. No mundo atual de consumismo (hedonismo, sexualismo e somente egoísmo), que tudo faz para conquistar-me e acorrentar-me de modo que eu perca a minha identidade, o Espírito vela sobre a minha identidade de cristão"[2] e nos concede os sete dons que no Catecismo da Igreja Católica aprendemos serem aquelas "disposições permanentes que tornam homem e mulher dóceis para seguirem os impulsos do Espírito Santo", impulsos, segundo Frei Guido, "diversificados e adaptados às várias circunstâncias da vida quotidiana".

            Jesus nos afirma que o Pai, que só dá o que é bom, dará o seu Espírito Santo a quem o pedir: "se vós, que não sois lá assim tão bons, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai dos céus dará o Espírito Santo a quem a Ele o pedirem" (Lc 11, 13). A Virgem Maria, sobre quem desceu invisivelmente o Divino Amor, é nossa intercessora e modelo, para que nós também O recebamos do Pai e sejamos conduzidos por Ele[3].

            JESUS: personalidade una e riquíssima com duas naturezas, a divina e a humana. Todas as criaturas foram destinadas a serem algum reflexo da sua beleza. São Paulo nos aconselha: "Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo" (Rm 13,14); ele que aos Filipenses queridos dissera: "Cristo é o viver para mim", e ainda "Tende em vós os mesmos sentimentos, que estão em Cristo Jesus" (Fl 1,21; 2,5), aos Gálatas, que ele chamou de bobos, disse que: "Vivo. Não mais eu, mas é o Cristo quem vive em mim" (Gl 2,20; 3,1).

            Respeite embora a natureza da sua criatura e a liberdade que, cheio de confiança, concede ao homem e à mulher, Deus vai agindo por meio do seu Amor, para transformá-los à imagem do seu Filho, que é "o esplendor da sua glória e a imagem da sua divina essência" (Hb 1,3)[4], reflexo da Luz eterna, espelho sem mancha da atividade de Deus e imagem da sua bondade" (Sb 7,26), e assim, no dizer do Apóstolo, "todos os que são conduzidos pelo Espirito de Deus estes são filhos de Deus" (Rm 8,14).

            Os dons de Cristo, como Novo-Adão e Filho de Deus feito homem, são também para nós, homens e mulheres, que Ele veio transformar em filhos e filhas de Deus "por meio do amor, que em nós se difundiu pelo Espírito Santo, que nos foi dado"[5]. É de maneira análoga que os privilégios concedidos a Maria, Nova-Eva, são prenúncio e também reminiscência daquelas graças que, desde os dias do Éden, sempre o Pai quis dar aos filhos da Mulher: em nós o Espírito do Filho de Deus clama Abbá - Papai[6], Pai Nosso.

            E Deus age pelo seu Espírito, que vai distribuindo os seus dons, quando quer, como quer, quanto quer e a quem quer[7], e as nossas ações serão frutos do Divino Amor e daquela liberdade, que de graça o Pai nos concede, "uma liberdade fascinada e atraída pelo Bem Supremo"[8].

            Mais ainda. A Onipotência do Pai, não podendo fazer da criatura Deus por natureza, é ajudada pela divina Sabedoria, seu Filho, e pelo divino Amor de modo que a presença dos Três no mais íntimo de cada um faça que sejamos o que tanto desejam os Três, isto é, "participantes da divina natureza" (2Pe 1,4)! A presença de Deus vem divinizar como a presença da luz vai iluminar! Como Paulo a alma diz: "Eu vivo. Já não sou eu quem vive: é a Trindade Santa quem vive! É o Pai e o Espírito Santo quem vive em mim com Jesus que vive em mim!"[9]

            São João da Cruz - citando o que diz São Paulo: "O que está unido ao Senhor é um só espírito com Ele" (1Cor 6,27) - ensina que "entre as operações de Deus e as da alma deixa de haver distinção; não fazem mais do que um todo a atividade da alma e a de Deus"[10]. A alma guiada pelo Espírito de Deus "age não já de maneira humana, mas como que transformada em Deus por participação"[11].

            Numa carta a Celina Teresa escrevia: "Conhecê-Lo como Ele se conhece e nós mesmas chegarmos a ser deuses! Oh! Que destino! Como é grande nossa alma! Elevemo-nos acima de tudo o que passa; conservemo-nos distantes da terra. Nas regiões das alturas o ar é tão puro! Jesus pode esconder-se, mas sempre se adivinha onde Ele está..."[12]

            Os sete dons tornam-se um reforço da vida espiritual e concedem ao homem e à mulher capacidade e disponibilidade para receberem as luzes e as inspirações de Deus pelo Espírito Santo, que nos foi dado (Rm 5,5)

            Alguém ensina que é como numa barca que, ao ser com dificuldade movida somente pela força dos braços e dos remos, vai desfraldando as suas velas para receberem o impulso dos ventos: e com mais facilidade vencerá distâncias e os ímpetos das ondas. Os dons são as velas da nossa barca, que recebem o sopro do Santo Espírito, e a nossa barca poderá, ágil e segura, singrar com toda firmeza e tranqüilidade, levada pelo murmúrio de um suave silêncio (1Rs 19,12).

            Na sua "História de uma alma" Santa Teresinha conta a história de uma barca. Era noite de Natal. Era dezembro de 1887. Teresa com menos de 15 anos esperava passar o Natal "atrás das grades do Carmelo". Após a Missa do galo, ao chegar à sua casa, Celina armara-lhe uma surpresa: no quarto uma bacia bonita com uma barquinha à vela chamada "Abandono", onde dormia o Menino Jesus com uma bolinha ao lado chamada "Teresinha", e Jesus lhe dizia: "Estou dormindo; o meu coração, porém, está velando" (cf. Ct 5,2 [Vulg]): sobre a vela branca da barquinha "Abandono" sopra a brisa do Amor[13].

            "O silêncio de uma brisa leve" haveria de impulsioná-la sempre, por toda a vida, como a Elias, Pai e Modelo Inspirador dos Carmelitas. A brisa suave, que é o Espírito de Deus, há de tanger a humilde barquinha ou as delicadas cordas de um coração amoroso. Isabel da Trindade propunha a «Guide», sua irmã, viver com os seus «Três» no céu mais profundo da própria alma, e dava-lhe a garantia: "O Espírito Santo transformará você numa lira mística que, no silencio, sob seu toque divino, há de fazer ressoar um cântico magnífico ao Amor"[14].

            Teresa, embora não cite muito o Espírito Santo pelo nome de "Espírito Santo", e mais sob o nome de Amor, sobre a Crisma e sua preparação soube afirmar: "Preparei-me com muito carinho para receber a visita do Espírito Santo. Não compreendia a pouca importância dada à recepção desse Sacramento de Amor. (...). Não senti um vento impetuoso na descida do Espírito Santo, mas aquela «brisa leve», cujo murmúrio ouviu o Profeta Elias no Monte Horeb"[15].

            Mas cuidemos de não dar tristeza ao Espírito e, muito mais ainda, de não extingui-Lo; a prudência, ajudada pelo dom do Conselho, exige discernimento e atenção (Ef 4,30; 1Ts 5,19.21 e 1Jo 4,1).

            Diz o Pe. Philipon OP, a quem, às vezes, seguimos: "A essa luz (dos dons do Espírito Santo), a santidade de Teresinha de Lisieux aparece-nos como verdadeira obra-prima da ação divina em uma alma de criança"[16].

            Apesar de ter afirmado que Maria apresentada no Templo, aos três anos, agiu mais para fazer o gosto de Joaquim e Ana - "Não seria necessário dizer sobre Ela coisas inverossímeis ou que não se sabem: por exemplo, que quando pequenininha se apresentou no Templo para oferecer-se ao Senhor com ardentes sentimentos de amor e extraordinário  fervor, quando, talvez, foi única e simplesmente para obedecer aos seus pais"[17] - Teresinha afirma a seu próprio respeito que, "desde os três anos de idade, nada recusei jamais ao Bom Deus"[18].

            Teresa desejava que todas as suas ações fossem INSPIRADAS E DIRIGIDAS PELO ESPÍRITO DE AMOR": disse um dia a uma das suas noviças: "Quero que (Nosso Senhor) se apodere de todas as minhas faculdades de tal maneira que de hoje em diante eu não faça mais ações humanas e pessoais, mas ações totalmente divinas, INSPIRADAS E DIRIGIDAS PELO ESPÍRITO DE AMOR"[19].

            Pela estrada dos sete dons, desde o dom do filial Temor de Deus até às alturas da divina Sabedoria e até à humildade de uma Pequenina Via e até à morte em êxtase de amor e por amor, o Divino Espírito Santo a inspirou e dirigiu, preparando a futura "Doutora do Amor Misericordioso", elevando-a, através da sensibilidade e dos escrúpulos, através da delicadeza de consciência e de um grande amor ao Pai, à Virgem Maria, que é "Mãe mais do que Rainha", e através de uma vida de grande amizade com os anjos e com todos os irmãos da Comunhão dos Santos.

    [1]. Is 11,1-2 (as traduções dos  LXX  e da Vulgata distinguem  "piedade" e "temor de Deus".)

    [2]. Guido  Stinissen  OCD Vivre l' Esprit Saint aujourd' hui em Kerit nº 138  p.17

    [3]. cf. Ibid p.15 e 18

    [4]. cf. 2Cor 4,4.6; Cl 1,15

    [5]. Rm 5,5

    [6]. Rm 8,15 e Gl 4,6

    [7]. Cf. Jo 3,8 e 1Cor 12,11

    [8]. Guido Stinissen OCD  o.c.  p.9

    [9]. cf. Gl 2,20

    [10]. S 3,2 - citado pelo Pe. Philipon OP  em  Santa Teresinha de Lisieux  "UM  CAMINHO  TODO  NOVO"  Gráfica Olímpica Editora  Rio de Janeiro  1954  p.217.

    [11]. Sto. Tomás 3º das Sentenças  D34  q.I  a.3 - citado pelo mesmo autor Ibid  p.216

    [12]. Carta do dia 23 de julho de 1888

    [13]. MA  188  fl.67v

    [14]. M. M. Philipon O.P.  La Doctrine Spirituelle de Sr. Elisabeth de la Trinité   Desclée de Brouwer  1955  p.93

    [15]. História de uma alma - Manuscritos Autobiográficos   MA 114  fl.36r Cf. At 2,2; 1Rs 19,12-13.

    [16]. Em  Santa Teresinha de Lisieux - UM  CAMINHO  TODO  NOVO    Gráfica Olímpica Editora  Rio de Janeiro  1954  p.212

    [17]. Cf. Folhas Amarelas ou Novissima Verba  23/08/1897.

    [18]. Conseils e Souvenirs 11 - Hoje Últimas Palavras

    [19]. Conseils et Souvenirs 55  (Hoje Últimas Palavras) - citado pelo Pe. Philipon