Olhar Jornalístico

Dia de Finados: momento de rezar pelos fiéis defuntos que estão na eternidade

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Publicado em 02 novembro 2019
  • Cardeal Orani João Tempesta,
  • Dia de finados,
  • Novo Presidente da CNBB dom Walmor Oliveira de Azevedo,
  • Dia dos Fiéis Defuntos,

Reverência, lembrança, saudade daqueles que não estão mais entre nós. O Dia dos Fiéis Defuntos, mais conhecido como dia de Finados é celebrado pelos católicos para lembrar daqueles dos fieis defuntos que foram morar na eternidade, e, consequentemente rezar por aqueles que padecem no purgatório.

Muitos gostam de visitar os cemitérios para deixar flores, acender velas por seus mortos, outros preferem assistir a Santa Missa ou apenas fazer uma oração/prece. O importante nesse momento não é o ritual ou a forma, mas a lembrança que habita o coração de todo ser humano.

O dia de finados, celebrado neste sábado, 2 de novembro, não é para ser um dia triste, mas um dia para olhar para trás e lembrar dos bons momentos que ficaram registrados no coração. Mas também é momento para refletir o que se professa todos os Domingos no Credo: “Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir”. Afinal, o curso natural da vida é a morte. Para os cristãos, essa passagem para a vida eterna, na qual estaremos em plena comunhão com Deus.

 

O arcebispo de Belo Horizonte e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Walmor Oliveira de Azevedo, gravou uma mensagem especial de esperança e fé para o dia dos fiéis defuntos.

“No dia de finados, dediquemos a oração a pessoas já falecidas reavivando nossa fé. Permaneçamos assim em comunhão com os que nos precederam na experiência da morte certos de que nos reencontraremos pela Graça de Deus Pai”, ressalta em um trecho do vídeo (disponível no final da matéria).

Em um artigo publicado no portal da Conferência nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o arcebispo do Rio de Janeiro, cardeal Orani João Tempesta, explica que desde a época do cristianismo primitivo os cristãos rezavam por seus mortos, em especial pelos mártires, no local onde estes eram frequentemente enterrados: nas catacumbas subterrâneas da cidade de Roma.

“A oração pelos que já morreram é uma prática de várias religiões e que o cristianismo manteve. Documentos e monumentos dos primeiros séculos da nossa era já testemunham a prática entre os cristãos. Há túmulos cristãos dos séculos II e III que trazem orações pelos falecidos ou inscrições como: ‘Que cada amigo que veja isso reze por mim’”, destaca no texto.

Ainda de acordo com artigo de dom Orani, o costume de rezar pelos mortos foi sendo introduzido paulatinamente na liturgia da Igreja Católica. “O principal responsável pela instituição de uma data específica dedicada à alma dos mortos foi o monge beneditino Odilo da Abadia Beneditina de Cluny, na França”.

O catecismo da Igreja Católica diz que graças a Cristo, a morte tem um sentido positivo. “Para mim, a vida é Cristo, e morrer é lucro” (Fl 1,21). “Fiel é esta palavra: se com Ele morremos, com Ele viveremos” (2Tm 1,11).  A novidade essencial da morte cristã está nisto: pelo Batismo, o cristão já está sacramentalmente “morto com Cristo”, para Viver de uma vida nova; e, se morrermos na graça de Cristo, a morte física consuma este “morrer com Cristo” e completa, assim, nossa incorporação a ele em seu ato redentor. (§1010)

 

Visitas aos cemitérios

Em todo o Brasil, os cemitérios recebem milhares de pessoas que farão visitas aos seus entes queridos. Celebrações eucarísticas durante todo o dia estão programadas. Esta prática está grafada no parágrafo 2300 do Catecismo: “Os corpos dos defuntos devem ser tratados com respeito e caridade, na fé e esperança da ressurreição. O enterro dos mortos é uma obra de misericórdia corporal (Tb 1,16-18) que honra os filhos de Deus, templos do Espírito Santo”. O arcebispo de Belo Horizonte (MG) e presidente da CNBB, dom Walmor Oliveira de Azevedo, vai celebrar a Santa Missa, às 9h, no cemitério Parque da Colina, no bairro Nova Cintra, em BH.

 

Sepultura e cremação

Desde outubro de 2016, a Igreja católica no mundo passou a adotar uma nova instrução da Congregação para a Doutrina da Fé sobre propósito da sepultura dos defuntos e da conservação das cinzas no caso de cremação. A instrução ‘Ad resurgendum cum Christo’ da Congregação para a Doutrina da Fé foi apresentada pelo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Gerhard Müller. Segundo o documento, “a prática da cremação difundiu-se bastante em muitas Nações e, ao mesmo tempo, difundem-se também novas ideias contrastantes com a fé da Igreja”.

Código de Direito Canônico

A norma eclesiástica vigente em matéria de cremação de cadáveres é regulada pelo Código de Direito Canônico: “A Igreja recomenda vivamente que se conserve o piedoso costume de sepultar os corpos dos defuntos; mas não proíbe a cremação, a não ser que tenha sido preferida por razões contrárias à doutrina cristã”.

 

Conservação as cinzas

“Quaisquer que sejam as motivações legítimas que levaram à escolha da cremação do cadáver, as cinzas do defunto devem ser conservadas, por norma, num lugar sagrado, isto é, no cemitério ou, se for o caso, numa igreja ou num lugar especialmente dedicado a esse fim determinado pela autoridade eclesiástica”.

Segundo o documento, a conservação das cinzas em casa não é consentida. Somente em casos de circunstâncias graves e excepcionais, o Ordinário, de acordo com a CNBB ou o Sínodo dos Bispos das Igrejas Orientais, poderá autorizar a conservação das cinzas em casa. As cinzas, no entanto, não podem ser divididas entre os vários núcleos familiares e deve ser sempre assegurado o respeito e as adequadas condições de conservação das mesmas.

Para evitar qualquer tipo de equívoco panteísta, naturalista ou niilista, não é permitida a dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água ou, ainda, em qualquer outro lugar. Exclui-se, ainda a conservação das cinzas cremadas sob a forma de recordação comemorativa em peças de joalharia ou em outros objetos.

“Espera-se que esta nova Instrução possa fazer com que os fiéis cristãos tenham mais consciência de sua dignidade de filhos de Deus. Estamos diante de um novo desafio para evangelização da morte”, disse o Cardeal Müller, no lançamento da instrução ainda em 2016. Fonte: http://www.cnbb.org.br

Quando eu morrer...

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Publicado em 02 novembro 2019
  • Dia de finados,
  • Cemitério São João Batista

Cemitério São João Batista/RJ. Neste cemitério, além dos frades carmelitas; Nuno e Bento, estão sepultados diversas personalidades, como José de Alencar, Cândido Portinari, Carmem  Miranda, Tom Jobim, Santos Dumont, Vinícius de Moraes, Chacrinha, Clara Nunes, Cazuza, Elke Maravilha, Dias Gomes, Cazuza, Irineu Marinho, Olavo Bilac, Marcelo Caetano Presidente de Portugal, Santos-Dumont, nove ex-presidentes da República entre outros. www.olharjornalistico.com.br

Vida Comunitária: alguns elementos antropológicos e psicogrupais.

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Publicado em 02 novembro 2019
  • Vida Comunitária
  • A VIDA COMUNITÁRIA
  • Pe. Edenio Valle,

Vida Comunitária:  alguns elementos  antropológicos e psicogrupais.

Pe. Edenio Valle, SVD

 

Introdução

 

Neste texto pretendo  apresentar alguns elementos da chamada Psicologia social de grupo, com a intenção de ajudar as comunidades religiosas a considerarem com mais realismo e propriedade o que se passa em seu interior.

Quem conhece por dentro a realidade das comunidades religiosas sabe que essas são atravessadas pelas mesmas tensões que caracterizam qualquer outro grupo humano. Essas podem até superar as existentes em  outros grupos pelo fato de se proporem como meta a busca de um sentido espiritual mais exigente ( missão e partilha ) em uma instituição e estilo de vida centrados nos valores do Evangelho do Reino no seguimento de Jesus. .

Para entender essa aparente contradição entre um ideal tão elevado e uma realidade freqüentemente tão humana é importante conhecer melhor algo do que acontece em grupos humanos.  A presente reflexão  quer ser uma ajuda nessa direção. Conhecer melhor a realidade de um grupo não é uma garantia imediata para o amadurecimento das relações que aí se estabelecem, mas pode colaborar no sentido de tornar mais verdadeiros os objetivos que a Vida Religiosa se propõe como uma comunidade de discípulos/as de Jesus pautada pela comunhão, pelo respeito mútuo e pela solidariedade que tanta falta fazem à sociedade humana hoje ainda mais marcada pelo subjetivismo, pela massificação e o hedonismo consumista.   

 

  1. São muitos os objetivos, motivações e interesses que podem levar as pessoas a se organizarem em grupos dos mais diversos tipos. Ninguém pode viver sem estar de alguma maneira ligado a algum tipo de grupo. Isto é algo natural e necessário. De um modo geral tendemos a não prestar muita atenção ao que se passa em algo aparentemente tão “natural” ao qual fomos habituados desde a mais tenra infância já no seio de nossas famílias e culturas de origem. No entanto, os grupos humanos não são uma mera conseqüência das necessidades fisiológicas da sobrevivência de nossa espécie, como quer a Psicologia Evolucionária hoje em moda, por mais que essas pesem. Eles são construídos culturalmente a partir de uma complexa série de outras necessidades de natureza psicológica, social e cultural. São uma imposição também das necessidades econômicas. Nascem de interesses individuais, alguns extremamente narcisistas, que se contrapõem no dia a dia da vida grupal, tornando tensa a convivência. A dinâmica normal de um grupo é, por isto, marcada por um jogo sutil de forças que se atraem e se opõem. É nesse subsolo cheio de ambigüidades e aparências enganosas que se estabelece a trama afetiva dos processos reais de um grupo.
  2. O que os grupos humanos proclamam ser nem sempre bate com o que eles são de fato, psicossocialmente falando. Se tudo no jogo grupal fosse e saudável, as coisas não seriam tão sinuosas e contraditórias quanto são de fato. Freud mostrou que a família – o mais natural dos grupos, possui uma vida subterrânea, inconsciente, carregada de uma afetividade ambígua e instintiva que parece ter uma dinâmica bem distinta da que proclamam nossos idéias e ideais, especialmente quando infantilizados e não personalizados ). Os membros do grupo são capazes de sentir, captar e assimilar, quase que por osmose, as insinuações que vêm desse subsolo. Ter ou não consciência desse processo subjacente depende em grande parte da maior ou menor maturidade afetiva e interrelacional do grupo enquanto tal mas também  do amadurecimento de seus componentes  tomados individualmente. Trata-se de um clima emocional que resulta do que os participantes percebem dentro de si mesmos e transmitem uns aos outros em um sistema de sucessivos “feed backs”, reforçando em cada um a necessidade de encontrar alguma sintonia com os ventos que sopram no ambiente e que não raro são contrários. O clima grupal resulta, assim, largamente da projeção dos anseios, defesas e emoções subjetivas dos membros, embora esses estados subjetivos estejam ligados a certas situações, ações e reações objetivas ligadas a fatos externos que servem como causa deslanchadora dos sentimentos coletivos. A afetividade grupal é assim, a um só tempo, de natureza afetiva pessoal ( subjetiva )  e  de cunho psicossocial ( objetiva ). É a essa luz que devemos nos perguntar a respeito da qualidade psicoafetiva de nossas comunidades religiosas reais.

Ela tem também duas outras raízes de grande peso que não abordaremos aqui por falta de tempo: ela possui uma base bioquímica e neuropsicológica de enorme repercussão sobre o comportamento individual e coletivo e sobre ela pesam, também, elementos culturais diversos como os costumes, as crenças e os valores éticos, políticos e religiosos que influenciam o grupo. e a socieadade.

  1. A dinâmica afetiva do grupo costuma ser intensa; possui memória e mecanismos reativos próprios que são mais que a mera soma do que é sentido, dito ou proclamado pelo conjunto dos participantes. Não devemos, contudo, conceber essa afetividade como se fosse uma entidade psicológica que subsiste por se mesma quase que mágica e/ou metafisicamente. De um modo geral, pode-se afirmar que a afetividade costuma exercer nos grupos humanos um papel maior que as duas outras dimensões constitutivas do clima grupal: a cognitiva ( os processos da razão ) e a conativa ( a relativa à ação prática ). Em certas circunstâncias, o jogo afetivo grupal chega a parecer gozar de uma verdadeira autonomia como se tivesse vida própria. De fato, porém, ele reflete não só o que vai nas emoções e sentimentos dos membros do grupo e só pode ser compreendido em sua inteireza quando associamos esses elementos e motivações mais profundos aos demais processos que constituem o todo da personalidade de cada um e do grupo. Há aqui elementos estáveis e outros que têm duração passageira e podem se exacerbar positiva ou negativamente mas se situam sempre dentro das balizas do que é humano.  
  2. Além disto, não podemos olvidar que os grupos humanos, mesmo os mais amadurecidos e sintônicos, estão sempre submetidos a dois outros fatores, um muito amplo e, outro, extremamente concreto. Em primeiro lugar, eles experimentam todas as limitações próprias à incomunicação que os seres humanos vivem, na radical incompletude de seu existir. Esse fator tem uma influência nem sempre levada em conta pelas comunidades religiosas.  Mas, em segundo lugar, as pressões, influências e tensões próprias a cada época. Não à toa se fala muito na unidimensionalidade do sistema neo-capitalista que nos envolve institucional e engole ideologicamente. Essa funciona como a grande tenaz que prende os indivíduos e os grupos nas garras do “stress” econômico, político e social, conduzindo-os a reações fortes e inesperadas. Além do mais, provoca reações religiosas como as que assistimos nos países islâmicos ( homens bombas ) e que levam milhões de brasileiros a buscar arrimo grupal e solução para seus males pessoas no neo-pntcostalismo que nos foi presenteado pelo baixo protestantismo carismático de massa.

É importante lembrar, ademais, que os grupos ( os carmelitas, por exemplo ) têm uma história. Ou seja, eles também vêem de um processo: evoluíram, regrediram,  retrocederam e avançaram psicoafetiva e comportamentalmente ao longo dos tempos, mudando suas feições e características, devido às vivências e acontecimentos experimentados ao longo do tempo e dos quais guardam memória, mesmo que não consciente. Mas – fato fundamenta – há uma identidade por baixo de todos esses processos. Como a vida de uma pessoa, também essa identidade existe em função dos altos e baixos que a comunidade viveu. Só captando essas alternâncias é que podemos entender a gênese, a estrutura e as funções que caracterizam o modo peculiar de ser e de reagir desse ou daquele grupo.

  1. No momento cresce na Vida Consagrada a consciência da importância da comunidade e da vivência grupal para a realização do que a Vida Religiosa se propõe no presente momento de sua história. Estamos em busca de uma nova figura histórica. Por essa razão nossas concepções a respeito da vida em comunidade já não são tão homogêneas quanto o eram no passado. Tomamos consciência de que um grupo de pessoas que, por razões religiosas profundas, se propõe viver segundo um estilo de vida, valores e objetivos marcados pelo ideal evangélico não permanece sempre o mesmo e precisa amadurecer psicossocialmente se quiser tornar real o ideal carismático profundo que o constituiu em um passado mais remoto e que hoje é buscado de maneiras social e culturais bem diversas.. Constata-se hoje nas congregações um grande desejo de tornar mais “verdadeira” a unidade e a amizade que deveriam ser um sinal evangélico para o mundo dividido que nos cerca. Do desejo ideal à concretização, porém, percebemos cada vez mais que vai uma enorme diferença. Daí a urgência sentida por muitos de métodos mais acurados de análise dos  processos e mecanismos que se dão no seio de nossos grupos de vida e trabalho. Essa é uma condição sine qua non para a concretização do que tão belamente dizem os documentos da Igreja e as Constituições de nossas várias famílias religiosas.       

 

CARMELITAS: VIVER EM OBSÉQUIO DE JESUS CRISTO

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Publicado em 01 novembro 2019
  • Carmelo,
  • Monte Carmelo,
  • Regra dos Irmãos da Bem Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo,
  • carisma do Carmelo,
  • Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo,
  • Pe. Bruno Secondin,
  • VIVER EM OBSÉQUIO DE JESUS CRISTO
  • Padre Bruno Secondin,
  • cristologia

Frei Bruno Secondin O. Carm. In Memoriam

 

No Carmelo sempre estivemos convencidos da centralidade do seguimento do Senhor pela nossa vida. E com os novos comentários da Regra a cristologia tem sido melhor entendida e interpretada. E o cristocentrismo foi interpretado de maneira nova e mais inspiradora em comparação com a primeira. Sobretudo o sentido da frase inicial: “Viver em obséquio de Jesus Cristo e servi-lo fielmente de coração puro e consciência reta” (R 2) foi melhor precisado. É a chamada à norma suprema irrenunciável, que deve tudo guiar e filtrar. As várias prescrições da Regra são a  aplicação prática e séria do seguimento.

- Seguir e não imitar: temos prestado pouca atenção a este aspecto. E no entanto é importante, no contexto da nossa Regra. Naquele momento era intensa a religiosidade da imitação, da lembrança literal e biográfica. Pensemos no que fez São Francisco e na religiosidade popular do 1200. O Carmelo, ao invés, quis penetrar dinamicamente na identidade e sabedoria do Mestre. Trata-se de um encontro na fé e no amor, na contemplação e na partilha mútua da mesma causa e da mesma meta. Seguimento exige adesão interior, empenho aberto, adaptação e criatividade, diversificação, etc.

- Uma comunidade de discípulos irmãos é a primeira consequência: não uma comunidade para fazer alguma coisa, ligada a uma obra a fazer funcionar. Mas um discipulado que se vive em várias modalidades, seguindo o Mestre, e cadenciando o tempo de acordo com o grande mistério da salvação. Veja-se o ritmo da ascese e o do combate: estão ligados à Páscoa e às exigências do Batismo (Páscoa pessoal).

- Viver em Cristo: encontramos algumas vezes esta expressão (R 1; 18; 20). Não se trata de uma indicação genérica, mas de um valor intenso. Isto quer dizer habitar na Palavra para ser impregnados e habitados pela Palavra (R 10; 19; 22) em todas as situações da vida. E, de fato, a Regra é como uma grande lectio divina, que traduz em decisões práticas, coerentes, toda a sabedoria da Palavra.

- Viver na presença sacramental de Cristo: sobretudo na celebração da Missa se mostra-se isto central e fonte de um dinamismo transformador, excepcional. Para lá devem, cada dia vir juntos (com-venire debeatis) e de lá apreender forma e estilo nos relacionamentos mútuos. Mas podemos reconhecer que há ainda outros sinais “sacramentais”, que se ressaltam: antes de tudo os irmãos e a sua participação viva no projeto  (propositum); as autoridades constituídas (o prior, o patriarca, os santos padres...) são mediação e epifania de uma presença de Cristo, que se deve acolher e amar; mas a própria estrutura do lugar é de um certo modo revelação de uma presença a ser amada e respeitada (cf. o templo no centro).

- Esperar a volta do Senhor: é um elemento muito importante na espiritualidade daquele tempo. E por isto havia tantas formas de devoção para salvar a própria alma no momento do juízo final. Na Regra este medo e esta forma de preocupação têm outro registro. Trata-se de uma espera vivida com fidelidade serena, de coração vigilante e transparência em tudo. Mas a espera da chegada definitiva torna-se sobretudo princípio inspirador para não absolutizar as normas e os resultados. Estímulo para uma identidade flexível e até mesmo nômade. “O quotidiano mover-se” até à Capela é sinal antropológico e topográfico de um caminhar rumo ao último encontro, totalmente transfigurados pela Palavra, pela Páscoa e pela fraternidade, pela sobriedade e pela vigilância.

 - Uma  cristologia aberta a novas experiências: justamente a  falta de formas devocionais evidentes (num contexto muito fanático por devoções) e a atenção aos valores vitais da cristologia (Palavra, Páscoa, luta espiritual, serviço, fraternidade, etc.) indicam um caminho cristológico  aberto e personalizado. O Carmelo  que padroniza em algumas imagens a sua cristologia (p.ex. o Menino, o Mestre, flagelado, crucificado, eucarístico, Sagrado Coração) não é conforme à Regra. Quando, ao invés, sabe fazer sintonia da variedade de respostas e de símbolos, de figuras e leituras de Cristo, aí então é fiel ao propositum.

À luz da Palavra. Uma preciosa confirmação desta cristologia no-la oferece o Evangelho de João: estou pensando no momento de se formar o primeiro grupo de discípulos (Jo 1, 35-51). Para completeza seria necessário incluir também as afirmações “cristológicas” do Batista. Normalmente lemos nesta página o processo vocacional: não está aí toda a verdade desta narrativa.

- Múltiplos títulos dados a Jesus: notemos que há uma dezena de títulos diversos dados pelos discípulos para indicar o que encontraram e o que querem comunicar. Começa João Batista por chamá-lo “Cordeiro de Deus”. Depois os dois discípulos o chamam de “Mestre” (Natanael também dirá o mesmo). André fala dele a Simão e o chama de “Messias”. Filipe o descreve como “Aquele sobre quem escreveram Moisés e os  profetas”; e acrescenta dados anagráficos: “Jesus, filho de José de Nazaré”. Natanael , enfim, o admira como “Filho de Deus e Rei de Israel”. Mas até Jesus mesmo se dá um título: “O Filho do homem”. Poderemos ainda acrescentar alguns títulos dados pelo Batista um pouco antes: “Aquele que existia primeiro; o habitado pelo Espírito”, “o que batiza no Espírito” (v. 33s).

- Ser discípulos para João é uma caminhada para a verdade, uma descoberta progressiva, que se torna uma confissão proclamada. Cada um contribui com a sua sensibilidade mais aberta (o Batista e André) ou mais tradicional (Natanael e Filipe). Não se trata de afirmações teóricas, de palavras já confeccionadas,  que se repetem. Trata-se de uma convicção amadurecida por dentro, conservando e refletindo, interpretando. A fé que anima a comunidade nutre-se e se consolida com o caminho de fé de cada um.

- Fruto dos microprocessos pessoais de reflexão e discernimento, de assombro e dúvida é a nova comunidade. Quem encontrou alguma coisa que o “tocou” por dentro comunica-o de maneira pessoal e convicta. A primeira carta de João também ainda recorda este processo de verificação e de comunicação (cf. 1Jo 1,1-4)

- Na Regra podemos também ver que não se impõem títulos que vinculam, quanto, de preferência, horizontes em cuja direção perscrutar. Depois cada um, conforme os carismas, encontra as suas preferências de imagens e de destaques. Prova disto são os nossos grandes Santos com a variedade de linguagem cristológica. É um modelo aberto, que nós também devemos assumir em vista de uma resposta pessoal e não repetitiva.

- Na formação justamente é necessário oferecer aos jovens a possibilidade de um encontro direto e pessoal, de uma resposta pessoal e original, não puramente repetitiva ou devocional. E cada um deve tornar-se mediação para o outro, seja com as palavras, seja com os gestos, para um aprofundamento e um encontro direto e iluminador (pensemos em Cefas-Pedro e em Natanael).

- Até  mesmo os próprios votos devem ser lidos e apresentados como um seguimento de Cristo pobre, casto, obediente, mas também orante e missionário. Então não haverá setores para controlar com escrúpulo, com medo de pecar. Mas serão modalidades de seguimento e de adesão conformadora, como diz a VC: “A vida consagrada constitui memória viva do modo de existir e de agir de Jesus como Verbo Encarnado diante do Pai  e diante dos irmãos” (VC 22). Aí está em jogo a diferença entre um comportar-se como “religioso” e uma maturidade de “crente”: dentro deve amadurecer a “confissão” de fé.

 

 Trabalho pessoal e em grupo:

1-Conseguimos reconhecer este tipo de cristologia na Regra?

2-Sabemos formar para uma adesão profunda e conformadora no seguimento, ou preferimos antes formas devocionais e práticas de piedade?

3-O texto de João que é que sugere para a  nossa formação?

CARMELITAS: A Oração Silenciosa

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Publicado em 01 novembro 2019
  • presença de Deus,
  • Ratio Institutionis,
  • A Oração Silenciosa
  • Livro da Vida
  • Ratio

A Ratio nos diz que a oração é essencialmente um relacionamento pessoal, um diálogo entre Deus e o ser humano. Somos convidados a cultivá-la e a encontrar tempo e espaço para estarmos com o Senhor. A amizade só pode crescer através “da freqüente compatibilidade com Aquele que nos ama” (Santa Teresa d’Ávila – Livro da Vida 8,5) (Ratio 31). A Ratio continua dizendo que além de todas as questões da forma da oração, o importante é cultivar um relacionamento profundo com Cristo. Ela cita Santa Teresa mais uma vez dizendo que a oração perfeita “não consiste em muito pensar, e sim em muito amar” (Fundações 5,2; Castelo Interior 4, 1, 7) (Ratio). As Constituições nos lembram que: “A oração em silêncio é de grande ajuda no desenvolvimento de um espírito de contemplação. Portanto, devemos praticá-la diariamente por um período de tempo apropriado” (Art. 80).

Então o que é a oração em silêncio e o que é um período de tempo apropriado? Nossas vidas são muito agitadas, mas precisamos estabelecer prioridades. A oração é absolutamente essencial. O período de tempo depende do relacionamento da pessoa com Deus e, até certo ponto, depende da criatividade em encontrar espaço e tempo.

Todo relacionamento tem seu próprio ritmo. Geralmente, após um período de tempo, um relacionamento tende a ser menos complicado quando as duas pessoas se acostumam com o jeito uma da outra. Quando você não conhece bem uma pessoa, é difícil sentar em silêncio com ela. Temos a tendência de conversar. Ao conhecermos melhor a pessoa, o relacionamento torna-se mais fácil e sentar-se no silêncio amistoso torna-se normal e agradável. Quando entramos em harmonia com o outro podemos começar a ler seu silêncio. Trata-se de um relacionamento íntimo. O silêncio pode ser mais eloqüente do que muitas palavras.

É muito normal que no decorrer do tempo nossa oração se torne mais e mais simples. Pode ser que já tenhamos uma palavra que resuma tudo que queremos dizer a Deus. Dizer essa palavra significa milhares de coisas. Jesus abriu seu coração a seus discípulos e partilhou conosco o nome especial que tinha para Deus. Esse nome é “Abba”. Essa palavra contém todo relacionamento de Jesus com o Pai. É muito útil trabalhar nossa própria estenografia com Deus para que possamos lembrar durante o dia da presença constante de Deus conosco ao repetirmos uma simples palavra ou frase.

Cada relacionamento com o Senhor é diferente. Se você aproveita o máximo em sentar-se e conversar com o Senhor, ou de meditar sobre um tema, ou de ler e pensar sobre uma passagem da Escritura, ou de refletir sobre um livro espiritual, isso é bom. Por favor, continue a fazer isso. No entanto, podem existir momentos numa jornada de oração quando a pessoa se torna um pouco confusa e procura para onde ir. Também é comum ser levado ao silêncio durante a oração e, a princípio, isso pode parecer estranho e assustador. Não sabemos o que fazer e temos a sensação de estarmos perdendo tempo. A grande tentação é deixar de lado a oração porque não podemos mais encontrar o consolo que tivemos e ceder à sensação de perda de tempo. Como Santa Teresa d’Ávila, insisto que você não ceda a essa tentação e tenha uma “determinação muito determinada” de agarrar-se à oração especialmente quando ela não está de acordo com os seus planos.

É uma experiência muito comum passar por períodos prolongados de aridez na oração. Mais uma vez sentimos como se estivéssemos desistindo ou chateados. Sentimos que Deus foi embora não deixando endereço. Se, de alguma forma, mesmo no meio da confusão e da aridez, estamos convencidos do valor da oração, devemos apenas nos sentar na poeira e esperar por Deus. Em ocasiões muito estranhas em que um pensamento santo flutua sobre o rio de nossa consciência, temos a tendência de nos precipitarmos sobre ele e sufocá-lo, exaurindo-o por estarmos ressecados. No entanto, existe outra forma de lidar com esses pensamentos santos ocasionais. Não importa o quanto possam parecer santos, eles são nossos pensamentos, por isso subtende-se que deixamos que eles venham ou não. Se esses pensamentos forem verdadeiramente de Deus, retornarão em outro momento.

Existem muitos métodos de esperar por Deus no silêncio. Gostaria de propor um método de oração que pode fazer com que o silêncio seja muito produtivo e que pode nos ajudar a esperar por Deus no silêncio. Trata-se de um método de oração cristão baseado na rica tradição contemplativa e, especialmente, num livro clássico dessa tradição, “A Nuvem do Não-Saber”, um escrito anônimo do século XIV. Não estou sugerindo que devemos deixar de lado outras formas pessoais de oração, mas esse método pode aprofundar esses outros métodos e torná-los mais produtivos. O mais importante para esse tipo de oração é estar convencido de que Deus não está longe, mas muito perto. Deus faz sua morada em nós (cf. Jo 14,23).

Esse método de oração pode ser chamado de oração do silêncio ou de oração do desejo porque, no silêncio, nos voltamos para Deus com nosso desejo. Ele também foi chamado de oração em segredo, seguindo o conselho de Jesus para entramos em nosso quarto e rezarmos ao Pai ocultamente (M 6,6). A primeira fase dessa oração é encontrar um local adequado onde as interrupções sejam reduzidas ao mínimo. Depois se coloque numa posição confortável que você possa manter durante todo tempo da oração. Recomenda-se um mínimo de 20 minutos. Pode-se começar essa oração com uma pequena leitura da Bíblia. Não é hora de pensar no significado das palavras. Esse tipo de meditação fica para outra hora. Agora é hora de simplesmente estar na presença de Deus e de consentir na ação divina com nossa intenção. Então, com os olhos fechados, introduza gentilmente uma palavra sagrada em seu coração. Uma palavra sagrada é aquela que tem um grande significado para você em seu relacionamento contínuo com Deus. A palavra sagrada deve ser sagrada para você. De acordo com o ensinamento de “A Nuvem do Não Saber”, é melhor que essa palavra seja breve, de uma sílaba se possível. Sugiro algumas palavras: “Deus, Senhor, Amor, Jesus, Espírito, Pai, Maria, Sim”. Escolha uma palavra significativa para você. Talvez você pense em uma, se pedir a ajuda de Deus.

Quando peço que você introduza uma palavra sagrada no seu coração, não estou sugerindo que você a pronuncie com seus lábios, ou mesmo mentalmente, mas acolha-a dentro de você sem pensar em seu significado. Não é necessário forçar a palavra sagrada. Ela deve ser muito gentil. A palavra sagrada não é um mantra a ser repetido constantemente. A palavra concentra nosso desejo e sempre a usamos do mesmo modo simplesmente voltando nosso coração para o Senhor assim que percebemos que estamos distraídos. Essa é uma oração de intenção e não de atenção. Nossa intenção é estar na presença de Deus e consentir na ação divina em nossas vidas. A palavra sagrada expressa essa intenção e, assim, quanto tomamos consciência de que estamos pensando em algo diferente, podemos decidir se continuamos com a distração por ser mais interessante, ou se voltamos nossa intenção para a presença de Deus e consentimos com aquilo que Deus quer realizar em nós. Voltamos nosso coração para Deus pelo uso da palavra sagrada. Ela é um símbolo de nossa intenção. Não é necessário repeti-la freqüentemente, apenas quando desejamos voltar nosso coração para Deus.

Durante essa oração, não é hora de conversar com Deus usando belas palavras ou mesmo de ter pensamentos santos, mesmo se pensamos que são inspirações de Deus. É melhor deixar essas coisas para outro momento. Nosso silêncio e nosso desejo valem mais do que palavras.

Através da palavra que escolhemos, expressamos nosso desejo e nossa intenção de permanecer na presença de Deus e de consentir com a ação divina purificante e transformadora. Voltamos para a palavra sagrada, que é o símbolo de nossa intenção e de nosso desejo, apenas quando tomamos consciência de estarmos envolvidos em algo diferente.

A oração consiste simplesmente em estar na presença de Deus sem pensar em nada em especial. Se você compreende como estar em silêncio com outra pessoa sem pensar ou fazer algo em especial, então você será capaz de compreender do que trata a oração. Nem todas as pessoas se adaptam a esse método de oração. Se você sentir um chamado interior para um silêncio maior, ele pode ajudá-lo.

No final do período que você decidiu dedicar à oração, talvez você possa dizer um Pai Nosso ou outra oração lentamente. É bom permanecer em silêncio por alguns momentos para se preparar para levar o fruto de sua oração para sua vida pessoal.

(Convido você a rezar agora e usar brevemente esse método de oração em segredo. Fique à vontade e entre na sala secreta de seu coração onde Deus mora. Para marcar o final do tempo de oração recitarei lentamente uma oração comum. Esse é o momento de reajustar-se ao momento presente).

Sexta-feira, 1º de novembro-2019. 30ª Semana do Tempo Comum. Evangelho do dia- Lectio Divina- com Frei Carlos Mesters, Carmelita.

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Publicado em 01 novembro 2019
  • Artigos do Frei Carlos Mesters,
  • Jacobus Gerardus Hubertus Mesters,
  • lectio divina,
  • Lectio Divina com Frei Carlos Mesters,
  • 30ª Semana do Tempo Comum

1) Oração

Deus eterno e todo-poderoso, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade e dai-nos amar o que ordenais para conseguirmos o que prometeis. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

2) Leitura do Evangelho (Lucas 14, 1-6)

1Jesus entrou num sábado em casa de um fariseu notável, para uma refeição; eles o observavam. 2Havia ali um homem hidrópico. 3Jesus dirigiu-se aos doutores da lei e aos fariseus: É permitido ou não fazer curas no dia de sábado? 4Eles nada disseram. Então Jesus, tomando o homem pela mão, curou-o e despediu-o. 5Depois, dirigindo-se a eles, disse: Qual de vós que, se lhe cair o jumento ou o boi num poço, não o tira imediatamente, mesmo em dia de sábado? 6A isto nada lhe podiam replicar.

 

3) Reflexão

O evangelho de hoje traz mais um episódio de discussão entre Jesus e os fariseus, acontecido durante a longa viagem de Jesus desde a Galileia até Jerusalém. É muito difícil de situar este fato no contexto da vida de Jesus. Existem semelhanças com um fato narrado no evangelho de Marcos (Mc 3,1-6). Provavelmente, trata-se de uma das muitas histórias transmitidas oralmente e que, na transmissão oral, foram sendo adaptadas de acordo com a situação, as necessidades e as esperanças do povo das comunidades.

Lucas 14,1: O convite em dia de sábado

“Num dia de sábado aconteceu que Jesus foi comer em casa de um dos chefes dos fariseus, que o observavam”. Esta informação inicial sobre refeição na casa de um fariseu é o gancho para Lucas contar vários episódios que falam da refeição: cura do homem doente (Lc 14,2-6), escolha dos lugares à mesa (Lc 14,7-11), escolha dos convidados (Lc 14,12-14), convidados que recusam o convite (Lc 14,15-24). Muitas vezes Jesus é convidado pelos fariseus para participar das refeições. No convite deve ter havido também um motivo de curiosidade e um pouco de malícia. Querem observar Jesus de perto para ver se ele observa em tudo as prescrições da lei.

Lucas 14,2: A situação que vai provocar a ação de Jesus

“Havia um homem hidrópico diante de Jesus”. Não se diz como um hidrópico pôde entrar na casa do chefe dos fariseus. Mas se ele está diante de Jesus é porque quer ser curado. Os fariseus que o observam Jesus. Era dia de sábado, e em dia de sábado é proibido curar. O que fazer? Pode ou não pode?

Lucas 14,3: A pergunta de Jesus aos escribas e fariseus

“Tomando a palavra, Jesus falou aos especialistas em leis e aos fariseus: "A Lei permite ou não permite curar em dia de sábado?"  Com a sua pergunta Jesus explicita o problema que estava no ar: pode ou não pode curar em dia de sábado? A lei permite, sim ou não? No evangelho de Marcos, a pergunta é mais provocadora: “Em dia de sábado pode fazer o bem ou o mal, salvar ou matar?” (Mc 3,4).

Lucas 14,4-6: A cura

Os fariseus não responderam e ficaram em silêncio. Diante do silêncio de quem não aprova nem desaprova, Jesus tomou o homem pela mão, o curou, e o despediu. Em seguida, para responder a uma possível crítica, explicitou o motivo que o levou a curar: "Se alguém de vocês tem um filho ou um boi que caiu num poço, não o tiraria logo, mesmo em dia de sábado?"  Com esta pergunta Jesus mostra a incoerência dos doutores e dos fariseus. Se qualquer um deles, em dia de sábado, não vê problema nenhum em socorrer a um filho ou até a um animal, Jesus também tem o direito de ajudar e curar o hidrópico. A pergunta de Jesus evoca o salmo, onde se diz que o próprio Deus socorres a homens e animais (Sl 36,8). Os fariseus “não foram capazes de responder a isso” . Pois diante da evidência não há argumento que a negue.

 

4) Para um confronto pessoal

1) A liberdade de Jesus diante da situação. Mesmo observado por quem não o aprova, ele não perde a liberdade. Qual a liberdade que existe em mim?

2) Há momentos difíceis na vida, em que somos obrigados a escolher entre a necessidade imediata de um próximo e a letra da lei. Como agir?

 

5) Oração final

Louvarei o Senhor de todo o coração, na assembleia dos justos e em seu conselho. Grandes são as obras do Senhor, dignas de admiração de todos os que as amam. (Sl 110, 1-2)

FESTA DE TODOS OS SANTOS: “Os santos nos ajudam a enfrentar a vida com coragem e esperança”. Francisco.

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Publicado em 01 novembro 2019
  • Angelus Domini,
  • Homilia da Festa de Todos os Santos,
  • Papa no Angelus,
  • Francisco
  • oração do Angelus, Francisco
  • FESTA DE TODOS OS SANTOS

“A recordação dos Santos leva-nos a erguer os olhos para o Céu: não para esquecer as realidades da terra, mas para enfrentá-las com mais coragem e esperança", disse o Papa Francisco ao rezar com os fiéis a oração mariana na Praça São Pedro por ocasião da Solenidade de Todos os Santos.

 

Cidade do Vaticano

“Somos todos chamados à santidade”: foi o que recordou o Papa Francisco ao rezar com os fiéis e peregrinos na Praça São Pedro o Angelus por ocasião da Solenidade de Todos os Santos, celebrada no dia 3 no Brasil. A data é festejada com um feriado não só no Vaticano, mas em toda a Itália.

“Os Santos e as Santas de todos os tempos não são simplesmente símbolos, seres humanos distantes, inalcançáveis. Pelo contrário, são pessoas que viveram com os pés no chão”, afirmou o Pontífice.

Eles experimentaram a fadiga diária da existência com os seus sucessos e fracassos, encontrando no Senhor a força para se levantar e continuar o caminho.

Isso demonstra que a santidade é uma meta que não pode ser alcançada apenas pelas próprias forças, mas é o fruto da graça de Deus e da nossa livre resposta a ela.

 

Santidade: dom e chamado

Portanto, acrescentou o Papa, a santidade é dom e chamado.

Enquanto graça de Deus, isto é, dom, explicou, é algo que não podemos comprar ou trocar, mas acolher, participando assim da mesma vida divina através do Espírito Santo que habita em nós desde o dia do nosso Batismo.

Trata-se de amadurecer sempre mais a consciência de que estamos enxertados em Cristo, como o ramo está unido à videira, e por isso podemos e devemos viver com Ele e Nele como filhos de Deus. “Então a santidade é viver em plena comunhão com Deus, já agora, durante a peregrinação terrena.”

Além de ser um dom, disse ainda Francisco, a santidade é também chamado, vocação comum dos discípulos de Cristo; é o caminho de plenitude que cada cristão é chamado a percorrer na fé, caminhando para a meta final: a comunhão definitiva com Deus na vida eterna.

A santidade torna-se assim uma resposta ao dom de Deus, porque se manifesta como assunção de responsabilidade. “Nesta perspectiva, é importante assumir um sério e cotidiano compromisso de santificação nas condições, deveres e circunstâncias da nossa vida, procurando viver tudo com amor, com caridade”, recomendou o Papa.

 

Compromisso

Olhando para as vidas dos santos, prosseguiu Francisco, somos encorajados a imitá-los. Entre eles, estão muitas testemunhas de uma santidade "da porta ao lado, daqueles que vivem perto de nós e são reflexo da presença de Deus".

“ A recordação dos Santos leva-nos a erguer os olhos para o Céu: não para esquecer as realidades da terra, mas para enfrentá-las com mais coragem e esperança. ”

 

Igreja do céu e da terra

Ao final da oração mariana, falando ainda da Solenidade de Todos os Santos e do Dia de Finados, o Papa disse que essas duas festas cristãs nos recordam o vínculo que existe entre a Igreja da terra e a do céu, “entre nós e os nossos entes queridos que passaram para a outra vida”.

E lembrou que no amanhã celebrará a Eucaristia nas catacumbas de Priscila, “um dos lugares de sepultura dos primeiros cristãos de Roma”.

“Nestes dias, em que, infelizmente, circulam também mensagens de cultura negativa sobre a morte e sobre os mortos, convido vocês a não negligenciarem, se possível, uma visita e uma oração ao cemitério”, foi o convite final do Pontífice. Fonte: www.vaticannews.va

Quinta-feira, 31 de outubro-2019. 30ª Semana do Tempo Comum. Evangelho do dia- Lectio Divina- com Frei Carlos Mesters, Carmelita.

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Publicado em 31 outubro 2019
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  • 30ª Semana do Tempo Comum

1) Oração

Deus eterno e todo-poderoso, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade e dai-nos amar o que ordenais para conseguirmos o que prometeis. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

2) Leitura do Evangelho (Lucas 13, 31-35)

31No mesmo dia chegaram alguns dos fariseus, dizendo a Jesus: Sai e vai-te daqui, porque Herodes te quer matar. 32Disse-lhes ele: Ide dizer a essa raposa: eis que expulso demônios e faço curas hoje e amanhã; e ao terceiro dia terminarei a minha vida. 33É necessário, todavia, que eu caminhe hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não é admissível que um profeta morra fora de Jerusalém. 34Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os enviados de Deus, quantas vezes quis ajuntar os teus filhos, como a galinha abriga a sua ninhada debaixo das asas, mas não o quiseste! 35Eis que vos ficará deserta a vossa casa. Digo-vos, porém, que não me vereis até que venha o dia em que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor!

 

3) Reflexão  Lucas 13, 31-35

O evangelho de hoje nos faz sentir o contexto ameaçador e perigoso no qual Jesus vivia e trabalhava. Herodes, o mesmo que tinha matado João Batista, quer matar Jesus.

Lucas 13,31: O aviso dos fariseus a Jesus

 “Nesse momento, alguns fariseus se aproximaram, e disseram a Jesus: "Deves ir embora daqui, porque Herodes quer te matar". É importante notar que Jesus recebeu o aviso da parte dos fariseus. Algumas vezes, os fariseus estão juntos com o grupo de Herodes querendo matar Jesus (Mc 3,6; 12,13). Mas aqui, eles são solidários com Jesus e querem evitar a morte dele. Naquele tempo, o poder do rei era absoluto. Ele não prestava conta a ninguém da sua maneira de governar. Herodes já tinha matado a João Batista e agora está querendo acabar também com Jesus.

Lucas 13,32-33: A resposta de Jesus

“Jesus disse: "Vão dizer a essa raposa: eu expulso demônios, e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho”. A resposta de Jesus é muito clara e corajosa. Ele chama Herodes de raposa. Para anunciar o Reino Jesus não depende da licença das autoridades políticas. Ele até manda um recado informando que vai continuar seu trabalho hoje e amanhã e que só vai embora depois de amanhã, isto é, no terceiro dia. Nesta resposta transparece a liberdade de Jesus frente ao poder que queria impedi-lo da realizar a missão recebida do Pai. Pois quem determina os prazos e a hora é Deus e não Herodes! Ao mesmo tempo, na resposta transparece um certo simbolismo relacionado com a morte e a ressurreição ao terceiro dia em Jerusalém. E para dizer que não vai ser morto na Galiléia, mas sim em Jerusalém, capital do seu povo, e que vai ressuscitar no terceiro dia.

Lucas 13,34-35: Lamento de Jesus sobre Jerusalém

"Jerusalém, Jerusalém, você que mata os profetas e apedreja os que lhe foram enviados! Quantas vezes eu quis reunir seus filhos, como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas, mas você não quis!”   Este lamento de Jesus sobre a capital do seu povo evoca a longa e triste história da resistência das autoridades aos apelos de Deus que chegavam a elas através de tantos profetas e sábios. Em outro lugar Jesus fala dos profetas perseguidos e mortos desde Abel até Zacarias (Lc 11,51). Chegando em Jerusalém pouco antes da sua morte, olhando a cidade do alto do Monte das Oliveiras, Jesus chora sobre ela, porque ela não reconheceu o tempo em que Deus veio para visitá-la." (Lc 19,44). 

 

4) Para um confronto pessoal

1)  Jesus qualifica o poder político como raposa. O poder político do seu país merece esta qualificação?

2) Jesus tentou muitas vezes converter o povo de Jerusalém, mas as autoridades religiosas resistiram. E eu, quanto vezes resisti?

 

5) Oração final

Procurai o SENHOR e o seu poder, não cesseis de buscar sua face. Lembrai-vos dos milagres que fez, dos seus prodígios e dos julgamentos que proferiu. (Sl 104, 4-5)

Quarta-feira, 30 de outubro-2019. 30ª Semana do Tempo Comum. Evangelho do dia- Lectio Divina- com Frei Carlos Mesters, Carmelita.

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Publicado em 30 outubro 2019
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  • 30ª Semana do Tempo Comum

1) Oração

Deus eterno e todo-poderoso, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade e dai-nos amar o que ordenais para conseguirmos o que prometeis. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

2) Leitura do Evangelho (Lucas 13, 22-30)

22Sempre em caminho para Jerusalém, Jesus ia atravessando cidades e aldeias e nelas ensinava.23Alguém lhe perguntou: Senhor, são poucos os homens que se salvam? Ele respondeu:24Procurai entrar pela porta estreita; porque, digo-vos, muitos procurarão entrar e não o conseguirão.25Quando o pai de família tiver entrado e fechado a porta, e vós, de fora, começardes a bater à porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos, ele responderá: Digo-vos que não sei de onde sois.26Direis então: Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste em nossas praças.27Ele, porém, vos dirá: Não sei de onde sois; apartai-vos de mim todos vós que sois malfeitores.28Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacó e todos os profetas no Reino de Deus, e vós serdes lançados para fora.29Virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e sentar-se-ão à mesa no Reino de Deus.30Há últimos que serão os primeiros, e há primeiros que serão os últimos.

 

3) Reflexão   Lucas 13, 22-30

O evangelho de hoje traz mais um episódio acontecido durante a longa caminhada de Jesus desde a Galileia até Jerusalém, cuja descrição ocupa mais de uma terça parte do evangelho de Lucas (Lc 9,51 a 19,28).

Lucas 13,22: A caminho de Jerusalém

“Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo caminho para Jerusalém”.  Mais uma vez Lucas menciona que Jesus está a caminho de Jerusalém. Durante os dez capítulos que descrevem a viagem até Jerusalém (Lc 9,51 a 19,28), Lucas, constantemente, lembra que Jesus está a caminho de Jerusalém (Lc 9,51.53.57; 10,1.38; 11,1; 13,22.33; 14,25; 17,11; 18,31; 18,37; 19,1.11.28). O que é claro e definido, desde o começo, é o destino da viagem: Jerusalém, a capital, onde Jesus será preso e morto (Lc 9,31.51). Raramente, informa o percurso e os lugares por onde Jesus passava. Só no começo da viagem (Lc 9,51), no meio (Lc 17,11) e no fim (Lc 18,35; 19,1), ficamos sabendo algo a respeito do lugar por onde Jesus estava passando. Deste modo, Lucas sugere o seguinte ensinamento: temos que ter claro o objetivo da nossa vida, e assumi-lo decididamente como Jesus fez. Devemos caminhar. Não podemos parar. Nem sempre, porém, é claro e definido por onde passamos. O que é certo é o objetivo: Jerusalém, onde nos aguarda o “êxodo” (Lc 9,31), a paixão, morte e ressurreição.

Lucas 13,23: A pergunta sobre os número dos que se salvam

Nesta caminhada para Jerusalém acontece de tudo: informações sobre massacres e desastres (Lc 13,1-5), parábolas (Lc 13,6-9.18-21), discussões (Lc 13,10-13) e, no evangelho de hoje, perguntas do povo: "Senhor, é verdade que são poucos aqueles que se salvam?"  Sempre a mesma pergunta em torno da  salvação!

Lucas 13,24-25: A porta estreita

Jesus diz que a porta é estreita: "Façam todo o esforço possível para entrar pela porta estreita, porque eu lhes digo: muitos tentarão entrar, e não conseguirão”.  Será que Jesus diz isto só para encher-nos de medo e obrigar-nos a observar a lei como ensinavam os fariseus? O que significa esta porta estreita? De que porta se trata? No Sermão da Montanha Jesus sugere que a entrada para o Reino tem oito portas. São as oito categorias de pessoas das bem-aventuranças: (1) pobres em espírito, (2) mansos, (3) aflitos, (4) famintos e sedentos de justiça, (5) misericordiosos, (6) puros de coração, (7) construtores da paz e (8) perseguidos por causa da justiça (Mt 5,3-10). Lucas as reduziu para quatro: (1) pobres, (2) famintos, (3) tristes e (4) perseguidos (Lc 6,20-22). Só entra no Reino quem pertence a uma destas categorias enumeradas nas bem-aventuranças. Esta é a porta estreita. É o novo olhar sobre a salvação que Jesus nos comunica. Não há outra porta! Trata-se da conversão que Jesus pede de nós. Ele insiste: "Façam todo o esforço possível para entrar pela porta estreita, porque eu lhes digo: muitos tentarão entrar, e não conseguirão. Uma vez que o dono da casa se levantar e fechar a porta, vocês vão ficar do lado de fora. E começarão a bater na porta, dizendo: Senhor, abre a porta para nós! E ele responderá: Não sei de onde são vocês”. Enquanto a hora do julgamento não chegar, é tempo favorável para a conversão, para mudar nossa visão sobre a salvação e entrar em uma das oito categorias.

Lucas 13,26-28: O trágico mal-entendido

Deus responde aos que batem na porta: “Não sei de onde são vocês”. Mas eles insistem e argumentam: Nós comíamos e bebíamos diante de ti, e tu ensinavas em nossas praças! Não basta ter convivido com Jesus, de ter participado da multiplicação dos pães e de ter escutado seus ensinamentos nas praças das cidades e povoados. Não basta ter ido à igreja e de ter participado das instruções do catecismo. Deus responderá: Não sei de onde são vocês. Afastem-se de mim, todos vocês que praticam injustiça!”. Mal-entendido trágico e falta total de conversão, de compreensão. Jesus declara injustiça aquilo que os outros consideram ser coisa justa e agradável a Deus. É uma visão totalmente nova sobre a salvação. A porta é realmente estreita.

Lucas 13,29-30: A chave que explica o mal-entendido

“Muita gente virá do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus. Vejam: há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos".  Trata-se da grande mudança que se operou com a vinda de Deus até nós em Jesus. A salvação é universal e não só do povo judeu. Todos os povos terão acesso e poderão passar pela porta estreita.

 

4) Para um confronto pessoal

1) Ter o objetivo claro e caminhar para Jerusalém: Será que tenho objetivos claros na minha vida  ou deixo-me levar pelo vento do momento da opinião pública?

2) A porta é estreita. Qual a visão que tenho da Deus, da vida, da salvação?

 

5) Oração final

Glorifiquem-vos, Senhor, todas as vossas obras, e vos bendigam os vossos fiéis. Que eles apregoem a glória de vosso reino, e anunciem o vosso poder. (Sl 144, 10-11)

Pastoral do Batismo: História e espiritualidade do Sacramento

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Publicado em 29 outubro 2019
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  • Batizar crianças
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  • História do Batismo no Brasil

 

  1. História do Batismo no Brasil
  2. De uma carta, enviada do Brasil para Portugal, falando dos índios que encontraram por aqui: “Gente boa! Pena que não são batizados!” Ou seja: sem batismo a pessoa é condenada!
  3. Os índios tinham os seus ritos próprios de iniciação para proteger a vida da criança. Estes ritos se misturaram com os ritos da Igreja.
  4. No começo havia muito pouca preparação. Havia gente que se batizava duas ou três vezes. A partir de 1549, começa a formação das aldeias pelos padres Jesuitas.
  5. Em torno de 1600, a metade dos índios já tinha morrido por motivo de doenças, provocadas pelo contato com os brancos. Havia pagé que “desbatizava” as crianças! Achavam que podia ser motivo de morte. Daí, a preocupação do missionário em mostrar que o batismo era para dar um bem, e não para dar a morte!
  6. Na mente de muitos índios, o batismo era associado com morte e com entrega aos brancos. A lei vinda de Portugal exigia que o senhor do engenho batizasse os negros. Havia negros marcados com fogo para mostrar que eram batizados.
  7. A história do batismo no Brasil tem suas contradições. Mesmo assim, apesar de tudo, os negros e índios souberam transformar o sinal de morte em sinal de vida. Souberam fazer com que o batismo se tornasse sinal de cidadania e sinal de gente. O batismo tornou-se um sinal de poder participar de irmandades e de poder partici­par das festas. O Batismo, apesar de tudo, transformou-se em sinal de vida e de liberdade, de dignidade, de consciência nova de gente e de filho de Deus. Buscando o batismo, o povo buscava uma coisa boa e positiva!
  8. Se quisermos renovar a pastoral do batismo, não basta conversar sobre o batismo, mas temos que ver o que o povo vive e vê no batismo; o que o povo deseja e busca no Batismo. Quem precisa ser batizada é a igreja. Ela deve renovar-se e descobrir o sentido do batismo a partir do povo, com uma visão mais positiva e mais simpática para o povo!
  9. A renovação do Vaticano II e de Medellin
  10. O Concílio Vaticano II pede uma preparação dos pais e padrinhos para que possam participar melhor da celebração do batismo
  11. A Assembléia dos bispos de Medellin (1968) constata que 90% dos povos da América Latina buscam o batismo, mas não o conhecem nem o praticam. Aí disseram: quando o povo vem para batizar, vamos aproveitar para explicar melhor o que vem a ser o batismo. Os bispos uniram a catequese à preparação para a celebração do batismo.
  12. Quando começaram a crescer as Comunidades Eclesiais de Base, surgiu o costume de acentuar também a participação. Quando o pessoal das comunidades vinha pedir o batismo para os filhos, a preparação para o sacramento insistia muito no dever de os pais e padrinhos participarem da vida da Comunidade. Assim, junto com a preparação para celebração e a catequese, começa a insistência na participação, e na necessidade de voltar para a Igreja e de começar a participar, inclusive, dos movimentos populares.
  13. O Concílio Vaticano II, porém, pedia e pede, em primeiro lugar, que haja preparação para a celebração das cerimônia do Batismo.
  14. Os motivos que levam o povo a buscar o batismo
  15. Os motivos que levam o povo a pedir o batismo para os filhos são variados:

*  por causa da tradição.

*  para ser cristão: “Sem batismo está faltando algo. Não basta nascer!”

*  para não chorar

*  para não ter mau olhado e não ser vítima

*  para poder ter a festa do batismo que é a festa do nascimento, da vida nova

*  para homenagear o padrinho

*  para dar um bem para a criança

*  para garantir a vida depois da morte e não ser alma penada

*  para tirar o pecado

*  e vários outros

  1. Estas motivações são válidas, mas são incompletas. Elas não tem ligação com Jesus. Jesus é central na nossa fé. O povo não tem claro que o batismo está ligado a Jesus. Não sabe que está ligado com a Morte e Ressurreição de Jesus.
  2. Na realidade, mesmo sem saber, o povo já está vivendo o mistério da morte ressurreição de Jesus. Sua a vida é uma luta sem fim, de manhã até à noite! É a páscoa de Jesus acontecendo no dia a dia. Esta vida já é batismal. Sem o saber, o povo já participa da morte e ressurreição de Jesus. Jesus já está no centro da vida do povo. Ele mesmo diz: “Quando você ajudou aquele pobre,era eu!”
  3. Hoje, quem traz Jesus de volta para o centro das atenções do povo, são os evangé­licos que pregam todos os dias no rádio. Falam de Jesus o tempo todo. “Jesus vai voltar!” Por isso, muita gente está levando criança para receber uma bênção nos crentes.
  4. O povo não sabe explicar bem, mas ele tem suas intuições de fé. O mistério de Deus, de Jesus, já está acontecendo em sua vida. O grande desafio nosso é fazer com que o povo descubra esta riqueza que ele possui e vive sem saber. Como revelar e comunicar esta riqueza, como partilhar esta experiência? Esta é a tarefa básica da PASTORAL DO BATISMO!
  5. As tarefas da Pastoral do Batismo
  6. A pastoral do batismo deve evangelizar pelo diálogo. Um ponto importante é: dialogar e partilhar com as pessoas para que descubram o mistério de Deus e de Jesus, presente em sua vida. Pois o povo também tem Deus e tem o Espírito de Deus. Este diálogo deve partir dos sentimentos que o povo tem, dos interesses deles. Deve partir do lugar onde a pessoa está.
  7. Para isto é importante tentar descobrir o sentido das intuições e metáforas que o povo usa. Por exemplo, o povo diz: “A criança é dada por Deus!” - “Deus é o doador da vida!”  -  “A criança é fraca e ameaçada, mas Deus defende a vida dela!” Com outras palavras, Deus está bem presente na vida dos pais e também das crianças. A nós da pastoral, cabe revelar que este Deus é o Deus de Jesus!
  8. Esta maneira de pensar combina com alguns pontos fundamentais da nossa fé e com alguns pontos fundamentais do próprio batismo:

*  Deus é o defensor da vida, sob todos os seus aspectos

*  O batismo consagra a vida e a coloca na mão de Deus

*  A alegria dos pais de poder devolver a Deus o que dele receberam

*  O batismo confirma a dignidade da criança como gente e filho da Deus

*  O batismo é o momento para revelar o nome da criança

*  O nascimento e o batismo ajudam a superar inimizades e unificam a família

*  Em torno da criança e do seu batismo, a família se humaniza

*  O batismo confirma a fé dos pais e dos avós (a tradição é positiva)

*  O batismo aproxima da Igreja que é católica, universal

  1. O que deve ser aprofundado
  2. Foi feito um cochicho com a pergunta: o que deve ser mais aporfundado. A resposta do pessoal reflete os problemas e as dificuldades da prática:

*  Preparação, quanto tempo?

*  Hora da inscrição

*  Variedade das religiões cristãs que tem batismo

*  Ligar pastoral do batismo com pastoral familiar

*  Pos-batismo ou pré-batismo: o que é mais importante?

*  Preparação mais personalizada

*  Batizar na mesma paróquia, sim ou não?

*  Isto significa uma volta ao sacramentalismo?

*  Como unir acolhimento e exigências?

*  Pastoral do batismo e catequese

*  O óleo no batismo é só para o sacerdote?

*  Batizar e continuar na Igreja, como fazer?

*  Visão mais ecumênica do batismo

*  As normas de batismo na Diocese de Itaguaí

*  Pastoral de conjunto na Diocese

  1. Reflexão do Padre Domingos
  2. A partir do resultado do cochichco, o padre Domingos refletiu sobre a fé dos pais de dos padrinhos, sobre as exigências que fazemos, e sobre a participação.
  3. Ele fez duas constatações muito importantes:
  4. a) A maior parte dos pais e padrinhos não participa.
  5. b) A pastoral do batismo não trouxe o pessoal de volta para a Igreja.
  6. Pais e padrinhos praticam a religião do jeito deles, não do nosso jeito. A prática deles, apesar de diferente, tem coisas boas. Por exemplo, revela uma confiança grande em Deus; uma atenção às pessoas com sentimento de justiça que acolhe os marginalizados; vão à igreja não por obrigação, mas sim quando o coração pede. Apesar de não praticar, eles se sentem ligados à Igreja Católica.
  7. Aí surge a questão: “Se o jeito deles também é bom, então o que estou fazendo na comunidade? Que sentido ainda tem eu me esforçar tanto?” Padre Domingos respondeu: Participar mais ativamente na comunidade é um dom, é vocação, é missão! No tempo de Jesus só havia doze pessoas na comunidade e depois mais setenta e dois! Doze e setenta e dois para todos! Na comunidade vivemos a religião a favor e em serviço de TODOS! Mas nem todos precisam estar na comunidade!
  8. Baseado nisso, ele distinguiu dois tipos de pastoral:
  9. a) Pastoral da fé: testemunhar a fé gratuitamente
  10. b) Pastoral do discipulato: atrair outros para participar.
  11. A comunidade anuncia gratuitamente a Boa Nova de Deus para todos, sem esperar retorno. Ela também se preocupa em fazer discípulos que possam continuar a tarefa da comunidade. Em qual das duas pastorais devemos situar a pastoral do batismo?
  12. Objetivo da pastoral do Batismo
  13. A pastoral do batismo pertence à pastoral da fé e não à pastoral do discipulato. A pastoral do batismo não é para atrair mais gente para dentro da comunidade, nem para levar as pessoas a participar mais da igreja. Ela existe para anunciar gratui­tamente a Boa Nova de Deus
  14. Temos que superar a idéia de que só vive o batismo aquele que participa ativamente na comunidade. Uma coisa é o batismo de adulto, que deve ter muitas exigências. Outra coisa é o batismo de criança. A teologia do Batismo que está no NT é de batismo de adultos. O batismo que nós administramos é batismo de criança. O batismo de criança deve ressaltar antes de tudo o dom gratuito de Deus para esta criança!
  15. A pastoral do batismo não pode ser motivo para discriminar os não-participantes. Nem pode ser para dificultar o acesso ao batismo. Nem para levar a pessoa à parti­cipar mais na comunidade. Nem deve ser usada para para falar sobre os sacramen­tos, nem para aumentar o conhecimento da doutrina da Igreja.
  16. O Objetivo principal da pastoral do batismo é este: ACENDER, REANIMAR, INTENSIFICAR A FÉ dos pais e padrinhos

         Acender, quando apagou!

         reanimar, quando está fraca!

         intensificar, quando está viva!

  1. Isto exige que conheçamos a vida de fé da família que pede o batismo. A fé que se exige para o batismo, não precisa ser uma fé perfeita. Basta que seja uma fé inicial, disposta a crescer. Fé não é sinônimo de participação na comunidade!
  2. Sobre o Batismo das Crianças
  3. Qual o significado da batismo das crianças? Como fazê-lo e o que fazer? O Batismo é sinal do amor de Deus na vida daquela criança. Mesmo havendo deficiência da nossa parte, o amor de Deus é maior do que a nossa deficiência! Por isso, o Batismo das crianças deve ser facilitado cada vez mais. Na América Latina, nunca pode ser negado o batismo aos pobres. Deveríamos criar dificuldade com o batismo dos ricos, isto sim!
  4. Devemos encontrar uma maneira de levar o batismo a todas as crianças, como sinal do Reino de Deus que chegou para todos, independente do merecimento nosso. Deve­mos levar o batismo com menos rancor, e muito mais como Boa Nova do amor de Deus para aquela criança. Este aspecto da Boa Nova do amor de Deus deve transparecer na celebração. Devemos ligar a intuição de fé do povo com a fé da Igreja e com o evangelho.
  5. O objetivo principal da pastoral do batismo não é conseguir a participação dos pais e dos padrinhos na comunidade. O objetivo principal é celebrar o amor gratuito de Deus para com esta criança! Isto não significa banalizar o Batismo. Pelo contrário! Mas é celebrar a chegada do Reino de Deus. Fazendo uma boa preparação para a celebração e fazendo uma boa e bonita celebração, muita gente vai despertar e querer participar. Exigindo menos, se consegue mais! Batismo de adulto, este sim, exige uma longa e profunda preparação.
  6. Então vamos cair de novo no cacramentalismo? Não! Na medida em que se exige me­nos, vamos ganhar mais. Fazendo uma boa celebração do batismo estamos evangeli­zando. Bem celebrado, o sacramento do batismo anima a fé. Todos os símbolos do batismo contribuem para isto:

         *  cruz                                    |  Estes símbolos expressam vida nova,

         *  óleo                                    |  expressam o mistério de Deus na vida,

         *..luz                                                      |  expressam a caminhada de Jesus,

         *  roupa nova                                      |  expressam a comunidade.

  1. No começo da igreja, o Padrinho era aquele que introduzia o batizando na fé. Era o “introdutor na fé”. Ou seja, a comunidade indicava alguém para acompanhar a pessoa ou a família. Este acompanhante era o laço entre a comunidade e a família. Hoje, além do padrinho que o povo indica, a comunidade poderia indicar alguém para ir acompanhando a família, mostrando interesse.
  2. A tendência atual é dar menos importância às palestras e insistir num acompa­nhamento mais personalizado em forma de diálogo, sem ter um conteúdo especial, mas com a preocupação de rezar a vida da criança e da família.
  3. Depois da celebração do batismo, voltar a visitar a família, de vez em quando, e rezar com ela o que se viveu na celebração do batismo, explicitando assim todo o seu conteudo para a vida da família e da criança. Até o vídeo do batismo pode ajudar na evangelização!
  4. Sugestões concretas vindas dos grupos
  5. Foi feito um trabalho de grupo com a seguinte pergunta: “Que meios concretos podemos adotar para acender, reanimar e intensificar a fé dos pais?” Padre Domingos pediu que, na discussão, tivêssemos bem presente que nós da equipe somos apenas colaboradores. Os pais é que são os principais responsáveis. No plenário, vieram as seguintes sugestões:
  6. Parati: Devemos acentuar mais o aspecto do batismo como bênção de Deus para a criança. O batismo é um momento importante de contato entre a Comunidade Cristã e a grande massa batizada. Devemos usar bem este momento. Um bom contato se faz muito melhor por meio do diálogo do que por meio de uma palestra. As Comunidades são o lugar por exclelência onde Cristo está vivo como Boa Nova de Deus
  7. Itaguaí: Devemos ajudar a buscar as raízes no contato com as pessoas. Usar de muito carinho, caso por caso. Usar de mais ardor e em grupos menores. Rezar e celebrar mais as datas que marcam a vida da família.
  8. Jacuacanga: Devemos visitar as famílias que pedem o batismo para a criança e aproximar-nos delas. Procurar re-inventar o “Introdutor da fé”, tentando unir pastoral familiar com a pastoral do batismo, de tal modo que haja contato antes, durante e depois da celebração.
  9. Angra dos Reis: Dialogar e ouvir mais as pessoas. Insistir mais nas visitas. Na celebração devemos usando mais e melhor os símbolos. Sobretudo devemos cuidar melhor do acolhimento.
  10. Não consegui tomar nota das respostas das outras paróquias ou municípios. No breve debate, apareceu uma sugestão muito útil de como usar melhor os símbolos:

               *  Uma pia batismal bem bonita e visível e não uma bacia de plástico.

               *  Um Círio grande e vistoso e não um toco de vela.

               *  Um recipiente digno para o óleo e não uma latinha.

  1. Complementações finais do Padre Domingos.
  2. Depois que os grupos das paróquias relataram suas conclusões, padre Domingos fez umas considerações finais, insistindo sobretudo em alguns pontos bem concretos de como preparar melhor o pessoal para a celebração do Batismo. Não consegui tomar nota de tudo, mas ele disse que tudo está no livrinho que escreveu e que pode ser adquirido
  3. Ele acentuou a importância da celebração como algo que tem grande valor em si mesmo para o anúncio da Boa Nova de Deus. Disse que a gente não deve querer explicar demais o rito, mas sim celebrá-los de tal maneira que o rito fale por si mesmo. Deve ser uma celebração de alegria e de ressurreição que possa trazer paz ao coração. Ele disse que não se deve insistir demais no moralismo e na res­ponsa­bilidade. Celebrar sobretudo o dom e a graça de Deus que geram responsabilidade por si mesma!.
  4. Algumas sugestões concretas de como preparar melhorar a celebração:
  5. Não é necessário que tudo seja feito dentro de uma única celebração. Pode-se aproveitar de uma celebração dominical para apresentar a criança à Assembléia.
  6. O pedido de batismo: “O que vocês pedem?...” também pode ser feito antes, em outra ocasião.
  7. Em alguns lugares criaram um rito de acolhimento das gestantes, como prepara­ção remota para o batismo.
  8. Nas celebrações dominicais rezar pelas crianças que vão ser batizadas, dizer os nomes dos pais e da criança que vai ser batizada.
  9. Usar as bênçãos para abençoar as famílias que se preparam para o batismo: usar hinos, orações e bênçãos na preparação. Que tudo seja bem orante!
  10. Rezar com eles, por ex., o salmo 23: “O Senhor é meu pastor” e comentá-lo.
  11. Toques e bênçãos para a criança. Rito “Effata!”...
  12. É importante que a preparação seja mais personalizada, menos na linha de aula e de curso; que a família sinta e experimente que alguém se preocupe com ela e com a criança; reza por ela e pela criança.
  13. Conteúdos básicos da teologia do Batismo a partir do NT

*  A Boa Nova de Deus se revela no Batismo das Crianças

*  Pontos importantes que podem ser acentuados na celebração através dos símbo­los:

  1. passar pela água: água abundante, que possa significar o mergulho na morte e na ressurreição de Jesus (cf. Rom 6)
  2. banho de purificação: o batismo traz o perdão dos pecados e a comunhão com Deus; a misericórdia de Deus já está aí, o perdão já está garantido para o futuro da criança.
  3. a luz de Cristo: a iluminação trazida pela participação na morte e ressurrei­ção de Jesus, que ilumina a vida da gente
  4. ser batizado no Espírito Santo: expresso na invocação, na alegria e no canto.
  5. o novo nascimento: a vida nova de Deus expressa pelo batismo une a criança a Jesus que é a fonte de vida nova

 

Bibliografia

  1. Procurando novos caminhos para a pastoral do batismo de crianças: 1ª parte: É da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Foi feito pelo Padre Domingos
  2. Número 125 da revista de Liturgia traz um artigo do Padre Domingos sobre como preparar a celebração do Batismo

OLHAR CARMELITANO: O Profeta Elias e o Silêncio Profético

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Publicado em 29 outubro 2019
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  • O Profeta Elias e o Silêncio Profético
  • carmelitas do Monte Carmelo
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Frei Carlos Mesters, O. Carm

Na solidão do Monte Carmelo, onde viviam os primeiros carmelitas, reinava um grande silêncio. Não havia barulho, a não ser os ruídos da própria natureza que convidam ao silêncio. Mesmo assim, a Regra do Carmo recomenda com muita insistência o silêncio. Numa cidade barulhenta tem sentido insistir que se faça silêncio. Mas pedir que se faça silêncio naquela serra imensa do Carmelo, cheia de solidão, qual o sentido? Parece o mesmo que carregar água para o mar! Qual o silêncio que a Regra pede daqueles primeiros carmelitas do Monte Carmelo e, através deles, de todos nós da Família Carmelitana? Nas reflexões que seguem, eu me inspirei no comentário que Kees Waayman fez da Regra e dos textos bíblicos sobre o Profeta Elias.

Há muitas formas de silêncio: O silêncio que se pede numa biblioteca ou num hospital. O silêncio da noite ou da natureza. O silêncio da morte. O silêncio que precede à tempestade. O silêncio do medo ou do aluno que não sabe a resposta. O silêncio do censurado ou do povo silenciado. O silêncio do fulano frustrado, do jovem abafado, do lutador derrubado. O silêncio do namorado na presença da namorada. O silêncio de Deus que nunca aparece. O silêncio do místico. O silêncio da quebra interior quando tudo que a pessoa tinha imaginado e planejado até àquele momento cai no vazio e se desintegra. Tantos silêncios! Qual o silêncio que a Regra do Carmo pede e recomenda?

A recomendação do silêncio na Regra do Carmo

Para descrever o valor do silêncio, a Regra cita por inteiro duas frases do profeta Isaías: A justiça é cultiva­da pelo silêncio, e É no silêncio e na esperança, que se encontrará a vossa força. Trata-se de um silêncio que tem a sua origem nos profetas. Para nós, car­melitas, o silêncio profético evoca imediatamente o profeta Elias. As duas frases de Isaías indicam os dois passos do silêncio profético, ambos de grande atualidade.

Hoje em dia, o fluxo de palavras, de imagens e de falatório que nos envolvem, é tanto, que impede as pessoas de perceberem o que está acontecendo de fato. Envolve-nos de tal maneira, que acabamos achando normal aquilo que, na realidade, é uma situação de morte. Por exemplo, anos atrás, o povo se revoltava diante de assassinatos e de violência. Hoje em dia, a violência tornou-se uma coisa tão freqüente e tão presente, que já nos acostumamos. A miséria crescente do povo, a injustiça impune, o sofrimento dos que nunca cometeram algum mal, o abandono, o desemprego, a exclusão, a doença, a solidão, o desamor...! Vivemos numa situação de morte, e já não nos damos conta. Além disso, muitas vezes, o consumismo mata qualquer esforço de consciência crítica

O primeiro passo do silêncio profético está expresso na primeira frase de Isaías que diz: A justiça é cultivada pelo silêncio. Isaías compara a prática do silêncio com o trabalho do agricultor que cultiva sua roça para ter boa colheita. Esta primeira frase indica o esforço ativo nosso que visa atingir um determinado resultado. Devemos fazer silenciar tudo dentro de nós, para que a realidade possa aparecer do jeito que ela é em si mesma e não como aparece desfigurada através do muito falatório, do barulho da moda, ou através dos meios de comunicação, da ideologia dominante. Este trabalho ativo da prática do silêncio produz, aos poucos, o desmantelo das falsas idéias, da ideologia dominante ou dos preconceitos que tínhamos na cabeça, tanto religiosos como culturais. Faz nascer a visão justa das coisas. O cultivo do silêncio gera em nós a justiça.

Na hora em que se desmantela dentro da nossa cabeça o arcabouço ideológico que nos dava uma visão falsa e artificial da realidade, nesse momento é como se levássemos uma pancada forte. Como que de repente, despertamos do sono e somos confrontados com a situação de morte sem saída em que estamos vivendo e que grita por mudança e conversão. Nesse momento, tudo silencia dentro de nós. O falatório acabou, emudecemos. Perdemos os argumentos que nos sustentavam. É o momento da crise. Este momento do confronto com a situação de morte que faz silenciar, é o primeiro passo do silêncio profético, de que fala a Regra do Carmo. É fruto do esforço ativo nosso de fazer silenciar o muito falatório da propaganda, da ingenuidade sem consciência crítica.

O silêncio profético coloca o dedo na ferida escondida. Ele denuncia os caminhos sem saída em que estávamos caminhando e dos quais achávamos que fossem caminhos de vida, quando, na realidade, nos conduziam para a morte. O profeta aponta a morte, não porque gosta da morte, mas sim para que a vida possa manifestar-se. Agindo assim, ele dá pancada, faz silenciar. Faz silêncio para que possamos escutar e experimentar a morte e, passando pela morte, reencontrar a vida. É a cami­nhada da Noite Escura, de que fala São João da Cruz. É uma exigência da vida que sejam apontados os falsos e ilusórios caminhos da morte, para que possam provocar mudança e conversão, tanto na vida pessoal como na convivência social, e, assim, gerar justiça.

O segundo passo do silêncio profético está expresso na segunda frase do profeta Isaías: No silêncio e na esperança está a força de vocês. Esta segunda frase de Isaías sugere o contrário da primeira. Em vez de esforço ativo nosso em busca de um resultado, aqui a prática do silêncio é vista como a atitude de espera de algo que deve acontecer, mas que não depende do nosso esforço. Depende de Deus. O silêncio produzido em nós pelo confronto com a situação de morte, apesar de doloroso, é fonte de esperança. Dá força para poder resistir, porque acreditamos que da morte do trigo caído na terra vai brotar vida nova. Faz cantar. Canta a Noite Escura do povo, porque dentro dela já se articula a madrugada da ressurreição. Este segundo passo, fruto da ação de Deus, aparece em muitos lugares na Bíblia e de várias maneiras. Ele foi acontecendo na vida do profeta Elias na caminhada para o Monte Horeb (1Rs 19). Trata-se da experiência mística.

O silêncio profético na caminhada do profeta Elias

Elias parecia forte e invencível no confronto com os profetas de Baal (1Rs 18,20-40). Mas diante da ameaça de morte da parte de Jezabel, ele aparece como era na realidade: fraco e vulnerável, "igual a nós" (Tg 5,17). Com medo de ser morto, foge do país, vai para o deserto (1Rs 19,1-3). Cego, sem enxergar, não percebe o anjo de Deus que lhe traz comida. Ele só quer comer, beber, dormir e ficar longe de tudo (1Rs 19,5). Está desanimado. Quer morrer: Não sou melhor que meus pais! Mas Deus não desiste. O anjo volta uma segunda vez (1Rs 19,7). Finalmente, Elias desperta e, alimentado por Deus, recupera sua força. No silêncio do deserto, ele caminha quarenta dias e quarenta noites até o Horeb (Sinai), a Montanha de Deus (1Rs 19,8). Elias busca reencontrar Deus no mesmo deserto onde, séculos antes, na época do êxodo, havia nascido o povo.

Mas a busca parece não estar bem orientada. Alguma coisa não está dando certo. Elias diz ter muito zelo, mas, na realidade, está fugindo com medo de morrer (1Rs 19,10.14). Ele diz que ficou sozinho, mas havia sete mil que não tinham dobrado o joelho diante de Baal (1Rs 19,18). Elias tem a visão limitada. Ele pensa que é o único a defender a causa de Deus! (1Rs 19,14) Deus o manda sair da gruta e ficar na entrada, pois "Deus vai passar" (1Rs 19,11). Elias sai da gruta, mas a gruta não sai de Elias. Ele continua com a mesma visão limitada, achando ser ele o único que defende a Deus! (1Rs 19,14) Enquanto não mudar esta sua maneira limitada de perceber a presença de Deus, não poderá percebê-la na vida e nos fatos.

Deus vai passar! Primeiro, um furacão! Depois, um terremoto! Depois, um fogo! No passado, ao concluir a Aliança com o povo naquela mesma Montanha Horeb ou Sinai, na época do êxodo, Deus tinha se manifestado no furacão, no tremor da montanha e nos raios de fogo (Ex 19,16). Eram os sinais tradicionais da presença atuante de Deus no meio do povo. Eram estes os critérios que orientavam Elias na busca de Deus. Ele mesmo tinha experimen­tado a presença de Deus no fogo quando, no Monte Carmelo, enfrentou os profetas de Baal (1Rs 18,36-38).

Elias estava fazendo uma coisa certa. Ele buscava Deus voltando às origens do povo, à experiência de Deus no êxodo. Mas os critérios da sua busca estavam desatualizados. Ele vivia no passado. Encerrou Deus dentro dos critérios! Queria obrigar Deus a ser como ele, Elias, o imaginava e desejava. Por isso aconteceu o inesperado, a surpresa total: Deus não estava mais no furacão, nem no terremoto, nem mesmo no fogo que tinha sido sinal da presença de Deus, pouco antes, no Monte Carmelo! Parece até um refrão que volta três vezes: Javé não estava no furacão! Javé não estava no terremoto! Javé não estava no fogo! Se Ele não está nestes sinais, então onde está Deus? Onde encontrá-lo?

É a desintegração do mundo de Elias. A crise mais violenta e mais dolorosa que se possa imaginar! Cai tudo! Pois se Deus não está mais nestes sinais familiares e tradicionais de sempre, então Ele não está em canto nenhum! É o silêncio de todas as vozes! É a escuridão da noite! Ora, é neste momento, que se abre para Elias um novo horizonte. É no silêncio de todas as vozes que a voz de Deus se manifesta.

Este silêncio total, a língua hebraica expressa-o dizendo: “voz de calmaria suave”, (qôl demamáh daqqáh). As traduções costumam dizer: “Murmúrio de uma brisa suave” A palavra hebraica, demamáh, usada para indicar a calmaria, vem da raiz DMH que significa parar, ficar imóvel, emudecer. A brisa suave indica algo, uma experiência, que, de repente, faz emudecer, faz a pessoa ficar calada, cria nela um vazio e, assim, a dispõe para escutar. Esvazia a pessoa, para que Deus possa entrar e ocupar o lugar. Ou melhor, Deus entrando provoca o vazio e o silêncio. Silêncio sonoro, solidão povoada! Vacare Deo dizem até hoje os carmelitas, isto é, esvaziar-se para Deus!

Elias cobriu o rosto com o manto (1Rs 19,13). Sinal de que tinha experimentado a presença de Deus exatamente naquilo que parecia ser a ausência total de Deus! A escuridão se iluminou por dentro e a noite ficou mais clara que o dia. É a libertação de Elias. Reencon­trando-se com Deus, ele se reencontra consigo mesmo e descobre que não é ele, Elias, que defende a Deus, mas sim que é Deus quem defende a Elias. Libertado por Deus, ele é livre para libertar os outros! 

A experiência de Deus reconstroi a pessoa e lhe revela a sua missão (1Rs 19,15-18). Refeito pelo encontro com Deus, Elias redescobre sua missão (1Rs 19,15-18) e se preocupa em dar-lhe continuidade, indicando Eliseu como sucessor (Rs 19,19-21). Antes, ele queria morrer. Já não via mais sentido no que fazia. Agora, a nova experiência de Deus mudou tudo. Ele volta para o lugar onde queriam matá-lo. Já não tem medo. Em vez de querer morrer, quer que sobreviva a sua missão. Sinal de que novamente crê no que faz e deve fazer.

Resumindo. O silêncio profético recomendado pela Regra e vivido por Elias tem dois aspectos. O primeiro aspecto é fruto do esforço nosso, do cultivo, do trabalho. Exige disciplina e controle, estudo e reflexão, para que a gente possa perceber os mecanismos da opres­são e da ideologia, dos preconceitos e das propagandas. É fruto da partilha, da troca de expe­riências, do trabalho comunitário. O segundo aspecto do silêncio profético é fruto da ação do Espírito de Deus em nós. Desobstruído o acesso à fonte pelo esforço ativo nosso, a água brota de dentro de nós e inunda o nosso ser.

Encontro de Francisco com o Pe. Martin repreende bispos conservadores, levanta algumas dúvidas sobre inclusão na Igreja

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Publicado em 29 outubro 2019
  • Papa Francisco,
  • Igreja Católica e a comunidade LGBT,
  • comunidade LGBT
  • encontro do papa com o Pe. Martin
  • New Ways Ministry,
  • Prêmio Bridge Building,
  • padre jesuíta James Martin
  • igualdade LGBTQ na Igreja Católica
  • Pe. James Martin, SJ,

“O encontro do papa com o Pe. Martin serviu como um sinal de apoio ao trabalho do padre em nome da comunidade LGBT. Foi também emblemático do papado de Francisco, que tem repreendido coerentemente um estilo de cristianismo voltado a guerras culturais que, desde a ascensão da direita religiosa nos Estados Unidos durante a década de 1980, vinha sendo o cenário padrão do cristianismo americano na política”. O comentário é de Robert Shine, editor do New Ways Ministry, publicado por News Way Ministry, 18-10-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

 

Eis o artigo.

A audiência privada entre o Papa Francisco e o padre jesuíta James Martin reverberou em todos os lados do debate sobre igualdade LGBTQ na Igreja Católica. Mas, além da afirmação papal ao ministério LGBTQ do sacerdote americano, qual o significado deste encontro? A reflexão de hoje destaca dois comentários referentes ao assunto.

Diretor do programa católico Faith in Public Life, John Gehring escreveu no New York Times, sobre a audiência privada dizendo que era um “endosso do departamento eclesiástico de mais autoridade” ao livro de Martin, intitulado Building a Bridge, escrito a partir de uma palestra de 2016 quando da entrega do Prêmio Bridge Building, concedido pelo New Ways Ministry. Mas Gehring refletiu também sobre o significado para além deste primeiro sentido:

“O encontro do papa com o Pe. Martin serviu como um sinal de apoio ao trabalho do padre em nome da comunidade LGBT. Foi também emblemático do papado de Francisco, que tem repreendido coerentemente um estilo de cristianismo voltado a guerras culturais que, desde a ascensão da direita religiosa nos Estados Unidos durante a década de 1980, vinha sendo o cenário padrão do cristianismo americano na política”.

“Desde a sua eleição, há seis anos, o Papa Francisco tem proposto um modelo diferente de exemplo moral: engajando-se e persuadindo, reenquadrando questões contenciosas, afastando-as de ideologias estreitas e ampliando as imaginações morais (...) Os guerreiros culturais nos EUA já causaram um grande prejuízo à nossa imaginação política e moral coletiva. Mais marcados pelo poder do que fiéis ao Evangelho, tais lideranças eclesiásticas demonizam a comunidade LGBTQ, viram as costas aos migrantes que fogem do perigo e ignoram os clamores dos pobres enquanto alegam defender os valores cristãos. Um pastor humilde porém persistente em Roma nos recorda que há um caminho diferente para aqueles de nós que ainda acreditam em uma fé que busca por justiça”.

Os editores do National Catholic Reporter concordam que Francisco pretendeu enviar a “mensagem bastante clara” sobre o ministério do Pe. Martin, de que “Está tudo OK com [este] padre, então parem de incomodá-lo”. O evento foi positivo segundo as mensagens publicadas na internet pelo próprio religioso, e um encontro recebido com entusiasmo pelo New Ways Ministry. Ao mesmo tempo, os editores da publicação deram a entender que essa audiência privada levantou muitas outras dúvidas na questão da inclusão LGBTQ na Igreja:

“Se o papa está sinalizando uma nova atitude na Igreja em relação à comunidade LGBTQ, o que exatamente isso significa? Além disso, é mesmo justo esperar exatidão em uma área que por tanto tempo esteve repleta de contendas que podiam acabar em ódio? (...) Não queremos estragar este bom momento, mas nos sentimos obrigados a dizer: por maior que seja, é apenas um momento (…) Com certeza estamos esperançosos com a série de avanços que neste papado se misturaram com os ensinamentos e as atitudes que levaram católicos LGBTQs a ficar à margem. Ficaremos felizes com estes avanços, mas com o entendimento sóbrio de que, enquanto católicos LGBTQs estiverem às margens e enquanto os papas puderem mudar ao mesmo tempo em que o magistério católico sobre a sexualidade, em tantas áreas, permanece inalterado, haverá muito trabalho ser feito”.

Parte desse trabalho é o de defender o ministério do Pe. Martin contra os ataques da direita que ele tem recebido há dois anos. Na esteira do encontro papal e dos ataques abertos de Dom Charles Chaput contra o sacerdote, a iniciativa Faithful America lançou uma petição em apoio ao jesuíta, e já ganhou quase 14 mil assinaturas, dizendo:

“Estamos com o Pe. James Martin, SJ, e apoiamos o seu trabalho de tornar a Igreja mais inclusiva para os filhos e filhas LGBTQs de Deus. Obrigado, Padre Jim!”

Para adicionar o seu nome em apoio ao Pe. Martin e seu trabalho na construção de pontes de inclusão na Igreja. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

SÃO SIMÃO E SÃO JUDAS TADEU: Liturgia da Palavra

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Publicado em 28 outubro 2019
  • SÃO SIMÃO E SÃO JUDAS TADEU

Frei Carlos Mesters, O. Carm.

 

2) Leitura do Evangelho (Lucas 6, 12-19)

12Naqueles dias, Jesus retirou-se a uma montanha para rezar, e passou aí toda a noite orando a Deus.13Ao amanhecer, chamou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles que chamou de apóstolos:14Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro; André, seu irmão; Tiago, João, Filipe, Bartolomeu,15Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado Zelador;16Judas, irmão de Tiago; e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor.17Descendo com eles, parou numa planície. Aí se achava um grande número de seus discípulos e uma grande multidão de pessoas vindas da Judéia, de Jerusalém, da região marítima, de Tiro e Sidônia, que tinham vindo para ouvi-lo e ser curadas das suas enfermidades.18E os que eram atormentados dos espíritos imundos ficavam livres.19Todo o povo procurava tocá-lo, pois saía dele uma força que os curava a todos.

 

3) Reflexão  Lucas 6, 12-19

O evangelho de hoje traz dois assuntos: (1) descreve a escolha dos doze apóstolos (Lc 6,12-16) e (2) informa que uma multidão imensa de gente queria encontrar-se com Jesus para ouvi-lo, tocar nele e ser curada (Lc 6,17-19).

Lucas 6,12-13: Jesus passa noite em oração e escolhe os doze apóstolos

Antes de fazer a escolha definitiva dos doze apóstolos, Jesus subiu a uma montanha e passou uma noite inteira em oração. Rezou para saber a quem escolher e escolheu os Doze, cujos nomes estão registrados nos evangelhos. A eles deu o título de apóstolo. Apóstolo significa enviado, missionário. Eles foram chamados para realizar uma missão, a mesma que Jesus recebeu do Pai (Jo 20,21). Marcos concretiza mais a missão e diz que Jesus os chamou para estar com ele e enviá-los em missão (Mc 3,14).

Lucas 6,14-16: Os nomes dos doze apóstolos

Com pequenas diferenças os nomes dos Doze são iguais nos evangelhos de Mateus (Mt 10,2-4), Marcos (Mc 3,16-19) e Lucas (Lc 6,14-16). Grande parte destes nomes vem do Antigo Testamento: Simeão é o nome de um dos filhos do patriarca Jacó (Gn 29,33). Tiago é o mesmo que o nome de Jacó (Gn 25,26). Judas é o nome de outro filho de Jacó (Gn 35,23). Mateus também se chamava Levi (Mc 2,14), que foi outro filho de Jacó (Gn 35,23). Dos doze apóstolos sete tem nome que vem do tempo dos patriarcas: duas vezes Simão, duas vezes Tiago, duas vezes Judas, e uma vez Levi! Isto revela a sabedoria do povo. Através dos nomes dos patriarcas e das matriarcas, dados aos filhos e filhas, eles mantinham viva a tradição dos antigos e ajudavam seus filhos a não perder a identidade. Quais os nomes que nós damos hoje para os nossos filhos e filhas?

Lucas 6,17-19: Jesus desce da montanha e a multidão o procura

Ao descer da montanha com os doze, Jesus encontrou uma multidão imensa de gente que o procurava para ouvir sua palavra e tocá-lo, porque dele saía uma força de vida. Nesta multidão havia judeus e estrangeiros, pois vinham da Judéia e também lá de Tiro e Sidônia. É o povo abandonado, desorientado. Jesus acolhe a todos que o procuram. Judeus e pagãos! Aqui transparece o ecumenismo, a abertura universal da missão, tema preferido de Lucas que escreve para pagãos convertidos.

As pessoas chamadas por Jesus, consolo para nós.

Os primeiros cristãos lembraram e registraram os nomes dos Doze apóstolos e de outros homens e mulheres que seguiram Jesus de perto. Os Doze, chamadas por Jesus para formar com ele a primeira comunidade, não eram santos. Eram pessoas comuns, como todos nós, com suas virtudes e seus defeitos. Os evangelhos informam muito pouco sobre o jeito e o caráter de cada um deles. Mas o pouco que informam é motivo de consolo para nós. 

Pedro era uma pessoa generosa e entusiasta (Mc 14,29.31; Mt 14,28-29), mas na hora do perigo e da decisão, o coração dele encolhia e voltava atrás (Mt 14,30; Mc 14,66-72). Chegou a ser satanás (Mc 8,33) e pedra de tropeço (Mt 16,23). Negou Jesus na hora do perigo (Lc 22,56-62). Jesus deu a ele o apelido de Pedra . Pedro, ele por si mesmo, não era Pedra. Tornou-se pedra (rocha), porque Jesus rezou por ele (Lc 22,31-32).

Tiago e João estavam dispostos a sofrer com e por Jesus (Mc 10,39), mas eram muito violentos (Lc 9, 54). Jesus os chamou “filhos do trovão” (Mc 3,17). João parecia ter um certo ciúme, pois queria Jesus só para o grupo dele e proibiu os outros usar o nome de Jesus para expulsar demônios (Mc 9,38).

Filipe tinha um jeito acolhedor. Sabia colocar os outros em contato com Jesus (Jo 1,45-46), mas não era muito prático em resolver os problemas (Jo 12,20-22; 6,7). Às vezes, era meio ingênuo. Teve hora em que Jesus perdeu a paciência com ele: “Mas Filipe, tanto tempo que estou com vocês, e ainda não me conhece?” (Jo 14,8-9)

André, irmão de Pedro e amigo de Filipe, era mais prático. Filipe recorre a ele para resolver os problemas (Jo 12,21-22). Foi André que chamou Pedro (Jo 1,40-41), e foi André que encontrou o menino com cinco pãezinhos e dois peixes (Jo 6,8-9).

Bartolomeu parece ter sido o mesmo que Natanael. Este era bairrista e não podia admitir que algo de bom pudesse vir de Nazaré (Jo 1,46).

Tomé foi capaz de sustentar sua opinião, uma semana inteira, contra o testemunho de todos os outros (Jo 20,24-25). Mas quando viu que estava equivocado, não teve medo de reconhecer seu erro (Jo 20,26-28). Era generoso, disposto a morrer com Jesus (Jo 11,16).

Mateus ou Levi era publicano, cobrador de impostos, como Zaqueu (Mt 9,9; Lc 19,2). Os publicanos eram pessoas comprometidas com o sistema opressor da época.

Simão, ao contrário, parece ter sido do movimento que se opunha radicalmente ao sistema que o império romano impunha ao povo judeu. Por isso tinha o apelido de Zelota (Lc 6,15). O grupo dos Zelotas chegou a provocar uma revolta armada contra os romanos.

Judas era o que tomava conta do dinheiro do grupo (Jo 13,29). Ele chegou a trair Jesus.

Tiago de Alfeu e Judas Tadeu, destes dois os evangelhos nada informam a não ser o nome.

 

4) Para um confronto pessoal

1) Jesus passou a noite inteira em oração para saber a quem escolher, e escolheu estes doze! Qual a lição que você tira deste gesto de Jesus?

2) Os primeiros cristãos lembravam os nomes dos doze apóstolos que estavam na origem das suas comunidades. Você lembra dos nomes das pessoas que estão na origem da comunidade a que você pertence? Você lembra o nome de alguma catequista ou professora que foi significativa para a sua formação cristã. O que mais lembra delas: o conteúdo que lhe ensinaram ou o testemunho que deram?

 

5) Oração final

Exaltai o Senhor nosso Deus, prostrai-vos ante seu santo monte, porque santo é o Senhor, nosso Deus. (Sl 99, 9)

Igreja abre a porta para ordenar homens casados na Amazônia

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Publicado em 28 outubro 2019
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Sínodo vota a recomendar que pessoas com família possam ser padres em regiões onde os fiéis não podem receber a eucaristia

 

O sínodo sobre a Amazônia, realizado durante o mês de outubro no Vaticano, termina com uma grande novidade. Duas das grandes propostas formuladas por um grande grupo de bispos da Amazônia, a ordenação de mulheres diaconisas e homens casados em regiões onde os fiéis não podem receber a eucaristia, ganharam neste sábado um importante impulso. A assembleia de bispos, da qual participaram 185 padres sinodais com direito a voto — e um grande número de especialistas e relatores —, recomendou que em algumas regiões possa ser estudada a possibilidade de ordenar homens com família. Uma decisão que o Papa deverá aprovar, mas que representa uma abertura histórica da Igreja e coloca sobre a mesa a questão do celibato.

A assembleia de bispos realizada no Vaticano desde o início de outubro tinha como objetivo discutir a proteção do meio ambiente na Amazônia, sobre as comunidades indígenas que o povoam e, particularmente, sobre a possibilidade de ordenar mulheres e homens casados para compensar a falta de sacerdotes. Este último ponto foi votado a favor por 128 membros e contra por 41. Uma aprovação baixa com relação ao restante das propostas, mas suficiente para que o Papa deva agora estudar sua aprovação na exortação apostólica que escreverá antes do fim do ano. Quanto à questão de ordenar diaconisas, também fortemente contestada, Francisco anunciou que reativará a comissão de estudos.

A decisão do sínodo tem caráter histórico e, embora o documento afirme explicitamente que se refere apenas à questão da eucaristia, trata colateralmente de uma questão tão espinhosa quanto o celibato no catolicismo. O setor ultraconservador da Igreja já expressou nas últimas semanas sua total rejeição a essa possível abertura, considerando que entraria em choque com a doutrina católica. Seus grandes promotores, como o bispo Erwin Kräutler, insistem que isso só tem a ver com a eucaristia. No entanto, esse prelado também apontou — em uma entrevista ao EL PAÍS — que a possibilidade de ter acesso aos sacramentos está acima da “graça do celibato”.

O ponto 111 do documento votado explica assim a questão: “Propomos estabelecer critérios e disposições por parte da autoridade competente […] de ordenar sacerdotes homens idôneos e reconhecidos da comunidade, que tenham um diaconato permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiterado, podendo ter família legitimamente constituída e estável, para sustentar a vida da comunidade cristã por meio da pregação da palavra e da celebração dos sacramentos nas áreas mais remotas da região amazônica”.

A abertura, além disso, não afeta apenas a Amazônia. De acordo com o texto redigido, está escrito que “alguns se pronunciaram por uma abordagem universal do tema”. Uma nuance — “alguns” em termos do Vaticano significaria um número considerável — que amplia o horizonte da abertura e gerará um acalorado debate na Igreja nos próximos meses.

Francisco também adiantou que dotará de mais pessoal a comissão para estudar a possibilidade de ordenar diaconisas. Um órgão criado em 2016 que depois de dois anos de estudo chegou a um ponto morto sobre qual foi o papel ou se existiram as chamadas diaconisas nos primeiros anos do cristianismo. Durante esse sínodo, a necessidade de dar maior relevância à mulher na Igreja foi amplamente abordada, uma vez que nas comunidades amazônicas são essenciais para o funcionamento, como todos os participantes reconheceram. O papa disse que “recolhe a luva” lançada a ele pelas mulheres durante o sínodo para serem ouvidas.

O problema das mulheres, no entanto, é mais complicado. O diaconato permanente do sexo feminino não tinha muita chance de avançar, pois já havia sido analisado em paralelo na mencionada comissão. O caminho proposto até agora para aceitá-lo, alegando que nos primeiros tempos da Igreja havia ordenações de mulheres similares às dos homens, não goza de consenso relevante até o momento. Fonte: https://brasil.elpais.com

DOMINGO 27: AO VIVO- SANTA MISSA COM FREI PETRÔNIO, CARMELITA

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Publicado em 27 outubro 2019
  • Frei Petrônio de Miranda,
  • Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Lapa do Desterro,

AO VIVO- SANTA MISSA COM FREI PETRÔNIO DE MIRANDA, CARMELITA. Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Lapa do Desterro, Rio de Janeiro. “Muitos são católicos, se confessam católicos, mas se esqueceram de ser cristãos e humanos", Papa Francisco. Domingo, 27 de outubro-2019. www.instagram.com/freipetronio

30º Domingo do Tempo Comum - Ano C: Um Olhar Orante

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Publicado em 26 outubro 2019
  • 30º Domingo do Tempo Comum,
  • homilia do 30º Domingo do Tempo Comum,
  • Cidade de Mogi das Cruzes,

A liturgia deste domingo ensina-nos que Deus tem um "fraco" pelos humildes e pelos pobres, pelos marginalizados; e que são estes, no seu despojamento, na sua humildade, na sua finitude (e até no seu pecado), que estão mais perto da salvação, pois são os mais disponíveis para acolher o dom de Deus.

O Evangelho define a atitude correta que o crente deve assumir diante de Deus. Recusa a atitude dos orgulhosos e autossuficientes, convencidos de que a salvação é o resultado natural dos seus méritos; e propõe a atitude humilde de um pecador, que se apresenta diante de Deus de mãos vazias, mas disposto a acolher o dom de Deus. É essa atitude de "pobre" que Lucas propõe aos crentes do seu tempo e de todos os tempos.

 

EVANGELHO- ATUALIZAÇÃO (Lc 18,9-14)

 

Este texto coloca, fundamentalmente, o problema da atitude do homem face a Deus. Desautoriza completamente aqueles que se apresentam diante de Deus carregados de autossuficiência, convencidos da sua "bondade", muito certos dos seus méritos, como se pudessem ser eles a exigir algo de Deus e a ditar-Lhe as suas condições; propõe, em contrapartida, uma atitude de reconhecimento humilde dos próprios limites, uma confiança absoluta na misericórdia de Deus e uma entrega confiada nas mãos de Deus. É esta segunda atitude que somos convidados a assumir.

Este texto coloca, também, a questão da imagem de Deus... Diz-nos que Deus não é um contabilista, uma simples máquina de recompensas e de castigos, mas que é o Deus da bondade, do amor, da misericórdia, sempre disposto a derramar sobre o homem a salvação (mesmo que o homem não mereça) como puro dom. A única condição para "ser justificado" é aceitar humildemente a oferta de salvação que Ele faz.

A atitude de orgulho e de autossuficiência, a certeza de possuir qualidades e méritos em abundância, acaba por gerar o desprezo pelos irmãos. Então, criam-se barreiras de separação (de um lado os "bons", de outro os "maus"), que provocam segregação e exclusão... Isto acontece com alguma frequência nas nossas comunidades cristãs (e até em muitas comunidades religiosas). Como entender isto, à luz da parábola que Jesus hoje nos propõe?

Nos últimos séculos os homens desenvolveram, a par de uma consciência muito profunda da sua dignidade, uma consciência muito viva das suas capacidades. Isto levou-os, com frequência, à presunção da sua autossuficiência... O desenvolvimento da tecnologia, da medicina, da química, dos sistemas políticos convenceram o homem de que podia prescindir de Deus pois, por si só, podia ser feliz. Onde nos tem conduzido esta presunção? Podemos chegar à salvação, à felicidade plena, apenas pelos nossos próprios meios?

O que está no centro da parábola não é o fariseu nem o publicano. É Deus. Deus deu a Lei a Moisés, mas nunca disse que Se identificava pura e simplesmente com os preceitos jurídicos. Pelo contrário, com os profetas, não pára de dizer que é um Deus que não faz senão amar o seu povo. 

O sentido da história: Jesus não põe em causa a justiça destes homens, como não põe em causa a retidão e a generosidade do fariseu que ultrapassa as exigências da Lei; o que Jesus critica ao fariseu da parábola e, sobretudo, aos seus ouvintes é que eles desprezavam todos os outros. Ora, não se pode entrar em relação com Deus quando se manifesta desprezo em relação aos irmãos: "Aquele que diz que ama a Deus e não ama o seu irmão é um mentiroso".

*Leia a reflexão na íntegra. Clique ao lado no link- EVANGELHO DO DIA.

Quinta-feira, 24 de outubro-2019. 29ª Semana do Tempo Comum. Evangelho do dia- Lectio Divina- com Frei Carlos Mesters, Carmelita.

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Publicado em 24 outubro 2019
  • EVANGELHO DO DIA,
  • Frei Carlos Mesters,
  • LECTIO DIVINA DO EVANGELHO DO DIA,
  • Evangelho do Dia com Frei Carlos Mesters,
  • EVANGELHO DO DIA-LECTIO DIVINA,
  • REZANDO COM O EVANGELHO DO DIA,
  • 29ª Semana do Tempo Comum

1) Oração

Deus eterno e todo-poderoso, dai-nos a graça de estar sempre ao vosso dispor, e vos servir de todo o coração. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

2) Leitura do Evangelho (Lucas 12, 49-53)

49Eu vim lançar fogo à terra, e que tenho eu a desejar se ele já está aceso? 50Mas devo ser batizado num batismo; e quanto anseio até que ele se cumpra! 51Julgais que vim trazer paz à terra? Não, digo-vos, mas separação. 52Pois de ora em diante haverá numa mesma casa cinco pessoas divididas, três contra duas, e duas contra três; 53estarão divididos: o pai contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora, e a nora contra a sogra.

 

3) Reflexão

O evangelho de hoje traz algumas frases soltas de Jesus. A primeira sobre o fogo na terra só ocorre em Lucas. As outras têm frases mais ou menos paralelas em Mateus. Isto nos remete para o problema da origem da composição destes dois evangelhos que já fez correr muita tinta ao longo dos últimos dois séculos e só será resolvido plenamente quando pudermos conversar com Mateus e Lucas, depois da nossa ressurreição.

Lucas 12,49-50: Jesus veio trazer fogo sobre a terra

 "Eu vim para lançar fogo sobre a terra: e como gostaria que já estivesse aceso! Devo ser batizado com um batismo, e como estou ansioso até que isso se cumpra!”   A imagem do fogo ocorre muito na Bíblia e não tem um sentido único. Pode ser imagem de devastação e castigo e também pode ser imagem de purificação e iluminação (Is 1,25; Zc 13,9). Pode até evocar proteção como transparece em Isaías: “Se passar pelo fogo, estarei contigo” (Is 43,2). João Batista batizava com água, mas depois dele Jesus haveria de batizar pelo fogo (Lc 3,16). Aqui, a imagem do fogo é associada à ação do Espírito Santo que desceu no dia de Pentecostes  sob a imagem de línguas de fogo (At 2,2-4). Imagens e símbolos nunca têm um sentido obrigatório, totalmente definido, que não permitiria divergência. Nesse caso já não seria imagem nem símbolo. É da natureza do símbolo provocar a imaginação dos ouvintes e expectadores. Deixando liberdade aos ouvintes, a imagem do fogo combinado com a imagem do batismo indica a direção na qual Jesus quer que a gente dirija a imaginação. Batismo é associado com água e é sempre expressão de um compromisso. Em outro lugar o batismo aparece como símbolo do compromisso de Jesus com a sua paixão: “Você podem ser batizados com o batismo com que serei batizado?”. (Mc 10,38-39).

Lucas 12,51-53: Jesus veio trazer a divisão

 Jesus sempre fala em paz (Mt 5,9; Mc 9,50; Lc 1,79; 10,5; 19,38; 24,36; Jo 14,27; 16,33; 20,21.26). Então, como entender a frase do evangelho de hoje que parece dizer o contrário: “Vocês pensam que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu lhes digo, vim trazer divisão”. Esta afirmação não significa que Jesus estivesse a favor da divisão. Não! Jesus não quer a divisão. Mas o anúncio da verdade de que ele, Jesus de Nazaré, era o Messias tornou-se motivo de muita divisão entre os judeus. Dentro da mesma família ou comunidade, uns eram a favor e outros radicalmente contra. Neste sentido a Boa Nova de Jesus era realmente uma fonte de divisão, um “sinal de contradição” (Lc 2,34) ou, como dizia Jesus: “Ficarão divididos: o pai contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora, e a nora contra a sogra”. Era o que estava acontecendo, de fato, nas famílias e nas comunidades: muita divisão, muita discussão, como conseqüência do anúncio da Boa Nova entre os judeus daquela época, uns aceitando, outros negando. O mesmo vale para o anúncio da fraternidade como o valor supremo da convivência humana. Nem todos concordavam com este anúncio, pois preferiam manter seus privilégios. Por isso, não tinham medo de perseguir os que anunciavam a fraternidade e a partilha. Esta é a divisão que surgia e que está na origem da paixão e morte de Jesus. Era o que estava acontecendo. Era o julgamento em andamento. Jesus quer é a união de todos na verdade (cf. Jo 17,17-23). Até hoje é assim. Muitas vezes, lá onde a Igreja se renova, o apelo da Boa Nova se torna um “sinal de contradição” e de divisão. Pessoas que durante anos viveram acomodadas na rotina da sua vida cristã, já não querem ser incomodadas pelas “inovações” do Vaticano II. Incomodadas pelas mudanças, elas usam toda a sua inteligência para encontrar argumentos em defesa de suas opiniões e para condenar as mudanças como contrárias ao que elas pensam ser a verdadeira fé.  

 

4) Para um confronto pessoal

1) Buscando a união, Jesus era causa de divisão. Isto já aconteceu com você?

2) Diante das mudanças na Igreja, como me situo?

 

5) Oração final

Exultai no Senhor, ó justos, pois aos retos convém o louvor. Celebrai o Senhor com a cítara, entoai-lhe hinos na harpa de dez cordas. (Sl 33, 1-2)

Papa Francisco tem o seu próprio ''Sínodo do Cadáver''

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Publicado em 23 outubro 2019
  • Papa Francisco,
  • Sínodo para a Amazônia

O Papa Francisco investiu os sínodos dos bispos com uma relevância que não se via há séculos, então talvez seja justo que ele tenha agora a sua própria versão da mais renomada cúpula de todas, o infame “Sínodo do Cadáver”, do ano 897. A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada em Crux, 22-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Acredite-se ou não, a principal manchete da ação dessa segunda-feira no Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, que ocorre entre os dias 6 e 27 de outubro, envolveu um vídeo de dois homens que roubaram estátuas indígenas que representavam uma mulher grávida nua que estava em exibição em uma igreja romana e depois, um por um, jogaram pedaços quebrados das imagens no Rio Tibre, em frente à fortaleza papal de Castel Sant’Angelo.

Até o momento em que este texto foi escrito, cerca de 115.000 pessoas haviam assistido ao vídeo do incidente no Youtube.

O porta-voz vaticano, o leigo italiano Paolo Ruffini, disse em resposta aos repórteres na segunda-feira que o furto e a destruição das estátuas eram “um ato de desafio” e um “golpe” que era “contra o espírito de diálogo”, enquanto o padre jesuíta italiano Giacomo Costa acrescentou que “roubar objetos nunca é construtivo”.

Na terça-feira, os participantes indígenas do Sínodo da Amazônia divulgaram uma declaração, denunciando o incidente por refletir “a intolerância religiosa, o racismo, atitudes vexatórias, que (...) demonstram uma resposta negativa para construir novos caminhos para a renovação da nossa Igreja”. Eles também alertaram que “esses atos podem se repetir ou subir o tom, e gerar efeitos maiores”.

O incidente ocorreu em meio a uma onda constante de críticas por parte de meios de comunicação católicos tradicionalistas, que definiram a estátua – que apareceu durante uma cerimônia de oração envolvendo o Papa Francisco, no Vaticano no dia 4 de outubro, bem como na procissão de abertura do Sínodo –como uma imagem pagã e sugerindo que sua presença em espaços e ritos católicos equivalia a sacrilégio.

Como disse uma vez o falecido cardeal Francis George, tudo na Igreja Católica já ocorreu pelo menos uma vez. De fato, existe um precedente para a mise-en-scène dessa segunda-feira, envolvendo não o fato de lançar uma estátua no Tibre, mas sim um papa.

Le Pape Formose et Étienne VII (“O Papa Formoso e Estevão VII”), óleo sobre tela, Jean-Paul Laurens, 1870 (Credit: Stock image/Crux)

Em 896, um novo pontífice chamado Estevão VI chegou ao poder sob o patrocínio da influente família Spoleto de Roma. O clã ainda mantinha um antigo rancor contra um papa anterior, Formoso, que havia apoiado seus rivais carolíngios como Sacro Imperador Romano.

Foi assim que, um ano depois, Estevão ordenou que os restos de Formoso fossem desenterrados e postos sob julgamento. O cadáver foi colocado em um trono durante os procedimentos, e um diácono foi até nomeado para falar em sua defesa – embora, como observam os historiadores, não de um modo muito agressivo.

Estevão acusou Formoso de várias formas de heresia e usurpação, e o falecido pontífice foi obedientemente considerado culpado. Seu papado foi declarado nulo, três dedos da mão direita usados para administrar as bênçãos foram cortados, e seus restos mortais foram jogados sem qualquer cerimônia no Tibre, de acordo com o antigo costume romano, quando o objetivo é uma damnatio memoriae, obliterando até mesmo a memória de um inimigo derrotado.

Sem dúvida, existem diferenças entre 1.100 anos atrás e a última segunda-feira.

Por um lado, ninguém jogou o papa no Tibre desta vez, embora esse contraste possa ser menos significativo do que pareça. Obviamente, as pessoas por trás do minidrama dessa segunda-feira viam as estátuas como símbolos daquilo que eles não gostam no Papa Francisco – o fato de ele abraçar as culturas e crenças não cristãs, sua agenda “terceiro-mundista” e progressista, sua indiferença à costumeira pompa e circunstância do rito tradicional, e assim por diante.

Em outras palavras, se aqueles dois homens tivessem a opção de jogar o próprio Francisco no rio, eles o teriam feito. As estátuas foram simplesmente o mais próximo que elas realmente puderam chegar.

Talvez a diferença mais relevante seja que o que aconteceu em 897 não foi realmente um “sínodo”, mesmo que Estevão tenha obrigado um punhado de prelados a estarem presentes para dar uma certa credibilidade superficial aos procedimentos. No máximo, o que aconteceu poderia ser chamado de um julgamento eclesiástico, embora isso seja exagerado.

Na realidade, foi apenas uma farsa realizada para conseguir alguns pontos políticos baratos – o que, pensando bem, talvez sugira que isso não foi tão diferente do que aconteceu na segunda-feira.

O que resta saber é se as consequências da ação dessa segunda-feira terão alguma semelhança com o que aconteceu com o Papa Estevão depois do Sínodo do Cadáver.

Todo o caso azedou a opinião pública sobre o novo papa, e começaram a surgir rumores de que o corpo de Formoso havia chegado às margens do Tibre com o poder de realizar milagres. Uma revolta popular levou à prisão de Estevão, e ele foi estrangulado até a morte na prisão, apenas seis meses depois.

Provavelmente, ninguém vai estrangular os homens que roubaram as estátuas na segunda-feira – embora algumas discussões acaloradas no Twitter indiquem que existem pelo menos algumas almas capazes disso por aí. No entanto, veremos se o ato, no entanto, se voltará contra os especialistas e os meios de comunicação que levaram as pessoas a um frenesi, oferecendo uma espécie de reductio ad absurdum teatral sobre todo o debate.

Enquanto isso, o Sínodo da Amazônia seguirá em frente, produzindo presumivelmente um conjunto de recomendações ao Papa Francisco que podem fornecer o esboço para uma nova abordagem pastoral para a maior floresta tropical do mundo. É um assunto sério, sendo conduzido por pessoas que levam a sério aquilo que está em jogo.

Não obstante, daqui a alguns anos, o que as pessoas realmente podem se lembrar desse sínodo não serão as suas conclusões, mas o seu cadáver... o que, se você pensar bem a respeito, é praticamente o oposto daquilo que uma damnatio memoriae bem executada supostamente deve fazer. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

Quarta-feira, 23 de outubro-2019. 29ª Semana do Tempo Comum. Evangelho do dia- Lectio Divina- com Frei Carlos Mesters, Carmelita.

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Publicado em 23 outubro 2019
  • Frei Carlos Mesters,
  • Jacobus Gerardus Hubertus Mesters,
  • LECTIO DIVINA DO EVANGELHO DO DIA,
  • Lectio Divina com Frei Carlos Mesters,
  • 29ª Semana do Tempo Comum

1) Oração

Deus eterno e todo-poderoso, dai-nos a graça de estar sempre ao vosso dispor, e vos servir de todo o coração. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

2) Leitura do Evangelho (Lucas 12, 39-48)

39Sabei, porém, isto: se o senhor soubesse a que hora viria o ladrão, vigiaria sem dúvida e não deixaria forçar a sua casa. 40Estai, pois, preparados, porque, à hora em que não pensais, virá o Filho do Homem. 41Disse-lhe Pedro: Senhor, propões esta parábola só a nós ou também a todos? 42O Senhor replicou: Qual é o administrador sábio e fiel que o senhor estabelecerá sobre os seus operários para lhes dar a seu tempo a sua medida de trigo? 43Feliz daquele servo que o senhor achar procedendo assim, quando vier! 44Em verdade vos digo: confiar-lhe-á todos os seus bens. 45Mas, se o tal administrador imaginar consigo: Meu senhor tardará a vir, e começar a espancar os servos e as servas, a comer, a beber e a embriagar-se, 46o senhor daquele servo virá no dia em que não o esperar e na hora em que ele não pensar, e o despedirá e o mandará ao destino dos infiéis. 47O servo que, apesar de conhecer a vontade de seu senhor, nada preparou e lhe desobedeceu será açoitado com numerosos golpes. 48Mas aquele que, ignorando a vontade de seu senhor, fizer coisas repreensíveis será açoitado com poucos golpes. Porque, a quem muito se deu, muito se exigirá. Quanto mais se confiar a alguém, dele mais se há de exigir.

 

3) Reflexão   Lucas 12,39-48

O evangelho de hoje traz novamente uma exortação à vigilância com outras duas parábolas. Ontem, a parábola era de patrão e empregado (Lc 12,36-38). Hoje, a primeira parábola é do dono de casa e do ladrão (Lc 12,39-40) e a outra fala do proprietário e do administrador (Lc 12,41-47). 

Lucas 12,39-40: A parábola do dono da casa e do ladrão

“Fiquem certos: se o dono da casa soubesse a hora em que o ladrão iria chegar, não deixaria que lhe arrombasse a casa. Vocês também estejam preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que vocês menos esperarem”.  Assim como o dono da casa não sabe a que hora chega o ladrão, assim ninguém sabe a hora da chegada do Filho do Homem. Jesus deixa bem claro: "Quanto a esse dia e essa hora, ninguém sabe nada, nem os anjos, nem o Filho, mas somente o Pai!" (Mc 13,32). Hoje, muita gente vive preocupada com o fim do mundo. Nas ruas das cidades, se vê escrito nas paredes: Jesus voltará!  Teve até gente que, angustiada com a proximidade do fim do mundo, chegou a cometer suicídio. Mas o tempo passa e o fim não chega! Muitas vezes, a afirmação “Jesus voltará” é usada para meter medo nas pessoas e obrigá-las a freqüentar uma determinada igreja! De tanto esperar e especular em torno da vinda de Jesus, muita gente já nem percebe mais a presença dele no meio de nós, nas coisas mais comuns da vida, nos fatos do dia-a-dia. Pois o que importa mesmo não é saber a hora do fim deste mundo, mas sim ter um olhar capaz de perceber a vinda de Jesus já presente no meio de nós na pessoa do pobre (cf Mt 25,40) e em tantos outros modos e acontecimentos da vida de cada dia.

Lucas 12,41: A pergunta de Pedro

“Então Pedro disse a Jesus: "Senhor, estás contando essa parábola só para nós, ou para todos?"  Não se vê bem o porquê desta pergunta de Pedro. Ela evoca um outro episódio, no qual Jesus respondeu a uma pergunta semelhante dizendo: “A vocês é dado conhecer o mistério do Reino de Deus, mas aos outros tudo é dado a conhecer em parábolas”  (Mt 13,10-11; Lc 8,9-10).

Lucas 12,42-48ª: A parábola do proprietário e do administrador

Na resposta à pergunta de Pedro Jesus formula uma outra pergunta em forma de parábola: "Quem é o administrador fiel e prudente, que o senhor coloca à frente do pessoal de sua casa, para dar a comida a todos na hora certa?”  Logo em seguida, o Jesus mesmo, na própria parábola, já dá a resposta: bom administrador é aquele que cumpre sua missão de servidor, nunca usa os bens recebidos em proveito próprio, e está sempre vigilante e atento. Talvez seja uma resposta indireta à pergunta de Pedro, como se dissesse: “Pedro, a parábola é realmente para você! É para você saber administrar bem a missão que Deus lhe deu como coordenador das comunidades. Neste sentido, a resposta vale também para cada um de nós. E aí toma muito sentido a advertência final: “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido”.

A chegada do Filho do Homem e o fim deste mundo

A mesma problemática havia nas comunidades cristãs dos primeiros séculos. Muita gente das comunidades dizia que o fim deste mundo estava perto e que Jesus voltaria logo. Alguns da comunidade de Tessalônica na Grécia, apoiando-se na pregação de Paulo, diziam: “Jesus vai voltar logo!” (1 Tes 4,13-18; 2 Tes 2,2). Por isso, havia até pessoas que já não trabalhavam, porque achavam que a vinda fosse coisa de poucos dias ou semanas. Trabalhar para que, se Jesus ia voltar logo? (cf 2Ts 3,11). Paulo responde que não era tão simples como eles imaginavam. E aos que já não trabalhavam avisava: “Quem não quiser trabalhar não tem direito de comer!” Outros ficavam só olhando o céu, aguardando o retorno de Jesus sobre as nuvens (cf At 1,11). Outros reclamavam da demora (2Pd 3,4-9). Em geral, os cristãos viviam na expectativa da vinda iminente de Jesus. Jesus viria realizar o Juízo Final para encerrar a história injusta deste mundo cá de baixo e inaugurar a nova fase da história, a fase definitiva do Novo Céu e da Nova Terra. Achavam que isto aconteceria dentro de uma ou duas gerações. Muita gente ainda estaria viva quando Jesus fosse aparecer glorioso no céu (1Ts 4,16-17; Mc 9,1). Outros, cansados de esperar, diziam: “Ele não vai voltar nunca! (2 Pd 3,4). Até hoje, a vinda final de Jesus ainda não aconteceu! Como entender esta demora? É que já não percebemos que Jesus já voltou, já está no nosso meio: “Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo." (Mt 28,20). Ele já está do nosso lado na luta pela justiça, pela paz, pela vida. A plenitude ainda não chegou, mas uma amostra ou garantia do Reino já está no meio de nós. Por isso, aguardamos com firme esperança a libertação plena da humanidade e da natureza (Rm 8,22-25). E enquanto esperamos e lutamos, dizemos acertadamente: “Ele já está no meio de nós!” (Mt 25,40).

 

4) Para um confronto pessoal

1) A resposta de Jesus a Pedro serve também para nós, para mim. Será que sou um bom administrador, uma boa administradora  da missão que recebi?

2) Como faço para estar vigilante sempre?

 

5) Oração final

Do nascer ao pôr-do-sol seja louvado o nome do Senhor. O Senhor é excelso sobre todos os povos, mais alta que os céus é sua glória. (Sl 112, 3-4)

Vozes que desafiam. Dorothy Stang, profetisa e mártir da Amazônia

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Publicado em 22 outubro 2019
  • Biomas da Amazônia,
  • Encíclica Laudato Si’,
  • Dorothy Stang,
  • Amazônia
  • Sínodo para Amazônia
  • Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur
  • David Stang,
  • mártir da Amazônia
  • Irmã Dorothy
  • Floresta Amazônica

Por: Cleusa Maria Andreatta, Susana Rocca, Wagner Fernandes de Azevedo

Uma década antes de a encíclica Laudato Si’ ser publicada, nas terras de Anapu, na Amazônia brasileira, era “plantada em solo brasileiro” a semente de um modo de pensar, de se relacionar com o mundo, com a construção de novos valores, partindo da perspectiva de que "Deus está em todas coisas" e caminha com os desfavorecidos. Em 12 de fevereiro de 2005, a missionária estadunidense Dorothy Stang foi vítima daquilo que enfrentava: a exploração da terra e dos pobres em favor do lucro e da ganância de poucos. O seu legado ainda brota e se constitui como inspiração para o ponto de inflexão que se encontra a Igreja e todo o mundo.

Dorothy Stang nasceu em 1931, em Dayton, Ohio, Estados Unidos. Chegou ao Brasil na década de 1960, era missionária da Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur. A irmã Dorothy desempenhou seu trabalho diretamente nas comunidades amazônicas, reconhecendo a realidade marcada pela desigualdade e pelas relações construídas pela exploração da floresta e das populações empobrecidas, indígenas, ribeirinhos e trabalhadores.

Dorothy Stang foi uma religiosa fruto de uma Igreja que se faz pobre com os pobres. Em entrevista especial à IHU On-Line, David Stang, irmão de Dorothy e também missionário, relata que "nós dois tínhamos o desejo de ajudar os pobres e aqueles que tinham muito pouco, os desejos do Vaticano II de que abríssemos os nossos corações às pessoas e descobríssemos com elas as suas necessidades, tanto físicas quanto espirituais". 

Na entrevista concedida em 2009, David destacava as percepções da mística de Dorothy Stang, que antes de entrar no centro do debate da Igreja com a encíclica Laudato Si', compreendia a necessidade de uma mística associada com a ecologia. "Dorothy acreditava que o divino está em todo o lugar, que Deus nos deu esta grande terra para ser compartilhada por todos nós".

Irmã Dorothy não construiu um legado apenas místico, mas teve na sua ação pastoral uma ação transformadora. A irmã Margarida Montoja, do Comitê Dorothy Stang, que concedeu entrevista à IHU On-Line em 2011, apontou a capacidade de organização e articulação política de Dorothy:

"1. Mapeou toda área de seu interesse e andava com estes mapas sempre em sua “boroca” (sacola de pano);
2. Fez levantamento dos possíveis donos dos lotes, descobriu onde havia grilagens e denunciou aos órgãos competentes;
3. Não trabalhava sozinha;
4. Descobriu o Projeto, Plano de Desenvolvimento Sustentável – PDS, que foi elaborado pelo governo FHC. Portanto, PDS não é invenção de Dorothy, é coisa de governo, pensado por uma equipe técnica. Ela descobriu isso que estava guardadinho em algum lugar e fez o governo executá-lo;
5. Escrevia tudo que acontecia, mesmo documentos, tudo com sua letrinha trêmula de idosa, mas, “tá tudo lá registrado, pra quem quiser ver e comprovar”, até citando nomes de seus algozes com muita antecedência;
6. Informava aos interessados toda caminhada feita pelo seu povo e pelos fazendeiros e madeireiros;
7. Ia à delegacia, ao Ibama, no MPF e estadual e onde pudesse denunciar os crimes;
8. Fazia parcerias com entidades e pessoas estratégicas para suas lutas e para realizar seus sonhos;
9. Sempre se colocava ao lado do povo e do meio ambiente;
10. Andava somente com o necessário em suas viagens;
11. Conhecia muito bem o alvo de sua luta;
12. Era minuciosa em suas anotações
13. Era uma grande mística que, aliada a seu espírito de luta, fez dela uma grande mulher, soube unir ação e oração".

 

A religiosa, portanto, soube conciliar a espiritualidade e a ação política. Em uma de suas frases marcantes expressava: "Não vou fugir nem abandonar a luta desses trabalhadores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor, numa terra onde possam viver e produzir com dignidade, sem devastar". Em entrevista à IHU On-Line, o procurador Felício Pontes Júnior definiu Dorothy como o "Anjo da Amazônia". "Tudo que ela tentou estabelecer foi o desenvolvimento integral dos povos da floresta. Isso implica também na relação do homem com a natureza. Ela trouxe para a prática a Teologia da Libertação em pleno século XXI", afirmou Felício.

O reconhecimento do trabalho de Dorothy foi mundial. Nos Estados Unidos, após a sua morte, foi premiada em diversas universidades com o título honoris causa, teve proclamado o "Dia Dorothy Stang", no estado do Colorado, e recebeu o prêmio de Direitos Humanos da ONU. Em memória dos 12 anos de sua morte, o portal National Catholic Reporter publicou um editorial intitulado "Dorothy Stang. A mais rara coragem cristã". A publicação fazia referência ao envolvimento direto de Dorothy com as populações amazônicas, destacando que "Suas sementes já brotaram, é o compromisso do Brasil em acelerar os acordos de terra para locais de desenvolvimento sustentável a agricultores pobres". Anos mais tarde, padre Amaro Lopes, também em Anapu, foi preso acusado de incitar conflitos de terra na região amazônica. Amaro, em entrevista ao Portal das CEBs, em fevereiro de 2019, declarou que a irmã Dorothy "ajudou-me a entender como se vive na prática o Evangelho. Defendendo os pequenos e pequenas em qualquer situação que ameaça a sua integridade física e de sobrevivência. Para mim foi uma mãe". 

A declaração de Amaro é um exemplo do quão impossível é deter a semente que foi plantada na Amazônia brasileira com a irmã Dorothy Stang. Seus assassinos tentaram pará-la com seis tiros, em 14 de fevereiro de 2005. Embora cinco pessoas tenham sido condenadas como mandantes ou participantes do crime, hoje nenhum deles está preso. No entanto, nem Dorothy está morta. De 06 de outubro a 27 de outubro de 2019, toda luta que empenhou por três décadas na Amazônia é o centro das atenções da Igreja. Como destaca o jornalista espanhol Luis Miguel Modino: "Dorothy está viva na memória de quem continua lutando em defesa da Amazônia. Quem a matou nunca pensou que se converteria em um símbolo de novos caminhos, um legado que está sendo posto em pauta através do processo sinodal".

A série Vozes que Desafiam. Mulheres na Igreja produzida pela equipe de Teologia Pública do Instituto Humanitas Unisinos tem como objetivo recuperar e visibilizar figuras de mulheres e contribuir no reconhecimento do lugar delas na vida da Igreja. Abaixo, compartilhamos entrevistas, artigos e reportagens publicadas pelo Instituto Humanitas Unisinos que resgatam o legado profético de Dorothy Stang.

 

Irmã Dorothy: mártir, profeta, mística e santa proclamada pelo povo. Entrevista especial com David Stang

Relembrando alguns episódios de sua infância com a Irmã e sua irmã Dorothy, David Stang, em entrevista exclusiva por e-mail à página IHU On-Line, testemunha toda a admiração pela vida e pela entrega de Dorothy, derramando seu sangue “que corre nas terras brasileiras que ela tanto amou, levantando-se em nome dos que não têm direito e em nome da Floresta Amazônica”.

Ex-missionário católico no Quênia e na Tanzânia, e hoje residente no Colorado, EUA, David Stang critica ainda a justiça e alguns setores da imprensa brasileira, por seu preconceito em retratar sua irmã como uma revolucionária e traficante de armas, uma “agente norte-americana” – sem levar em consideração a sua cidadania brasileira e o seu trabalho de mais de 30 anos no Brasil – e por insultar a sua fé católica e “a bela e simples cruz católica que ela sempre trazia ao redor de seu pescoço”. E afirma que a família Stang ainda luta para que o caso seja federalizado.

Mas muito além dos limites da justiça terrena, David Stang relata a sua esperança naquilo que sua irmã, com o seu martírio, plantou na sociedade e na Igreja brasileiras. “Nós dois tínhamos o desejo de ajudar os pobres, os desejos do Vaticano II de que abríssemos os nossos corações às pessoas e descobríssemos com elas as suas necessidades”, afirma. “Ambos sentíamos o Espírito Santo dentro de nós e o Reino de Deus em nossos corações. Com a grandeza de Deus dentro de nós, não tínhamos por que ter medo”.

E é daí que surge a sua convicção em afirmar que sua Irmã Dorothy o “encorajou a estar vivo” e a dizer, sem hesitar, que Dorothy é uma mártir, uma profeta, uma mística e uma santa, tão proclamada pelo povo. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

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