UM PADRE...
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De um manuscrito medieval
Um padre deve ser, ao mesmo tempo,
pequeno e grande,
de espírito nobre, como de sangue real,
simples e espontâneo como um colono,
um herói no domínio de si,
um homem que lutou com Deus,
uma fonte de santificação,
um pecador que Deus perdoou,
senhor de seus desejos,
um servidor humilde para os tímidos e fracos,
que não se rebaixa diante dos poderosos,
mas se curva diante dos pobres, discípulos de seu senhor,
chefe de rebanho,
um mendigo de mãos largamente abertas,
um portador de inumeráveis dons,
um homem no campo de batalha,
uma mãe para confortar os doentes,
com a sabedoria da idade e a confiança de um menino,
voltado para o alto, os pés na terra,
feito para a alegria, experimentado no sofrimento,
longe de toda a inveja, que vê longe,
que fala com franqueza,
um inimigo da preguiça, sempre fiel,
tão diferente de mim
RETIRO DO PAPA: Nona Meditação: Escutar a sede das periferias
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Na nona reflexão proposta ao Papa Francisco e à Cúria romana, o padre Tolentino recordou que as periferias “não são somente lugares físicos, são também pontos internos da nossa existência, são lugares da alma que têm necessidade de serem pastoreados”.
Cidade do Vaticano
A periferia está no DNA do cristão e é um horizonte no qual a Igreja deve redescobrir-se. Com estas palavras o padre José Tolentino Mendonça iniciou sua reflexão na tarde desta quinta-feira. “Onde está o meu irmão?”. A partir desta pergunta de Deus contida no Livro de Gênesis, nasce a nona reflexão dos Exercícios Espirituais ao Papa e à Cúria, dedicada ao tema “escutar a sede das periferias”.
O convite do sacerdote português é o de “olhar com olhos bem abertos a realidade do mundo ao nosso redor” e de procurar o nosso irmão entre os pobres e os últimos do mundo, não separando a “sede espiritual” da “sede literal”.
“ Um dos critérios para entender o que é “centro” e o que é “periferia” no mundo, é de fato o acesso à água, direito inalienável da pessoa. ”
Como já afirmado na Laudato Si e reiterado pelos dados das organizações internacionais, três pessoas em cada dez, ou seja, cerca de 2 bilhões de seres humanos, não têm a possibilidade de desfrutar de água potável.
Uma multidão literalmente sedenta, diante da qual se “torna urgente adotar uma autêntica conversão de estilos de vida e do coração”, “que vá em direção contrária à cultura do descarte e da desigualdade social”. Enquanto os países ricos desperdiçam os seus recursos, de fato, “os outros vivem no suplício”.
Jesus “homem periférico”
Neste contexto, “a Igreja não deve ter medo de ser profética e de colocar o dedo na chaga” e não pode que não confrontar-se com as periferias do mundo. “Um discípulo de Jesus deve saber disto com convicção”, antes de tudo porque “o próprio Jesus é um homem de periferia”.
Não era cidadão romano, nem fazia parte da elite judaica, nasceu na periferia da Judeia, por sua vez periferia de Israel e do Império. E se dirige às periferias, dando dignidade aos doentes, oprimidos, pobres, estrangeiros e pecadores:
“ A periferia está no DNA do cristão, o aproxima de seu contexto originário, mas também ao seu programa. É uma chave indispensável para a sua hermenêutica espiritual e existencial. Em todas as épocas permanecerá, para a experiência cristã, o lugar privilegiado onde encontrar e reencontrar Jesus. ”
O próprio cristianismo é depois, pela sua natureza, uma “realidade periférica”.
Vitalidade do projeto cristão está nas periferias
Pode-se ver isto concretamente onde os centros das cidades tornaram-se “um polo de atividades burocráticas e comerciais” e “uma vitrine do passado” para os turistas, enquanto “a vitalidade do projeto cristão se joga nas periferias”, “onde frequentemente não há nem mesmo a presença de uma igreja de alvenaria e onde tudo é mais precário, rarefeito, improvisado”.
“ Para a Igreja, a periferia é portanto um horizonte e não um problema e é onde pode sair de si mesma e redescobrir-se. ”
A escolha do encontro com as periferias não é unicamente um imperativo da caridade, é uma mobilização histórica e geográfica, que consente o encontro com aquilo que o cristianismo foi e com aquilo que ele é. Também as periferias da Igreja têm sede: de serem ouvidas.
Como advertia São João Crisóstomo, a Igreja deve evitar o “terrível cisma” entre “o que separa o sacramento do altar, do sacramento do irmão, o que perigosamente dissocia o sacramento da eucaristia do sacramento do pobre”.
Periferias como lugares da alma
As periferias existenciais, todavia, não são somente econômicas, conclui padre Mendonça, “e sabemos todos como entre nós e quem está ao nosso lado, existem frequentemente distâncias infinitas a serem abraçadas e vencidas”.
Por isto a humanidade deve ser abraçada, e mesmo que não consigamos impedir as lágrimas no rosto do próximo, podemos oferecer a ele um lenço e dizer “estou aqui”, “não estás sozinho”.
As periferias, de fato, “não são somente lugares físicos, são também pontos internos da nossa existência, são lugares da alma que têm necessidade de serem pastoreados”. Fonte: http://www.vaticannews.va
*Naquele túmulo: Homenagem ao 1º Ano de Falecimento do meu pai.
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Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita e Jornalista.
Convento do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro. 3 de novembro-2017.
Naquele túmulo frio
Descansa um homem que em vida aqueceu vidas
Naquele túmulo prisioneiro de corpos
Descansa um homem que libertou vidas
Naquele túmulo escuro e cinzento
Descansa um homem que iluminou uma família
Se ele é santo? É sim, senhor!
Naquele túmulo com o lenho da cruz
Descansa um homem temente a Deus
Naquele túmulo simples
Descansa um homem que valorizou as pequenas coisas
Naquele túmulo silencioso
Descansa um homem que valorizou as palavras
Se ele é santo? É sim, senhor!
Naquele túmulo de ossos e lagrimas
Descansa um justo que fez da justiça o seu hino
Naquele túmulo de terra e barro
Descansa um agricultor que da terra tirou o seu ganha pão
Naquele túmulo de fétidas carnes
Descansa um homem que, com suor e lagrimas, uniu uma família
Se ele é santo? É sim, senhor!
Naquele túmulo simples
Descansa um homem que valorizou as pequenas coisas
Naquele túmulo com pedras e terra
Descansa um homem que abriu caminhos
Naquele túmulo de mistério incompreensível
Descansa um homem que foi um livro aberto
Se ele é santo? É sim, senhor!
Naquele túmulo sem brilho e sem cor
Descansa um homem que deu cores a vida
Naquele túmulo impenetrável
Descansa um homem misericordioso, atencioso e amigo
Naquele túmulo símbolo do desengano da vida
Descansa um homem que fez da vida um canto de louvor
Se ele é santo? É sim, senhor!
Naquele túmulo expressão do nada
Descansa um homem que fez tudo por todos
Naquele túmulo berço sepulcral
Descansa um homem que cativou vidas com um sorriso
Naquele túmulo de silêncio perpétuo
Descansa um homem silencioso, atencioso e sincero
Se ele é santo? É sim, senhor!
O seu nome é Manoel Artur de Miranda.
*Manoel Artur de Miranda (*15/10/1930 + 03/11/2016)
OLHAR O PASSADO COM OS PÉS NO PRESENTE: Capítulo.
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OLHAR O PASSADO COM OS PÉS NO PRESENTE: Capítulo. por olharjornalistico
FREI PETRÔNIO DE MIRANDA NA RÁDIO VATICANA: Entrevista.
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Cidade do Vaticano (RV) - A Ordem Carmelita é uma ordem que surgiu no final do século XI, na região do Monte Carmelo, na Palestina. Homens e mulheres de oração, os membros da Ordem são religiosos/as e leigos/as contemplativos. Definem sua missão como “Seguir Jesus Cristo, na Contemplação, na Fraternidade e na Missão Profética, inspirando-se em Elias e Maria, um mundo em transformação, a serviço da Vida e da Esperança”. Mas as obras sociais não ficam de lado.
O Frei Petrônio Miranda, que leva em peregrinação neste Ano Eliano Missionário a imagem do Profeta Elias, ressalta o trabalho da Associação São Martinho, entidade filantrópica que atua desde 1984 na área da infância e juventude no Rio de Janeiro. Ouça a entrevista.
Clique aqui:
http://br.radiovaticana.va/news/2016/07/29/carmelitas_contempla%C3%A7%C3%A3o_e_obras_sociais/1238138
Três jornalistas mortos no sul do Líbano: aumenta a tensão com ataques à imprensa
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Ataque contra equipe libanesa identificada ocorre em meio à escalada do conflito com o Hezbollah; casos recentes indicam aumento da violência contra profissionais de imprensa na região.
Matheus Macedo - Vatican News
Um ataque aéreo israelense contra um veículo de imprensa identificado causou a morte de três jornalistas no sul do Líbano no último sábado (28/03). De acordo com emissoras libanesas, os profissionais foram atingidos enquanto cobriam a guerra entre Israel e o Hezbollah.
A emissora pan-árabe Al-Mayadeen, sediada em Beirute, informou que a repórter Fatima Ftouni e seu irmão Mohammed, cinegrafista, haviam acabado de entrar ao vivo quando ocorreu o ataque, no distrito de Jezzine, no sul do país. O terceiro jornalista morto foi Ali Shuaib, da Al-Manar TV, um conhecido correspondente de guerra que cobria a região havia quase três décadas. Segundo a Al Jazeera, outros jornalistas ficaram feridos no ataque, e um paramédico morreu. Ambulâncias também teriam sido alvo.
O Exército israelense reconheceu o ataque, afirmando que tinha como alvo Shuaib, acusado de ser um agente de inteligência do Hezbollah. Segundo os militares, ele estaria “operando sistematicamente para expor a localização de soldados israelenses” na região. Também foi acusado de manter contato com militantes e incitar ataques contra tropas e civis israelenses, sem que fossem apresentadas provas. Os outros dois jornalistas mortos não foram mencionados no comunicado.
Desta o inicio do conflito em Gaza mais de 270 jornalistas foram mortos.
Fatima Ftouni já havia relatado, ao vivo, no início do mês, que a guerra atingira sua própria família: seu tio e outros parentes morreram em um ataque israelense. Desde o início do conflito no Líbano, a Al-Mayadeen perdeu seis jornalistas.
De acordo com o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), 2025 registrou um recorde global de 129 jornalistas mortos, o maior número em mais de 30 anos de monitoramento, sendo Israel responsável por dois terços desses casos.
O presidente do Líbano, Joseph Aoun, afirmou que Israel violou “as regras mais básicas do direito internacional” ao atacar civis no exercício da profissão. Ele classificou o episódio como “um crime flagrante”. O primeiro-ministro Nawaf Salam também condenou o ataque, chamando-o de “violação evidente do direito internacional humanitário”.
Pressão sobre jornalistas também na Cisjordânia
Nesta segunda-feira (30/03), segundo a Agência France-Presse (AFP), o Exército israelense anunciou a suspensão de um batalhão da reserva após a agressão e detenção de uma equipe da emissora estadunidense CNN na Cisjordânia ocupada.
De acordo com a Associação da Imprensa Estrangeira (FPA), o caso ocorreu na quinta-feira (26/03), quando jornalistas cobriam um ataque de colonos e a instalação de um posto avançado próximo à vila palestina de Tayasir.
Mesmo claramente identificados, os profissionais e civis palestinos foram ameaçados por soldados, que apontaram armas e ordenaram a interrupção das filmagens.
“Um soldado se aproximou por trás do fotojornalista da CNN, agarrou-o pelo pescoço, derrubou-o e danificou seu equipamento. A equipe, assim como outros palestinos, foi detida por cerca de duas horas, sendo deliberadamente impedida de trabalhar”, afirmou a FPA, que classificou o episódio como um “ataque direto” à liberdade de imprensa.
Em comunicado, o Exército israelense informou que o batalhão será suspenso e passará por investigação, afirmando que os atos “não representam” a instituição e contrariam seus padrões.
Organizações de direitos humanos denunciam que jornalistas na Cisjordânia têm sido repetidamente detidos, assediados ou agredidos, com aumento significativo desde o início da guerra em Gaza. Segundo a AFP, embora estrangeiros sejam menos visados, soldados frequentemente apontam armas contra profissionais da imprensa em postos de controle ou áreas de cobertura. Fonte: https://www.vaticannews.va
'Temos que olhar a morte de cima': Fernanda Montenegro se prepara para encenar no teatro clássico sobre a velhice
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Aos 96 anos, atriz lança a comédia 'Velhos Bandidos'
Veterana planeja leitura de Cícero nos teatros do país

Fernanda Montenegro em cena do filme 'Velhos Bandidos' - Laura Campanella/Divulgação
BBC News Brasil
Aos 96 anos, Fernanda Montenegro está vivíssima. Na próxima semana, lança a comédia "Velhos Bandidos"; no próximo semestre, a série "Emergência 53", sobre o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, o Samu; e ainda planeja uma turnê pelos teatros do país todo com monólogos de seus autores favoritos.
A atriz não caracteriza nenhum desses projetos como despedida —dos cinemas, da televisão ou dos palcos—, um chamariz publicitário recorrente em projetos de artistas de sua idade.
Não quer se despedir do público, afinal. Mas nem por isso deixa de refletir sobre a morte —agora, em diálogo com o filósofo romano Cícero e seu texto clássico "Sobre a Velhice", que pretende levar à cena.
"Ele tem uma visão sobre a velhice e a morte extremamente corajosa. É de se ler, na minha idade. Tem uma frase que está me tocando muito: nós temos que olhar a morte de cima", ela diz. "Pensei: acho que vou ler este homem no teatro para me ajudar a entender a partida."
Em entrevista à BBC News Brasil por videoconferência, a atriz reflete ainda sobre a presença do Brasil no Oscar, o teatro, o cinema e a política brasileira.
"Vem aí uma proposta de um possível governo estrangulador. É preciso pensar duas vezes se é melhor um governo que talvez não tenha sido tão amplo —talvez porque não tenha podido ser— ou cair nas mãos de um perigo de vida ou morte."
Seu projeto mais recente, "Velhos Bandidos", é uma comédia dirigida pelo filho, Claudio Torres, na qual interpreta, ao lado de Ary Fontoura, um casal que planeja assaltar um banco para reaver um dinheiro que lhes era devido. O filme estreia nos cinemas na próxima quinta-feira (25).
Já pelo título, "Velhos Bandidos" sugere um tom de humor. Como é possível fazer comédia com personagens idosos sem cair em estereótipos preconceituosos?
Isso depende do diretor e do roteirista, no caso o Claudio Torres. Ele tem um humor especial. Não é de fazer cócegas debaixo das axilas. Tem sempre uma certa justiça social, apesar da bandidagem. Os personagens só têm uma saída: a bandidagem.
O Brasil nunca esteve tão presente no Oscar, e não há como falar disso sem lembrar que a senhora foi a primeira brasileira indicada na área de atuação. Existe até hoje uma indignação do público pela derrota para Gwyneth Paltrow. Como a senhora vê essa reação?
Não é derrota. Ao ser nomeado, você passa a fazer parte de uma corte, de uma aristocracia, dos iluminados. Só sendo nomeado seu valor como artista, economicamente, vai às alturas. Às vezes, no Brasil, parece que perdeu a vida, não é mais ninguém. Como? Se o filme é nomeado ao Oscar, ele já está na aristocracia cinematográfica.
Como a senhora vê o clima de Copa do Mundo que tomou os brasileiros no Oscar?
Nós merecemos, sabe? Não há investimento no processo da criação cultural. É um esforço da nossa vocação. Nosso cinema tem uma linguagem e uma estrutura que, mesmo sem bilhões de dólares, não deixa de existir, de ter público e de ser reconhecido além-fronteira. Você às vezes não pode fazer plano e contra plano, de cupar como é clássico em qualquer filmagem de qualidade, porque isso significa mais investimento, então a gente vai como pode —e vai bem.
Depois do desmonte do Ministério da Cultura no último governo, como a senhora avalia a política cultural atual do Brasil?
É uma hora complexa. Se a gente começar a falar do que não está sendo atendido no país... A gente está sempre esperando que haja um prato de comida, um socorro educacional e cultural e o atendimento à saúde. Sempre faltou essa configuração ser atendida na dimensão que poderia ter sido.
Sempre que acaba um governo e outro se propõe —ou que o mesmo se repropõe—, você tem que fazer um levantamento do que chegou de verdade a levantar o país. Mas só se trabalha muito no ano que precede a eleição. Estou fazendo uma avaliação geral. É uma cultura política brasileira.
Vem aí uma proposta de um possível governo estrangulador. É preciso pensar duas vezes se é melhor um governo que talvez não tenha sido tão amplo —talvez porque não tenha podido ser— ou cair nas mãos de um perigo de vida ou morte.
Em paralelo ao filme, a senhora planeja uma turnê pelos palcos do Brasil e costuma dizer que o teatro é sua casa. O que ele oferece que o cinema e a TV não conseguem proporcionar?
Comunhão física. Você prepara alguém dentro de você —um personagem—, trabalha com um elenco, ou na solidão de um monólogo, e leva esta criação para o próximo, que tem que sair de casa, tomar uma condução, entrar em um espaço, esperar, e quase sempre pagando. Isso ainda existe muito e não vai acabar nunca. Não há nada mais humanizado do que o teatro, porque tudo na vida é uma ação teatral. Tudo é uma ponte com o próximo. Há uma necessidade do ser humano com o outro. Mesmo numa pré-guerra mundial como a que está acontecendo.
E a senhora quer ir para o Brasil inteiro com o teatro, certo?
Fisicamente eu já andei melhor, já vi melhor, já ouvi melhor. A digestão já se faz com mais facilidade. Toda a estrutura cerebral já tem lá seus buraquinhos. Mas, por um milagre —que eu não quero saber como nem porque—, acordo e canto. Enquanto der.
Tem algum papel que ainda não fez, um sonho que não se realizou?
Não sei se devo falar ou não. Eu tenho na cabeça alguns referenciais culturais fundamentais, mas o que está vindo é Cícero, o filósofo romano, porque ele tem uma visão sobre a velhice e a morte extremamente corajosa. É de se ler, na minha idade. Tem uma frase que está me tocando muito: nós temos que olhar a morte de cima.
O que é olhar a morte de cima?
A gente tem que olhá-la de cima porque, quanto mais você vive, mais mortes vê. Viver muito é também uma perda imensa. Temos que ter a esperança de que ninguém que pertença a nós, principalmente herdeiros do nosso sangue, venha a faltar. Quando li essa frase do Cícero, nessa minha hora, pensei: acho que vou ler este homem no teatro para me ajudar a entender a partida.
A senhora disse, na coletiva de imprensa de "Velhos Bandidos", que não tem mais futuro. O que quis dizer com isso?
Cada dia, nessa minha hora de vida... Eu caminho para cem anos, gente. O que eu falo é de sobrevivente, no melhor sentido do termo. Quando falo que não tenho futuro, é que preciso viver o presente. Só vivendo o presente que a gente fica vivo para talvez chegar ao futuro. Acordou, cantou, entendeu? Essa frase eu digo para mim mesma a vida inteira. Porque se não acordar, não canta.
Pensa em se aposentar?
Não tenho mais resistência física para enfrentar o teatro. Você tem que chegar lá e dar conta, através de seu físico, de sua cabeça, de seu sentimento, todo dia, às tantas horas, aos fins de semana. Mas tem o público. Por causa daquela palavra que é necessária. A fala de Simone de Beauvoir, que fiz para 15 mil pessoas no parque Ibirapuera, ainda é uma coordenada fundamental, como também a de Nelson Rodrigues, que é um memorialista sobre tudo, sobre o que é o Brasil.
Como foi gravar 'Velhos Bandidos' com tantos colegas?
Tem uma transcendência. Meus filhos souberam o que é viver com a presença de atores desde que nasceram. Em "Velhos Bandidos", Claudio foi buscar uma geração que vai de 60 a quase 100, em um conjunto de contemporâneos de quem ele ouviu falar, viu em cena e viu dentro de casa. Ele faz os velhos bandidos se reencontrarem. Salvos e até comendo três vezes por dia. Sobreviventes. É de uma sensibilidade muito grande.
Não estou justificando a bandidagem desses personagens, porque é uma bandidagem que não é bandidagem. A gente está vivendo um momento em que a estrutura governamental está na mão do crime. Não estamos vivendo isso no Brasil? Está todo o mundo esperando para ver qual será a saída de uma justiça em cima dessa criminalidade. São os verdadeiros bandidos.
Acho que já falei até demais. Tem muita coisa aí para acontecer em torno do meu ato profissional. É acordar e cantar. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
Eles se amaram em Auschwitz e só se reencontraram 70 anos depois. Agora, um livro conta sua história
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Eles se amaram em Auschwitz e só se reencontraram 70 anos depois. Agora, um livro conta sua história
A jornalista Keren Blankfeld, americana nascida no Brasil, país para onde seus avós emigraram após a Segunda Guerra Mundial, relata a improvável história de David e Zippi e seu emocionante reencontro antes da morte
Helen Zipora Spitzer, apelidada de Zippi, e David Wisnia em fotos do livro 'Eles Se Amaram em Auschwitz'. Foto: Serjão Carvalho/Estadão
Por Julia Queiroz
A jornalista Keren Blankfeld acabara de ouvir a impressionante história de David Wisnia. Judeu sobrevivente do Holocausto, ele perdeu a família, passou anos no campo de concentração de Auschwitz, conseguiu fugir e foi resgatado pelo exército americano. Ela estava prestes a deixar o apartamento de David, achando que já tinha uma história completa em mãos, quando ele acrescentou: " Ah, e eu tinha uma namorada que eu conheci em Auschwitz".
Keren pausou, tirou o casaco e sentou-se novamente. “Como assim namorada? Eu não conheço muitas histórias de Auschwitz, mas eu sei que não era um lugar onde estava tendo namoro”, disse ela. David jurou que era verdade, que era uma mulher muito especial, uma designer gráfica. Keren ficou nervosa. O homem já tinha lá seus 90 anos. Será que estava se confundindo?
Mas era verdade. “Ele me mostrou um livro que foi escrito sobre ela pelo Museu do Holocausto de Washington. Vários historiadores a entrevistaram. Existia até um livro sobre como ela conseguiu sobreviver lá ajudando os nazistas enquanto era prisioneira”, diz a jornalista.
A mulher era Helen Zipora Spitzer, apelidada de Zippi, e ela era realmente tudo aquilo: nascida na Eslováquia, havia estudado artes gráficas em uma época em que isso ainda era raro. Ao ser capturada pelos nazistas e levada para Auschwitz, começou a prestar serviços no campo, como pintar uniformes, cartazes e listas.
Lá, conheceu David. Se apaixonaram. “Ela era uma mulher superinteressante, forte, sete anos mais velha do que ele. Uma mulher que sabia o que queria e ia atrás”, descreve Keren. O relacionamento floresceu em segredo, mas não sobreviveu à separação. Depois da guerra, foi preciso mais de 70 anos para que eles se reencontrassem.
Agora, essa história é contada em detalhes no livro Eles Se Amaram em Auschwitz, escrito por Keren Blankfeld e publicado no Brasil pela editora Planeta, com tradução de Wélida Muniz.
Herança de família
Para a autora, a vontade de escrever sobre sobreviventes do Holocausto também era uma vontade de entender melhor a própria família. Seus quatro avós eram refugiados que escaparam da Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Vieram parar aqui mesmo, em São Paulo, onde ela nasceu.
Aos 12 anos, ela e a família se mudaram para os Estados Unidos. Ela vive lá desde então. Fala um português quase perfeito, marcado por um leve sotaque. Estudou Relações Internacionais e Inglês na Universidade Tufts e Jornalismo na Universidade de Columbia (atualmente também é professora da instituição). Aos poucos, a jornalista começou a entrevistar os próprios avós para conhecer sua história.
Keren Blankfeld, autora de 'Eles se amaram em Auschwitz'. Foto: Maya Barki/Divulgação
Ela trabalhou na Forbes, onde entrevistou grandes empresários e até o presidente dos EUA, Donald Trump, antes de ele ser eleito, mas queria mesmo descobrir histórias como as de seus parentes.
“Comecei a pesquisar o que aconteceu com refugiados que vieram depois da Segunda Guerra para os EUA, numa época que era bem difícil entrar aqui, e onde eles estão agora, como é a vida deles, como se acostumaram com esse mundo diferente. Foi assim que eu descobri o David Wisnia”, explica.
Depois daquele primeiro encontro com o sobrevivente, ela sabia que tinha descoberto uma história única. A primeira apuração deu a origem a um artigo publicado em 2019 no The New York Times - na época, a reportagem também foi traduzida e publicada pelo Estadão; leia aqui. Mas Karen queria ampliar a história.
Conduziu várias entrevistas com David até o ano de 2021, quando ele morreu, aos 94 anos. Zippi, por outro lado, já havia partido quando Keren descobriu a história. Ela morreu em 2018, aos 99 anos. Foi um desafio, porque a jornalista precisava construir uma imagem dessa mulher mesmo sem conhecê-la.
“Procurei tudo o que tinha sobre ela e conversei com todos os historiadores que a conheceram”, diz. Zippi não teve filhos, mas Keren chegou a entrevistar uma sobrinha neta. Também mergulhou em centenas de documentos e relatos sobre o Holocausto que cruzavam com a história de Zippi e David, livros de memórias de outros sobreviventes, registros de jornais da época, tudo que ajudasse a construir o relato mais verdadeiro possível sobre a história do casal.
“Tem algumas partes no livro que são mais poéticas, mas mesmo essas partes são fatos. Eu não quis colocar ficção nenhuma porque eu senti que no momento que você coloca uma ‘ficçãozinha’, isso já faz o leitor questionar tudo”, afirma a escritora. Ao mesmo tempo, ela queria que a história pudesse ser lida como um romance, não como uma grande aula de história.
A autora já estava no processo de revisão do livro quando recebeu um “presente” que ajudou a criar a voz de Zippi em seu livro: uma professora universitária da Carolina do Norte havia encontrado um manuscrito escrito por Zippi. “Tinha mais de 100 páginas e ela tirou fotos de cada uma e me mandou naquele dia mesmo. Enlouqueci. Então, no fim, cheguei ter uma coisa escrita com a voz da Zippi e isso foi incrível.”
A história de Zippi e David

O livro 'Eles Se Amaram em Auschwitz', de Keren Blankfeld. Foto: Serjão Carvalho/Estadão
Zippi chegou a Auschwitz em 1942; David foi transferido para o campo poucos meses depois dela. A jovem tinha perdido a avó, sua principal figura materna, e o irmão e o noivo haviam sido capturados pelos alemães. A família de David morreu no gueto de Varsóvia.
Pela função que exercia no campo, Zippi não era uma prisioneira comum, podia se locomover mais do que outros presos. Não demorou também para que os nazistas descobrissem que David tinha um talento excepcional como cantor, o que também lhe rendeu pequenos privilégios, inclusive um trabalho em um prédio que os nazistas chamavam de “sauna”.
Foi lá que eles se viram pela primeira vez. Trocaram olhares que, aos poucos, viraram conversas. “Eles começaram a ter um caso. Se viam uma vez por mês e começou bem devagar, passando bilhetes. Era superperigoso porque eles nem podiam escrever. Se fossem pegos, seriam punidos”, explica Keren.
Em determinado momento, David e Zippi decidiram que os encontros eram perigosos demais. E combinaram que, se sobrevivessem, se encontrariam em Varsóvia após o fim da guerra.
Mas David foi enviado ao campo de Dachau - seria morto, mas conseguiu acertar um guarda com um pá e fugir. Se escondeu até ser encontrado pelo exército americano. Então foi “adotado” pelos soldados, levado aos Estados Unidos, prestando serviços para a organização. Não voltou a Varsóvia.
Zippi foi transferida para os campos de Ravensbrück e Malchow. Também conseguiu escapar: ela alterou as listras vermelhas que deveria ter pintado em seu uniforme e no de uma amiga, fugindo e se misturando entre a população local que seria transferida. Voltou a Varsóvia, esperou, mas logo percebeu que David não apareceria. Anos depois, se casou e foi morar nos Estados Unidos
O reencontro
David descobriu que Zippi estava viva por meio de amigos em comum e, ao longo dos anos, recebeu atualizações sobre ela. Ele tentou contato com ela pela primeira vez em 2006, mas foi só em 2016 que o reencontro ocorreu. Eles viviam a apenas duas horas de distância: ele em Levittown, na Pensilvânia; ela em Manhattan, em Nova York.
David foi acompanhado de dois de seus netos. Zippi vivia apenas com uma cuidadora. Para a surpresa de Keren, o encontro foi gravado pelos netos. Era a prova mais física que ela tinha da história do casal. “O neto me deu a gravação e eu ouvi eles conversando um com o outro. Foi uma coisa incrível ouvir a voz dela”, diz.
David estava nervoso. Sabia que Zippi já tinha quase 100 anos. “Ele tinha medo de não ser reconhecido. Quando eles chegaram lá, ela estava deitada e no começo não o reconheceu mesmo.” Então David se aproximou e falou: “Zippi, sou eu, David.”
“Os olhos dela brilharam e ela o reconheceu imediatamente. O neto [de David] falou que essa foi uma coisa espantosa para ele. O jeito que eles se conectaram e começaram a conversar como se não tivesse passado o tempo. Eu a ouvi conversar como uma menina: ‘Você ainda acha que eu estou bonita? Você lembra como eu era linda?’”, conta a autora.
Foi o único encontro que tiveram. David sabia que Keren transformaria a história em um livro, mas morreu antes de ver o trabalho completo. “O que é incrível nessa história é o jeito que a humanidade não desaparece”, afirma a jornalista. “Tentaram apagar e destruir essas pessoas, transformá-las em números. Não eram mais pessoas. Mas quando a Zippi e o David estavam juntos, eles cantavam. Eles se lembravam de como era a vida antes. Eles eram gente.”
Eles Se Amaram em Auschwitz
Autora: Keren Blankfeld
Tradução: Wélida Muniz
Editora Planeta (400 págs,. R$ 89,90 | E-book: R$62,90)
Fonte: https://www.estadao.com.br
Um ano difícil para o jornalismo
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A pressão virá de todos os lados: do poder, das milícias digitais, das paixões partidárias
Enquanto houver alguém disposto a apurar, checar, publicar e aguentar o tranco, haverá também a realidade
Jornalista e roteirista
Em 2026, ninguém mais tem a ilusão de que basta publicar uma notícia bem apurada para que a realidade, por si, se imponha. Fazer jornalismo com rigor é como entrar num ringue onde metade da plateia está disposta a aplaudir se o mensageiro da notícia confirmar suas crenças e a outra é capaz de arrancar-lhe os dentes se seus ídolos forem expostos. A profissão segue viva, mas o ambiente está cada vez mais bruto.
O episódio que envolve integrantes do STF, especialmente Alexandre de Moraes, é um retrato didático dessa deformação. O ministro foi alçado por parte da esquerda à condição de herói civilizatório. As pessoas adoram um salvador. É bom que fique claro: não fez nada além da sua obrigação em relação às ameaças contra a democracia —a mesma que insulta diante de algumas ações questionáveis. Bastou uma reportagem incômoda para que ressurgissem os "véios do zap" progressistas, que adoram vestir a fantasia da superioridade moral, mas agora se dedicam a atacar jornalistas, como Malu Gaspar, em vez de enfrentar a realidade. O método é sempre o mesmo, muda apenas o CEP ideológico.
E o cerco não é só retórico. No Maranhão, um jornalista teve celular e computador apreendidos pela PF após reportagens sobre Flávio Dino, em decisão autorizada por Moraes. No caso de Lauro Jardim, mensagens indicaram um plano de agressão física. Entre o linchamento digital, a pressão institucional e o risco concreto de violência, o recado deixa de ser sutil —são ameaças objetivas ao exercício da profissão.
Cresce o número de leitores que não buscam informação, mas um espelho para suas crenças. Consomem notícia não para entender o mundo, mas para reencontrar o próprio reflexo. Jornalista bom, para esses, é aquele que confirma a fé da seita; o resto é vendido ou inimigo. Será um ano ainda mais difícil para o jornalismo.
A pressão virá de todos os lados —do poder, das milícias digitais, das paixões partidárias. Por isso, seguimos firmes. Enquanto houver alguém disposto a apurar, checar, publicar e aguentar o tranco, haverá também algo cada vez mais raro: a realidade. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
Quando as redes sociais são cúmplices
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Precisamos impedir que continuem impulsionando conteúdos que desumanizam, violentam e corroem o tecido social
A economia do engajamento das redes sociais recompensa aquilo que provoca choque, raiva e indignação
Um acusado de ter estuprado coletivamente uma adolescente é encaminhado à cadeia de custódia - Eduardo Anizelli/Folhapress
Danilo Leite Dalmon
Doutor em Cooperação Internacional pela Universidade de Kobe (Japão) e pesquisador em Stanford (EUA)
Os últimos dias escancararam algo que preferimos não encarar. O estupro coletivo de uma menina de 17 anos no Rio de Janeiro pode parecer apenas mais um crime brutal, mas é também um sintoma de um ecossistema digital que alimenta, amplifica e normaliza comportamentos violentos. Os acusados foram gravados comemorando o feito e um dos envolvidos se entregou à polícia usando uma camiseta com a frase "regret nothing" (em inglês, não se arrependa de nada), expressão celebrada em comunidades online da machosfera, dedicadas a homens que desprezam mulheres.
O caso do cachorro Orelha, dias antes, segue a mesma lógica: jovens que se organizam em espaços digitais onde a crueldade é tratada como humor, desafio ou demonstração de poder. A fronteira entre o que é dito na tela e o que é feito na rua está cada vez mais nebulosa. É impossível ignorar que as plataformas criaram um ambiente em que conteúdos violentos, misóginos e desumanizantes são tolerados pelos usuários e impulsionados pelos algoritmos.
Isso não acontece por acidente. A economia do engajamento das redes sociais recompensa aquilo que provoca choque, raiva e indignação. Quanto mais extremo o conteúdo, maior o tempo de permanência na tela. Quanto maior o tempo de tela, maior o lucro das plataformas.
A personalização só agrava o problema. Meninas recebem mais conteúdos que reforçam padrões inalcançáveis de beleza e consumo. Meninos são expostos de forma desproporcional a vídeos agressivos, misóginos e conspiratórios. As plataformas sabem disso e continuam promovendo esses comportamentos. Ao fazê-lo, moldam atitudes e percepções de mundo.
Se os acusados forem condenados, devem responder pelos seus atos. Mas há uma pergunta maior, que não podemos mais adiar: em que medida as redes sociais são responsáveis quando impulsionam conteúdos que incentivam certas atitudes de seus usuários?
Outros países já começaram a agir. A Austrália proibiu o acesso a redes sociais para menores de 16 anos. O Reino Unido passou a exigir verificação de idade em sites pornográficos, reduzindo drasticamente o acesso de menores. A União Europeia adotou regulações que preveem punições severas para plataformas que promovem conteúdos associados a crimes. Até os Estados Unidos estão debatendo leis que protegem jovens e crianças em plataformas online.
O Brasil ainda hesita. Mas hesitar agora significa aceitar que as redes continuem exacerbando o que temos de pior. Significa permitir que algoritmos decidam quais valores serão reforçados entre nossos jovens. Podemos fingir que crimes nascem apenas da mente do criminoso, mas muitas vezes eles são cultivados em grupos fechados, incentivados em "timelines" que ninguém vê.
Regular as redes sociais é nossa responsabilidade. A lei deve estabelecer que empresas que lucram com o comportamento humano têm deveres proporcionais ao poder que exercem. Precisamos impedir que continuem impulsionando conteúdos que desumanizam, violentam e corroem o tecido social. É nosso dever responsabilizá‑las quando seus algoritmos são cúmplices, incentivando crimes.
O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço Políticas e Justiça da Folha de S. Paulo sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Danilo Leite Dalmon foi "Pedras e Sonhos", de El Efecto. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
Duas mulheres são assassinadas em Praia Grande (SP); suspeitos são presos
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Duas mulheres são assassinadas em Praia Grande (SP); suspeitos são presos
Uma das vítimas tinha 40 anos e foi morta a tiros; a outra tinha 34
Casos ocorrem na véspera e no próprio Dia Internacional da Mulher

Viaturas da Polícia Militar de São Paulo - Divulgação/SSP-SP - 26.nov.2024
São Paulo
Dois homens foram presos entre a manhã de sábado (7) e a deste domingo (8), Dia Internacional da Mulher, suspeitos de praticarem dois feminicídios distintos em Praia Grande, no litoral paulista.
O primeiro caso, no sábado, envolve um homem de 46 anos que teria assassinado a tiros sua mulher, de 40 anos. A ocorrência se deu no bairro Vila Sônia.
Segundo a SSP (Secretaria de Segurança Pública do estado), a vítima estava caída no chão quando foi encontrada pelos policiais. Ela chegou a ser socorrida pelo Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), mas não resistiu. A arma usada para o crime e um veículo foram apreendidos.
No segundo caso, por sua vez, a vítima tinha 34 anos. O suspeito tem 40. A PM chegou até a residência dele, segundo a SSP, após familiares relatarem ameaças publicadas em uma rede social. A mulher estava caída na sala do imóvel quando os agentes chegaram à residência. O local, no bairro Tupiry, passou por perícia.
Os casos ocorrem ao mesmo tempo em que o estado de São Paulo registra recordes em números relacionados a feminicídio.
Balanço da SSP divulgado no início deste ano mostra que aumento de 8,1% nos casos de feminicídio em 2025, atingindo o maior número da série histórica iniciada em 2018 para esse tipo de crime. Foram 266 casos de mulheres assassinadas em razão do gênero, contra 246 em 2024, segundo dados da pasta.
No total, segundo um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), 13% das vítimas de feminicídio tinham medida protetiva ativa no momento da morte —ou seja, haviam buscado ajuda do Estado antes do crime.
Os dados abrangem 1.127 feminicídios registrados em 16 unidades da federação. Em 148 casos, a mulher já havia acionado o sistema de Justiça e recebido decisão protetiva, decisão que não impediu o desfecho letal. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
Homem é preso no RJ após estuprar ex-namorada e matar o filho dela enquanto vítima prestava queixa
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Suspeito ainda teria tentado assassinar a mãe da ex-companheira, segundo a Polícia Civil. Defesa não foi localizada

Homem foi preso por policiais da 57ª delegacia de Nilópolis, no Rio de
Por Caio Possati
Alerta: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência contra a mulher, violência doméstica e estupro. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 180 e denuncie.
Um homem foi preso na última quinta-feira, 5, no Rio de Janeiro, após estuprar a ex-companheira e, horas depois, voltar para a matar o filho dela enquanto a vítima fazia exame de corpo de delito por conta da violência sexual sofrida. O caso aconteceu em Nilópolis, cidade da Baixada Fluminense.
O nome do agressor não foi informado e, por esse motivo, não foi possível localizar a defesa.
Na noite da última quarta, 4, ele foi à casa da ex-namorada, onde também moravam o filho de 11 anos e a mãe dela, para tentar uma reconciliação. De acordo com a polícia, ele não aceitava o término da relação.
Por conta do horário, ele pediu para dormir na residência, o que foi aceito. Durante a madrugada de quinta, porém, ele ameaçou a ex-companheira com uma faca e a estuprou. Antes de ir embora, ainda roubou uma televisão da residência.
Horas depois, a mulher foi à delegacia denunciar o crime. De acordo com o relato policial, enquanto ela fazia exame de corpo de delito no período da tarde, o suspeito voltou até a casa, matou o filho dela e ainda tentou assassinar a mãe da vítima (avó do garoto).
Um vizinho relatou ter ouvido gritos de socorro e foi até a casa. Lá, ele encontrou o suspeito estrangulando a avó do menino, que apresentava também marcas de esfaqueamento no braço. O homem tentou fugir, mas acabou sendo contido por vizinhos, que passaram a agredi-lo.
As polícias Civil e Militar foi acionada, localizou o homem e conteve a multidão. O suspeito foi preso em flagrante pelos crimes de homicídio qualificado e tentativa de homicídio.
A mãe da vítima foi socorrida e segue hospitalizada. O menino não resistiu. O caso foi registrado na 57ª Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro (Nilópolis). Fonte: https://www.estadao.com.br
8 de Março e o Dia Internacional da Mulher: como surgiu a data para celebrar as lutas das mulheres
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Um incêndio trágico em Nova York e uma revolução na Rússia estão entre os eventos que influenciaram a criação da data
Mulheres fazem comício Pró-Diretas, São Paulo, SP, 16/4/1984. Foto: Claudinê Petroli/ Estadão
Por Liz Batista
O Dia Internacional da Mulher foi oficialmente criado pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 1977. No entanto, o dia 8 de março já era utilizado por movimentos femininos como uma data para celebrar a luta pelos direitos das mulheres desde o início do século 20. Vários eventos influenciaram a criação da data, mas dois entre eles são lembrados como determinantes para sua oficialização.
O primeiro - o incêndio na fábrica de roupas Triangle Shirtwaist, em Nova York, em 1911 - foi uma tragédia que levou às capas dos jornais as terríveis condições de trabalho a que as mulheres eram submetidas.
O segundo - um marco da História Contemporânea, a marcha das mulheres russa por pão e paz em 1917 - iniciou uma revolução de efeitos globais que reverberam até hoje.
Tragédia
Em 25 de março de 1911 um incêndio atingiu a fábrica de roupas Triangle Shirtwaist, nos Estados Unidos. Foi o mais mortal acidente industrial da cidade de Nova York, matou 146 pessoas; 23 homens e 123 mulheres. Quem estava no prédio teve pouca chance contra o fogo, pois as saídas estavam trancadas. A prática de fechar as portas das oficinas, para impedir a saída para pausas durante o turno, era uma das ações arbitrárias contra as trabalhadoras.
O noticiário também revelou as péssimas condições de trabalho das vítimas. Cargas horárias extenuantes, que podiam chegar a mais de 16 horas diárias, salários incrivelmente baixos e locais insalubres eram alguns dos fatos da dura realidade vivida pelas operárias.
Revolução
Desde o final do século 19, organizações socialistas e sufragistas feministas defendiam a criação de um data para lembrar a luta das mulheres por direitos. A marxista alemã Clara Zetkin é lembrada como principal idealizadoras da proposta. Em 1910, durante a Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, Zetkin defendeu a criação de uma mobilização anual.
A revolta diante da tragédia na tecelagem Triangle se transformou numa bandeira por melhores condições de trabalho para as mulheres e acabou arregimentando mais ativistas para as diferentes causas femininas defendidas no Dia Internacional da Mulher.
Dia Internacional da Mulher
No dia seguinte, uma onda de insatisfação irrompeu entre as mulheres nas filas de racionamento de pão, elas se juntaram aos comícios do Dia Internacional da Mulher e a mobilização tomou conta das ruas de São Petersburgo. O movimento operário aderiu à manifestação e cerca de 50 mil trabalhadores entraram em greve. O evento marcou o início da chamada Revolução Russa de 1917. As demonstrações também fortaleceram a causa do sufrágio feminino no país.
Oficialização
A ONU declarou o ano de 1975 o Ano Internacional da Mulher. Ações e jornadas por todo mundo foram desenvolvidas pela entidade para promover a igualdade de gêneros e a proteção dos direitos das mulheres. Em 1977, a ONU oficializou a data 08 de março como o Dia Internacional da Mulher. Fonte: https://www.estadao.com.br
Quem são as vítimas da chuva em Juiz de Fora e Ubá
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Temporal deixou mortos, desaparecidos e desabrigados; cidade decretou estado de calamidade pública.
Por Luiza Sudré, Carol Delgado, g1 Zona da Mata — Juiz de Fora
A chuva intensa em Juiz de Fora e Ubá resultou na morte de estudantes e profissionais de saúde, segurança e educação.
Juiz de Fora declarou estado de calamidade pública.
Escolas municipais e particulares, além do Demlurb, confirmaram a morte de alunos e uma funcionária.
Instituições como a UFJF, Cead e diversas escolas manifestaram luto pelas vítimas da catástrofe.
Estudantes, profissionais da saúde, da segurança e da educação estão entre os mortos após a forte chuva que atingiu Juiz de Fora e Ubá na segunda-feira (23). A cidade decretou estado de calamidade pública.
Vítimas - Juiz de Fora
1-Bernardo Lopes Dutra, estudante do 7º ano do Colégio de Aplicação João XXIII, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
2-Carla Teixeira, profissional de educação do Centro de Educação a Distância (Cead/UFJF)
3-Arminda de Fátima Soa, de 63 anos, moradora do bairro Esplanada
4-Maitê Cedlia Pereira Fernandes, de 5 anos, aluna da Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves
5-Arthur Rafael de Oliveira Machado, aluno da Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves
6-Miguel Carlos da Silva Machado, aluno da Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves
7-Rosimeire do Carmo de Oliveira Souza, da Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves
8-Kaleb Marques Reis dos Santos, aluno da Escola Municipal Batista Oliveira
9-Ramom Rafael Araújo de Almeida, aluno da Escola Municipal Batista Oliveira
10-Neuza Mageste, moradora do bairro de Lourdes
11-Deogracia Aurélia Fernandes, contratada do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DEMLURB)
12-Ivana Martins de Paula, moradora da Rua Santa Clara, no bairro Costa Carvalho
13-Liana Martins de Paula, moradora da Rua Santa Clara, no bairro Costa Carvalho, bancária e integrante do bloco Parangolé
14-Iara Martins de Paula, moradora da Rua Santa Clara, no bairro Costa Carvalho
15-Jaqueline de Fátima Theodoro Vicente, de 32 anos, moradora do bairro Paineiras
16-Neide Aparecida, de 58 anos, mãe da Jaqueline
17-Reinaldo Neiva Ferreira, de 35 anos, policial penal e morador do bairro Paineiras
18-Melissa Emanuely Garcia, de 2 anos
19-Fabiana Cristina Gomes, de 40 anos, avó da Melissa
20-João Batista dos Santos, idade não informada
21-Marcos José dos Santos Almeida, idade não informada
Vítimas - Ubá
1-Edmara Peluzo Candido, 32 anos
2-João Gonçalves Soares, 74 anos (marido de Maria)
3-Maria da Conceição Honorato Soares, 65 anos (esposa de João)
4-Elza das Graças da Silva, 77 anos
5-Homem, de 35 anos, de nome não divulgado
6-Homem, de 48 anos, de nome não divulgado
Notas de pesar
Em nota, a UFJF e o Cead lamentaram as mortes ocorridas em Juiz de Fora.
A Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves expressou pesar pela morte dos alunos Maitê Cedlia Pereira Fernandes, Arthur Rafael de Oliveira Machado, Miguel Carlos da Silva Machado e Rosimeire do Carmo de Oliveira Souza.
O Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Juiz de Fora (Sinserpu-JS) divulgou nas redes sociais uma nota de pesar pelo falecimento de Deogracia Aurélia Fernandes, contratada do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (Demlurb). Fonte: https://g1.globo.com
Tragédia em MG: sobe para 46 número de mortos nas chuvas em Juiz de Fora e Ubá
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Volume intenso de chuva entre segunda (23) e terça (24) provocou estragos em cidades da Zona da Mata, com deslizamentos de terra e alagamentos
Autoridades confirmaram 46 mortes após temporal na Zona da Mata
46 mortos nas chuvas de Minas,
O número de mortes provocadas pelas chuvas em Juiz de Fora e Ubá, na Região da Zona da Mata, em Minas Gerais, subiu para 46, conforme último balanço divulgado pelo Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) às 15h17 desta quarta-feira (25).
A corporação trabalha nos municípios em oito frentes de trabalho para buscar vítimas soterradas. Mais de 100 bombeiros fazem parte do efetivo. Ao menos 21 pessoas ainda estão desaparecidas, sendo duas em Ubá e 19 em Juiz de Fora. Fonte: https://www.itatiaia.com.br
Chuvas deixam ao menos 30 mortos e mais de 3.000 desabrigados na zona da mata de MG
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Juiz de Fora contabiliza 24 óbitos em meio à maior chuva para o mês de fevereiro
Três cidades decretam calamidade pública; temporais continuam na quarta
Bombeiros trabalham em área de desabamento na região de Parque Burnier em Juiz de Fora (MG) - Reprodução/TV Globo
São Paulo
Ao menos 30 pessoas morreram e 39 estão desaparecidas na zona da mata de Minas Gerais em razão das chuvas que atingem a região desde a noite de segunda-feira (23). Cenas de moradores tentando socorrer vizinhos ilhados, casas desmoronando, ruas completamente alagadas, além de carros e até caixões de funerária sendo levados pela enxurrada, se repetiam ao longo do dia.
Juiz de Fora, uma das cidades mais afetadas, registrava na noite desta terça 24 óbitos e 37 desaparecidos, de acordo com o Corpo de Bombeiros. Outras seis mortes aconteceram na cidade de Ubá, a 111 quilômetros, que também buscava dois desaparecidos, segundo a corporação.
Os estragos em Juiz de Fora levaram a prefeita Margarida Salomão (PT) a decretar estado de calamidade pública na cidade mineira ainda durante a madrugada desta terça, o que foi reconhecido pelo governo federal. Ubá e a cidade de Matias Barbosa também decretaram a medida, o que facilita para receber ajuda tanto federal quanto estadual.
Mais de 3.000 pessoas estão desabrigadas em Juiz de Fora, segundo a prefeitura. Elas receberam acolhimento e acomodação provisória em 15 escolas. As aulas no município foram suspensas, assim como foi determinado trabalho remoto para os servidores que atuam na sede da prefeitura, no centro.
Segundo a prefeita, o temporal provocou ao menos 20 soterramentos de imóveis no município, principalmente na região sudeste. Somente no bairro Parque Jardim Burnier, o mais afetado, uma encosta deslizou e 12 imóveis foram soterrados.
Até as 18h desta terça-feira, o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) havia registrado 605,6 mm de chuva no município de Juiz de Fora, o que torna este o fevereiro mais chuvoso da história da cidade. Esse volume é cerca de três vezes e meia o volume médio histórico do município, de 170 mm, que é definido baseado nos registros dos últimos 30 anos.
O maior volume ocorreu entre as 18h e a meia-noite de segunda-feira, período em que o acumulado alcançou quase 150 mm, na região de Nossa Senhora de Lourdes, pela medição do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais). Isso significa que, em seis horas, choveu quase a média histórica do mês.
A intensidade da chuva provocou o transbordamento do rio Paraibuna e a interdição da ponte Vermelha e do túnel Mergulhão.
"Juiz de Fora é um município que tem um conjunto de morros que ultrapassam 100 metros de altura, do topo à base. Ao mesmo tempo, tem uma rede de drenagem muito volumosa. Por isso há dois problemas simultâneos. O de movimento de massa, com deslocamento de encostas, e o transbordamento de rios", explica Miguel Felippe, professor do departamento de geociências da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora).
Em Ubá, foram cerca de 170 mm de precipitação em cerca de três horas e meia, segundo a gestão do prefeito José Damato Neto (PSD). De acordo com medições realizadas na área central, o rio Ubá atingiu 7,82 metros e gerou inundações em área urbana, com impacto em diversos bairros, ruas e estabelecimentos comerciais. A prefeitura diz ter atendido a 18 ocorrências, sendo que três pontes estão totalmente danificadas.
O governador Romeu Zema (Novo) decretou luto oficial de três dias. "Minas está presente e fará tudo o que estiver ao seu alcance para amenizar esse sofrimento", afirmou.
Os ministros do governo Lula (PT) Waldez Góes (Desenvolvimento Regional) e Adriano Massuda, interino do Ministério da Saúde, foram enviados à região e se reuniram com Zema e prefeitos. O presidente, em viagem pela Índia e Coreia do Sul, se manifestou sobre o episódio via redes sociais e afirmou ter telefonado diretamente para a prefeita de Juiz de Fora para prestar solidariedade e apoio federal.
Nesta quarta, o avanço de uma nova frente fria poderá provocar mais chuvas intensas, inicialmente na zona da mata e no sul e sudoeste de Minas, afirma a Defesa Civil estadual. "É uma situação extrema, que permite medidas extremas", disse a prefeita.
De acordo com o boletim do Cemaden para esta quarta, a zona da mata mineira tem risco muito alto tanto para alagamentos quanto para deslizamentos de terra. Assim, a população precisa estar preparada para enfrentar novos deslizamentos esparsos e generalizados em encostas, quedas de barreira à margem de estradas e rodovias, além de ocorrências de enxurradas, alagamentos em áreas de drenagem deficiente e inundações.
Segundo ela, a cidade precisa de um período de recuperação. "Estamos nos desdobrando para socorrer as pessoas e salvar vidas", disse.
Outras regiões mineiras que merecem atenção especial, segundo o Cemaden, é a região metropolitana de Belo Horizonte e de Ipatinga, no Vale do Aço. Nesses locais, o risco é alto de alagamentos e movimentação de massa.
O vice-governador Mateus Simões (PSD) afirmou que a população que recebeu alerta de risco de deslizamento deve deixar os imóveis. "Temos que começar a tratar da ocupação irregular no Brasil. É previsível que aconteceria uma coisa como essa, e é absolutamente devastador pensar que nós temos idosos e crianças soterradas aqui", afirmou. Fonte: www1.folha.uol.com.br
Psicólogo e estudante da Ufba morre na Bahia
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Manoel Rocha Reis Neto faleceu em Santo Antônio de Jesus, no recôncavo baiano. Corpo foi sepultado em Amargosa, cidade natal dele.
Psicólogo mestrando da Ufba é encontrado morto na Bahia — Foto: Reprodução/Redes Sociais
Por g1 BA
O psicólogo e mestrando da Universidade Federal da Bahia, Manoel Rocha Reis Neto, de 32 anos, morreu em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo da Bahia, na terça-feira (17).
Ele chegou a ser atendido pelo Samu, mas não resistiu. A Polícia Civil registrou a morte como suicídio.
O corpo foi sepultado em Amargosa, cidade natal dele, na mesma região. A cerimônia aconteceu na quarta-feira (18).
O psicólogo e mestrando da Universidade Federal da Bahia, Manoel Rocha Reis Neto, de 32 anos, morreu em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo da Bahia, na terça-feira (17). Ele chegou a ser atendido pelo Samu, mas não resistiu.
O corpo foi sepultado em Amargosa, cidade natal dele, na mesma região. A cerimônia aconteceu na quarta-feira (18). A Polícia Civil registrou a morte como suicídio.
Nesta quinta (19), a Ufba emitiu uma nota de pesar e se solidarizou com amigos e familiares do estudante, que tinha sido aprovado para o programa de mestrado da instituição no dia 29 de janeiro deste ano.
Manoel chegou a comemorar o fato nas redes sociais, com um longo texto sobre as dificuldades enfrentadas até a conquista. "Um velho-novo caminho começa", escreveu.
A Ufba também destacou ainda que o baiano cursou psicologia no Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); pós-graduação em Saúde da Família pelo programa de residência multiprofissional da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf); e foi aluno do Programa de Mobilidade Internacional da UFRB, no curso de Educação Social do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), em Portugal.
"O psicólogo era reconhecido pela atuação profissional comprometida e pelo vínculo próximo com a comunidade", disse a instituição na nota.
O Conselho Regional de Psicologia da Bahia (CRP-03) também se posicionou sobre o caso. Em nota, a entidade manifestou pesar e se solidarizou com todas as pessoas que conviveram com o psicólogo, incluindo colegas de profissão.
O CRP ainda destacou o trabalho de Manoel, pela "prática profissional comprometida com a escuta ética, o cuidado e a promoção da saúde mental".
"Sua atuação também foi marcada pelo engajamento na luta por uma sociedade antirracista, contribuindo ativamente para o fortalecimento de debates e práticas alinhadas à justiça social e à equidade racial".
Denúncia de racismo
Horas antes de morrer, Manoel Neto usou as redes sociais para fazer um relato de racismo, sofrido no Camarote Ondina, no circuito Dodô (Barra-Ondina), durante o carnaval de Salvador. Na ocasião, segundo o desabafo feito pelo psicólogo, um homem teria impedido sua passagem em um ponto da estrutura, gerando confusão.
Não há registro de briga física, mas a situação gerou desconforto em Manoel, que fez uma reflexão sobre o caso com os seguidores.
"Caros amigos pretos, não se enganem. Dinheiro, títulos, sucesso… isso não nos torna legitimados pelos olhos das belas almas brancas. Vocês serão humilhados sempre que uma pessoa branca cruzar o seu caminho", escreveu.
Em nota, o Camarote Ondina manifestou pesar pela morte do cliente e se solidarizou com familiares, amigos e pacientes dele.
"Reafirmamos nosso compromisso inegociável com o respeito, a diversidade e o combate a qualquer forma de racismo e discriminação. O carnaval da Bahia é expressão da cultura negra, da pluralidade e da convivência, valores que norteiam a atuação do nosso espaço. Seguimos comprometidos em promover um ambiente de acolhimento, inclusão e celebração para todas as pessoas", diz o posicionamento. Fonte: https://g1.globo.com
Passada a euforia do Carnaval, como lidar com o medo de ficar só?
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Sentimento que surge nesse 'primeiro dia do ano' talvez não seja apenas ressaca emocional
É delicioso viver encontros catárticos na festa, mas esse não é o único caminho para começar um bom samba a dois
Como lidar com o medo de ficar só que chega com tudo após o Carnaval? - Fizkes - 23.mai.24/Adobe Stock
"Ah, Mrs. Dalloway, sempre dando festas para evitar o silêncio", provoca Peter, amigo íntimo da protagonista de Virginia Woolf. A frase me vem à cabeça quando penso em nossa relação ambígua com a celebração e a evitação.
Quando alguém que nos conhece bem sugere que nossas festas talvez evitem o silêncio, não está condenando o encontro, está interrogando sua função. Porque há uma diferença sutil, e profundamente psíquica, entre gregarismo e escapismo. O primeiro é movimento em direção ao outro; o segundo, movimento para longe de si.
Nós, brasileiros carnavalescos, sabemos bem o que é rebolar nesta corda-bamba que é a tal linha fina entre o lançar-se ao mundo e o fugir de si. Sabemos fazer da rua um palco de êxtase e conexão. E é lindo que saibamos. A catarse coletiva, o delírio compartilhado, a fantasia que veste o corpo e suspende por alguns dias as hierarquias da vida ordinária não são mero adorno.
A psicanálise sustenta que não existe desejo sem fantasia. Não amamos o real cru; amamos através das cenas e narrativas que montamos pra dar contorno ao que nos falta. Fantasiar, assim, não é fugir da vida, é condição do vínculo.
O problema surge quando nos tornamos reféns do excesso. Quando a euforia funciona menos como celebração e mais como tampão contra a angústia que retorna, inevitável, nas cinzas da quarta. E, pior, quando passamos a acreditar que só somos desejáveis e amáveis enquanto estamos fantasiados com um excesso de amor próprio e autoestima: leves, bem-resolvidos, propositivos, brilhantes como a purpurina que ilumina a pele e encobre as sombras. É delicioso viver encontros intensos e catárticos na festa? Claro. Mas é esse o único caminho para começar um bom samba a dois? Jamais.
O medo da solidão que chega nesse "primeiro dia do ano" talvez não seja apenas ressaca emocional. E sim o retorno do que vinha sendo estancado não apenas nos dias de folia, mas no modus operandi de nossos tempos: multitarefas, produtivos, acelerados, viciados em emoções intensas e recompensas rápidas —essa nação dopamina que, ao maximizar ganhos, contatos e prazer, começa a patologizar o medo, a angústia, o tédio, o desinvestimento.
Traços profundamente humanos que são suprimidos pelo ideal de eu contemporâneo. Lacan já dizia que o superego moderno não proíbe o gozo; ele ordena que gozemos, que sejamos intensos, performáticos, emocionalmente resolvidos e sexualmente livres. Aprisionamos assim nossos retraimentos, dúvidas e dívidas emocionais temendo que elas sejam lidas como falhas morais e como indícios de que somos produtos afetivos com baixo valor simbólico.
Quando patologizamos o medo da solidão, nos sentimos duplamente condenados: por estarmos sós e por sermos "fracos". Como se o medo evidenciasse nossa falha em viver a solitude idealizada —autossuficiente e instagramável— e não a solidão real, que dói e revela nossa dependência estrutural do outro.
Somos seres de vínculo. Ao invés de perseguir a autossuficiência como ideal, desapegue dela. Você tem medo de ficar sozinho? Não fique. Peça e ofereça companhia. Busque colos de amigos, familiares, colegas de trabalho ou ioga. Conte sobre seus medos e nomeie seus desejos. E pergunte os do outro também. Falar sobre o que nos falta e ouvir as faltas alheias nos lembra que faltas não são falhas.
Ao invés de querer matar o medo, mate sua hiperexigência e se permita estar em boas companhias, mesmo quando não estiver bem. Esse movimento acalma o fantasma da solidão eterna e a fantasia de que se você estiver "pesado emocionalmente" ninguém vai te aguentar. Teste os vínculos, se jogue em quem se interessa por você e veja que eles sustentam.
Que possamos tirar as máscaras não para nos expor indiscriminadamente, mas para escolher melhor nossos laços. Que o medo não nos empurre para qualquer braço romântico apenas para silenciar o vazio. Que ele também não nos faça revisitar antigos fantasmas só para não atravessar o deserto do novo.
Ainda assim, permita-se querer um amor romântico. Diga que quer. Peça para ser apresentado. Circule por espaços que te interessam. Converse no estado em que estiver. Não espere a alma purpurinada. Faça contato visual. Divida uma referência, um pensamento, um desabafo honesto de quem está angustiado ou de mau humor.
Talvez o gesto mais subversivo depois do Carnaval não seja seguir beijando a três, mas pedir companhia sem performance. E, se pudermos levar algo do Carnaval para a vida que começa agora, que seja a abertura aos encontros e aos acasos —mas sem a exigência de estarmos prontos para o bloco. Que possamos sustentar o desejo de vínculos que nutram, apoiem, curem. E possamos honrar o medo de não encontrá-los. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
Um perigo real em ano eleitoral
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Intolerância religiosa no Brasil não é um fenômeno isolado, tampouco restrito a um único grupo ou tradição
Por Carolline Mello e Edilmar Alcantara
O final de 2025 foi marcado por intensa agitação na cidade do Rio de Janeiro. Não apenas pelo movimento típico de dezembro, mas sobretudo por um debate que se deslocou para os campos político e religioso – duas esferas que, há algum tempo, vêm se misturando de forma preocupante no cenário social brasileiro.
O imbróglio teve início quando o prefeito da cidade e pré-candidato ao governo do Estado, Eduardo Paes (PSD-RJ), respondeu em suas redes sociais a um trecho de entrevista concedida pelo professor e babalawô Ivanir dos Santos (UFRJ). O docente questionou a laicidade do Estado ao tomar conhecimento de que a prefeitura promoveria, no réveillon de 2026, um palco dedicado exclusivamente ao segmento gospel na Praia do Leme, e lamentou que tradições como saudações a Iemanjá perderiam espaço na orla.
Ao responder às críticas, o prefeito argumentou que Copacabana comporta diferentes manifestações culturais e religiosas e que a música gospel também poderia ocupar esse espaço. A controvérsia se agravou, no entanto, quando ele afirmou: “É impressionante o nível de preconceito dessa gente”. A expressão, ainda que possivelmente não intencional, mobiliza uma lógica recorrente quando o assunto é intolerância: a produção de um “outro” genérico, indistinto e potencialmente ameaçador.
O Rio de Janeiro tem sido palco de ataques sistemáticos a templos, sacerdotes e adeptos de religiões de matriz africana. Grupos autodeclarados cristãos, por vezes associados a organizações criminosas que controlam diferentes territórios da cidade, atuam de forma violenta contra praticantes do candomblé e da umbanda. Esses grupos, conhecidos como “soldados de Cristo” ou “traficantes evangelizados”, espalham terror e medo, impõem regras religiosas, ameaçam lideranças e obrigam líderes religiosos a vilipendiar seus objetos litúrgicos e seus templos. Promovem, ainda, o apagamento simbólico de tradições, como a proibição do uso de roupas brancas às sextas-feiras.
Esse ambiente de intolerância não se restringe às religiões afro-brasileiras. Ele também favorece a circulação de discursos antijudaicos e antissemitas, especialmente em contextos de radicalização política e moral. O antissemitismo, historicamente estruturado a partir da construção do judeu como inimigo simbólico – acusado de conspiração, poder oculto ou corrupção moral –, encontra terreno fértil em cenários em que a religião é instrumentalizada como ferramenta política.
Não é coincidência que, nesses mesmos espaços, proliferem apropriações distorcidas de elementos do judaísmo, leituras fundamentalistas da Bíblia e estereótipos antijudaicos que esvaziam a complexidade histórica, cultural e religiosa do povo judeu. Assim como ocorre com os povos de terreiro, o judaísmo é frequentemente reduzido a caricaturas que servem a projetos de poder e exclusão.
É legítimo que agentes políticos dialoguem com diferentes públicos, sobretudo em período pré-eleitoral. O que não se pode admitir é a naturalização de discursos que reforçam categorias genéricas como “essa gente”, pois elas alimentam processos históricos de desumanização. O Brasil já criminalizou práticas religiosas de origem africana e perseguiu expressões culturais negras; do mesmo modo, o antissemitismo, ainda que nem sempre se manifeste por meio da violência física, opera de forma estrutural na linguagem, nas narrativas e na suspeição permanente sobre a presença judaica no espaço público. Essa mesma estrutura do antissemitismo é frequentemente mobilizada para sustentar outras formas de opressão e intolerância, mudando os alvos, mas preservando a estrutura da exclusão.
No contexto do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado em 21 de janeiro por força da Lei n.º 11.635/2007 em homenagem à ialorixá Mãe Gilda de Ogum, o debate torna-se ainda mais urgente. Questionar o uso de recursos públicos para beneficiar um segmento religioso específico não constitui, em si, preconceito. Ao contrário: é exercício democrático e deve abrir espaço para reflexões mais amplas sobre o diálogo inter-religioso e a defesa das liberdades individuais e coletivas.
A recorrência de episódios como esses evidencia que a intolerância religiosa no Brasil não é um fenômeno isolado, tampouco restrito a um único grupo ou tradição. Trata-se de uma lógica estrutural que se intensifica em contextos de disputa política, nos quais a religião é mobilizada para produzir inimigos simbólicos, hierarquizar pertencimentos e legitimar exclusões. Enfrentar esse cenário exige mais do que reações pontuais: requer posicionamentos públicos claros, produção de conhecimento crítico e o fortalecimento de iniciativas comprometidas com a defesa do Estado laico, da democracia e do pluralismo religioso.
Diante desse cenário, o laboratório de estudos sobre Judeidade e Negritude, iniciativa do Instituto Brasil-Israel, por meio do projeto IBI no Campus, elaborou um manifesto contra todas as formas de intolerância, em defesa da liberdade, da democracia e do convívio plural. O manifesto é um chamado público à ação e à responsabilidade coletiva e está aberto à assinatura de todas as pessoas e instituições que se recusam a naturalizar o ódio religioso. Axé, shalom!
Opinião por Carolline Mello
Historiadora, mestre em Sociologia, é gerente de Educação do Instituto Brasil-Israel
Edilmar Alcantara
Cientista social, mestre em Biblioteconomia, é colaborador do Instituto Brasil-Israel
Fonte: https://www.estadao.com.br
Quem, em nosso país, não está em crise?
- Detalhes
Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora de "A Invenção de uma Bela Velhice"
Como disse Betinho, a indignação é a minha forma de me manter vivo
Rubem Alves escreveu "As duas caixas" (27 de abril de 2010) dias antes da minha primeira coluna ser publicada na Folha (1º de junho de 2010). Ele contou que Fernando Pessoa escrevia, lia o que escrevera e se assombrava. "Por que escrevi isto? Onde fui buscar isto? Isto é melhor do que eu..."
"Coisa parecida acontece comigo. Alguém me mostra um texto e diz que fui eu quem o escreveu. Leio-o, mas não o reconheço. É como se tivesse sido escrito por uma outra pessoa. Mas, à medida em que vou lendo, vou ficando alegre. É um texto bom, melhor do que eu!... Sinto, então, vontade de publicar aquele texto de novo. Se ele surpreendeu a mim, é de se esperar que o mesmo aconteça com os leitores. E por que não?"
Quando reli a coluna "Medíocres ou guerreiros" que escrevi sobre o governo de Fernando Collor de Mello, no Jornal do Brasil de 18 de novembro de 1990, me assombrei com a minha coragem e indignação. E me deu vontade de publicar aquele texto de novo. Por que não?
Medíocres ou guerreiros
Vivemos uma época de crises. Dizer isso já virou lugar comum. Crise de valores, crise social, crise econômica, crise política, crise da família, crise individual... Quem, em nosso país, não está em crise?
Pesquisas recentes demonstram que aumentou, vertiginosamente, o número de casos de doenças mentais... Muitos sonham em sair do Brasil, buscando um lugar sem violência ou desemprego. Outros desfazem casamentos para preservar a própria "individualidade". Amor e sexo transformaram-se em artigos de consumo, descartáveis. A palavra "compromisso" é "out". O país está doente. Filhos matam pais. Pais matam filhos. Maridos matam esposas. A mídia manipula facilmente a opinião pública. A desesperança impera soberana.
Decisões e atitudes do governo Collor são aceitas por todos, acriticamente, passivamente. Desde os episódios grotescos e vergonhosos da campanha eleitoral até atos recentes de corrupção descarada. Um governo medíocre, manipulador, corrupto, incompetente e sem nenhuma ética. Com um único mérito: usar e abusar dos veículos de comunicação em massa. Um governo maquiado de moderno e inovador, mas que, na verdade, é vazio de propostas e ideais sociais. E a fachada está ruindo apodrecida precocemente.
E nós, onde ficamos? Qual é a nossa responsabilidade frente a esta situação? "O que fazer?" Somos, sem dúvida, muito mais covardes, medíocres e infelizes do que éramos na época que sabíamos lutar. Quando ser "de esquerda" não era um problema existencial... Hoje vivemos uma profunda crise de identidade. Nossos valores, ideais, estão escondidos, envergonhados, em busca de uma nova definição. Somos pressionados pelo "consenso".
Os guerreiros, os revolucionários de tantos anos, que sabiam gritar, lutar e chorar, não sabem como enfrentar os vermes de caras bonitas e corpos atléticos. Tornamo-nos medrosos, desaprendemos como ousar, criar, acreditar. Como disse Betinho, Herbert de Souza, há algum tempo: "a indignação é a minha forma de me manter vivo". A coragem e a integridade também. O medo, a mediocridade e a resignação são formas de morrer.
Vivemos um momento em que o governo só quer destruir, acabar, aniquilar a cultura, a economia, as universidades, a saúde e, principalmente, a esperança. Nossa única saída é "fugir para a frente", enfrentando essa destruição construindo, reconstruindo, reaprendendo, buscando parceiros nesta enorme tarefa.
Medíocres ou guerreiros... Está em nossas mãos. Quem topa? Fonte: https://www1.folha.uol.com.br
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