Os textos que a liturgia do trigésimo segundo Domingo do Tempo Comum nos convida a escutar contêm um veemente apelo à vigilância. Recordam-nos que a segunda vinda de Jesus está no horizonte final da história humana. De olhar fixo nesse horizonte, caminhamos pela vida atentos ao Senhor que vem, com o coração sempre preparado para O acolher.

EVANGELHO – Mateus 25,1-13- INTERPELAÇÕES
Pode parecer que a mensagem deixada por Mateus é uma mensagem “datada”, que talvez soasse convincente no final do séc. I, mas que não se enquadra nas preocupações e no horizonte de vida dos homens e das mulheres do séc. XXI… No entanto, a mensagem de Mateus é intemporal, uma vez que se dirige a comportamentos e atitudes que são comuns aos homens e mulheres de todas as épocas. Também nós – como os crentes do séc. I – percorremos um caminho de altos e baixos, em que os momentos de entusiasmo e de compromisso alternam com os momentos de adormecimento, de acomodação, de pouco empenho. A erosão provocada pelo tempo, as dificuldades da caminhada, os apelos do mundo, a monotonia, a nossa fragilidade levam-nos, frequentemente, a esquecer os valores do reino de Deus e a correr atrás de valores efémeros, que parecem garantir-nos a felicidade mas que só nos arrastam para caminhos de escravidão e de frustração. Adormecidos nesse vaivém, corremos o risco de perder tempo e oportunidades, de passar ao lado de coisas decisivas, de falhar a vida. O Evangelho deste domingo lembra-nos que a segunda vinda do Senhor deve estar sempre no horizonte final da nossa existência e que não podemos alienar os valores do Evangelho, pois só eles nos mantêm identificados e alinhados com esse Senhor Jesus que há de voltar para nos oferecer a vida plena e definitiva. Ao longo do caminho que vamos percorrendo todos os dias mantemo-nos atentos e vigilantes, fiéis aos ensinamentos de Jesus e comprometidos com esse reino de Deus que Ele nos mandou construir?
O que é que significa exatamente “estar preparado para a vinda do Senhor”? Significará simplesmente viver de consciência tranquila, sem sentir o peso de faltas graves? “Estar preparado” significa, sobretudo, viver aqui e agora a adesão a Jesus de maneira responsável, lúcida e comprometida; “estar preparado” significa seguir Jesus a cada passo no caminho do amor, da partilha, do perdão, do serviço, da doação da própria vida; “estar preparado” significa viver numa escuta permanente de Deus e acolher de braços abertos o projeto que Deus tem para nós; “estar preparado” significa fazer o que está ao nosso alcance, todos os dias, para construir um mundo mais justo, mais humano e mais feliz; “estar preparado” significa viver a cada instante de olhos postos no mundo que há de vir, não perder de vista os valores eternos… Estamos preparados para o encontro com o Senhor que vem, ou andamos a malbaratar a vida correndo atrás de propostas ilusórias de felicidade?
A reflexão que nos é proposta por Mateus refere-se primordialmente ao nosso encontro final com Jesus. Contudo, sabemos que Jesus vem ao nosso encontro muitas vezes e de muitas formas. Compete-nos perceber os sinais da sua presença, escutar a sua voz, reconhecer o seu rosto, acolher os seus apelos, abraçar os seus desafios… Ele vem certamente ao nosso encontro na Palavra de Deus que escutamos nas nossas celebrações eucarísticas; mas Ele também vem ao nosso encontro na indignação das vítimas das injustiça, no olhar dolorido de uma criança com fome, no pedido de auxílio de um imigrante sem papéis, na tristeza de um velho sem família e sem amor, no sofrimento de um doente terminal, no grito silencioso de um pobre abandonado na berma da estrada, nas lágrimas de uma mulher vítima de violência, na revolta do “condenado” que exige ser respeitado na sua dignidade… Conseguimos reconhecê-l’O? Somos capazes de escutar os seus apelos? Dispomo-nos a acolhê-l’O?
A parábola não revela por que razão as jovens “insensatas” se esqueceram de levar azeite de reserva para as suas lamparinas… Talvez não tenham equacionado bem a questão das prioridades e tenham virado a sua atenção para coisas secundárias, negligenciando o essencial. Acabaram por deixar para trás algo que veio a revelar-se decisivo quanto à presença naquela festa imperdível. A questão das prioridades poderá ser, também para nós, uma questão que decide o êxito ou o fracasso da nossa existência. É fácil ir “na onda”, preocupar-se com o imediato, o visível, o efémero (o dinheiro, o poder, os aplausos, a imagem, os “cinco minutos” de fama, o prazer instantâneo, a gratificação rápida…) e negligenciar os valores duradouros. Mateus, com algum dramatismo, avisa-nos que só os valores do Evangelho nos asseguram a participação no banquete do Reino. O objetivo de Mateus não é dizer-nos que, se não nos portarmos bem, Deus nos castiga com o inferno; mas é alertar-nos para a seriedade com que devemos avaliar as nossas opções, de forma a não perdermos oportunidades para nos realizarmos e para chegarmos à felicidade plena e definitiva. Como está a nossa lista de prioridades? Que lugar ocupam nela os valores essenciais, os valores eternos?
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