Candidatos que estão na lista dos 100 maiores políticos influenciadores obtiveram 16% dos votos ao Legislativo
Por William Brizola, Lucas Keske, Bruno Ponceano e Francielly Barbosa
As eleições gerais de 2026 representaram a consolidação de um tipo de político que vem ganhando cada vez mais espaço: o influencer. Diferentemente dos influenciadores que tentam a vida pública, grande parte dos eleitos são “políticos de carreira” que jogam o jogo das redes para atingir grandes públicos e somar números expressivos.
Eles trazem a estética das redes para suas argumentações políticas, realizando uma campanha baseada sobretudo em reels no feed. Com isso, fazem das redes sociais parte central da estratégia de campanhas que consolidam votações recordes.
Engajamento não significa necessariamente uma eleição certa, mas é um bom impulso. Um levantamento realizado pelo Estadão mostra que, entre os políticos mais influentes no Instagram, 64 foram eleitos, dois estão no segundo turno, mas outros 17 ficaram sem cargos. O índice de eleição neste grupo se aproxima de 80%. Veja abaixo o desempenho dos 100 políticos mais influentes na rede.
Dentre os dez mais influentes, oito são filiados ao Partido Liberal (PL). Com a exceção do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que não concorreu, e seu irmão Flávio, que ainda disputa a Presidência da República contra Luiz Inácio Lula da Silva (posição no ranking: 11º) no segundo turno, todos foram eleitos.
Nikolas Ferreira (PL-MG), o deputado federal reeleito mais votado da história, com mais de três milhões de votos, lidera isolado em engajamento médio. Em seguida, surgem os nomes da senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL-DF) e do deputado federal eleito Lucas Pavanato (PL-SP). O deputado federal reeleito Sargento Fahur (PL-PR), a deputada federal eleita Eduarda Campopiano (PL-SP) e o deputado federal reeleito André Fernandes (PL-CE) complementam a lista de integrantes do PL.
A deputada federal reeleita Erika Hilton (PSOL-SP), mulher mais votada da Câmara, aparece na 4ª posição. Carlos Bezerra Jr. (PSD-SP), eleito deputado federal, completa o ranking.
O relatório que mapeia os nomes mais influentes da política nacional na rede foi realizado pela ZEENG, plataforma brasileira que agrega dados de desempenho e engajamento nas redes sociais. O estudo analisou o engajamento médio dos perfis dos políticos entre janeiro e junho deste ano e considerou como principal métrica a média de interações em cada publicação no feed, especificamente curtidas e comentários.
“O engajamento médio acaba estabilizando todos os perfis analisados ao longo de um determinado período de tempo. Olhando por essa perspectiva, acabamos eliminando a volatilidade de desempenho de um determinado perfil”, explica o realizador do estudo e CEO da ZEENG, Eduardo Prange.
A escolha específica pelo Instagram vem da grande representatividade encontrada na rede, em comparação com outras. Para Prange, a plataforma reúne uma presença “relevante de diferentes públicos e acaba contemplando melhor todas as bolhas”.
Transformando like em voto
O engajamento pode ser um grande indicativo da atenção que um político recebe, mas não significa que todos serão capazes de transformar esse tempo de tela em votos.
Em alguns casos, políticos já conhecidos pelos eleitores ou que investem em outros formatos de campanha podem aparecer no gráfico acima de candidatos que detêm maior influência digital.
Votos dos candidatos x Engajamento médio no Instagram
Candidatos com melhor relação entre engajamento e votos disputaram cargos legislativos
A diferença de pouco mais de dois milhões de votos entre Flávio Bolsonaro e Lula no primeiro turno das eleições foi maior no engajamento. Enquanto o candidato do PL ocupa a 5a posição no ranking, Lula é o 11º. Esses números podem ajudar a explicar a diferença de votação entre os candidatos, mesmo que outros aspectos, fora as redes, entrem nesta equação.
Depois dos candidatos à Presidência, o político mais eficiente em transformar “like” em voto foi o senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP). Ele aparece como o 68o nome mais influente no Instagram, com um número de 24,5 mil interações por publicação, baixo se comparado com outros da lista. Ao fim do primeiro turno, Derrite foi o senador mais votado por São Paulo, com 13,2 milhões de votos, e passa a ocupar o cargo pela primeira vez.
O senador eleito figura ao lado de Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito governador do Estado de São Paulo no primeiro turno, com 14,5 milhões de votos. Ambos aparecem acima de Fernando Haddad (PT), que concorreu com Tarcísio.
Os 10 políticos mais influentes figuram todos ao lado mais à direita do gráfico, ou seja, tendo uma relação quase que direta entre engajamento e voto. Contudo, nem sempre na mesma ordem do ranking: candidatos como André Fernandes (PL-CE), que é o 10º em influência, aparece acima de Sargento Fahur (PL-PR), 6º.
Carlos Bezerra Jr. (PSD-SP), eleito deputado federal, terminou com um dos piores desempenhos quando se compara seu engajamento e os votos recebidos. Com uma média de mais de 127 mil interações por post, somou menos de 90 mil votos nesta eleição. Mesmo sendo o 8º político mais influente, figurou abaixo no gráfico.
Com exceção da deputada federal Erika Hilton, 4a em engajamento médio, nomes conhecidos da esquerda aparecem mais abaixo e à esquerda do gráfico. Os deputados federais Sâmia Bomfim (PSOL-SP), Rick Azevedo (PSOL-RJ) e Duda Salabert (PSOL-MG), embora eleitos, acumularam menos engajamento médio nas redes sociais ao longo do primeiro semestre do ano e converteram menos interações por publicação em votos.
Preferência pelo Legislativo para concordar nas redes
Candidatos influenciadores no Instagram receberam cerca de 16% de todos os votos disputados em seus Estados para o Legislativo. Dentre os 544 milhões de votos válidos (cada eleitor poderia votar duas vezes para senador, uma para deputado federal e outra para deputado estadual/distrital), mais de 87 milhões foram para os 83 influencers que se candidataram.
Os influencers eleitos alcançaram, ao todo, mais de 64 milhões de votos. Ou seja, 20,6% dos votos válidos.
Distribuição dos votos no primeiro turno
Candidatos influencers receberam mais de 87 milhões de votos (64.268.837 eleitos e 23.163.032 não eleitos)
Para Camilo de Oliveira Aggio, professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), não é por acaso que a maior parte dos candidatos influenciadores disputam as eleições proporcionais, ou seja, para o Poder Legislativo. Segundo ele, a forma como esse tipo de eleição ocorre é semelhante ao funcionamento das redes.
“A disputa para o Legislativo costuma estar profundamente relacionada com o modo como as relações se estabelecem nas plataformas digitais: são interações profundamente segmentadas. Os candidatos não precisam conquistar um segmento heterogêneo e profundamente diversificado. Basta eles jogarem esse jogo cada vez mais tribal e que é cada vez mais natural para as plataformas digitais” Camilo de Oliveira Aggio, Professor da UFMG
A maioria (55) dos políticos mapeados como os mais influentes no Instagram pertence a partidos de direita. Desses, 40 são do Partido Liberal, do ex-presidente Jair Bolsonaro e de Flávio Bolsonaro.
“A direita sempre conseguiu engajar mais nas redes sociais, desde o impeachment da presidente Dilma Rousseff”, avalia Helcimara de Souza Telles, professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Ela observa que enquanto a esquerda disseminava suas pautas a partir de organizações sindicais, entre os grupos de direita, a relação entre rede e indivíduo era direta. Para a pesquisadora, “é natural que uma parte desses influenciadores possa ser eleita não apenas porque estão nas redes, mas porque tem uma pauta nas plataformas”.
Também coordenadora do grupo de pesquisa “Opinião Pública, Marketing Político e Comportamento Eleitoral”, ela cita o caso do deputado federal Nikolas Ferreira, que já era um político profissional e se tornou famoso nas redes a partir também das campanhas endereçadas a fiéis de igrejas evangélicas.
Procurado sobre a atuação de candidatos nas redes sociais, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou que as regras sobre propaganda eleitoral na internet, inclusive em plataformas como o Instagram, estão previstas na Resolução nº 23.755/2026, atualizada para as eleições de 2026.
Nela, no Art. 27, o TSE prevê que a livre manifestação do pensamento somente é passível de limitação quando “ofender a honra ou a imagem de candidatas, candidatos, partidos, federações ou coligações, ou quando divulgar fatos sabidamente inverídicos”.
Também questionada, a Meta não se manifestou sobre as políticas de uso do Instagram por candidatos influenciadores em período eleitoral. Porém, na última sexta-feira, 16, a empresa publicou uma nota pública em que afirma não estar interferindo nas eleições brasileiras e esclarece que “a conta de anúncios da campanha de Lula foi desativada por engano por pouco mais de 1 hora, e não por razões políticas”.
Novo método para ‘puxar voto’
Com as votações recordes concentradas em alguns nomes, como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, o Partido Liberal conquistou 22 cadeiras “extras” na Câmara dos Deputados. Apenas o deputado mineiro “puxou” 13 colegas.
Dentre eles, estão outros candidatos prolíficos nas redes, como o reeleito Paulo Bilynskyj (PL-SP) e o eleito Carmelo Neto (PL-CE). Com isso, a “Bancada do Like” foi preenchida com 39 dos 513 deputados.
Influenciadores eleitos no Legislativo
No total, influenciadores vão ocupar 52 cadeiras nas câmaras do legislativo
A estratégia bem amarrada pelos articuladores do PL permitiu usar os influenciadores não só para auxiliarem na entrada de outros influenciadores, como também na de outros políticos. Pelo menos 20 candidatos, que não integram os mais influentes, foram beneficiados pelos números recordes de seus colegas.
O quociente eleitoral para a Câmara dos Deputados é calculado dividindo o total de votos válidos pelo número de vagas disponíveis em cada Estado. As cadeiras são distribuídas proporcionalmente aos votos recebidos pelos partidos e federações e, depois, preenchidas pelos candidatos mais votados que atendam aos requisitos legais, como ter obtido pelo menos 10% dos votos proporcional ao quociente (cláusula de desempenho individual).
A mesma lógica não foi efetiva no caso do Partido Socialismo e Liberdade. Erika Hilton (PSOL-SP) ficou logo atrás de Pavanato em sua votação, mas puxou apenas Sônia Guajajara (PSOL-SP), mesmo tendo quociente eleitoral para alavancar a candidatura de três cadeiras. Raul Marcelo (PSOL-SP) e Juliano Medeiros (PSOL-SP), que poderiam ser beneficiados com a votação dela, não superaram a cláusula de desempenho individual.
Influencers geram engajamento no debate
Com as campanhas de boa parte desses candidatos influenciadores encerradas, e a maioria deles eleita já no primeiro turno, o grupo ganha um novo papel: atuar no segundo turno da disputa presidencial entre Flávio Bolsonaro e Lula.
A forma como se posicionaram no debate Band/Estadão, realizado no domingo, 18, entre os presidenciáveis, oferece uma prévia de como devem atuar nos novos cargos. Confira abaixo os principais destaques.
1º - Nikolas Ferreira (PL-MG)
Estava presente no debate e gravou vídeos confrontando outros candidatos
3º - Lucas Pavanato (PL-SP)
Também estava presente no debate, postou quatro reels ao longo da noite fazendo memes e confrontando outros candidatos
4ª - Erika Hilton (PSOL-SP)
Não estava presente no debate, mas repostou cortes de falas do Lula e seu desfile na SPFW
14º - André Janones (Rede-MG)
Estava presente no debate e postou um reels mobilizando sua rede de seguidores
8º - Carlos Bezerra Jr. (PSD-SP)
Não estava presente no debate, mas postou um reels criticando o desempenho dos candidatos
Reportagem: Lucas Keske e Francielly Barbosa; Dados: Lucas Keske; Desenvolvimento e Design multimídia: William Brizola e Bruno Ponceano; Editora de infografia multimídia: Regina Elisabeth Silva; Editores-assistentes de infografia multimídia: Adriano Araujo e William Mariotto; Editor: Ricardo Corrêa; Editor-executivo de Política: Renato Andrade; Editor-executivo de Brasília: Murilo Rodrigues Alves Fonte: www.estadao.com.br




