Quem é que preside à história do mundo? É Deus, ou são esses pequenos “césares” que se julgam no direito de impor aos seus irmãos os seus projetos pessoais e os seus sonhos megalómanos? As leituras que a liturgia do 29º Domingo do Tempo Comum apresenta recordam-nos que Deus é o único Senhor do Universo. É n’Ele que temos de colocar a nossa esperança; é a Ele que devemos confiar a nossa vida; é para Ele que devemos caminhar; é a Sua vontade que devemos abraçar.
No Evangelho Jesus é questionado pelos discípulos dos fariseus e pelos partidários de Herodes Antipas sobre o pagamento do imposto devido ao imperador de Roma. Jesus aproveita para recordar-lhes que, bem mais do que “devolver a César o que pertence a César”, é importante “devolver a Deus aquilo que pertence a Deus”. Para Jesus, Deus tem de ser a nossa prioridade; os interesses de Deus, os projetos de Deus, as indicações de Deus têm de estar na primeira linha das nossas preocupações.
*INTERPELAÇÕES (Mateus 22,15-21)
Jesus aproveita a questão sobre o pagamento do imposto exigido pelo imperador de Roma para lembrar aos líderes religiosos de Israel algo que eles nunca deviam ter esquecido: a preocupação fundamental do ser humano tem de ser “restituir a Deus aquilo que pertence a Deus”. Na verdade, o povo de Deus havia esquecido os mandamentos de Deus, vivia afastado de Deus, tinha optado por caminhos à margem de Deus… Ao proceder dessa forma, tinha defraudado Deus. “Restituir a Deus aquilo que Lhe pertence” será, neste quadro, voltar para Deus, escutar novamente as indicações de Deus, colocar Deus no centro da própria vida. Na verdade, a chamada de atenção que Jesus faz é justa e conveniente. Servirá também para nós, homens e mulheres do séc. XXI? Embalados pela embriaguez de uma liberdade sem fronteiras, entusiasmados com as conquistas da ciência e da técnica, enganados pela falsa convicção da nossa invulnerabilidade, instalados num conforto que nos faz esquecer o essencial, decidimos que não precisávamos de Deus e que podíamos, à margem de Deus, dar sentido à nossa vida. Assim defraudamos Deus, tiramos-lhe algo que Lhe pertencia. “Devolver a Deus o que pertence a Deus” não será, então, regressar ao encontro de Deus, abandonar os caminhos de orgulho e de autossuficiência em que temos andado, acolher com amor e humildade os desafios de Deus, abraçar a proposta de Deus que nos chegou através de Jesus? Estamos dispostos a isso?
De acordo com a lógica de Jesus, se a imagem de César estava inscrita na moeda do tributo, essa moeda pertencia a César e devia ser devolvida a César. Do mesmo modo, se o homem e a mulher foram feitos à “imagem de Deus” e transportam em si a imagem de Deus, eles pertencem a Deus e devem ser “devolvidos” a Deus… No entanto, esquecemos frequentemente que cada homem e cada mulher são filhos queridos de Deus e pertencem a Deus. Admitimos que os “césares” do mundo criem mecanismos de injustiça e de opressão que são responsáveis pelo sofrimento e pelas lágrimas de milhões de seres humanos; aceitamos que a ditadura de uma economia sem rosto e sem coração mantenha amarrados numa miséria sem saída tantos e tantos dos nossos irmãos; consentimos, com o nosso comodismo e com a nossa indiferença, que os mais pobres, os mais humildes, os mais frágeis, sejam explorados, violentados, abandonados na berma da estrada que a humanidade percorre. Poderemos continuar a deixar que tantos e tantos homens e mulheres sejam vendidos, usados, feridos, destruídos, diante dos nossos olhos? “Devolver a Deus o que pertence a Deus” não será lutar objetivamente contra tudo aquilo que destrói a vida e a dignidade dos filhos queridos de Deus? O que podemos fazer para devolver a Deus esses filhos que Lhe foram roubados pelo egoísmo, pela injustiça, pela violência, pela ganância, pela maldade?
Jesus deixou claro que Deus tem de ser a nossa referência fundamental e deve estar em primeiro lugar nas nossas escolhas, nos nossos interesses e nas nossas preocupações. Isso não significa, no entanto, que vivamos de olhos postos no céu, alheados do mundo e que negligenciemos as nossas responsabilidades sociais e comunitárias. Fazemos parte de um “corpo social”; partilhamos os sonhos, os anseios e as aspirações dos nossos irmãos e irmãs; somos solidários com os outros homens e mulheres que são nossos companheiros na viagem da vida. Esse “compromisso social” deve traduzir-se no cumprimento dos nossos deveres cívicos, no acatamento das leis fiscais vigentes, na recusa em favorecer esquemas de corrupção e de suborno, no respeito pelas leis justas estabelecidas pelos competentes órgãos de soberania, na promoção do bem comum, na participação ativa na construção de uma sociedade mais justa, mais solidária, mais fraterna, mais humana. Cumprimos os nossos compromissos enquanto cidadãos e membros responsáveis da sociedade?
No entanto, o nosso compromisso com a sociedade não pode impedir-nos de olhar para as estruturas de poder com um olhar crítico. É provável que nem todos os projetos políticos que nos são propostos estejam em consonância com os valores do reino de Deus; é bem possível que nem todos os “nichos” ideológicos que ocupam um determinado espaço no espectro político sejam aceitáveis à luz do Evangelho; é provável que nem todas as propostas dos nossos líderes ajudem a concretizar o mundo de justiça, de entendimento, de inclusão, de fraternidade que Deus sonhou para os seus filhos; é possível que nem todas as sugestões que nos são “vendidas” contribuam para nos tornar mais livres, mais realizados e mais felizes. Compete-nos, neste cenário, avaliar as propostas que estão em cima da mesa, manter o discernimento, defender a verdade, lutar pelos valores em que acreditamos... É isso que fazemos?
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