Um estudo do IBGE mostrou que a exclusão no Brasil pode ser ainda mais desumana com as pessoas com deficiência, deixando-as às margens da educação, do mercado de trabalho e da cidadania
Um estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) às vésperas do Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência atestou como o Brasil, que já é muito desigual, pode ser ainda mais excludente com uma parcela significativa de sua população.
Ao compilar dados do Censo 2022 e de outras pesquisas, o informativo Pessoas com Deficiência e as Desigualdades Sociais no Brasil revelou algo perturbador: apesar do discurso oficial de inclusão social, o País está distante de promover a igualdade.
No Brasil, são 14,4 milhões de pessoas com deficiência física, visual, auditiva ou intelectual – ou seja, 7,3% da população. Nada menos do que 3,9 milhões desses brasileiros vivem com duas ou mais dessas condições concomitantemente. E, infelizmente, boa parte deles ainda é empurrada para as margens da sociedade.
Segundo o informativo do IBGE, essa exclusão começa bem cedo, e dentro de casa. Enquanto 21,5% dos brasileiros com 2 a 17 anos vivem numa residência somente com a mãe ou a madrasta, chega a 30,1% o porcentual de indivíduos com deficiência nas mesmas condições. Portanto, o estudo confirmou em números o que pode ser visto no dia a dia das famílias: o cuidado com os filhos pesa mais sobre as mulheres.
É por isso que é tão comum ver mães com filhos nos braços em filas Brasil afora em busca de tratamento e assistência. Para piorar, essas mães e seus filhos são vítimas de algo ainda mais cruel: o abandono de pais e padrastos, que, segundo o relatório do IBGE, deixam suas famílias por causa de “sentimentos de rejeição às pessoas com deficiência” – ou seja, o preconceito ou a incapacidade de lidar com a situação.
E, se falta suporte em casa, tampouco sobra na escola. Enquanto o analfabetismo entre brasileiros com idade entre 15 e 29 anos na população em geral é de 1%, a taxa sobe a 12,2% quando se trata de pessoas com deficiência na mesma faixa etária. Desigualdade semelhante se repete em todas as idades estudadas.
No Brasil, as desigualdades vão se arrastando e se aprofundando ao longo da vida. Prova disso é que o nível de ocupação das pessoas com deficiência é de 29%, ante uma taxa de 56% entre as pessoas sem deficiência. E sua renda mensal média é de R$ 2.053, o equivalente a 71% da renda da população em geral.
A exclusão, portanto, não parece ser excepcional. Sem acesso à educação em virtude da falta de acessibilidade nas escolas, do despreparo dos professores para acolher os alunos e da ausência de um projeto pedagógico efetivamente inclusivo, o círculo é vicioso: a formação precária afasta as pessoas com deficiência dos melhores postos de trabalho, sobrecarregando, na velhice, a Seguridade Social.
A taxa de pobreza das pessoas com deficiência e das pessoas sem deficiência é praticamente igual, girando em torno de um terço da população. Isso ocorre porque mais de 40% das pessoas com deficiência têm mais de 60 anos, e boa parte delas recebe parcelas previdenciárias ou assistenciais, sobretudo o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Já na parcela mais jovem, o abismo se abre: 60,9% das crianças de 2 a 14 anos de idade com deficiência vivem na pobreza, contra 52,5% das crianças sem deficiência.
Em que pese o Estatuto da Pessoa com Deficiência estar em vigor há uma década, o Brasil, como mostrou o informativo do IBGE, tem fracassado com esses brasileiros em praticamente todas as dimensões de suas vidas, privando-os de educação de qualidade, do acesso ao mercado de trabalho, de bens de consumo e serviços, do acesso à internet e da participação política, entre tantos outros direitos.
Como se vê, são muitos os obstáculos ainda a serem superados para a conquista da cidadania plena. E não bastassem o preconceito e a discriminação, as pessoas com deficiência têm contra si um poderoso adversário: a má vontade do Estado brasileiro. Fonte: https://www.estadao.com.br




