Talvez seja preciso dar um passo atrás e falar da ética de outro ponto de vista: aspirações, ideais e qualidades humanas

 

Por Nicolau da Rocha Cavalcanti

Parece evidente que precisamos, no Brasil, falar mais de ética: nas escolas, nas universidades, nas famílias, nas empresas, nos partidos políticos, nas entidades de classe, nos órgãos estatais. Falar do valor da verdade e da honestidade, recordando a todos – sobretudo às novas gerações – a importância de ser íntegro. Atuar eticamente tem um custo, especialmente se o ambiente está acostumado a um patamar moral baixo, tolerando comportamentos equivocados e ridicularizando quem busca agir de forma íntegra.

Sim, podemos e devemos falar mais de ética. Mas temo que seja insuficiente falar do dever-ser ético. Talvez seja preciso dar um passo atrás e falar da ética de um outro ponto de vista. Não apenas de obrigações, limites e regras, mas de aspirações, ideais e qualidades humanas admiráveis: das virtudes. Penso aqui na humildade, na generosidade e na magnanimidade. Sem essas três virtudes, a ética fica um pouco manca, postiça, superficial.

Uma observação. Falar de ética não é dividir o mundo entre “bons” e “maus” – visão binária não apenas falsa, mas que costuma ser tolerante com os erros ocultos dos “bons”. É falar das nossas carências e limitações, assim como das nossas aspirações, dos nossos melhores sonhos, daquilo que verdadeiramente pode nos realizar.

Falar de ética nunca é indolor. É tocar em nossas contradições, em nossos enganos, individuais e coletivos. Um exemplo. Ter o enriquecimento como a principal meta profissional não é eticamente neutro, como se fosse uma opção a mais, entre outras possíveis. Tal escolha expressa uma peculiar hierarquia vital de valores, na qual os bens materiais ganham ascendência sobre outros bens humanos.

Em si, o dinheiro não tem nenhum desvalor ético. Pode ser meio para muitas coisas louváveis: mais tempo livre, mais convivência com as pessoas que amamos, mais modos de contribuir com o desenvolvimento da nossa família, mais oportunidades de servir à sociedade. A questão é o sentido que lhe damos. Normalizar o enriquecimento como o grande propósito vital é limitante, com efeitos sobre todo o tecido social, a começar por reduzir a sensibilidade para as questões éticas.

Na tarefa de resgate da ética, seria muito positivo voltar a falar de humildade nas escolas, nas famílias, nas empresas. Humildade não é depreciar-se, pensar mal de si. É andar na verdade, é ter uma avaliação justa sobre si mesmo. Talvez seja uma das qualidades mais admiráveis: a serenidade de saber seu justo valor, sem a comichão de alardear méritos, competências e títulos. Por contraste, como é desagradável quem se acha superior aos outros, seja em razão do patrimônio, da origem familiar, da formação acadêmica, do cargo ou do currículo profissional.

Humildade é ter consciência dos nossos pontos cegos, das nossas limitações cognitivas. Ou seja, viver essa virtude inclui respeitar as posições divergentes, as sensibilidades diversas, as diferentes propostas de resolução das questões públicas. Como alertou Isaiah Berlin, pretensões de certeza exclusiva conduzem a atitudes autoritárias, com a tentativa de impor as próprias ideias à coletividade. O bom funcionamento da democracia demanda uma ética da modéstia intelectual.

O mundo contemporâneo também está necessitado da virtude da generosidade. Trata-se de um binômio admirável: a capacidade de enxergar o outro, com suas necessidades concretas e a liberdade interior de dar, de ir além do estritamente devido. É a compreensão madura de que, ao nosso lado, está uma pessoa, uma comunidade, uma sociedade carente da nossa participação. Mais do que cumprir determinadas regras – como se o itinerário fosse idêntico para todos –, a ética consiste em entender a dinâmica profunda das relações humanas, sentindo-se instado a contribuir, a somar, a ajudar. A não ser indiferente às dores e carências da outra pessoa.

Vinculada a essas duas virtudes está a magnanimidade. Ao reconhecer serenamente quem se é e ao estar desprendido de si, quem é magnânimo – quem tem a alma grande – aspira a realizações grandes, isto é, a processos e resultados à medida da dignidade humana. Não apenas quer ter poder, riqueza ou fama, mas almeja deixar um legado de serviço, de alegria, de respeito, capaz de transformar muitas vidas. E precisamente porque seus sonhos são grandes, sabe que sozinho é impotente e vê a necessidade de conviver e de congregar esforços com muitas outras pessoas.

Queremos mais verdade e mais honestidade na vida pública? Falemos mais dos deveres de não mentir, de não ser corrupto ou de não ignorar os conflitos de interesse. Mas não deixemos que a ética seja reduzida a seus limites mínimos. Busquemos, cada um dentro do seu personalíssimo caminho, que a ética esteja presente na vida real, sendo mais humildes, mais generosos, mais magnânimos.

Não é uma competição por performance ou por aplauso. É outra lógica, incrivelmente mais bonita, mais entusiasmante, mais fecunda. É procurar viver – em sua plenitude, em sua leveza, também em seus riscos – em conformidade com a dignidade humana. Fonte: https://www.estadao.com.br