O barro podre da política fluminense
Nova operação da PF confirma que hoje, no Rio, é impossível dissociar crime organizado de política – e é perturbador imaginar que essa relação possa almejar o poder federal
É lamentável, mas, à luz dos fatos, é impossível dissociar a política do Rio de Janeiro do crime organizado. A 5.ª fase da Operação Unha e Carne, deflagrada na quinta-feira passada pela Polícia Federal (PF), pode ser recebida com alívio por quem ainda espera do Estado alguma reação à audácia de traficantes de drogas, milicianos e bicheiros. No entanto, é difícil separar esse alívio de um desalento mais profundo. De mandado judicial em mandado judicial, vê-se que a política fluminense não é apenas tisnada por ligações circunstanciais com criminosos – em boa medida, está a serviço deles.
As prisões do pastor Márcio Poncio, pai da deputada estadual Sarah Poncio (Solidariedade), do capo do jogo do bicho Adilson Oliveira Coutinho Filho, vulgo Adilsinho, e do ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) Rodrigo Bacellar (União Brasil) guardam relação com outra operação que apurou vazamentos de ações policiais contra o Comando Vermelho (CV) e hoje atingem nomes que figurariam numa suposta folha de pagamento do jogo do bicho. Em conjunto com essas prisões, seguem em curso investigações sobre a atuação do CV, das milícias e das máfias dos combustíveis e do cigarro que também têm ramificações na política fluminense. Não há mais como tratá-las como exceção.
Lembremos que o sr. Bacellar, que já estava preso sob suspeita de servir aos interesses do CV, só não governou o Rio de Janeiro por um triz. Numa manobra engenhosa, Thiago Pampolha, então vice do ex-governador Cláudio Castro (PL), foi indicado conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, abrindo caminho para que Bacellar assumisse a presidência da Alerj e, assim, entrasse na linha sucessória do Palácio Guanabara. Castro renunciaria para disputar o Senado, e Bacellar concorreria ao governo em outubro, já na cadeira. Isso só não aconteceu porque a PF foi a chata da festa.
Todo esse ecossistema tem um DNA político-ideológico. É forçoso lembrar que Bacellar, Castro e boa parte dos nomes que aparecem nessas operações policiais pertencem ao grupo político do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência. Isso precisa ser levado em conta porque Flávio se apresenta para governar o Brasil. Mesmo a mais remota hipótese de que o crime organizado possa ver na eventual eleição de Flávio uma oportunidade de alcançar também o poder federal é perturbadora. Por isso, o pré-candidato precisa ser cobrado a se posicionar com clareza a esse respeito.
Ademais, ressalte-se que a Operação Unha e Carne, ao aprofundar o cerco sobre aliados políticos dos Bolsonaros no Rio de Janeiro, desmonta o suposto compromisso que a direita, em geral, e o senador, em particular, dizem ter com a pauta da segurança pública.
A direita brasileira, em particular o bolsonarismo, construiu o discurso – donde vem sua força eleitoral – sobre a bandeira da linha dura no combate ao crime organizado. A violência urbana, de fato, é um problema que aparece recorrentemente entre as principais preocupações dos eleitores. Mas esse discurso não vale o papel em que está escrito quando se nota que Flávio Bolsonaro aparece cercado de gente suspeita de envolvimento com as mesmas organizações criminosas que se pretende combater.
A cada nova fase de operações como a Unha e Carne ou Zargun – que prendeu o ex-deputado estadual Thiego dos Santos Silva, vulgo TH Joias, outro acusado de ser membro do CV –, fica mais difícil sustentar a separação entre quem diz enfrentar a criminalidade e quem, na prática, convive com ela sem maiores constrangimentos.
A rigor, a Polícia Federal, por determinação do Supremo Tribunal Federal, tem feito um trabalho que caberia primordialmente à própria política fluminense, em particular os partidos, fazer por si mesma: depurar seus quadros. Mas, enquanto isso não ocorre, cada nova operação policial, como a deflagrada no dia 2 passado, continuará confirmando o óbvio: no Rio de Janeiro, o crime organizado e o poder público não se cruzam por acidente. Fonte: https://www.estadao.com.br




