Comunicado enviado à agência de notícias AFP afirma que diretora franco-iraniana morreu de desgosto e tristeza por conta do falecimento do marido, em 2025
A escritora franco-iraniana Marjane Satrapi morreu nesta quinta-feira, 4, "de tristeza", pouco mais de um ano após a morte do marido Foto: Bertrand Guay/AFP
Por Roberta Jansen
A autora e diretora franco-iraniana Marjane Satrapi, mais conhecida pela graphic novel e pelo filme Persépolis, morreu aos 56 anos, nesta quinta-feira, 4. Em comunicado enviado à agência de notícias France Presse (AFP), uma pessoa próxima à família informou que Marjane “morreu de tristeza pouco mais de um ano depois da morte de Mattias Ripa, seu marido e amor da sua vida”. Mas será mesmo possível morrer de tristeza, desgosto?
Segundo Victor Cravo, coordenador das Unidades de Terapia Intensiva (UTI) dos hospitais Samaritano e Vitória, na Barra, na zona sudoeste do Rio de Janeiro, a medicina prevê o que ficou conhecido como síndrome do coração partido, tecnicamente chamada de cardiomiopatia de Takotsubo. Trata-se de um súbito e temporário enfraquecimento do músculo cardíaco tipicamente provocado por estresse físico ou emocional extremo, como a perda de uma pessoa amada, uma discussão acalorada ou mesmo um evento de intensa alegria.
Ainda de acordo com o especialista, os sintomas são muito parecidos ao de um infarto, mas sem a obstrução das artérias coronárias. Justamente por isso, aponta Cravo, é muito difícil morrer por esse tipo de cardiomiopatia.
A taxa de mortalidade hospitalar varia de 1% a 4%. Embora a condição seja reversível na maioria das vezes, o estresse extremo pode paralisar o músculo cardíaco de forma severa, levando a complicações fatais nas primeiras horas.
Conforme mostrou o Estadão em 2019, um estudo realizado por pesquisadores da Universidade do Arkansas, nos Estados Unidos, apontou que mulheres com menos de 55 anos são nove vezes mais propensas a sofrer com a chamada Síndrome do Coração Partido em relação aos homens dessa idade.
Os pesquisadores avaliaram um banco de dados de cerca de mil hospitais americanos. “A maior incidência são nas mulheres e geralmente no período pós menopausa. Caracteriza-se pelo enfarte do miocárdio com as artérias do coração normais, ou seja, sem obstruções. A única maneira de preveni-la é evitando situações de grande estresse emocional”, afirmou em entrevista ao jornal o cardiologista Dante Senra.
Um estudo ainda mais antigo, divulgado em 2012, indicou que, nos primeiros dias após a morte de uma pessoa querida, o risco de infarto do miocárdio aumenta até 21 vezes. Os especialistas consideram que os sentimentos são mais intensos no primeiro ano do luto. Nesse período, pode surgir uma sensação de peso no peito, semelhante à dor do infarto. Também pode haver falta de ar intensa, tal qual numa insuficiência cardíaca.
O cardiologista Jasvan Leite, do Hospital do Coração (Hcor), explicou ao Estadão que algumas partes do coração são mais suscetíveis às emoções. É o caso do ventrículo esquerdo, o mais afetado por descargas hormonais intensas. Por conta do excesso de estresse durante momentos como o luto, esse músculo se contrai de forma desordenada e não consegue distribuir o sangue de maneira normal.
Uma outra possibilidade para a morte de Marjane é que a família tenha optado por tratar dessa forma o óbito decorrente de uma depressão profunda ou até mesmo de um suicídio. Desde a morte do marido, a página do Instagram da autora consistia quase que exclusivamente de uma série de imagens que formavam a frase “Pois perdi o amor da minha vida”, juntamente com uma foto dele.
A tristeza extrema e a depressão enfraquecem o sistema imunológico. Com isso, o organismo fica mais suscetível a infecções graves. Além disso, pessoas em sofrimento profundo podem negligenciar cuidados básicos, como se alimentar direito, dormir ou tomar medicamentos essenciais para outras doenças crônicas. “Uma pessoa em depressão profunda pode simplesmente parar de comer”, exemplifica o médico intensivista Victor Cravo.
Quem foi Marjane Satrapi
A autora nasceu em Rasht, no Irã, em 1969, mas se mudou para a França em 1994. Sua trajetória profissional é marcada por temas como autoritarismo, exílio, memória, identidade e a vida das mulheres iranianas.
Conhecida por seu posicionamento firme em defesa dos direitos humanos, foi uma crítica ferrenha ao governo teocrático do Irã. Defendia a liberdade como princípio universal. Criticava a imposição do véu e também a proibição de seu uso e sob o argumento de que a autonomia das mulheres deveria estar acima de qualquer imposição política ou religiosa.
A autora se tornou uma porta-voz das mulheres do Irã após o início dos protestos na República Islâmica, que começaram por conta da morte, em 2022, de Mahsa Amini, uma mulher curda iraniana de 22 anos. Ela morreu enquanto estava sob custódia por supostamente ter violado o código de vestimenta para mulheres.
No ano passado, Satrapi recusou a condecoração da Legião de Honra francesa devido à “hipocrisia” do país em suas relações com o Irã, citando as políticas de visto francesas que impediam dissidentes de deixar o Irã para ir para o país europeu.
Ela dirigiu vários filmes, incluindo uma adaptação cinematográfica de 2007 de Persépolis, em parceria com Vincent Paronnaud. O filme ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e foi indicado ao Oscar. Fonte: https://www.estadao.com.br




