Família tradicional paulista denunciou Marcos Fontana, que se apresentava como monsenhor católico

OUTRO LADO: acusado diz que só se pronunciará em juízo, mas admitiu para vítima receber doações para orfanato que nunca existiu

 

Fontana se apresentava como monsenhor para fiéis, como a artista plástica Elisa Stecca e seus familiares

 

Eliane Trindade

São Paulo

Ao longo de mais de uma década, monsenhor Marcos frequentou a casa, distribui bênçãos e participou de ritos importantes dos Stecca e de outras famílias católicas tradicionais de São Paulo.

"Ele tem uma oratória maravilhosa. Encomendou o corpo da minha mãe com palavras lindas", recorda-se a artista plástica Elisa Stecca, sobre a presença do religioso no velório da matriarca em 30 de julho de 2024.

O padre privava do apreço e da confiança de todos e contava com suporte financeiro para manter uma casa de acolhimento para crianças. No entanto, o homem que se apresentava paramentado como um sacerdote católico era um impostor, segundo a família.

A descoberta veio após a morte da mãe, quando Elisa fez uma doação "generosa" em dinheiro para o orfanato que o padre se dizia à frente, além de passar a contribuir com cestas de Natal e presentes para as crianças.

"Toda hora ele me pedia uma ajuda financeira para comprar remédio ou trocar ventiladores queimados da casa", diz Elisa, que guarda extratos bancários, como o de uma transferência no valor de R$ 5.200.

Ela começou a desconfiar de que havia algo errado quando pediu para fazer uma visita ao abrigo infantil. "Ele disse que as crianças eram protegidas pelo Estado e não poderiam ser visitadas."

A negativa acendeu o alerta e fez a artista plástica procurar a madrinha, Benedita de Almeida Bego que apresentara o monsenhor à família, onde sempre fora tratado com a deferência devida ao título de honra concedido pelo Papa por méritos especiais.

Diante da exigência do CNPJ e do endereço da instituição de acolhimento infantil, o suposto monsenhor informou que deixara a diretoria da casa por problemas de saúde para se tratar em Minas Gerais.

Elisa voltou a falar com a madrinha, desconfiada também do fato de o monsenhor ter escolhido um hotel para celebrar os 25 anos de sacerdócio.

"Não estou gostando nada disso. Foi só a gente apertar o cara que ele vai para Minas?", indagou-se a artista plástica. "Cheguei a temer que houvesse algum tipo de exploração infantil com as crianças que apareciam nas fotos que ele nos mandava."

Pesquisas na internet revelaram a ficha corrida de Marcos Rodrigues Fontana, 65. Em 8 de outubro de 2009, o jornal "Agora" estampava em suas páginas policiais a notícia: "Falso padre acusado de cobrar para rezar em cinco cemitérios".

Segundo a reportagem, o homem de 48 anos cobrava até R$ 500 para celebrar missas de sétimo dia e era alvo de três inquéritos.

Uma dona de casa relatou ter sido abordada por Marcos Fontana no velório do marido no Cemitério do Araçá, quando viu o padre arrecadar R$ 240 entre seus filhos e se ofereceu para celebrar a missa de sétimo dia por R$ 450. "Disse que R$ 200 seriam destinados às crianças [de uma creche] e outros R$ 250 eram pelo aluguel da capela."

 

A pior coisa é uma pessoa manipular o que a gente tem de mais sagrado que é essa nossa vontade de ser bom, além de usar o nome de Deus.

Elisa Stecca, artista plástica

 

Ao puxar o fio da meada, a também viúva Benedita confrontou o suposto religioso, em troca de mensagens e áudios por WhatsApp. Diante das evidências, ele acabou confessando que o orfanato nunca existira e disse pertencer à Igreja Vétero Católica.

Trata-se de movimento católico independente não reconhecido pelo Vaticano, surgido a partir de uma dissidência da Igreja Romana, a partir de 1870. Em contestação ao Concílio Vaticano I, os véteros rejeitam dogmas como a infalibilidade papal, buscando retornar aos fundamentos da "velha" igreja.

"Sofri uma perseguição de uns ministros da Igreja Romana e aí os jornais aumentaram e inventaram muitas coisas", escreveu Marcos à senhora que chegou a chamar de uma segunda mãe.

Ele aparece em um vídeo no YouTube de celebração de 20 anos de sacerdócio na Paróquia Santo Antônio, sede da Ordem de Santo André, na Vila Clara, em São Paulo. "Então falso padre não sou", afirmou ele para Benedita. Sua ordenação teria sido em 26 de fevereiro de 2000.

Por meio de nota, a Arquediocese de São Paulo informa que "o mencionado senhor não é padre da arquidiocese, nem foi ordenado sacerdote na Igreja Católica Apostólica Romana, não possuindo, portanto, qualquer vínculo ou autorização para atuar em nome da Igreja".

E orienta os fiéis a verificarem sempre a procedência de pessoas ou iniciativas que se apresentem como ligadas à igreja, especialmente em casos de solicitação de doações.

Dom Diego Pereira, arcebispo primaz da Igreja Vétero Católica no Brasil, também informa que "após checar o nome da pessoa em questão posso dizer que nunca ouvi falar dele". "A nossa Igreja tem apenas um sacerdote no Estado de São Paulo e também não tem este nome. Lamento profundamente a atitude do cidadão."

Padre Jonas, da Vétero Católica em São Paulo, também não conhece nenhum monsenhor Marcos. "O senhor mencionado não faz parte da nossa igreja."

Foi então que Benedita, católica fervorosa, chamou para si a responsabilidade de denunciá-lo formalmente à polícia, à Arquidiocese de São Paulo e ao Ministério Público.

"Monsenhor participou de várias missas no cemitério Gethsemani em memória de meu marido, reuniões familiares e atos religiosos dos quais duvido da legitimidade e licitude", relatou Benedita ao registrar o boletim de ocorrência em 24 de março.

O caso está sob investigação no 36º Distrito Policial, em fase de ouvir as testemunhas.

"Convivi com ele por 14 anos, tratando-o com o maior respeito por sua condição de sacerdote. Infelizmente descobri suas falsidades que revelaram suas mentiras a respeito do exercício de sua função sacerdotal e a manutenção do orfanato que dizia acolher crianças encaminhadas pelo judiciário", denunciou a viúva, ao pedir providências para que não haja novas vítimas.

O histórico de Marcos revela uma reincidência no uso de títulos religiosos. Em 2009, ele foi condenado em primeira instância por estelionato após realizar celebrações fúnebres ilegais no tradicional Cemitério do Araçá, usando as vestes sacerdotais sem pertencer a qualquer ordem oficial da Igreja Católica Romana.

Em 2013, saiu a decisão definitiva, em que a pena de três anos de prisão inicialmente prevista foi substituída por prestação de serviços à comunidade e multa.

Procurado pela Folha no endereço em que recebia os donativos para o abrigo infantil no centro de São Paulo, o suposto monsenhor recebeu a reportagem na entrada do prédio e disse que não daria entrevista. "Meu advogado me orientou a só falar em juízo."

Os vizinhos são testemunhas das muitas doações que costumava chegar ao prédio em datas festivas. Um comerciante das redondezas diz que o "tal padre" é um problema, ao relatar que há uns três anos ele foi esfaqueado no apartamento por um rapaz.

As novas vítimas do falso padre esperam que desta vez as denúncias sirvam para que outros fiéis não caiam em golpes semelhantes. "Mediante a desilusão ao descobrir que o nosso orfanato não existia, fiz o que achei que devia na minha consciência", diz Benedita.

A viúva colocou fotos, comprovantes bancários e outras evidências numa pasta. "Engavetei tudo. Assim como fiz no meu coração. Perdoar está sendo muito difícil pela confiança que depositei nesse senhor. Foi uma desilusão muito profunda", conclui. "Se os homens não fizerem Justiça, Deus fará."

Sua afilhada Elisa afirma que decidiu falar publicamente sobre o caso para evitar que esse tipo de manipulação por meio da fé volte a acontecer.

"Todas as vezes que fiz as doações em meu nome e da minha mãe, eu fiz com muita gratidão no meu coração pela oportunidade de poder ajudar", diz ela. "A pior coisa é uma pessoa manipular o que a gente tem de mais sagrado que é essa nossa vontade de ser bom, além de usar o nome de Deus.". Fonte: https://www1.folha.uol.com.br