Há valores que não dependem de ideologia. Há linhas que não podem ser cruzadas. Entre as bravatas de Trump e advertências do papa, estão em jogo os pilares que sustentam a civilização

 

No auge da escalada contra o Irã, entre insultos e expletivos, o presidente dos Estados Unidos jurou: “Uma civilização inteira morrerá esta noite”. O mundo reagiu como aprendeu a reagir: um sobressalto, alguma descrença e – após o recuo – cansaço. Já se ouviu demais. Mas certas palavras não envelhecem. Sobretudo quando saem da boca de quem pode cumpri-las.

Há guerras inevitáveis. Há adversários que precisam ser combatidos. A teocracia iraniana – totalitária, repressiva, terrorista – não merece indulgência. Não se pode ignorar suas ameaças nucleares. Mas a barbárie deve ser subjugada, não imitada. Quem destrói os limites morais na guerra hoje compromete a paz que se quer amanhã. A Alemanha e o Japão do pós-1945 não foram reerguidos sobre ruínas éticas.

Ao acusar a ameaça de Donald Trump de “inaceitável”, o papa Leão XIV invocou a fronteira moral construída ao longo de séculos para conter o impulso mais satânico das guerras: transformar tudo em alvo. Sua denúncia está escorada por um arsenal doutrinário milenar: a violência pode ser necessária, mas nunca ilimitada; a justiça da causa não justifica qualquer meio; civis não são alvos. A Igreja não proíbe a guerra, proíbe a barbárie.

A represália de Trump diz tanto quanto o episódio original. Ele já havia manipulado uma imagem de si como pontífice. Agora, publicou outra como um Cristo kitsch meio vingador, meio curandeiro. Ante a indignação popular, apagou o post – era para ser um “médico”, disse. À blasfêmia seguiu-se a desonestidade. A linguagem vulgar e a sagrada se mesclam para causar “sensação”, promover idolatria política, justificar a brutalidade. Numa estética que mistura poder, sectarismo e espetáculo, a guerra vira palco; a política, encenação; o mundo inteiro, plateia.

Há quem veja nisso só provocação, um cálculo para dominar o debate, testar limites, impor ritmo. Pode ser. Também pode ser que seus delírios de onipotência já não conheçam limites. Ambas as hipóteses são perturbadoras. Quem foi ferida de morte com a ameaça de aniquilação de uma civilização foi a civilização americana. Quem é desmoralizado com as tentativas de desmoralizar o papa é o governo americano. Os traços psíquicos de Trump – impulsividade, narcisismo, inconsistência – estão sendo institucionalizados. A consequência é a deterioração não só moral, mas cognitiva do Estado – a incapacidade sistêmica de operar com coerência, racionalidade e lucidez.

Sempre que a política se investe de uma missão messiânica, se desumaniza. Leão XIV buscou restaurá-la, não como ator político, mas como voz moral que insiste em lembrar que há coisas que não se dizem – e, sobretudo, não se fazem.

É uma longa história. No Getsêmani, Pedro, o primeiro papa, retaliou com a espada uma ameaça real a um bem real, e foi repreendido pelo mestre que buscava defender – mesmo quando a causa é justa, nem todo meio é permitido. Em Canossa, o poder imperial foi obrigado a se curvar ao poder espiritual. Stalin ironizou: “Quantas divisões tem o papa?”. Décadas depois, João Paulo II pisaria na Polônia com uma mensagem singela: “Não tenham medo”. Não havia divisões ali, só uma força invisível que não se mede em tanques, mas poderosa o bastante para desintegrar impérios, como o soviético.

Quem despreza limites morais costuma subestimar esse tipo de força. Toda a potência da nação americana veio de sua submissão a ela, desde a visão dos pais peregrinos da “Cidade na Colina” como farol moral para o mundo, não por sua superioridade, mas por sua responsabilidade, passando pela consagração da dignidade individual e do império da lei pelos pais fundadores na Declaração de Independência e na Constituição, até o protagonismo na forja da Declaração dos Direitos Humanos e da ordem baseada em regras após as guerras mundiais. Nunca foi uma trajetória imaculada. Houve contradições, abusos, hipocrisia. Ainda assim, havia um projeto moral reconhecível: o poder precisava se justificar.

Foi essa tradição que o papa americano invocou. É essa tradição que o presidente americano está estrangulando. Fonte: https://www.estadao.com.br