Série do Globoplay mostra lado humano da conversão de Rodolfo ex-Raimundos
Músico conta como fez sua escolha corajosa e lúcida
Fonte: Rodolfo Abrantes no documentário do Globoplay - Divulgação/Globo
Não há como dizer que o documentário Andar na Pedra — A História do Raimundos não é sobre religião. Mas ela não aparece com jargão nem como tentativa de pregar —surge como testemunho.
Na virada do século, o evangelismo acontecia diante de todos. Um fenômeno que arrastava multidões, mas passava ao largo da academia, dos intelectuais públicos e do jornalismo.
A conversão de Rodolfo Abrantes, em 2001, representou uma brecha para vislumbrar uma tendência que se aprofunda hoje. Artistas e celebridades como Zeca Veloso e Luiza Possi causam incômodo por abraçar a fé evangélica, vindo de contextos progressistas.
Rodolfo Abrantes, filho de médicos paraibanos radicados em Brasília, foi muito criticado no meio do rock, entre fãs e pela sociedade. Em 2001, quando saiu dos Raimundos —no auge da banda—, a reação foi de incompreensão e preconceito.
Como alguém poderia abdicar da fama, do dinheiro e de uma vida sem limites, à frente de uma das bandas mais originais de sua geração, para se tornar crente?
O documentário, dirigido por Daniel Ferro e disponível no Globoplay, abre espaço para ele falar sobre a experiência da conversão —não como algo metafísico, relacionado a Deus ou a Jesus, mas como uma escolha corajosa e lúcida.
Alguém que reconheceu estar infeliz vivendo o personagem do ídolo de rock e que, antes de perder o controle, deu um cavalo de pau na própria vida.
A resistência à Globo limitará a visibilidade dessa série entre evangélicos, mas ela já está circulando e gerando empolgação entre cristãos mais críticos à religião como negócio.
No documentário, "Rodolfo fala sobre espiritualidade sem evangeliquês", conta o pastor Kenner Terra da Igreja Batista da Água Branca (Ibab). "Levou um testemunho positivo de conversão a públicos que dificilmente assistiriam a um produto marcado como religioso."
A série traduz a ambição desses evangélicos de apresentar um cristianismo que não renega a brasilidade e que está insatisfeito com o exemplo de denominações que crescem por um modelo empresarial e pelo lobby político.
O jornalista Ricardo Alexandre, que escreve sobre música e é evangélico, sintetiza dessa forma a identidade musical de Rodolfo. "Ele está se posicionando não como um artista do segmento cristão ou gospel, mas como um cristão que produz arte."
Sim, porque o lançamento da série sobre os Raimundos coincide (ou não, para quem é religioso) com o início na última sexta (10) da turnê da banda Rodox, de hardcore, capitaneada por Rodolfo, em São Paulo.
A relação improvável entre cristianismo e música pesada e sucesso da série indicam que existe um público do outro lado, que pode ser tocado por músicas sobre temas existenciais e espiritualidade, sem menções a Jesus nem proselitismo.
Se funcionar, o Rodox terá provado o que o cantor e compositor Marcos Almeida há anos defende sob o nome de "música brasileira tecida na esperança": que existe audiência real para artistas cristãos que não cantam para converter, mas também não pedem desculpa por crer. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br




