Leão XIV preside a Missa do Crisma nesta Quinta-feira Santa e destaca três segredos da missão cristã: desapego, encontro e rejeição. Renovar as promessas sacerdotais é se libertar de poderes e prevaricações, ser testemunha de aproximação com serviço desinteressado, diálogo e respeito. Um caminho que pode ser incompreendido:"foi do agrado de Deus enviar-nos para difundir o perfume de Cristo onde reina o odor da morte. Renovemos o nosso 'sim' a esta missão que nos exige unidade e que traz a paz".

 

Andressa Collet - Vatican News

Nesta Quinta-feira Santa o Papa Leão XIV presidiu a Missa do Crisma, também chamada dos Santos Óleos, na Basílica de São Pedro, concelebrada por patriarcas, cardeais, arcebispos, bispos e presbíteros presentes em Roma. É o primeiro ano que Prevost preside a celebração como Bispo de Roma, como ele mesmo lembrou na homilia, a última antes do Tríduo Pascal, com a renovação das promessas sacerdotais e a bênção dos santos óleos que serão usados nas cerimônias sacramentais do Batismo, Crisma e Unção dos Enfermos. 

 

Os três segredos da missão cristã

O Pontífice, assim, refletiu sobre três segredos da missão cristã, "a mesma de Jesus, e não outra", explicou o Papa, afirmando que "cada um participa nela de acordo com a sua vocação e com uma obediência muito pessoal à voz do Espírito, mas nunca sem os outros, nunca negligenciando ou rompendo a comunhão!". Renovar as promessas, continuou o Papa se dirigindo a bispos e presbíteros, é ser Igreja enviada, com "desapego" e "herdeiros de tanto bem", para estar a serviço de todos os batizados. Uma missão que precisa de "esvaziamentos" para renascer, como fez Jesus ao "esvaziar-se a si mesmo". Esse é o primeiro segredo da missão, disse o Papa, de "algo que não se experimenta uma só vez, mas em cada recomeço, em cada novo envio":

"O caminho de Jesus revela-nos que a disponibilidade para perder, para se esvaziar, não é um fim em si mesma, mas condição para o encontro e para a intimidade. O amor só é verdadeiro se estiver desarmado – desprovido de muitos empecilhos e sem nenhuma ostentação –, se guarda delicadamente a fraqueza e a nudez. Temos dificuldade em lançar-nos numa missão tão exposta e, no entanto, não há «Boa-nova aos pobres» (Lc 4, 18) se formos ao seu encontro com sinais de poder, nem há libertação autêntica se não nos libertarmos do possuir."

Depois da lei do desapego, "vem a lei do encontro", continuou o Papa na homilia, ao explicar sobre o segundo segredo da missão cristã. Como na Igreja é preciso "caminharmos juntos", ser "testemunho vivo de um Corpo com muitos membros", estabelecendo "uma sintonia com o invisível" ao confiar no Espírito Santo, a missão pode ser "pervertida por lógicas de domínio, totalmente estranhas ao caminho de Jesus Cristo". Mas se faz necessário, enfatizou Leão XIV, chegar ao lugar para se é enviado com simplicidade "para acolher" depois que se deixou "ser acolhido", mesmo em locais "onde a secularização parece estar mais avançada" em contraste com o Evangelho de Jesus:

"É portanto prioritário recordar que o bem não pode advir da prevaricação, nem no âmbito pastoral, nem no âmbito sócio-político. Os grandes missionários são testemunhas de aproximações feitas com delicadeza, cujo método consiste na partilha da vida, no serviço desinteressado, na renúncia a qualquer estratégia calculista, no diálogo, no respeito. É o caminho da encarnação, que assume sempre de novo a forma da inculturação."

 

Sem medo, a missão exige unidade

O Papa, então, aprofundou sobre a terceira dimensão "– talvez a mais radical – da missão cristã. A dramática possibilidade de incompreensão e de rejeição", manifestada inclusive pelos habitantes de Nazaré. A cruz, recordou Leão XIV, faz parte da missão e é preciso se comprometer "a não fugir, mas a 'passar pelo meio' da provação, como Jesus, que, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho". Diante de tantas "ressurreições que nos são dadas experimentar", continuou o Pontífice, até poderá vir o questionamento "se a missão terá sido inútil". Mas "podemos fazer nossa a esperança de muitos testemunhos", como a do santo Bispo Óscar Arnulfo Romero, disse o Papa, que um mês antes da sua morte chegou a anotar no caderno dos Exercícios Espirituais a iminência de um perigo que seria enfrentado com a graça de Deus: "basta-me, para ser feliz e confiante, saber com certeza que n’Ele está a minha vida e a minha morte", escreveu o arcebispo de El Salvador, assassinado em 1980 em consequência dos conflitos da Guerra Civil no país e reconhecido como mártir Igreja Católica. "Os santos escrevem a história", afirmou o Papa, ao finalizar uma mensagem de encorajamento aos bispos e presbíteros:

“Nesta hora sombria da história, foi do agrado de Deus enviar-nos para difundir o perfume de Cristo onde reina o odor da morte. Renovemos o nosso 'sim' a esta missão que nos exige unidade e que traz a paz. Sim, aqui estamos! Superemos o sentimento de impotência e de medo! Anunciamos a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!” Fonte: https://www.vaticannews.va