Em conferência da extrema direita nos EUA, Flávio Bolsonaro sugere que eleição presidencial só será ‘livre e justa’ se ele vencer, mostrando que é um orgulhoso herdeiro do golpismo do pai
Eleição 2026
A natureza é algo implacável. O senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República, vem tentando se apresentar como uma versão “moderada” do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, mas não tem jeito: o golpismo bolsonarista parece ser mesmo genético.
Ao discursar na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em inglês), convescote de extremistas de direita realizado nos Estados Unidos, Flávio defendeu o “monitoramento” das eleições brasileiras e sugeriu “pressão diplomática” externa para garantir um pleito “livre e justo”. Arrematou dizendo que, “se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados corretamente, nós vamos vencer”, numa sugestão nada sutil de que ele só não será eleito se houver fraude ou manipulação.
É isto o que Jair Bolsonaro passou anos fazendo e que foi um dos motivos de sua condenação por tentativa de golpe de Estado: colocou sistematicamente em dúvida a lisura das eleições brasileiras e chegou a mobilizar embaixadores estrangeiros às vésperas da votação de 2022 para disseminar essa farsa golpista. Flávio homenageia o pai ao incitar os americanos a pressionar as instituições brasileiras caso ele perca a eleição.
Nesse sentido, também fiel ao manual bolsonarista, Flávio deu ares de verdade à fábula segundo a qual o governo americano, então presidido pelo democrata Joe Biden, financiou, por intermédio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição de 2022 contra Bolsonaro. “As mesmas pessoas que prenderam meu pai tiraram esse homem – o ex-presidente socialista Lula da Silva, condenado múltiplas vezes por corrupção – da prisão e o colocaram de volta na Presidência. Tudo isso sob uma enxurrada de dinheiro da USAID e com massiva interferência da administração Biden”. Como de hábito, nenhuma prova disso foi apresentada – mas, afinal, um bolsonarista de verdade não precisa de provas para acreditar em teorias da conspiração como essa.
De todo modo, só engoliu a moderação de Flávio Bolsonaro quem quis. No ano passado, em reveladora entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o senador traçou o perfil adequado do candidato a presidente que quisesse representar bem o bolsonarismo: segundo Flávio, teria de ser alguém que articulasse a anistia ao pai no Congresso Nacional e que tivesse “disposição” de impedir que o Supremo Tribunal Federal interferisse nessa decisão, isto é, “fazer com que o Supremo Tribunal Federal respeite os demais Poderes”. E acrescentou, sem circunlóquios: “É uma hipótese muito ruim, porque a gente está falando de possibilidade e de uso da força”.
Está aí, com todas as letras, o discurso politicamente liberticida do bolsonarismo. É digna de nota a facilidade com que o senador Flávio Bolsonaro usou a expressão “uso da força”, com a clara intenção de intimidar os adversários do pai e as instituições democráticas que lidaram com o seu golpismo. E agora, não menos indecorosa, é a tentativa de mobilizar o governo dos Estados Unidos e de outros países governados pela direita simpatizante do presidente americano, Donald Trump, para lançar dúvidas sobre o processo eleitoral brasileiro e, por fim, não reconhecer uma eventual derrota do bolsonarismo na eleição presidencial.
Na tal convenção de extremistas de direita nos Estados Unidos, Flávio disse que a eleição brasileira deve respeitar “os valores de origem americana”. A esta altura, não se sabe bem o que isso significa. Não faz muito tempo, esses “valores de origem americana” incluíam respeitar o resultado das urnas. Considerando que Donald Trump – ídolo de Flávio Bolsonaro e do pai dele – jamais aceitou sua derrota para Joe Biden em 2020 nem provavelmente aceitará qualquer outro revés eleitoral, atribuindo-o sempre a fraudes inexistentes, os “valores de origem americana” aos quais o senador se refere certamente não são os mesmos que o mundo livre aprendeu a admirar. Fonte: https://www.estadao.com.br




