Eles se amaram em Auschwitz e só se reencontraram 70 anos depois. Agora, um livro conta sua história
A jornalista Keren Blankfeld, americana nascida no Brasil, país para onde seus avós emigraram após a Segunda Guerra Mundial, relata a improvável história de David e Zippi e seu emocionante reencontro antes da morte
Helen Zipora Spitzer, apelidada de Zippi, e David Wisnia em fotos do livro 'Eles Se Amaram em Auschwitz'. Foto: Serjão Carvalho/Estadão
Por Julia Queiroz
A jornalista Keren Blankfeld acabara de ouvir a impressionante história de David Wisnia. Judeu sobrevivente do Holocausto, ele perdeu a família, passou anos no campo de concentração de Auschwitz, conseguiu fugir e foi resgatado pelo exército americano. Ela estava prestes a deixar o apartamento de David, achando que já tinha uma história completa em mãos, quando ele acrescentou: " Ah, e eu tinha uma namorada que eu conheci em Auschwitz".
Keren pausou, tirou o casaco e sentou-se novamente. “Como assim namorada? Eu não conheço muitas histórias de Auschwitz, mas eu sei que não era um lugar onde estava tendo namoro”, disse ela. David jurou que era verdade, que era uma mulher muito especial, uma designer gráfica. Keren ficou nervosa. O homem já tinha lá seus 90 anos. Será que estava se confundindo?
Mas era verdade. “Ele me mostrou um livro que foi escrito sobre ela pelo Museu do Holocausto de Washington. Vários historiadores a entrevistaram. Existia até um livro sobre como ela conseguiu sobreviver lá ajudando os nazistas enquanto era prisioneira”, diz a jornalista.
A mulher era Helen Zipora Spitzer, apelidada de Zippi, e ela era realmente tudo aquilo: nascida na Eslováquia, havia estudado artes gráficas em uma época em que isso ainda era raro. Ao ser capturada pelos nazistas e levada para Auschwitz, começou a prestar serviços no campo, como pintar uniformes, cartazes e listas.
Lá, conheceu David. Se apaixonaram. “Ela era uma mulher superinteressante, forte, sete anos mais velha do que ele. Uma mulher que sabia o que queria e ia atrás”, descreve Keren. O relacionamento floresceu em segredo, mas não sobreviveu à separação. Depois da guerra, foi preciso mais de 70 anos para que eles se reencontrassem.
Agora, essa história é contada em detalhes no livro Eles Se Amaram em Auschwitz, escrito por Keren Blankfeld e publicado no Brasil pela editora Planeta, com tradução de Wélida Muniz.
Herança de família
Para a autora, a vontade de escrever sobre sobreviventes do Holocausto também era uma vontade de entender melhor a própria família. Seus quatro avós eram refugiados que escaparam da Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Vieram parar aqui mesmo, em São Paulo, onde ela nasceu.
Aos 12 anos, ela e a família se mudaram para os Estados Unidos. Ela vive lá desde então. Fala um português quase perfeito, marcado por um leve sotaque. Estudou Relações Internacionais e Inglês na Universidade Tufts e Jornalismo na Universidade de Columbia (atualmente também é professora da instituição). Aos poucos, a jornalista começou a entrevistar os próprios avós para conhecer sua história.
Keren Blankfeld, autora de 'Eles se amaram em Auschwitz'. Foto: Maya Barki/Divulgação
Ela trabalhou na Forbes, onde entrevistou grandes empresários e até o presidente dos EUA, Donald Trump, antes de ele ser eleito, mas queria mesmo descobrir histórias como as de seus parentes.
“Comecei a pesquisar o que aconteceu com refugiados que vieram depois da Segunda Guerra para os EUA, numa época que era bem difícil entrar aqui, e onde eles estão agora, como é a vida deles, como se acostumaram com esse mundo diferente. Foi assim que eu descobri o David Wisnia”, explica.
Depois daquele primeiro encontro com o sobrevivente, ela sabia que tinha descoberto uma história única. A primeira apuração deu a origem a um artigo publicado em 2019 no The New York Times - na época, a reportagem também foi traduzida e publicada pelo Estadão; leia aqui. Mas Karen queria ampliar a história.
Conduziu várias entrevistas com David até o ano de 2021, quando ele morreu, aos 94 anos. Zippi, por outro lado, já havia partido quando Keren descobriu a história. Ela morreu em 2018, aos 99 anos. Foi um desafio, porque a jornalista precisava construir uma imagem dessa mulher mesmo sem conhecê-la.
“Procurei tudo o que tinha sobre ela e conversei com todos os historiadores que a conheceram”, diz. Zippi não teve filhos, mas Keren chegou a entrevistar uma sobrinha neta. Também mergulhou em centenas de documentos e relatos sobre o Holocausto que cruzavam com a história de Zippi e David, livros de memórias de outros sobreviventes, registros de jornais da época, tudo que ajudasse a construir o relato mais verdadeiro possível sobre a história do casal.
“Tem algumas partes no livro que são mais poéticas, mas mesmo essas partes são fatos. Eu não quis colocar ficção nenhuma porque eu senti que no momento que você coloca uma ‘ficçãozinha’, isso já faz o leitor questionar tudo”, afirma a escritora. Ao mesmo tempo, ela queria que a história pudesse ser lida como um romance, não como uma grande aula de história.
A autora já estava no processo de revisão do livro quando recebeu um “presente” que ajudou a criar a voz de Zippi em seu livro: uma professora universitária da Carolina do Norte havia encontrado um manuscrito escrito por Zippi. “Tinha mais de 100 páginas e ela tirou fotos de cada uma e me mandou naquele dia mesmo. Enlouqueci. Então, no fim, cheguei ter uma coisa escrita com a voz da Zippi e isso foi incrível.”
A história de Zippi e David

O livro 'Eles Se Amaram em Auschwitz', de Keren Blankfeld. Foto: Serjão Carvalho/Estadão
Zippi chegou a Auschwitz em 1942; David foi transferido para o campo poucos meses depois dela. A jovem tinha perdido a avó, sua principal figura materna, e o irmão e o noivo haviam sido capturados pelos alemães. A família de David morreu no gueto de Varsóvia.
Pela função que exercia no campo, Zippi não era uma prisioneira comum, podia se locomover mais do que outros presos. Não demorou também para que os nazistas descobrissem que David tinha um talento excepcional como cantor, o que também lhe rendeu pequenos privilégios, inclusive um trabalho em um prédio que os nazistas chamavam de “sauna”.
Foi lá que eles se viram pela primeira vez. Trocaram olhares que, aos poucos, viraram conversas. “Eles começaram a ter um caso. Se viam uma vez por mês e começou bem devagar, passando bilhetes. Era superperigoso porque eles nem podiam escrever. Se fossem pegos, seriam punidos”, explica Keren.
Em determinado momento, David e Zippi decidiram que os encontros eram perigosos demais. E combinaram que, se sobrevivessem, se encontrariam em Varsóvia após o fim da guerra.
Mas David foi enviado ao campo de Dachau - seria morto, mas conseguiu acertar um guarda com um pá e fugir. Se escondeu até ser encontrado pelo exército americano. Então foi “adotado” pelos soldados, levado aos Estados Unidos, prestando serviços para a organização. Não voltou a Varsóvia.
Zippi foi transferida para os campos de Ravensbrück e Malchow. Também conseguiu escapar: ela alterou as listras vermelhas que deveria ter pintado em seu uniforme e no de uma amiga, fugindo e se misturando entre a população local que seria transferida. Voltou a Varsóvia, esperou, mas logo percebeu que David não apareceria. Anos depois, se casou e foi morar nos Estados Unidos
O reencontro
David descobriu que Zippi estava viva por meio de amigos em comum e, ao longo dos anos, recebeu atualizações sobre ela. Ele tentou contato com ela pela primeira vez em 2006, mas foi só em 2016 que o reencontro ocorreu. Eles viviam a apenas duas horas de distância: ele em Levittown, na Pensilvânia; ela em Manhattan, em Nova York.
David foi acompanhado de dois de seus netos. Zippi vivia apenas com uma cuidadora. Para a surpresa de Keren, o encontro foi gravado pelos netos. Era a prova mais física que ela tinha da história do casal. “O neto me deu a gravação e eu ouvi eles conversando um com o outro. Foi uma coisa incrível ouvir a voz dela”, diz.
David estava nervoso. Sabia que Zippi já tinha quase 100 anos. “Ele tinha medo de não ser reconhecido. Quando eles chegaram lá, ela estava deitada e no começo não o reconheceu mesmo.” Então David se aproximou e falou: “Zippi, sou eu, David.”
“Os olhos dela brilharam e ela o reconheceu imediatamente. O neto [de David] falou que essa foi uma coisa espantosa para ele. O jeito que eles se conectaram e começaram a conversar como se não tivesse passado o tempo. Eu a ouvi conversar como uma menina: ‘Você ainda acha que eu estou bonita? Você lembra como eu era linda?’”, conta a autora.
Foi o único encontro que tiveram. David sabia que Keren transformaria a história em um livro, mas morreu antes de ver o trabalho completo. “O que é incrível nessa história é o jeito que a humanidade não desaparece”, afirma a jornalista. “Tentaram apagar e destruir essas pessoas, transformá-las em números. Não eram mais pessoas. Mas quando a Zippi e o David estavam juntos, eles cantavam. Eles se lembravam de como era a vida antes. Eles eram gente.”
Eles Se Amaram em Auschwitz
Autora: Keren Blankfeld
Tradução: Wélida Muniz
Editora Planeta (400 págs,. R$ 89,90 | E-book: R$62,90)
Fonte: https://www.estadao.com.br




