A pressão virá de todos os lados: do poder, das milícias digitais, das paixões partidárias

Enquanto houver alguém disposto a apurar, checar, publicar e aguentar o tranco, haverá também a realidade

 

 

Mariliz Pereira Jorge

Jornalista e roteirista

 

Em 2026, ninguém mais tem a ilusão de que basta publicar uma notícia bem apurada para que a realidade, por si, se imponha. Fazer jornalismo com rigor é como entrar num ringue onde metade da plateia está disposta a aplaudir se o mensageiro da notícia confirmar suas crenças e a outra é capaz de arrancar-lhe os dentes se seus ídolos forem expostos. A profissão segue viva, mas o ambiente está cada vez mais bruto.

O episódio que envolve integrantes do STF, especialmente Alexandre de Moraes, é um retrato didático dessa deformação. O ministro foi alçado por parte da esquerda à condição de herói civilizatório. As pessoas adoram um salvador. É bom que fique claro: não fez nada além da sua obrigação em relação às ameaças contra a democracia —a mesma que insulta diante de algumas ações questionáveis. Bastou uma reportagem incômoda para que ressurgissem os "véios do zap" progressistas, que adoram vestir a fantasia da superioridade moral, mas agora se dedicam a atacar jornalistas, como Malu Gaspar, em vez de enfrentar a realidade. O método é sempre o mesmo, muda apenas o CEP ideológico.

E o cerco não é só retórico. No Maranhão, um jornalista teve celular e computador apreendidos pela PF após reportagens sobre Flávio Dino, em decisão autorizada por Moraes. No caso de Lauro Jardim, mensagens indicaram um plano de agressão física. Entre o linchamento digital, a pressão institucional e o risco concreto de violência, o recado deixa de ser sutil —são ameaças objetivas ao exercício da profissão.

Cresce o número de leitores que não buscam informação, mas um espelho para suas crenças. Consomem notícia não para entender o mundo, mas para reencontrar o próprio reflexo. Jornalista bom, para esses, é aquele que confirma a fé da seita; o resto é vendido ou inimigo. Será um ano ainda mais difícil para o jornalismo.

A pressão virá de todos os lados —do poder, das milícias digitais, das paixões partidárias. Por isso, seguimos firmes. Enquanto houver alguém disposto a apurar, checar, publicar e aguentar o tranco, haverá também algo cada vez mais raro: a realidade. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br