Com profundo pesar, a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro comunica o falecimento do Padre Celso Lima Ferreira Júnior, ocorrido no dia 5 de março de 2026.
Nascido em 19 de junho de 1987, o Padre Celso foi ordenado presbítero em 8 de dezembro de 2018, na Arquidiocese do Rio de Janeiro, colocando sua vida e seu ministério a serviço do Evangelho e do povo de Deus. Desde sua ordenação, exerceu o sacerdócio com dedicação generosa, espírito missionário e profunda entrega à missão que lhe foi confiada pela Igreja.
Jovem sacerdote, destacou-se pelo ardor pastoral, pela proximidade com os fiéis e pela disponibilidade no serviço às comunidades. Sua atuação sacerdotal foi marcada também por sua participação e incentivo à Renovação Carismática Católica, realidade eclesial na qual encontrou importante expressão de sua espiritualidade e de seu compromisso evangelizador.
Como pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Paciência, dedicava-se com zelo e cuidado pastoral ao acompanhamento do povo de Deus, procurando conduzir a comunidade no caminho da fé, da comunhão e da esperança cristã.
Neste momento de dor, a Arquidiocese do Rio de Janeiro une-se em oração, confiando à infinita misericórdia de Jesus Cristo, o Bom Pastor, a vida e o ministério do Padre Celso. Ao mesmo tempo, manifesta sua solidariedade e proximidade espiritual aos seus familiares, amigos, irmãos no sacerdócio e a todos os fiéis que partilharam de sua caminhada e de seu ministério pastoral. As informações sobre as exéquias serão divulgadas oportunamente.
Na esperança da Ressurreição, pedimos a Deus que conceda ao seu servo fiel o descanso eterno e o acolha em sua paz.
Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro
Fonte: https://radiocatedral.org.br
Eles não são um número, eles são pessoas e sangram.
Hoje recebemos mais uma notícia que pesa sobre o coração da Igreja Católica. O presbítero Celso Lima, da Arquidiocese do Rio de Janeiro, foi encontrado sem vida. A notícia já me causou estranheza: a informação oficial, rasa, sem a causa da morte. Isso geralmente já entrega, indiretamente, a morte de uma pessoa que se entregou a um abismo que, em algum momento, sorriu para ela — e ela acreditou que ele a salvaria da dor, por vezes inominável. A morte do Pe. Celso ocorreu ontem, dia 5 de março.
Quando um padre morre por suicídio, não é apenas mais uma vida que se perde. É mais uma pessoa em silêncio sepulcral que se junta ao coro dos dilacerados e silenciados, que entoam no seio da Igreja o "Hino da Dor" que pedia amparo.
Há muitas camadas por trás de situações como essa. Elas começam ainda no acompanhamento vocacional, passam pela formação, pelo amadurecimento humano, afetivo e espiritual, e continuam ao longo do exercício do ministério. Nesse caminho surgem exigências pastorais intensas, solidão institucional, solidão afetiva, expectativas muitas vezes desproporcionais e poucas estruturas consistentes de cuidado emocional.
Alguns dados ajudam a compreender melhor esse cenário. Estudos realizados nos Estados Unidos indicam que cerca de 24% dos padres relatam ter vivido episódios de depressão ao longo do ministério. Pesquisas internacionais também apontam níveis significativos de esgotamento emocional, com aproximadamente um em cada cinco sacerdotes apresentando sinais elevados de burnout. Em alguns levantamentos, entre 4% e 5% dos padres afirmam ter experimentado pensamentos suicidas em algum momento da vida ministerial.
No Brasil os estudos ainda estão avançando. Não existem levantamentos epidemiológicos amplos sobre suicídio entre presbíteros, mas registros públicos indicam que, entre 2016 e 2023, ao menos quarenta padres morreram dessa forma. Isso sem contabilizar os inúmeros casos que são subnotificados.
São números fragmentados, mas já suficientes para nos estarrecer.
As redes sociais também mudaram a forma como essas tragédias chegam até nós. As notícias circulam com velocidade, alcançam comunidades inteiras e chegam também aos próprios padres, religiosos e religiosas — inclusive àqueles que já estão atravessando momentos de fragilidade psíquica e emocional.
A literatura científica descreve o efeito Werther, um fenômeno em que a exposição repetida a notícias de suicídio pode aumentar o risco entre pessoas vulneráveis.
Mas o que mais me incomoda e ecoa nas últimas semanas é uma pergunta ainda mais profunda.
Há poucos dias, a religiosa Irmã Nádia Gavanski foi brutalmente abusada sexualmente e assassinada no Paraná. Um crime de uma gravidade imensa, que deveria ter nos mobilizado profundamente. No entanto, a repercussão foi pequena.
Enquanto isso, não é raro observar mobilizações muito mais intensas nas redes quando determinados temas ganham visibilidade pública, inclusive causas legítimas como a proteção dos animais.
Não se trata de diminuir nenhuma dessas causas. A violência, em qualquer forma, é moralmente inaceitável. Mas talvez seja necessário nos perguntarmos se, em algum ponto, nossa sensibilidade coletiva não esteja com a visão turva. Quando a dor humana, seja ela qual for e de quem for, já não nos mobiliza com a mesma intensidade de outras causas, algo em nossa hierarquia de compaixão precisa ser revisto.
Antes de serem padres, religiosos ou religiosas, eles são pessoas.
Carregam histórias, fragilidades, medos, cansaços, noites difíceis, dúvidas que nem sempre podem ser ditas em voz alta. Tudo porque sangrar dói, mas sangrar sozinho e sem apoio dói ainda mais.
Não. Eles não são um número.
E quando um deles chega ao ponto de não conseguir mais permanecer entre nós, talvez a pergunta mais honesta que possamos fazer não seja apenas porque isso aconteceu.
Talvez devamos nos perguntar se, em algum momento do caminho, nós falhamos ou viramos o rosto para esses nossos irmãos de carne e espírito enquanto sangravam. E, enquanto Igreja, cristãos, mas antes de tudo enquanto seres humanos, não fizemos nada para estancar e acolher tanta dor e tanto sangue.
Hoje, esse texto é em memória do Pe. Celso Lima, que tenho certeza que construiu inúmeras memórias e tocou inúmeros corações com seu ministério — enquanto homem e presbítero. Mas não aguentou, sangrou demais. Amanhã ou depois de amanhã o outro texto será para quem?
Vinícius Schumaher
Psicólogo Clínico
CRP 06/135859
Diocese de Votuporanga - SP
Doutrina católica sobre suicídio
O padre Lício de Araújo Vale, especialista em suicídio e referência nacional no tema, disse à ACI Digital, que antes do Concílio Vaticano II a Igreja não permitia fazer exéquias para um suicida. O Código de Direito Canônico de 1917 “proibia ritos fúnebres para as pessoas que tinham se matado, porque naquela época se tinha a concepção de que por elas terem se exterminado, havia um pecado contra o quinto mandamento e, portanto, estavam condenadas eternamente. Não matar, era não matar a si mesmo e não matar o outro”, explicou.
“A doutrina católica continua a mesma. O suicídio continua sendo um ato moral grave, sério. Ninguém pode realmente tirar a própria vida, porque atenta contra a própria vontade de Deus. Somos criados por Deus, recebemos o dom da vida desde a concepção até a morte natural”, continuou o padre da diocese de São Miguel Paulista (SP).
“Porém, a nossa igreja, doutrina, dialoga com as ciências e hoje as ciências, tanto a psicologia, como a psiquiatria e a suicidiologia, afirmam que a grande maioria das pessoas que atenta contra a própria vida, não quer matar a sua vida, mas quer matar a sua dor, a sua dor mental, a sua dor emocional, que para aquela pessoa, beira as raias do insuportável”.
“Portanto, se a pessoa quer matar a sua dor e não a sua vida, em tese, ela não tem a intenção de pecar contra o quinto mandamento”, alega o padre. “Para que haja pecado, há que haver intenção, sem intenção, não existe pecado”.
Ele diz que “a grande maioria dos casos, e sobretudo do suicídio de padres e na população em geral, não está ligada ao aspecto moral. Não existe, na grande maioria dos casos, a intenção livre, moral, de pecar contra o quinto mandamento, de desobedecer por vontade própria o quinto mandamento”.
“Por isso, hoje a doutrina católica, no número 2283 do CIC diz textualmente: “Não se deve desesperar da salvação eterna das pessoas que se suicidaram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, oferecer-lhes a ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida”.
Quem cuida também precisa ser cuidado
Segundo o padre Lício, o sofrimento psíquico entre padres costuma ser silencioso e difícil de perceber. “O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial. Nem sempre o sofrimento psicológico aparece de forma visível, mas ele é muito presente em profissões marcada pelo cuidado constante, que é, por exemplo a nossa missão sacerdotal, missão de cuidado constante com o nosso povo. Por isso, quem cuida, também precisa ser cuidado”.
Segundo ele, os fiéis podem ajudar observando mudanças de comportamento.
“A desmotivação, o isolamento do padre, um certo comportamento depressivo. O povo pode ajudar acolhendo e motivando o padre a se cuidar.”
43 padres morreram por suicídio em dez anos no Brasil
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Padre Lício acompanha as estatísticas sobre o tema e diz que “de agosto de 2016 a fevereiro de 2026, 43 padres católicos morreram por suicídio no Brasil”.
“A depressão não tratada é um dos grandes fatores de risco para o suicídio”, disse. “Não estou dizendo que toda pessoa deprimida chegará ao suicídio, mas é preciso cuidar”.
Embora o número de suicídio entre padres tenha crescido nos últimos anos, ele lembra que a média nacional também aumentou. “A média nacional é de 14,2 suicídios por 100 mil habitantes, enquanto entre padres a média é de 4,3 mortes por ano. A maioria dos casos envolve padres diocesanos”.
Para o especialista em suicídio, é preciso quebrar o tabu e vencer o preconceito com o cuidado da saúde mental. “Esse preconceito existe tanto no nível da sociedade, quanto ao nível do clero. Cuidar da saúde mental, buscar ajuda com profissionais de saúde mental, psicólogos, psiquiatras e mesmo direção espiritual, podem ser fatores importantes para diminuição destas ocorrências”.
Fatores de risco específicos para sacerdotes
“Os três grandes fatores de risco para o suicídio em padres são: o estresse ocupacional, a solidão e a cobrança excessiva de si mesmo”, disse o padre. Ele citou um estudo de 2008 que afirma que “o sacerdócio é uma das profissões mais estressantes do mundo”, marcada por longas jornadas e pouco tempo para descanso ou autocuidado.
“Vivem muito o papel sacerdotal, de entrega da vida aos outros, mas esquecem do descanso, esquecem do autocuidado, que o próprio Jesus vai recomendar a seus discípulos”, disse,
Soma-se a isso a solidão, já que “a grande parte dos padres mora sozinha e tem poucos vínculos afetivos verdadeiros; as pessoas gostam do padre, mas poucos se relacionam com a pessoa do padre. E muitas vezes, também por questões pessoais, pastorais, dificuldade de relacionamento, os próprios padres vão se isolando”.
A pressão constante e cobrança excessiva de si mesmo completa o quadro: “nós nos cobramos muito. O povo cobra. A Igreja cobra. É muita pressão”.
“Para vencer isso, para vencer esses fatores de risco, é importante que a gente tenha relações fraternas, que a gente não se cobre tanto, que a gente se perceba também humano, podendo fragilizar e buscando ter relações humanas, afetivas, verdadeiras. E volto a insistir, é importante que nós padres possamos, além da dimensão psicológica, buscarmos ter uma vida crescente de oração, de espiritualidade e, se possível, um bom orientador, um bom diretor espiritual”, concluiu.
O que diz o Catecismo da Igreja Católica sobre o suicídio
- Cada qual é responsável perante Deus pela vida que Ele lhe deu, Deus é o senhor soberano da vida; devemos recebê-la com reconhecimento e preservá-la para sua honra e salvação das nossas almas. Nós somos administradores e não proprietários da vida que Deus nos confiou; não podemos dispor dela.
- O suicídio contraria a inclinação natural do ser humano para conservar e perpetuar a sua vida. É gravemente contrário ao justo amor de si mesmo. Ofende igualmente o amor do próximo, porque quebra injustamente os laços de solidariedade com as sociedades familiar, nacional e humana, em relação às quais temos obrigações a cumprir. O suicídio é contrário ao amor do Deus vivo.
- Se for cometido com a intenção de servir de exemplo, sobretudo para os jovens, o suicídio assume ainda a gravidade do escândalo. A cooperação voluntária no suicídio é contrária à lei moral.
Perturbações psíquicas graves, a angústia ou o temor grave duma provação, dum sofrimento, da tortura, são circunstâncias que podem diminuir a responsabilidade do suicida.
- Não se deve desesperar da salvação eterna das pessoas que se suicidaram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, oferecer-lhes a ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida. Fonte: https://www.acidigital.com




