Estratégia de James Talarico ensina a usar o Evangelho para defender o Estado laico dos ataques do conservadorismo evangélico
O Brasil enfrenta uma cruzada legislativa semelhante de aparelhamento do Estado laico, onde a fé é instrumentalizada para fins políticos
Deputado James Talarico durante sua campanha para o Senado dos Estados Unidos - Jose Luis Gonzalez - 21.fev.26/Reuters
É doutor em sociologia pela USP e fundador do Mapa Centrante
Um dos combates mais contundentes contra a imposição dos Dez Mandamentos nas escolas públicas do conservador estado do Texas não partiu de um militante ateu, mas de um cristão devoto. O deputado estadual democrata James Talarico votou veementemente contra a medida legislativa e, com essa postura, tem se tornado a maior dor de cabeça para a direita religiosa norte-americana.
Talarico, que além de político é aluno do seminário presbiteriano de Austin, denuncia o avanço de um nacionalismo cristão que faz uso político da religião cristã. Para o deputado, obrigar as escolas públicas a pendurar um cartaz com os Dez Mandamentos em uma sala onde sentam crianças muçulmanas, judias ou ateias é um modo de imposição da fé.
O Legislativo texano aprovou o projeto, mas juízes federais barraram a lei ao considerá-la uma violação à Primeira Emenda por promover uma religião estatal. O embate, entretanto, ajudou a projetar nacionalmente o jovem deputado democrata, e se Talarico vencer as primárias do seu partido para uma vaga no Senado, enfrentará o republicano Ken Paxton, um dos mais fervorosos apoiadores da lei dos Dez Mandamentos nas escolas públicas. A eleição será uma espécie de segundo round da disputa teológica.
James Talarico aponta a hipocrisia de um legislativo conservador que proíbe que as escolas tratem de temas relacionados à educação sexual sob o argumento de que se trata de doutrinação e agressão ao direito dos pais na orientação dos filhos. Contudo, na hora de impor mandamentos religiosos na sala de aula para crianças de todas as crenças, esses mesmos políticos decidem subitamente que a doutrinação é papel do Estado e não fere valores familiares.
O Brasil enfrenta uma cruzada legislativa muito semelhante de aparelhamento do Estado laico, onde a fé é instrumentalizada para fins políticos. Já escrevi sobre algumas dessas iniciativas: a Bíblia oficial discutida no Senado Federal, a lei de combate à cristofobia aprovada pelos vereadores de Salvador e a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) contra a ação que solicitava a remoção de símbolos religiosos de órgãos públicos.
Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, a utilização de ações judiciais para preservar o princípio republicano da separação entre religião e Estado é frequentemente distorcida. Essas ações são transformadas em combustível para alimentar o discurso de perseguição religiosa e, sob a alegação de cristofobia, mobilizar o voto conservador.
Diante desse modus operandi da direita religiosa, a estratégia de James Talarico chama a atenção. Ele combate o nacionalismo cristão não apenas evocando a frieza da Constituição, mas empunhando o próprio Evangelho de Jesus.
Segundo Talarico, uma lei que impõe dogmas religiosos aos outros é idólatra, arrogante e profundamente anticristã. A religião que usa o Estado para impor suas crenças, de acordo com ele, é uma religião morta, que abandonou o mandamento de liderar pelo exemplo e trocou o amor ao próximo pela coerção religiosa por meio do poder estatal.
Talarico tem mostrado que o antídoto contra o uso político da religião não é evitar o debate sobre política e religião, mas aprofundar a discussão em termos teológicos e destacar o exemplo de Jesus. O jovem deputado enfatiza que a separação entre Igreja e Estado foi historicamente defendida pelos próprios cristãos que buscavam refúgio de regimes teocráticos.
A atuação de Talarico no debate público ensina que a salvação do Estado laico não se dá fugindo do debate religioso, mas sim demonstrando, com firmeza, que impor a fé pela força estatal é a ofensa mais grave que se pode cometer contra a própria religião.
Talarico tem sido eficaz, utilizando argumentos extraídos do próprio cristianismo, para evidenciar que governos que assumem a responsabilidade de promover uma religião são prejudiciais à democracia e nocivos à liberdade religiosa. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br




