Excesso deixou de ser valor ritual e virou 'despedida da carne' sob vigilância moral da Igreja

Cristianismo herdou Saturnálias e Lupercálias, mas as reinterpretou como exceção vigiada antes da Quaresma

 

Foliões desfilam no tradicional bloco do Cordão do Boitatá, na rua Primeiro de Março, no centro do Rio de Janeiro - Fernando Maia - 8.fev.26/Divulgação Riotur

 

Marcelo Rede

É doutor pela Univ. de Paris 1 e professor de história da USP

 

À primeira vista, Carnaval e cristianismo parecem opostos. De um lado, riso, máscaras, excesso, inversão. Do outro, disciplina, penitência, contenção dos desejos. Não é raro ouvir que o Carnaval seria um resíduo pagão tolerado a contragosto pela Igreja. Mas essa explicação é insuficiente.

A história mostra algo mais complexo: o Carnaval não sobreviveu apesar do cristianismo. Ele tomou forma dentro dele, quando o cristianismo precisou decidir como lidar com uma cultura festiva herdada do mundo romano antigo.

Nesse mundo, festas não eram desvios da ordem. Eram parte da própria ordem religiosa. O calendário estava repleto de celebrações nas quais a rotina era suspensa, relativizada ou publicamente ridicularizada. É o caso das Saturnálias, realizadas em dezembro.

Durante essas festas, escravos sentavam-se à mesa com seus senhores, a franqueza era autorizada, a zombaria ganhava estatuto ritual. Máscaras, jogos, bebida e riso não eram desvios tolerados a contragosto. Eram comportamentos esperados.

Outras festas, como as Lupercálias, combinavam purificação, fertilidade e provocação pública. Corridas rituais, nudez parcial, contato corporal e riso faziam parte de um repertório religioso legítimo. Essas práticas tinham data e duração definidas, mas isso não significa que fossem vistas como problemas morais. No politeísmo romano, não havia oposição estrutural entre festa e religião: a exceção fazia parte do funcionamento normal do mundo.

É aqui que ocorre a grande mudança com o cristianismo. Quando ele se torna dominante, a partir do século 4º, não herda apenas um calendário, mas também um problema novo: como conciliar uma moral religiosa baseada na disciplina contínua com práticas festivas que celebravam o corpo, o riso e a inversão das hierarquias?

Nada disso desapareceu de imediato. As populações continuaram a cantar, dançar, usar máscaras. Pregadores cristãos reagiram com veemência. Um exemplo eloquente é o de Cesário de Arles —que se tornaria santo—, no início do século 6º, que repreende fiéis por se fantasiarem com "formas monstruosas", cantarem obscenidades e se comportarem "não como cristãos, mas como pagãos". A força do ataque revela que essas práticas continuavam vivas dentro de comunidades cristãs.

A diferença decisiva não está no fato de que o cristianismo passou a permitir a indisciplina. Está no modo como ele a reinterpretou. No mundo romano, a festa era um valor positivo em si. No cristianismo, ela se torna um problema a ser administrado. A solução não foi multiplicar festas, mas concentrá-las; não foi celebrá-las, mas justificá-las.

O cristianismo reorganizou o tempo de forma radical. Criou longos períodos de disciplina, jejum e penitência, como a Quaresma, e passou a tolerar a exceção apenas como limiar. O Carnaval nasce exatamente aí: não como uma festa autônoma, mas como o último momento antes da renúncia. O excesso deixa de ser um bem ritual e passa a ser um "antes de".

A própria etimologia do termo —associada à "despedida da carne"— revela essa mudança profunda. O Carnaval não é definido pelo que afirma, mas pelo que antecede. Ele existe em função da abstinência, não da celebração. É uma exceção vigiada, moralmente ambígua, sempre à beira da condenação.

Isso não significa, porém, que o Carnaval tenha sido apenas uma válvula de escape controlada pela Igreja. Ao contrário. Justamente por ocupar esse espaço ambíguo, ele se tornou também um terreno fértil para a contestação. Máscaras, sátiras e inversões passaram a ser meios pelos quais a cultura popular tensionava valores e autoridades dominantes. O riso carnavalesco não apenas reforça a ordem: ele a comenta, a critica, às vezes a expõe ao ridículo.

O Carnaval cristão nasce, assim, de uma negociação permanente. De um lado, tentativas de controle, moralização e enquadramento. De outro, práticas populares que insistem em reinventar a festa, ampliando seus sentidos. O resultado não é uma continuidade simples do mundo romano, nem uma criação inteiramente nova, mas um arranjo histórico instável.

Quando olhamos para o Carnaval brasileiro hoje, com sua crítica política, sua criatividade e sua capacidade de expor desigualdades, vemos a persistência dessa tensão antiga. O Carnaval não é apenas um momento em que a ordem "se permite" ser suspensa. É também um espaço em que se diz, por meio do riso, o que a ordem prefere calar.

O cristianismo não acabou com o Carnaval porque percebeu que não podia eliminar a exceção. Mas o transformou profundamente: retirou-lhe a autonomia religiosa e o colocou sob o signo da penitência. Desde então, uma vez por ano, o mundo pode virar de cabeça para baixo, não porque isso seja bom em si, mas porque, mesmo sob vigilância, o riso nunca deixou de encontrar um caminho. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br