Quem defende censura hoje por conveniência política cria, sem perceber, o monstro que amanhã esmagará todos nós
Por Matheus Alexandre
Theodor Adorno, em Estudos sobre a Personalidade Autoritária (1950), mostrou que o autoritarismo não é um desvio individual, mas uma estrutura sociopsicológica produzida na vida cotidiana. Indivíduos com predisposições autoritárias tendem à intolerância, à ambiguidade, ao pensamento dicotômico, ao apego a normas absolutas e à dificuldade de lidar com nuances. O autoritarismo, assim, opera como um modelo cognitivo: organiza afetos e julgamentos, predispõe à busca de ordem rígida, à punição do desvio e à conversão de conflitos políticos em batalhas morais contra um “inimigo”.
Embora o autor tenha mirado, naquele momento histórico, o fenômeno da ultradireita autoritária, ainda tentando elaborar sobre o fenômeno do nazismo e do fascismo na Europa, sua obra nos permite perceber que, justamente por se tratar de predisposições sociopsicológicas, essas tendências podem ser mobilizadas por qualquer campo político, independentemente do conteúdo da causa.
Essa leitura aparece claramente nas cartas trocadas entre Adorno e Herbert Marcuse em 1969, quando Adorno identificava no movimento estudantil alemão impulsos que reproduziam, na forma, a mesma lógica autoritária que afirmavam combater. A intolerância ao dissenso, a moralização da política e a crença de que fins justos autorizam métodos coercitivos eram, para ele, sinais de um desvio que ultrapassava fronteiras ideológicas.
No Brasil, onde a memória histórica recente associa a direita à ditadura e a esquerda à resistência democrática, cristalizou-se a crença confortável de que o autoritarismo seria exclusivo da extrema direita. A tradição frankfurtiana, porém, demonstra o contrário: qualquer grupo pode reproduzir práticas de supressão do debate e cerceamento do dissenso quando transforma divergências em ameaças existenciais.
Essa dinâmica se expressa de modo crescente nas universidades brasileiras.
A censura praticada por estudantes da Faculdade de Direito da USP, em novembro de 2025, para impedir a participação de André Lajst num debate sobre o Oriente Médio, afirmando em nota que “sionistas não são bem-vindos nas Arcadas”, deve ser vista como uma ação da maior gravidade. Ela expressa precisamente aquilo que Adorno chamaria de “impulso autoritário”: a substituição do debate pela eliminação do dissenso, a crença de que a justiça da causa autoriza a supressão da fala alheia e a transformação da universidade num espaço de unanimidade obrigatória.
Essa é a lógica que tem orientado o movimento de Boicotes, Desinvestimentos e Sanções a Israel (BDS) em diversos ambientes acadêmicos. Sob o discurso de justiça, o movimento passa a operar segundo o modelo cognitivo autoritário descrito por Adorno: reduz complexidades a dicotomias morais entre “puros” e “culpados”, “legítimos” e “ilegítimos”. Com isso, o debate deixa de se concentrar criticamente nas políticas do Estado de Israel e passa a atingir a própria presença de indivíduos judeus, israelenses, sionistas ou simplesmente dissonantes no espaço universitário.
Quando isso acontece, a política deixa de operar no campo do argumento e passa a funcionar no regime da identidade: pessoas são reduzidas àquilo que se presume que elas representam, e não ao que efetivamente dizem ou fazem.
É nesse contexto que o adjetivo “sionista” se converte numa ferramenta conveniente: uma categoria totalizante que demoniza e distorce o significado do movimento nacional judaico, suspende a singularidade dos indivíduos e legitima agressões simbólicas e materiais. Torna-se um passe-livre moral: basta aplicar o rótulo para justificar alguém como alvo, neutralizar sua fala ou normalizar hostilidades que, em qualquer outro cenário, seriam inaceitáveis – um mecanismo que Eva Illouz (2024) denomina antissemitismo virtuoso. O debate, então, cede lugar a uma lógica de veto identitário, e a estrutura autoritária se impõe: não se discutem ideias; elimina-se quem as porta.
Episódios como esse têm se repetido cotidianamente nas universidades públicas brasileiras. Em 2024, um evento de Relações Internacionais da USP foi alvo de boicote pela simples presença da professora Karina Stange Calandrin. No mesmo ano, na Universidade Federal do Ceará, militantes impediram uma palestra de Michel Gherman ao rotulá-lo como “sionista da IDF”, como se a atribuição de uma identidade presumida bastasse para interditar sua fala.
Os exemplos são inúmeros. É a consolidação da “Escola Sem Partido” da esquerda antissionista.
A universidade, nesse cenário, deixa de ser um espaço para o livre pensamento e passa a ser um espaço para o adestramento. E esse é um caminho perigoso. Quem defende censura hoje por conveniência política cria, sem perceber, o monstro que amanhã esmagará todos nós. A História mostra que dispositivos de silenciamento nunca permanecem nas mãos de quem os criou. É preciso parar isso enquanto há tempo.
Opinião por Matheus Alexandre
Mestre e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará, ffellow do London Centre for the Study of Contemporary Antisemitism, alumni do ISGAP–Oxford, especialista em produção acadêmica da StandWithUs Brasil, integra o time de pesquisadores em projeto de combate ao antissemitismo da Confederação Israelita do Brasil (Conib) Fonte: https://www.estadao.com.br




