- Longa argentino 'Belén' mostra jovem que é condenada por aborto espontâneo, numa engrenagem de moralismo e incompetência
- O mais perverso é que, no Brasil, debate necessário nem existe, mesmo com um governo de esquerda

Longa narra o drama de Belén, jovem de 27 anos presa após sofrer um aborto espontâneo em um hospital público de Tucumán, na Argentina - Reprodução/Prime Video
Rio de Janeiro
Um vídeo gravado no início de janeiro dentro do Hospital Municipal Fernando Magalhães, no Rio, mostra mulheres numa situação de extrema vulnerabilidade. Algumas em macas, outras sentadas, choram de dor, têm as roupas encharcadas de sangue. Elas buscam atendimento para a interrupção legal da gestação ou para finalizar uma perda gestacional.
O que aparece ali —maus-tratos e negligência num serviço público dito "de referência"— expõe uma falha que vai além de gestão: é violência institucional. Vale dizer o óbvio, o SUS tem obrigação de atender os casos garantidos pela Constituição, perdas gestacionais e urgências decorrentes de abortos clandestinos. Não cabe dificultar, constranger, interrogar ou agir como polícia.
A realidade brasileira é igual em várias partes do mundo, como mostra um dos filmes mais incômodos do ano, que ficou fora da peneira final do Oscar. Exatamente aquele que deveria ser visto, falado, discutido, esmiuçado. A história retratada em "Belén" é baseada na prisão de uma jovem que sofreu aborto espontâneo. Condenada, tem a vida esmagada por uma engrenagem de moralismo e incompetência. O caso, abraçado por um grupo de mulheres, virou símbolo da luta que legalizou o aborto na Argentina em 2020.
Chorei muito. Não por identificação literal, mas por vergonha de constatar a facilidade com que instituições, respaldadas por leis anacrônicas e que burlam o que deveria ser feito na legalidade, tratam mulheres como criminosas. E isso segue acontecendo no Brasil em larga escala: não só no desfecho extremo de uma prisão, mas no varejo da humilhação, do atraso deliberado para impedir procedimentos, do julgamento; tudo isso como métodos de coerção e de controle.
O mais perverso é que, no Brasil, nem debate existe, mesmo com um governo de esquerda. Aborto foi empurrado para a gaveta do que Brasília chama, com eufemismo, de "pauta de costumes". Por covardia política, Lula e parlamentares progressistas evitam o tema para não comprar briga com bancadas conservadoras e não pagar o preço eleitoral. As mulheres que paguem. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br




