O Brasil e a Santa Sé celebram 200 anos de relações diplomáticas em um momento de convergência de preocupações entre Lula e o Papa Leão XIV
Lula e o Papa Leão XIV — Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert
— Buenos Aires
O Brasil e o Vaticano comemoram hoje 200 anos de relações diplomáticas, em momentos de enormes desafios globais e, segundo confirmam fontes diplomáticas e posicionamentos do Papa Leão XIV e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, forte sintonia entre ambos. Para dar apenas um exemplo, o governo brasileiro e o Sumo Pontífice foram convidados pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para participar do chamado “Conselho da Paz”, uma iniciativa que parecia inicialmente destinada a supervisionar a reconstrução pós-guerra de Gaza, mas que poderia ir além do enclave. Em Brasília e no Vaticano, fontes afirmam que em ambos os casos a tendência é dizer “não” ao republicano.
No caso do governo brasileiro, as fontes foram mais taxativas: “Existe zero possibilidade de que sejamos parte disso.” No Vaticano, a coluna apurou que Leão XIV, nascido nos EUA, dificilmente se arriscaria a sofrer uma avalanche de questionamentos, sobretudo internos. Oficialmente, o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado e número 2 do Vaticano, disse a jornalistas que “estamos considerando isso a fundo, e acho que é um assunto que requer tempo para reflexão e resposta”.
Hoje, Parolin celebrará uma missa em português pelos 200 de relações diplomáticas entre o Brasil e o Vaticano, na Basílica de Santa Maria Maior (onde está sepultado do Papa Francisco), com a presença de cardeais brasileiros, entre eles Dom Jaime Spengler, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e arcebispo de Porto Alegre, e do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Durante sua visita ao Vaticano, o ministro se encontrará com a Comunidade Santo Egídio (atuante na mediação de conflitos, sobretudo na África); com a Ordem de Malta, que tem uma extensa rede de atenção, sobretudo de caráter humanitário; e com o cardeal Parolin.
O Brasil e o Vaticano mantêm relações diplomáticas desde 23 de janeiro de 1826, quando o papa Leão XII recebeu as cartas credenciais de monsenhor Francisco Corrêa Vidigal, que havia sido enviado a Roma pelo imperador Pedro I para efetuar gestões em favor do reconhecimento da independência, proclamada em 1822.
Na visão do embaixador Everton Vieira Vargas, essa relação vive um de seus melhores momentos. O embaixador destacou em conversa com a coluna a convergência sobre temas comuns e de preocupação de ambos os Estados, entre eles o futuro do multilateralismo, a busca da paz e de um mundo mais justo.
Talvez uma das poucas divergências entre Leão XIV e Lula seja sobre o papel da líder opositora venezuelana María Corina Machado, recebida recentemente pelo Pontífice. O presidente brasileiro nunca quis ter contato com María Corina, vista por seu governo como um obstáculo para uma transição democrática no país.
No discurso do Papa aos membros do corpo diplomático acreditado junto ao Vaticano, nos primeiros dias de janeiro, Leão XIV afirmou que “preocupa particularmente a fragilidade do multilateralismo no plano internacional. Uma diplomacia que promove o diálogo e procura o consenso de todos está sendo substituída por uma diplomacia da força, de indivíduos ou de grupos de aliados.
A guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está se alastrando. Foi quebrado o princípio, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, que proibia os países de recorrerem à força para violar fronteiras alheias”. Sintonia fina com o Planalto. Fonte: https://oglobo.globo.com




