O componente irracional é o que move a adesão ideológica
Não é o desejo de melhorar o mundo, mas o gosto por sangue

Ilustração de Ricardo Cammarota para coluna de Luiz Felipe Pondé - 18 de janeiro de 2026 - Ricardo Cammarota/Folhapress
Quem ainda crê que os movimentos políticos modernos e as ideologias nascem do cérebro racional da espécie é ignorante ou mentiroso. Tais movimentos e suas militâncias são da mesma ordem do fanatismo religioso. Por isso, pouco adianta tentar argumentar com tais agentes. Esse ato seria semelhante a argumentar com um enxame.
Este fato explica, pelo menos em parte, a estupidez que circula pelas redes sociais entre os "haters" engajados na polarização. O nível mais alto de inteligência que atravessa essa cultura de bactérias, que são as redes, é aquele que caracteriza os movimentos répteis.
O filósofo britânico John Gray lançou em 2007 "Black Mass, Apocalyptic Religion and the Death of Utopia", que agora está sendo relançado no Brasil como "Missa Negra, Religião Apocalíptica e a Morte da Utopia".
Quem conhece sua obra sabe que o filósofo britânico é um duro crítico do mito do progresso. Concordo com Gray que o progresso é um mito, afora os avanços tecnológicos desde a descoberta de como fazer o fogo. Mas, no que se refere ao comportamento humano, à moral e à política, a ideia de progresso desde o Iluminismo é idiota. Entretanto, o número de iludidos que nele creem nunca para de crescer.
Outro traço do pensamento de Gray é sua suspeita de que os animais, no seu "silêncio", são mais sábios do que nós. Aliás, seu livro "Silêncio dos Animais" é um dos mais belos que já li.
A tese da sua "Missa Negra" é que todas as crenças políticas revolucionárias modernas são derivadas de crenças apocalípticas judaicas e cristãs. Mesmo passando pela secularização, a tara com o fim do mundo tal como conhecemos e o surgimento do "novo mundo perfeito" permanece. E não só esse aspecto foi mantido.
Todos sabemos que as narrativas apocalípticas são marcadas pela violência, mortes do que são maus, sobrevida dos eleitos. Como não pensar na Revolução Francesa ou na Russa? Ou na Revolução Islâmica Iraniana?
Gray deixa claro que mesmo nas crenças ideológicas liberais, marcadas pela ideia de aperfeiçoamento incremental do mundo, permanece a ideia de que o "mercado" salvará o mundo e os homens. O otimismo liberal de mercado é, também, um filhote da tara apocalíptica. Daí, a aceitação que os incapazes de lidar bem com a lógica da eficiência e da competição do mercado não têm méritos para viver no novo mundo da riqueza material.
O que sustenta as posições ideológicas do mundo contemporâneo são taras irracionais religiosas secularizadas. Lendo essa coisa chamada "comentários", na sua imensa maioria, vemos a pequena miséria humana na sua forma explícita.
Sabemos que a justificativa dessa prática na mídia não tem nada a ver com "princípios democráticos", mas, apenas, sim, trata-se de princípios de marketing. Há que dar voz aos consumidores, mesmo que a maior parte do que circula por esse "ecossistema" seja puro lixo. Do ponto de vista do conteúdo, não faria nenhuma falta. Os "comentários" são um parquinho para crianças raivosas, com raras exceções.
O componente irracional humano é o que move a adesão ideológica. Não é o desejo de melhorar o mundo, mas, sim, o gosto de sangue. Se não fosse isso, por que tantos revolucionários sempre gozaram com a palavra "terror"? A paixão pelo terror é a paixão política essencial em questão.
Como diz Gray, com os movimentos políticos modernos, a tara apocalíptica, que na Antiguidade, era essencialmente um traço de indivíduos periféricos e esquisitos da miserável sociedade israelita do período do Segundo Tempo sob domínio romano, em si periférica, hoje se fez "mainstream".
Discute-se em aulas na universidade, escreve-se em livros de autores com PhD, encena-se em peças de teatro com aprovação da crítica regadas a vinho caro em restaurantes descolados, apresenta-se em programas de debates da televisão e podcasts, enfim, as taras com o fim do mundo tal como conhecemos e a criação de um mundo novo e perfeito são tratadas como ciência social, histórica e política.
Profetas do terror como Marx, Lênin, Foucault, entre outros, recebem o tratamento de "especialistas" nas sociedades dos homens, quando, na realidade, não entendem patavina acerca de quem vai à feira comprar ovos e tomates para comer em suas casas de pobres.
A ideia de que existe um componente moral significativo na espécie humana pode ser inconsistente. Veja, por exemplo, a indiferença de grande parte da imprensa e dos países para com os mortos iranianos. Um blábláblá aqui, outro ali. Cadê toda aquela indignação? E as bandeiras? A verdade é que os aiatolás podem matar à vontade. O mundo é um circo de horrores e continuará sendo. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br




