Pesquisa atesta que grande parte dos brasileiros está alterando trajetos e deixando de atender celular na rua por temer violência, com enorme impacto nas relações sociais e na vida política
Uma pesquisa recente do Datafolha mensurou o medo: cada vez mais brasileiros estão mudando seus hábitos quando vão para a rua por causa da sensação de insegurança. Quando cidadãos se veem obrigados a adotar táticas de sobrevivência em seu cotidiano, isso significa que a violência venceu.
De acordo com o levantamento, 72% dos entrevistados afirmaram ter alterado algo em sua rotina por temerem a violência. O medo levou 56% dos brasileiros a deixarem de usar o celular nas ruas, em veículos e até mesmo em ambientes fechados fora de casa. Segundo a pesquisa, 36% contaram ter feito outro caminho para o trabalho ou a escola, 31% passaram a andar sem aliança no dedo e 27% pararam de fazer algo prazeroso. Um em cada quatro brasileiros nem sequer sai de casa mais.
Essa sensação de vulnerabilidade generalizada diante da perspectiva da violência urbana atravessa todas as faixas etárias, afeta tanto homens quanto mulheres e é suprapartidária. Segundo a pesquisa, independentemente da idade, no mínimo sete em cada dez brasileiros têm medo da violência. No recorte de sexo, o índice é de 68% entre os homens e chega a 76% entre as mulheres. E tanto quem votou em Luiz Inácio Lula da Silva (70%) como quem votou em Jair Bolsonaro (76%) vive com medo.
Hoje apenas a saúde preocupa mais os brasileiros do que a segurança pública. Segundo o Datafolha, 20% dos entrevistados consideram a saúde o maior problema do País, seguido de 16% que apontam a segurança pública. Aliás, a segurança pública superou até mesmo as aflições do brasileiro em relação à economia – maior preocupação para 11% dos entrevistados.
Tudo isso faz desse tema uma pauta da classe política, que está bastante atenta às demandas do ano eleitoral que se avizinha. São discussões de propostas de legislação para endurecer penas de crimes e também aprimorar o combate ao crime organizado. Não raro, infelizmente, o debate é contaminado pela demagogia.
É difícil falar em qualidade de vida num país cuja população vive amedrontada com a possibilidade de ser assaltada quando sai de casa para trabalhar, estudar e se divertir ou, pior, de ser até vítima de um latrocínio, o roubo seguido de morte. E esse medo, em que pesem as pontuais variações regionais, está disseminado de norte a sul do País.
De acordo com o Datafolha, mudaram algum hábito por temer a violência 74% dos entrevistados do Nordeste, 75% dos do Centro-Oeste/Norte e 76% dos do Sudeste. Significa dizer que três em cada quatro pessoas em 24 das 27 Unidades da Federação se sentem acuadas. A situação é até um pouco melhor no Sul, mas nem por isso menos aflitiva, haja vista que mais da metade (54%) dos entrevistados dessa região disseram também ter alterado algo de sua rotina por medo da violência. Não dá para dizer que essa seja uma sensação de segurança.
Esse índice é particularmente assustador entre os moradores das regiões metropolitanas, onde chega à marca de 80% dos entrevistados. Engana-se quem pensa que morar no interior significa estar em paz: 66% dos entrevistados das pequenas cidades brasileiras também sentem medo da violência.
E esse temor é particularmente mais forte entre as mulheres. Segundo as entrevistadas, 38% delas disseram já ter mudado o caminho; 62% não tiveram coragem de usar o celular em ambiente público; 31% deixaram de fazer algo que lhes dá prazer; e 29% pararam de sair de casa. Em absolutamente todos os hábitos questionados pelo Datafolha as entrevistadas manifestaram sentir mais medo do que os homens, o que indica uma sociedade bastante hostil às mulheres.
O impacto dessa situação é enorme – nas relações sociais, na produtividade e na própria democracia, porque o medo esgarça laços de solidariedade, fere o senso de comunidade e reduz a disposição para aceitar o diferente, que passa a ser visto como ameaça.
Tudo isso colabora para que soluções de força, muitas vezes ao arrepio das leis e dos direitos humanos, sejam consideradas aceitáveis, tornando-se parte de discursos eleitoralmente potentes. Fonte: https://www.estadao.com.br




