Solidão é um estado emocional que pode acontecer mesmo em meio a outras pessoas
Especialistas recomendam criar novos rituais e conexões genuínas para enfrentar o período festivo
Catarina Pignato/Folhapress
São Paulo
Uma criança sozinha na noite de Natal. Enquanto todos celebram, ela foi deixada para trás em uma casa vazia. É essa experiência traumática que molda Ebenezer Scrooge, o protagonista de "Uma Canção de Natal", de Charles Dickens, transformando-o num homem amargo que passa a odiar o feriado. Décadas depois, a mesma angústia ressurge como trama principal de "Esqueceram de Mim", franquia natalina em que o menino Kevin é deixado para trás pela família não uma, mas duas vezes.
Os enredos podem ilustrar um medo inconsciente: passar a data associada às tradições em família, união, perdão e amor totalmente sozinho. A psicanalista Carol Romano, autora do livro "Por que as Relações Importam (Tanto)?", da editora Amarilys, afirma que as pessoas estão de fato mais solitárias. Ela cita uma pesquisa global de engajamento no trabalho que constatou que 20% dos participantes relataram solidão. O número de lares com uma pessoa dobrou desde a década de 1960.
Por outro lado, a aproximação das festas de fim de ano pode gerar uma percepção de solidão, que difere de estar sozinho de fato. A solidão é um estado emocional que implica desconexão, explica o psiquiatra Rodrigo Bressan, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Segundo o médico, esse período do ano é propício para essa percepção, já que há uma pressão social pela felicidade, pela celebração e pela gratidão.
"Um monte de gente está com questões difíceis, como distanciamento e conflitos com a família, lidando com transtornos psiquiátricos ou a perda de algum familiar", diz Bressan. A pressão social pode acabar gerando um sentimento de inadequação e culpa por estar sofrendo.
As mídias sociais podem reforçar ainda mais essa sensação, afirma o psiquiatra, já que a maior parte das postagens são de momentos felizes e bonitos, o que gera a impressão de que todo mundo está feliz, menos a pessoa do outro lado da tela.
Para Romano, essa performance que acontece nas redes sociais é a mesma das confraternizações. "Você está reunido com pessoas com as quais não falou o ano inteiro, com as quais não tem uma conexão real", diz. "Então, a cobrança para estar feliz, falando de conquistas e agindo como se tudo estivesse perfeito. As pessoas podem se sentir performando."
Bressan reforça que a sensação de solidão, apesar de não ser por si só depressão, pode estar associada a ela e, por isso, deve ser cuidada. Pode ser algo comum e transitório desse momento do ano, mas, se persistir e se somar à ansiedade, angústia e perda de motivação que dure semanas ou meses, ele recomenda procurar ajuda profissional.
Ressignificando a solidão
As pessoas podem estar fisicamente sozinhas, mas ressignificar o momento das festas. Há oito anos, a professora de educação infantil e cantora Jacqueline de Lima Carvalho, 43, se viu sozinha em São Paulo enquanto sua família passaria o fim de ano no Recife. "Eu não ia conseguir voltar para comemorar com eles, então tive a ideia de fazer um encontro em casa com colegas que estavam longe ou com problemas na família."
A prática, chamada de "Natal dos desgarrados" —ou seja, daqueles que estão separados de um grupo—, se popularizou entre pessoas que não conseguem ou não querem se reunir com familiares para a ceia. Jacqueline conta que há pessoas do grupo que se reúnem desde o início, mas a cada ano surgem novos amigos ou pessoas indicadas por amigos.
"Nos últimos anos, apareceram muitas pessoas com conflitos familiares por causa de política", diz. "As pessoas que não se conhecem passam a firmar novas amizades." No dia 24, a festa tem dança, música, bebidas e mesa colaborativa: cada um leva um prato, além de um presente para o sorteio do amigo secreto. O grupo volta a se reunir no dia 25, para a "Ressaca do Peru", para comer as sobras da noite anterior.
Reunir os amigos próximos pode ser uma solução para quem vai passar as festas de fim de ano sozinho, seja qual for o motivo, e não quer se sentir solitário. Para quem vai trabalhar, uma opção é criar rituais com os colegas, como fazer amigo secreto ou compartilhar refeições, diz Romano.
Assim como o trabalho com propósito não gera solidão nessa época, a psicanalista recomenda que quem está sozinho faça trabalhos voluntários e humanitários.
"Nas ciências que estudam bem-estar e felicidade, uma das práticas de emoções positivas é quando você se coloca a serviço do outro num trabalho voluntário ou humanitário. Eu acho inclusive curativo para muita gente que tem esse núcleo mais solitário", diz.
Agora, para aqueles cujo problema é se sentir solitário mesmo em torno de outras pessoas, ela também dá algumas dicas, como tentar se reconectar com os familiares mais distantes em outros momentos antes das festas, em encontros menores e mais intimistas, e criar rituais para aprofundar a conversa, como uma roda de conversa para falar das intenções para o ano. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br




