Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Amados irmãos e irmãs em Cristo, celebramos hoje a Solenidade de Todos os Santos. Contudo, engana-se profundamente quem imagina a santidade da Igreja como um refúgio asséptico, alienado das dores do mundo, ou como uma torre de marfim onde almas imaculadas contemplam o céu indiferentes ao clamor da terra. Ao olharmos para as leituras que a liturgia nos propõe, a palavra que ecoa não é alienação, mas imersão, combate e encarnação. A santidade da Igreja é vivida no barro da história, no chão batido das periferias, nos campos esquecidos e no coração da dor humana.
A Primeira Leitura, do Livro do Apocalipse (Ap 7,2-4.9-14), traz uma visão que não deve ser lida com sentimentalismo, mas com o peso do realismo cristão. A multidão incalculável de vestes brancas diante do Cordeiro não é feita de espectadores passivos, mas daqueles que “vieram da grande tribulação e lavaram as suas roupas no Sangue do Cordeiro”. O Sangue do Cordeiro não é uma metáfora abstrata; ele se torna visível e palpável no sacrifício contínuo de Cristo através do corpo de sua Igreja. Hoje, esse Sangue continua a ser derramado e ofertado pelo mundo por meio das mãos calejadas, dos pés cansados e da vida doada de milhares de missionários e missionárias católicos.
É preciso ter a coragem de olhar para a Igreja em toda a sua complexidade humana. Sim, somos uma Igreja composta por homens e mulheres pecadores, marcada por fraquezas, contradições e por vezes enlameada pelas faltas de seus membros. Mas a sua santidade não procede da perfeição moral de seus componentes, e sim da presença do Espírito Santo e da entrega incondicional daqueles que, mesmo na fragilidade, abraçam o Evangelho até as últimas consequências. A santidade da Igreja brilha com fulgor nas frentes de missão onde a vida humana é mais vulnerável e desvalorizada.
Essa santidade encarnada se manifesta diariamente nas missões da Amazônia e das florestas tropicais, onde padres, freiras e leigos arriscam a própria vida para defender os povos originários e a criação contra a ganância predatória. Revela-se nos vilarejos mais distantes do continente africano, em dispensários e escolas improvisadas sob o calor tórrido, onde missionárias tratam de doentes esquecidos e alimentam crianças desnutridas. Está presente nas favelas, nos cortiços e nas cracolândias das grandes metrópoles, onde homens e mulheres consagrados caminham entre
a lama, a violência e o abandono para resgatar a dignidade dos marginalizados e dependentes químicos. Ela resplandece também nas zonas de guerra e de perseguição religiosa no Oriente Médio e na Ásia, onde comunidades católicas inteiras e seus pastores recusam-se a abandonar o rebanho, lavando diariamente suas vestes no testemunho do martírio.
Nessas frentes de batalha espiritual e humana, a Igreja não busca aplausos, mas cumpre a sua vocação de ser o próprio Cristo que padece e se doa pelos pequenos. Quando um missionário estende a mão a um faminto, quando acolhe um refugiado sem pátria ou consolam a dor dos aflitos, é a santidade da Igreja que se consolida — não pela ausência de feridas, mas pela disposição de ferir-se por amor.
No Evangelho das Bem-Aventuranças (Mt 5,1-12a), Jesus não promete facilidades. Ele declara bem-aventurados os pobres, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos e os perseguidos. As bem-aventuranças não são um consolo para a passividade, mas a rota da missão. Os santos da Igreja — tanto os dos altares quanto os missionários anônimos de hoje — entenderam que ser misericordioso e trabalhar pela paz exige entrar nas entranhas do sofrimento humano. Eles não hesitam em sujar as mãos para erguer quem caiu.
Por fim, a Segunda Leitura (1Jo 3,1-3) nos recorda que “desde já somos filhos de Deus”. Essa filiação divina não nos desliga da terra; ao contrário, compromete-nos com a transformação do mundo. Todo aquele que mantém em Cristo a sua esperança purifica-se a si mesmo. E a maior purificação para a Igreja é o exercício incansável da caridade.
Que a celebração da Solenidade de Todos os Santos nos desperte do comodismo. Olhemos para o exemplo daqueles que lavaram suas roupas no Sangue do Cordeiro e continuam a fazê-lo nas periferias existenciais e geográficas da humanidade. Que, mesmo cientes de nossas misérias e do barro de que somos feitos, tenhamos a humildade e a audácia de nos juntar a essa grande corrente missionária. Que possamos ser, no meio do mundo, uma Igreja viva, imperfeita em seus membros, mas infinitamente santa no amor com que se entrega e se sacrifica pelos mais pobres. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Para sempre seja louvado. Fonte: https://www.cnbb.org.br




