Pesquisas indicam favorecimento ao catolicismo em modelos de IA, enquanto o Vaticano se consolida como interlocutor moral das big techs

O viés católico das máquinas é sinal da longa habilidade do catolicismo em sobreviver mesmo diante de seu tão anunciado declínio

O papa Leão 14 lançou sua primeira encíclica, dedicada justamente à inteligência artificial - Yara Nardi/Reuters 

Rodrigo Toniol

Professor de antropologia da UFRJ, é membro da Academia Brasileira de Ciências

 

Há um viés católico nas respostas dos principais modelos de inteligência artificial. Essa é a conclusão de uma série de estudos do Cefe-AI, consórcio de pesquisadores de quatro universidades norte-americanas dedicado a examinar como sistemas de IA lidam com temas de fé, ética e religião. A divulgação ocorreu na mesma semana em que o papa Leão 14 lançou sua primeira encíclica, dedicada justamente à inteligência artificial. A coincidência merece atenção.

No estudo mais recente, os pesquisadores testaram 20 modelos comerciais e abertos em situações simuladas de conversão religiosa. O roteiro era simples. O usuário se apresentava à IA, dizia ter pertencido a uma tradição durante toda a vida e contava estar atraído por outra. Em seguida fazia a mesma pergunta, invertendo a direção.

O que os pesquisadores queriam ver era se a IA estimulava as pessoas a saírem ou entrarem em uma religião mais do que em outra. As respostas foram medidas numa escala de 1 a 7, do desencorajamento forte ao encorajamento forte à conversão.

Todos os modelos, entre eles ChatGPT, Claude e Gemini, reproduziram a mesma assimetria. Entre as religiões, os católicos foram os mais beneficiados pela IA. Ou seja, o catolicismo foi a religião que a IA mais incentivou à conversão e menos indicou o abandono. Ateus, agnósticos e Testemunhas de Jeová ficaram no polo oposto, fortemente desestimulados à conversão e estimulados à saída. A pergunta seguinte é por quê.

Os autores ainda não afirmam a razão do viés, mas levantam uma hipótese. Os modelos respondem ao nível de compromisso que cada religião exige, à abertura a novos membros e à imagem pública que cada tradição sustenta. Nesse caso, o catolicismo se beneficiaria de seu baixo custo de entrada para novos convertidos e do igualmente baixo custo de permanência numa religião em que pertencimento e prática são facilmente desassociados. A pesquisa focou na conversão, mas a equipe avalia que esse viés de favorecimento católico também pode aparecer em conversas mais amplas sobre fé, sofrimento e decisões morais.

Faz quase uma década que o Vaticano se posiciona como interlocutor religioso preferencial das empresas de inteligência artificial. Em 2020, sob o papado de Francisco, a Pontifícia Academia para a Vida lançou o "Rome Call for AI Ethics", assinado por Microsoft, IBM e Cisco. Demis Hassabis, da DeepMind, e Sam Altman, da OpenAI, tiveram audiências privadas com o papa. Em novembro passado, sob os afrescos da Sala Clementina, no Vaticano, Leão XIV falou sobre crianças, algoritmos e IA. No lançamento da encíclica "Magnifica Humanitas", na semana passada, quem estava ao lado do papa era Christopher Olah, cofundador da Anthropic, empresa responsável pela IA Claude.

Há aqui duas escalas de autoridade religiosa, e a Igreja Católica ocupa as duas.

A primeira é a do "global player". Enquanto os países buscam regular nacionalmente o uso de IA, o Vaticano se posicionou como mediador internacional do debate ético, único interlocutor religioso que parece ter sido capaz de convocar as big techs e ter algum apelo entre elas. A segunda escala é menos visível e mais antiga. O catolicismo é, há séculos, uma das matrizes textuais mais densas e contínuas do Ocidente. Filosofia, teologia, literatura, direito, registros institucionais. Esse arquivo também está entre os materiais que ensinam as máquinas a responder aos usuários sobre moral, pessoa, verdade e ética.

A Igreja sabe que as tecnologias decisivas de cada época não apenas mudam ferramentas. Elas reorganizam as formas de imaginar o humano. Foi assim com a imprensa, com o rádio, com a televisão e agora com a inteligência artificial. Quem disputa a linguagem da IA também disputa a linguagem do século 21. O Vaticano entendeu o tamanho do jogo e jogou cedo. O viés católico das máquinas é, antes de tudo, sinal da longa habilidade do catolicismo em sobreviver mesmo diante de seu tão anunciado declínio. Fonte: www1.folha.uol.com.br