Com católicos no governo, Trump buscou aproximação, mas pauta migratória empurrou a Igreja para a linha de frente da resistência
Mais de 100 religiosos de diferentes denominações cristãs foram presos enquanto participavam dos protestos em Minneapolis

Manifestantes contrários ao serviço de imigração Estados Unidos durante protesto pela morte do enfermeiro Alex Pretti na semana passada - Octavio Jones/AFP
Professor de antropologia da UFRJ, é membro da Academia Brasileira de Ciências
Padres, freiras e bispos católicos têm participado ativamente dos protestos contra a política de deportação dos Estados Unidos. O fato não é por acaso. Pelo contrário, é sintomático da tensão crescente entre a Igreja Católica e o governo Trump.
Neste seu segundo mandato, Trump fez movimentos contundentes para se aproximar do catolicismo. Na escolha de J. D. Vance como seu vice, o fato de ele ser um católico convertido de prestígio nos setores mais conservadores contou a seu favor. Outros nomes relevantes da administração Trump também se declaram católicos, como o secretário de Estado, Marco Rubio, e a secretária da Educação, Linda McMahon.
A morte do papa Francisco, apenas três meses depois de Trump voltar ao Salão Oval, também serviu para o presidente chamar a atenção para si. Na ocasião, declarou que poderia ser papa, publicou uma imagem feita por IA em que aparece vestido como pontífice e especulou sobre sua influência no conclave. Pouco depois, viu o primeiro norte-americano ser eleito papa: Leão 14. A convergência entre os dois, no entanto, parece terminar na nacionalidade.
Em novembro de 2025, Leão 14 fez referência à situação dos migrantes nos Estados Unidos e lembrou o evangelho de Mateus: todos serão julgados pela forma como tratam os estrangeiros. No início de 2026, após a invasão americana à Venezuela, defendeu a soberania do país latino.
Se migração e Venezuela são pautas centrais do governo Trump, nos dois temas o Vaticano se colocou na direção contrária. Mas a reação católica não ocorre apenas no plano da política global.
Michael Pham tinha 13 anos de idade quando fugiu do Vietnã em um barco com mais de 100 pessoas, ficou à deriva por dias, até aportar na Malásia. Naquele país, Michael tornou-se refugiado, até obter asilo nos Estados Unidos. Hoje é bispo de San Diego, no sul da Califórnia, na fronteira com o México.
Desde junho de 2025, o bispo de origem vietnamita acompanha pessoalmente os imigrantes quando chegam ao tribunal federal da cidade para as audiências judiciais sobre sua situação migratória.
Na semana passada, dezenas de organizações católicas lançaram uma iniciativa denominada Projeto de Ação Profética Católica para imigrantes, que tem como objetivo fornecer às dioceses ferramentas de pesquisa, comunicação e planejamento estratégico de ação. Na prática, isso significa oferecer proteção aos imigrantes a partir de uma ampla rede católica de apoio.
A iniciativa veio ainda acompanhada de um raro tipo de declaração feita por três membros do alto clero americano. Na segunda-feira (19), os arcebispos de Chicago, Washington e Newark manifestaram preocupação e discordância com os rumos do governo Trump.
Na última sexta-feira (23), mais de 100 religiosos de diferentes denominações cristãs foram presos enquanto participavam dos protestos em Minneapolis. Entre os católicos, o envolvimento na organização dos protestos e na rede de proteção aos imigrantes é crescente. As razões para isso são teológicas, mas também demográficas.
Segundo o Pew Research Center, os hispânicos representam 36% dos católicos do país; os imigrantes, 29%; e os filhos de imigrantes, outros 14%. Este é o elemento-chave da articulação entre a política migratória do governo americano e a reação que tem vindo dessas comunidades religiosas.
Na história recente dos Estados Unidos, a luta por direitos civis teve religiosos entre seus protagonistas, como o pastor batista Martin Luther King Jr. e a freira católica Mary Antona Ebo. Isso não significa que a história se repetirá. Mas o fato de que o primeiro papa americano, membros do clero e comunidades católicas estejam reagindo frontalmente à política migratória de Trump merece atenção. Também serve de antídoto contra leituras apressadas que tratam religiosos, por definição, como base automática do trumpismo. Fonte: www1.folha.uol.com.br




