O padre Naim Shoshandy tem muitas razões para estar nervoso: em 23 de março de 2014, a organização terrorista Daesh assassinou seu irmão de 27 anos, unicamente por ele ser cristão. Hoje, ele acolhe a “bravura” do Papa Francisco em decidir visitar a “nação martirizada” do Iraque. A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 24-02-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

“O país está em chamas, mas ele mesmo assim está indo”, afirmou o padre ao Crux, por telefone. “É um ato de bravura ir ao Iraque, a terra de Abraão, como um apóstolo”. Um ato de bravura, disse Shoshandy, sem negar que isso poderia ser considerado um ato de “loucura”.

Lá ocorreram três ataques de mísseis nos últimos dez dias, incluindo um sobre a embaixada dos Estados Unidos em Bagdá, e outro na base estadunidense no aeroporto de Erbil, a capital do Curdistão, a região autônoma no norte do país que o Papa Francisco também visitará e usará como base na planície de Nínive.

Shoshandy é desta região, especificamente Qaraqosh. No entanto, as chances são baixas de ele estar lá na visita do papa: depois que seu irmão foi assassinado, ele foi forçado a fugir do Iraque e hoje vive em Albacete, Espanha, onde é pároco da igreja de Santa Ana desde 2016.

Francisco visitará Erbil, Mosul e Qaraqosh em 7 de março. Sua viagem ao Iraque de 5 a 8 de março também inclui paradas na Planície de Ur – a terra natal do patriarca bíblico Abraão – e Najaf, onde se encontrará com o aiatolá Ali al-Sistani.

 

O encontro entre o pontífice e uma das principais figuras do Islã xiita será apenas mais um momento marcante durante a visita histórica, a primeira de um papa ao Iraque.

João Paulo II tentou ir ao Iraque em 1999 para dar início a uma peregrinação que o levou aos locais mais sagrados do cristianismo, mas as negociações com o governo de Saddam Hussein fracassaram e a visita nunca se materializou. “Esperamos que esta visita abra os olhos de muitos no Iraque, sirva como um lembrete de que somos todos irmãos”, disse Shoshandy.

“E também esperamos que traga algo de extrema importância: a esperança da liberdade religiosa”, Shoshandy, observando que o encontro do papa com al-Sistani será histórico.

O padre católico siríaco foi ordenado em 12 de setembro de 2013 na Catedral da Imaculada Conceição em Qaraqosh, e trabalhou como padre em várias paróquias iraquianas até ser forçado a fugir de sua diocese, ameaçado pelo Daesh. A catedral foi destruída, mas, com a ajuda da organização papal de caridade Ajuda à Igreja que Sofre, foi reconstruída e está pronta para a visita de Francisco, como mostram as fotos compartilhadas pelo padre no Twitter:

Ele costuma se referir a 6 de agosto de 2014 como o dia do “mal e da crueldade”. A memória das bombas que cobriram a cidade e a imagem de si mesmo removendo os corpos sem vida de seus próprios vizinhos sob os escombros depois que o Daesh invadiu sua cidade ainda está fresca em sua mente.

Apesar disso, ele tem esperanças para a visita do Papa: “Somos todos irmãos, como diz o lema da visita. Esperançosamente, as pessoas no Iraque entenderão isso”.

Ele quer ir ao Iraque para a visita e está tentando colocar toda a sua papelada em ordem, mas tem medo de ter problemas para reentrar na Espanha vindo do Iraque se deixar a União Europeia. Ele não está desistindo, entretanto, e até o último dia ele dirá a qualquer um que perguntar que “ele espera estar no Iraque quando o papa estiver lá”.

Se ele não puder ir, ele ainda seguirá a visita da Espanha, bem como as centenas de milhares de cristãos forçados a fugir do Iraque em uma diáspora que começou após a invasão dos EUA em 2003, mas que se agravou em 2014, após o surgimento do Daesh.

Shosandy se encontrou com o papa em 20 de março de 2019, no Vaticano: “Minhas pernas estavam tremendo e eu mal conseguia pronunciar as palavras, mas ele agarrou minhas mãos e me disse para ficar à vontade”.

“Eu me apresentei como o que sou: um padre do Iraque que também é vítima do Daesh”, disse ele. “Disse-lhe que represento os cristãos perseguidos no meu país e pedi-lhe que orasse por nós. Em seus olhos, pude ver o reflexo de sua compaixão com a história da minha família, particularmente o sofrimento que passamos desde o assassinato de meu irmão”.

A proximidade do papa, disse Shosandy, é algo que estará com ele “por toda a minha vida. Agradeço a Deus por esses momentos que ele me deu”.

Esta será a primeira viagem internacional do pontífice desde novembro de 2019, quando visitou o Japão e a Tailândia. Ele tinha uma viagem agendada para Malta em maio passado, mas foi cancelada devido à pandemia de covid-19. Quando o Vaticano anunciou a viagem ao Iraque em dezembro passado, o fez com o alerta de que a situação internacional da covid-19 seria monitorada de perto.

Na semana passada, o Iraque anunciou uma série de restrições, incluindo o fechamento de todas as casas de culto, até 8 de março, último dia da visita papal, na tentativa de conter a disseminação do coronavírus, com cerca de 3 mil novos casos registrados diariamente.

Mais de 13.295 pessoas morreram de covid-19, em um país com um sistema de saúde muito comprometido devido aos anos de guerra e violência.

A igreja martirizada do Iraque, disse Shoshandy, dá as boas-vindas à visita do papa e espera-se “trazer apoio para um povo que sofre”.

“Desde o primeiro dia de meu sacerdócio, entendi o significado da dor, geralmente causada pelo silêncio, indiferença e solidão, sofrida tanto durante a guerra no Iraque, quanto durante a guerra contra o coronavírus”, disse o padre ao Crux.

“O Iraque é uma nação que precisa da visita do Santo Padre, mas quando chegar a Bagdá não estará apenas visitando o Iraque: todos os cristãos do Oriente Médio aguardam essa peregrinação”, disse.

“Todos estão muito entusiasmados e felizes com a visita de Sua Santidade”, acrescentou. “É uma visita sagrada para nós, e a única nuvem acima dela é a do coronavírus, mas todo o possível está sendo feito para garantir que todos estejam seguros”.

Por exemplo, embora o estádio onde o papa irá celebrar a missa em Erbil possa acomodar confortavelmente 20 mil pessoas, apenas 10 mil terão permissão para comparecer.

“Cristãos e todas as pessoas de boa-vontade no Oriente Médio viveram por algum tempo em um estado de dúvida e medo, enfrentando muitos problemas”, disse Shoshandy. “Mas o Papa vem até nós para nos apoiar e nos encorajar. Nós todos, mesmo aqueles que vivem além-fronteiras, esperam ansiosamente para dar-lhe as boas-vindas”. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br