Sacerdote polonês vive há 18 anos no Brasil, é bolsonarista de carteirinha e ativista contra o aborto

 

FERNANDO CAIXETA

De crucifixo e batina, mesmo sob sol forte, o padre polonês Pedro Stepien, que vive há 18 anos no Brasil, tem sido figura constante em frente ao Palácio da Alvorada. Desde que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) passou a adotar o hábito de parar para cumprimentar apoiadores que o esperam em frente à residência oficial, o religioso marca presença no local.

As visitas do padre ao Alvorada se resumem a dois objetivos: o primeiro, pedir regras cada vez mais duras contra o aborto legal, incluindo a proibição de casos já previstos em lei, como anencefalia, estupro e risco de morte da mãe. O outro é apelar para que Bolsonaro ajude a derrubar a lei da alienação parental.

Militante pró-vida, como se definem os antiabortistas, Stepien costuma levar cartazes e faixas até a porta da casa do presidente. Contudo, o endurecimento das medidas de segurança tem impedido o ingresso de objetos na área quando Bolsonaro se faz presente.

Bandeiras, faixas e até mesmo chaves de carro ficam retidas em armários, antes do detector de metais que dá acesso ao cercadinho onde ficam os admiradores do chefe do Executivo.

“Eu decidi formar um grupo de oração para rezar pelo presidente e pelos três poderes, para que Deus possa nos livrar da corrupção e do materialismo. Ele sofre muito, e é uma pessoa que quer fazer o bem. Vejo o pessoal fechado em casa [por conta do isolamento] e sei que parte da mídia usa essa pandemia para os próprios interesses”, disse o sacerdote, sobre o apoio a Bolsonaro.

Assim como Bolsonaro, o padre Pedro defende que apenas idosos sejam mantidos em casa, no chamado isolamento social contra o coronavírus. No Facebook, o sacerdote chegou a compartilhar uma imagem com a bandeira do Brasil pedindo o retorno ao trabalho de jovens e adultos.

O padre costuma fazer orações e entoar canções religiosas diante de Bolsonaro. Ele já apareceu dezenas de vezes em transmissões ao vivo feitas pelo próprio presidente nas redes sociais. Stepien estava ao lado do número 1 da Esplanada na Sexta-Feira Santa, dia em que o chefe do Executivo insinuou, a um grupo de religiosos, que demitiria o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

O pároco nega agir com intenções políticas e diz jamais ter a intenção de concorrer a algum cargo. “Sou totalmente contra padre fazer parte de partido político. Missão de padre é formar consciência nos políticos”, prega.

 

Cruzada contra o aborto

Pedro também é crítico do Supremo Tribunal Federal (STF), instituição que, segundo ele, não deveria legislar. Ele chegou a ir até à suprema corte, com faixas e a icônica bandeira que sempre carrega, a qual retrata a flâmula nacional com um bebê ao centro e os dizeres “Brasil Sem Aborto”.

“Ciência e bíblia são como duas asas do mesmo avião. Não preciso ser cientista para saber que a vida humana começa na fecundação. No Brasil, se você quebra um ovo de tartaruga, você vai preso, mas não se vai para a cadeia caso mate um óvulo fecundado”, critica o padre.

“Ministros do STF, se vocês querem legislar, renunciem e concorram as eleições de 2018. Condene os corruptos e não os bebês”, são as frases escritas nas duas faixas levadas pelo religioso ao STF.

A manifestação é uma crítica ao julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 5581, movida pela Associação Nacional dos Defensores Públicos (Anadep), que pretende incluir nos casos de abortos legais as gestações comprovadas de fetos com microcefalia, cuja mãe tenha tido complicações devido a doenças transmitidas pelo mosquito aedes aegypti.

 

Lei de alienação parental

O padre também já fez manifestações públicas contra a lei da alienação parental. A legislação que envolve a interferência na formação psicológica da criança não é consenso nem mesmo dentro do meio da psicologia. O assunto constantemente é tema de discussões no Conselho Federal de Psicologia (CFP).

Para o clérigo, a lei está relacionada a casos de abuso sexual de crianças e adolescentes, na medida em que mães não poderiam privar pais que supostamente cometeram abusos da convivência com os filhos sem uma decisão judicial.

Em audiência na Câmara dos Deputados em abril de 2019, a representante da ONG Vozes de Anjos, Juliana Ahn, fez coro às colocações do padre. Segundo ela, famílias estão sofrendo as consequências da lei de Alienação Parental, que durante a audiência foi relacionada ao abuso sexual de menores.

 

Ameaça de miliciano

O pároco polonês diz já ter sido ameaçado por milicianos, após acolher famílias expulsas por milícias cariocas de casas do programa Minha Casa Minha Vida, na capital fluminense. O episódio ocorreu em 2016, e o caso chegou a ser denunciado na web por Stepien, o que rendeu um boletim de ocorrência contra os criminosos. À época, as vítimas receberam abrigo nas casas de “famílias cristãs do Distrito Federal”.

“Os milicianos nos enviam de vez em quando as fotos das famílias que foram expulsas falando ‘se amanhã você não for para o Rio, nós matamos membro da sua família’, disse no vídeo divulgado à época.

Os criminosos passaram a perseguir o sacerdote após uma audiência pública, em 2015, na Câmara dos Deputados. Na ocasião, o padre denunciou a atuação da milícia “Liga da Justiça” por expulsar moradores do condomínio popular. “Não recebi segurança do governo e de nenhum político, mas ganhei o apoio do povo brasileiro”, conta Stepien, também nas redes sociais. Fonte: https://www.metropoles.com