Ordem Terceira do Carmo de Angra dos Reis/RJ.

Sábado de Formação. 3 de junho-2017.

Tema: Humanizar no Carmelo.

Com Frei Petrônio de Miranda, O. Carm. Delegado Provincial.

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A Ordem Terceira do Carmo de Angra dos Reis e toda ação Pastoral–Missionária Paroquial; Associações, Pastorais, Irmandades e Movimentos, tem como objetivo central não apenas seguir uma tradição, uma devoção, um rito ou uma doutrina. Não, não! O eixo central é a humanização da pessoa enquanto ser humano por que quem “conhece a doutrina cristã conhece a ternura de Deus” (Papa Francisco) Digo, Conhecer e seguir a doutrina da Igreja não é ser rabugento e inquisidor apontando o dedo para os “pecadores”, mas é reconhece-se pequeno e limitado diante de um Deus. Em outras palavras, “Quem não conhece as carícias do Senhor não conhece a doutrina cristã”. (Papa Francisco).

No final do século XII e início do século XIII, um grupo de eremitas se estabeleceram no Monte Carmelo, local da batalha do Profeta Elias- O Pai do Profetismo- contra os seguidores de baal, o Deus falso. (1º Reis 18, 20-40). A inspiração da Ordem do Carmo tem nesse Profeta não apenas o homem da espada de fogo e da luta contra os seguidores de baal, mas também no compassivo homem de Deus cheio de misericórdia e humanidade que ressuscita o filho da viúva de Sarepta e, ouvindo o clamor da pobre mulher, não deixa faltar o pão de cada dia. (1º Reis 17, 1724). Em outras palavras, a Espiritualidade Carmelitana nos ensina a seguir a boa nova com gestos concretos e humanitários diante de uma cidade de Angra profundamente marcada pela tradição, religiosidade e fé mas, ao mesmo tempo, carente de perdão, amor e carinho. Carinho este que se traduz não apenas na devoção à Imaculada, a São Benedito, ao Divino Espírito Santo ou a Nossa Senhora do  Carmo,  mas em atenção aos idosos, aos jovens viciados no mundo das drogas e da prostituição, ao grito dos desempregados e principalmente no olhar triste daqueles e daquelas que mesmo fazendo parte da Ordem Terceira do Carmo ou das diversas pastorais paroquias dessa cidade vivem no mundo da depressão e da incompreensão sedentos da carícia e do amor que não tem limites, cor, sexo, classe social, cor partidária ou religião.    

Jesus confirmou literalmente esta carícia de Deus quando perdoou os seus assassinos: "Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que estão fazendo!" (Lc 23,34) Na parábola do Filho Pródigo transparece a mesmo inacreditável carícia. O filho mais novo pediu a herança e saiu de casa (Lc 15,12). Herança só se recebe na morte do pai. É como se o filho estivesse desejando a morte do pai. E o pai, apesar de o filho desejar a sua morte, não rompe com o filho, nem o priva da herança, mas fica esperando pela sua volta. O filho pródigo somos todos nós.

Já o apóstolo Paulo transmite esta mesma carícia do amor eterno de Deus quando diz: "Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes nem as forças das alturas ou das profundidades, nem qualquer outra criatura, nada nos poderá separar do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor" (Rm 8,38-39).

Se fizermos um rápido olhar sobre os quatro evangelhos, veremos que os mesmos deixam transparecer de muitas maneiras como Jesus irradiava esta carícia do amor eterno de Deus nas suas atitudes e gestos de serviço, solidariedade, compaixão e humanidade para com as pessoas. Vejamos;

A moça do perfume (Lc 7,36-50); A viúva de Naim (Lc 7,11-17), as crianças (Mc 10,13-16), O cego de Jericó (Mc 10,46-52); Os doentes (Mt 4,23-25); O povo faminto (Mc 8,1-9), Os leprosos (Mc 1,40-45; Lc 17,12-19; 7,22); O paralítico de trinta e oito anos (Jo 5,1-9), A mulher adúltera (Jo 8,1-11); A menina de doze anos (Mc 5,35-43); A mulher de hemorragia irregular (Mc 5,25-34); A mulher curvada durante dezoito anos (Lc 13,10-17); O pai do menino epilético (Lc 9,37-43); A Samaritana (Jo 4,7-26), a Cananéia (Mt 15,21-28); Zaqueu (Lc 19,1-10), o oficial romano (Mt 8,5-13); A sogra de Pedro (Mc 1,29-31), e tantas e tantos outros.

Por mais que quisessem, não conseguiram dobrar Jesus por dentro. A desumanidade não conseguiu apagar nele a humanidade. Eles o prenderam, xingaram, cuspiram no rosto, deram soco na cara, fizeram dele um rei palhaço com coroa de espinhos na cabeça e um cetro real de capim na mão, flagelaram, torturaram, tiraram o sangue dele. Teve de andar pelas ruas da cidade como um criminoso, e de ouvir os insultos das autoridades religiosas. Aqui no calvário deixaram Jesus totalmente nu à vista de todos e de todas, e um deles começou a enfiar um prego na mão dele. Mas o veneno desta desumanidade não conseguiu alcançar a raiz da humanidade que brotava de dentro de Jesus. A fonte de humanidade que jorrava de dentro dele era mais forte que o veneno que vinha de fora. O veneno da calúnia e da tortura não chegou a matar em Jesus a dignidade humana. Pelo contrário! Olhando aquele soldado ignorante e bruto, Jesus teve dó dele e rezou por ele e por todos: “Pai perdoa!” E ainda arrumou uma desculpa: “Eles não sabem o que estão fazendo!” Jesus se fez solidário com aqueles que o torturavam e maltratavam.

Segundo o Papa Francisco na Exortação Apostólica, "Evangelii Gaudium"; “Se consigo ajudar uma só pessoa a viver melhor, isso já justifica a entrega da minha vida”. Por vez,   o Apóstolo Paulo na carta aos Romanos afirma:  “Nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes nem as forças das alturas ou das profundidades, nem qualquer outra criatura, nada nos poderá separar do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor" (Rom 8,38-39). Ele diz, “Nada nos poderá separar do amor de Deus”. Repito, do amor. Quando falamos em amor não estamos falando em meras tradições, devoções ou doutrinas, mas relações humanitárias que constroem laços de amizade e humanidade.  

A subida do Monte Carmelo, digo, a vivência da Espiritualidade Carmelitana por parte de um irmão terceiro carmelita (a), em primeiro lugar, implica em seguir a Cristo com todo o seu ser e servi- Lo “fielmente com coração puro e total dedicação”. O espírito de Cristo misericordioso, manso e humilde de coração deve “contaminar” todo o seu ser a ponto de poder repetir com o Apóstolo São Paulo, “não sou mais eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20), de forma que todo o agir ocorra “sob sua palavra”. Como dizia o Beato Carmelita, Frei Tito Brandsma, “Assim como Maria, devemos nos engravidar de Jesus”. Ou seja, quem tem e vive Jesus, transborda mansidão, alegria, perdão e humanidade.

Para Santa Teresa de Jesus, doutra da Igreja e reformadora do Carmelo, “A Oração não é nada mais do que um íntimo relacionamento de amizade a sós com aquele de quem sabemos ser amados”. Ela ainda afirma que “para aproveitar muito neste caminho de oração o essencial não e pensar muito – é amar muito. Escolhei de preferência o que mais vos conduza ao amor”, diz a santa. 

UMA DECLARAÇÃO DE HUMANIZAÇÃO A PARTIR DO PROFETA JEREMIAS

A missão da flor é ser flor. A missão do passarinho é ser passarinho. A missão do ser humano é ser aquilo que a gente é: humano! Tudo foi criado pela Palavra. Deus falou, e as coisas começaram a existir. Gritou LUZ e a luz começou a existir. A MISSÃO fundamental primeira básica que podemos cobrar de todos e que todos podem cobrar de nós é ser humano, humanizar.

Depois de tudo que fez, você já não mereceria ser amado. Mas meu amor por você não depende do que você fez por mim ou contra mim. Quando comecei a amar você, eu o fiz com um amor eterno. Por isso, apesar de tudo que você me fez, apesar de todos os seus defeitos, eu gosto de você, eu amo você para sempre! Pode confiar! “Eu amei você com amor eterno; por isso conservei o meu amor por você” (Jr 31,3).

Enfim, como irmãos e irmãs da Ordem Terceira do Carmo, possamos dizer as mesmas palavras de Santa Teresinha do Menino Jesus, Carmelita, Padroeira das Missões e Doutora da Igreja; “No Coração da Igreja Minha Mãe, eu serei o Amor”. Que Deus nos ouça!