Reflexão do Frei Petrônio de Miranda, O. Carm., Padre Carmelita e Jornalista, sobre o 6º- Domingo da Páscoa, Dia das Mães. (J0 14, 15-21). Convento do Carmo de Mogi das Cruzes, São Paulo. 10 de maio-2026

 

Diz o povo que Deus chora quando os filhos resolvem abandonar a mãe em um asilo com a desculpa que não tem tempo, esquecendo dos 9 meses gerados no ventre sagrado daquela pobre mãe que, na velhice, se vê sozinha, triste e largada na sarjeta da vida.

 Diz o povo que Deus chora quando um jovem resolve seguir o caminho das drogas, do roubo e da prostituição, afinal o seu amor é tão grande que o caminho fica livre para  as escolhas entre o bem o mal. Ele sofre e chora e suas lagrimas lavam o destino nem sempre feliz de uma juventude sem eira nem beira.

Diz o povo que Deus chora quando vê aquele homem agredindo a sua esposa e, sem forças, aquela pobre mãe sente o peso da violência e do feminicídio adentrando no seu corpo e no seu lar. Deus sofre e chora porque o seu amor se fez morada na Sagrada Família de Nazaré baseada no diálogo, no perdão e na alegria, e não na violência e na morte.

Diz o povo que Deus chora quando se depara com um político corrupto, sanguinário e assassino dos pobres, porque os seus caminhos são justiça e equidade, mas o seu amor é tão infinito que joga o ser humano no mundo livre para as escolhas que levam a vida ou morte, a ética ou o roubo.

Diz o povo que Deus chora quando percebe que o seu nome é usado para o fanatismo político e religioso, porém o seu amor- que ultrapassa crenças- permite os homens e as mulheres optarem pelo Caminho, a Verdade e a Vida ou a destruição e o abuso da fé em nome de uma religião conservadora, ultrapassada e homofóbica.

Diz o povo que Deus chora quando se depara com cristãos falando mais em Pecado que na Graça, falando mais em diabo que em Jesus Cristo, falando mais em inferno que no céu- e nessa confusão religiosa- Deus chora com os devaneios e as loucuras “sagradas” porque o seu olhar amoroso não é de condenar, amedrontar ou aterrorizar, mas salvar, acolher e perdoar. 

Deus chora quando encontra uma família em situação de vulnerabilidade social que, ao relento, passa fome e freio. Neste contexto Deus chora porque o seu amor pela vida não é consumismo, acúmulo, produtividade ou lucratividade, mas partilha, compaixão e sensibilidade.  

Deus chora quando encontra um adolescente homossexual deprimido, crucificado na cruz da discriminação e jogado na sarjeta em nome dos bons costumes, da tradição ou da família, por que o seu coração- que é o amor infinito- não tem chaves e as portas estão escancaradas para acolher a todos.

Deus chora e foge do nosso lado quando resolvemos não mais rezar, viver os sacramentos da Igreja ou participar do Santo Sacrifício da Missa. Fugimos da Igreja e da vida espiritual, mas Ele nos ama tanto que foge junto, não para nos arrastar de volta, mas para está do nosso lado seja lá qual for o caminho que vamos escolhemos, simplesmente porque Ele nos ama e- sob hipótese alguma- vai nos deixar perambulando sozinhos. Não, não! Ele vai estar do nosso lado!

Sim, Deus chora, corre conosco e foge conosco porque “nós somos eternos mendigos de amor” (Papa Francisco) e, optando ou não pela sua Boa Nova, “Seremos julgados pelo amor (São João da Cruz), afinal, “A nossa alma só descansa em Deus” (Sl 62, 2-3).